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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS MAIS ANTIGOS TEATROS DE LISBOA - V

O antigo Cine-Teatro Ginásio

 

O GINÁSIO

 

O antigo Cine-Teatro Ginásio, na Rua Nova da Trindade, hoje centro comercial de qualidade, ocupa o espaço e a tradição de sucessivas salas de espetáculo, desde rigorosamente 1845, quando ali foi fundado o “Novo Gymnasio Lisbonense”, mais vocacionado para o que então se chamava “circo de cavalinhos”, com dança, variedades, palhaços e por vezes animais amestrados.


Durou menos de um ano, pois, no mesmo local, contíguo ao que viria a ser, poucos anos decorridos o Teatro da Trindade, é erguido de raiz, em 1846, o Teatro do Ginásio, iniciativa da chamada Sociedade da Igualdade Teatral, designação de curioso conteúdo histórico, que reuniu um construtor civil, José da Silva Reis, um tipógrafo, João José de Moura, e o fiscal do Teatro de São Carlos, Manuel Machado. Sousa Bastos, no “Diccionário do Theatro Português” que temos citado nestas evocações, remete desta vez para um comentário de Julio Cesar Machado: “era um teatrinho de cartas, sem proporções, sem espaço, sem comodidades, mas alegre, simpático”… na inauguração estreou-se o grande ator Taborda, que viria a ser figura dominante da cena da época.


Em 1852 o mesmo Manuel Machado funda uma Sociedade Dramática do Teatro Ginásio de Lisboa, consegue um subsídio do Governo, concedido por Rodrigo da Fonseca e inaugura, no mesmo ano, o terceiro Teatro do Gymnasio. Marina Tavares Dias evoca a inauguração, na presença de D. Maria II, de D. Fernando e do D. Pedro V, num espetáculo ainda dirigido pelo Taborda. A coroa apoiou financeiramente a construção, de maiores dimensões, agora implantada em terrenos cedidos pela Igreja do Loreto. Marina Tavares Dias recorda os elencos desta fase: Lucilia Simões, Eliza Santos, Guilherme Silveira, nomes grandes da época. E sempre o Taborda, a quem o Rei ofereceu, na noite da estreia, o seu alfinete da gravata!... (cfr. Marina Tavares Dias, “”Lisboa Desaparecida” vol 2 – 1990.)

Este Teatro Ginásio arde em Novembro de 1921.


É reinaugurado, em 27 de Novembro de 1925, com novo e complicado projeto do arquiteto João Antunes. M. Felix Ribeiro recorda o novo edifício: “Os Foyers da 1ª e da 2ª ordem estavam decorados em estilo árabe, assemelhando-se a um terraço, com um balcão alpendrado, provido de curiosos arabescos. Reproduz fotografias e plantas e refere, numa marquise da 1ª ordem, dois vitrais, alusivos à Comédia e à Farsa.” (in “Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa – 1896-1939” – 1978)


O Teatro Ginásio mantem uma tradição irregular de qualidade, tanto de elencos como de repertório: por lá passaram, ao longo das temporadas, Eduardo Brazão, Maria Matos, Alves da Cunha, Lucinda Simões, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, num repertório também desigual na sua alternância. Mesmo assim, foram representadas peças de Moliere, Garrett, Ibsen, mas sobretudo os modernos portugueses da época – Jaime Cortesão, Vasco Mendonça Alves, Eduardo Swalback ou Ramada Curto.

 


Até que se converte em Cinema Ginásio, sem grande sucesso, e fecha para demolição nos anos 50. Esteve cerca de 20 anos abandonado. E seja-me permitida uma nota pessoal: na fase de inicio da demolição do interior (pois a fachada, em boa hora, foi conservada e dura até hoje) visitei o Ginásio e pude recolher parte do arquivo, doado ao então Conservatório Nacional, hoje Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa , onde viria a ministrar, durante anos, cadeiras de História do Teatro.

 

DUARTE IVO CRUZ