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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de novembro de 2017.

 

«Por Tierras de Portugal y de España» de Miguel de Unamuno (1911) é uma obra fundamental, uma vez que permite, através de uma visão de fora sobre Portugal, compreender melhor a nossa realidade ontem e hoje.

 

QUE SÉCULO DE OURO?
«Sem negar o valor de alguns dos clássicos portugueses, devo dizer que, em meu entender, a literatura portuguesa, que merece ler-se, data do século passado, do período romântico, da época de Almeida Garrett e de Herculano. E creio que a sua verdadeira idade de ouro é a atual». Assim se exprime Unamuno sobre a literatura portuguesa, em texto datado de Salamanca, de março de 1907. De que fala o pensador? Naturalmente, das repercussões poderosas na geração de 1870, não escondendo profunda admiração pelos seus protagonistas – Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão. Os três primeiros já não faziam parte do número dos vivos, mas os dois últimos ainda estavam presentes. E o mestre salmantino invoca uma célebre conversa com Junqueiro: «O Cristo espanhol, dizia-me uma vez Guerra Junqueiro, está sempre no seu papel trágico: nunca baixa da cruz, onde, cadavérico, estende os seus braços e alarga as suas pernas cobertas de sangue; o Cristo português anda por costas e prados e montanhas, com a gente do povo, diverte-se com eles, merenda, e de vez em quando por pouco, para desempenhar o seu papel, regressa à cruz. (…) Aqui há o culto da morte; só que em vez de ser trágico, como em Espanha, é elegíaco e triste»… E ao dizer isto, o mestre sente encantamento. É verdade que não deixa de reconhecer, por comparação, as virtudes da literatura catalã, mas nas letras portuguesas vê um sinal da originalidade e o selo de uma identidade viva. E considera João de Deus o mais português dos nossos líricos do momento, corroborando Junqueiro esta consideração sentida. Mas Antero de Quental é outra coisa – comparável aos maiores na filosofia e na sensibilidade poética. «Em Espanha não temos nada que se assemelhe. Campoamor é a seu lado um falsificador do ceticismo. Quental foi uma das almas mais atormentadas pela sede de infinito e pela fome de eternidade. Há sonetos seus que viverão enquanto viva a memória das gentes, porque serão traduzidos, mais tarde ou mais cedo, em todas as línguas dos homens atormentados pelo olhar da esfinge». António Nobre apresenta o tom de um desespero resignado ou de resignação desesperada, que aparece noutros passos da literatura portuguesa.

 

CHORAR AMARGO, RIR BURLESCO
Quer o chorar amargo, quer o rir burlesco fazem parte da mesma atitude. E vem à baila Eça de Queiroz e as suas implacáveis sátiras que são tão dolorosas e exprimem queixume, como a mais triste das elegias. Os exemplos são significativos – A Ilustre Casa da Ramires e A Cidade e as Serras, mas também a corrosiva e supercrítica Correspondência de Fradique Mendes. Compreenda-se que é o autor do Sentimento Trágico da Vida a falar, apaixonado pelo caráter complexo do português. Há uma identidade construída num cadinho com ingredientes inesgotáveis. Mas Camilo Castelo Branco, com “alma tormentosa e apaixonada”, teria sido mais espanhol que português, com sinais de Quevedo. E Ramalho fala de proximidade com a dinastia dos Amadises e dos Palmeirins, numa participação evidente nas raízes do génio peninsular. E Oliveira Martins – o mais artista e penetrante dos historiadores - na História da Civilização Ibérica faz a análise desse génio, ilustrando-o com acontecimentos e com a demonstração das evidentes diferenças e complementaridades. Mas, para que não restem dúvidas, fica ainda para Unamuno a visão profética da língua portuguesa (e das línguas ibéricas) nas novas culturas da América do Sul, com evidentes e imprevisíveis potencialidades. Mas o pessimismo português impressiona o autor de Agonia do Cristianismo – que sobre Oliveira Martins diz que “o português é constitucionalmente pessimista”. O regicídio de 1908 deixa-o atónito, procurando compreender tão violenta expressão da ira do manso. «Neste povo doce, pacífico, sofrido e resignado, mas cheio de paixão por dentro, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem costuma havê-los muito mais atrozes e violentos que aqui em Espanha, onde por desgraça são mais frequentes tais crimes do que ali». Na literatura há manifestações contraditórias – para Herculano, a quem faltaria veia de artista, a literatura era uma missão e não um diletantismo, contudo para Garrett as coisas seriam diferentes já que usou a arte para descobrir o fundo do palpitar das entranhas portuguesas. “Que ouviu? Um coro de aflições tristes, uma resignação heroicamente passiva, uma esperança vaga, etérea na imaginação de uma jovem tísica e no desvario de um escudeiro sebastianista”. Eça cultivou a arte por ser estrangeirado…

 

ACREDITAR OU NÃO…
Miguel de Unamuno julga ver nestes diversos sinais que “estes elegíacos pessimistas não acreditavam na pátria”. E lê as últimas páginas de Portugal Contemporâneo. "Submissos até quando se rebelam”. O país dormiria e sonhava – seria dado despertar ainda a tempo? Parece haver contradição entre considerar uma idade de ouro literária e artística e verificar a persistência de uma passividade endémica. Mas é na superação dessa contradição que os homens da Geração de 1870 e da Vida Nova vão poder encontrar forças para superar o atraso. “Não foi por acaso que Herculano falou do plácido sepulcro rodeado de esperança?”. E Unamuno recorda então o culto muito português das almas do Purgatório, lembrando-nos do mar como um enorme lugar de naufrágios e de mortes. Não por acaso, a nossa criação literária alia o lirismo e a história trágico-marítima. E invoca a figura do “Desterrado” de Soares dos Reis, como um autêntico símbolo, daquilo que o escritor não sabe explicar sobre o que o atraía Portugal. “Que terá esta terra, por fora risonha e branda, por dentro atormentada e trágica? Eu não sei; mas quanto mais lá vou, mais desejo voltar. (…) Parece que por ali pousa a lúgubre sabedoria do Eclesiastes. Num povo triste, tristíssimo, as pessoas divertem-se, sem dúvida, mas divertem-se como se dissessem: comamos e bebamos, que amanhã morreremos”. Marcado pela morte do amigo Manuel Laranjeira e recordando o fim trágico de Antero, de Camilo e de Soares dos Reis, Miguel de Unamuno fala de um país suicida. “Este é um povo não só sentimental, mas também apaixonado, ou melhor dito, antes apaixonado do que sentimental. A paixão trá-lo à vida, e a mesma paixão leva-o à morte”… Cultor de paradoxos, o pensador espanhol não ilude a contradição, agravada pelas circunstâncias – o século de ouro é ditado pela forte consciência existencial e crítica. E a inércia do vulgo é contrariada pela determinação do mundo das ideias, tornando a ação arte, a arte vontade e a vontade determinação…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de novembro de 2017.

 

«As Viagens na Minha Terra» de Almeida Garrett são um repositório de grande atualidade sobre o valor do património cultural, e a necessidade de o preservar e proteger.

 

ROTEIROS DE PATRIMÓNIO VIVO
Com o Ano Europeu do Património Cultural (2018) já no horizonte, devemos perguntar o que será essencial para que esta celebração se não fique pelo mero formalismo de uma festa. Naturalmente que é importante que os especialistas se encontrem e aprofundem as suas reflexões ou estudos, mas urge lançar pistas novas e fecundas que ponham a defesa e salvaguarda do património cultural na ordem do dia. E as escolas devem ser chamadas à primeira linha da ação. Como impedir que a memória seja votada ao abandono? Como conhecer melhor a História? Como saber de onde vimos, onde estamos, para onde vamos? Como dar valor ao que recebemos dos nossos antepassados? Como tornar a memória um fator de melhor aprendizagem? Como transformar a informação em conhecimento? Mais do que fogos-de-artifício ou ambiciosos e estimáveis programas, do que precisamos é de conhecimento e de motivação. Como Anselmo Borges dizia, há dias, em Santarém, na Fundação Passos Canavarro, temos de saber ler e de ganhar o hábito de ler – em vez da superficialidade dos efeitos especiais das novas tecnologias. Saber ler é saber refletir, pensar, repensar – não esquecendo que a educação se faz olhos nos olhos, a conversar, a dialogar, a conhecer, a transmitir e a trocar. E não se interprete mal, o erro não está nas tecnologias, que são instrumentos, belíssimos quando ao serviço de boas ideias, mas na falta de sentido crítico e de capacidade criadora. A ciência contribui para avançarmos no conhecimento e na compreensão das coisas e do mundo. As técnicas e as tecnologias completam-se e complementam-se – coexistindo umas com as outras ou até substituindo-se, no entanto não podemos confundir pessoas e robôs. Precisamos de voltar a ouvir T. S. Elliot quando nos diz: “Qual é o conhecimento que perdemos na informação e qual a sabedoria que perdemos no conhecimento”.

 

DE PORTAS ABERTAS
A experiência das Jornadas Europeias do Património, promovidas pelo Conselho da Europa, com o apoio da Comissão Europeia, nasceu em França nas Jornadas Portas Abertas, em 1984, tendo evoluído, depois de diversos países terem adotado iniciativas semelhantes, em 1991, para o modelo atual. Aí esteve Helena Vaz da Silva. Foi a experiência inovadora das Jornadas que levou à necessidade da aprovação da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea (2005), assinada na cidade de Faro. A concentração no início do Outono de cada ano de eventos correspondentes a uma chamada de atenção para o Património Cultural, material e imaterial, monumentos, sítios, museus, paisagens, tradições, costumes e idiomas, constitui um modo de mobilizar a atenção e o cuidado dos cidadãos para a herança e a memória. No entanto, o culto do património cultural obriga a tornar essa preocupação permanente, aberta e prospetiva – e não momentânea, fechada e retrospetiva. Daí que o Ano Europeu de 2018 deva constituir-se numa chamada de atenção para as políticas públicas de cultura – que têm de articular a proteção do património e a criação cultural contemporânea, em nome da coerência e da qualidade, da liberdade e da inovação. E quanto à identidade, estamos perante o velho paradoxo filosófico do Navio de Teseu, a embarcação que foi de Atenas a Creta para pagar o tributo pela morte de Androgeu, filho de Minos… Depois do gesto heroico de Teseu os atenienses preservaram o Navio mítico, que ia sendo reparado e cujas madeiras iam sendo substituídas. E surgiu a pergunta: qual o verdadeiro navio, o que está renovado ou os seus despojos? Naturalmente, como disse Leibniz, o que importa é a identidade que prevalece – o navio renovado e não o que restou do primitivo… Como o Navio de Teseu, o património e as identidades culturais devem ser abertas para se enriquecerem – ao invés de qualquer fechamento, que perigosamente se traduz na destruição da memória.

 

LEMBRANDO ALMEIDA GARRETT
Em Santarém, no fim de uma tarde estranhamente quente do final de outubro, lembrámos, há dias, a célebre passagem de Almeida Garrett sobre o que hoje designamos como património cultural: “Entrámos a porta da antiga cidadela. – Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos: é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo, é ao pé da famosa e histórica Igreja de Santa Maria da Alcáçova. – Há de custar a achar em tanta confusão”… Garrett dá-nos conta da falta de cuidado que encontrou na histórica cidade, quando ia ao encontro de seu amigo Passos Manuel. Fala-nos de “pardieiros e entulhos”, que hoje felizmente deram lugar a uma cidade cuidada. E assim apelava a que não se deixasse ao abandono um legado histórico sagrado. Mas o grande mestre romântico faz o contraste entre as pedras mortas que encontrou decaídas, a honradez das pedras vivas e a formosura do panorama e da paisagem. “Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos”. Eram o “vale aprazível e sereno” e “o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam, verdes e frescos ainda, os salgueiros que as ornam e defendem”… A seca prolongada deixou-nos agora severas preocupações, mas aquele glorioso momento foi mais forte que tudo, em nome de uma memória histórica inesquecível. Que é o património senão vida vivida? Vínhamos de Mangualde e de Vale da Estrela, do roteiro suculento do queijo da Serra da Estrela, no coração da Beira-Serra, com as ovelhas da raça Bordaleira ou Mondegueira, e ali estávamos com Pedro Canavarro a idear (com a presença silenciosa de Garrett e Passos) um roteiro da democracia neste rico Ribatejo – desde as Cortes de Santarém, como as de 1331, que ilustram os fatores democráticos na formação de Portugal (de Jaime Cortesão) e a aclamação em 1580 como rei de Portugal de D. António Prior do Crato (em tão boa hora agora lembrado por Manuel Alegre), até D. Pedro IV em vésperas de Évora-Monte, Sá da Bandeira, Alexandre Herculano, Rebelo da Silva, Oliveira Marreca, Anselmo Braancamp Freire, António Ginestal Machado, José Relvas, Humberto Delgado, Salgueiro Maia… Para as escolas deve haver a determinação em criar para os mais jovens o gosto do estudo rigoroso, o culto e o interesse pelo património – seja o monumento antigo, seja a paisagem ou o jardim, seja o cuidado com o uso da língua materna, seja o trabalho do artesão, seja a qualidade na tradição gastronómica. E aqui está a ilustração de um modo como podemos cuidar do património – prevenindo-nos contra o descuidado, delineando e estudando caminhos que nos permitam conhecer, recordar, alertar e salvaguardar.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 6 a 12 de novembro de 2017.

 

Entre as diversas reedições recentes de «Sonetos Completos» de Antero de Quental, registamos a que tem o prefácio de Ana Maria Almeida Martins (Artes e Letras, Ponta Delgada, 2016).

LAPIDAR EPÍGRAFE… 

Com inteira razão e oportunidade, a cuidada edição a que nos referimos é antecedida por uma lapidar epígrafe de Eduardo Lourenço, onde este afirma que “não há na nossa literatura, nem mesmo Camões, poeta tão naturalmente universal como Antero de Quental, dada a natureza ideal e intemporal da sua inspiração e o conflito que a alimenta, pura interpelação do espírito sobre si mesmo no meio de um mundo incompreensível”. Não é difícil de explicar esta consideração, que corresponde, antes do mais, ao veemente apelo de Antero, em Coimbra, na questão do Bom Senso e do Bom Gosto, sobre a necessidade de viver com ideias, à exigência da compreensão de que um velho Portugal morria definitivamente, bem como ao espírito das Conferências Democráticas de 1871, cujos promotores pretendiam pôr Portugal ao ritmo da cultura europeia. Nesses momentos, houve a consciência plena que se iniciava um novo capítulo na cultura portuguesa. Antero pensava, de facto, não como se estivesse confinado a uma insularidade periférica (a portuguesa), mas segundo o direito próprio de ser um cidadão e um pensador europeu e do mundo do seu tempo – não limitado às nossas fronteiras. Essa era a preocupação fundamental e a atitude do grupo de jovens intelectuais que antecipou a inexorabilidade de uma presença futura entre as nações civilizadas, com uma forte consciência da evolução e da justiça. Longe de uma realidade confinada ou de qualquer ideia identitária, do que se tratava, neste carácter “naturalmente universal”, era de considerar a humanidade como compreensão das diferenças, dos conflitos, dos interesses e das complementaridades. A racionalidade e a sensibilidade emocional estão, assim, claramente presentes na modernidade da poesia de Antero e dos seus. Oliveira Martins, no fundamental prefácio, fala-nos de “um helenismo coroado por um budismo”, na fórmula usada pelo próprio poeta. Mas o crítico acrescenta: “pobre humanidade, se se visse condenada à coroação budista! Nós europeus, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte, sofreríamos as agonias, experimentaríamos as aflições do poeta que, tendo no peito um coração ativo, tem na cabeça uma imaginação mística, e, para obedecer ao pensamento, tortura o coração, sem poder também esmagá-lo sob o mando da inteligência”.

 

RAZÃO, IRMÃ DO AMOR E DA JUSTIÇA
Afinal, esta mesma tensão é aquela que existe e que sentimos entre os autores e as referências fundamentais da cultura europeia (de Goethe a Shopenhauer). No entanto, em Antero e na geração dita de 1870 do que se tratou foi de abrir novos horizontes – buscando uma visão capaz de superar as limitações e as fragilidades de uma realidade nacional considerada periférica. E assim ouvimos: “Razão, irmã do Amor e da Justiça / Mais uma vez escuta a minha prece. / É a voz dum coração que te apetece, / Duma alma livre só a ti submissa”. Dir-se-á, contudo, que só a morte espreita (“Morte! Irmã do Amor e da Verdade”), mas é mais do que isso, sendo certo que essa perspetiva não tira à visão de conjunto a importância conformadora. E o filósofo “há de aliar à compreensão da nulidade extrínseca das coisas a compreensão da sua excelência intrínseca (diz O.M.); exigindo que o homem seja ativo, porque a atividade é boa por ser indispensável à saúde do espírito, embora os objetos da atividade sejam as mais das vezes írritos e nulos, quando considerados em si próprios e isoladamente”… Aí se apartavam os dois inseparáveis amigos do budismo, indo até ao Inconsciente de Hartmann (“O espetro familiar que anda comigo, / sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto, / Que umas vezes encaro com desgosto / E outras muitas ansioso espreito e sigo”). “É loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento, e sábio é aquele que se limita a registar as relações das coisas”. E é nesta relação com o agir – e Antero considerava Oliveira Martins nesse ponto seu complemento natural – que encontramos a capacidade singular de uma geração que lançou sementes de futuro. Daí a consideração do prefaciador: “quem, emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas páginas, e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua língua perdeu o hábito de falar português”.

 

ANSEIO DE ETERNIDADE
Ao recordarmos quem chamou ao poeta maior “santo Antero”, vem à lembrança o que Tolstoi anotou no seu diário no dia 15 de março de 1889 (perante a tradução alemã dos «Sonetos» por Wilhelm Storck, antecedida da carta autobiográfica) concordando o genial russo com Antero sobre o seu conceito de liberdade, apenas plenamente alcançável pela santidade, através da renúncia a todo o egoísmo. Mas, não podemos deixar de lembrar Miguel de Unamuno e o seu “sentimento trágico da vida”, tão chegado a Antero, e só compreensível plenamente em diálogo com essa poesia: “Quental há sido una de las almas más atormentadas por sed de infinito, por el hambre de eternidad. Hay sonetos suyos que vivirán cuanto viva la memoria de las gentes”… E ao invocarmos dois dos maiores escritores de dimensão universal fazemos a demonstração cabal do universalismo anteriano, que o tempo se tem encarregado de confirmar plenamente. A ligação entre Camões, Antero e Pessoa que Eduardo Lourenço tornou inequívoca – confirmada pelos mais significativos poetas contemporâneos, como Ruy Belo e Sophia de Mello Breyner Andresen – projeta-se globalmente. E foi exatamente Ruy Belo quem disse: “Antero foi possivelmente o maior pensador português dos tempos modernos. Não importa que não tenha dito a última palavra, por circunstâncias a que a doença não terá sido alheia. Até o seu silêncio pesa mais do que as palavras de muitos palradores contemporâneos. E quando fala e a sua voz chega até nós, não já com aquele calor que punha nas conversas com os amigos, mas gramaticalmente organizada, travamos conhecimento com um dos momentos mais altos da prosa portuguesa”.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins 
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de outubro a 5 de novembro de 2017.

 

O filme Peregrinação de João Botelho sobre a obra imortal de Fernão Mendes Pinto é um projeto literário, um filme de aventuras e uma epopeia musical. Segundo o cineasta, tratou-se de transmitir o encantamento da Peregrinação, através de uma ideia de descoberta e de diáspora, de encontro com os outros, que podem ser animais fabulosos ou pessoas diferentes.

 

UMA TAREFA DIFÍCIL
Foi uma tarefa necessariamente difícil que não estaria ao alcance de qualquer um. A experiência de João Botelho e a sua sensibilidade cultural e histórica permitiram-lhe fazer uma obra que corresponde ao que dela se exigiria, abrindo para o grande público a oportunidade de tomar contacto com uma das obras mais importante da literatura mundial – pioneira no que respeita à narrativa. O autor não caiu, porém, na tentação de nos dar um relato exaustivo de uma obra longa, cheia de episódios relevantes e impossível de sintetizar num filme de hora e meia. Estamos, assim, perante uma verdadeira introdução à leitura e à compreensão desta obra-prima da nossa literatura, com uma encenação que recorre à experiência operática, com um coro (à maneira grega), que pontua momentos fundamentais, a cantar Fausto em Por Este Rio Acima. Recorde-se que este trabalho de Fausto, de 1982, integra a trilogia “Lusitana Diáspora” e baseia-se nos textos de Mendes Pinto, sendo considerado muito justamente um dos melhores álbuns de música popular portuguesa. Como não poderia deixar de ser, para alguém com experiência e ciente das limitações de uma tão difícil empresa, foram escolhidos alguns quadros fundamentais do livro, que são significativos, para a compreensão da presença dos portugueses no mundo.

 

PERCURSO DRAMÁTICO E VENTUROSO
A Peregrinação relata um longo percurso, ora dramático ora venturoso, de vinte e um anos pelo Índico e Ásia, sendo o autor soldado, negociante, pedinte, embaixador, cortesão, jesuíta e pirata, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia feliz, China, Tartária, Macassar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago, dos confins da Ásia, a que os escritores Chins, Siameses, Gueos, Eléquios nomeiam nas suas geografias por pestana do mundo…”. Eis a saga de um português do século XVI, que pôde chegar às nossas mãos graças a uma narrativa talentosa, que nos permite hoje ter uma ideia do que foram as dificuldades históricas dos portugueses além-mar, mas também perceber como a Peregrinação se tornou uma obra de referência a partir do momento em que foi publicada, como verdadeira matriz para quantos desejassem aprender a viajar e a descobrir o mundo. Hoje, a moderna historiografia deu verosimilhança ao livro publicado postumamente em 1614, ficando claro que na literatura mundial é um texto pioneiro, em diversos domínios, ombreando com a obra de Miguel de Cervantes no abrir de novos caminhos para toda a literatura. Longe vão, felizmente, os tempos em que havia quem achasse que a Peregrinação era um livro de fantasias. Pelo contrário, estamos perante uma narrativa bastante próxima da realidade – sem cujo conhecimento não podemos completar e entender o que consta nas obras de cronistas como João de Barros e Diogo do Couto. Como afirmou Adolfo Casais Monteiro, “a ficção como género literário, tanto se cria à base de verdade como de invenção”. O interesse romanesco e a componente pícara desta obra são evidentes, e o filme dá essa tónica com especial felicidade. Nem falta um malaio, que conhece as várias línguas, e que se assemelha a Sancho Pança… A diversidade de personagens, a própria capacidade de “desdobramento” de Fernão Mendes Pinto não é tanto sinal de imaginação fértil, mas sim de uma capacidade singular de entender a complexidade e a diversidade da presença portuguesa na Ásia – onde os soldados e os missionários estavam ombro a ombro com os mercadores, corsários e mercenários, e as intervenções da Coroa e da Igreja Católica coexistiam com as iniciativas privadas dos comerciantes, dos arrivistas e dos piratas…

 

ESCRUPULOSO RESPEITO PELO AUTOR
O cineasta esteve bem consciente de todas as dificuldades que se lhe colocavam – desde as vicissitudes históricas à extensão e complexidade do livro e dos seus relatos. Daí ter respeitado a orientação do autor quanto ao fulcro das diferentes partes da obra. A presença de António Faria é bem ilustrativa disso mesmo. Contando com o desempenho do mesmo ator (Cláudio da Silva), João Botelho e Fernão Mendes assistem aos acontecimentos que envolvem o temível corsário, irrascível e violento, apagando-se e ficando de fora ele mesmo, ou seja, o autor-narrador. Aliás, havendo um flashback na construção da narrativa do filme, percebe-se que, sendo o ator o mesmo, as personalidades que representa são diferentes. Como Aquilino Ribeiro e Donald Fergusson disseram, e está assumido por Botelho, “imaginamos que Mendes Pinto e António Faria são uma e a mesma pessoa. Mendes Pinto teve pejo de se exibir antigo capitão de corsários e pôs a máscara”. António Faria, o vencedor de Coja Acém, é provavelmente uma invenção de Fernão Mendes, até porque dificilmente encontramos essa figura na vida real, correspondendo, por certo, a uma composição, em que o real não pode deixar de ter importância, mas em que prevalece a prevenção do autor relativamente a eventuais represálias. Com efeito, não se sabe até que ponto a pendência da candidatura à tença d’el Rei não pesou aqui, protegendo-se o autor, com receio de perder a benesse. Note-se que no livro e no filme António Faria desaparece misteriosamente, sem grandes pormenores. Se no início da obra não há dúvidas sobre quem protagoniza os acontecimentos, o “eu, pobre de mim”, o mesmo ocorre depois do desaparecimento de António Faria. Fernão Mendes Pinto regressa em pleno à ribalta. Os primeiros europeus chegam ao Japão, a introdução da espingarda causa espanto e drama, há o encontro com S. Francisco Xavier, o padre Belchior considera Fernão Mendes bem-aventurado. Temos em pano de fundo a agitação do continente asiático, e João Botelho aproveita para nos apresentar belas imagens colhidas no misterioso continente – num inteligente equilíbrio na apresentação da diversidade de situações. Se há muitas imagens recolhidas em Portugal, a equipa esteve em sete cidades chinesas (como Leshan), em Macau, na Índia, no Japão, na Indonésia, na Malásia e no Vietname. Julgo que João Botelho conseguiu um dos objetivos que se propôs: “encontrar uma empatia emocional e verdadeira com as pessoas a que o filme se destina”. De facto, ao trazer para o grande público, através do cinema, uma obra máxima da literatura portuguesa, alcança o desiderato de nos pôr perante o belo e difícil projeto de compreender os portugueses ao encontro da sua história. É um filme com indiscutível valor artístico, nítida exigência quanto ao texto e ao bom uso da língua, sentido pedagógico, na continuidade de um percurso muito rigoroso do cineasta em matéria de valorização das culturas da língua portuguesa…     

 

 Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 23 a 29 de outubro de 2017.

 

«Introduction à la Pensée Complexe» de Edgar Morin (Seuil, 2005) é uma síntese de ensaios da autoria de um dos pensadores mais fecundos da contemporaneidade, membro do Centro Nacional de Cultura e do seu Grande Conselho.

 

 

QUE REFLEXÃO SOBRE A COMPLEXIDADE?
A reflexão sobre a complexidade obriga a entender a célebre afirmação de Pascal: «considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, mas tenho por não menos impossível a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes». Há, assim, um vai-e-vem em que se funda a diligência de conhecer. E é esta preocupação que permite devermos articular o uno e o múltiplo, o próximo e o distante, a teoria e a experiência… De facto, a complexidade está no coração da relação entre o simples e o complexo porque uma tal relação é a um tempo antagónica e complementar. A ciência funda-se não só no consenso como no conflito. Ao mesmo tempo, evolui a partir de quatro colunas fundamentais: a racionalidade, o empirismo, a imaginação e a verificação. Sabemos que há um diferendo permanente entre o racionalismo e o empirismo. A crise do positivismo desenvolveu-se, aliás, a partir desse confronto. As novas descobertas empíricas e o experimentalismo foram pondo em causa, de diversas maneiras, as construções racionais – que permanentemente se reconstituem e reconstroem constantemente a partir de novos elementos e fatores. Mas a complexidade não é uma receita, e sim um apelo à civilização das ideias, Daí que tenhamos de compreender que a barbárie é um risco com que temos de lidar, inerente às sociedades humanas. A barbárie é o descontrolo e pode coexistir com o progresso, pela fragmentação das relações humanas e sociais. Para Edgar Morin, a razão é evolutiva, mas traz no seu seio o seu pior inimigo – a irracionalidade. M. Horkheimer, T. Adorno e H. Marcuse alertaram-nos para essa situação e para esse perigo, considerando a circunstância de o século XX, que se anunciava como um tempo de paz e de progresso ter-se revelado como o mais sangrento e trágico de sempre, no plano mundial. A razão pode, de facto, autodestruir-se por um processo interno, que tem a ver com a híper-racionalização como processo delirante. O delírio lógico, o delírio da coerência pode deixar de ser controlado pela realidade humana empírica. Eis por que temos de entender que a complexidade é um tecido de constituintes heterogéneos, inseparavelmente associados, que põem o paradoxo do uno e do múltiplo. Do mesmo modo, a desordem, a ambiguidade e a incerteza obrigam a uma especial atenção ao dilema permanente entre o ponto onde e como estamos e a interrogação sobre quem somos.

 

AS DIVERSAS DIMENSÕES DO CONHECIMENTO
A complexidade não conduz à eliminação da simplicidade – pelo contrário, integra em si tudo o que ordena, clarifica, precisa e distingue, no processo de conhecer. Também relativamente à complexidade e à completude, importa afirmar que não são confundíveis. Devemos falar, sim, do conhecimento multidimensional – que pressupõe a compreensão dos princípios da imperfeição, da incompletude e da incerteza. De facto, aspiramos a um saber não parcelar, não fechado, não redutor e ao reconhecimento dos limites, ou seja, do carácter incompleto de todo o conhecimento. Não podemos esquecer T. S. Elliot: «Qual o conhecimento que perdemos na informação e qual a sabedoria que perdemos no conhecimento?» Afinal, temos de corresponder ao desafio atualíssimo de transformar a informação em conhecimento. Se as novas tecnologias nos permitem avançar muito na recolha de informação, a verdade é que fica a faltar a ligação ao conhecimento. E neste ponto o grande desafio da humanidade respeita à aprendizagem – o que distingue o desenvolvimento do atraso não são as matérias-primas ou os recursos materiais, mas a capacidade de aprender mais e melhor. É o saber de experiências feito que deve ser lembrado e valorizado.

 

UM DIÁLOGO ABRANGENTE
«A complexidade considera o diálogo ordem / desordem / organização. Mas, por detrás da complexidade, a ordem e a desordem dissolvem-se, as distinções entre elas desvanecem-se. O mérito da complexidade está a denúncia da metafísica da ordem. Como dizia Whitehead, subjacente à ideia de ordem havia duas coisas: a ideia mágica de Pitágoras, segundo a qual os números são a realidade última, e a ideia religiosa, ainda presente em Descartes como em Newton, segundo a qual o entendimento divino é o fundamento da ordem do mundo. Ora, quando se retirou o entendimento divino e a magia dos números o que restou? As Leis? Uma mecânica cósmica autossuficiente? É essa a verdadeira realidade? É essa a verdadeira natureza? A essa ideia débil, (diz Edgar Morin), oponho a ideia de complexidade». Para Edgar Morin, «a gigantesca crise planetária é a crise da humanidade que não consegue aceder à humanidade». Duas barbáries coexistem e agem sem contemplações: a que vem da noite dos tempos e usa a violência; e a barbárie moderna e fria da hegemonia do quantitativo, da técnica e do lucro. Ambas levam-nos ao abismo. Contudo, importa entender o que Hölderlin nos ensinou: «onde cresce o perigo, cresce também o que salva». A globalização pode trazer-nos fatores positivos sobre o que pode unir a humanidade no sentido da paz. A consciência de uma Terra-Pátria é ainda marginal e disseminada. Edgar Morin propõe a ideia de metamorfose, improvável mas possível, como alternativa à desintegração provável. A natureza está cheia de exemplos de metamorfoses – a lagarta encerra-se na crisálida. A noção de metamorfose é mais rica que a de revolução, uma vez que preserva a radicalidade transformadora, ligando-a à conservação da vida e à herança das culturas. Sendo impossível travar a tendência que conduz aos desastres, devemos pensar que as grandes transformações começam com uma inovação, uma nova mensagem marginal, modesta, tantas vezes invisível… Será preciso, no fundo, ao mesmo tempo, mundializar e desmundializar, crescer e decrescer, desenvolver e envolver, conservar e transformar. As reformas políticas, económicas, educativas ou da vida só por si estarão votadas à insuficiência e ao fracasso.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de outubro de 2017.

 

Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal (Oficina do Livro, 2016), de Leonor Xavier, não pode passar despercebido, uma vez que através da palavra de figuras marcantes do mundo da língua portuguesa podemos compreender como as nossas diferenças de um lado e doutro do Atlântico possuem virtualidades que o tempo se encarregará de aprofundar.

 

 

PORTUGAL E BRASIL
Há muito para fazer e sobretudo importa evitar que alguns lugares comuns agravem equívocos e mal-entendidos. Sem nos deixarmos influenciar por perturbações ou nuvens negras momentâneas, a verdade é que falamos de uma língua em expansão no próximo século e de uma afirmação cultural previsivelmente de grande riqueza. Naturalmente que não basta seguir as projeções demográficas lineares, sobretudo na América do Sul e em África, uma vez que há muito para fazer na inovação, no conhecimento, na educação, na ciência e na cultura – com atenção para a Europa e para uma história global relacionada com todos os continentes. Tudo isto para dizer que o diálogo de Portugal com o Brasil tem uma importância significativa, muito para além do velho comércio da saudade. Este pequeno livro de Leonor Xavier é, nesta perspetiva, um precioso conjunto de ideias para despertar uma cultura plural, aberta, diversa, disponível para a inovação e avessa a qualquer paternalismo ou autossuficiência. Longe de providencialismos, do que se trata, como nos tem dito Eduardo Lourenço, é de partir das limitações e imperfeições para um humanismo universalista – que Jaime Cortesão magistralmente defendeu.

 

ENRAIZADAMENTE BRASILEIRO
João Cabral de Melo Neto recordava, no seu diálogo com a autora, como Jorge Amado e José Saramago são diferentes – um enraizadamente brasileiro, o outro português (em Tocaia Grande e O Ano da Morte de Ricardo Reis) – mas o leitor estrangeiro “sentirá que eles se movem num país comum, que é a língua, e a gente esquece que o facto de dois países falarem a mesma língua é coisa importante, com as diferenças que possa haver”. E acrescenta: “no sul do Brasil, do Rio para sul, há uma quantidade de emigrações, isso faz que o Brasil seja um país muito diferente de Portugal, sociologicamente. Mas há uma área de entendimento, que vem da língua ser comum”. João Cabral era nordestino, pernambucano, e com a idade foi-se tornando mais próximo das raízes portuguesas, no contexto de uma extraordinária complementaridade. E, dando o exemplo de Morte e Vida Severina, João Cabral lembra que os portugueses tinham facilidade em identificar algumas palavras que resultavam difíceis para os estudantes paulistas. Mas se é assim no léxico, na prosódia o português do Rio é mais próximo de Portugal do que o do Nordeste. As coisas evoluem natural e contraditoriamente. Por isso, o diplomata confessava nunca ter sido muito ativo na propaganda da cultura brasileira, entre outras coisas porque acreditava que a cultura, ninguém a propaga… O importante seria a criação em si, haver informação, circulação de ideias e de pessoas. Isso é mais útil e eficaz do que grandes teorias e programas. O nosso querido Alberto da Costa e Silva lembra que até aos anos 40 o livro português chegava ao Brasil. A Amarante no Piauí, às margens do rio Parnaíba, donde era seu pai, poeta e leitor de António Nobre, Cesário Verde e Antero de Quental, chegavam os nossos poetas. A ideia do movimento e da circulação é fundamental. “Eu acho que uma política da língua interessa a todos os países onde se fala o português, porque ele fortalece a nossa presença no mundo. Nós seremos nos séculos vindouros aquilo que for a nossa língua”. E a educação merece um lugar mais relevante no diálogo e no intercâmbio. “A parte do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil nos seus curricula é diminuta. Quer dizer, nós somos afetuosamente autodidatas uns em relação aos outros, o que é ótimo, porque revela a proximidade em que nos encontramos”. Mas falta algo mais quanto às nossas coisas comuns: “estudando um pouco o Brasil, você conhece melhor Portugal, sendo a recíproca verdadeira. É importante conhecer um pouco do outro lado do rosto que se vê”… E Nemésio já se queixava da míngua de estudos brasileiros aqui…

 

GRAÇAS À LÍNGUA PORTUGUESA
Nelida Piñon afirma que “graças à língua portuguesa” é uma cosmopolita e que “numa viagem à Galiza”, descobriu que em criança “falava português do século XI”. Que extraordinário encontro entre o futuro e as raízes… E Elza Gomes, atriz celebrada, inventou que Portugal é um pai, “é aquele respeito, aquele rigor” e o Brasil “uma mãe, porque é esta liberdade toda”. Carlos Drummond de Andrade, olha para diante: “a língua portuguesa é tão rica, tão variada, que ela comporta perfeitamente essa diferença do seu uso em Portugal e no Brasil, e acredito também em Angola e na África em geral. Há de haver variantes impregnadas do sentimento local (…). Eu não creio que a língua sofra com isso, não”. E não tem dúvida de que há “uma nuance brasileira na língua portuguesa. Eu não posso conceber um escritor brasileiro que não conheça a literatura portuguesa”… E recordo uma inesquecível visita a Itabira, à casa da infância de Drummond, na companhia de Leonor Xavier – em cujo encontro esteve bem presente o extraordinário génio criador do poeta, que bem compreendeu a plasticidade de uma língua de diálogos. «Não há falta na ausência, / A ausência é um estar em mim»… Caetano Veloso lembra como sentiu um sentimento afetuoso ao chegar a Portugal. “Tudo me emocionava, não só a beleza arquitetónica, mas sobretudo as pessoas falando. O sotaque e o modo de o português tratar a gente. Eu gosto muito daquela coisa gentil, é um formalismo doce, muito gentil, muito bem-educado”… Por seu lado, António Alçada Baptista (quantas vezes lhe ouvi isso) deixa claro que se não tivesse estado no Brasil, teria perdido muito de si – “hoje, acredito de verdade que a minha pátria é a minha língua, e aqui (no Brasil) falo português”… Em síntese, para Leonor Xavier, apesar da ligação da língua, somos irmãos separados à nascença – “diferentes no entendimento do mundo, nos rituais da vida e da morte, no traçado da condição humana”. Metaforicamente, Agostinho da Silva invoca o exemplo de Pessoa: “Eu quero é saber quem era o Fernando Pessoa. Era uma centelha de deus criador ou era vários? Era um molho de gente?”. No fundo, há uma chave a entender: “A chegada ao Brasil é a coisa mais importante que o português fez, porque demonstrou que sabia navegar para qualquer parte”… A paixão da terra liga-se à saudade de Portugal. Agostinho falava de “saudades construtivas do Brasil”. “Portugal tem de se renovar, de se restaurar, de maneira que possamos sair sem ser a fugir”. Por isso, temos muito que aprender uns com os outros, portugueses e brasileiros, sobre o que nos aproxima e separa, somos quem somos na diferença e na comunidade. Não alimentemos ilusões – a língua comum, obriga a entender a diversidade de culturas, que se enriquecem mutuamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de outubro de 2017.

 

«O Amor de Camilo Pessanha», de António Osório (Elo, 2005), é uma pérola literária e um documento emocionante, no qual ressalta o exemplo cívico, cultural e sensível de Ana de Castro Osório e o talento do autor.

 

 

 

A IMPORTÂNCIA DE UMA VIDA
A passagem dos 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha é justo motivo de lembrança e de estudo sobre a importância da sua vida e obra no nosso panorama literário. Muitos serão, por certo, os motivos para tornar presente o valor literário do poeta – reconhecido como um dos maiores nas literaturas de língua portuguesa -, no entanto vamos centrar-nos numa obra fundamental, na qual se procura reconstituir a relação entre Camilo Pessanha e Ana de Castro Osório, daí se retirando que foi a escritora a responsável decisiva para que a obra do poeta não tenha caído no olvido. E é António Osório, um dos nossos grandes poetas contemporâneos, que reconstitui com enlevo e cuidado histórico, os passos que permitiram trazer até nós o fantástico lugar que o poeta de Clepsidra conquistou. A obra (com uma ilustração de Mário Botas) parte de duas cartas de Camilo Pessanha para Ana de Castro Osório (de 1893 e sem data), uma carta de resposta desta (1893) e ainda uma outra do poeta para Alberto Osório de Castro (1916). E é esta matéria-prima (publicada em primeira mão por Maria José de Lancastre) que permite a António Osório uma cuidada análise e acompanhamento, mercê de ricos testemunhos, de uma extraordinária história de amor. E tudo começa por um desencontro, mas vai evoluindo num sentido fantástico, que leva a que uma relação humana singularíssima, de uma dignidade a toda a prova, termine num exemplar reconhecimento da excecional importância de um autor maior. Como diz Arnaldo Saraiva, se fosse Camilo Pessanha de um outro país, certamente que abundariam traduções e estudos sobre a sua obra. No entanto, estamos longe do justo reconhecimento, apesar de o julgamento de Fernando Pessoa constituir um importante passaporte para o futuro. Tudo começa por um conhecimento pessoal e por uma paixão de Camilo por Ana de Castro Osório, a que esta não pode corresponder. «O amor de Camilo vinha de há anos. Íntimo de Alberto Osório de Castro, seu colega no curso de Direito em Coimbra, publicando crónicas e poemas no jornal de Mangualde O Novo Tempo, que aquele dirigia, Pessanha passava parte das férias na casa de Mangualde do pai do amigo, João Baptista de Castro, que tratava por “primo”, e a quem se dirigia, nas cartas publicadas com toda a estima…». Ana não pode corresponder ao amor de Camilo, por namorar o jornalista e político republicano Paulino de Oliveira, com quem casará em 1898, cinco anos depois da correspondência. A jovem exprime, porém, o desejo «de que Camilo lhe perdoe o desgosto que lhe causa e que seja seu amigo como era de sua irmã, como ela era dele». E se é certo que autoriza Camilo a destruir a sua carta, tal não acontece, prevalecendo uma «atitude de estoica nobreza». Camilo “restitui” a carta de Ana, e esta não rasga as dele, nem as devolve. E assim, chegadas às mãos do poeta António Osório, elas puderam ilustrar esta bela página sobre o melhor que a vida cultural e cívica pode conter – o caráter e a capacidade de reconhecer uma altíssima sensibilidade artística.

 

UMA PERSONALIDADE RIQUÍSSIMA
Em «O Amor de Camilo Pessanha» o autor faz de Ana de Castro Osório um retrato belíssimo, bem ilustrado pela fotografia jovial dos 19 anos, e mostra-nos o seu lado de escritora que segue as passadas de Garrett e de exemplar pedagoga («a criança não gosta que a não tomem a sério e se lhe contem histórias com o ar de quem diz uma cisa sem importância, e tudo vem a seu tempo»). Em 1911 acompanhou o marido ao Brasil, nomeado cônsul de Portugal em S. Paulo, tendo aí enviuvado em 1914. Em fins de 1915, reata-se o convívio entre Ana e Camilo – que “jantava e seroava em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana”, segundo o testemunho de João de Castro Osório. E é este que vai encarregar-se da recolha da poesia: «Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu então Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas». E assim Ana assume o encargo da publicação dos poemas que recolhera «e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão». Ana de Castro Osório toma a iniciativa de publicar, em 1920, nas Edições Lusitânia, de que era proprietária, a Clepsidra. E em entrevista a Fernanda de Castro no “Diário de Lisboa” dirá: «De há muito conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo». Mas não encontrava nele qualquer desejo de glória. Na última carta de Pessanha para Ana, de 3 de junho de 1921, o poeta agradece tudo o que foi feito pela sua obra: «Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus olhos a minha pobre alma – há tantos anos morta». Através de seu sobrinho António (seu pajem) é que Ana de Castro Osório reatou o contacto com Camilo Pessanha, numa ida deste ao Hotel Francfort no Rossio, em 1915. No testemunho de António, temos recordação dos grânulos de ópio, que tomava nas deambulações de Lisboa e de como o poeta recitava nas ruas da cidade… «Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstrata melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos». Mas foi o ópio a danação do poeta. Ele fala mesmo de “tormento dessa horrível angústia fisiológica”. «O demónio da deceção foi realmente o demónio da sua vida, e não apenas o dos seus sonhos em Macau, com Ana próximo de si, em vez da pequenina Águia de Prata, que o enganava (e ele saberia?) e do “desgraçado filho”». José Régio disse que o poeta «da sua derrota fez o seu triunfo»… E António Osório afirma ainda que das histórias de amor contidas na Histórias Maravilhosas de Ana nenhuma é tão impressionante como esta – de que apenas há uma carta encantada e o silêncio sereno da nobreza íntima.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 2 a 8 de outubro de 2017.

 

Acaba de ser publicada Claridosidade, Edição Crítica (Rosa de Porcelana Editora, 2017), com organização de Filinto Elísio e Márcia Souto, uma preciosa reedição fac-similada dos nove números de “Claridade – Revista de Arte e Letras” (1936-1960), com a qual passamos a dispor de nova e importante investigação sobre um dos movimentos mais interessantes do mundo cultural da língua portuguesa – a partir de Cabo Verde.

  

 

DA MORABEZA À «CLARIDADE»
Morabeza é uma palavra, vinda de Cabo Verde, que significa manifestação de afeto. Em Chiquinho, Baltasar Lopes da Silva usa o significado amorabilidade – e sentimos nela a força da amabilidade e da afabilidade… Ao falar de palavras suscetíveis de unir em português, saudade e morabeza encontram-se naturalmente. Mas, por razões literárias e culturais, claridade merece também atenção. Desde que visitei pela primeira vez Cabo Verde, “claridade” tornou-se uma palavra familiar, como morabeza, mas por referência ao grupo extraordinário que criou uma revista e um movimento que, a um tempo, foram sinais de identidade e marca de abertura e de modernidade.   «Claridosidade» é uma obra que fazia muita falta. Com estudos que atualizam, completam e consolidam muitos dos conhecimentos já disponíveis sobre os “claridosos”, passamos a contar com um conjunto de ensaios que não só permitem um melhor conhecimento da evolução cultural moderna cabo-verdiana, mas também garantem uma visão serena e distanciada sobre a afirmação de uma rica identidade no seio das culturas da língua portuguesa. Fica claro que a revista representou a grande eclosão da modernidade em Cabo Verde, “reconfigurando a crioulidade, definida por José Luís Hopffer C. Almada como o mais eficaz construto sociológico e identitário surgido no arquipélago, e marcando um novo universo de ‘reverberações literárias cabo-verdianas’, algo pioneiro no contexto das literaturas africanas de expressão portuguesa”. Como salienta João Lopes Filho, num texto fundamental, a génese da revista não corresponde a um só momento, ou a uma iniciativa pontual, uma vez que há uma evolução, abrangendo três fases: o período de arranque e reflexão, à volta do “Círculo Cultural” em Fonte Cónego, com João Lopes (1922); a fase da “Tertúlia”, na cidade da Praia (1928) e finalmente o aparecimento da revista no Mindelo (1936). Como Manuel Brito-Semedo confirma: Baltasar Lopes, Manuel Lopes, João Lopes, Jaime Figueiredo, Félix Monteiro, Manuel Velosa e Jonas Whanon encontram-se em S. Vicente nos anos vinte e trinta. É a geração que “fincou os pés na terra cabo-verdiana e ousou pensar o problema dos homens destas ilhas, constituindo-se num marco. Dessa altura a esta parte Cabo Verde evoluiu muito, começando por ter tomado o seu destino nas suas mãos e a sua literatura abriu-se ao mundo, universalizou-se”. Citando Manuel Lopes: “um grupo de amigos pensou que se deveria criar uma revista que permitisse romper com a tradição clássico-românica de motivos alheios à nossa realidade”. E Baltazar Lopes recorda que a palavra Claridade teve uma dupla influência – a de um grupo progressista da Argentina e a do círculo a que pertencia Henri Barbusse (Clarté). Saliente-se, aliás, a ousadia do grupo, ao publicar, contra todas as orientações do regime, na primeira página do primeiro número, em crioulo, os poemas “Lantuna & 2 Motivos de Finaçom (batuques da Ilha de Santiago)”. E vários são os sinais no sentido de se reconhecer que a “Claridade” antecipa e assume uma consciência cultural e social própria, apesar da conhecida posição crítica de Onésimo Silveira, cujo texto “Consciencialização na Literatura Cabo-verdiana” (1963) se encontra reproduzido na presente obra. Aí se diz que “os jovens que viriam a fundar a revista “Claridade” tiveram uma formação exclusivamente europeizante”, o que corresponderia a uma literatura inautêntica que não poderia conduzir à consciencialização.

 

LÍNGUA DE VÁRIAS CULTURAS…
A obra agora publicada reconhece no movimento “claridoso” um contributo muito relevante, complementar de outras manifestações culturais subsequentes, que culminariam na independência do país-irmão. E não esqueço o muito que tenho usufruído da reflexão sobre a rica cultura cabo-verdiana mercê do diálogo com bons amigos – desde o saudoso Corsino Fortes, passando por Germano Almeida, Vera Duarte ou Manuel Brito-Semedo… É significativo que, entre os textos ora dados à estampa, Maria de Fátima Fernandes defina a elite claridosa como um grupo de intelectuais predispostos a refletir e a ler a sociedade quer na dimensão local e identitária, quer na relação com a modernidade – o que aponta num sentido aberto e universalizante. Alberto Carvalho cuida dos antecedentes, enquanto Simone Caputo Gomes enfatiza a grande importância da revista na história da literatura cabo-verdiana e na nação crioula, como um conjunto, cujas existência e resistência são significativas. Aliás, hoje, ao lermos a correspondência do jovem Amílcar Cabral, percebemos porventura melhor a importância do projeto “claridoso” na sua projeção no médio e longo prazos – como realidade complexa, que não pode ser confundida nem com os percursos individuais ou a obra própria de alguns dos seus promotores iniciais nem com as limitações naturais de intervenção em diversos momentos históricos. “Tínhamos de intervir! Mas na óbvia impossibilidade de emprego de meios de ação direta que opção nos restava” – diz Baltasar Lopes. Além do carácter precursor do romance Chiquinho inicialmente aparecido em excertos na revista, onde o português e o crioulo de encontram a cada passo, como na realidade quotidiana, os ensaios “Uma experiência românica nos trópicos” teorizam sobre a mestiçagem e a hibridação linguística e aproximam Cabo Verde e o Brasil, num tema que Jorge Barbosa trata, em termos muito práticos e quase quotidianos em “Carta para Manuel Bandeira”. “Aqui onde estou, no outro lado do mesmo mar, / tu me preocupas, Manuel Bandeira, / meu irmão atlântico…”. E como afirma Nhô Baltas nos textos referenciados: “O núcleo inicial dos crioulos obedeceu a necessidades urgentes de simplificação de uma língua rica; mas condições especiais determinaram a seguir um enriquecimento ‘cultural’ progressivo do arquipélago. Chegou-se a esta situação: um flagrante desajustamento (no aspeto social muitas vezes doloroso) entre uma linguagem extraordinariamente simplificada na estrutura gramatical e uma cultura progressivamente enriquecida no sentido europeu”. E deparamo-nos com o natural encontro entre uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas, que Baltasar Lopes ilustra de forma exemplar – em condições que hoje, porventura, somos capazes de compreender melhor. E, como Urbano Bettencourt afirma, há uma irradiação açoriana da “Claridade”, uma solidariedade na Macaronésia e uma “circulação atlântica das culturas”… “Claridosidade” representa, assim, muito mais do que uma referência histórica de Cabo Verde – é um ponto de encontro e uma marca clara de identidade e de sentido universalista…

 

 
Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 25 de setembro a 1 de outubro de 2017.

 

«O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas» de José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2017) inicia uma nova coleção da editora, constituída por obras do escritor e poeta.

 

O OFÍCIO DE PERGUNTAR
Os 155 pequenos textos que constituem este livro correspondem a reflexões do autor sobre um conjunto muito vasto de temas em torno da experiência cristã. A esperança, o acolhimento, o espanto, o regresso, a gravidade e a graça, a crença, a sabedoria, o desejo, a compaixão, a perfeita alegria, a solidão, a inutilidade, a surpresa, a santidade, a ressurreição, o milagre, a repetição, a ternura, a oração, o silêncio, a lentidão, a perseverança, a palavra, a comunicação, o desassossego, a saudade, a morte e a vida – são alguns dos temas, colhidos num rápido folheio, que permitem a José Tolentino Mendonça ir-nos falando da complexa relação com Deus. E se falamos de perguntas e respostas devemos ouvir Plutarco a dizer que é necessário habituarmo-nos a fazer uma paragem e a criar um intervalo entre a pergunta e a resposta. No fundo, o fundamental é mesmo a pergunta. Nela se coloca o desafio e o problema. E é na pergunta que está a natureza mesma da oração – não vista como uma troca pessoal ou mercantil, mas como um verdadeiro diálogo. Trata-se de procurar ouvir quem está do outro lado… E se se fala de oração, importa preservar o recato. Os Evangelhos recomendam que entremos no quarto e fechemos a porta. É a decisão e a disponibilidade para o radical encontro consigo. E de que falam as casas? Do silêncio e da palavra, do incumprido e do adiado. E ouvimos Ruy Belo: «Oh, as casas as casas as casas»… Dir-se-ia que neste livro estamos diante de uma espécie de breviário dos tempos modernos, para leitores algo apressados. No entanto, há um apelo constante à reflexão ponderada e a um tempo de espera. Se os textos não ultrapassam uma página, a verdade é que devem ser lidos em ritmo lento. A cada passo o poeta pede-nos para não nos ficarmos pelas simplificações. E a citação de Adorno, traz-nos um elogio do espanto – como longo e inocente olhar sobre o objeto. E esse espanto obriga-nos a uma constante revisão do que sabemos de nós próprios e do mundo. A atenção ao que nos rodeia obriga a um olhar longo e disponível. A fé ensina-nos a arriscar, como nos diz Françoise Dolto, devendo recordar-se a parábola do administrador infiel – que apesar de desonesto, tem a virtude de antecipar as consequências de algo que sabe que vai acontecer. Devemos estar de sobreaviso. Já G. K. Chesterton, sobre a afirmação do evangelho de S. Mateus «se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo», vem dizer-nos que esta frase poderia estar gravada na entrada de um clube de alpinistas ou de uma associação de socorros a náufragos. A vida tem muito de escalamento, de subida, e também de ações de salvamento. Já quase nos esquecemos de que outrora nas aldeias na quinta-feira de Ascensão, além de se arranjarem as espigas, subia-se a um monte, em nome da simbologia da celebração.

 

O PARADOXO DA VIDA…
Quem quiser salvar a vida, tem de estar disposto a perdê-la. E o paradoxo torna-se uma marca da interrogação correspondente às grandes perguntas. Lembramo-nos dos ecos difíceis da frase de Tertuliano - «Creio ainda que seja absurdo» («Credo quia absurdum»). Longe das certezas, estamos num domínio, como a fé, em que a racionalidade e a dúvida estarão sempre presentes. E como interpretar o salmo citado por Cristo no Calvário - «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». François Mauriac perguntou, contudo: «Meu Deus, meu Deus, por que não me abandonaste?». O paradoxo leva-nos a olhar com outros olhos o mundo. Entre a natural multiplicidade de temas e preocupações vem à liça o poema de Sophia de Mello Breyner: «A civilização em que estamos é tão errada / Nela o pensamento se desligou da mão / Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco e gabava-se também / de saber conduzir num campo a direito o sulco do arado». E vem ainda à memória a distinção de Zygmunt Bauman entre o caçador, no uso da força, e o jardineiro, no uso da sabedoria – ou ainda a distinção fechada entre o «nós» e os «outros», que nos obriga superar a fronteira do egoísmo. A quantos sinais preocupantes desse isolamento e do medo dos outros assistimos nos dias de hoje. Merleau-Ponty recorda-nos que a solidão e a comunicação não devem ser vistas como dois termos de uma alternativa, mas como duas faces de um mesmo fenómeno… E Edgar Morin lembra que, como toda a gente, tem horror total às esperas, nos correios ou nos consultórios, e não suporta as filas burocráticas a que nos obrigam. Contudo, não cessa de esperar o inesperado… Devemos preparar-nos para a incerteza. Onde existe o humano existe a viagem… Este breviário traz-nos, assim, um permanente vai-e-vem de temas e problemas, de respostas e de perguntas. A fé é um verdadeiro livro do desassossego – e o certo é que, como no livro de Job, todos estamos representados, crentes e não crentes, convertidos e inquietos, locatários e peregrinos, e ninguém fica incólume às dúvidas e angústias. Bernanos recusava o odor a naftalina quando se deveria privilegiar o cheiro do rebanho… Há momentos que a sujidade do templo é sinal de vida. Quem não se dispuser a pôr os pés na lama não compreende a sua responsabilidade humana. Afinal, a dificuldade de crer não descaracteriza a fé – como sempre disse Simone Weil. E que é a perfeita alegria. Nas «Fioretti» de S. Francisco de Assis, lemos o diálogo de frei Leão com o próprio santo: «Imagina que pernoitamos (…) em completo desabrigo, fustigados pela dura neve, devorados pela negra fome, mas sofrendo tudo isso sem nos perturbarmos, sem murmurar contra o porteiro, antes pensando humildemente que aquele irmão nos conhece de verdade e que Deus o fez falar contra nós. Se suportares isso com bom amor, ficarás a saber o que é a perfeita alegria»… A felicidade não tem, pois, a ver com o contentamento imediato – mas com algo de muito mais fundo… Não estamos sós. E na relação com os outros, devemos relembrar a comovente invocação por Montaigne do seu grande amigo La Boétie: «Porque era ele, porque era eu»… De facto, há uma complementaridade incindível que nos liga, eu e o outro, nós e os outros… O pequeno caminho e as grandes perguntas correspondem à ilustração do mundo da vida. Ou será um grande caminho para grandes e pequenas perguntas? Importa lançarmo-nos ao caminho – lembrando António Machado («el caminho se hace al andar»). E Thomas Merton lembra que «o caminho da quietude não chega a ser sequer um caminho, e quem o segue não encontra coisa nenhuma»…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de setembro de 2017.

 

«Os Naufrágios de Camões» de Mário Cláudio (D. Quixote, 2017) é uma hipótese romanesca que nos obriga a repensar o mito sebastianista e a interrogarmo-nos sobre a figura de Camões.

 

UM OUTRO CAMÕES
Mário Cláudio permitiu-me, entre tantas provas de amizade, conhecer Tiago Veiga e, além do mais, contactar, através dele, com a cultura portuguesa viva – plena de surpresas e de inesperados protagonistas. Quando há uns meses recebi, com amável dedicatória, Os Naufrágios de Camões (D. Quixote, 2017) li-o imediatamente e prometi a mim mesmo aproveitar o mês de Agosto para voltar à prosa, a fim poder gozá-la lentamente, com lápis e caderno de notas, já que me pareceu ser excelente exercício para seguir os passos da complexa investigação imaginada pelo escritor para seu e nosso deleite. Cumpri escrupulosamente o intento. E o livro seguiu-me e seguiram-me Timothy Rassmunsen, neto de Tiago Veiga, Richard Francis Burton, o descobridor das nascentes do Nilo e inesperado camonista, e Ruy, o escrivão de bordo da nau anual da China. Acontece, porém, que para facilitar o exercício, acompanhei com pormenor a preparação da grande viagem deste ano do Centro Nacional de Cultura, “Os Portugueses ao Encontro da sua História” – à Cochinchina e ao Camboja – e, segundo a conjetura romanesca, foi em Phu Quocq, a maior ilha do Vietname, nas proximidades do Mekong, que Luís de Camões deixou o mundo dos vivos… Portanto, tudo se conjugava para tirar o máximo partido desse reencontro com o universo de Tiago Veiga. E, para tornar as coisas mais apetecíveis, uma vez que Mário Cláudio cultiva a necessária ambiguidade entre a ficção e a realidade, foi-me possível, em dado passo do romance, confundir uma diligência real com o meu amigo José Carlos Seabra Pereira com uma consulta literário-filosófica a propósito do clima que perpassa no “Banquete” de Platão e em Camões, confirmando-se que este leu o comentário de Marsílio Ficino sobre a obra do grego. Afinal, estamos sempre a circular da lá para cá e de cá para lá no espelho que nos é dado quando falamos de literatura… E, falando de moderna investigação, está já demonstrado que no Rossio está mesmo D. Pedro IV e não Maximiliano, por causa do colar da Torre e Espada… Enfim, pormenores.

 

O OUTRO LADO DO SEBASTIANISMO
A experiência de Os Naufrágio de Camões é do puro romance, em que a realidade se mistura com a ficção, mesmo sabendo que estamos no domínio do sonho. E o que encontramos? Uma autêntica revisitação do “sebastianismo” – não só porque o próprio Desejado é enganado no decorrer dos acontecimentos do enredo, mas também porque Camões se vê envolvido na ilusão, do mesmo modo que mais tarde D. Sebastião voltaria falsamente à Ericeira ou a Penamacor. Nesta trama é o próprio épico a ser substituído por um biltre, que se apresenta como se fosse o poeta, podendo mesmo (na conjetura discutível mas estimulante) ser autor da parte final do genial poema. De facto, o enredo parte da hipótese de Camões ter morrido no Oriente. Rassmunsen é claro: “estou em crer que um enorme naco de texto, digamos as últimas estâncias do Canto VIII e os Cantos IX e X, ainda por realizar à data da tragédia marítima, não resultam do punho de Luís de Camões, mas são com toda a verosimilhança da lavra do capitão da nau anual da China”. E o cerne do romance parte da ideia de que o poeta morreu no Camboja. E o capitão, Bartolomeu de Castro, oriundo de Ponte da Barca e amigo de Diogo Bernardes, faz-se passar por Camões. Foi recolhido pelos nativos, rumando a Goa, a Malaca, Chaul e à Ilha de Moçambique, dando continuidade ao poema e mandando-o imprimir em 1572. E assim Os Lusíadas participam, como obra referencial, do drama sebástico. Não é só o rei jovem que desaparece nas areias de Alcácer-Quibir, tornando-se reencarnação do Rei Artur, esperado em manhã de nevoeiro, é também o poema imorredouro que sofre a dúvida sobre a sua plena autoria. Mário Cláudio faz, assim, de Os Naufrágios de Camões uma revisitação do mito das conquistas. E quando seguimos as reflexões e as demonstrações de Rassmunsen o que está em causa? De facto, há uma menor fulgurância da escrita da parte final do poema. “Que as imortalidades, que fingia / A antiguidade, que os ilustres ama…”. Esta vulgaridade choca o neto de Veiga (como Aquilino). Bartolomeu de Castro teria míngua de talento e é exemplo do oportunismo mercenário dos “fumos da Índia”. E o romance dá-nos na primeira parte as deambulações testemunhadas pelo próprio autor… O relato é alucinante, envolvendo diligências científicas e pseudocientíficas, espiritismo, estudos sobre textos em língua tâmil, manuscritos em folha de palmeira, budismo, missionação cristã etc. E o fim do desarvorado Rassmunsen é dramático e patético.

 

A SOMBRA DE UMA SOMBRA
Morto o neto de Tiago Veiga a dizer “Não sei quem sou, nem onde e quando estou”, o romancista põe-se na peugada de Richard Burton, ao perceber que era este que Timothy perseguia no final de sua vida transtornada. E chegamos a Dinamene, “Aquela cativa, / que me tem cativo…”, o amor derradeiro de Camões. Compreende-se como o grande épico pôde atrair a figura do explorador inglês, herói atual – pela sua personalidade pioneira, aventureira e moderna. Burton admirava Camões, de quem se considerava quase um émulo, pelo carácter corajoso e culto: “desordeiro e erudito, familiar de alcouces, desabrido no trato e tão pronto a acariciar as coxas de uma nativa de África ou da Ásia, como a mimosear um camarada com dois murros aplicados na fronha”. E num sonho mediúnico, Bartolomeu de Castro, capitão da nau anual da China, é desmascarado: “É tempo de pormos ponto final à falcatrua, as derradeiras estâncias do grande poema foram de facto escritas pelo nosso homem”… Tratava-se da sombra de uma sombra… E é o relato de Ruy que nos dá a chave do mistério. “Embarcámos em Macau na São Lourenço, a nau anual da China, por entre uma vozearia de adeuses, de pilhérias e imprecações, e mirados de longe pelos nativos”. Iam conduzir Luís de Camões à prisão de Goa. O poeta era acompanhado da jovem Dinamene e de Jau, escravo de Java. E há o naufrágio. “A última imagem de que me restaria consciência haveria de ser a do cavername que, emergindo como um Adamastor, se erguia à minha frente enquanto a barca se empinava até desaparecer connosco, ou sem nós, nas tenebrosas goelas da tormenta”. Era na Cochinchina e o padre-pregador Gaspar da Cruz ali passara. Dinamene morreu. Camões não teria resistido. Dele rapidamente se perdeu a memória, segundo “a tradicional desmemória lusitana”. Em Lisboa, na Rua Nova apareceu um vate a recitar versos com uma pala a tapar a vista cega… Descobriu Ruy que era o comandante da nau da China que fazia das suas. Até ameaçara com violência Antónia Braz, já muito velha, antiga amásia do épico… Seguiu então os passos do farsante. O próprio rei D. Sebastião seria levado a ouvir o biltre a recitar o poema roubado. Veio o desastre de Marrocos e Filipe I tornou-se rei. As coisas mudaram e misteriosamente lemos em Os Lusíadas: “Este receberá plácido e brando, / no seu regaço o Canto, que molhado / vem do naufrágio triste e miserando, / dos procelosos baixos escapado” (Canto X, CXXVIII)…

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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