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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Rose Ausländer: o caminho poético e a experiência do Holocausto na sua obra.

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Rose nasceu em 1901 e faleceu em 1988.

 

"Eu sou uma poeta, sim, sei isso; mas nunca quis ser uma escritora"
Para a autora judaico-alemã a poesia é uma forma mais funda que a escrita em si.

 

A escassez, o parco, o mínimo, o sussurro são características comuns entre muitos dos poetas sobreviventes da catástrofe, também chamados os Poetas da Escassez. Vemos isso em Rose Ausländer, assim como em muito da poesia de Paul Celan, que caminha para um quase emudecimento. Nestes poetas, o mínimo é uma necessidade intrínseca para a verdade da realidade dos sentires. É mesmo uma necessidade estética, julgo. É também a lucidez do WE POSSESS NOTHING, adágio tantas vezes repetido.

Quando Celan escreve sobre a voz e o canto dos prisioneiros nos campos de extermínio, naqueles seus pungentes poemas, claro se torna que a língua era tudo o que restava, tal como naquela história que se inicia com um senhor, que um dia fora um menino de 13 anos, que cantava para os nazistas a fim de sobreviver.

Vejo nestes poetas o que vejo em Rose Ausländer, também ela sobrevivente desta grande trgédia humanitária, vejo nela e sinto o abandono completo da palavra, e a adopção da prática de uma poética do respirar em que o material do poeta se torna no seu próprio corpo, direi, não recusando a sensibilidade que me transmitiu Henri Chopin poeta do movimento avant-garde a respeito da fisicalidade das palavras. Intuo em Rose a ligação à linhagem de poetas do mínimo e do parco no século XX, como na poesia da americana Lorine Niedecker.

Rose Ausländer nasceu em Czernowitz, na Bucovina, quando a região pertencia ao Império Austro-Húngaro, e a sua família estava ligada ao movimento judaico hassídico, forma de misticismo judaico surgido do interior do judaísmo ortodoxo, comunicando-se em alemão e iídiche, língua esta pertencente a um subgrupo germânico e adoptada pelos judeus que a usam em caracteres hebraicos. Depois da guerra, Rose abandona a língua alemã, passando a escrever em inglês e somente na década de 60 ela retornaria à Áustria e à Alemanha, voltando a escrever em alemão.

Entretanto Chernivtsi, passou a ser a conhecida cidade dos poetas mortos. Esta cidade ucraniana, desde há muito metrópole cultural, promove anualmente a herança sempre presente dos artistas judeus que escreviam na língua materna,e, por óbvio, Rose Ausländer não é esquecida.

Da editora espanhola IGITUR surgiu em 2014 uma tradução da poesia de Rose com a ajuda do Goeth-Institut e colaboração do Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão. Este livro que muito gostei de ler – Mi aliento se llama ahora – (y otros poemas) conta com um excelente prólogo de Helmut Braun que bem esclarece o quanto a obra de Rose tem sido estudada intensamente e inclusivamente em Portugal.

E de Rose Ausländer este acutilante, agudo e maravilhoso poema:

 

SEPARACIÓN

 

Te sapararás

de los magnólios

Y los jubilosos pájaros

 

de tu casa

Y las manos

que la hacen habitable

 

de la terca costumbre

de abrir los ojos

Y cerrarlos

cuando el sueño te llama

 

del

que te há creado

 

Te separarás

de tu sombra

que te acompañó toda

la vida a la luz

 

La Tierra se separará de ti

Y de tu amor por ella

 

 

Teresa Bracinha Vieira

2016