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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OLHAR E VER

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20. EPIFANIAS

 

A palavra religião é plurívoca, lembra-nos realidades diversas, ou diferentes facetas da mesma conformes às perspectiivas por que a olharmos: teológica, filosófica, psicológica, sociológica, política, etc. ... Geralmente, por aí, na linguagem corrente e comum, religião quer dizer um corpo de crenças e ritos mais ou menos definidos, e que são apanágio de comunidades ou igrejas que os confessam ou praticam. Em regra, quanto mais rigorosos forem os respectivos contornos e formulações, e mais normalizadas e sancionáveis as suas práticas, tanto mais conservadoras e exclusivas tenderão a ser as suas instituições. Daí o risco de se cair em proselitismo agressivo ou em sectarismo defensivo, numa qualquer forma de fanatismo inimigo do diálogo e da revisão, num mundo que, todavia, é naturalmente plural. Depois de séculos de recorrentes guerras religiosas, assistimos hoje à epifania de uma nova consciência religiosa  - ou de ser religioso - que acima de tudo valoriza a busca do encontro da pessoa com Deus como o mais íntimo da nossa própria intimidade e, por isso mesmo, como o amor que a todos nos une, porque em todos nós está. Neste sentido, até se poderá dizer que também um ateu é religioso, não porque se desminta, mas porque, sem qualquer referência ao Outro transcendente, também comunga na dignidade igual que habita o íntimo de todos os seres humanos. Recordo agora um passo esclarecedor duma carta do padre Serge de Laugier de Beaurecueil - frade dominicano que viveu, cristão e europeu solitário, 20 anos em Cabul, onde era professor de mística persa na universidade muçulmana, e se desdobrava por várias obras de solidariedade e assistência - a um amigo: No liceu, um professor de patchu, a cuja aula eu assistia na minha qualidade de inspector do ensino, disse-me no fim: «Tudo o que fizeste no liceu é formidável! Vale uma religião inteira. Tu é que és um verdadeiro muçulmano... Aquilo que aqui fazes pelas crianças, também eu pensei nisso, também o queria fazer, mas tu é que nos ensinaste como agir!» Olha, se queres saber, não lhes dei grandes explicações, apenas alguns conselhos pedagógicos. Simplesmente, há sem dúvida uma espécie de amizade, de presença, que eles perceberam. E também o facto de levarmos as crianças ao hospital quando estão doentes, de cuidarmos dos que não têm de comer, de tentarmos facilitar as tarefas dos professores, de lhes darmos métodos pedagógicos que não os irritem mas os ajudem a desenvolver as crianças... Vêem isso e isso então irradia. É contagioso. Há uma espécie de contágio do amor. Sim, é isso. É o contágio do Reino de Deus. No outro dia, às pessoas que vinham ver a minha casa, disse-lhes: «Ides ver a minha capela, mas ficai sabendo que até nem vou lá muitas vezes. Mesmo correndo o risco de chocar-vos, digo-vos: se não tivesse capela poucas coisas mudariam. Vou todos os dias para o liceu como se fosse ao local da Epifania de Deus e, no fundo, talvez o liceu seja, mais do que a minha capela, o meu templo». E disse-lhes ainda: «olhai e vede bem como em todas essas crianças que nos rodeiam, de cada vez que cuido de uma, é Deus que eu vejo, e que encontro. São para mim uma Epifania de Deus. Foram igualmente, para mim, epifanias de Deus a participação de líderes muçulmanos na oração feita pelas vítimas judias do atentado extremista numa mercearia kosher de Paris, como o facto de a mesma empregar um muçulmano (que, aliás, naquela trágica ocasião, salvou vidas), como os encontros e abraços inter-religiosos a que vamos assistindo, como os fados que aquela enfermeira canta, no IPO, aos doentes que trata, para os distrair com a sua linda voz, como tantos gestos quotidianos de solidariedade e conforto que pessoas de todas as confissões religiosas, ou sem alguma, levam aos mais necessitados. Deus é pobre, mas é essa pobreza que desperta e anima este amor tão frágil em cada um e tão forte na união de todos. A glória de Deus irradia nos homens de boa vontade.

 

Camilo Martins de Oliveira