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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Luís de Camões

 

7. DE DINAMENE A LUÍS DE CAMÕES 

 

          Gritaste-me o nome pelo vento e ao mar

          p´ra que chegasse ao céu tua agonia,

          a voz da saudade que eu não ouvia,

          envolta em morte, sem poder gritar...

 

          Aqui não se diz, não se exclama, nem

          memória dessa vida se consente:

          na morte o que mais dói é ser silente,

          e  segredo é tudo o que a morte tem.

 

          Nem o pensar em mágoas me adormece

          maginação que já não posso ter...

          Nem lembrança, pois já não sei esquecer,

 

          o coração me aquece ou arrefece...

          Gritaste-me "Não fujas, Dina...! , e eu ouvi-te,

          talvez dissesses ...mene ! , mas perdi-te...

 

8. AINDA DE DINAMENE A LUÍS 

 

          Há entre nós uma lonjura sem caminho

          possível de, no tempo, percorrer:

          como quem diz que já não pode ser

          me apago em tua mente, de mansinho...

 

          No mar revolto, perdida me vias,

          e em desespero de sonho me chamavas

          do clamor das ondas, frias e bravas,

          em que, na noite escura, me perdias...

 

          E quando a louca  esp´rança se esvaiu,

          sentiste que o silêncio não mentiu

          e era fantasma só minha presença...

 

          Nesse terreno assento onde ficaste,

          já morreu a lembrança que apagaste,

          como saudade que perdeu pertença...

 

Foi pelo meu 14º aniversário, em Janeiro de 19..., que, na pilha de livros com que familiares e amigos  -  falando várias línguas e saboreando gostos diversos - todos os anos respondiam ao meu gosto da leitura, que recebi a fresquíssima  edição, pela Livraria Clássica Editora, de sonetos de Luís de Camões, escolhidos e anotados pelo Dr. João de Almeida Lucas, Vice-Reitor do Liceu D. João de Castro. A colectânea incluía, com os nº 38, 39, 40, 41, 42 e 43, seis sonetos atribuídos ao "Ciclo de Dinamene", a escrava chinesa, amante do Poeta, à qual ele dera esse homérico nome, que dizia poder e ânimo, desaparecida num naufrágio, junto à foz do rio Mekong, da nau em que ambos seguiam para Goa... Um dos sonetos do ciclo ficou celebérrimo e começa assim: Alma minha gentil que te partiste... É o nº 42, e roubei-lhe o verso memória desta vida se consente, pondo-lhe dessa em lugar desta... Ao soneto ali com nº 40 roubei o verso como quem diz que já não pode ser... Com todos eles fui conversando, inspirado sobretudo pela figurinha ténue e imensa de uma escrava chinesa que imaginei amando e experimentando  um etéreo que não conhece, e cujo retrato camoniano contemplo no soneto nº38, que acaba assim:

         

          um escolhido ousar; uma brandura;

          um medo sem ter culpa; um ar sereno;

          um longo e obediente sofrimento:

 

          Esta foi a celeste fermosura

          da minha Circe, e o mágico veneno

          que pôde transformar meu pensamento.      

 

Camilo Martins de Oliveira