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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O AMOR É FLOR QUE NASCE NO CORAÇÃO…

 

Minha Princesa de mim:

 

Santo Agostinho seria hoje cidadão argelino: nasceu em Tagaste e morreu em Hipona, de que era o bispo católico, em território da Argélia hodierna, mas do império romano de então. E é considerado um dos grandes escritores em língua latina. Africanos da Numídia  -  de raça negra, como ele seria magrebino  - eram ovelhas do seu rebanho espiritual. Pregou, a essa gente  -   cristã antes de muitos povos europeus o serem  --   inúmeros sermões. Num deles, diz isto: «Seja qual for a vida presente, agarramo-nos a ela, e apesar das suas penas e misérias, receamos, tememos a chegada do fim desta vida periclitante. Posto que assim tanto amamos uma vida cheia de tristeza, e mortal, não deveríamos nós considerar e compreender como é digna de amor a vida imortal? Não sei porquê, ocorre-me um soneto feito por um de nós (por ti ou por mim?):

      O amor é cego e a saudade

      teimosamente o segue. Há,

      entre ambos, cumplicidade:

      será a cegueira má?

      Será este querer bem

      apenas falta de vista,

      ou ver melhor que ninguém?

      Pois se quem perde, conquista,

      talvez perdendo me apanhe,

      pedindo que a perda insista

      em que, por graça, me amanhe

      cego amor, e me acompanhe,

      terno como a noite tua,

      cheio de estrelas e lua...

Percebo que possa ser difícil, para um leitor mais alheio à religião, ou descuidado da santidade das Escrituras, não conjecturar sobre episódios narrados nos evangelhos, tais como o do encontro de Jesus com a samaritana junto à fonte de Jacob, ou o da pecadora lavando com suas lágrimas e perfume caro os pés do Senhor, ou ainda o de Maria de Betânia, esquecida de tarefas domésticas, no enlevo da escuta das palavras do Mestre... Mas todavia, apesar do rigor exegético e hermenêutico, pior entendo os sábios historiadores e pregadores que insistem na identidade de Maria de Magdala, primeira testemunha da ressurreição de Cristo, com a homónima referida, no evangelho de Lucas e Marcos, como aquela de quem Jesus teria expulso uns sete demónios... Maria Madalena, para mim, prenha de sentido e de mensagem, ficará sempre sendo aquela em que a tradição cristã e a devoção popular confundiram, numa só mulher e numa só ideia, essa possessa de Magdala com a irmã contemplativa de Lázaro e a pecadora que, humilhando-se, se exalta lavando os pés de Cristo em casa de Simão, fariseu e leproso... Vê o que nos conta o Voragino, na sua Legenda Aurea que, como sabes, é uma enciclopédia do séc. XIII, uma compilação de contos, saberes e lições tradicionais. Este tipo de enciclopédia, diz Jacques Le Goff, é uma suma que permite tirar as medidas dos saberes acumulados e apoiar-se nesse adquirido global para ir mais longe. E acrescenta: A segunda metade do sec.XIII é um período de surto da leitura (incluindo a nova práctica da leitura silenciosa) e de promoção do livro... Mas vamos então ao texto de frei Tiago Voragino: Maria, apelidada Madalena por causa do castelo de Magdala, nasceu de pais ilustríssimos, pois eram de estirpe real. O nome de seu pai era Ciro, o de sua mãe Eucária. Maria possuía, em comum com seu irmão Lázaro e sua irmã Marta, o castelo de Magdala, situado a duas milhas de Genezaré, e também Betânia, que fica ao lado de Jerusalém, e ainda grande parte de Jerusalém. Fizeram assim a partilha desses bens: a Maria, calhou-lhe Magdala, donde o apelido de Madalena, Lázaro obteve o que havia em Jerusalém, e a Marta coube Betânia.... Mas, enquanto Maria se entregava desenfreadamente à delícia dos sentidos, e Lázaro se dedicava a empresas militares, Marta administrava cuidadosamente os bens de sua irmã e seu irmão, e ainda fornecia o necessário aos soldados, aos servos e aos pobres. Depois da Ascensão do Senhor, todavia, venderam todos os seus bens e entregaram o dinheiro aos apóstolos, depondo-o a seus pés. Mas enquanto Madalena gozou de tantas riquezas  --   e a volúpia é companheira da abundância de bens  --   quanto mais brilhava pela riqueza e beleza, mais abandonava o seu corpo à volúpia, ao ponto de até já ter perdido o seu nome próprio para responder apenas pelo de pecadora. Ora assim, quando Cristo pregava aqui e ali, Madalena, inspirada pela vontade de Deus, correu à casa de Simão, o leproso, aonde lhe tinham dito que Jesus tinha sido convidado para jantar. Mas não ousava, porque pecadora, misturar-se à companhia dos justos, e deixou-se ficar atrás, aos pés do Senhor, que lavou com suas lágrimas, enxugou  com seus cabelos e perfumou de bálsamo precioso. Porque os povos dessa região com banhos e perfumes combatiam o violentíssimo calor do sol. E quando Simão congeminava que, se fosse um profeta, Jesus não se deixaria tocar por uma pecadora, o Senhor o repreendeu pelo orgulhoso juízo, e absolveu a mulher de todos os seus pecados. É esta, portanto, a Maria Madalena a quem o Senhor concedeu tantos benefícios, e a quem deu tão grandes sinais de afecto. Pois expulsou do seu corpo sete demónios, a incendiou totalmente de amor por ele, e dela fez sua amiga e hospedeira. Quis que fosse ela a tomar cuidado dele em seu caminho, e sempre, mansamente, a defendeu em qualquer circunstância. Justificou-a perante o fariseu que a dizia impura, e diante de sua irmã que a acusava de preguiçosa... Aqui tens, minha Princesa de mim, uma tradição devota  -  mas profundamente teológica  -  contada em plena Renascença, pois que é nesse século XIII que ela floresce, onde a circunstância do mundo em que vivemos (riquezas, partilhas, empresas militares, luxúria e economia, tudo isso) é virada do avesso: a partilha tem sentido comunitário, a mulher é, pela revolução de Jesus Cristo, numa sociedade machista  --  e misógina quando toca o sagrado  --  um sinal dos tempos novos. Só muito mais tarde, no nosso século, disso se lembrou Aragon quando disse La femme est l´avenir de l´homme... Entretanto, homens ou mulheres, brancos nórdicos ou pretos de África, núbios, iberos, levantinos ou magrebinos, as conversões de todos anunciam-se como confessa Santo Agostinho: Perfuraste o nosso coração com as setas do teu amor, e connosco levávamos as tuas palavras, que trespassavam as nossas entranhas. Os exemplos dos teus servos que, tenebrosos, tinhas tornado luminosos, e, mortos já, tinhas tornado vivos, todos esses exemplos acumulados no seio do nosso pensamento, em suas brasas deste consumiam o pesado torpor... Há, em cada vida, um amor que a converte. Se assim não fosse, todos seríamos ou Eco ou Narciso. Eco, porque essa ninfa, filha de Gaia  -  a Terra, força telúrica criadora de vida  -  se tornou rocha incessantemente repetindo, repercutindo, o grito que clamava pelo amor de Narciso, que se lhe recusara... Narciso, porque, por tanto se admirar e amar a si mesmo, se afogou no espelho das suas águas...  E do sangue que este desgosto de Narciso vertera nasceria uma flor  --  assim chamada e tinta  --  que ao inferno levaria as que a tentavam colhê-la. Dou-te a mão, com duas rosas sem espinhos...

 

               Camilo Maria

   

     
Camilo Martins de Oliveira