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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LONDON LETTERS

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Mr Alan Sidney Patrick Rickman, 1946-2016

 

A voz doce e gutural de Master William Shakespeare nos meus sonhos parte no seu ano 400. Dir-se-á ser a divine reshuffle, mas é a melancolia que escolta a partida de Mr Alan Rickman. Alan Sidney Patrick Rickman é um gigante dos palcos e dos écrans, um daqueles working-class actors tão grandes quanto sonham ser nas council houses que nos 70s combatem a pobreza com o mérito na Britain de

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Elisabeth II. Na luz e na sombra, consigo muitos aprendem que o talento é uma dádiva e uma responsabilidade. E também na doença e na morte ensina o valor incomensurável da dignidade. — Chérie. Ce n'est pas tout de courir bien, il faut partir a temps. O US President Barack Obama faz o seu último e cool State of Union Adress a título de self-portrait. Ainda nos USA é a persistência do Trumphenomenon, entre aplausos à North Korea e deselegâncias aos rivais na Republican race. — That is, politically, a fun game. A eurofiscalidade entra pela porta dos fundos em Brussels, após Herr Wolfgang Schäuble propôr em Berlin a criação de um imposto comum para financiar o acolhimento aos refugiados. Já a United Nations quer uma taxa voluntária nos jogos e afins. Austria suspende as fronteiras Schengen. Em vésperas de receber o Supreme Leader iraniano, Pope Francis lança grito de "non uccidete in nome di Dio" ao visitar a nova sinagoga em Rome.

Patchy light rain around, within cold and dry blazes. O dia é preenchido em Central London. De manhã, o Prime Minister David Cameron apela à integração dos muçulmanos com aposta inteligente na educação das mulheres ‒ nomeadamente, por via de uma English language drive. À tarde, a House of Commons debate uma e-petition popular que reúne 574,196 assinaturas para barrar a entrada de Donald J Trump no UK ‒ por este igual defender aos muslims nos US. Mas a envolvente faz jus a January e ao seu icástico Janus, sempre a olhar em opostas direções. Os escaparates ilustram a Bowiemania à volta do globo, da Vanity Fair à Time, do New York Times e Bild ao Libé ou Corriere de la Serra, numa clara expressão de força da pop culture. Bem mais discreto é o desaparecimento de um diverso ícone das artes: Mr Alan Rickman, que parte aos 69 anos

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com legado memorável e leque de obras ainda à espera de vir a público. Ele é um Shakesperean actor por excelência, um pouco como Sir John Gielgud ou Mr Laurence Olivier foram e Mr Kenneth Branagh é. Adorável pessoa, na posse de vivo humor e de perfeito timing que o singulariza seja onde seja, prepara-se na Royal Academy of Dramatic Art e começa a teatral peregrinação na Royal Shakespeare Company até à BBC e ao estrelato global de Holywood.

Há bem pouco tempo vi Mr Rickman no celulóide em A Promise (2013, Patrice Leconte), onde contracena com Ms Rebecca Hall na tradução de Journey into the Past por Herr Stefan Zweig. Logo no início marca-nos concludente diálogo que mantém com Mr Richard Madden: “I have all the time in the world.” / “Well, I haven't.” Que dizer deste senhor improvavelmente nascido no seio de uma working-class family de Acton (London), que usa recordar e o leva ao ativismo no Labour Party e em várias charities enquanto atua e mesmo dirige peças por vezes filmadas? Com voz única, e é ouvi-lo a declamar as palavras do bardo nas décadas, os menos novos recordam o seu encontro com The Queen em 2014 a par do suave austeuniano Colonel Brandon em Sense and Sensibility (1995, Ang Lee) em contraste com os dark baddies, do cínico Hans Gruber em Die Hard (1988, John McTiernan) ao voraz Sheriff of Nottingham em Robin Hood: Prince of Thieves (1991, Kevin Reynolds), que lhe vale tardio BAFTA. Já os menos velhos o tomam minimalmente tanto como o Professor Severus Snape, da série Harry Potter, quanto ainda como o Dr Lazarus, de Galaxy Quest. Daqui a comum tirada do “By Grabthar's Hammer, the suns of Warvan... you shall be revenge”. No caso: “You, dear Sir, shall be greatly missed. So, by my hat… what an Actor.” — Farewell! And, Thank you.

Notícia também de uma nova etapa na viagem de um outro passageiro acidental por estas ilhas, quando o Labour Party persiste num civil war mood que todos agasta em Westminster District. O Dr

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Christoph Vogtherr abandona o leme de The Wallace Collection para rumar ao Hamburger Kunsthalle (Germany). A saída é revelada pelo museu nacional em nota do Chairman, Mr António Horta Osório, após triénio de cortes orçamentais. Assinatura do Wallace’s Guidebook e um dos autores do belo De Watteau à Fragonard. Les Fêtes Galantes (2014, Fonds Mercator), académico com lacre das Berlin Freie, Heidelberg e Cambridge Universities, perito em telas do 700, ele começa em Hertford House como Curator of Old Master Paintings e é Director desde 2011. As suas realizações em London são sabidas. É voz ativa nos debates públicos sobre como, no presente, cuidar do passado para guardar o futuro. É mão hábil que aposta na visibilidade do espólio doado à nação em 1897 por Lady Wallace e aumenta em 20% o número de visitantes em vivificado walking trail nas costas de Oxford Street, firmando a Victorian family home aberta ao público em 1900 como “an international research centre for French seventeenth and eighteenth century art and European arms and armour.” Sobretudo, fica na old history dos Marquesses of Hertford como responsável pela bem conseguida restauração da Great Gallery. — Well! As Master Will writes in A Midsummer Night's Dream, love looks not with the eyes but with the mind.

 

St James, 18th January
Very sincerely yours,
V.