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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

E escreveste-me:


Agora as mãos tremem-me em qualquer momento do dia ou da noite. E sabes a razão Isadora? É que as palavras que conhecem a verdade pendem-me da boca e preciso de uma cadeirinha para as descansar e de um pouco de sol que saiba a sol no coração. Ajuda-me. Tenho as dores da alma tatuadas no meu corpo inteiro. Naquele corpo despido que ele tanto amou e banhou em cascatas solares e que agora só lhe convoca a desatenção.

 

Estou só, no entanto, essa circunstância não me dói. Acima de tudo o que me é feroz é a completamente desentendida em mim, realidade; é a capacidade dele para ter a certeza absoluta que me magoa. Essa obstinação errática que alguém fez entrar nele e ele aceitou, e o faz mentiroso como um rato; ingrato como um animal a quem dei mel e me devolve, à minha fome, grãos de pedra.

 

Sabes amiga, é estranho, mas não me sinto destronada sequer como muito se lê nos livros. Bailo num punhal e estou consciente disso, enquanto vejo num espelhinho de jade, os meus seios rosa a friccionarem-se num vestido sem espinhos e nada mais. Soltos.

 

Isa, se o meu sofrer e nele se as minhas palavras te ensinarem nesta carta o quanto deves - se por inferno similar situação viveres – semear-te entre os fuzilados e ganhar tempo para arder e chegar a ti a decisão de não morrer em lábios alguns, antes recordares não incauta o que quererás esquecer, depois lavares no tempo certo a sábia ferida, então toma, toma que por minhas mãos te dou o meu colar de lágrimas inteiro, tratado interpretativo dos dias da agonia, razão da minha maior tristeza ainda hoje, se a penso, e abre a porta e que ele saia de ti. Que vá.

 

Aprenderás que os dias ficam exaustos de não terminarem de se contarem a si mesmos quando o jogo mudou de camisa como uma cobra e tu, ainda limpa, lá no centro. Verás Isadora, que de novo um semearás e um cento colherás, enquanto te aguardas do outro lado da vida. Refiro-me ao lado indizível, também aquele que nunca se escreve ou descreve, aquele que passará enfim, a ser a tua gruta, lugar onde e aonde soletras as letras de teu destino e que tem uma agua vinda da fonte da humidade que também é só tua, tal como o teu olhar tão diferente, agora que acima de tudo te tens a ti completamente.

 

O resto é gente que não cintila e se acaso pirilampo algum dia, foi a tua sombra generosa e que o saibas. Lança-te amiga e não consintas. Guarda que nesta carta dei a volta ao movimento e a minha pulsação é!

 

Irei amá-lo de olhos de mágoa acumulada? Irei amá-lo num angulo de porta proibida? Não sei. O vento levantou-se e perguntou por nós.

 

Sabes? Existem caules invisíveis de uma única brancura que só o bosque da tua alma entende.

 

Como compreender que certas pessoas que, por essência, nos são alheias, venham prender-se à nossa vida? De imediato entendemos quem são, contudo escapa-nos o paradoxo do devir, o próprio duvidar. Quem és? E a mim como chegaste? O que sabes da morte das árvores? Por acaso tens nome ou és amor?

 

Eu? Arquitetura.

 

Dulce 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017