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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

Blogue CNC - crónica da cultura.jpg

 

De filho a acessório de moda nos casamentos de hoje: consequências para o cão

 

Uns amigos nossos, no meio de uma conversa sobre muitos jovens casais que não têm filhos estando já numa idade mais avançada do que o “normal”, referem-nos, a propósito, o quanto os estudos estão avançados na análise do comportamento que leva estes casais a adquirirem um cão mal iniciam a sua vida conjunta, ou este não fosse meio de trazer responsabilidade e laços que se podem assemelhar aos de um filho – mesmo que queiram fazer crer que é apenas uma companhia - e logo se cria um pré núcleo de família nos encargos, responsabilidade e amor e, sobretudo ajuda a criar no parceiro/a ideia de que são três a conviver, e não dois, terrífica ideia para quando houver necessidade de substituir conversa ausente pela da preocupação com o cão, evitando-se sempre a coragem de viver a conjugalidade. Terrível jogo, o de transpor ao parceiro ou parceira que agora estão obrigados a cumprir por actos, pensamentos, palavras e obras que assim é a realidade composta, e que suportarão as vicissitudes de um grave divórcio se assim o não entenderam. Leva tempo, mas dizia a nossa amiga que, ficar só, é uma coisa, mas ser-se deixado só com um animal, é crime de lesa-majestade. Investiu-se imenso no determinar quem era a vítima e finalmente descobre-se que é a que fica com o cão, mesmo que lhe acresça a devida pensão de alimentos graças ao desejado encargo.

 

Acresce, diziam-nos, que se provou há muito, que estes casamentos, estão assentes numa espécie de amizade, avassaladoramente jurada acima de qualquer espécie de amor, muito transmitida por tatuagem, ou o amor não se pudesse partir e, se acaso a relação matrimonial terminar, aquele que sempre apelou por bem, à amizade, fica com o justo direito a intrometer-se permanentemente na vida do outro, que, sai da relação atraiçoado se quiser viver a vida em liberdade. Deus! aqui, a vingança de quem é deixado – parece que se diz assim - serve-se gelada pela manipulação eternamente encapotada da vida do outro, que, não compreendera, afinal, o quanto o cão que tinham adquirido era de raça “de bolsa” de grife, e estes mordem sempre a quem preza verdadeiros sentires, tais como as pessoas que não querem ninguém igual a quem tiveram, ou procuram, enfim, alguém que seja alguém. Alguém que saiba viver consigo próprio antes de ser pendura na vida dos outros; alguém que não esteja mal incubado e que só sobreviva com os tais milhares de companhias “amigas”. Os tais que não leram o suficiente para saberem que as amizades se não contam às dúzias.

 

E diziam-nos os nossos amigos:

Agora imaginem se em vez do cão, nesta cena toda, fosse um filho real? Pois é, aqui tem de se ensinar os filhos a mostrarem dentes raivosos, aquando de uma separação, face ao que tomou essa decisão e de preferência muito face àquele ou àquela com quem poderá ser feliz, receita certa para que o vinagre dos cérebros se transformem em pickles e se dirija a quem sabe que a solidão é um amor vivido em companhia de outro amor maior, viva o tempo que viver, mas plenamente e são e belo.

 

E quais as consequências para o cão dos ensinamentos recebidos em todo o tempo de matrimónio ou depois da separação? Perguntámos:

 

Pois bem, o cão ou entrou em pasmo depressivo durante o matrimónio da amizade e faz psicanálise dentro da própria mala L.V, ou aprendeu uma sísmica despedida para agradar a quem com ele/a fica, e, de tempos a tempos, faz crise de epilepsia, durante a qual telefona ao ex dono/a que o/a abandonou, enviando-lhe força, pois que logo que possa se pirará e até lá ele/a aguenta confortável e envia saudades.

 

De facto, não há como ter cão, diríamos! Cão de co-matrimónio, cão acessório de moda. Cão espertalhoco. Cão, que cão saiba ser, e que tal como as pessoas sempre felizes do olá tudo bem? Maravilhosos! não sofra ele/a quase nada.

 

E se non è justo, é bene trovato, esta manha antiga das gentes que vivem a vida assistindo ao próprio funeral, nunca descuidando de tentar matar o tal amor que, se o sentissem, as engravidaria de possibilidades.

 

Teresa Bracinha Vieira