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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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JOSÉ GOMES FERREIRA

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Reli “A POESIA CONTINUA – Velhas e novas circunstanciais” de José Gomes ferreira, livro com a chancela da Moraes editores.

A sua escrita neste livro, e passados tantos anos sobre a sua leitura, fez-me pressentir ângulos de interpretação, uns mais, outros menos, dentro da lembrança que guardava. Refiro-me com curiosidade e, sobretudo, ao modo como a sua poesia aborda o sofrimento

Sonhei-me demais e agora

já não me atrevo a ser eu,

nem a andar nu, cá por fora,

sem mim mesmo como véu.

Fui sentindo o quanto era necessário a José Gomes Ferreira dizer da ruptura com o quotidiano interior, num escancarar de gesto preso à condição que o agarra e oposta ao seu desejo. Conhece José Gomes Ferreira os limites das próprias expectativas de si e dos outros. É um operário de um produto que paga com os dias cada decepção que a vida lhe impõe. Agride-o a sociedade mercantilista, repudia o que chama de democracia burguesa e entristece-o o caminho da revolução de 1974. «Democracia é alternância»/repetiu de novo a embalar o tédio/um senhor de sono espesso./Como se fosse possível – ó glória! Ó ânsia! - /construir um prédio/mudando de vez em quando/os mesmos tijolos do avesso.

Consome-o que a energia não baste para lhe dar força ao seu sonho. E de novo o sofrimento modelador da paisagem dos dias é o excedente de cada noite de vigília. A clara ideia de que o detentor da arma atómica não receia represálias e que essa arma não cabe nos limites da natureza, deveria, forçosamente, levar a uma fase nova de progresso e possibilidade. Mas não. E a raiva dos pássaros perdidos em voo antes de chegarem à paisagem desejada por José Gomes Ferreira, necessariamente deixa-lhe cinzas nas mãos.

Escreve:

Um homem gigantesco com milhares de bocas empunhava um cartaz onde se lia em letras ardentes: AGORA TODOS TEMOS DE SER MÁGICOS

Quanta zanga! Quanta vontade! Quanta solidão daquela que é boa para não se estar sozinho.

Recordei A. Malraux «Sei mal o que é a liberdade, mas a libertação sei o que é.» Entenderia José Gomes Ferreira que afinal depois do depois, tínhamos ficado muitíssimo bem disciplinados, pois culpa nossa, não lutáramos pelo mesmo que ele, e, por essa razão, éramos cegos por igual? Ou, a nossa visão militante do mundo era outra?

É de Agustina Bessa Luís a frase

NINGUÉM É MAU. O QUE SOMOS É AINDA NOVOS DE MAIS NA TERRA

Por mim ainda penso, que a ruptura com atavismos e com o que de castrante tem a família, os primeiros beijos, as conversas do estar no mundo, tudo e o mais em proximidade e distância, não me fez o sofrimento na poesia daquele tempo. A anarquia, essa é inata ao poema, e, desde que lá esteja, ele é claridade e rei.

E num repente tão inato e tão humano de José Gomes Ferreira, este poema:

Digam-me lá:

para que serviria ser poeta

se não chorasse

publicamente

diante do mundo?

E Fernando Pessoa

Somos incapazes de revolta e de agitação (…) não nos resulta uma perturbação das consciências.

Eu, na altura da revolução de 74, estava assim num ponto em que uma pessoa começa a descobrir uma data de coisas de que normalmente nem suspeitava. No primeiro dia de greve, andei a limpar os livros todos, para demonstrar a mim mesma que não ia usar bandeira que minha não fosse. E é isso também, é quando se não volta atrás pois esse não voltar quer dizer evoluir. Quer dizer, quantas vezes, que a ingenuidade pode ser amarga e ainda assim, resisto, insisto e fico onde me leva o palpável sonho que construo.

 

Teresa Bracinha Vieira
Novembro 2015