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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TEATRO ANGRENSE

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES II 

 

Fazemos hoje uma referência ao Teatro Angrense, pois constitui ele também um belo exemplo, em plena atividade, do que chamamos a “geração” dos teatros oitocentistas, construídos ao longo do país e mesmo, como aqui se vê, nas zonas mais descentralizadas – mas nem por isso, evidentemente, menos relevantes no ponto de vista urbanístico, arquitetónico e cultural: geração definida e efetivada na sequência do garreteano Teatro de D. Maria II, inaugurado, como bem sabemos, em 1846.

 

E vem a propósito, então lembrar que Garrett e António Feliciano de Castilho, deixaram a sua marca específica nos Açores, onde estiveram, em épocas separadas, por razões e permanências diversas, ambas aliás algo episódicas – mas nem por isso, note-se bem, menos relevantes e significativas na cultura nacional e local.

 

Em qualquer caso, o que agora nos interessa é evocar a fundação e a permanência, em plena atividade deste Teatro Angrense, devidamente adaptado também ao espetáculo cinematográfico, modernizado no ponto de vista da atividade técnica e cultural, mas sem que isso implique a destruição da sala oitocentista: exemplo que, como temos aqui visto, não foi nem é acompanhado em tantos e tantos casos, por esse país fora… E nesse aspeto só há que elogiar a politica urbanística prosseguida em Angra do Heroísmo, que aliás lhe valeu ter sido classificada como Património Mundial da UNESCO.

 

O Teatro Angrense representa um belo exemplo dessa descentralização, acentuada pela insularidade, que à data da construção e inauguração, era ainda mais evidente. Trata-se, de facto, de um belo exemplo de arquitetura de espetáculo, inaugurado que foi em 22 de novembro de 1860. As notícias da época dão-nos conta de uma celebração que envolveu, além de representações dramáticas cindas de Lisboa, um concerto no salão nobre, a cargo da Banda do Regimento de Infantaria: celebração típica da época!…

 

O Teatro Angrense beneficiou de obras de remodelação funcional e arquitetónica, primeiro em 1926, posteriormente já na década de 80 do seculo passado, tendo sido entretanto municipalizado.

 

Ora, tal como já escrevi na sequencia de uma detalhada vista para a elaboração do livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) e que posteriormente repeti,  o Teatro Angrense mantem-se com alterações aceitáveis numa estrutura original oitocentista que se conservou,  apesar de mudanças, como a do fosso da orquestra, que  mal se descobre.

 

E acrescente-se uma nota de história que valoriza o próprio teatro em si, pelo enquadramento urbano.

 

Em 1599 havia no local um armazém de depósito de fazenda e mais mercadorias vindas do Oriente. Num surto de peste que assolou a cidade, o armazém foi incendiado: entendeu-se, bem ou mal, que a epidemia tinha lá a sua origem…

 

Passados mais de dois séculos, constrói-se então o Teatro. E em qualquer caso, a sala “resistiu” às adaptações a cinema, e é notável no seu conjunto de balcão, frisas e camarotes.

 

Acrescente-se que essa estrutura basicamente inscreve-se na sequencia histórica de infraestruturas de cultura e de espetáculo que marcam os Açores, e que, na Ilha Terceira, ainda se concretiza hoje nos Centros Culturais de Angra do Heroísmo e de Praias da Vitória, ambos segundo projetos do arquiteto Miguel Cunha, autor ainda de um Centro Cultural na Graciosa.

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO MICAELENSE

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EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES I

 

Faremos aqui, tal como o título indica, algumas evocações dos principais teatros e cineteatros dos Açores, na perspetiva habitual da análise histórica e da situação atual. Como é costume, temos presente o enquadramento geográfico mas também cultural de cada um dos casos referidos. Ora, se essa abordagem se justifica em termos históricos de âmbito centralizado, mais se impõe na evocação, análise e descrição critica dos teatros-edifícios de zonas menos centrais por razões históricas e/ou geográficas.

 

Há que ter em conta, porem, que tal descentralização mais reforça o mérito da própria iniciativa de construção e funcionamento de edifícios teatrais, numa época em que não era obviamente fácil nem o acesso nem a garantia de exploração…

 

Ou por outras palavras: era mais fácil construir e rentabilizar, no ponto de vista económico, um teatro em Lisboa do que em São Miguel ou nas outras ilhas dos Açores, e na Madeira.

 

Ou não será? Estamos a referir designadamente os séculos XIX/XX e não remontamos por agora a épocas e cidades mais distantes: lembrando entretanto que já aqui evocamos desde os teatros romanos até a teatros portugueses mais antigos de África e do Brasil.

 

Sem ir tão longe no tempo e no espaço, lembramos hoje a tradição de teatros em São Miguel: e iremos recordar teatros mais ou menos históricos dos Açores e da Madeira. E vem a propósito então referir que, de acordo com estudos de José Leite de Vasconcelos, fazia-se já teatro popular nos Açores a partir do seculo XVI, com significativo incremento no século XVIII. (cfr. “Teatro Popular Português” vol. III).

 

Mas não vamos tão longe: o seculo XIX já é pródigo em teatros nos Açores e na Madeira. Especificamente, evocamos então um Teatro Micaelense, ou melhor, os Teatros Micaelense. Porque, de acordo com Helena Dias, começa a falar-se de um Teatro Micaelense em Ponta Delgada ainda antes de 1850. Castilho, que lá viveu de 1847 a 1850, terá sido um dos grandes entusiastas da construção. (cfr. Helena Dias in “Teatro Micaelense” ed. Ponta Delgada 2004).

 

Mas só em 1865 é aberto ao publico o primeiro Teatro Micaelense, situado em Ponta Delgada e construído a partir das ruinas de uma Igreja. O projeto inicial foi concebido pelos arquitetos Augusto Serra e Herculano Gomes Machado, que confiaram a decoração do interior aos cenógrafos Hercules Lambertini e Cândido Xavier.

 

A iconografia da época mostra-nos uma fachada clássica de 5 portas encimadas por cinco janelas do salão nobre. A sala à italiana tinha 16 frisas e 38 camarotes.

 

E para variar, transforma-se em cinema pelos anos 20 e arde em 9 de fevereiro de 1930! Destino corrente nos teatros portugueses!...

 

Até que em 31 de março de 1951 é inaugurado um novo Teatro Micaelense, a partir de um projeto de Raul Rodrigues de Lima. Encerra decorridos anos, reabre em 4 e setembro de 2004 depois de uma “modernização pacífica” da autoria de Manuel Salgado, que assim mesmo a classifica!...

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DUARTE IVO CRUZ