Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OLHAR E VER

Muro de Berlim.JPG

Muro de Berlim

 

10. MURO

Recentemente, o Süddeutsche Zeitung, de Munique, publicava um artigo assinado por Verena Mayer que, a dado passo, depois de referir como o célebre Muro, qual Madona de Berlim, atrai hoje ainda milhares de turistas, escrevia: Mas há os que moram cá, os Berlinenses. A maioria deles quis sempre desfazer-se do Muro, quer do que existia realmente, quer daquele - tantas vezes evocado - que persistia nas cabeças. Isso fez do Muro de Berlim uma curiosidade complexa, para não dizer um monumento dialéctico. Esse estigma, que se devia imperativamente destruir e remeter para o cemitério da História, é hoje uma atracção turística apreciada e cuidadosamente tratada... Talvez por essa contradição, que torna, diz nos a autora do artigo, o Muro numa curiosidade complexa, me ocorreu a disputa secular - entre exegetas muçulmanos do Corão - sobre a interpretação do versículo  257 da segunda surata (a da Vitela) : Nada de violência em matéria de religião. A verdade já se distingue bem do erro. Para todos esses teólogos do Islão, penso eu, não há salvação possível fora da fé islâmica. Mas o castigo reservado aos infiéis, para muitos deles, está nas mãos de Deus, que conhece os corações. E parece-me natural que o livro da revelação islâmica, contemporâneo de um movimento arábico que, condenando os ídolos, apela à união de um povo pela sua conversão ao Deus único, ele próprio se interrogue sobre a fé de muitos membros desse mesmo povo - incluindo de etnia árabe - que eram judeus ou cristãos (versículo 78 da terceira surata) : Diz : acreditamos em Deus, no que nos enviou, no que Ele revelou a Abraão, Ismael, Jacó e às doze tribos; acreditamos nos livros santos que Moisés, Jesus e os profetas receberam do céu ; não pomos diferença alguma entre eles, submetêmo-nos à vontade de Deus. E logo a seguir responde (?) o versículo 79 : Quem quiser outro culto que a submissão a Deus (Islão), esse culto não lhe será aceite, e ele será, no outro mundo, do número dos infelizes. Levanta-se assim um muro a separar fiéis e infiéis. Mas o versículo 28 da surata XVIII (A Caverna) diz claramente: A verdade vem de Deus : quem quiser crer, creia, quem quiser ser infiel, seja! Pela nossa parte (Alá), preparámos para os ímpios um fogo que os rodeará de suas paredes. A separação final, só Deus a decidirá, para a outra vida. Nesta presente, as diferentes escolas de pensamento islâmico, desde os muatazilitas do sec. VIII que, sob os primeiros califas abássidas, por influência do  pensamento helénico, privilegiavam o raciocínio lógico, foram concordando em que, sendo ela o tempo da provação, faria mais sentido aceitar a liberdade religiosa dos infiéis, designadamente os "do Livro", quando muito submetendo-os ao tributo devido pela sua condição de dhimi, a djezia. E houve bastante tolerância, como regra, nos califados e reinos muçulmanos, bem como no Império Otomano. Nos nossos dias, curiosamente, talvez pela desilusão e ressentimento consequentes à decadência árabe e à queda daquele império, que colocaram os muçulmanos da bacia do Mediterrâneo sob domínio ou influência da cristandade europeia, melhor dito, das potências ou do pensamento ocidental, a reacção islâmica espraiou-se desde vários polos de reflexão sobre o islão e a modernidade até à reafirmação da vocação necessariamente universalista e dominadora do Islão. Um dos pensadores mais influentes das correntes radicais do islamismo político, como a Fraternidade Muçulmana, o egípcio Sayid Qarb (1906-1965), defendeu precisamente que, pela sua evidente verdade, o islão não tinha nem devia convencer pela coacção. Mas... -  como explica, na sua A History of the Arab Peoples, Albert Hourani, árabe e católico, professor no St. Antony´s College da Universidade de Oxford  - para Qarb, o caminho para uma verdadeira sociedade islâmica, começa na convicção individual, transformada em imagem viva no coração e corporizada num  programa de acção. Os que aceitarem este programa formarão uma vanguarda de dedicados combatentes, usando todos os meios, incluindo a jihad, que não devem todavia ser tomados até que os combatentes tenham atingido pureza interior, mas que devem ser depois prosseguidos, se necessário, não apenas para defesa, mas para destruir toda a adoração de falsos deuses e remover todos os obstáculos que impedem os homens de aceitar o Islão... O mesmo Sayid Qarb afirmava assim como o ocidente já não tem os valores indispensáveis à nova civilização material: A liderança do homem ocidental no mundo humano está a chegar ao fim, não porque a civilização ocidental esteja materialmente falida ou tenha perdido a sua força económica ou militar, mas porque a ordem ocidental já desempenhou o seu papel e não mais possui o capital de valores que lhe conferiram predominância... A revolução científica já não conta, nem o nacionalismo e as comunidades territorialmente limitadas, que no tempo dele cresceram... Chegou a vez do Islão. Mas outros pensadores antes se debruçaram sobre a capacidade de resposta daquele ao mundo contemporâneo. O sírio Sadiq Jalal al-Asm defendeu que, sendo impossível considerar verdadeiras todas as afirmações do Corão sobre o mundo e a vida, ele devia ser esquecido em qualquer discurso científico ou filosófico, até por pretender ser, por definição, a própria palavra de Deus e, afinal, não acertar sempre. Outros, como o tunísio Hisham Djait, já pedem uma separação menos radical da sociedade e da religião : Somos pelo laicismo, mas por um laicismo que não seja hostil ao Islão, e não vá buscar a sua motivação a sentimentos anti-islâmicos. Na nossa angustiada jornada temos preservado a própria essência da fé, uma profunda e desenraizável ternura por esta religião que iluminou a nossa juventude e foi o nosso primeiro Guia para Deus e a descoberta do Absoluto... O nosso laicismo tem os seus limites no reconhecimento da relação essencial entre o estado, certos elementos de conduta social e moral, a estrutura da personalidade colectiva e a fé islâmica, e no sermos pela manutenção dessa fé e pela sua reforma. A reforma não deve ser feita em oposição à religião, deve ser feita simultaneamente pela religião, na religião e independentemente dela (em "La personnalité et le devenir arabo-islamiques", Paris,1974). Afinal, o que encontramos neste texto é um apelo à tradição, tal como ela deve ser entendida e praticada, para que não haja muro entre o nosso presente e o nosso passado, entre a nossa fé e a dos outros como estigma de separação e condenação. Num mundo em que é cada vez mais impossível ignorarmos os outros como notícia de existência próxima, somos todos chamados a dar o passo fraterno de João Paulo II e Gorbatchev, que destruiu a "cortina de ferro", e de que o derrube do "muro de Berlim"  se tornou símbolo. Curiosamente, no país em que a "metade soviética" tinha na altura um líder (Honecker) que era, afirmativamente, o maior adversário de Gorbatchev na Europa de Leste… Na instabilidade em que hoje vivemos, infelizmente, o medo do outro, ou simplesmente o ódio e o incontrolado desejo de assentar poderes enclausurados em nome de hipotéticas seguranças, não só tem levado a conflitos e intervenções bélicas, como fez proliferar, por esse mundo fora, a imposição de muros por várias partes construídos. Se a queda do de Berlim, em 1989, marca uma ligeira baixa e curta estabilização do seu número total (então em cerca de 15), posteriormente, sobretudo a partir dos atentados de Setembro de 2001, ele cresce em flecha e atinge os 60 este ano. Invocando o necessário controlo de fluxos migratórios, a protecção contra ataques terroristas, a contenção de conflitos armados ou de tráfegos de drogas, ergueram-se barreiras físicas entre Israel e a Síria, Líbano, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Egipto e Jordânia, entre a Índia e o Paquistão, Birmânia e Bangladesh, o Irão e o Afeganistão, entre emiratos árabes, a Arábia Saudita e outros, em Chipre, Kazaquistão e  Uzbequistão, entre os EU da América e México, Marrocos e Saara Ocidental, enclaves espanhóis em Marrocos, África do Sul, Moçambique, Zimbabwe e Bostwana, Irão e Iraque, a Turquia e Bulgária e Grécia, e mais ainda, sem falar nas extensões e novidades previstas... O Muro ubíquo, esse está no pensarsentir dos homens, sempre que o enfraquecimento das tradições de valores de uma civilização leva as sociedades à xenofobia e à agorafobia. Temos de aprender a lidar, democraticamente  ou, melhor dizendo  -  para lembrar a palavra de ordem de João Paulo II  - solidariamente, com a globalização, num mundo complexo, cheio de mágoas da História e de injustiças presentes. Para animar a reflexão, deixo a resposta da canadiana Elisabeth Vallet, professora na Universidade de Québec e autora de Borders, Fences and Walls -  State of Insecurity? a uma pergunta feita pelo Courrier International "Porque é que montou um programa de investigação global sobre os muros?"): Os muros pareciam ser uma resposta a um mundo que tinha evoluído e ao qual tomávamos o pulso porque o 11 de Setembro de 2001 tinha acontecido. A novidade era que as democracias se muravam. O fenómeno tornava-se global precisamente quando tínhamos passado uma década a falar de um mundo sem fronteiras. Em 2007 conseguimos um financiamento para a investigação e reunimos um grupo de quase todos os que estudam os muros fronteiriços. A nossa hipótese era a de que o 11 de Setembro tinha literalmente gerado uma crispação identitária que se manifestou com a construção de muros. A nossa intuição inicial estava errada. Surgiu então a ideia de que a globalização aberta era um embuste e que a maioria das pessoas sofriam mais as consequências da globalização do que dela beneficiavam. E assim se inscrevia o muro numa lógica de roda dentada. Queiramos que a globalização se vá fazendo pela solidariedade.


Camilo Martins de Oliveira