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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

REFLEXÕES

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Sentem-se confluências de preocupações em nós, mas sobretudo perplexidades insistentes e que nos obrigam à dedicação quase exclusiva de as descodificar. Nem todas serão algum tipo de saber sobre o qual nos devamos debruçar, contudo atentos ao devir, desconfiados ou desencantados pelas supostas virtudes de um hoje que navega de cabotagem, não raro somos operadores interpretativos de um bosque que se consubstancia híbrido dos nossos actos.

Este bosque tem pontos de mira onde a consistência não vacila na adequação do intelecto à realidade. Ainda assim, é visão, e, a cautela, é passível de evitar o exagero.

Assumimos uma perspectiva ecléctica no interpretar, mas não no resultado dessa interpretação, e afigura-se-nos que, independentemente de profissões de fé, o príncipe do cadeado de todos os tempos e das insofismáveis ligações com o que conhecemos, capacidade tem ele de se surpreender, sem caminhos redutores, ou mão, que sempre usámos em nós por sua generosidade, acendendo a nossa luz, precisamente por não termos fechado as anteriores.

Muitas vezes combatemos, o que não desejamos aceitar, através de aditamentos, como se assim se evitasse a doença do combate adiado, no combate protelado, como se a realidade não fosse outra e que pertencesse a que a cada um, sua doença, e desta razão bastante, se ocupe cada qual.

Assim e afinal as perplexidades a que nos referimos acima, nunca serão autopsiadas e as danças dos esqueletos indiferenciados vão gerando o termo da história que há muito começou.

Tornaram-se previsíveis ocorrências naturais tais como as de aderir a um modo de vida de termiteira. Esta a normalização da normalidade de cabotagem, arredados de pressentir que, até o que já é comum, não se tornou necessariamente num normal já normalizado.

Quem admitiria que dentro de si deuses nascidos sem amor se conformassem faustosamente a serem os senhores absolutos do jogo da vida que se joga?

E deste caos sobreviverão outros deuses que nos ajudarão a percepcionar o cerne do porquê das coisas? Será deles que nos chegará a última ideia de Deus, que não entende na morte a fractura?, ou a obstinação do seu silêncio é o amor celebrado fatalmente entre o trágico e o efémero?

Sentem-se confluências de preocupações em nós, mas sobretudo perplexidades insistentes e que nos obrigam à dedicação quase exclusiva de as descodificar, mas, descodificar para as entender e vencer salvando núcleos que por defeito de os reconhecer, os possamos ter afastado dos olhos do sentir.

E acrescento: ante a ideia da ausência de desejo de aceitar a parceria judiciosa da termiteira e um recolhimento ao não-ser, saibamos antes promover a transgressão, aquela que separa águas no esteio do pensamento que nasce a cada dia.

Atente-se ainda que o narcisismo dos homens convoca as influências que lhes convém numa espécie de presunção de um sentido que vale a pena. Está este homem impregnado da lógica do sistema que domina.

E de Kafka esta verdade:

Os leopardos invadiram o templo e beberam o vinho dos vasos sagrados. Esse incidente repetiu-se com frequência. Por fim, chegou-se a calcular, de antemão, a hora do aparecimento das feras. E a invasão dos leopardos foi incorporada ao ritual.

Quereremos servir de ponto útil ao que sem razão tem de ser?, ou desafiar o desafio e o tumulto do presente, sem o compartimentar à submissão do relógio,

sem dividir a vida?

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2014