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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

interior da Igreja de São Francisco Xavier, em Kagoshima

 

7. OS SENPUKU


Senpuku
é sinónimo de kakure, e refere-se ao que se esconde, se refugia ou anda foragido. A utilização do primeiro termo para designar os cristãos clandestinos que, depois de tolerada a sua religião, por pressão das potências estrangeiras, já na segunda metade do sec.XIX, regressaram ou aderiram à Igreja Católica, terá talvez um duplo propósito: o de diferenciar esses ortodoxos dos cristãos que, sobretudo na região de Urakami, cerca de Nagasaki, tinham sobrevivido no sincretismo dos princípios, representações e práticas da sua fé com conceitos, imagens e ritos shintoístas e budistas (pelo que aliás, começaram a ser tolerados pelo shogunato Tokugawa, em finais do sec.XVIII) ; e, ainda, o de sublinhar que, mesmo não sendo kakure, um japonês cristão é um estrangeirado, quase um foragido que se esconde, um senpuku. Os missionários franceses que chegaram ao Japão nas últimas décadas do séc. XIX pregavam um cristianismo rigorista, pouco conciliador e nada acomodatício ( a Igreja era ainda dominada pela docência de Pio IX), bem diferente da procura de entendimento das culturas indígenas e consequente inculturação da mensagem evangélica que preocupava os jesuítas portugueses do sec. XVI. Os kakure com que então depararam pareceram-lhes herejes desviacionistas. Leia-se este passo do padre Cousin, escrito em 1878: ... Esta pobre gente continua a cantar, a baptizar, a pedir a Deus perdão dos seus pecados, mas têm as casas decoradas com ídolos e frequentam templos budistas com medo das perseguições! Os caminhos de Deus são incompreensíveis, e que tormento é pensar que essas almas tão próximas do céu possam cair no inferno! ( Pobre padre Cousin, coração bom e bem intencionado, quiçá vítima desse jeito de pensarsentir, a que erradamente se chama integrismo!). A nova Igreja japonesa  -  essa que nasceu com os senpuku e a missionação do sec.XIX  -  fica estigmatizada por um profundo sentimento de diferença e estranheza. É uma comunidade nipónica que professa uma fé estrangeira, que os corta das suas tradições populares e da visão do mundo própria da sua cultura. Contarei adiante duas ou três histórias que se passaram comigo e ajudarão a perceber melhor essa realidade secreta. Mas antes, devo apresentar aqui dois trechos de um escrito do mestre e moralista zen Suzuki Shosan (1579-1655) de refutação da pregação católica: A crer nos ensinamentos cristãos, existe um grande Buda chamado Deus, o único Buda, senhor supremo do mundo, criador do universo e de todos os seres. Esse Buda, Jesus Cristo de seu nome, nasceu numa terra longínqua há uns mil e seiscentos anos, para salvar a humanidade. Na ignorância desse acontecimento, dizem eles, outras regiões honram falsos deuses como Gautama ou o Buda Amida... Refutação: Se Deus, senhor do universo, criou o mundo e os seres, como é que esse Deus tem negligenciado até agora inúmeras nações, privando-as da sua manifestação? ...   ... Os cristãos nada sabem do despertar, desse estado uno da consciência original. Na sua ignorância dedicam um culto a um só buda. No shintobudismo japonês, simplificando, os kami, como os bodhisatva, são espíritos múltiplos e diferentemente aparecidos, como almas e coisas, mesmo se referidos a um despertar inicial, não redutível a um ser transcendente. Escreve ainda Suzuki Sensho: A intenção fundamental dos budas do passado, do presente e do futuro é guiar os seres para a iluminação. Assim, segundo a palavra, os budas viram-se directamente para o espírito das pessoas a fim de que estas contemplem a sua essência e atinjam o despertar...   ... Os cristãos, todavia, fundamentam o seu ensinamento numa visão redutora da realidade da existência, e essa mais não faz do que aumentar o campo dos pensamentos, dos receios e das emoções. Isto leva-os a inventar um criador do universo, conceito que paralisa o espírito e o leva a recair ciclicamente nos seus desvios  -  e pensam eles que assim caminham para o despertar! A tradição do pensamento e da religiosidade oriental especificamente japonesa vai transmitindo uma noção circular do tempo e e unidade original do existente e da sua transcendência, conceitos bem diferentes do nosso tempo escatológico e da transcendência como outro, absoluto mas distinto. Um japonês cristão sente-se, assim, enquanto cristão, fora do seu mundo japonês. Numa das fases da minha vida no Japão, vivi dez anos numa casa construída, no parque da residência de uma família da velha aristocracia nipónica, sendo nós, assim, vizinhos. Visitávamo-nos, o senhor era um prestigiado professor universitário, toda a família era viajada e falava línguas europeias; melómanos, a senhora tocava koto e cantava em japonês, a nora e os netos tocavam Bach nos seus violinos... Acontecia, em dias de calmaria e sossego, eu abrir as janelas da minha sala de música, onde escutava aquilo a que chamamos música clássica. As senhoras e as crianças assomavam às janelas da sua mansão, para ouvirem o meu programa. E agradeciam... Também sabiam que a Isabel e eu íamos regularmente à missa católica, à igreja de um mosteiro de beneditinos americanos, que não ficava longe. Nunca nos falaram disso, nem de religião. Em casa deles, as refeições eram tipicamente japonesas, a conversa formal e cordata, os temas sendo música e história. Ao fim de nove anos, a nora morreu. Soubémos que as cerimónias fúnebres se desenrolariam, em dois dias distintos, num templo próximo, cuja confissão, nem eu, nem o meu motorista conseguimos apurar. Ao primeiro dia, o templo sem imagens estava cheio de gente que recitava, em japonês, algo parecido com salmos em ofícios cristãos sem música. Ao segundo dia, o templo já tinha imagens, os netos tocaram Bach, celebrou-se missa em japonês e eu mesmo ofereci o meu braço à senhora da casa, já idosa, a caminho da mesa da comunhão. Só então me foi dado saber que aquela família professava a fé católica. Tal como outras famílias antigas do Japão, entre as quais os Hosokawa que, entretanto viram um dos seus ir a primeiro ministro. Em 1994, foi Lisboa capital europeia da cultura, e um coro budista da seita Shingon a Portugal veio dar uns concertos. Um deles na igreja de S.Roque, simultâneamente, e em concórdia, com o Coro Gregoriano de Lisboa, então dirigido pela saudosa Eng.ª Maria Helena Pires de Matos. Em Janeiro de 1995, dá-se o grande terramoto de Kobe. Para além de umas toneladas de conservas de peixe oferecidas às vítimas desalojadas, pareceu-me bonito trazer até Kobe, ao próprio lugar onde tudo fora arrasado, incluindo uma escola e igreja católica, o nosso Coro Gregoriano. Assim se realizou, em igreja construída, com cartão reciclado, no local da destruída, uma oração pela paz, com a participação do coro budista que fora a Lisboa. A mesma oração se repetiu em Tera-Dera, mosteiro shingon perdido nas montanhas... Em Tokyo, organizámos um concerto num conhecido auditório de música clássica, este só com o Coro Gregoriano, transmitido por uma cadeia de televisão japonesa. Lotação esgotada, e grande audiência televisiva. Propusera ao arcebispo de Tokyo que o nosso Coro oferecesse à diocese, na sua vastíssima catedral de Santa Maria, uma missa de Sto. António de Lisboa e pela paz. Foi aceite a proposta, com a condição de que a diocese, a seu pedido, não faria publicidade. Milhares de japoneses encheram o templo. E cá fora, formavam-se filas de espera, que chegaram a atingir os três quilómetros! Foi tudo feito em silêncio, como, talvez no silêncio de Deus, a apostasia do padre Cristóvão Ferreira... Em 2012, o grupo de curiosos do CNC foi acolhido na igreja de S. Francisco Xavier, em Kagoshima, pelo seu pároco japonês. A história da chegada do missionário jesuíta, a memória dele e uma estranha forma de gratidão (escrevo assim, lembrado da estranha forma de vida da Amália Rodrigues) foram-nos ditas por cristãos japoneses que, quatrocentos anos depois, quiseram edificar aquele templo e nele invocar o visionário jesuíta. Tudo muito simples, como num reencontro de velhos amigos. E eu só pensei que o que nós, portugueses, tínhamos feito pela edificação daquela igreja no sec.XX, tinha sido há mais de quatrocentos anos. Anos antes,  quando  -  Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, cuja capital é Nagoya, cidade dos Toyota, onde as sinalefas do próprio metropolitano estão em japonês e português, pelos muitos nissei ou brasileiros de etnia nipónica que ali hoje vivem  --  propus ao bispo a reposição, em recintos de paróquias da sua diocese, da exposição sobre S. Francisco Xavier  --  toda ela montada em painéis fáceis de dispor e expor  --  e a distribuição gratuita do respectivo catálogo, devidamente traduzido em japonês, que o pavilhão de Portugal acolhera na sua sala de exposições temporárias... Vi recusada a proposta que, evidentemente, fora feita pelo representante de Portugal, não pelo católico: as religiões têm o seu lugar na história, a fé tem a sua verdade actual nos corações... A fé, no Japão, deve ser japonesa. Não vi aí nacionalismo algum. Vindo de um país onde, tantas vezes, se confunde fé e cultura local, e se submete aquela a esta  -  mais do que a razão permite  -  apenas vislumbrei o mistério do espírito de Pentecostes. E os participantes na viagem do CNC que visitaram, já em Tokyo, a igreja de Santo Inácio, no recinto da Universidade Sophia, puderam admirar, na cúpula do templo circular, o seu desenho em flor de lótus, símbolo do despertar de Buda. Na capelita adjacente, a guia-intérprete que nos acompanhava e me perguntara se poderia assistir à nossa missa, confidenciou-me: Sensei, pensei que estava na cerimónia do chá...

   
Camilo Martins de Oliveira