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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Reflexão sobre o Brexit (II)

 

   A maioria dos comentários e declarações, debates e interrogações que, acerca do BREXIT, por aí vamos ouvindo continua a soar de modo teatral e dramático: preferem-se ecos emocionais à serenidade da investigação analítica e da reflexão crítica. E a uma atitude mais ética. Poderei andar enganado - oxalá estivesse! - mas receio que a generalizada inquietação gerada pelo referendo britânico irá agravar as divisões existentes, emergentes e latentes, nas sociedades europeias, levando todas as partes a comportarem-se, ainda mais, em função dos seus próprios interesses, ou do que tomam como tal, e de opiniões mais decorrentes de medos e fobias do que de pensamento e diálogo. Porque todos vão sofrendo de surdez e cegueira, o que poderia ter sido uma oportunidade de esclarecimento sobre projetos políticos, económicos e sociais, tornou-se um teste de cruz, a que muitos terão respondido sem quiçá sequer saberem o necessário sobre a justeza e a justiça - ou a falta delas - de uma UE, reagindo apenas ao que, neste momento, sentem, com agrado ou desagrado, como vantagens ou inconvenientes de um regime de vida com outros. Joga-se o destino de milhões de pessoas pela contagem de respostas a uma pergunta simplista, porque seria bem mais trabalhoso ir-se explicando os princípios e mecanismos pelos quais nos vamos governando, e tentar que, muito democraticamente, possamos cada vez mais, em comunidade, governarmo-nos do que sermos só governados...

 

   Creio que um olhar atento e analítico aos resultados apurados descobrirá a realidade de que falo.

   Vejamos:

  1.   No conjunto dos votantes britânicos, 17,4 milhões (51,9%) foram pelo OUT, 16,1 (48,1%) pelo IN.

  2.   53,4% dos ingleses e 52,5% dos galeses OUT, 62% dos escoceses e 55,8% dos norte irlandeses IN.

  3.   Tal distribuição geográfica vai-se esclarecendo, pois surgem mais óbvias as razões da opção das gentes de Gibraltar (95% IN), da City (75,3% IN), ambas ultrapassando o IN de Edimburgo, na Escócia (74%), ou Belfast, na Irlanda do Norte. Os motivos são, compreensivelmente, particulares. Como se vê também em Londres, maioritariamente IN.

  4.   Isto até nem é uma história de esquerda ou direita, como o "critério" futebolístico da gente lusitana se compraz em imaginar o mundo... Porque 32% dos eleitores Labour votaram OUT, tal como apenas 46% dos Conservative disseram Remain in...

  5.   Maioritariamente, reformados, desempregados, fregueses da assistência social, votaram OUT. Não terei, penso de explicar porquê.

  6.   Claro fica que a gente com trabalho, mesmo a tempo parcial, tal como os "imigrantes"  já com direitos políticos (independentemente de suas raças ou credos) votaram IN.

  7.   Também sabemos que por IN votaram 64% dos titulares de um diploma de ensino superior, 73% dos menores de 25 anos, 81% dos estudantes em geral... Parece que o futuro quer IN.

 

   Estes dados de facto falam por si, dizem-nos muito sobre a realidade, não só britânica, mas europeia: como escrevi em reflexão anterior - leiam-se cuidadosamente as entrelinhas - a Europa está prisioneira de interesses particulares. Claro que a City, praça financeira, vota IN e, com os outros mercados financeiros, vê dinheirinho a fugir e se assusta com o resultado OUT. Tal como evidente é que a pequena e média burguesia e o operariado, já entradotes na idade e desconfiados do cumprimento da recompensa prometida, ao fim de muitos anos de labuta, desejem o que lhes parece mais obviamente fácil de conseguir: a barragem ao que chega de fora. Numa sociedade que se foi descultivando e materializando, a ganância e a reivindicação vão comandando tudo, ou quase. Debatemo-nos entre pretensos imperativos do "mercado" e outras "exigências". Apaga-se o diálogo, pior, a possibilidade dele. Não olhamos para nós, nossos problemas e esforços necessários, mas procuramos bodes expiatórios.

  

   Nem sequer olhamos para a realidade, nossa circunstância. Todavia, é nela que estamos, com as nossas imperfeições. O "ocidente" também é responsável pela guerras no mundo islâmico, pelas migrações e refugiados, pela chocante desigualdade na distribuição de recursos, bens e seus rendimentos, por todos quantos acolheu para "rendibilidade" das suas economias, já que os "de fora" eram trabalho mais "em conta" do que os eleitores domésticos, cujos sonhos era necessário alimentar para conseguir os votos desejáveis. Este referendo britânico é mais um exemplo de cobardia política. E os outros que por aí se vão reclamando, à "direita" ou à "esquerda", são de um oportunismo "político" apenas comparável à imagem de uma avestruz que esconde a cabeça, porque essa olha e pensa, num buraco de areia.

 

   Isto dito, não se dramatize o BREXIT. Há, como escrevi, enquadramentos jurídicos, políticos e diplomáticos, já ensaiados, para pôr o que sobrar do RU, em lugar próprio. O que nos deve ocupar será o equacionamento renovado da UE, em equidade, justiça e paz. 

    

Camilo Martins de Oliveira