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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

 

José: o seu imenso o seu silêncio

 

Imenso também foi o tempo da violentação como o viveu. E só agora me atrevo a escrever sobre José, cinquenta anos depois da sua morte. E ainda não sei se o mereci entender.

 

Conheci o José tinha eu 4 anos e no seu colo senti o colo para onde se quer fugir sempre, num dorme infância minha, minha total confiança doirada! Nos seus olhos uma pergunta tão nítida tal como a sinto hoje: a pergunta que o amor faz ao amor

 

Tu amas-me? Tu nunca me deixarás? Sentirás saudade quando eu partir? Como irás compreender o bosque escondido onde vivo?

 

O José era homossexual ouviste? Nunca te disseram pois não? Pois é. Era sim, e nós ainda pagámos o colchão para lhe atenuar as dores das feridas que nos foi pedido lá do lar dos pobres onde estava. Sim que ele foi lá parar, gastou tudo, e a família não quis saber. Não tinha visitas de ninguém, tinha feridas. Tinha sofrimento e como dizes, sofria seguramente da doença do esquecimento profundo, enfim, depois de tudo ser culpa dele. E gostava muito de ti. Isso era certo.

 

Disse-me a Laura de jeito agressivo, quando eu já tinha 35 anos e lhe falei nele.

 

Mas o José era presidente de… Mas o José era muito culto e conhecia música clássica como ninguém. O José foi combatente na grande guerra e com muita honra arriscou a vida. O José era um homem lindo, cheio de classe, e era de uma ternura envergonhada e sempre imobilizada contra o chão, e eu não percebia o porquê. E se era homossexual, o colchão que lhe pagaram no seu leito de morte, fez de vós melhores pessoas no entendimento áspero da vida dele?

 

Pois digo-vos

 

A casa de seus pais era um sonho de filme e era o dia do seu regresso da guerra. A mãe – de quem herdara a beleza – acabara de sair da cama e penteava os seus longos cabelos quando ouviu as filhas a gritarem, é o José, é o José, chegou da guerra! E por muito improvável que fosse o conteúdo das palavras, a mãe do José desceu a longa escadaria a correr, segurando para não cair, na sua comprida camisa de noite branca, os cabelos até às ancas, esvoaçantes por entre as rendas do penteador, e, de repente, o seu filho fardado, ali mesmo a um ou dois metros e ela caída aos seus pés num choro convulsivo exterior aos limites do seu ser. Senhora do céu em vénia longa e sagrada, e José ajoelhou-se tentando levantá-la

Mãe!

 

Um dia fui ver o quarto onde vivia. Teria eu talvez 11 anos. Vi uns móveis antigos muito requintados, a sua espada e o seu relógio que me olha agora de frente para o meu eu e mundo e futuro e passado tudo nos domínios vedados da vida e da morte.

 

Uma mulher horrível mostrava o quarto vigiando para que nada dele saísse. Era tudo seu, dizia

 

Sabe? Rendas atrasadas devido ao vício luxuoso e repelente que o atormentava, mas ao qual não dizia não. De resto até poucos lhe arrendariam quarto. Eu foi por pena, e por ele ter sido quem foi.

 

Mas vim com um relógio, este que tenho à minha frente, de madeira (um AEG) de horas estranhas a espreitarem numa janela pequenina, enquanto os minutos são a grande varanda do tempo que marca, e também veio comigo um quadro de Acácio Lino, “As amendoeiras em flor” que já não possuo a não ser no fundo dos meus olhos.

 

Tudo do José é do fundo de mim que o procuro, que o velo pois velar sobre ele é ele poder vir ao sonho que estou a sonhar. Escuto cínicos risos ocultos, é certo, mas escuto Puccini. Soube dos gumes no seu peito no dia da agonia amordaçada ainda que nunca de mim esquecida aquando da notícia, mesmo que na altura ela fosse apenas um embaciamento triste e vago.

 

José!

 

Podemos ter a audácia de nada esquecer, nem mesmo esquecer as juras sem motivo. Tudo nos está prometido quando chegamos à vida até a não liberdade da origem. É tão importante saber que agora não tens frio: abraço-te com algodão e estou contigo no meio dos sorrisos dos simples gestos que tivemos, hoje cúmplices e frescos de esperança sobretudo porque em ti

tu que nunca morrerás.

 

Teresa Bracinha Vieira