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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O AMOR DEVERÁ VENCER

 

Minha Princesa de mim:

 

De cada vez que venho ao Japão, guardo pelo menos um fim de semana para estar niponicamente instalado num ryokan, em Kyoto. Tenho encontro marcado com um certo Japão, talvez esse de quando esta cidade capital se chamava Heian-kyo (de 794 a 1185). E capital foi ela, por mais de mil anos, até à restauração Meiji (1868). Chama-se Kyoto desde o início do primeiro governo de bushi  (guerreiros), instalado em Kamakura por Minamoto no Yoritomo, no final do período Heian. Aos Minamoto sucederam (1333) os Ashikaga (período Muromachi), estes por sua vez substituídos (1568) pelos reunificadores do poder no Japão: Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi (período Azumi-Momoyama, até 1600). Seguiu-se o longo shogunato Tokugawa, que fez de Edo, a leste de Kyoto, o seu centro. Para aí se mudaria a capital imperial, depois de restabelecido o poder político efectivo do imperador Meiji sobre o bakufu ou governo shogunal. E Edo passaria então a ser Tokyo, ou capital de leste. Kyoto conservaria a sua designação de capital imperial e uma certa quintessência do Japão. A era Heian inicia-se com a mudança da capital imperial de Nara para a actual Kyoto. Fê-la o imperador Kammu  -  que, por sua, mãe descendia da linhagem Yamato, originária de coreanos expulsos da sua península pela dinastia Tang da China  -  nascido em 737, imperador desde 781 até morrer em 806. Podemos pois considerar este chefe político, militar e religioso, confucionista letrado, um contemporâneo de Carlos Magno que, como sabes, era analfabeto. Por essa altura também, era califa abássida de Bagdad o famoso Harun Al-Rachid. Deste voltarei a falar-te, contando-te a refutação que o historiador e filósofo magrebino-andaluz Ibn Khaldun (1332-1406) faz das anedotas que se contavam tradicionalmente sobre as razões que levaram o califa a condenar à morte, em 802, o seu vizir barmécida Jafar Ibn Yahia. Por agora, seguindo o conselho do hadith (ou dito do profeta Maomé) que manda "procurar a sabedoria, mesmo que seja na China", citarei o sábio muçulmano sobre a questão da linhagem e da legitimidade que, na Bagdad abássida que refiro, era coeva da que se levantou, na distante Nara, relativamente ao imperador Kammu. Neste caso, Kammu sucedeu a seu pai  -  Konin, ele mesmo de linhagem imperial menos elevada  -  apesar da humildade relativa da origem coreana de sua mãe. Sobre a "casa" e a nobreza dos clientes e dos protegidos serem as dos seus senhores e em nada dependerem das suas próprias linhagens, escreveu Ibn Khaldun o seguinte (e imagino o teu superior sorriso,minha Princesa...) : A nobreza sólida e verdadeira pertence apenas aos clãs poderosos. Quando os membros de um clã poderoso se agregam protegidos vindos de fora da sua linhagem, ou tomam escravos ou clientes com que estabelecem laços estreitos, esses tornam-se, até certo ponto, partes do clã com o qual se identificam como se fosse deles. Pela sua participação no clã, acabam por pertencer, duma certa maneira, à mesma linhagem. Disse o Profeta: "Todo o cliente pertence ao mesmo grupo que os seus senhores, seja ele escravo, protegido ou aliado". E conclui assim: É o que acontece a todos os clientes e servidores das dinastias. A sua nobreza vem-lhes da sua sólida dedicação como clientes e servidores de uma determinada dinastia, e do passado de muitos dos seus antepassados ao serviço desta. Assim os clientes turcos dos Abássidas e, antes deles, os Barmécidas puderam usufruir de uma "casa", e da nobreza, e edificar a glória da sua família, graças à sua sólida dedicação ao serviço da dinastia abássida. Jafar Ibn Yahya constituiu para si uma "casa" e chegou à mais alta nobreza graças à sua posição de cliente de Al-Rachid e sua família, e não graças à sua origem persa. O pior foi quando ele "abusou"... Mas essa história contar-te-ei depois. Hoje fico pelo Japão, na era Heian. Trouxe comigo, em francês, as Notes de l´hiver 1039, nesse ano redigidas por Fujiwara no Sukefusa que, em 1038,foi nomeado, sob o imperador Go Suzaku, Chefe da Chancelaria Privada. No sistema aristocrático-burocrático de governo em Heian-kyo, os altos funcionários costumavam anotar quotidianamente  -  além das previsões fastas ou nefastas do dia, tal como registadas num almanaque ou preditas por algum adivinho, cartomante ou astrólogo  -  as diligências, despachos e decisões do exercício governativo, bem como vicissitudes várias da vida da corte. O objectivo assumido de tais diários era facultar aos descendentes e herdeiros a informação necessária a estes poderem, mais tarde, situar-se no complexo sistema burocrático, de modo a posicionarem-se para as melhores oportunidades de colocação. Na verdade, o sistema japonês, ainda que inspirado na organização confucionista da dinastia chinesa Tang, preferia fazer a selecção das nomeações por recomendação, influência familiar ou mera relação de parentesco, do que através de concurso público. As alianças matrimoniais com a linhagem sagrada da família imperial podiam ser alavancas poderosas para a colocação de membros de outras famílias. Assim, a família Fujiwara não só conseguiu colocar 20 membros entre os 25 mais altos funcionários do governo, como atingiu enorme influência sobre imperadores por serem estes seus netos ou bisnetos. Dos 32 imperadores Heian, 14 ascenderam ao trono com menos de 8 anos de idade, sendo o poder efectivo exercido pelo regente ou tutor (Sêshô) que, à maioridade do Tennô (celeste imperador), passava a designar-se por Kampaku. Este foi sendo sempre um Fujiwara que governava a corte e nomeava os governadores das províncias que a alimentavam com arroz e outros produtos. A nobreza da capital entretinha-se com as artes da caligrafia, pintura, prosa e poesia. Até que, por volta de 1185, a família Minamoto, com a força dos seus bushi e a motivação de populações desagradadas com o excesso de sofisticação que não lhes parecia muito útil, se apoderou do poder efectivo e o exerceu a partir de Kamakura, ficando Kyoto como residência da simbólica figura imperial. Assim se iniciou um período novo da história do Império do Sol Nascente, que conduziria ao afrontamento, durante séculos, de vários senhores feudais, até que a introdução de armas de fogo pelos portugueses, no século XVI, facultou as ações militares de pacificação e unificação do Japão. Mas por quatro séculos, o tal conceito de linhagem, família e pertença, levou muitas vezes "casas" inteiras (familiares, servos, clientes e soldados) a serem mortos ou cometerem sepuku (ou harakiri, suicídio ritual) quando o seu senhor era derrotado e executado. Curiosamente, até aos finais do século XIX, quando a restauração Meiji impôs alguns conceitos e normas jurídicas europeias, a ideia de família (e o conceito de ie, "casa"), no Japão, era mais decorrente da necessária perenidade da mesma do que de laços biológicos: a adoção era frequente, os artesãos, artistas e atores que se "criavam" nas famílias profissionais ganhavam e guardavam o nome destas, acabavam por pertencer-lhes... O que para ti, europeia, nórdica e católica, aristocrata antiga, talvez seja difícil de entender é que este conceito de família, de "casa", é, de por ele mesmo, simultaneamente fechado e aberto. Fechado enquanto se propõe assegurar a perenidade do nome, da tradição e do património familiar; aberto enquanto acolhe nessa mesma instituição familiar  -  por adoção, clientelismo ou criadagem  -  todos os indivíduos necessários à garantia da permanência dessa instituição. Os laços de sangue serão os primeiros fatores, mas não excluem as alternativas que permitam, de acordo com um direito consuetudinário, a continuação da linhagem. Vai longa esta carta, regressarei contigo a Kyoto e outras histórias que mais agradavelmente te contaria ao calor de uma lareira ou durante um passeio pelos nossos parques. Mas ainda insisto em te recordar o que disse numa dessas conferências que fiz sobre o Japão, que tanto tento compreender: Quando, em 1869, o Governo Meiji mandou Mitsukuri Rinsho traduzir os códigos franceses, sugerindo que deles logo se publicasse uma tradução literal intitulada Código Civil Japonês, para que o novo sistema jurídico convencesse as potências ocidentais de que o Japão era também um país civilizado, gerou-se polémica e muita controvérsia acerca da respetiva proposta, redigida, sob a direção de Eto Shimpei e Inoue Kowashi, por um professor da Sorbonne  -  que veio então residir em Tokyo  -  Gustave Emile Boissonade de Fontarabie, daí resultando que o tal código só em 1898 fosse promulgado. Ponto fulcral de divergências e discórdias foi, precisamente, o direito da família e sucessório. Argumentavam os adversários nipónicos da aplicação, no seu sistema jurídico, dos princípios ocidentais da igualdade dos indivíduos e da liberdade contratual na esfera jurídica da família,que o conceito de "casa" (ie) e os sentimentos por ele engendrados eram intrínsecos à sociedade e aos valores tradicionais japoneses. Em 1891, um deles, Hozumi Yatsuka, publicou esta declaração: " Com a disseminação do cristianismo na Europa,o Pai nosso que estais no céu veio monopolizar o amor e respeito de todos os homens. Talvez por isso os Ocidentais negligenciem a devoção aos antepassados e o caminho da piedade filial. Com a disseminação de doutrinas de liberdade, igualdade, fraternidade, rompem a importância dos costumes étnicos e dos laços de sangue. Talvez por isso já não exista entre eles um sistema de "casa",mas uma sociedade de indivíduos igualitários, apoiada por leis individualistas"... Inquietante pode ser esta nossa humana condição, quando nos confrontamos com sentimentos e juizos uns dos outros... Mas tão motivadora, também, de interrogações e procura! Imagina que li hoje, no Mainichi Shimbun, um artigo de um sociólogo japonês que se interroga sobre a crise universal da família nuclear e ocidentalmente tradicional. E, passando por inúmeras situações inéditas e controversas, finalmente propõe à nossa reflexão, não qualquer ideia afirmativa e exclusiva, mas a demanda  -  eu diria feita a pensar sentir  -  de formas de família que sejam acolhedoras e verdadeiramente comunitárias. Reflito. Ou, se quiseres, pensossinto no assunto. Atento a sociólogos, filósofos, analistas e pensadores vários. Mas, sendo um clássico " bota de elástico", guiado pelo coração que se agarra a um princípio: Amor omnia vincit.

           Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira