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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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QUERIDO AMIGO QUE MUITO CUIDO

Carta.JPG 

Querido amigo que muito cuido,
 

A carta que me enviou foi uma das suas cartas mais belas que li, e tão sentida!, que bem me recordei de ter rezado a Jesus em Masai Mara pois de tudo tão vasto, só Ele podia estar ali a escutar-me melhor, numa espécie de Igreja de terra a céu aberto. Também Lhe falei quando não sabia o que fazer de tanto ser o meu crescer. Tudo era despropositado para pegar num prato: ou encolhia o braço ou partia-se a loiça e a adolescência era tão estranha que até os seios se anunciavam sem pejo, como se sempre tivessem ali, naquele nada, cativos, no lugar e expressão. E assim um dia , muito europa de longos cabelos em dorso de Zeus, fui ao mar, ao qual sempre pertenci, e quando bem no meio do oceano, por ali desci , tentei entender as múltiplas línguas do silêncio, e  que de tão puras, no agora de então, me bastava olhá-las e entender que o amor se faz assim de singulares e parcas falas. Mas os tempos passam e o tal esquecermo-nos de nós, dói e dói enquanto o corpo se transforma e nos é tão alheio e desengraçado, quanto em nós tropeça, nosso, ainda assim, e ei-lo aqui. E o veio que o segura na queda?, será o mesmo que em nós segurará no tal depois?, e agora nos faz desconhecer se existirá quem nos entende neste embaraçante tudo ser no entretanto? Enfim, a esperança dança, dança, e nós, olhando-a não esquecemos do fiquem sabendo que existi, e muito, ao ponto de escrever que a minha melhor faceta foi ter vivido presa a uma solução que fui ditando ao poeta, e ele:

“É teu o branco cabelo que muito na tua consciência penetra e conclui, na tua indubitável sinceridade, que esta é ainda tua época de vida, untada pela existência de um soneto que foi razão suficiente e nada explica. Jesus! E eu poeta, neste conjunto que quero favorável de condições a ti, a ti, mal dominada pelos cânones, venho para que partilhes comigo, o canto solidário, apuradíssima epopeia, apta ao elemento humano, fulcro da acção, e dizer-te pela minha mão na tua, que fervilham hipóteses meu amor, em campos hoje muito controversos, mas escritos em documentos comprovativos da data do teu nascimento da qual me não aparto.

Deixa, aceita que em ti me alongue, na calma que persigo espessa desde o tronco da alma, desde a frescura das águas frias, e tu vencida, e tu vitória, e tu memória, pois te seguro a mim, e só assim me chega o estar sem medo.”
 

Sua amiga que deste modo lhe agradece a carta, num abraço de Natal
 

Teresa Bracinha Vieira

2014