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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ENTRE CÁ E LÁ…

 

Minha Princesa de mim:

 

No meio das minhas aflições, nem sempre sei onde estou. Estarei, presumo, entre cá e lá. Melhor diria  -  quiçá  -  que todos nós, afinal, somos entre cá e lá. Vivemos em circunstâncias várias, mas numa só condição: essa de ser interrogação, trânsfugas de uma natureza, que, em nós, se tornou também  memória e desafio. Para além do instinto e da reacção a estímulos, a consciência humana que, aliás, se foi emancipando da pertença à consciência do grupo, da malta ou da horda, para a consciência de si ( aqui, o cogito ergo sum  de Descartes ganha  sentido), vai-se defrontar sozinha com o desconhecido, inicia-se na apreensão e na escolha, responsabilidade própria a cada um... Esta tem a sua relação ou referência social  --  e, nesse sentido, talvez eu possa dizer, parafraseando Ortega y Gasset, que el hombre es un transfuga de la naturaleza... y de su circunstancia...  -  mas, por cima ainda, depara com a interrogação metafísica do antes e do depois. Assim, todas as mitologias e filosofias antigas, mesmo as anteriores ao desenvolvimento do que já se chamou lógica de negação no pensamento de diversas culturas, representaram uma qualquer relação de vai-vem entre o mundo percetível e o invisível. Já me ocorreu pensar na narrativa bíblica da transgressão do preceito que proibia comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como sendo simplesmente o conto do aparecimento da consciência moral: o ser humano sai assim de uma condição onde nenhum comportamento é bom ou mau, posto que é determinado por necessidades do funcionamento da natureza (animais matam outros no "cumprimento" da regra da cadeia alimentar, e diz o princípio de Lavoisier que na natureza nada se cria,nada se perde, tudo se transforma), para cair, descobrindo que está nu, não no mundo subterrâneo  -  como os anjos demonizados  -  mas neste nosso mundo intermédio a que chamamos terra. Nesta encontrará de tudo, mas tudo lhe é dado para seu proveito, na condição de o fazer frutificar e desenvolver pelo seu trabalho. E do mesmo modo que conceberá técnicas de cultivo, terá de criar regras de organização social e normas reguladoras de conflitos e comportamentos. A isso chamo cultura: ao eco-sistema onde, em cada sociedade humana, no tempo e no modo se constroem as referências orientadoras de uma visão do mundo, e de acções que poderão ser boas ou más. Assim, na condição humana, a bondade ou maldade da mãe-natureza, não se afirma per se, antes resulta da nossa percepção do ser, do devir e do dever ser. A ideia judeo-cristã do pecado original não será, pois, primitivamente, no mito do Génesis, a explicação do mal existente como castigo de uma transgressão inicial da mulher e do homem  -  na perspectiva, de influência maniqueísta, de Sto.Agostinho, primeiro passo no posterior desenvolvimento milenário de uma lógica de negação do mundo no pensamento cristão ocidental. Negação, entenda-se, no sentido de propósito de libertação, através do percurso da vida como ascese merecedora da paz além prometida, onde o mal não existirá, pois Cristo venceu a morte. Mas pelo lado interior dessa narrativa interpretada como sendo a do surto da consciência moral, poderemos dizer que essa negação é um regresso à inocência: o mal que conhecemos resulta, na perspectiva do devir universal, da auto-percepção da consciência humana como fuga à natureza inicial e matriz.

Na ópera Orfeo ed Euridice de Gluck, o herói desce ao mundo subterrâneo de Hadés e, pelo comovedor encantamento da sua lira, consegue trazer de volta à vida a sua amada. De novo a perderá, porque, por ela rogado, para ela olha na ascensão de regresso, transgredindo assim uma condição sine qua. O mesmo se passava na narrativa mitológica grega, segundo a qual as bacantes depois despedaçaram Orfeu... mas na versão setecentista de Christoph Willibald Gluck (com libreto de Calzabiggi), aparece finalmente Cupido, que volta a reunir os dois amantes. Na verdade, a estreia da ópera foi em 5 de Outubro de 1762, em Viena, na festa do santo onomástico do imperador: um fim trágico seria impensável, ainda por cima em terra cristã e em pleno século de luzes! Mas já no mito greco-latino de Clore (a quem Ovídio identificará Flora, a primavera), que noutra carta te contei, esta é libertada do mundo de Hadés por sua mãe Deméter , para que a Terra possa florescer e frutificar. Irá e virá, todos os anos, de um para outro mundo. No Koji-ki japonês (narrativa das coisas antigas), compilado no período Nara (710-783), mas certamente redigido um século antes  --  e de que também já te falei  --  aparece um mundo celestial: Takamagahara, a alta planície celeste, paraíso cujos montes e campos, rios e vegetação, em tudo se assemelham aos que se viam em Ashihara no Nakatsukuni, reino terrestre ou intermédio, cuja paisagem é, afinal, a de Yamato, o primitivo Japão. Durante a Era dos Deuses, muitos deles e heróis vários, circulam de um mundo para outro, incluindo para o país das trevas Yumi no Kuni. Mas estes três mundos situam-se nas mesmas coordenadas geográficas, como três patamares do mesmo território. Não há correspondência do primeiro com o que, mais tarde, sob influência budista, se chamaria Tokoyo no Kuni ( o país da imortalidade ou reino dos céus), nem podemos confundir este país das trevas com o inferno (Meido), morada dos mortos ou dos fantasmas. Vou buscar ao professor Ienaga Saburo a lenda do pescador Urashima que, por ter salvo a vida a uma tartaruga   --  animal que,aliás, na mitologia sino-nipónica é símbolo de longevidade  -  foi acolhido por uma princesa ( terás sido tu...) no Ryugujô, palácio no fundo do mar. Apesar de cumulado de mimos, a saudade da terra natal leva-o a pedir à princesa que o liberte e deixe regressar. Ela consente e dá-lhe um cofre que ele não poderá abrir, sob pena de velhice e  morte. O que virá a acontecer, em resultado de uma transgressão, como com o fruto da árvore de Adão e Eva ou o olhar amoroso de Orfeu a Eurídice. No Mannyô-shu, antologia poética dos meados do sec.VIII, diz-se: Ele teria podido viver sem jamais envelhecer ou morrer,e ,dando a mão à princesa, transpor o limiar de sumptuosa moradia,no interior do palácio do deus dos oceanos... Comenta o prof.Ienaga: Mas esse país de imortalidade mais não é do que a imagem idealizada de um país distante,separado pelo mar.  A narrativa da visita de Tajimamori ao país da imortalidade, tal como a lenda do pescador Urashima, podem ser interpretadas sem hesitação como simples viagens a um lugar impreciso, além mar. Esse aí, mesmo que se lhe acrescente uma idealização qualitativa,não deixa de ser, com toda a evidência,um sítio espacialmente ligado ao território japonês... No relato do Nihon-shoki (coisas do Japão), esse Tajimamori, acima referido por Ienaga, é um herói que o imperador Suinin mandou ao país da imortalidade buscar o elixir da vida eterna, viagem em que passou dez anos. Lembra-me a babilónica Epopeia de Gilgamesh, o  qual também regressa frustrado da sua busca da planta da vida, que lhe foi roubada por uma serpente... Voltando ao citado professor japonês, transcrevo-te este passo: Aquilo a que chamamos diferença entre mundo aparente e mundo escondido parece-se muito com a diferença entre mundo real e mundo metafísico: mas segundo Motoori Morinaga (outro estudioso do Japão antigo), isso mais não exprime do que a diferença entre o território japonês e o país das trevas. Mesmo Tachibana Moribe que, contra essa opinião, insistiu no significado da «coisa escondida», reconhecia que o mundo da «coisa escondida» não pode existir fora do mundo humano. Assim, não é possível encontrar nas lendas e narrativas da Antiguidade um mundo do Além que seja concebido enquanto negação do mundo real. Paralelamente à visão do mundo contínuo,a especificidade essencial do pensamento antigo residia no conceito afirmativo da vida...  O mal sendo, para os Antigos, facilmente ultrapassável, qualquer conceito de vida que pretendesse sabotar os fundamentos dos prazeres reais seria estranho ao seu modo de pensar. Afirmando a realidade enquanto tal, eles não podiam evidentemente imaginar um mundo transcendente baseado na negação do mundo da realidade. Por mim, vou pensando que a ideia de transcendência ou, se quiseres, os conceitos de salvação e vida futura no Além, só puderam surgir quando a evolução da consciência humana a coloca já num patamar de ruptura com a realidade  sensorialmente apreensível, para a levar a considerar a fugacidade das variações do mundo real e a necessidade de controlo dos comportamentos humanos,de modo a libertar-nos do que é efémero e doloroso para nos elevar até à serenidade do que é eterno e não sofre. É universal este salto, este sentimento novo. Certo dia, visitando o Byodo-in, em Uji, junto a Kyoto, vi o raio de sol que, pela abertura propositadamente desenhada para o efeito na fachada do Pavilhão da Fénix, onde se acolhe a estátua dourada do Buda Amida, vai iluminar esta imagem, como promessa de salvação e vida na Terra Pura. Esculpida por Jocho em 1052/53, foi nessa data ali colocada, por ordem de Fujiwara no Yorimichi que, aos sessenta anos, decidira transformar em templo budista da Terra Pura, um seu pavilhão de repouso e recreio. Fujiwara no Sukefusa, alto funcionário da corte imperial   -  que os seus familiares de classe superior governavam, e de cujo diário  te falei noutra carta  -  já por essa altura registara os temores e apreensões da nobreza de Heian, que iriam conduzi-la a uma certa contemptatio mundi, desprezo ou negação deste mundo:  ...Já não tenho esperanças de promoção. Os meus bens não foram poupados. Mas porquê? Porquê? ...  Os éditos imperiais já não são eficazes...  Começa uma era perturbada... É o fim dos tempos!... Ai de mim! Que tristeza! como vivemos numa época em que Bodisatva desapareceu, mais vale fazer-me monge. A vida neste mundo não serve para nada! No teto do Pavilhão da Fénix e nas paredes circundantes do Amida dourado, hiten, seres celestiais ou apsaras voam e tocam música, como anjos celebrando a salvação. Séculos antes, no reverso de um espelho de bronze datado da era dita "das grandes sepulturas", cenas de música e dança exprimem a alegria natural da vida numa realidade cheia de prazeres... Esta é uma alegria espontânea, natural, como o bem-estar físico, acontece na sua brevidade, mas não tem medida. A outra é uma promessa, nascida da memória do sofrimento e da esperança de uma libertação. Assim vista, será ela desejo de finalmente escapar ao mal, que é imperfeição, precaridade? Ou, antes, será ela negação do determinismo que nos corta a vida e a felicidade? Só o ser humano, desde que a consciência o arrancou à natureza, sente para tão grande amor tão curta a vida... Dou-te a mão, Princesa, para não me sentir só, entre cá e lá...  

 

       Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira