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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O ENSINO DO TEATRO EM PORTUGAL - A REFORMA DE GARRETT

Propomo-nos evocar aqui, numa série de textos, a trajetória do ensino do teatro em Portugal, a partir da reforma iniciática de Garrett e da evolução, até aos nossos dias, com algum destaque para a experiencia pessoal de aluno de disciplinas teóricas e de docente de História do Teatro no Conservatório Nacional, hoje denominada Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa (ESTC): aluno e professor que fui, num total intermitente de dezenas de anos, nas disciplinas históricas e teóricas da instituição, que existe sem interrupção desde 1835/36 até hoje.

Em 5 de Maio de 1835, o velho Seminário da Patriarcal, onde se ministrava o ensino da música, é transformado em Conservatório de Música, instalado na Casa Pia e dirigido por José Domingos Bontempo. E em 1836, Garrett é encarregue por Passos Manuel de preparar e elaborar “um plano para a fundação e organização de um teatro nacional”, abrangendo toda a estrutura da criação, ensino e profissionalização do teatro, desde a escrita dramática (“Concursos do Conservatório”) até à criação do Conservatório Geral de Arte Dramática, que absorverá a Escola de Música e será dirigida, até 1841, pelo próprio Garrett.  

É discutível, no que se refere ao ensino do teatro, falar de “reforma” de Garrett: em rigor devemos falar em “criação” pois, antes do diploma legal que instituiu a Escola - Portaria de 15 de Novembro de 1836, redigida por Garrett, assinada por D. Maria II e referendada por Passos Manuel, diploma consagrador da reforma estrutural da teoria e prática do teatro em Portugal - havia obviamente teatro entre nós, mas não havia ensino estruturado e sistematizado no ponto de vista cientifico e pedagógico.

De notar que Garrett fora exonerado, nesse mesmo ano, das funções de Ministro Plenipotenciário junto da corte de Bruxelas, através de uma carta pouco lisonjeira de D. Maria II que além do mais erra-lhe o nome – chama-lhe Garretti…

Em qualquer caso, Garrett assume a direção do Conservatório, instalado no antigo Convento dos Caetanos, de acordo com um Relatório do “Regimento” das três Escolas integradas – Declamação, Musica e Dança, datado de 24 de Novembro de 1838 e aprovado por D. Maria II em 27 de Março de 1839.

Garrett é exonerado do Conservatório por Costa Cabral em 16 de Julho de 1842. O cargo e a função trouxeram-lhe dissabores - e talvez o maior, dada a proverbial vaidade garrettiana, terá sido a alcunha que nessa fase lhe puseram: como o currículo da Escola de Declamação se resumia a três disciplinas, denominadas “Reta- Pronuncia e Linguagem”, Dança e Música, Garrett, bem como outros membros do corpo dirigente da Escola, eram por vezes designados por “reta-pronuncia”, o que muito o irritava.

Em qualquer caso, o Conservatório, depois ESTC, teve sempre uma qualificada seleção de diretores e professores. E de lá saíram e saem, até hoje, grandes nomes da História do Teatro Português. Evocarei aqui alguns deles, referindo em particular duas fases da Escola: quando a frequentei como aluno-ouvinte do que então se denominava Filosofia do Teatro, a partir de 1958, sendo diretor o meu pai, Maestro Ivo Cruz, e iniciando eu, no mesmo ano, a licenciatura em Direito; e depois, quando assumi a regência da cadeira de História do Teatro no Conservatório e na ESTC.

 

DUARTE IVO CRUZ