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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO


Dou hoje início à publicação, em "fascículos", de memórias do Japão  --  país onde residi durante catorze anos e aonde regressei, em 2005, como Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, e, finalmente, em 2010, acompanhando a viagem organizada pelo Centro Nacional de Cultura no âmbito do seu programa "Os Portugueses ao encontro da sua História".
Partimos para o Japão à procura da nossa História. Melhor dizendo: da memória de nós, do que ainda ficou para aquém do passado. Do que outros recordam e cultivam e nós talvez nem suspeitemos. E também do que antes foi sem nós,mas os nossos olhos ainda podem ver e os nossos corações prolongadamente sentir, com gosto a descobrimento. Fomos à procura daqueles que temos por nossos e que,longe de nós no tempo,por esse Japão andaram. Fomos em busca deles e da sua circunstância nipónica,das gentes e culturas que encontraram e com quem viveram. Onde pára a herança que deixaram? São escassos e móveis os documentos materiais daquela presença: coisas escritas,a História do Luís Frois, a Arte Breve da Língua Japoa de João Rodrigues, muita correspondência e relatórios... pinturas,biombos,um sino de bronze,mobiliário, objectos do culto católico,outros de uso doméstico ou militar... Permanece a memória da língua falada,da liturgia católica aos vocábulos de origem portuguesa ainda hoje utilizados... E a fé resistente dos cristãos clandestinos, os senpuku e kakure. Em traços largos, o projeto da viagem abrangia o "século cristão ou português" no Japão (1543-1639). Mas também nos deixámos levar para uma digressão mais itinerante pela cultura e alma japonesas noutros tempos e outras circunstâncias. Em 1543, três portugueses naufragam, num junco chinês, e dão à costa em Tanegashima. Chega assim ao Japão a primeira arma de fogo, o arcabuz ou teppo, que aliás, por alguns anos, será conhecida por tanegashima. Esta novidade terá uma influência enorme nas guerras feudais do Japão,no processo de unificação do país e centralização do poder politico,na atitude dos senhores e do shogun (generalíssimo ou condestável) relativamente ao comércio com os portugueses e ao proselitismo cristão. Em 15 de Agosto de 1549, S.Francisco Xavier desembarca em Kagoshima, inicia-se a missionação. Em 1570, Nagasaki é fundada pelos jesuítas da Província portuguesa da Companhia, na sequência da visita, ao que ali era uma aldeia de pescadores, do Pe.Gaspar Vilela, que assim descobriu o porto ideal para o Kurofune (barco negro), a Nau do trato de Macau, que antes já ancorara em Shiki (Amakusa) e em Fukuda (na entrada marítima da baía de Nagasaki). Todos os nativos se convertem ao Cristianismo, ergue-se uma igreja, o daimyo (grande nome), senhor feudal, Omura Sumitada oferece aos jesuítas o solo de Nagasaki. Pela primeira vez houve cedência de direitos sobre terra japonesa a estrangeiros. Aqui se estabeleceu o centro do comércio externo japonês por três séculos, embora as respectivas instalações fossem limitadas, a partir de 1636, ao ilhéu de Deshima (ilha de fora). O Cristianismo desenvolveu-se sobretudo no Kyushu (Kagoshima, Amakusa, Nagasaki, Oita), no Kansai (Kyoto, Nara, Osaka), no Chubu (Nagoya, Gifu), mas também seguiu, pelas grandes vias de comunicação, ao longo da ilha de Honshu até à de Hokkaido, no norte do arquipélago nipónico. A memória dessa passagem, e da presença portuguesa, permaneceu sobretudo no Kyushu, e também no Kansai. Aí ainda podemos visitar ou imaginar sítios e monumentos que encontramos descritos em textos de portugueses e jesuítas dos séculos XVI e XVII, e assim "ver" o que eles viram.
Deste modo se define um percurso pelo Japão, num tempo histórico geograficamente circunscrito,a que acrescentaremos uma visão mais alargada da cultura japonesa, sobretudo dos seus processos de inculturação. E memórias de Wenceslau de Moraes, testemunha que foi, no século passado, das primeiras décadas da transformação do Japão numa grande potência económica, política e militar.
 
Camilo Martins de Oliveira