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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PARTIR-ME DO TEU BEM, TRISTE PARTIDA…

 

Minha Princesa de mim:

 

O nosso Camilo português ofereceu-me umas oitavas em decassílabos, que se entreteve a escrever, na tarde de domingo passado. Disse-me que o Jaime Cortesão tinha descoberto no Escorial uns manuscritos, poemas em castelhano e português, muitos deles, quiçá, de Luís de Camões. E foi a oitava VIII de uma elegia assim atribuída ao autor dos Lusíadas ( Partir-me do meu bem, triste partida! /  Estar onde ele está, duro tormento! / Vê-lo e não o ver, penosa vida! ) que o nosso sobrinho transcreveu e glosou: 

                          MOTE

      Bem sei que em tanta dor, tanto tormento,

      Mal tão sem esperança, tão sem cura,

      Era melhor remédio esquecimento;

      Mas não permita tal minha ventura.

      Antes, se me esquecer do pensamento

      Com que eu adoro vossa fermosura,

      O céu se me escureça e tudo seja

      Contrairo ao que minha alma mais deseja.

                        GLOSAS

      Mandaste que de ti me apartasse

      para bem longe,como um doente,

      como lacaio que já não prestasse,

      ou vadio que incomoda a gente,

      ou conviva que até tarde ficasse,

      falante, distraído, impenitente...

      Obedeço e, ao sair, também aguento,

      bem sei que em tanta dor, tanto tormento.

      Pois se o amor é fundo, é verdadeiro,

      mais não pode, nem tem outra vaidade

      que a de se ver como se viu primeiro

      ao seu espelho, que nunca teve idade.

      Até ao meu suspiro derradeiro

      inda só me direi esta verdade:

      no amor de ti está minha ventura,

      Mal tão sem esperança tão sem cura.

      Tão despojado fico, tão magoado

      de tudo, mesmo de mim, acredita,

      que nem ouso desejar outro fado:

      é já amor também minha desdita.

      É já como destino desejado

      a saudade de ti, tão só e aflita.

      Dizer não consigo, em qualquer momento:

      Era melhor remédio esquecimento.

      Nem raiva alguma, nem qualquer revolta,

      em mim desperta esta desventura;

      antes, no coração, mansa se solta

      a vibração constante da ternura.

      E assim, por ti, comigo se embaraçam,

      em turbilhões de dor de pouca dura,

      as lembranças que, quero, se desfaçam:

      Mas não permita tal minha ventura.

      Não venha  sol em dia de nevoeiro,

      nem haja primavera no inverno,

      nem ave cante em ramo de loureiro

      como se o que ora passa fosse eterno.

      Pois se este amor não passa, e permanece

      sempre, como água, terra, fogo e vento,

      nada mais posso, e sei que só fenece

      Antes, se me esquecer do pensamento.

      De muito me esqueci, pela certeza

      (que nem Vénus nem Eros asseguram)

      de em mim guardar de ti só a beleza

      daquelas inocências que perduram,

      do gesto gentil, e dessa franqueza

      de almas simples, que sentem e murmuram

      em doce segredar essa ternura

      Com que eu adoro a tua fermosura.

      Com que, calado e quieto, me recolho

      ao segredo da tua habitação

      e, das tuas imagens, só recolho

      as que Deus me teceu no coração.

      Há belezas brilhantes, mas tão breves

      que já não tenho vista qu´inda as veja;

      outras cheias de luz, sempre tão leves...

      O céu se me escureça e tudo seja!

      E sofra o que sofrer e me aconteça

      por movimento astral ou circunstância,

      nada fará com que de ti me esqueça

      ou faça estremecer minha constância

      Não há força maior do que a que sinto

      nem tão grande temor que me preveja

      (e Deus me castigue se agora minto!)

      Contrairo ao que a minha alma mais deseja. 

 

   Deu-me isto em duas folhas de papel (uma oitava de Camões e oito dele). E, hoje, dou-te a ti a mão cheia de versos.

 

          Camilo Maria

      

     
Camilo Martins de Oliveira