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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PARA UMA NOÇÃO DE CULTURA

 

1. Aquilo a que chamamos cultura é inviável positivá-lo, em termos deterministas, atenta a sua elasticidade e plasticidade. Se inexequível a obtenção categórica de uma noção de cultura, isso não invalida que, por razões funcionais de natureza pragmática, se proceda a uma tentativa de delimitação do seu conteúdo.

Carateriza-se por tudo o que é humano e pode ser transmitido, por tudo aquilo que o ser humano faz, por tudo o que está relacionado com a criação humana, como um sinal de criatividade e humanismo, integrando todas as coisas ou operações que a natureza não produz e que lhe são adicionadas pelo espírito.

Em sentido restrito, numa definição mínima, traduz a herança canonizada e solenizada pelas instâncias clássicas de legitimação, o património artístico, erudito e intelectual de feição humanista, legado pelas artes, saberes e certas tradições, condicente com o universo das belas artes e das belas letras, uma cultura de eleição, superior, mais abonada de assunto e de forma, cujas manifestações, quanto mais criativas e vanguardistas à época, mais se aproximam do mundo ideal e se afastam do que é tido como regra da ordem real.

Numa interpretação intermédia, além de conter a criação e a fruição mais culta, convive com a ciência, a tecnologia, o ensino, a formação, a religião, onde a esfera estadual e do pensamento convivem de modo especial.  

Numa aceção mais ampla, engloba uma realidade complexa, agregando elementos de natureza antropológica, filosófica, histórica, sociológica, incluindo raízes, memória, herança e história, com a aceitação de uma noção aberta e policêntrica, atuando na vida corrente a vários níveis, desde a cultura erudita à popular, aglutinando criatividade, inovação, tradição, pluralismo. Esta culturalização global e indiferenciada coloca no mesmo regime a arte, a ciência, a religião, a tecnologia, o desporto, o luxo, a literatura, a poesia, a gastronomia, os monumentos, o património natural. Não surpreende que a região vinhateira do Alto Douro, a paisagem da vinha da Ilha do Pico, a floresta laurissilva da Madeira e a dieta mediterrânica integrem a lista do património mundial da Unesco, ao lado do centro histórico de Guimarães, de Évora, do Porto, de Angra do Heroísmo, do Convento de Cristo em Tomar, do Mosteiro da Batalha, de Alcobaça, dos Jerónimos e da Torre de Belém. Nem que a lista do património cultural e imaterial da humanidade integre o fado e o cante alentejano, a que acresce, desde dezembro de 2016, a arte da falcoaria em Portugal. Ou que em termos de património cultural e imaterial da humanidade se apele para a necessidade de salvaguarda urgente da manufatura de chocalhos em Portugal ou da olaria preta de Bisalhães. Sem esquecer o património cultural subaquático, entre outros.

2. Recriando-se continuamente, é incerto prever em concreto o futuro da cultura, levando a que se defenda uma mudança de paradigma: 

“A nova imagem da cultura não é apenas a cultura erudita de recorte humanista (as artes e as letras), nem a cultura de tipo antropológico (tudo o que não é natureza é cultura), nem a cultura de massas no sentido tradicional do termo. É algo que a atravessa, acolhe, mas designa já outra coisa. A cultura é hoje uma dimensão dominante em que está em jogo o que o sujeito faz de si mesmo, sem que se definam intermediários conscientes e explícitos que tutelem o sujeito”. (Eduardo Prado Coelho, “O Futuro da Cultura (1)”, “O Fio do Horizonte”, “Público”, 14.09.05).

A par de uma subjetivização da cultura, com tendência para a sua privatização, em que as novas tecnologias nos permitem ver e ouvir em casa cinema, música, ópera, há o seu reverso, em que o indivíduo mergulha numa realidade envolvente, criando-se um sentimento eufórico do grupo, de que a música entre os jovens e o desporto entre adultos são seu exemplo. A que acresce a globalização da cultura, com uma estetização do quotidiano, desde motivos no calçado, vestuário, latas de conserva, invólucros de sabonetes, revestimentos de prendas, design e capas de livros, música fracionada e de ambiente que se ouve enquanto se corre, espera, estuda ou opera. Onde também emerge o culto e a materialidade do corpo, tomando-o como objeto de arte (esculturas humanas  firmes, pintadas de dourado, prateado, num cromatismo chamativo), ou no suporte de várias tendências da arte contemporânea (moda, piercings, tatuagens).

“Verificamos (…) uma alteração das experiências do tempo e do espaço: existe uma compressão do tempo (Giddens) e uma diversificação dos espaços (…). Derivado do espaço temos o culto da velocidade ou os chamados “efeitos especiais”.

(…) implica uma redistribuição das instâncias culturais: de um lado, a cultura erudita, cada vez mais impregnada da cultura de massas; do outro, a cultura de massas, cada vez mais em ser reconhecida pela cultura erudita. Certas práticas artísticas marginais ganham particular relevo: a fotografia, a arquitetura, o vídeo, a banda desenhada, os jogos no computador, etc. No fundo (…) temos a consciência ecológica e a relação cada vez mais intensa entre cultura literária e cultura científica.

É neste contexto que a cultura terá de desenhar o seu futuro”
(Ibidem, “O Futuro da Cultura (2)”, “Público”, 15.09.05). 

Também a cultura humanista, que coloca o ser humano no centro de tudo, está em transformação, para alguns em decadência, dada a emergência de um novo agente transformador: a máquina, com consequências no ver, falar, ouvir, ler e escrever.  

 

Nesta sequência, a cultura é um universo permanentemente questionado, o mesmo sucedendo com o seu refazer permanente.

 

03.01.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício