Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OLHAR E VER

mustafa-akyol1.jpg
Mustafá Akyol

 

21. BENEVOLÊNCIA E UMBIGO

 

Gosto da palavra benevolência, tanto ela diz: querer bem, querer o bem, bem-querer... A vontade de amar assume a beleza da vida, e dá-lhe mais um esplendor. Menos bem me sabe quando pretende desculpar, dar desconto, por especial favor de alguma magnanimidade. Ou, pior ainda, ao lembrar-me de que, baixando a cabeça, olho para mim...  E, com ela baixa, mirando-me o umbigo, me descubro - e às minha crenças e preconceitos - mais acima e mais adiante dos outros! Vem esta reflexão a talho de outras que, no calor das manifestações "Je Suis Charlie", fiz e enviei a alguns amigos, sem insistir em publicá-las logo, pois que nem era minha intenção irritar fosse quem fosse. Agora, acho que as posso deixar aí mais abaixo, talvez nos ajudem a reflectir. Mustafá Akyol é um escritor muçulmano, de naturalidade turca, que recentemente publicou no New York Times um artigo intitulado Islam´s problem with blasphemy, onde escreve: o Corão disse, aos primeiros Muçulmanos que rotineiramente enfrentavam a troça da sua fé por pagãos, que «Deus vos disse, no Livro, que quando ouvirdes as revelações de Deus desacreditadas e troçadas, não vos senteis com eles até que eles comecem com outra conversa»...  ...Apenas «não vos senteis com eles» -  eis a resposta que o Corão sugere para a troça. Violência, não. Nem sequer censura. Os sensatos líderes religiosos muçulmanos de todo o mundo farão ao Islão um grande favor se pregarem e reiterarem tal atitude, não violenta nem opressora, face aos insultos contra o Islão. Essa instrução também poderia ajudar os seus correligionários mais intolerantes a perceber que a raiva não é sinal de nada mais senão imaturidade. O poder de qualquer fé não provém da sua coacção sobre críticos ou discordantes. Antes vem da integridade moral e da fortaleza intelectual dos seus crentes. O presidente da república do Níger, Yussufu Mamadu, participou, com a intenção de testemunhar a solidariedade do seu povo com o povo francês, na grande manifestação de 11 de Janeiro em Paris. Infelizmente, desencadeou uma onda de protestos violentíssimos, que atingiram cristãos, no seu país, pelo que se viu obrigado a proferir, a 17, um discurso em que apelava à calma: Peço-vos que continuem o exercício da vossa fé na tolerância, isto é, no respeito da dos outros, tal como peço aos outros que respeitem a nossa fé. E foi precisamente nesse espírito que ordenei a proibição da venda e difusão do semanário Charlie Hebdo. Peço-vos que vos mobilizeis em redor do governo e das forças de defesa e segurança contra o terrorismo que desfigura a nossa religião. Antes de reproduzir algumas das minhas anteriores reflexões, acima referidas, quero formular umas perguntas, sugeridas pelas declarações de Mustafá Akyol e Yussufu Mamadu:

 1 - Será que, num mundo global, onde necessariamente se cruzam e encontram  -  com sérios riscos de afrontamento  -  civilizações e culturas diferentes, com diversas regras de comportamento e divergentes critérios de moralidade e convívio, será que, neste universo em conjuntura incerta, é legítimo, ou simplesmente inteligente, alguém pretender  - quiçá com alguma intolerância  -  que o seu modo próprio de olhar e ver deve ser imposto erga omnes?

 2 - Admitindo que sim, isto é, por exemplo, que o nosso princípio de ilimitada liberdade de expressão é, ou deve ser, universalmente aplicável, sem qualquer restrição nem sequer contenção, será acertado pretender-se que apenas a agressão física é ofensa, e de modo nenhum o assalto verbal, gestual ou gráfico a terceiros? Recordo aqui uma capa da revista de que tanto se fala, em que se apresentam "os três pais de Monsenhor Vingt-Trois, arcebispo de Paris: o Pai Eterno, a ser sodomizado por Cristo coroado de espinhos, por sua vez sodomizado pelo Espírito Santo, este representado como símbolo trinitário"... Liberdade de expressão de uma imagem de pai, ou ofensa? E recordo ainda uma declaração de Jean-Christophe Boudet, "historiador e crítico de banda desenhada", que a imprensa vai por aí divulgando, por ocasião da abertura do Festival de Angoulême: Os desenhos humorísticos do Charlie Hebdo troçam de todos os sistemas e estruturas (Como, aliás, foi televisivamente demonstrado pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa...). São imagens de imagens e, por isso, incompreensíveis para quem olha para uma imagem apenas como representação. Ora, se assim for, temos de admitir que haja quem não as compreenda, do mesmo modo que temos basicamente exigido que outros tirem admirativamente o chapéu aos produtores de imagens que eles não entendem.

 O que considero gravíssimo, nesta história trágica - que um massacre repugnante trouxe à ribalta - é ,antes e primeiro do que tudo mais, a barbárie do acto terrorista, inadmissível, condenável e punível. Mas ainda, a leviandade política e mediática com que se transformou o assassínio de pessoas humanas (e não esqueçamos os pacíficos judeus que faziam as suas compras...) num simples atentado contra outro maomé que dá pelo conceito de liberdade de expressão. Pessoalmente, penso que a liberdade de expressão tem um limite, sim: o da consciência de cada um, enquanto pessoa responsável, também, pela necessária harmonia do convívio humano. Não temos de estar todos de acordo, muito menos temos de pensar o mesmo; temos de saber aceitar a discordância, e de aprender a rir até da troça que possam fazer de nós... Mas nada nos dispensa de esquecer o nosso umbigo e usarmos de benevolência mútua. Sugiro que meditemos e apliquemos para nós os conselhos que os dois muçulmanos que acima citei deram aos seus irmãos na fé islâmica : não temos de pensar como os outros, nem pretender que pensem como nós, mas o respeito que a nós mesmos devemos passa também pelo respeito dos outros, isto é, quando os desrespeitamos faltamo-nos ao respeito. E aqui ficam três passos das mensagens que anteriormente enviei a amigos:

 Quem me conhece melhor sabe que, tal como não leio, nem sequer na sala de espera do dentista, jornais ou revistas de coscuvilhice social - essas publicações de efemérides das vidas de gente política, principesca, televisível ou jet-sética, também ignoro jornais pretensamente satíricos, sobretudo aqueles que se arrogam o direito de se pronunciarem sobre seja o que ou quem for, pelo simples gosto de gozar os outros, sem qualquer contenção própria, isto é, sem sequer considerarem se podem ser ofensivos de sentimentos ou crenças humanas e legítimas de terceiros, até de alguns cujo desamparo humano e moral, no exílio e na pobreza, talvez nem sequer lhes surja no horizonte engraçadinho e raivoso ... Isto dito  -  e deixando claro que esses não me incomodam nem incomodarão -  não reclamo para eles qualquer castigo nem vindicta. Muito pelo contrário, reconheço-lhes o direito de se exprimirem como melhor entenderem e sobre as questões que escolherem. Mas também me reconheço o direito  de me interrogar - e a eles também, e a outros - sobre se aquilo que dizem, escrevem ou desenham - e que, sinceramente, vezes demais me parece ser desrespeito de outrem, provocação, embirração ou, mesmo, ódio destilado, será um exercício lúcido e construtivo do direito à livre expressão. Na verdade, penso que este é uma grande conquista da nossa cultura, precisamente em razão do reconhecimento da dignidade humana e da igualdade essencial de todos os dialogantes. Assim, a todos e cada um de nós, caberá reflectir, sem preconceito algum, muito menos de superioridade civilizacional, na enorme responsabilidade do exercício dessa liberdade, bem como, neste caso concreto, se a desenfreada propaganda do Charlie Hebdo será o modo melhor de despertarmos , em clima de liberdade e benevolência, o respeito mútuo e o diálogo. Vivemos num tempo em que o umbigo satisfeito não tem o menor direito de recusar a mão estendida para o diálogo.

 

Camilo Martins de Oliveira