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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Ainda sobre a arquitetura de Carlo Scarpa.

 

A arquitetura do movimento moderno ansiava eliminar qualquer ligação ao passado, qualquer tipo de atitude histórica e qualquer desejo de contextualização. Enfatizava-se a ideia de tábua rasa, vindo do exemplo do 'Plan Voisin' corbusiano. Entre os arquitetos modernos há uma reação exagerada contra academicismos, combinado com a ideia de que o progresso vem com o novo, com o nunca visto e com o original. Por isso, para um arquiteto, até aos anos setenta do séc. XX, a ideia de trabalhar sobre o existente não era muito sedutora. Porém, Carlo Scarpa (1906-1978) veio provar o contrário. A arquitetura de Scarpa entende muito bem, aquilo que William Morris descreveu como sendo a continuidade da história onde nada se mantém e onde tudo muda com o tempo. 

 

Scarpa projetou muitos museus e espaços de exposição - e a sua grande realização neste domínio dá-se no modo como o objeto e o sujeito se relacionam. Scarpa coloca o objeto sempre em conversa direta com o observador (através do espaço desenhado em seu redor) e que deste modo passa a ter um papel ativo - no Museu de Castelvecchio, por exemplo, para que a estátua Cangrande fosse o ponto fulcral do edifício, demolições radicais foram feitas no canto edifício. 

 

Scarpa conseguiu desenvolver uma linguagem muito específica e que  pertence inteiramente ao séc. XX.  Podemos encontrar referências japonesas, de Frank Lloyd Wright e do movimento holandês De Stijl, ao escolher deliberadamente planos assimétricos. 

 

O detalhe da sua arquitetura é impressionante - Scarpa tinha uma adoração pela junta e pelo desenho dos objetos mais insignificantes (a maçaneta, a porta, o corrimão, a guarda, a janela, o degrau). Veneza é a maior referência para Scarpa e pemitiu formar uma arquitetura quase artesanal, onde ideias de leveza, flutuação, tensão, passagem do tempo e ruína estão sempre presentes. 

 

Scarpa trabalhava no local de construção e dedicava muito tempo a investigar a história do edifício. Por isso, a arquitetura de Scarpa é capaz de redirecionar a atenção a detalhes históricos esquecidos, é capaz de se perder na individualidade e no ritmo irregular de cada matéria colocada. É uma experiência sensorial por excelência - o som da água e o toque do revestimento determinam a dimensão do espaço projetado.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A habitação coletiva no movimento moderno. 

 

O movimento moderno ao aliar a casa unifamiliar à unidade de habitação vertical permitiu criar uma profunda relação complementar entre o indivíduo e a coletividade. De modo, a poder conceber uma casa na cidade, tão humana, diversificada e diretamente comunicante com a natureza, como a que se havia concebido para o campo. 

 

A célula em altura, no domínio da habitação social foi a solução mais higienista que afrontou com mais pertinência os problemas postos na cidade logo após a revolução industrial. As descobertas processaram-se em torno da célula estreita, do duplex, do semi-duplex e do piso único. (N. Portas)

 

O aparecimento do grande bloco moderno justificou-se ao conseguir responder com eficácia às novas exigências da civilização industrial de construção rápida, de prefabricação e modulação. 

 

Em muito, a pesquisa da habitação coletiva, beneficiou da experimentação de novas espacialidades, organizações funcionais e novas vivências do espaço doméstico das vivendas modernas.

 

'Foi na habitação coletiva, adotada para servir ou programas urbanos de luxo ou de âmbito social, que se ensaiaram, com um sentido de maior radicalismo formal e funcional, novos sistemas de acessos, de organização das habitações de acordo com modernas noções das áreas e cubicagens necessárias, definidos segundo os novos conceitos de habitar.', Ana Tostões In 'Os Verdes Anos na Arquitetura Portuguesa dos Anos 50.'

 

O bloco de habitação coletiva moderno é uma unidade autónoma na cidade, que inclui pequenas estruturas comunitárias - como creches para crianças, lavandarias coletivas, unidades de comércio de primeira necessidade, salão comunitário, piscinas e jardins.

 

Ora, Le Corbusier desenvolve o Plano da Cidade Radiosa, segundo unidades de habitação autónomas que concentram em altura todos os sistemas - habitação, comércio, escritórios, serviços, aproveitando os terraços como grandes espaços coletivos de jardins suspensos com piscinas e outros equipamentos.

 

No final dos anos 40, concretizou-se a Unidade de Habitação de Marselha, a obra mais influente de Le Corbusier e sem dúvida a mais copiada. Esta obra constituiu-se o modelo arquitetónico dos grandes edifícios coletivos. As suas formas são próximas do universo da máquina e o bloco assente em grandes pilotis está rodeado de grandes espaços verdes e de sol.

 

Num só edifício consegue-se aliar a casa unifamiliar, o bloco coletivo e a cidade. Num só edifício une-se arquitetura e urbanismo. 

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca da obra de Carlo Scarpa

 

'The truth is in the made.', Carlo Scarpa

 

Olhar para a arquitetura de Carlo Scarpa (1908-1978) ensina-nos a descobrir o interesse pela espessura da história, da matéria, da natureza, do detalhe e da invenção. 

 

A arquitetura de Scarpa é acerca de camadas, de linhas, de massas e de volumes construídos. É um esculpir de superfícies. 

 

Scarpa dá importância ao peso (se constrói em betão) e à leveza (se constrói em vidro). Concebe a forma como um todo, com elementos inseparáveis. O imenso respeito pelo contexto é concretizado pela importância e pela presença que cada elemento tem.  

 

'In the work of Carlo Scarpa, ‘Beauty’, the first sense. Art, the first word, then Wonder.', Louis Kahn 

 

Nuno Portas escreve no texto 'Carlo Scarpa. Um Arquiteto Moderno em Veneza.', que quem observar em pormenor a obra de Carlo Scarpa, não deixará de notar a invenção que caracteriza cada forma, cada articulação e cada elemento construtivo, por mais insignificante que seja. A arquitetura, surge assim como sendo um exercício intenso de desenho do detalhe. É necessário referir que Scarpa não fazia desenhos finais. Desenhava repetidamente sempre sobre o mesmo desenho. As camadas de espaço e de cor acumulavam-se num só desenho. Os seus desenhos são assim um registo simultâneo do processo do pensamento e do processo de construção.

 

O diálogo que Scarpa mantém com o passado é de abertura, porque o tempo presente está nas formas inventadas (que não são puras nem ideais, como declaravam os modernos). Afirma-se sempre um espírito de liberdade mas atento a condicionalismos. Cada forma aparece como sendo em simultâneo construção e detalhe, recusando qualquer simplismo nas soluções encontradas. 

 

Para Scarpa, o tratamento do espaço é sempre complexo, dinâmico, intenso, intencional e dramático. Há uma constante diferenciação de pés-direitos, frequentes interligações dos espaços e uma contínua tensão entre os espaços cobertos e descobertos (N. Portas).

 

'Scarpa sai assim de uma habitual e limitada redução da obra arquitetónica à sua planta, tornando-a complexamente volumétrica através do estudo em altimetria em que conjuga o tratamento dos tetos, a iluminação, o jogo dos cheios e dos vazios, a variação certa no emprego dos diferentes materiais.', Nuno Portas

 

A obra de Scarpa precisa imensamente do ambiente preexistente e das referências exteriores para se tornar mais verdadeira. Os condicionalismos são para Scarpa reais sugestões para a sua imensa invenção arquitetónica. 

 

O exemplo da obra de Carlo Scarpa é, assim, uma lição profunda de arquitetura sobre a importância simultânea do todo e do detalhe - onde a história, a memória e a fértil invenção humana contribuem para a continuidade entre os espaços interiores e exteriores, naturais e artificiais, iluminados e escuros, leves e pesados, complexos e puros.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

Uma breve introdução ao primeiro modernismo em Portugal. 

 

O movimento moderno teve a sua primeira expressão em Portugal, nos anos 20, coincidindo com a emergência da ditadura militar e dominando a construção das cidades portuguesas durante duas décadas. 

 

O primeiro modernismo envolve duas vertentes muitas vezes complementares: os exemplos 'Art Déco' (em meados dos anos vinte) desenvolvem-se depois da Exposição das Artes Decorativas de Paris de 1925, afirmando uma atenção ao pormenor não funcional, com reminiscências geométricas somadas a linguagens de cariz africano e primitivo; os exemplos construídos em volumes lisos e puros, coincidem com a introdução de novos materiais de construção como o betão, o aço e as grandes superfícies de vidro.

 

Os arquitetos que marcam esta época são Cristino da Silva, Pardal Monteiro, Carlos Ramos, Cottinnelli Telmo, Cassiano Branco e Jorge Segurado. Para alguns, decisiva foi a passagem pelo atelier de Ventura Terra, que lhes abriu perspetivas sobre o mundo exterior, transmitindo uma visão de certo modo racional. Igualmente determinante foi a divulgação de revistas estrangeiras e a realização de viagens ocasionais que cimentaram a nova ideologia.

 

Conhecia-se então, mas de modo superficial, obras de Gropius, de Mies, de Corbusier, dando-se mais importância ao modernismo não vanguardista de Mallet-Stevens. Estas novas conceções realizavam-se no plano formal considerando os aspetos funcionais e construtivos, mas sem o impulso teórico e ideológico que assinalava a mudança social.

 

Os responsáveis do sector cultural do regime estavam interessados em exteriorizar uma imagem de renovação e tolerância. O primeiro edifício que manifesta estas propostas modernas é o Cine-Teatro Capitólio, projetado em 1925 e inaugurado em 1931, de Cristino da Silva. É este arquiteto que tem na Escola de Belas Artes de Lisboa um papel preponderante - orientando a aprendizagem para a obtenção de uma linguagem racionalista conjugada com conceitos monumentalistas. Cristino da Silva, a título de exemplo, acentua, com grande rigor e simplicidade, no edifício do Liceu Nacional de Beja, os elementos essenciais da composição - reduzindo assim a mensagem arquitetónica à sua expressão mais simples. Pardal Monteiro, ao contrário de Cristino, nunca abdicou do sistema modernista funcional a favor da arquitetura do regime. O seu léxico é de fácil aceitação e compreensão. Da sua autoria são o Instituto Superior Técnico, as Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, o Instituto Nacional de Estatística, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, a Cidade Universitária (Reitoria e Faculdades de Letras e Direito) e a Biblioteca Nacional. Carlos Ramos deixou-nos obra reduzida - o Pavilhão do Rádio do IPO acentua relações volumétricas com citações implícitas à obra de Gropius - o exterior acusa totalmente as funções internas. Foi professor da Escola de Arquitetura do Porto e defensor da aplicação dos princípios modernos no caso português. Arredado das encomendas oficiais, por razões de ordem política, Cassiano Branco situou-se como personalidade mais original e mais consciente dos valores estéticos do modernismo (J.A. França, 1979).

 

Foi este arquiteto que influenciou a arquitetura corrente da cidade, porém não consegue apagar o seu ecletismo em certas obras. Jorge Segurado contribuiu para esta nova linguagem com a Casa da Moeda. Cottinnelli Telmo é um artista multiforme, tendo sido arquiteto chefe da Exposição do Mundo Português, participou assim no termo simbólico do primeiro modernismo português. 

 

Afinal, não devemos esquecer o clima de exaltação nacionalista da Exposição e a cedência a valores estéticos tradicionais e rústicos que procuravam ilustrar a ideologia do regime - no entanto não deixam de se fazer sentir no discurso arquitetónico fundamental da iniciativa, as convicções modernistas mais profundas.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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A cidade linear.

 

'Decay, disorder and conflict do not seem as predictable in environments of such visual clarity.', Otis Stevens and Mcnully

 

No livro 'World of Variation', de Mary Otis Stevens e Thomas Mcnully, lê-se que a cidade como conceito é muitas vezes descrita como sendo uma simples rede de comunicação. Como uma máquina ideal para acomodar uma conglomeração de necessidades físicas e psicológicas, ou como um determinado organismo composto por pessoas, veículos, edifícios, parques e meios de ligação.

 

As cidades com população mais elevada, densa e heterogénea, são ainda pensadas como cidades ideais e alguns estudos de planeamento preveem, num futuro próximo, áreas metropolitanas com 25 a 50 milhões de habitantes.

 

'To allow for time - time as a form that the future fulfills - is one of the new tasks of the architect and planner. Concern for the future, however, involves memories of the past and ideals of the present. As a race, men seem to display an inherent desire for permanence, to hold onto the minute that is passing, to preserve the environment that is changing.', Otis Stevens and Mcnully

 

Apesar das diferenças óbvias entre as sociedades estáticas do passado e a mobilidade e constante mudança dos padrões de vida tão característicos do presente, a geometria podem ainda ser um instrumento útil para visualizar situações conceptuais e sócio-culturais. Ao aplicar-se a geometria, nos dias de hoje, não é necessária a rigidez dos conceitos de outrora, mas utilizada como uma abstração pode estimular novas ideias.

 

Segundo Otis Stevens e Mcnully, as condições da vida atual pedem por um novo desenho urbano, que inclua constante crescimento e mobilidade contínua. Assim, surge a sociedade linear como conceito ideal.

 

A sociedade linear é uma resposta abstrata a emaranhados urbanos insolúveis e a crescimentos formais desmedidos. Na verdade, pretendem-se resolver todas as excessivas justaposições, de qualquer sociedade contemporânea, que deterioram a qualidade vida do homem. Nestes termos, a cidade deixa de ser uma forma visual e social isolada. A proposta empenha-se em organizar uma nova sociedade, que inclua e agregue várias e diferentes nações. A sua principal preocupação é articular mudanças de atividade, escala e topografia, tanto de regiões rurais como de concentrações urbanas. 

 

'One can imagine feeling an ease, a pleasure, from understanding the relationship between activities as one moves through the distinct, expressive environments evolving on the different growth lines.', Otis Stevens and Mcnully

 

Embora a ideia de sociedade linear seja intuitiva, nas últimas décadas de explosão demográfica, o conceito foi-se tornando gradualmente mais concreto. É uma forma de organização social, não só imaginária, mas um padrão bem vísivel e real de fixação humana. Consiste num movimento de várias faixas de atividade que correm paralelas e sempre contínuas. Esta forma linear é capaz de lidar com as pressões de expansão produzidas por sociedades industriais avançadas e pode absorver as suas escalas e densidades urbanas de maneira ordenada e mais humana. É uma solução inerentemente supranacional. A geografia iria também influenciar a sua definição - sobre montanhas ou sobre o mar a forma linear iria quase desaparecer e em regiões ainda não desenvolvidas as linhas de crescimento poderiam ser simplesmente um direito de passagem que poderia modelar surtos de atividade futura. 

 

A sociedade linear indica um planeamento a longo prazo, com o resultado de que áreas urbanas remotas deixariam de existir.

 

'One perceives inhabitants of such a society becoming visually oriented so that in time they see the abstract patterns created by the daily associations, and as a result develop environments sensitive to the tempo of movement and constantly changing scales of social relationship.', Otis Stevens and Mcnully

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Matisse e as 'Notas de um pintor.' 

 

'A work of art must carry within itself its complete significance and impose that upon the beholder even before he recognizes the subject matter.', Matisse 

 

O texto 'Notas de um pintor' foram escritas em 1908, logo após Henri Matisse (1869-1954) ter-se estabelecido como principal mentor dos fauvistas.

 

Ora, no texto citado, Matisse afirma que numa pintura, acima de tudo, o mais importante é a expressão. O pensamento do pintor não pode separar-se da materialidade da pintura, pois o pensamento não vale mais do que a sua expressão. Segundo Matisse, a expressão será mais completa quanto mais profundo o pensamento. 

 

'I am unable to distinguish between the feeling I have about life and my way of translating it.', Matisse

 

Expressão, para Matisse, não se refere somente a manifestações de movimentos violentos. O todo da composição é expressivo - o espaço ocupado pelas figuras, os espaços vazios, as proporções. Tudo na pintura, tem a sua importância.

 

Composição é o modo de dispôr os diversos elementos de acordo com a sensibilidade do pintor. Todos os elementos da pintura são visíveis e têm um lugar específico e determinante. Matisse chega mesmo a declarar que a pintura, no seu todo, deve ser harmoniosa e que qualquer detalhe desnecessário substituiria, algum outro detalhe essencial, na mente do espectador. Uma pintura contém uma força expansiva, capaz de dar vida às coisas que a rodeiam.

 

'Nowadays I try to put serenity into my pictures and rework them as long as I have not succeeded. Charm, lightness, freshness - such fleeting sensations.', Matisse 

 

Ao pintar, Matisse deseja alcançar um estado de espírito e um estado de sensações condensadas. 

 

Matisse procura características na natureza, mais verdadeiras e mais essenciais, para que possa dar à sua pintura um significado mais duradouro. O movimento capturado durante a sua manifestação tem muito significado mas não pode estar isolado da sensação. Segundo Matisse, a realidade pode ser expressa de forma literal ou evocativa. O artista ao retirar-se de tentar mostrar a realidade tal como ela é, consegue obter resultados de grande beleza e profundidade.

 

'I must precisely define the character of the object or of the body that I wish to paint. I cannot copy nature in a servile way; I am forced to interpret nature and submit it to the spirit of the picture.', Matisse 

 

Para Matisse, todo o significado da pintura está já na conceção. Existe, desde logo, uma clara visão do todo - se existe ordem e claridade na pintura, significa que existe à mesma ordem e claridade na mente do pintor.

 

A cor por sua vez deve servir a expressão da melhor maneira possível. Os aspetos expressivos da cor, para Matisse, impõe-se de uma maneira puramente instintiva, através da observação, da sensibilidade e através da experiência.

 

É através da figura humana, que Matisse, encontra o seu maravilhamento pela vida pura e serena.

 

'The role of the artist, like that of the scholar, consists of seizing current truths often repeated to him, but which will take on new meaning for him and which he will make his own when he has grasped their deepest significance.', Matisse 

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

As feras do século XX (parte II). 

 

'Only the series of colors on the canvas with all their power and vibrancy could, in combination with each other render the chromatic feeling of that landscape.', M. Vlaminck

 

Foi a partir do encontro com Derain que em 1900, Maurice Vlaminck (1876-1958) resolveu abandonar o ciclismo, a mecânica e a música. Pinta violentamente. A cor estala com vivacidade e sem disciplina nas suas pinturas. O encontro com a obra de Van Gogh foi o acontecimento decisivo. Emprega a cor no seu estado puro, dinamizando a técnica daquele pintor. É transportado pelo instinto, expressando o mundo livre, cheio de vida. A partir de 1908, experimenta algumas composições cubistas. Mais tarde explora uma outra técnica com paisagens dramatizadas pelos contrastes de sombra e luz.

 

Ora, a obra de Georges Rouault (1871-1958) é fruto de uma experiência dolorosa. Foi atraído pelos tons luminosos e aprendeu a captar a realidade por instinto. Rouault inspira-se em Rembrandt. Dedica-se a pintar palhaços, prostitutas e acrobatas. Procura denunciar a realidade repugnante, representando também cenas religiosas. Curioso é saber que, também expõe em 1905 no Salão de Outono, juntamente com os fauvistas, tendo em conta que a sua obra está mais próxima do expressionismo.

 

O encontro com Dufy e Friesz levou Georges Braque (1882-1963) a interessar-se pela pintura fauvista. Inspira-se no trabalho de Carot e Poussin, dedicando-se no início da sua carreira ao impressionismo. Braque usa a cor pura. A partir da exposição de Cézanne, em 1907, dá uma nova direção à sua obra. Ao conhecer Picasso, desenvolve a técnica cubista. 

 

No atelier de Gustave Moreau, ao lado de muitos outros fauves, Albert Marquet (1875-1947) descobre a utilização da cor pura. Em 1907, organiza a sua primeira exposição. Aqui revela-se um pintor do ar livre, atraído pelas paisagens à beira-mar. O seu desenho é rápido, breve e preciso. Esforça-se por atenuar as cores muito fortes, trazendo uma ordem ao quadro através dos contornos fixos. Deixou o fauvismo para se dedicar a um impressionismo calma e simplificado.

 

Othon Friesz (1879-1949) ao aproximar-se de Matisse, em 1904, dirige-se para o estudo da cor. A sua evolução para o fauvismo foi acelerada por várias viagens. Numa viagem a Munique com Dufy, em 1909, executa vistas muito estruturadas que indicavam o abandono da cor no seu estado mais puro. Nunca, na verdade procurou os contrastes violentos. 

 

No Havre, no atelier do pintor Bonnat, Raoul Dufy (1877-1953), aprende o gosto pela pintura. Nas paisagens parisienses e na representação de praias emprega as cores primárias, sob influência de Matisse. Mas ao abandonar o realismo impressionista comanda-o a imaginação. Em 1906, com Friesz aumenta a intensidade da cor, para desligar-se da objetividade. É a ideia de criar um universo de formas que não se vêm, que representa segundo uma expressão reduzida. Foi a obra de Cézanne, que em 1907, o direcionou para o cubismo. Acabará por se dedicar ao expressionismo alemão. 

 

Esta breve viagem pela vida dos pintores mais marcantes do fauvismo, leva-nos a concluir que para a maioria, o movimento foi transitório. Unia-os a vontade de distanciar a realidade objetiva da representação. Por tal vontade, muitos transformaram-se em cubistas, onde a independência da representação é notória. É importante salientar a obra de Matisse pois foi a que se mostrou mais fiel à corrente por ele iniciada.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

As feras do século XX (parte I)

 

O fauvismo é o movimento rápido, revolucionário, e multiplicador. Para muitos dos pintores deste movimento francês, este não passou de uma transição - como que uma aquisição de conhecimentos onde primava a investigação e a experimentação e assim partiam para outras criações artísticas.

 

O fauvismo nasceu em França e aí se extinguiu, contudo deixou marcas, algumas muito profundas, sobretudo no que diz respeito ao uso livre da cor. A arte islâmica e tribal, assim como a arte praticada pelos pós-impressionistas era admirada pelos jovens artistas que aí viam uma forma de se libertarem de convencionalismos que os aborrecia. Desejavam ir mais além e não representar o que as sensações captam, nem queriam enveredar por caminhos naturalistas. A arte teria de ser também emoção, transportando para a tela não só o que se via mas o que se sentia instintivamente. Por isso Van Gogh e Gauguin são referências marcantes.

 

Com estes propósitos e desejos, em 1905, uma exposição de jovens artistas no Salão de Outono, fez sentir um estilo radicalmente novo, de cor violenta e ousadas distorções.  Escandalizaram mas venceram. A arte moderna arrancou por mérito destes pintores.

 

O grupo apresenta alguns pontos em comum e originalidade própria tais como na técnica e na temática. A nova via de expressão regista a natureza marcada pelo homem, acentuando a alegria de viver. Limita-se às paisagens, aos retratos e outros objetos da vida quotidiana. A cor é aplicada em tons puros, sem exatidão nem correspondência com o real. Nascem os contrastes agressivos e fortes, que se tornam o caminho desta verdade artística. Chegam mesmo a criar formas novas a partir de um trabalho sistemático e segundo a criação espontânea intuitiva. É imprescindível o facto da imaginação superar a observação. Porém, esta exaltação, não dura muito tempo. O grupo desfaz-se - ficando alguns a continuar e a desenvolver as técnicas fauvistas; outros enveredam para o cubismo e para o expressionismo.

 

Foi Gustave Moreau que propôs a Matisse e a Derain que trabalhassem no seu atelier da escola de Belas Artes de forma a desenvolver o estudo e a aplicação de cor. O grupo logo aí ficou constituído mas mais tarde girará somente em torno de Matisse. Os jovens são assim dados a conhecer ao público na exposição de 1905. São eles Henri Matisse, George Roualt, André Derain, Othon Friesz, George Braque, Raoul Dufy, Maurice de Vlaminck, Albert Marquet. 

 

Henri Matisse é o artista mais importante deste movimento, pois mostra-se interessado em dar-lhe continuidade, fazendo de forma fiel e não simplesmente transitória. Nasceu em 1869. Estudou primeiramente direito. Em 1891, frequentou a academia que lhe permitiu entrar na escola Belas Artes. No atelier de G. Moreau inicia o trabalho feroz e descobre o seu amor pela arte. O seu objetivo é salientar as possibilidades de cor através do estudo e de uma investigação árdua e trabalhosa. Estuda também o corpo humano elaborando uma série de nus de cores violentas, contornados a preto. Mais tarde sente necessidade de aplicar a cor pura de forma a dar-lhe também expressão. A partir de 1905, desmaterializa a cor privando-a de realismo. A simplificação e purificação das formas revelam felicidade e vitalidade. 

 

Já André Derain (1880-1954), pela vontade dos seus pais deveria ter sido engenheiro. Porém a pintura era a sua vocação. De 1898 a 1900, frequenta a academia Carrière, onde conheceu Matisse. Foi no entanto o encontro com Vlaminck que o marcou. Ambos usam a cor pura como meio de expressão. Van Gogh e o neo-impressionismo tem no seu trabalho uma influencia notável. Recorrendo muitas vezes ao contorno acentuado das superfícies coloridas, tentando transformar a emoção numa construção. Por volta de 1910, abandona a técnica fauvista para se dedicar à redução do emprego das cores. Graças à influência de Cézanne, volta-se para o cubismo. Nos seus últimos trabalhos desliza entre o Neoclássico e o Realismo.  

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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O mundo plano e flutuante de Bonnard

 

'Painting has to get back to its original goal, examining the inner lives of human beings.', Pierre Bonnard

 

Pierre Bonnard (1867-1947), desde muito cedo, sentiu o impacto de duas grandes influências: a pintura de Gauguin e a gravura japonesa, que prosperou entre o séc. XVII e XIX. 

 

No livro 'Bonnard' de Timothy Hyman, lê-se que, ambas as influências apontam para uma necessidade de planicidade e de síntese. 

 

Paul Gauguin repudiava o puro naturalismo positivista que dominava a arte francesa, no final do séc. XIX. Acreditava que a pintura deveria regressar ao seu propósito original e por isso, ser o reflexo do mundo interior do homem. Desejava unir o mundo interior ao exterior, através do uso de cores planas e fortes, formas recortadas e bem definidas e linhas enfáticas. Gauguin acentuava uma visão profunda e sugestiva, que se presta mais à evocação do que à descrição.

 

De todos os Nabis, Bonnard era o mais profano e mundano, o menos receptivo à aura do revivalismo arcaico. Não esqueçamos, que os Nabis (Bonnard, Denis, Ibels, Lacombe, Maillol, Ranson, Rippl-Ronnaï, Roussel, Sérusier, Vallotton, Verkade, Vuillard) eram um grupo unido em torno das possibilidades da síntese (primária, original, verdadeira e evocativa) iniciada por Gauguin.

 

Ora, a negação do espaço de Gauguin foi considerada, pela maioria dos nabis, como uma maneira de transcender o mundo quotidiano. Para Maurice Denis, importante era a independência da cor e da linha, em relação à sua função representativa - isto porque uma pintura é essencialmente uma superfície plana coberta de cores, dispostas de acordo uma determinada ordem. Já para Bonnard, a planicidade, existia como um meio para compreender o mundo com ainda mais firmeza. 

 

Foi em 1890, que Bonnard descobriu a gravura japonesa: 'I covered the walls of my room... To me Gauguin and Sérusier alluded to the past. But what I had in front of me was something tremendously alive.' 

 

O tema dos gravadores japoneses é centrado no mundo flutuante, da experiência efémera e fugitiva, da burguesia no bairro do prazer em Edo (hoje Tóquio). Tal como as gravuras japonesas, a pintura de Bonnard anseia por fixar momentos fugazes através de formas bem definidas e essenciais. Bonnard também trabalhou com a gravura em madeira, o que lhe permitiu desenvolver uma nova sensibilidade no que diz respeito ao uso da cor: 'I realized that colour could express everything... That it was possible to translate light and shapes and character by colour alone.'

 

A pintura de Bonnard 'La Partie de Croquet' (1892) revela a interiorização da 'Visão depois do Sermão' (Gauguin, 1888), secularizada e padronizada pela gravura japonesa e deseja sobretudo, descobrir uma forma essencial, sintética, descarnada e incompleta capaz de alongar infinitamente um momento efémero do quotidiano.

 

'Our generation always sought to link art with life.', Bonnard

 

 

Ana Ruepp

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Lugar e espaço.
 
'If a place can be defined as relational, historical and concerned with identity, then a space which cannot be defined as relational, or historical, or concerned with identity will be a non-place.', Marc Augé
 
A hipótese avançada por Marc Augé, no livro 'Non-Places. An Introduction to Supermodernity.', é a de que a supermodernidade produz não-lugares, isto é, espaços que não são em si lugares antropológicos, são simplesmente lugares de memória circunscritos a um sítio específico.
 
Lugar e não-lugar são extremos opostos, mas o primeiro nunca deixa de existir e o segundo nunca chega a completar-se. 
 
Os não-lugares são a verdadeira medida do nosso tempo: 'one could quantify them by totalling all the air, rail and motorway routes, the mobile cabins called 'means of transports', the airports and railway stations, hotel chains, leisure parks, large retail outlets and finally the complex skein of cable and wireless networks.'
 
A distinção entre lugar e não-lugar é gerada na oposição entre lugar e espaço. Espaço, para Augé, é o lugar frequentado, é a intersecção dos corpos em movimento - porque é a presença do homem que transforma uma rua, geometricamente definida como lugar pelos projectistas, em espaço. Lugar é o conjunto dos elementos físicos que coexistem segundo uma determinada ordem. 
 
O espaço é existencial - ambíguo, transformável e influenciável. O lugar é geometria - área, volume, proximidade e distância. 
 
Uma narrativa, em forma de mapa ou itinerário, tem o poder de transformar o lugar em espaço e o espaço em lugar. As narrativas atravessam e reorganizam o lugar segundo um sistema de signos. 
 
A experiência de um espaço permite ao homem, reconhecer-se a si próprio e ser ao mesmo tempo, outro. O espaço é também a frequência de vários lugares que são entendidos segundo uma visão parcial e incompleta - é a memória que reconstitui a forma do lugar e constrói uma relação ficcional entre o olhar e o que se observa. 
 
'A lot of tourism suggests the position of spectator as the essence of the spectacle. The traveller's space may thus be the archetype of non-place. Thus it is not surprising that it is among solitary travellers of the last century that we are most likely to find prophetic evocations of spaces in which neither identity, nor relations, nor history really make any sense; spaces in which solitude is experienced as an overburdening emptying of individuality, in which only the movement of the fleeting images enables the observer to hypothesize the existence of a past and a glimpse the possibility of a future.', M. Augé
 
A experiência do não-lugar, como um retorno ao próprio ser, permite uma distância maior do espectador e do espectáculo. A existência do não-lugar permite ao homem perder-se na multidão com o poder absoluto de se afirmar inversamente na sua exacerbada consciência individual.
 
 
Ana Ruepp