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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Eis um regresso. Eis um fio de um quase indizível projeto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUC FERRY

 

Viver sem medos é talvez o princípio da precaução para que possamos proteger o desconhecido por razões desconhecidas.

 

Quando li A Nova Ordem Ecológica do filósofo Luc Ferry julguei ter entendido que Ferry propunha uma realização diferente a todos nós, mas não contida num ideal, antes uma realização numa espécie de domicílio ainda por dizer, mas sugerido já por essas páginas com impacto na vida concreta.

 

Passou Ferry a fazer parte das minhas aulas desde então.

 

Depois com o livro Aprender a Viver (agraciado com o Aujourd’hui 2006) julguei entrar numa proposta instalada mais perto de cada ser, na sua própria vida quotidiana, diria. Vi neste livro o desafio claro do ser humano a uma convicção do quanto a Filosofia harmoniza as diferentes forças da vida ao mesmo tempo que leva o homem a refletir sobre a sua finalidade.

 

Levei aos alunos até onde fui capaz uma história das ideias do fim e do não-fim com um impacto na vida concreta.

 

Disse-lhes e digo-lhes o quanto, um dia, a minha docência no seu clarificar, me tinha sido nata no não confundir profundidade com obscuridade, e o quanto, mal ousamos e desde logo em nós se inicia a revolução. A Filosofia.

 

No caminho das palavras de Luc Ferry temos medo de tudo: dos aquecimentos globais, do sexo, da velhice, dos organismos geneticamente modificados, da mundialização, diria, enfim, de tudo o que compõe o mundo ocidental no que respeita à proliferação dos medos.

 

Por aqui melhor entendi o quanto Platão, Epicuro, Montaigne, Nietzsche e a cada ano, Kundera é relido por Luc.

 

A Filosofia, sabe-se, não deve encorajar o medo, mas ajudar-nos a ultrapassá-lo e a vivermos o nosso presente, acima de tudo impedindo outros tempos de minarem as interpretações de sossegos ou desvarios, mas ainda assim, eles e as suas circunstâncias, poderem ter a liberdade de se exporem e nunca a serem ultrapassados por outros tempos que lhes pertencem nas afinidades e não nos núcleos.

 

Viver sem medos depois desta leitura da Revolução do Amor de Luc Ferry em pleno sec. XXI é, em muito, ensinar o homem a viver bem, a viver com a mão das escolas gregas da Antiguidade: é o amor a dar sentido.

 

Afinal podemos morrer por aqueles que amamos.

 

Afinal teremos nascido para uma nova espiritualidade que já mudou o nosso olhar sobre o mundo e nós sem nos darmos conta?

 

Poderemos dizer que as pátrias mudaram os motivos e os locais no nosso coração?

 

Hoje, século XXI, qual o sentido da vida? Residirá no conforto, no sucesso, em qual? No do prestígio ou no do silêncio? No que olha ou no que nos olha?

 

Luc Ferry, pensador francês, defende um Humanismo Secular, através do qual, bem-estar é realização pessoal. Viver, constitui um harmonizar das diferentes forças da vida e perceber?, bom, perceber é toda uma capacidade criativa. É toda uma obra de vida rara, um inovar do que desejaríamos vivenciar.

 

Coloca Luc Ferry neste seu trabalho, A Revolução do Amor, ao serviço de uma espiritualidade laica, ao serviço de um reaprender a viver renovando-se os discípulos e soltando-se as escolas gregas.

 

Toda esta leitura a sinto também num alertar para o quanto o tédio de consumir não é um medo, enquanto a catástrofe vender melhor do que as boas-novas.

 

O espírito crítico desenvolve-se nas democracias e nas sociedades humanistas, mas acreditando que nenhum perigo existe no questionar: esse lapso interpretativo, um espaço de enorme tragédia para uma só vida. Digo.

 

A imprensa desliza e não desdiz o que com deficiente expressão não restaura, pois que a geometria onde habita, é a dos condenados da terra colonizados e infelizes no formidável paradoxo que estamos longe de resolver: refiro-me ao recolhimento na diferença, na revolução, no amor, mundos de que afinal são prisioneiros e fiéis guardas os arautos das liberdades expressivas.

 

Afinal só os inversos são verdadeiros se ressingularizarmos os modos de vida, se os rediferenciarmos contra todas as uinidimensionalidades do mundo moderno. 

 

De outros jeitos já encontrei no livro de Ferry, A Nova Ordem Ecológica, uma siderante passagem da revolução à contra-revolução, quando o objetivo não era então, chegar a um consenso acerca dos problemas em análise, mas pelo contrário, provocar o aprofundamento das posições particulares dissonantes.

Ponta e mola nesta Revolução do Amor é um elaborar a Odisseia de Homero quando toda a história recomeça no caos e o sentido da viagem é o da harmonia da vida e seu sentido.

 

A guerra, a guerra não é local de ordem cósmica, não é sequer a paz um caminho para chegar a uma imortalidade, já que viver feliz é algo que supera a desassossegada imortalidade.

 

Recordo Heidegger na sua desconstrução da metafísica e sinto Luc a seu lado a soletrar uma energia limpa, tão sugestivamente limpa que nunca aconteça pois Tristão ou Don Juan em todos os verões se relacionarão no sentir de Ferry, como uns apaixonados da razão por conta do compromisso.

 

Ferry é defensor do Humanismo Secular, contrapõe à religião, o uso de uma razão crítica, que leve aos homens uma paz na intrigante violência da morte, ou da felicidade ou do amor incondicional nas condições de cada ser.

 

Afinal A Revolução do Amor é também um alerta: nenhuma vida humana é boa se não aceitarmos a morte.

 

O sábio aceita-a para assim vencer o medo. E todos poderemos na luz de Luc reconciliar a ordem cósmica com o universo harmonioso que nos rodeia num fragmento, muito fragmento de eternidade, e ainda assim numa estética de vida que no seu alfa e ómega a não procure.

 

Afinal o ponto de partida e a finalidade última poderá ser o conhecimento do amor, se a nossa vida for uma pergunta, algo que tenha a medida de uma interrogação que aos olhos de Schopenhauer seja apropriada para vencer medos, seguir caminhos pouco frequentados, reconhecer as limitações profundas da autocritica, e que o sentido absoluto da absurdidade da vida seja um lugar de onde se parta.

 

Afinal e talvez o perigo resida naqueles que se contentam com as tiradas vagas e fáceis, do género, a vida não tem sentido e só nos resta a arte, e afinal são tão terrivelmente curtos os que a reconhecem com a modéstia de conseguir que até os estóicos lhes sorriem.

 

Os conhecidos momentos de champanhe duram um certo período, mas nunca ninguém saltará de alegria pela partida de um amado, o que gera também um medo, mas não é um medo da felicidade, no limite, dizê-lo é uma indecência.

 

Será antes uma insuportável fórmula que nos é companheira por excesso, ou não será a prova do quanto o amor dá o sentido como diz Luc, não às nossas existências, mas nas nossas existências.

 

De fato não é a perseguição cega das realidades conhecidas por interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da entreajuda, do prazer de dar mais do que receber. Estou convencido de que os Europeus começam a compreendê-lo e a converter-se a isso, muito lentamente sem dúvida, mas de forma bem irreversível.

 

Estas as palavras de Luc Ferry no seu livro de que tanto, mas tanto gostei, A Revolução do Amor – Para uma espiritualidade laica.

 

Estas mesmas palavras, as faço minhas, num contributo ao cessar da indiferença. Numa formidável salva de palmas a quem do pensar faz palácio onde habita.

 

21 de setembro, mais um dia de vindimas em Portugal no ano 2011. Rougemont não se recordou. Contudo Albertine não escapa ao Douro sedutor.

 

Teresa Bracinha Vieira