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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Eduardo Lourenço

 

Um enraizamento da alma antiga numa temporalidade tão concreta como um rio.

 

As ideias, sim, as ideias são formas acima de tudo que excluem o tempo. E na melancolia, como dizia Shakespeare, encontramos a tomada de consciência de um tempo «saído dos eixos». E direi que os poetas foram os primeiros que se deram conta da melancolia, pois como dizia Eduardo Lourenço, tinham perdido a hora do homem no relógio de Deus.

Assim, e por assim ser, também um poema de Álvaro de Campos pode sentir-se em registos diferentes:

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

(…)

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se os dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

E num dos belos poemas de V. de Milosz

Ce sera tout à fait comme dans cette vie! Le même jardin.

Profond, profond, obscur. Et vers midi (…) réunis là et qui ne savent les uns des autres que ceci: qu’il faudra s’habiller…

Diríamos que afinal a melancolia é demasiado heterogénea para fazer nascer de imediato a consciência de que temos de nos saber livrar de uma grande parte de nós mesmos.

O empenhado despojamento de um Outono é essencial, de tal modo que, a condição humana, nos olhe finalmente, e nos faça saber pelo olhar, que, o espelho do tempo, é seguro pelas nossa mãos, defuntas de esperanças, de amores, de anseios, de memórias mais vivas que a vida presente, de horas que fogem da fonte originária.

E ainda assim a melancolia não é na essência a expressão de uma derrota.

É verdade que tudo está ligado, que é preciso assumir a consciencialização dessa transversalidade, mas o nosso sistema decimal impede-nos de pensar em zeros, apesar de estarmos sempre no grau zero de qualquer coisa; apesar de podermos, a partir daí, encontrar  um enriquecimento, descendo às caves pitagóricas dos saberes secretos. Depois, com poucas forças, mimar a melancolia, a tal, tão concreta como um rio que desce às raízes da alma e como a existência de uma ilusão é uma realidade:

«Dimitri era aquele rapazinho com quem o jovem Tolstoi trocava radiosas confidências ; porque uma ilusão age sobre todo o universo que a cerca.»

Porque nadar entre os patos no tanque do quintal é também uma forma circular válida às regras da procura.

E um dia, será em parte melancolia, o dia, que nos leva conforme a natureza do por onde ando?

O dia em que sorrir não é coragem nem exílio, mas antes aproximação ao que enfim nos foi prometido. Um acreditar que a caça não morre no ninho.

Hoje, a carta que te escrevo, Eduardo, é esta. Uma maneira de agarrar o tempo com tudo lá dentro para no-lo restituir.

Uma carta que se permite uma desprofissionalização das palavras e que por ave te envio.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Junho 2014