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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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RABINDRANATH TAGORE


Nobel em 2013. A sua produção literária, a sua obra musical, tornou-o um dos grandes vultos culturais dos últimos 100 anos.

 

Deito mão ao tradutor e autor do prefácio Joaquim Palma ao livro de R. Tagore para dizer melhor da singularidade deste ser que nos deixou a companhia de um tudo.

O livro “A Asa e a Luz” que surge das características de cada um dos livros “Pássaros Perdidos” e “Pirilampos” é uma edição de 2016 da Assírio e Alvim, a quem ficamos a dever também o conhecimento deste espírito inovador de Tagore.

Nasce em Calcutá em 1861 numa família abastada e contrariando objetivos familiares abandona o curso de Direito e inicia uma estrada muito sua. A sua natural expressão é a poesia tendo composto e interpretado cerca de 200 canções que muito influenciaram o ocidente.

A pintura não lhe foi alheia e o seu legado é profundamente respeitado. Numa dedicação sincera às questões sociais, não deixou de fundar a escola Santiniketan, ainda hoje viva a um legado de desenvolvimento harmonioso entre saberes académicos e as bases da real espiritualidade do ser, tendo sido a verba do Nobel aqui desenvolvida.

Confesso que me atrai também em Tagore, o seu pensamento pelas ideias de Mahatma perguntando-se pela «violenta» da não-violência de Gandhi. Belicismo oculto? Enfim, muitas correspondências com Einstein, André Gide, Roland, Wells, entre outros, abriram muitos dos caminhos da ciência, da religião e da liberdade.

Para Tagore os limites geográficos já tinham perdido o seu significado e a proximidade entre as gentes só se podia dar através do amor. Esta busca de verdade sai reforçada nas suas viagens ao Japão e à China por volta de 1916 levando-o a uma experiência do real e do transcendental, únicas.

E diz:


Perdi a minha gota de orvalho, lamentou-se a flor para o céu da manhã que tinha perdido todas as estrelas.

(…) Deixem em paz o meu descanso que, quando não tenho que fazer, isso me traz uma indizível quietude na sua profundidade de paz, como o anoitecer num areal de águas serenas. (…)

O melhor não vem sozinho. Ele vem na companhia de tudo. (Não quero estar errado para o mundo, para que ele não esteja contra mim. A súplica repreende-me por eu, secretamente, a mendigar.

A poesia haiku embora seguida sem preocupações de perfeição, acaba por provar o quanto não são precisas muitas palavras para nos expressarmos. Tagore fica na planície do aforismo, dos breves poemas, verdadeiros exércitos literários, mas rarefeitos ao silêncio que por eles espreita. Assim penso, permita-se que o diga. Acima de tudo, hoje este é o desafio que faço à leitura deste livro. E tão nítido

 

«Vou remover a minha lamparina,

sem me preocupar

se ela ajuda ou não a remover a escuridão»,

diz a estrela.

(…) Antes do fim da minha jornada,

que eu possa chegar dentro de mim mesmo

àquilo que é tudo,

deixando o invólucro da pele

ir flutuando à deriva com a multidão

na corrente do acaso e da mudança!

 

Quero tanto a música igual a um sorriso que um dia vi. Sonho com uma viagem na sua direção. Quero tanto e tanto o brilho da curiosidade por este livro.

Eis.

 

Teresa Bracinha Vieira

Outubro 2016