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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Espinoza

 

INTERVALO - II

 

O soneto "com Mestre Eckhart", e o outro, aqui simultaneamente publicado, onde eu livremente traduzia versículos que a esposa canta no "Livro do Amor" (o Cântico dos Cânticos), poderão estranhar-se, num tempo em que as pessoas - mesmo as que consideramos muito religiosas - se arredaram de caminhos da mística pura ou, de modo mais chão, do gosto e da prática da meditação desprendida. Sendo, eu mesmo, homem de poucas devoções, mantenho o hábito de entregar alguns períodos dos meus dias a algo que posso chamar oração e é, afinal, uma intuitiva contemplação mística, poética (quanto mais poético, mais verdadeiro, disse Novalis), intelectual, do mistério de mim e de tudo. No que não sei explicar, creio encontrar Deus. Não o persigo, não quero nem mando agarrá-lo, não o construo, nem o formulo. Apenas, despojado e indefeso, o espero. Porque Deus nasce do nada, e sem Deus nem o nada seria. Também não o espero sozinho: na minha oração, estão, mais sentidamente, os que me são mais próximos ou queridos, mas, igualmente sempre, todos os seres que eu conheço, desconheço ou imagino. Como numa comunhão, em que os homens todos se reconhecem na semelhança de Deus. Cito seguidamente alguns passos de sermões de Mestre Eckhart, para começar a contar uma reunião que tive com ele - que é do séc. XIII-XIV - em que também participaram o místico persa Ansari - que era do sec. XI, e de Herat, no actual Afeganistão - e Espinoza - judeu português de Amsterdam, no séc. XVI. Escutei-os e, apesar de muitas diferenças e divergências entre eles, achei-lhes um ar de família... A pequena faísca do intelecto é a chave da alma, ... algo como uma faísca de natureza divina, uma luz divina, um raio e uma imagem impressa de natureza divina (sermão 41). ... É claro que entendemos o calor sem o fogo, e o brilho sem o sol; mas Deus não se pode entender sem a alma, nem a alma sem Deus, de tal modo são um (sermão 59). ... A imagem não é por ela mesma, nem é para ela mesma ; ela é simplesmente pelo cuja imagem é, e para ele plenamente tudo o que ela é. A quem é estranho àquilo de que ela é imagem, ela não pertence e não é para ele (sermão 16). ... Disse por vezes que só uma potência no espírito é livre. Tanto disse que era uma muralha do espírito, como disse luz do espírito ou ainda pequena faísca. Mas agora digo : não é isto nem aquilo; todavia á algo mais acima disto ou daquilo do que o céu acima da terra. Por isso lhe dou agora um nome mais nobre, nome que nunca dei, e ele ri-se da nobreza e da maneira, e está acima disso tudo. Está despojado de todos os nomes e livre de todas as formas, despojado e livre como Deus é despojado e livre em Si mesmo. É tão plenamente um e simples como Deus é um e simples, de modo que de maneira nenhuma lhe podemos deitar o olhar (sermão 2). Sabemos que Ansari não leu nem conheceu Eckhart ou Espinoza - viveu uns séculos antes de qualquer deles - nem nenhum destes o terá conhecido, posto que não consta que houvesse traduções dos seus escritos ou ditados antes do sec. XX, isto é, antes de frei Sérgio de Beaurecueil. Se Espinoza  soube quem era ou o que disse Eckhart... tampouco sei.  Mas penso que não ; ou, se lhe calhou a talho de foice, tê-lo-á ceifado sem saber se era trigo ou joio. Mas o místico persa-afegão tem esta intuição: Não podemos encontrar Deus senão por Ele, e é, para isso, preciso que a dualidade desapareça. Então, é Ele que se encontra em nós. E um homem fora do comum, teólogo do cristianismo e do islão, doutorado também pela Sorbonne, Serge de Laugier de Beaurecueil, que se esqueceu de ser conde de linhagem antiga, para se fazer frade dominicano e partilhar o pão e o sal de cada dia com os muçulmanos afegãos - sobretudo os desvalidos de várias etnias e confissões islâmicas, que, junto dele, em Cabul, se encontravam como irmãos na humanidade - comenta assim o acima dito, que traduziu: À parte a Unificação, todas as moradas e todos os estados são marcados pela deficiência. Não se trata assim de uma imperfeição possível na realização deles, mas de uma deficiência intrínseca: as moradas e estados místicos assentam, na verdade, sobre uma ilusão, a da consistência e da eficiência do homem, no seu ser e no seu agir, que o põe na dualidade diante de Deus. Ora, Deus é único, primeiro e último, e disso os privilegiados, a pouco e pouco, tomarão consciência : nada são e Deus é tudo, só Ele é e só Ele age. «Falar-se de cara a cara é ser ímpio. Infeliz! Deverás desaparecer, e não chegar!» exclamava Ansari em As Gerações dos Sufis. O comum das gentes prodigaliza esforços para "chegar" a Deus, é caminho necessário. Os privilegiados, iluminados e conduzidos por Deus, compreendem que devem "desaparecer". Então, no termo do itinerário, apenas restará, para eles e neles, a face do seu Senhor: «O Senhor é tudo». Para nós, que andamos dispersos pelos ruídos variáveis da circunstância, a intuição da unidade, ou pulsão mística, mais do que difícil de compreender, pode ser alheia. Sobretudo para "praticantes" de religiões que inundam os horizontes espirituais de muitas imagens, devoções, práticas, promessas, aparições... Muitas vezes me pergunto se, afinal, aqueles que se sentem perdidos no isolamento para que os empurrou o barulho do mundo não estarão mais desejosos de escutar o silêncio necessário de Deus... Para Ansari, místico muçulmano, a última morada no caminho da unificação é a da absorção da criatura em Deus. Assim o explica frei Sérgio: A Unicidade de Deus não poderia ser proclamada senão por Ele mesmo e se, como graça derradeira, ele derramar um fulgor dessa proclamação divina no íntimo do coração dos seus eleitos, estes só podem acolhê-lo em silêncio. Poder-se-á ainda falar de acolhimento? E cita: « O Sol está ali e o raio aqui. Entre Sol e raio, quem jamais viu uma separação? O Sufi está inteirinho ali, e o seu vestígio aqui... O vestígio não está separado do Todo : aqui só Tu és ; e ali só Ele é.» Ansari era homem de contemplação, meditação e intuição, embirrava com teólogos e filósofos, com raciocínios lógicos. Teria, penso eu, essa confiança íntima na certeza da pontaria cega dos que confiam no seu íntimo, como os archeiros japoneses, que cerram os olhos para não verem o alvo, e assim o sentem dentro de si... Mas que diria ele de certas afirmações de Espinoza? O conceito de natureza como natura naturans e natura naturata surge no pensamento cristão ocidental (inclusive em São Tomás de Aquino e Mestre Eckhart) por via da tradução latina de textos de Averroes. Para Bento Espinoza - digo eu, simplificando - ele reflecte dois olhares sobre a Substância única, o Ser: diz-se naturans para significar Deus enquanto causa livre, e diz-se naturata para referir tudo o que decorre da necessidade da natureza de Deus. Não se trata de cindir o Ser uno, em cuja totalidade global a natura naturans é a acção de Deus, e a natura naturata os efeitos ou reflexos dela. Para o filósofo judeu português, excomungado da sinagoga, por exemplo, a alma humana é uma parte do entendimento infinito de Deus. Consequentemente, quando dizemos que a alma humana percebe isto ou aquilo, apenas estamos a dizer que isso é Deus, não enquanto é infinito, mas enquanto se explica pela natureza da alma humana, ou constitui a essência da alma humana, tem esta ou aquela ideia... (Ética, II, 11). No seu Spinoza, biografia publicada em 2007 (Tallandier, Paris), Jean Préposiet resume assim o sentimento de profunda alegria espiritual que alimenta a 5ª secção da Ética, e que tanto surpreende o autor francês: «Natureza naturante» e «Natureza naturada», formando uma totalidade orgânica e intelectual, implicam-se mutuamente, mais não sendo do que duas faces de uma só e mesma realidade. É esse laço «substancial» que nos leva a compreender (por «experiência», diz Espinoza!) que há em nós um germe de eternidade. Na medida em que, pela Razão, ele percebe as coisas sub specie aeternitatis, o homem adquire um conhecimento de Deus e de si mesmo, e sabe que ele é em Deus e por Deus se concebeComo na tradição neoplatónica, trata-se de reencontrar em nós algo mais profundo do que nós. A isso chama Espinoza o Amor Intelectual de Deus. Muito se tem repetido que este será o século da religião. Penso que sim, não no sentido da reafirmação de fórmulas dogmáticas de crenças sectárias, menos ainda - apesar das manifestações odiosas a que traumaticamente vamos assistindo - de proselitismos violentos. A religião é o encontro dos homens com a verdade universal que os habita, como quando Turandot proclama que o único nome que reconheceu é Amor. 

 

Camilo Martins de Oliveira