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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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HERCULANO, GARRETT E O TEATRO

A obra e a imagem de Alexandre Herculano não é propriamente a de um escritor e homem público especialmente ligado ao teatro, ao contrário dos seus contemporâneos Garrett e mesmo Castilho – os três, como sabemos, são adequadamente considerados os introdutores/ iniciadores do romantismo na literatura dramática portuguesa.

Mas há as obvias diferenças, e no que respeita à dramaturgia. Herculano não é o mais marcante, antes pelo contrário; a sua obra dramática reduz-se a três textos, “Tinteiro não é Caçarola” (1838), comédia “imitada” (isto é, adaptada) do francês, “O Fronteiro de Africa ou Três Noites Aziagas” (1838),  e  “Os Infantes de Ceuta” (1844),  libreto de uma ópera de António Luís Miró, escrita em verso com a originalidade de ter como protagonista o jovem Infante D. Henrique apaixonado por uma serva moura (“quando ardente paixão tem a ternura/quantas fascinações há no amor virgem”) : o que não deixa de ser inesperado no contexto da figura e obra de Herculano e do próprio Infante D. Henrique.

Mas a verdade é que Herculano andou ligado a atividades teatrais, designadamente no Teatro do Salitre, onde, por uma coincidência insólita, estreou o “Tinteiro não é Caçarola” em 15 de Agosto de 1838, rigorosamente também a data de estreia, no Teatro da Rua dos Condes, do garrettiano “Um Auto de Gil Vicente”!

Em qualquer caso, como bem sabemos, as relações pessoais, biográficas e políticas de Garrett e Herculano em muito convergem e coincidem – nos exílios, no Conservatório, na vida politica e obviamente na atividade literária. Em diversos volumes dos “Opúsculos” surgem escritos e pareceres de Herculano emitidos no quadro dos Concursos do Conservatório, criados no âmbito da Reforma do Teatro Português de 1836, encomendada a Garrett por Passos Manoel.

E na crónica anterior aqui publicada invoquei os comentários de Herculano à estreia do “Frei Luiz de Sousa”, ocorrida em 1843 na Quinta do Pinheiro, arredores de Lisboa. Garrett, recorde-se interpretou o Telmo Paes em más condições de saúde, pois ficara imobilizado durante largo tempo em consequência de uma acidente que o deixou meio coxo. Durante esse período escreveu então a peça.
E Herculano gostou do que viu. Gostou da peça e da interpretação – e terá dito, a propósito do acidente de Garrett: “bendita canelada”!...

Herculano esteve sempre atento à atividade teatral. Escreveu muito sobre literatura dramática portuguesa e não só. A criação dramática surge expressa ou implícita em numerosos escritos. Guilherme d Oliveira Martins refere aliás que o escritor «encontra o seu próprio “Desejado” não como figura de um tempo ultrapassado (como na tragédia “Frei Luiz de Sousa” de Garrett) mas como personalidade viva e fugaz o jovem e chorado D. Pedro V» (in “Alexandre Herculano: Mestre – Cidadão” ed. INCM - 2010).

Em 1839, num texto publicado no ”Panorama”, intitulado “História do Teatro Moderno – Teatro Espanhol” e recolhido no Tomo IX dos “Opúsculos”, Alexandre Herculano mostra-se confiante na renovação do teatro português:

“Há um ano a esta parte que o teatro começa a ter entre nós a importância que há muito tinha entre as outras nações da Europa. Acontecimentos, vulgarmente sabidos (…) contribuíram para que a reforma do teatro, em todas as suas partes, que em todas elas carecia, excitasse o espírito publico”…

Mas a geração seguinte caiu nos excessos do ultra - romantismo, e Alexandre Herculano bem se apercebeu. Luiz Francisco Rebello, na sua” História do Teatro Português” (ed. PEA 1967) cita um comentário de Herculano ao teatro histórico ultra - romântico: “não seria melhor que estudassem o mundo que os rodeia e que vestissem os filhos da sua imaginação com os trajes da atualidade?”

E cito, para terminar, a minha ”História do Teatro Português” (Verbo 2001) acerca do ultra - romantismo no teatro: “ com raras exceções, o movimento está tão agarrado à estética do seu tempo, alimenta por tal forma os excessos retóricos do ultra--romantismo de matriz francesa que, em rigor, poucas são as peças que conservam vitalidade e perenidade”.

 

DUARTE IVO CRUZ