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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

É O AMOR UMA CANÇÃO DE EMBALAR…

 

 

Minha Princesa de mim:

 

      Não será o amor eleito

      ligeiro no coração,

      e não há amor perfeito

      quando diz sim e ora não...

 

      Verdade vive no peito

      sem mentira ou condição

      amor é jeito sem jeito,

      inteirinho nesta mão...

 

      Nasce igual ao que morrer,

      morre igual ao renascer,

      é fé teimosa e esp´rança

 

      e é sua força a fraqueza

      da graça tão indefesa

      de um sorriso de criança...

Se é o amor assim tão simples, como poderá, já tarde, parecer-nos  tão difícil? O amor é tão natural em nós que, quando nasce, mesmo surpreendente não nos surpreende, e quanto mais apaixonado tanto mais ingénuo... É genuinamente feliz, alegra-se e sorri como menino no berço, quando gosta do som de uma voz sem saber porquê nem de quem. Mas logo se apaixona pela voz de sua mãe, porque a sente presente, muitas vezes repetida e sempre de coração novo. E a mãe que, na sofrida dor do parto o libertou para uma nova vida  --  que será cada vez menos dela  --  deixa-se agasalhar pelos mimos dessa criança, como aquele mendigo que, diz-nos frei Luís de Sousa, visitou frei Bartolomeu dos Mártires, ainda pequenino, ao colo de sua mãe: Encarou no pobre todo risonho, todo alegre, debatendo-se pera ele, e festejando-o com as mãozinhas, boca e olhos, como se fora um dos mais conhecidos de casa; e enquanto o pobre não se despediu, não desviou os olhos dele, nem deixou de o estar agasalhando com aquelas inocentes mostras... Será que a naturalidade do amor em nós se perde  --  ou se torna difícil amar  --  quando se perde a inocência, como Adão e Eva descobrindo-se nus quando expulsos do paraíso? Será que a pulsão de Eros elimina Psyche? Conta-nos o mito greco-romano que, ciumenta da beleza inigualável da princesa (outra Princesa!) Psyche, Afrodite (Vénus) envia seu filho Eros (Cupido) para a induzir a amar e entregar-se a um homem reles. Mas, desta feita, Cupido não atira setas de amor fatal, é ele mesmo quem se apaixona e convence a princesa a deixar-se visitar por ele todas as noites, impondo todavia a condição de esta nunca lhe ver o rosto. Assim será, até quando as diabólicas irmãs de Psyche a convencem a, armada de punhal,surpreender Cupido que dorme, iluminando-lhe o rosto com uma lamparina. Mas desta cai, sobre o ombro de Eros adormecido, uma gota de azeite, que o desperta. Foge então a filha de rei, persegue-a o filho de deuses (Hermes=Mercúrio e Afrodite=Vénus), mas só ao cabo de muitos trabalhos e peripécias, depois de vencidas por Psyche as provas que a deusa do amor lhe impunha, os dois amantes se reúnem sob a protecção de Zeus=Júpiter, que os casa. Vejo a cena da surpresa de Psyche a Eros=Cupido, como, cerca de 1812, Andrea Appiani pintou para a Villa Reale, em Monza. E logo me ocorrem representações da morte de Marat, apunhalado,em 1793, na banheira onde escrevia, por Charlotte de Corday d´Armont, que desde David a Münch, tantos artistas pintaram e eu tão bem reconheço no Le Meurtre, desenho a lápis de Picasso (1934), com esta pergunta: poderá ser assassino o amor? Ou já não será amor o que destrói ou quer desfazer, porque quer possuir e a posse possível não satisfaz, ou vingar-se de um abandono, ou simplesmente largar e esquecer? Pensossinto: há sempre violência quando o amor é "política"... Mas amar não será, antes e depois de tudo, pelo esforço quiçá difícil de uma confiança que se entrega, a procura de um regresso à inocência perdida? Escuto, na voz tão linda de Montserrat Figueras essa canção de embalar de um anónimo português, recolhida na aldeia beirã de Monsanto:

      José! embala o Menino

      que a Senhora logo vem...

      ó,ó,ó,ó...

      foi lavar os cueirinhos

      à fontinha de Belém...

      ó,ó,ó,ó...

 

     Quem tem o nome de mãe

      nunca passa sem cantar

      ó,ó,ó,ó...

      quantas vezes ela canta

      com vontade de chorar!

      ó,ó,ó,ó...

 

      Vai-te embora passarinho,

      deixa a baga do loureiro...

      ó,ó,ó,ó...

      deixa dormir o Menino

      que está no sono primeiro!

E não resisto a transcrever-te trechos de um comentário da grande soprano catalã, mulher e mãe, sobre o seu disco de canções de embalar: Já desde tempos imemoriais, a canção de embalar existe como uma das formas musicais de maior importância, presente, sem excepções, em todas as comunidades humanas...   ... A mãe ajuda a criança, para quem, a partir da sua vinda para o mundo exterior, tudo é novo e pode meter medo. A criança reconhece na canção a voz da mãe, a sua presença, o seu gesto...e na intimidade do momento cria-se um espaço de profundos símbolos ancestrais, onde a música e a palavra são vínculo de pura emoção e autenticidade. Desta forma se estabelece o primeiro diálogo, o primeiro conto, o ensino primário de tradições, vivências e culturas que se converterão, com o tempo, em parte essencial de uma memória colectiva...   ... Mas acima de tudo, há na mãe, no pai, nos irmãos mais velhos ou na avó que cantam, o desejo de dar o melhor de si mesmo, que não é mais do que um acto de amor e, deste modo, a criança começa a viver a essência da vida... Creio que, se o erotismo é, como diz Georges Bataille, a afirmação da vida até na morte, a canção de embalar é uma canção de despedida de si para dar vida e viver no outro. Sobrevivemos amando, isto é, desistindo de nós e transmitindo-nos. Como até já és mais do que crescidita, deixo-te uma canção, não para te embalar, mas para te fazer rir a sesta:

      Saiu a saudade à rua

      e eu deixei-a passear...

      Pois se essa saudade é tua,

      Como a posso cativar?

 

      O querer bem não se prende,

      nem possuir é amar.

      O amor não se arrepende

      de livremente se dar...

 

      Nem qualquer graça teria

      uma amizade qualquer,

      um amor a uma mulher

 

      sem a simples alegria

      de se soltar na confiança

      com que sente uma criança.

Dou-te uma mão a dizer que ninguém vive só para si.

 

          Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira