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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

"CREDO"


5. SONETO PARA TODAS AS IDADES

Adiante falarei mais da minha fé, e mais dela no concerto das pessoas e das sociedades. A fé, como a razão, são apanágio dos seres humanos que somos. E este ser humano é necessariamente um ser em relação, função de uma cultura. E deverá ser, dentro e fora dela, participante num diálogo. Sinto-me, muitas vezes, mais próximo dos outros do que dos "meus". Quiçá porque não tenho clube nem classe, e sou simplesmente um marginal, irritam-me as pretensões dos que sabem tudo e nada querem interrogar, tanto ou mais do que as dos que pouco sabendo tudo entendem igualmente. A Summa Theologiae de frei Tomás de Aquino estará hoje, em vários pontos, antiquada, até no método da sua construção. Mas continua a ser uma escola primária do pensamento. Sobretudo quando sentimos que o pensamento deve ser humilde, interrogador. Ser insistente na interrogação é ser infinitamente humilde... Humilde ao ponto de, concluindo uma obra gigantesca, em que nada é afirmado sem antes ser analisado, confrontado e debatido, o seu autor dizer que é palha tudo o que escreveu. A 6ª memória deste meu «No Princípio era o Verbo» será a de um passeio pelos povos das religiões monoteístas, suas vocações universais e tentações nacionalistas e sectárias. Mas esta manhã, acordei a pensarsentir as fúrias que me assaltam quando vejo que, na minha própria igreja, que sempre amei e desejei universal e acolhedora, tantas vezes se levantam dogmas e normas como muralhas ou armas de arremesso para a exclusão de outros... Não é fácil ser fiel e aberto ao abraço, e ser católico passa também por ser-se quem se refugia para abrir mais... Rezei assim:


Vim, meu Senhor, buscar o teu resguardo,

recolher-me ao silêncio de que és feito,

calado apagar as fúrias em que ardo,

e adormecer no escuro do teu peito...

 

Violentos são os lumes que ardem fora

da pura luz que a tua paz acende

no cantinho de mim onde já mora

a mansidão que dás e que me prende...

 

Em tua prisão fico e me aconchego :

menino já tão lindo de sossego,

descanso no calor da tua mão...

 

Esqueço males e raivas que ferveram

dentro de mim, mas por meu bem fizeram

que em Ti por fim pousasse o coração...

 

Camilo Martins de Oliveira