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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PLANTOU-SE HOJE UMA OLIVEIRA...

Minha Princesa de mim:
É hoje dia de Pentecostes e o sol anunciou-se ao amanhecer. Lia há pouco, no livro dos Actos dos Apóstolos, a narrativa que nos conta como eles estavam todos reunidos  -  medrosos e fechados numa casa  -  quando, qual rajada de vento forte, um fogo pairou no ar, e a mesma chama se dividiu em labaredas que pousaram sobre cada um deles. E então falaram em muitas línguas, e todos, mesmo os muitos que estavam de fora  -  judeus piedosos e romanos, gregos, persas, árabes, fenícios e africanos  -   tudo entendiam. E assim também nós hoje percebemos como o Espírito é a presença animadora de Tudo em todos... Ao enviar-nos, depois do Filho, o Espírito, a Santa Trindade, que é o mistério do amor de Deus, funda, na união da humanidade, a Igreja universal. Gosto pessoalmente muito da festa de hoje, por essa perspectiva de uma Igreja invisível, que é a comunhão de todos os homens, firmada entre nós pela vocação universal do amor de Deus. É deste mistério eclesial que a Igreja visível, institucional, deverá sempre procurar aproximar-se. Nenhuma comunhão religiosa é possível, em graça e em verdade, se não for aberta ao acolhimento de todos. Acolhimento não é, como num panteão da antiga Roma, uma colecção de credos e deuses preguiçodemocraticamente pedestalizados, como vestuário à venda numa loja. Tampouco poderá ser imposição de um controlo fronteiriço, como gosto mórbido de um inquisidor pelo exame até à tortura.  Acolher é, antes de mais, escutar o outro, perceber e respeitar a diferença. Só esse passo nos conduzirá ao livre amor da nossa autenticidade. E, na medida em que nos reconhecermos, uns e outros, no que nos distingue, iremos desenhando caminhos que nos aproximem: não há gosto nem desafio estimulante em sinfonias só com notas iguais ou pinturas monocromáticas. Qualquer totalitarismo é vazio como um branco absoluto, e tenebroso como um mundo negro, sem sol nem flores. E é ensurdecedor qualquer ruído monocórdico.  Hoje  -  dia em que vi muito mais televisão do que costumo (quase nada), e dir-te-ei porquê  -  novamente me ocorreu o pensamento de Feuerbach, de que já te falei: A essência secreta da religião é a identidade da essência divina e da essência humana  --  mas a forma da religião, ou a sua essência manifesta e consciente é a diferença. Deus é a essência humana, mas é sabido como uma essência diferente. O amor é o que revela o fundamento, a essência oculta da religião, mas a fé o que constitui a sua forma consciente. O amor identifica o homem com Deus, Deus com o homem e, por isso, o homem com o homem; a fé separa Deus do homem e, por isso, o homem do homem. Todas as vocações totalitárias  -  como as da Inquisição católica ou do fundamentalismo islâmico  -  caem nessa armadilha da forma da religião ou, por outras palavras, da definição necessária de uma fé verdadeira: assim separam Deus do homem, porque afastam o homem do amor dos outros. Passei este fim de semana em muito silêncio e oração, terminando o dia de Pentecostes a ver televisão. A CNN ( vê tu bem, um canal americano!), que transmitiu em directo a oração pela paz, no Vaticano, das três religiões monoteístas dos filhos de Abraão. Porque o amor dos outros e a paz de todos levantou os corações muito acima de querelas dogmáticas e belicismos passados. Até lá estava  -  irmão muito fraterno do Papa  -  o patriarca ortodoxo de Constantinopla (e quantas queixas tiveram os bizantinos dos cruzados ocidentais!),  porque o ecumenismo é como a caridade: começa cá em casa. Será loucura minha, Princesa, mas dou-te uma mão cheia de esperança...
           Camilo Maria
 
Camilo Martins de Oliveira