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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Lídia Jorge

 

Os Memoráveis

 

É um facto que um sentido de responsabilidade democrática ainda não substituiu o da responsabilização autoritária que, à toa, ainda existe por todo o lado, num processo de malícia situada e lentamente abafadora de memórias e de futuros e de passados por honrar.

A minha querida Amiga Lídia Jorge tem boa razão quando neste seu romance Os Memoráveis:

Sem nada ter feito para isso, sem querer nem desejar, encontrava-me em face a um tempo longínquo, recebia mensagens de um país distante de que havia prescindido a ponto de, ultimamente, chegar a duvidar da existência real do seu presente, quanto mais do seu passado.

E Lídia!

contorce-se o tempo num país-lagarta, num país que muitos desejam que comece e acabe por citações. Mas não será assim. Foi nas mãos da Lídia, que entreguei o verde caderno para António Gamoneda. Embainhei palavras que não podiam esperar e de modo a que não perdessem forças, levou-as a Lídia ao destinatário, olhando em redor e procurando-o para lá do horizonte, deitando mão do seu veio de luz. Mulher- tempo.

Quando voltámos a conversar, eu já tinha o livro da Lídia que acima cito. Já tinha o testamento do poeta magrebino

Silêncio é morte

e tu, se te calas

morres, e nós também

e se falas

morres, e nós também

então diz e morre.

(e acrescentado à mão de um)

E nós também.

Lídia:

Temos, às vezes tido músculos de bronze maleável, que muito têm sabido refulgir sob a luz rasante do interpretar. Tanto falamos acerca…e sem dúvidas de identificar o que nos espera ou aguardou, até a música que não ouvimos e a que em nós cresceu, e até o jogo que nos fez e faz mergulhar os dedos nos cabelos, plantas enfeitiçadas pelos céus púrpuras de alegrias e choros e raivas e espaços de amor que cada uma, em ângulos de caminhos diferentes, aceitou percorrer pelas ilhas perdidas, no centro dos mundos que habitávamos e habitamos.

E do muito eis que também nada

Como um dia que havia começado com um filme de felicidade.

Nada como ser-se filho de uma revolução para se ficar acompanhado para sempre por uma multidão entre a alegria e a fúria.

Nada como nem fome, nem sede, nem cansaço, une tanto, o banho do valor requintado de alma fresca, que nos habita quando também se liberta a voz.

Lídia, assim também e por aqui, o livro Os Memoráveis deve e pode ser lido. Nele o acordar de um torpor estranho que se entranhou nas gentes, a proposta de se reajustar o espírito aos limites do tolerável e do intolerável, pois que, a escuridão se adensa, e o veleiro, curvado, já nos não dá a protecção total da sua silhueta.

Os homens metediços e ressentidos que a Lídia refere neste livro serem gentes que abalam cedo deste mundo, deles adverte, que uma boa parte do solo arável se alimenta de ossos tenros, ora,

os do rapaz dos tanques, autor daquelas conversações prolongadas no Largo do Carmo, parecem terem sido requerimento adiado sine die.

Parece-me Lídia, parece-me mesmo que o prau se fundeou lá onde regressados sem dano das visitas às memórias, não viremos nunca.

A inquietude deste livro é notável. É exposta por mulher que espreita e espia o parto que um dia viu e o confronta com a ideia do que outros querem fazer crer que dele se creia, e, mirando-se esta mulher de dentro e de fora ao mesmo tempo, permite-se que a cerquem até onde, liberta pela fortíssima tensão, faça do tempo que se passou uma íris das manhãs, e que no tempo de hoje escrevam sempre as suas mãos nestes confins torrenciais, como quem afirmará sem receios: eu estou na História, não nos limbos: afirmará a Escritora. A vida compele-me num correr de nunca submetida.

E nesta conversa-chave propõe-nos a Lídia Jorge

(…) deixando-nos (…) vinte, trinta, quarenta, cem anos, ou o tempo que ainda venha a ser necessário, para decifrarmos o que verdadeiramente se passou(…) é um tipo de ousadia que a história está sempre a engendrar.

É uma difícil verdade-alívio, remédio para uma angústia à deriva, mas que nos revela também quem somos no fim do périplo, se nos quisermos pôr à prova.

Assim te li, querida Amiga e sentida Escritora.

 

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Março 2014