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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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"O Livro de San Michele" de Axel Munthe e as praias da Normandia

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Era agosto na Ericeira quando iniciei a leitura do “O Livro de San Michele”. Tinha 13 anos. Sabia apenas que, Axel Munthe era um médico sueco e que tinha vivido grande parte da vida em Capri. Tinha vivido com gente muito rica e muito pobre, mas gostava sobretudo de animais (recordo aqui um outro livro, maravilhoso deste escritor: “Homens e bichos”. Nunca esqueci a leitura destes livros. Pensei sempre em visitar Capri e rumar direta a San Michele.

Digo ainda que nos grandes países não perecíveis da nossa memória, muitas realidades, aparentemente diferentes, são uma única cerimónia em honra.

Arromanches-les-Bains, é uma das praias da Normandia onde desembarcaram os aliados para libertarem da guerra um continente em sangue, choro e grito. Do céu os pára-quedistas e assim tudo se iniciou em nome da paz. No dia 6 de junho de 1944 fez-se vida e fez-se morte para se fazer mundo livre.

A esta praia fui, pelos meus 38 anos, para ver com os meus olhos, como em certos dias o portentoso vento desta zona dava nas velas dos barcos que tinham rodas, e que pela praia fora, a grande velocidade se faziam à hora do chão e não do mar.

Experimentei: fui num desses barcos de rodas e velas falantes ou não traduzissem elas a voz do vento. Foi uma experiência vertiginosa, bela. Os meus companheiros franceses, no final da viagem, riam nervosamente tal como eu, e, gelados, pois aquelas praias são mesmo frias, agachamo-nos atrás de um rochedo e falámos do Desembarque. Falámos sempre baixinho para nunca interromper a coragem invisível que ali nos cala por força de quem por morte nos deu vida na Normandia.

Ceux-là sont princes e no entanto, quantas vezes se encosta o ouvido a uma concha desabitada de memória?

Vi e senti um cativeiro de silêncio de garças-reais naquela praia: lugar onde os barcos exilam do mar para o chão de areia e galgam-na sem necessitarem de cantos que decidam hierarquias. São honras que eles prestam.

Era afinal uma praia plena de audiência a que nos testemunhou falar de Axel e do Monte de S. Michele. Falámos dos bichos também. Creio recordar ter sentido sobre a língua um sal que era fermento de um velho mundo que pressentira ter força para quebrar os cornos de quem o enfrentara e assim abrir as portas ao futuro.

Depois, o governo das marés de Arromanches-les-Bains fez chegar um outro nosso nascimento. Uma outra hora voltou a ser encetada pelas mesmas razões: a vigília, o alvorecer, os barcos em terra, os livros no mar, a dívida como herança ao longo de todos as praias, et celui-là qui trouve le parfum de son âme, será aquele que monta guarda aos equinócios, responsável que será, em tempos de invasão por defender toda e qualquer passagem.

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2016