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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O ENSINO DO TEATRO EM PORTUGAL 7 – CARLOS DE SOUSA E EURICO LISBOA FILHO: A VOCAÇÃO DO ENSINO



No conjunto de professores do Conservatório, nos anos que frequentei a Escola como aluno-ouvinte, talvez os dois mais “concentrados” na sua atividade e vocação didática e pedagógica tenham sido Eurico Lisboa Filho e Carlos de Sousa. E de ambos, só há que elogiar essa concentração profissional, e o primeiro citado, numa cadeira ingrata e pouco espetacular – o que numa escola de teatro é sintomaticamente paradoxal – a saber, a Arte de Dizer.

 Trata-se no entanto, como bem se entende, de um aspeto essencial na carreira de atrizes e atores, que, pelo menos naquela época, surgiam, no 1º ano, muitas e muitas vezes com deficiências de linguagem e de articulação fonética. Daí que as aulas de Carlos de Sousa assumissem dois aspetos específicos mas altamente complementares: a declamação, designadamente de poemas, mas, a montante, a correção fonética, alcançada (quando o era…) através de exercícios de fala e de pronúncia. Não era o que mais me interessava, pois nunca quis ser ator profissional, e a cadeira interessaria pouco a quem procurava na Escola, não uma técnica profissional, mas uma abordagem cultural.

E mesmo assim, a orientação que Carlos de Sousa impunha aos alunos, e que expressava em exercícios de declamação de poemas, constituía uma das bases da formação dos atores profissionais – coisa que, repito, nunca fui e nunca me passou pela cabeça vir a ser….  Mas mesmo assim, passadas estas dezenas de anos de vida e intervenção pública, muitas vezes penso que as lições que durante algum tempo ouvi Carlos de Sousa ministrar me foram uteis!

Diferente, não na qualidade mas no conteúdo,  a atividade pedagógica de Eurico Lisboa,  na  cadeira de História de Literatura Dramática, numa abordagem  culturalmente notável: nela se ia buscar a base cultural das intervenções e criações cénicas, na perspetiva da compreensão e situação histórica das peças estudadas e interpretadas. Eurico Lisboa era ele próprio historiador do teatro português e do teatro universal. Talvez ainda alguns recordem os seus programas na rádio, ao longo dos anos 60, e designadamente “A História do Teatro”: seria interessante recuperá-los, até porque eram interpretados pelo que de melhor havia na época. 

Mas mais: os seus estudos publicados, sobre dramaturgos portugueses e não só, merecem reedição. Recordo os ensaios designadamente mas não só, sobre a obra de D. João da Câmara, de quem refere “a capacidade de análise íntima, a interioridade”, de Alfredo Cortez, em que ”é o conjunto que se vê, nenhuma figura se destaca ”, ou sobre o teatro italiano representado em Portugal nos finais do seculo XIX até à década de 30 do século XX.

 Eurico Lisboa foi também dramaturgo, ainda que com obra breve: “O Poder de Fátima” (1942), reposto em 2012 com o título de “Os Pastorinho de Fátima”, “Gente Bem” (1954) e “As Mãos e a Sombra” (1960), todas elas numa linha moralizante que faz lembrar o ciclo católico do teatro de Alfredo Cortez.

Mas o que aqui sobretudo recordo é a qualidade das aulas: a cultura e visão histórica abrangente marcaram gerações sucessivas de atores e de estudiosos do teatro.

 

DUARTE IVO CRUZ