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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de janeiro de 2018.

 

«Lisboa Antiga» de Júlio de Castilho é uma preciosidade da olissipografia. Aí podemos encontrar dois núcleos fundamentais – Bairro Alto (4 volumes) e Bairros Orientais (12 volumes), além do volume dedicado à Ribeira de Lisboa.


A FUNDAÇÃO DA OLISSIPOGRAFIA
Júlio de Castilho (1840-1919) era filho de António Feliciano de Castilho, sendo diplomado com o Curso Superior de Letras. Recebeu de seu pai o título de visconde de Castilho, tendo tido, ao longo da vida, uma intensa atividade de memorialista, historiador, jornalista e bibliografo. Exerceu fugazmente funções políticas como governador civil do distrito da Horta (1877-78) e foi primeiro-oficial da Biblioteca Nacional. A vasta obra sobre a história da cidade de Lisboa é, ainda hoje, de significativa valia, tendo sido reeditada e enriquecida pela intervenção de olissipógrafos do século XX, como Gustavo de Matos Sequeira, Augusto Vieira da Silva e Pastor de Macedo. Se Norberto de Araújo foi um excecional divulgador da história de Lisboa, Castilho foi indubitavelmente não só o verdadeiro fundador da olissipografia, mas também um dos seus mais fecundos estudiosos e cultores. No dizer de Fernando Castelo Branco as três obras fundamentais de Castilho sobre Lisboa constituem “livros com notáveis méritos historiográficos e também literários, e dessa feliz conjugação resultam os quadros de evocação e de recriação que Fernandes Costa assinalou como um dos atributos mais relevantes de Júlio de Castilho… (…). Mas, muito principalmente, há a considerar que tendo sido um pioneiro, J.C. traçou uma obra que continua válida na sua maior parte, dando-nos múltiplos informes sobre a história de Lisboa, os seus edifícios, gentes e instituições. Escrita há já tão dilatadas décadas, continua a ser útil ao investigador, continua a ser uma leitura não apenas agradável, mas positivamente instrutiva para os curiosos do passado”. Discípulo de Herculano, nota-se na obra a influência da nova historiografia iniciada pelo mestre, tendo Júlio de Castilho iniciado as suas investigações e estudos em 1878. E a dado passo lemos na descrição do cerco de 1147, nos Bairros Orientais: “tenho a certeza de que o grande Herculano, se pudesse ouvir-me não levaria a mal, antes aplaudiria a liberdade que tomei; sinto que é mais um preito no seu indiscutível merecimento. De mais a mais: isto não é em mim pelejar com um morto. Herculano não morreu; para a admiração está vivo em todos os cultores de letras; para a veneração está vivo em todos os portugueses”.

 

O EXEMPLO DE SANTA CATARINA
Em complemento do que na última crónica falámos sobre as igrejas das portas de Santa Catarina damos hoje algumas referências de Júlio de Castilho sobre as igrejas do Loreto e da Encarnação, o que certamente constituirá uma ilustração das qualidades e do valor da obra de Júlio de Castilho, mas também um enriquecimento sobre o conhecimento dessa Lisboa em que continuamos a peregrinar. Falando da igreja do Loreto, refira-se que a mesma foi destruída pelo grande terramoto, descrevendo-a um viajante estrangeiro deste modo: “a feitoria italiana possui em Lisboa uma formosa igreja, há pouco acabada de reconstruir; é da invocação de Nossa Senhora do Loreto. Serve de paróquia. Ali celebram-se pomposamente os ofícios divinos. Este templo é dos mais concorridos pelos elegantes e pelas elegantes da capital”. Na frontaria, os dois querubins que seguram as Armas Pontifícias eram atribuídos a Canova, segundo teria sido comunicado ao Conde Raczynski, grande estudioso da nossa história da arte. Acontece, porém, que o próprio Raczynski refere outro testemunho, transmitido a Machado de Castro, que os anjos seriam obra de Bernini. Mas, para adensar o mistério, ainda é aventada a hipótese de essas figuras serem de Borromino… Numa palavra, há informações contraditórias e não existem provas seguras da verdadeira autoria… A igreja do Loreto não foi totalmente destruída, por isso Júlio de Castilho diz que, tendo Bernini morrido em 1680, poderiam os anjos estar lá anteriormente – tendo havido importantes melhoramentos no século XVII. Aliás, as mais recentes investigações revelam a hipótese de ter havido telas de Ticiano em Lisboa, no Loreto, o que confirma a qualidade das obras de arte do templo. Quanto a Canova, mesmo muito jovem, não há provas. As estátuas de S. Pedro e S. Paulo atribui-as Cirilo Wolkmar Machado a Fancé, um escultor francês. Lembre-se que a comunidade italiana adquiriu a antiga ermida de Santo António em 1518, alterando o orago para Nossa Senhora do Loreto, invocando um milagre do século XIII, segundo o qual a casa da Virgem Maria em Nazaré teria aparecido na Dalmácia e depois em Itália (Ancona) na propriedade de uma senhora de nome Laureta, onde hoje se encontra uma imponente catedral… O autor conta a história e refere ainda a singular representação de Nossa Senhora do Loreto que se encontra no cimo da fachada – “escondendo os braços e envolta num revestimento adornado de joias, pouco artístico e sensabor”…

 

E A ENCARNAÇÃO?
Depois do Loreto, atravessemos o largo e cheguemos à Encarnação, filha da primeira, e tardiamente instalada, mas graças ao legado de D. Elvira Maria de Vilhena (1627-1718), Condessa de Pontével, dama da corte de D. Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra. A Condessa decidiu edificar uma sede condigna da paróquia da Encarnação, “em chão que aí possuía na vizinhança junto ao muro da Cidade”. E “requereu à Câmara licença para se demolir a torre e parte do muro da Cidade, em baixo, junto à ermida de Nossa Senhora do Alecrim, para alargamento do chão em que se edificava a igreja da Encarnação”. Não foi fácil a concretização. A colossal porta de Santa Catarina demorou a derrubar. Só em 1708 o novo templo foi sagrado. O terramoto não destruiria a igreja, mas o fogo causou-lhe algum estrago que foi lentamente reparado sob a coordenação do arquiteto Manuel Caetano de Sousa. Só 29 anos depois do terramoto voltou o culto na igreja. A frontaria ficou, porém, dezenas de anos por acabar. Só em 1867 viria a ser aprovado o plano de conclusão, que corresponde ao que hoje conhecemos… E Júlio de Castilho elogia especialmente, pelo seu equilíbrio e beleza, o conjunto da autoria de Machado de Castro representando no altar-mor Nossa Senhora da Encarnação. Em suma Castilho cultiva bem a memória e diz, a propósito da demolição dos casebres do Loreto, atrás do palácio Marialva: “Na ordem moral, esquecer é arrasar lanços inteiros da existência. Há entes infelizes, para quem viver é esquecer. Não os invejo, não! Recordar é reviver”… Eis o que não esquece…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 
De 8 a 14 de janeiro de 2018.

 

«Peregrinações em Lisboa» de Norberto de Araújo são um clássico que ainda hoje deve ser consultado, para melhor conhecermos a cidade de Lisboa e os seus extraordinários segredos históricos. Invocamo-lo a propósito do recente programa «Visita Guiada» (RTP2) de Paula Moura Pinheiro sobre as igrejas do Chiado…

 

 

PEREGRINAÇÃO INESGOTÁVEL
No caso da “Visita Guiada” há sempre um ambicioso guião e do muito que há para falar fica sempre muito por dizer. Eis por que razão, devemos agir como fizeram peregrinadores da cidade como Júlio de Castilho ou Norberto de Araújo – dando pistas para que o “dileto viajante” possa por si não só fazer a caminhada necessária, mas também descobrir o fio da meada numa extensão sempre incerta e inesperada. Quando a Paula Moura Pinheiro me desafiou a fazer o percurso das igrejas do Chiado para a RTP2, acertámos que esse seria o pretexto para podermos tentar entender o que foi acontecendo no mítico lugar das Portas de Santa Catarina, muralha fernandina abaixo (da rua da Misericórdia ao Alecrim) ao longo do tempo, e sobretudo sob o efeito do Terramoto de 1755, que arrasou o Carmo e a Trindade e tudo que os circundava. Um programa de televisão, com tempo limitado, exige um enorme esforço – que os telespectadores podem sempre achar excessivo ou minguado, mas que corresponde ao que a grelha exige. Porquê uma concentração tão grande de templos naquele local? Eis uma pergunta que apenas pode ser respondida se percebermos que estamos no que era a fronteira da cidade de Lisboa na segunda metade do século XIV. A muralha protegia e levava a uma grande concentração populacional intramuros. Só mais tarde a cidade se abriria, para além do postigo de S. Roque, para o Bairro Alto, na Vila Nova de Andrade, lembrando os ecos do grande sismo de 1531 e a antiga herança de Mestre Guedelha, proprietário da herdade de Santa Catarina… E se as recentes obras do Largo de Camões trouxeram à luz do dia as fundações e os baixos do Palácio dos Marqueses de Marialva, a verdade é que essa era já uma edificação do século XVII… A porta de Santa Catarina situava-se onde hoje é o Largo das Duas Igrejas, tendo frente-a-frente o Loreto e a Encarnação – sendo o termo da Rua Larga, que hoje toma o justo nome de Garrett, e vinha da Pedreira (hoje Armazéns do Chiado), onde Frei Bartolomeu de Quental fundaria o Convento Oratoriano do Espírito Santo. E, para abreviar razões, lembre-se que em 1384 aqui assentou arraiais D. Juan de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, ainda criança, no cerco de Lisboa, levantado quando a jovem apresentou sinais de peste… Nesse tempo, havia, fora de portas, campo de cultivo também usado pela pastorícia.

 

ENCOMENDA PRODIGIOSA
Mas voltemos um pouco atrás, ao início da “visita guiada”, a S. Roque, no “adro da peste”, onde se ergueu uma pequena ermida em 1506, por ocasião de uma epidemia, pedindo graças ao santo protetor da enfermidade. A Irmandade que persiste com a missão de realizar as obras de misericórdia materiais e espirituais reúne hoje três antigas Irmandades – a da Misericórdia (fundada por D. Leonor em 1498), a de S. Roque e a dos Carpinteiros de Machado. Aí se instalaria a casa professa da Companhia de Jesus, começando a erguer-se o templo em 1555. Em 1573, as paredes estavam de pé, mas a cobertura suscitou dificuldades, sendo a complexa solução em madeira da Prússia encontrada por Filipo Terzi, já depois de 1580. O templo é ricamente adornado com excelentes obras de arte e objeto de generosidades régias, em especial de D. João V, merecendo destaque a magnífica Capela de S. João Batista – uma autêntica preciosidade encomendada em 1742 aos artistas italianos Nicola Salvi, e Luigi Vanvitelli. Jörg Garms é claríssimo sobre a obra: “forse… la capella piú rica mais construita… Un scrigno di straordinaria eleganza e unita”. A mais rica jamais construída. É a “encomenda prodigiosa”, na riqueza, na escala, na harmonia do programa (como disse António Filipe Pimentel). E não podemos esquecer a coordenação de João Frederico Ludovice, o ourives-arquiteto alemão que marcou decisivamente a rica coerência joanina. A obra foi organizada em Roma como um autêntico puzzle, sagrada em Santo António dos Portugueses (1744) e inaugurada quando D. João V já tinha morrido (1751). Sousa Viterbo refere esta joia inesquecível como um “gozo inefável para os sentidos”. “Monumento que anuncia já o neoclassicismo” – dirá o Professor J.A. França. Foi necessário procurar em toda a Itália os minerais e o esmalte aqui presentes, os medalhões são de mármore de Carrara, as oito colunas de estilo coríntio de lápis-lazuli, e encontramos ainda alabastro, jaspe, ametistas e tudo o mais. As obras de arte fundamentais são três preciosos quadros em mosaico, com pedrinhas de mil tonalidades – Batismo de Cristo, Anunciação e Pentecostes (de Moretti sobre cartões de Massuci). Não fora a riqueza artística, quase com ironia, Norberto de Araújo falava de um autêntico museu de geologia e mineralogia...       

 

DE S. ROQUE A SANTA CATARINA
S. Roque tem quinze capelas construídas em épocas diferentes, todas a merecer visita cuidada. No altar-mor alternam sete quadros conforme as épocas litúricas e encontramos imagens de santos da Companhia: Santo Inácio, S. Francisco de Borja, S. Luís de Gonzaga. E não podemos, sem uma ponta de emoção, deixar de recordar o belo poema de Sophia de Mello Breyner, “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”: “Nunca mais amarei quem não possa viver / Sempre…”. Lembrança indelével de S. Francisco de Borja. No corredor para a sacristia está a sepultura de Simão Rodrigues de Azevedo, que introduziu a Companhia em Portugal, e na sacristia deparamo-nos com imagens da vida de S. Francisco Xavier, da autoria provável de André Reinoso. E não podemos esquecer que, entre mil relíquias, aqui se encontra sepultado Francisco Suárez (1648-1717), o pensador célebre, com influência decisiva na renovação do pensamento político, filosófico e jurídico. O terramoto de 1755 atingiu o templo de S. Roque, sobretudo a fachada, mas não comprometeu o essencial do seu recheio. Por isso podemos usufruir de todo este esplendor…

Nas portas de Santa Catarina recordámos a necessidade de abrir a cerca fernandina para permitir a passagem do sumptuoso cortejo do casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria (1708). E lembramos José-Augusto França a dizer que se a capital de Portugal é Lisboa, o Chiado é a capital de Lisboa. A crónica lisboeta não dispensava os janotas da Havanesa, do Marrare, do Grémio Literário. Luísa encontra o Conselheiro Acácio e escapa-se para a igreja dos Mártires. Garrett, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro (seu irmão) todos por aqui passam. Um dia chamaram azul a Cesário Verde, que devolveu o piropo, chamando troca-tintas ao triste jocoso. A cidade cosmopolita leva a rica comunidade italiana a adquirir o Loreto, mudando o orago de Santo António para Nossa Senhora. E a Encarnação tornou-se filha do Loreto, num longo processo que exigiu a demolição de parte da velha muralha. Mas foi o terramoto com efeito violento nesta área, que obrigou a alterações significativas. A Basílica dos Mártires, a recordar os cristãos caídos na reconquista, cujo sino é o da aldeia de Fernando Pessoa, é um esmerado resultado do projeto de Reinaldo Manuel, com a célebre invocação de D. Afonso Henriques de Pedro Alexandrino de Carvalho. E a Igreja do Santíssimo Sacramento, em terrenos dos condes de Valadares, também com traçado de Reinaldo Manuel e pinturas do mesmo Pedro Alexandrino, é uma bela surpresa, equilibrada, recolhida, rica de espiritualidade… Peregrinar pelo Chiado é, de facto, visitar a face aberta da nossa cultura!

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 1 a 7 de janeiro de 2018.

 

«A Revolução Russa» de Sheila Fitzpatrick (Tinta da China), 2017, é uma síntese, dir-se-á pedagógica, sobre os acontecimentos que há um século marcaram a história mundial, com profundas e heterogéneas consequências que ainda hoje marcam o mundo.

 

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AS OUTRAS REVOLUÇÕES

Os cem anos da Revolução Russa levam-nos a ligar esse acontecimento aos três outros que marcaram a História europeia e mundial nos últimos três séculos – a saber, as revoluções inglesa (1688-89), americana (1776) e francesa (1789). Salvaguardadas as diferenças, estamos perante movimentos que visaram alterações sistémicas e estruturais das sociedades em que tiveram lugar. No caso britânico, tratou-se da implantação de um sistema parlamentar, assente na divisão de poderes, em que os comerciantes das cidades tomaram o lugar dos grandes proprietários das terras. No caso norte-americano, estamos perante uma emancipação colonial e a consagração de um sistema federalista, também baseado na divisão de poderes – que apenas se consolidou depois da guerra civil (1861-65) e do reforço gradual da legitimidade do Congresso por contraponto aos poderes dos Estados. A situação francesa vai conhecer uma evolução complexa, que põe em xeque o Antigo Regime, sendo primeiro influenciada pela ideia de «vontade geral» de Jean-Jacques Rousseau e depois gradualmente conduzirá à separação de poderes – mediada pelo império napoleónico, pela monarquia de Julho e pelo republicanismo liberal. A revolução russa de 1917 começou por ter a influência da matriz inicial da revolução francesa. De fevereiro a outubro de 1917 a tentativa gradualista e plural falhou e foi o governo de Assembleia de Rousseau que prevaleceu, contendo a óbvia fragilidade da inexistência de uma limitação de poderes. Em todos os casos referidos (Inglaterra, Estados Unidos e França) a noção de constitucionalismo vai-se afirmando com limitações e fragilidades, sobretudo devido à dificuldade na afirmação de instituições mediadoras estáveis e fortes, aceites livremente pelos cidadãos. O caso russo é especial, uma vez que estamos numa sociedade essencialmente rural, com reminiscências feudais – em contraste com as sociedade industriais que Karl Marx considerava estarem em condições para evoluir segundo o determinismo do materialismo dialético estudado pelo pensador alemão. Quando lemos uma síntese como a de Sheila Fitzpatrick, percebemos bem que uma orientação centralista férrea foi o modo prático para superar a dificuldade teórica de base – considerando que Karl Marx estava muito longe de pensar que a sua teoria evolutiva pudesse querer aplicar-se ao pós-feudalismo russo. Daí a necessidade do centralismo que, no entanto, pôs em causa o primado da lei e conduziu ao Gulag. E, tal como encontrámos na revolução francesa inicialmente, também aqui temos um período de terror, mais longo e sistemático, para compensar a ausência de uma legitimidade cívica alargada.

 

ESLAVÓFILOS E OCIDENTALISTAS

Não se esqueça que a sociedade russa do século XIX conheceu um intenso debate entre eslavófilos e ocidentalistas – envolvendo liberais e socialistas, e entre estes em múltiplos grupos que se foram formando. Esta tensão ainda hoje persiste e a ela se devem muitas incompreensões e equívocos – já que a cultura russa é poliédrica e só desse modo pode ser entendida. Tolstoi ou Dostoievski são exemplos dessa riqueza. Nas vésperas de 1917 não podemos esquecer a influência decisiva da participação russa na guerra mundial (1914-18) como aliada das potências ocidentais. O apoio alemão a Lenine teve, assim, objetivos claríssimos, no sentido de enfraquecer os aliados. O reinado do czar Nicolau II revelou-se extremamente frágil, pleno de erros e vicissitudes, avultando as repercussões da guerra russo-japonesa (1904-05), o esmagamento do golpe de 1905, e a participação na grande guerra. A renúncia do último czar determina a passagem do poder para o Governo Provisório (Lvov e Kerenski). A fase dita liberal da revolução vai ser minada pelo espontaneísmo, que num primeiro momento não favorece o partido de Lenine. Ainda que momentaneamente influentes os outros partidos não se vão entender – e o caso de Alexandre Kerenski é paradigmático, uma vez que será incapaz de impor uma orientação pluralista. O certo é que havia uma incapacidade geral para responder construtivamente à agenda do momento. Previu-se, entretanto, que uma Assembleia Constituinte decidiria sobre as questões essenciais – como o regime político, o estatuto da terra, a questão operária e o futuro da participação da Rússia na guerra. A Assembleia chegou a ser eleita em 1918, mas imediatamente foi dissolvida por pressão dos bolcheviques, postos em minoria na eleição. Contudo, o novo poder desvalorizou as capacidades dos bolcheviques (o chamado partido alemão) e de Lenine – e os sovietes surgiram como uma espécie de poder popular, cuja influência reforçou os bolcheviques. Assim, os sovietes, conselhos de operários e soldados, uma vez burocratizados tornaram-se meros apêndices do partido de Lenine – e isto mudou o curso dos acontecimentos.

 

DO DOMÍNIO BOLCHEVIQUE AO GULAG

A chamada ditadura do proletariado tornou-se o domínio do partido bolchevique. Assim, vai ocorrer a destruição de toda a oposição, desde os chamados partidos burgueses aos restantes partidos da esquerda e finalmente a purga entre os bolcheviques. Lenine proibiria, assim, qualquer grupo ou fação no interior do seu partido – orientação que Estaline prosseguiria sistematicamente em continuidade com o seu antecessor. Com este pano de fundo de crescente centralização e purificação desenvolvem-se o Comunismo de Guerra, a NEP – Nova Política Económica (com um início de algum modo gradualista) e os Planos Quinquenais numa lógica progressiva de centralismo burocrático. A chamada Revolução Cultural foi lançada pelos apoiantes de Estaline em 1928 e representou uma nítida contradição relativamente aos objetivos iniciais do movimento, uma vez que impôs uma única corrente de criação artística: o realismo socialista. O afastamento progressivo de Trotski, figura central do soviete de Petrogrado, culminaria na expulsão do partido em 1929. Acresce que se verificou, nesta linha, um endurecimento em relação à noção de moral revolucionária, agora mais fechada e rígida. Entretanto, o luxo do poder implantou-se e o extremismo foi duramente perseguido – culminando no grande terror de 1937-38. E ainda que a autora tenha sobretudo ficado nesse ponto, não pode esquecer-se que as perseguições que permaneceram até 1953, data da morte de Estaline, e que vemos nos relatos de Soljenitsine. A título de curiosidade, devemos recordar a publicação dos relatórios diplomáticos de Jaime Batalha Reis sobre a sua saída da Rússia em 1918 - «Dos Romanov a Lenine» (Abysmo, 2017). É muito interessante termos um relato desapaixonado de um velho socialista português baseado nos factos concretos sobre a revolução russa. Aí lemos: “A anarquia era integral; não havia nem polícia, nem tribunais nem leis”, tudo decorrendo no meio de uma população “densa e esfomeada”.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 de dezembro de 2017 a 1 de janeiro de 2018.

 

António José Saraiva, cujo centenário ocorre a 31 de dezembro, é uma referência fundamental na história da cultura portuguesa – sobre a qual refletiu intensamente, sempre com inteligência e sentido crítico.

 

António José Saraiva

 

O ESPÍRITO DO TEMPO…

António José Saraiva sofreu influências do espírito do tempo, mas teve a grande argúcia de compreender a complexidade na evolução da sociedade e da cultura. O intelectual foi evoluindo, sendo um caso especial na procura de novas respostas aos problemas essenciais que foi encontrando. Foi sempre inconformista – mesmo nos momentos mais marcados. Não é possível, assim, compreender a cultura portuguesa, numa visão panorâmica, sem ler e estudar a sua obra, rica e polifacetada. Como afirmou em 1946, “desde o século XVI sucede-se uma série de tentativas para enraizar entre nós uma cultura que se malogram umas atrás de outras. A história da cultura em Portugal não apresenta um desenvolvimento seguido e consequente, mas estratifica-se em secções independentes: é uma série de irrupções descontínuas, não tem uma linha diretriz interna” (Para a História da Cultura em Portugal, volume I). Esta tendência não significa que não haja bons exemplos, no entanto há ausência de regularidade, o que leva amiúde à repetição e ao decaimento, que obrigam, tantas vezes, a recomeçar quase tudo de novo, com perda de energias. Faltou elite universitária. Houve um baixo nível da massa e as condições técnico-económicas desta foram frágeis… Deste modo, no caso português, os géneros literários ressentiram-se dessas circunstâncias – no longo prazo, o teatro, o romance não têm a pujança permanente que o lirismo individual apresenta. Há atrofia dos géneros que dependem de um público largo, que falta, e existe hipertrofia dos géneros compreende-se a seguir a Bernardim, ao Cancioneiro Geral e ao lirismo trovadoresco. Fernão Lopes é um génio singularíssimo. Gil Vicente representa a tensão entre o espírito tradicionalista e as transformações externas que se impunham. E importa ainda lembrar que há uma cultura dos letrados e das cortes portuguesas nesse tempo profundamente hispânica e peninsular… A literatura dos Descobrimentos e dos séculos seguintes será outra coisa. Se AJS dedicou uma parte importante do seu labor científico à literatura, a verdade é que procurou sempre ir mais além. “A literatura é a primeira tentativa de definição de problemas que a ciência determina com mais exatidão”. E essa preocupação levará o nosso autor a evoluir nas suas ideias de uma aproximação nítida ao materialismo histórico até uma perspetiva centrada num pensamento crítico liberal-social.

 

INTERROGAR SEMPRE A CULTURA

Nos últimos anos de vida, o mestre vai estar empenhado numa revisão do que escrevera. Para definir as épocas da cultura portuguesa sugeria quatro critérios: a perspetiva mítica; a relação entre topo e base, considerando os aspetos económicos e políticos; a pertença ao sistema cultural europeu-ocidental (depois da citada prevalência do peninsular); e o valor de cada época no signo linguístico e no discurso. Nesta lógica, é muito interessante a leitura dos diversos textos publicados em 1980, sob o título Filhos de Saturno – Escritos sobre o tempo que passa. São, de facto, fruto do tempo estas reflexões que correspondem ao tratamento dos temas e problemas que preocupavam o intelectual. Os textos de 1974 (desde “Cravo de Maio flor da liberdade”) e 1975 são muito marcados pela esperança e pela crítica (de quem tinha autoridade para a fazer) sobre os caminhos e os perigos da democracia nascente. E a cada passo, lemos, uma simbiose entre o espírito sistemático, a necessidade de cultivar a liberdade crítica e o apelo ao despertar das consciências para uma cidadania ativa. O artigo do “Diário de Notícias” intitulado “O 25 de Abril e a História” (de janeiro de 1979) sobre a descolonização suscitaria polémica acesa e foi ponto de partida para um debate apaixonado no Centro Nacional de Cultura, que serviu de base a um dossiê fundamental da revista “Raiz e Utopia” – aliás fundada por AJS e prosseguida por Helena Vaz da Silva. Hoje, ressalvadas as distâncias, mas conhecendo os dramas da história das últimas décadas, compreendemos a posição assumida – e temos de saudar a coragem e a hombridade de quem considerava, na linha dos homens de A Tertúlia Ocidental, que só com ideias e com a audácia de as exprimir poderemos avançar.

 

IRONIA PERFURANTE

Interrogador da identidade portuguesa, considerava que nos habita um espírito de ilhéu, “oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda, vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar”. O português inferiorizar-se-ia, “refugiando-se numa autoironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir…”. Trata-se da ciclotimia de Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade – bem enfatizada por Ernesto Rodrigues na introdução a Filhos de Saturno. É o humor de Rafael Bordalo Pinheiro com Zé Povinho entre a chacota e a autoironia, que leva ao sarcástico “Panegírico do oportunista”, sobre os perigos do conformista e do competente talentoso que singram pela adaptação às circunstâncias. Mas há ainda a “dificuldade de ser” do português, a misteriosa coita (“gosto de ser triste”), talvez agravada pela subalternidade da Corte na Aldeia nos sessenta anos filipinos, e presente na dualidade entre “desafio triunfante e dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo” (E. Lourenço), já visível na crítica de Gil Vicente. Leia-se o ensaio perscrutante sobre o sebastianismo (“Loucura e História”) e compreenda-se como AJS admirou a Geração de 1870 como exemplo de uma crítica consequente baseada nas ideias, não derrotista ou niilista, não caída na tentação do fatalismo. Pensa, assim, como Sophia, “que a nossa crise é antes de mais uma crise moral. É essa que está na raiz de todas”. E em carta a Óscar Lopes é claríssimo: “A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado (…); o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem”. E dirá ainda: “a ‘idade da abundância’ é, na realidade, a mercantilização total da vida, a destruição de todos os valores que não se transformem em moeda”. Quando conheci pessoalmente AJS estava embrenhado em A Tertúlia Ocidental (Gradiva, 1990). Tendo estudado Antero, Oliveira Martins e Eça de Queirós, procurou neles uma síntese desafiante para hoje. E admirando Oliveira Martins, dizia: “considerava os seus livros como preparatórios eficazes de uma ação política em que apostou a sua vida. Ele não distinguia os dois planos: o da narração e o da ação, o dos símbolos e o da prática. Procedia como se o passado não fosse um cortejo de máscaras com o seu compasso próprio mas sim como se o passado fosse o antes do presente marchando ao mesmo passo e como se o presente fosse a continuação do passado, estando a diferença entre ambos unicamente na distância a que se encontram do observador”. Eis a síntese do que procurou! 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de dezembro de 2017.

 

O ano 2018 está à porta e o Comissário Europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no dia 6, no decorrer do Fórum Europeu da Cultura, que não estamos apenas a falar «de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos».

 

QUE PATRIMÓNIO CULTURAL?
O tema do património cultural é complexo. Nada pior do que tratá-lo de ânimo-leve, ao sabor dos lugares comuns. Tratamos da relação da contemporaneidade com a História. De facto, os lugares de memória correspondem sempre a uma encruzilhada de referências e de tempos. Qualquer simplificação revela-se perversa. Se os anglo-saxónicos preferem usar a palavra “heritage”, no sentido do que recebemos, nós recorremos a uma expressão de origem latina que liga à noção de serviço (“múnus”) à de relação com os nossos antepassados (“patres”). Temos, assim, uma ideia dinâmica, que aponta no sentido da ação e da responsabilidade. Eis por que razão as políticas públicas de cultura, e em bom rigor de educação, têm de partir da preservação e do conhecimento da memória, para melhor podermos entender a capacidade criadora e renovadora das novas gerações. O ensino da História, o entendimento aberto das Humanidades, a cultura exigente que se demarca da mediocridade e da irrelevância, o diálogo competente entre saberes e culturas têm de merecer cuidado e atenção. Há exatamente cem anos, dia por dia, Almada Negreiros assinou o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”. Aí, muito dominado pela conjuntura que o rodeava e pela presença da guerra, insistia em que era preciso criar a pátria portuguesa do século XX - importando a demarcação relativamente a um entendimento indiferente, passadista, fraco, decadente, redutor e fechado. Em lugar da inércia e da burocracia, urgia despertar energias. Haveria que assumir a coragem de considerar as qualidades e os defeitos próprios - para que a qualidade pudesse ser referência. E que foi buscar o artista para fundamentar a sua pesquisa sobre o futuro? O Ecce Homo quatrocentista do Museu das Janelas Verdes. Ou seja, mais importante do que a invocação de referências passadas ou mortas, haveria que que encontrar as qualidades dos melhores, projetando-as nos vivos. Em lugar de ler a História como um tempo ultrapassado, haveria que estudá-la e compreendê-la como movimento. Em vez da falta de cuidado relativamente ao que nos foi legado pelo passado, importaria cultivar a capacidade renovadora, suscetível de acrescentar valor ao recebido. Daí o regresso aos pintores e artistas de quatrocentos – num entendimento vital de património que se renova permanentemente. Almada invoca, por isso, “estes meus grandes olhos de europeu, cheios de todos os antecedentes; com o passado, o presente e o futuro numa única linha de cor, escrita aqui na palma da minha mão esquerda” (Conferência nº 1, 1920).

 

RECOLHA DE SENSAÇÕES
Quando Stendhal visitou há duzentos anos, Roma, Nápoles e Florença, mais do que as apreciações eruditas sobre o que via, procurou uma “recolha de sensações”. E deparamo-nos com uma relação rica e fecunda entre pedras mortas e pedras vivas, para usar a expressão consagrada de Rabelais. E essa relação permite compreendermos o património cultural como uma construção permanente, assente no diálogo entre o passado e o futuro, mediado pelo presente. Veja-se o que diz o autor da Cartuxa de Parma sobre exemplo do “Duomo” de Milão – «nunca a arquitetura me deu tais sensações. O mármore branco recortado em filigranas não tem certamente a magnificência nem a solidez de S. Paulo de Londres. Direi às pessoas nascidas com inclinação para as belas-artes: “Esta arquitetura brilhante é o gótico sem a ideia de morte: é a alegria do coração melancólico; e, como esta arquitetura despojada de razão parece construída pelo capricho, está de acordo com as loucas ilusões do amor. Trocai por pedra cinzenta o mármore brilhante de brancura, e todas as ideias de morte reaparecem…”». Stendhal compreendeu bem que o património cultural só teria sentido se se relacionasse com as pessoas e com as sensações que nelas produz. Por isso, não podemos ser indiferentes, temos de cultivar esse afeto especial – que nos obriga a proteger essa memória material, em nome da própria vida. E o conhecimento histórico, a atenção às tradições obrigam-nos ao culto e à atenção, nunca é de mais insistir. Por isso, não há política cultural digna desse nome sem valorizar o que recebemos das gerações que nos antecederam – seja património material ou imaterial, monumentos ou hábitos e costumes. Mas não se trata de uma reprodução passiva ou de uma imitação empobrecedora. “Em Paris, temos todos os prazeres; em Itália só há um – em primeiro lugar o amor e ainda as Belas-Artes que são outro modo de falar do amor”. E esse amor, que decorre do prazer da viagem, leva à arte da escrita, como forma de transmitir uma paixão, impossível de esquecer. Lembremo-nos do nosso Antero, severo crítico das escolas da repetição e do elogio mútuo. Para viver com ideias é indispensável não deixar ao abandono o melhor que nos foi legado – a língua, a literatura, as Belas-Artes, as paisagens, a relação com a natureza, numa palavra, a memória viva e os seus roteiros. Longe da lógica do “bricabraque” ou da mera musealização da cultura, do que se trata é de garantir que a salvaguarda do património permita a continuidade de uma memória exigente e culta, bem como um melhor conhecimento crítico. Haverá legado mais valioso do que aquele que nos foi deixado por Alexandre Herculano na reunião de arquivos, no levantamento de documentos e na organização das fontes e sua apresentação? Daí a ligação necessária às escolas e à pedagogia, enquanto elementos fundamentais de sensibilização e de defesa do património. Valorizar as Humanidades significa articular o ensino da História e das ciências auxiliares à investigação científica – bem como não deixar ao abandono tantos legados chegados até nós.

 

LEMBRAR A CONVENÇÃO DE FARO
Nos primeiros dias de dezembro, exatamente em Milão, foi lançado formalmente o Ano Europeu do Património Cultural – 2018, em conjugação com o Forum Cultural Europeu. Trata-se de assumir uma especial responsabilidade – a de pôr o património e a cultura no centro da vida europeia e democrática. Afinal, quando hoje se fala de sustentabilidade, temos de entender que não nos reportamos apenas à economia ou às finanças, ao meio ambiente ou à energia, referimo-nos a tudo isso, mas antes do mais ao desenvolvimento humano. Não por acaso a Convenção de Faro do Conselho da Europa (2005) fala-nos do valor do património cultural para a sociedade contemporânea, envolvendo direitos e deveres, bem como avaliação rigorosa de resultados alcançados, permitindo-nos compreender que o que tem mais valor é o que não tem preço e que a economia humana só progride verdadeiramente se souber garantir o equilíbrio entre a preservação da memória e o incentivo à inovação e à criatividade. Educamos pessoas e cidadãos livres e responsáveis e não robôs. Urge, por isso, compreender que a arte e a memória, que a ciência e a consciência se completam e que as sociedades amnésicas, que se fecham sobre si mesmas, recusando a abertura e a partilha, entram em inexorável decadência…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 4 a 10 de dezembro de 2017.

 

No centenário de Júlio Resende devemos lembrar uma obra multifacetada, tantas vezes ligada à literatura – como nos casos de Sophia de Mello Breyner ou Vergílio Ferreira…

 

 

O emblemático projeto «Mar Novo» (1956), no qual intervieram o Arquiteto João Andresen, Júlio Resende e Barata Feyo, vencedor do concurso para o memorial a instalar em Sagres, não foi concretizado por miopia política e ausência de perspetiva histórica. Ele constitui uma referência que não pode ser esquecida, em especial quando celebramos o centenário de Júlio Resende. E temos na memória os versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, que jamais esqueceremos: «Nenhuma ausência em ti cais de partida. / Movimento ritual – surdo rumor de búzios - / Alegria de ir ver o êxtase do mar / Com suas ondas-cães, seus cavalos / Suas crinas de vento seus colares de espuma / Seus gritos seus perigos seus abismos de poema…». Não por acaso, Sophia intitulou estes versos de «Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o Monumento que devia ser construído em Sagres». São uma homenagem forte e inesquecível. Há aqui, simultaneamente, um grito heroico e uma expressão incontida de revolta pela não construção de uma memória viva e atual. Mas o poema imortaliza Sagres, o Infante, os artistas portugueses e a força unificadora do Mar na independência portuguesa.

 

Júlio Resende (1917-2011) tem a inconfundível marca da cultura portuguesa – não de uma cultura fechada, mas de uma criatividade aberta e apelo perene de aventura («alegria de ir ver o êxtase do mar»). A sua obra é uma rica encruzilhada de influências e uma janela sobre um Portugal definido por uma modernidade caldeada pela compreensão das raízes. A obra de Júlio Resende fala, assim, por si, como demonstração de coerência, de excecional talento e de compreensão de uma memória futurante sempre temperada por uma identidade dinâmica, antiga e nova, dotada de uma personalidade rica aberta ao tempo e ao mundo. Formado na Escola de Belas-Artes do Porto foi discípulo de Dórdio Gomes. Na sua juventude dedicou-se com assinalável sucesso à ilustração, como pioneiro da banda-desenhada – com as inconfundíveis histórias de Matulão e Matulinho no «Janeiro» e as ilustrações no «Papagaio» e no «Tic-Tac». São notáveis esses apontamentos de humor e génio. Em 1943 promove e participa no grupo de Independentes, com Júlio Pomar, Nadir Afonso e Fernando Lanhas. Em Paris, a partir de 1948, vai trilhar os caminhos expressionistas e cubistas, num experimentalismo que culmina num caminho próprio de síntese entre o figurativo e o abstrato. É discípulo de Duco de La Haix e de Othon Friesz, aprende a técnica afresco e frequente o Louvre, em contacto com os mestres maiores da pintura.

 

Primeiro no ensino secundário e depois na Escola de Belas-Artes do Porto afirma-se como um verdadeiro pedagogo, capaz de articular a busca pessoal de novos caminhos e de suscitar por parte dos seus discípulos uma procura pessoal de caminhos inovadores. Fora da lógica estrita das escolas ou das influências exclusivas, o expressionismo de Resende é pessoalíssimo, revelando-se o artista como um verdadeiro protagonista de um estilo e método inolvidáveis, que o singularizam no nosso panorama artístico. Vergílio Ferreira, Júlio, Charrua, Almada Negreiros e Eduardo Viana são criadores com quem convive – como mais tarde acontecerá com Jorge Amado. Na Noruega encontra Oddvard Straume. O mar torna-se um tema recorrente e a gente da beira-mar domina a sua criação. Nos anos cinquenta fixa-se no Porto, pinta o afresco da Escola Gomes Teixeira, cria as Missões Internacionais de Arte, organiza exposições sobre Arte Portuguesa, em Oslo e Helsínquia. Executa o Painel para a «Exposição Internacional de Bruxelas» (1958), realiza os painéis de azulejo para a Estação de Caminho de Ferro de Vilar Formoso. Depois da experiência no ensino secundário e da formação em ciências pedagógicas, leciona na Escola Superior de Belas-Artes do Porto (1958), onde presta provas públicas para provimento em lugar definitivo (1962). São múltiplos os trabalhos neste período: nos Palácios de Justiça do Porto e Lisboa, no Tribunal da Anadia; criando os cenários para o Auto da Índia e Auto da Alma, de Gil Vicente para o Teatro Experimental do Porto (TEP) ou para «Fedra» de Racine e «Antígona» no Teatro Experimental de Cascais. Ilustra «Aparição» de Vergílio Ferreira – sendo premiado na Bienal de S. Paulo na categoria de Artes Gráficas. Realiza o cenário e figurinos para o bailado «Judas», coreografado por Águeda Sena para a Companhia de Bailado da Fundação Gulbenkian (1968). Participa no filme «Cântico Final» de Manuel Guimarães, adaptação do romance de Vergílio Ferreira. Concebe e executa os vitrais para a Igreja de Nossa Senhora da Boavista no Porto (1984) e para a Igreja da Cedofeita («Ressurreição», 1990). Realiza o Painel «Ribeira Negra» (1984) que será executado em grés no Porto, tornando-se referencial (1986). Em 1989 tem lugar a Exposição retrospetiva na Gulbenkian. Em 1993 é criado o «Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende», cuja sede é inaugurada em 1997. «A consciência mais aliciada levou-me a verificar que as hesitações de percurso, uma vez eliminadas, tornavam mais claro o (…) trajeto, que iniciado nos anos 30 cobriam 60 anos nos quais a dominante expressionista respondia necessariamente à minha natureza de homem» - Júlio Resende disse-nos assim como viu o seu caminho de coerência e de vitalidade. E, em bom rigor, esse expressionismo, menos do que uma marca geral, é uma manifestação plena de uma personalidade inconfundível, para quem as pessoas, a natureza, as paisagens se entrecruzam naturalmente – tornando-o inconfundível, português e universal, como os nossos melhores… Júlio Resende é um português que soube fazer da sua arte uma voz de dimensão universal… 


Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de novembro a 3 de dezembro de 2017.

 

“Os poetas quando são verdadeiros não morrem” - afirmou, há dias, nos Açores ao “Açoriano Oriental” Eduardo Lourenço, aquando das jornadas realizadas pelo Governo Regional e pela Fundação Calouste Gulbenkian nos 175 anos do nascimento do poeta micaelense Antero de Quental (9.11.07).

 

 

O GRANDE MICAELENSE
A atualidade de Antero de Quental é algo que merece atenção e cuidado. E a afirmação de Eduardo Lourenço assume uma especial importância, uma vez que Antero compreendeu, como ninguém, que havia uma mitologia cultural portuguesa que chegava ao fim. E assim o poeta, como tem afirmado o ensaísta de O Labirinto da Saudade, “viveu a título pessoal a morte de Deus, como se fosse uma evidência absoluta, e ao mesmo tempo sem poder aceitá-la”. E é a vivência deste paradoxo que torna o poeta uma referência multímoda da nossa cultura e o projeta para uma dimensão universal, em que ele é único no panorama português. De facto, o autor dos Sonetos pôde ser central na genial geração de que participou – tornando-se, ao mesmo tempo, sucessor numa genealogia que atinge a maturidade com Camões e chega a Bocage, Garrett e Herculano, e vai continuar em Pascoaes e na revista “Águia” e em Fernando Pessoa e no “Orpheu”, até aos nossos dias. Estamos, deste modo, num ponto de encontro e numa espécie de placa giratória, definidores da cultura portuguesa como um cadinho de diversas influências. E não por acaso encontramos nesta capacidade de abertura universalista uma das bases da heterodoxia de Eduardo Lourenço. Longe de uma identidade fechada, deparamos com a recusa de um qualquer fatalismo ou de complexos de superioridade ou inferioridade, típicos de culturas ensimesmadas. Se é verdade que sofremos de uma ciclotimia ou bipolaridade ancestral, o certo é que o sentido crítico da geração de 1870 contribuiu decisivamente, num certo tratamento de choque, para a recusa dessa enfermidade estrutural. Afinal, a projeção global da nossa língua (uma das cinco que mais crescerão no próximo século) capaz de ser expressão de várias culturas e fundamento de diversas línguas subsidiárias, como os crioulos, corresponde a essa extraordinária capacidade de integrar poética e culturalmente uma visão abrangente – não ligada a uma qualquer idiossincrasia tribal ou regional. Sem ter exata consciência disso mesmo, o poeta açoriano é, nestes termos, um autêntico símbolo da vocação universalista da cultura portuguesa, que em nada minora a importância do que nos distingue. E Antero de Quental corresponde à vivência desse universalismo cosmopolita, que mais tarde encontraremos em Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Aliás, Tolstoi e Unamuno testemunham, de modo inteiramente insuspeito, sobre a importância do nosso genial poeta. Voltando a Eduardo Lourenço: “a literatura condensa a essência de cada povo, daquilo que ele é e pretende, das vivências que o norteiam e definem”. No caso de Antero e Pessoa, “ambos se dedicaram a olhar o problema da nossa identidade, da nossa figura, da nossa imagem no mundo… Não para os olhos dos outros, mas para os nossos próprios. Isso começou com a geração de 70”. E é esse sentido crítico, a capacidade de realizar a psicanálise mítica do nosso destino que torna essa atitude como crucial no sentido de uma emancipação centrada na compreensão humana e complexa de quem somos.

 

QUE MITOLOGIA DA SAUDADE?
Em carta a António de Azevedo Castelo Branco de 1867, Antero diz que “a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais bem ligadas, abrindo-as, deslocando-as. Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”. Recusa-se, deste modo, uma simplificação melancólica. Mais importante do que o culto de uma ilusão, importaria ir à substância das coisas e inserir o sentimento poético numa compreensão racional. Trata-se de uma demarcação relativamente a Garrett, como modo de superar a contradição entre razão e delírio. Haveria que caldear as tradições com a racionalidade e a procura de um caminho capaz de nos proteger das ilusões. No entanto, o poeta oscilará entre o misticismo e a “lucidez racional” – entre a poesia e a filosofia. E em carta a Oliveira Martins, de 1880, dirá: “é incrível a desarmonia que há entre a minha razão e o meu sentimento, e este, por mais que faça, nunca chega a afinar pelo tom grave e claro daquela. Que fazer? É evidente que a poesia sai do sentimento e não da razão”. Daí a necessidade que o poeta sente do mundo das ideias – que o leva a centrar-se na reflexão que se traduzirá na publicação do fundamental ensaio “Tendências Gerais da Filosofia da Segunda Metade do Século XIX” (1890), a pedido de Eça de Queiroz para a “Revista de Portugal”. Já em 1885 dissera a Jaime Batalha Reis: “Extrair do pessimismo o otimismo, por um processo racional, tem sido afinal o trabalho da minha vida. Creio que cheguei ao termo e dou a minha Filosofia por completa e acabada. (…) A dita minha Filosofia não é original. É antes uma fusão (não amálgama) do Hegelianismo com a monadologia de Leibniz, dando de si a síntese do idealismo e do espiritualismo num terreno que à 1ª vista se parece com o materialismo. (…) O meu sistema será pois (como todos, no fundo) um ensaio de interpretação do Universo no ponto de vista do espírito moderno, interpretado esse mesmo espírito pela razão crítica. Se conseguir fazer isto satisfatoriamente, não darei por vão o meu esforço”. O pessimismo é, no fundo, um caminho, para que a consciência crítica ilumine a ação. E é da necessidade de não descurar a ligação entre pensamento e ação que resulta o paradoxo de Antero – preocupado com a necessidade de haver ideias, de existir espírito crítico e de ligar o espírito e a intervenção cidadã. Daí a complementaridade que sentia haver entre si e Oliveira Martins, pela necessidade das ideias se traduzirem em consequências práticas. E em maio de 1887 escreve ao seu dileto amigo, alertando: “Vejo-o caminhar para um pessimismo negativo, que não posso aprovar e me contrista”. E, depois de constatar a impossibilidade de penetrarmos absolutamente no problema da existência, vem dizer: “desprezar o mundo, desprezar os homens, ver o vácuo e o tédio como resíduo final de tudo, é o grande pecado do orgulho. Afinal, o que está está bem, o que vai vai bem. A nós o que nos cumpre é descobrir o como e o porquê deste paradoxo universal das coisas – na certeza de que é um divino paradoxo”. Em vez do afastamento do mundo, haveria que compreendê-lo, em nome da justiça. “A filosofia não pode prescindir dos dados da consciência; mas, por outro lado, as aspirações da consciência não podem anular os factos naturais e históricos e positivos” – diz a Ferreira Deusdado em 1888. O divino paradoxo de Antero põe em confronto a consciência e a realidade, a sensibilidade e a razão. E um tal dilema representa a singular atualidade do inesquecível poeta.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de novembro de 2017.

 

«Por Tierras de Portugal y de España» de Miguel de Unamuno (1911) é uma obra fundamental, uma vez que permite, através de uma visão de fora sobre Portugal, compreender melhor a nossa realidade ontem e hoje.

 

QUE SÉCULO DE OURO?
«Sem negar o valor de alguns dos clássicos portugueses, devo dizer que, em meu entender, a literatura portuguesa, que merece ler-se, data do século passado, do período romântico, da época de Almeida Garrett e de Herculano. E creio que a sua verdadeira idade de ouro é a atual». Assim se exprime Unamuno sobre a literatura portuguesa, em texto datado de Salamanca, de março de 1907. De que fala o pensador? Naturalmente, das repercussões poderosas na geração de 1870, não escondendo profunda admiração pelos seus protagonistas – Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão. Os três primeiros já não faziam parte do número dos vivos, mas os dois últimos ainda estavam presentes. E o mestre salmantino invoca uma célebre conversa com Junqueiro: «O Cristo espanhol, dizia-me uma vez Guerra Junqueiro, está sempre no seu papel trágico: nunca baixa da cruz, onde, cadavérico, estende os seus braços e alarga as suas pernas cobertas de sangue; o Cristo português anda por costas e prados e montanhas, com a gente do povo, diverte-se com eles, merenda, e de vez em quando por pouco, para desempenhar o seu papel, regressa à cruz. (…) Aqui há o culto da morte; só que em vez de ser trágico, como em Espanha, é elegíaco e triste»… E ao dizer isto, o mestre sente encantamento. É verdade que não deixa de reconhecer, por comparação, as virtudes da literatura catalã, mas nas letras portuguesas vê um sinal da originalidade e o selo de uma identidade viva. E considera João de Deus o mais português dos nossos líricos do momento, corroborando Junqueiro esta consideração sentida. Mas Antero de Quental é outra coisa – comparável aos maiores na filosofia e na sensibilidade poética. «Em Espanha não temos nada que se assemelhe. Campoamor é a seu lado um falsificador do ceticismo. Quental foi uma das almas mais atormentadas pela sede de infinito e pela fome de eternidade. Há sonetos seus que viverão enquanto viva a memória das gentes, porque serão traduzidos, mais tarde ou mais cedo, em todas as línguas dos homens atormentados pelo olhar da esfinge». António Nobre apresenta o tom de um desespero resignado ou de resignação desesperada, que aparece noutros passos da literatura portuguesa.

 

CHORAR AMARGO, RIR BURLESCO
Quer o chorar amargo, quer o rir burlesco fazem parte da mesma atitude. E vem à baila Eça de Queiroz e as suas implacáveis sátiras que são tão dolorosas e exprimem queixume, como a mais triste das elegias. Os exemplos são significativos – A Ilustre Casa da Ramires e A Cidade e as Serras, mas também a corrosiva e supercrítica Correspondência de Fradique Mendes. Compreenda-se que é o autor do Sentimento Trágico da Vida a falar, apaixonado pelo caráter complexo do português. Há uma identidade construída num cadinho com ingredientes inesgotáveis. Mas Camilo Castelo Branco, com “alma tormentosa e apaixonada”, teria sido mais espanhol que português, com sinais de Quevedo. E Ramalho fala de proximidade com a dinastia dos Amadises e dos Palmeirins, numa participação evidente nas raízes do génio peninsular. E Oliveira Martins – o mais artista e penetrante dos historiadores - na História da Civilização Ibérica faz a análise desse génio, ilustrando-o com acontecimentos e com a demonstração das evidentes diferenças e complementaridades. Mas, para que não restem dúvidas, fica ainda para Unamuno a visão profética da língua portuguesa (e das línguas ibéricas) nas novas culturas da América do Sul, com evidentes e imprevisíveis potencialidades. Mas o pessimismo português impressiona o autor de Agonia do Cristianismo – que sobre Oliveira Martins diz que “o português é constitucionalmente pessimista”. O regicídio de 1908 deixa-o atónito, procurando compreender tão violenta expressão da ira do manso. «Neste povo doce, pacífico, sofrido e resignado, mas cheio de paixão por dentro, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem costuma havê-los muito mais atrozes e violentos que aqui em Espanha, onde por desgraça são mais frequentes tais crimes do que ali». Na literatura há manifestações contraditórias – para Herculano, a quem faltaria veia de artista, a literatura era uma missão e não um diletantismo, contudo para Garrett as coisas seriam diferentes já que usou a arte para descobrir o fundo do palpitar das entranhas portuguesas. “Que ouviu? Um coro de aflições tristes, uma resignação heroicamente passiva, uma esperança vaga, etérea na imaginação de uma jovem tísica e no desvario de um escudeiro sebastianista”. Eça cultivou a arte por ser estrangeirado…

 

ACREDITAR OU NÃO…
Miguel de Unamuno julga ver nestes diversos sinais que “estes elegíacos pessimistas não acreditavam na pátria”. E lê as últimas páginas de Portugal Contemporâneo. "Submissos até quando se rebelam”. O país dormiria e sonhava – seria dado despertar ainda a tempo? Parece haver contradição entre considerar uma idade de ouro literária e artística e verificar a persistência de uma passividade endémica. Mas é na superação dessa contradição que os homens da Geração de 1870 e da Vida Nova vão poder encontrar forças para superar o atraso. “Não foi por acaso que Herculano falou do plácido sepulcro rodeado de esperança?”. E Unamuno recorda então o culto muito português das almas do Purgatório, lembrando-nos do mar como um enorme lugar de naufrágios e de mortes. Não por acaso, a nossa criação literária alia o lirismo e a história trágico-marítima. E invoca a figura do “Desterrado” de Soares dos Reis, como um autêntico símbolo, daquilo que o escritor não sabe explicar sobre o que o atraía Portugal. “Que terá esta terra, por fora risonha e branda, por dentro atormentada e trágica? Eu não sei; mas quanto mais lá vou, mais desejo voltar. (…) Parece que por ali pousa a lúgubre sabedoria do Eclesiastes. Num povo triste, tristíssimo, as pessoas divertem-se, sem dúvida, mas divertem-se como se dissessem: comamos e bebamos, que amanhã morreremos”. Marcado pela morte do amigo Manuel Laranjeira e recordando o fim trágico de Antero, de Camilo e de Soares dos Reis, Miguel de Unamuno fala de um país suicida. “Este é um povo não só sentimental, mas também apaixonado, ou melhor dito, antes apaixonado do que sentimental. A paixão trá-lo à vida, e a mesma paixão leva-o à morte”… Cultor de paradoxos, o pensador espanhol não ilude a contradição, agravada pelas circunstâncias – o século de ouro é ditado pela forte consciência existencial e crítica. E a inércia do vulgo é contrariada pela determinação do mundo das ideias, tornando a ação arte, a arte vontade e a vontade determinação…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de novembro de 2017.

 

«As Viagens na Minha Terra» de Almeida Garrett são um repositório de grande atualidade sobre o valor do património cultural, e a necessidade de o preservar e proteger.

 

ROTEIROS DE PATRIMÓNIO VIVO
Com o Ano Europeu do Património Cultural (2018) já no horizonte, devemos perguntar o que será essencial para que esta celebração se não fique pelo mero formalismo de uma festa. Naturalmente que é importante que os especialistas se encontrem e aprofundem as suas reflexões ou estudos, mas urge lançar pistas novas e fecundas que ponham a defesa e salvaguarda do património cultural na ordem do dia. E as escolas devem ser chamadas à primeira linha da ação. Como impedir que a memória seja votada ao abandono? Como conhecer melhor a História? Como saber de onde vimos, onde estamos, para onde vamos? Como dar valor ao que recebemos dos nossos antepassados? Como tornar a memória um fator de melhor aprendizagem? Como transformar a informação em conhecimento? Mais do que fogos-de-artifício ou ambiciosos e estimáveis programas, do que precisamos é de conhecimento e de motivação. Como Anselmo Borges dizia, há dias, em Santarém, na Fundação Passos Canavarro, temos de saber ler e de ganhar o hábito de ler – em vez da superficialidade dos efeitos especiais das novas tecnologias. Saber ler é saber refletir, pensar, repensar – não esquecendo que a educação se faz olhos nos olhos, a conversar, a dialogar, a conhecer, a transmitir e a trocar. E não se interprete mal, o erro não está nas tecnologias, que são instrumentos, belíssimos quando ao serviço de boas ideias, mas na falta de sentido crítico e de capacidade criadora. A ciência contribui para avançarmos no conhecimento e na compreensão das coisas e do mundo. As técnicas e as tecnologias completam-se e complementam-se – coexistindo umas com as outras ou até substituindo-se, no entanto não podemos confundir pessoas e robôs. Precisamos de voltar a ouvir T. S. Elliot quando nos diz: “Qual é o conhecimento que perdemos na informação e qual a sabedoria que perdemos no conhecimento”.

 

DE PORTAS ABERTAS
A experiência das Jornadas Europeias do Património, promovidas pelo Conselho da Europa, com o apoio da Comissão Europeia, nasceu em França nas Jornadas Portas Abertas, em 1984, tendo evoluído, depois de diversos países terem adotado iniciativas semelhantes, em 1991, para o modelo atual. Aí esteve Helena Vaz da Silva. Foi a experiência inovadora das Jornadas que levou à necessidade da aprovação da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea (2005), assinada na cidade de Faro. A concentração no início do Outono de cada ano de eventos correspondentes a uma chamada de atenção para o Património Cultural, material e imaterial, monumentos, sítios, museus, paisagens, tradições, costumes e idiomas, constitui um modo de mobilizar a atenção e o cuidado dos cidadãos para a herança e a memória. No entanto, o culto do património cultural obriga a tornar essa preocupação permanente, aberta e prospetiva – e não momentânea, fechada e retrospetiva. Daí que o Ano Europeu de 2018 deva constituir-se numa chamada de atenção para as políticas públicas de cultura – que têm de articular a proteção do património e a criação cultural contemporânea, em nome da coerência e da qualidade, da liberdade e da inovação. E quanto à identidade, estamos perante o velho paradoxo filosófico do Navio de Teseu, a embarcação que foi de Atenas a Creta para pagar o tributo pela morte de Androgeu, filho de Minos… Depois do gesto heroico de Teseu os atenienses preservaram o Navio mítico, que ia sendo reparado e cujas madeiras iam sendo substituídas. E surgiu a pergunta: qual o verdadeiro navio, o que está renovado ou os seus despojos? Naturalmente, como disse Leibniz, o que importa é a identidade que prevalece – o navio renovado e não o que restou do primitivo… Como o Navio de Teseu, o património e as identidades culturais devem ser abertas para se enriquecerem – ao invés de qualquer fechamento, que perigosamente se traduz na destruição da memória.

 

LEMBRANDO ALMEIDA GARRETT
Em Santarém, no fim de uma tarde estranhamente quente do final de outubro, lembrámos, há dias, a célebre passagem de Almeida Garrett sobre o que hoje designamos como património cultural: “Entrámos a porta da antiga cidadela. – Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos: é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo, é ao pé da famosa e histórica Igreja de Santa Maria da Alcáçova. – Há de custar a achar em tanta confusão”… Garrett dá-nos conta da falta de cuidado que encontrou na histórica cidade, quando ia ao encontro de seu amigo Passos Manuel. Fala-nos de “pardieiros e entulhos”, que hoje felizmente deram lugar a uma cidade cuidada. E assim apelava a que não se deixasse ao abandono um legado histórico sagrado. Mas o grande mestre romântico faz o contraste entre as pedras mortas que encontrou decaídas, a honradez das pedras vivas e a formosura do panorama e da paisagem. “Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos”. Eram o “vale aprazível e sereno” e “o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam, verdes e frescos ainda, os salgueiros que as ornam e defendem”… A seca prolongada deixou-nos agora severas preocupações, mas aquele glorioso momento foi mais forte que tudo, em nome de uma memória histórica inesquecível. Que é o património senão vida vivida? Vínhamos de Mangualde e de Vale da Estrela, do roteiro suculento do queijo da Serra da Estrela, no coração da Beira-Serra, com as ovelhas da raça Bordaleira ou Mondegueira, e ali estávamos com Pedro Canavarro a idear (com a presença silenciosa de Garrett e Passos) um roteiro da democracia neste rico Ribatejo – desde as Cortes de Santarém, como as de 1331, que ilustram os fatores democráticos na formação de Portugal (de Jaime Cortesão) e a aclamação em 1580 como rei de Portugal de D. António Prior do Crato (em tão boa hora agora lembrado por Manuel Alegre), até D. Pedro IV em vésperas de Évora-Monte, Sá da Bandeira, Alexandre Herculano, Rebelo da Silva, Oliveira Marreca, Anselmo Braancamp Freire, António Ginestal Machado, José Relvas, Humberto Delgado, Salgueiro Maia… Para as escolas deve haver a determinação em criar para os mais jovens o gosto do estudo rigoroso, o culto e o interesse pelo património – seja o monumento antigo, seja a paisagem ou o jardim, seja o cuidado com o uso da língua materna, seja o trabalho do artesão, seja a qualidade na tradição gastronómica. E aqui está a ilustração de um modo como podemos cuidar do património – prevenindo-nos contra o descuidado, delineando e estudando caminhos que nos permitam conhecer, recordar, alertar e salvaguardar.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 6 a 12 de novembro de 2017.

 

Entre as diversas reedições recentes de «Sonetos Completos» de Antero de Quental, registamos a que tem o prefácio de Ana Maria Almeida Martins (Artes e Letras, Ponta Delgada, 2016).

LAPIDAR EPÍGRAFE… 

Com inteira razão e oportunidade, a cuidada edição a que nos referimos é antecedida por uma lapidar epígrafe de Eduardo Lourenço, onde este afirma que “não há na nossa literatura, nem mesmo Camões, poeta tão naturalmente universal como Antero de Quental, dada a natureza ideal e intemporal da sua inspiração e o conflito que a alimenta, pura interpelação do espírito sobre si mesmo no meio de um mundo incompreensível”. Não é difícil de explicar esta consideração, que corresponde, antes do mais, ao veemente apelo de Antero, em Coimbra, na questão do Bom Senso e do Bom Gosto, sobre a necessidade de viver com ideias, à exigência da compreensão de que um velho Portugal morria definitivamente, bem como ao espírito das Conferências Democráticas de 1871, cujos promotores pretendiam pôr Portugal ao ritmo da cultura europeia. Nesses momentos, houve a consciência plena que se iniciava um novo capítulo na cultura portuguesa. Antero pensava, de facto, não como se estivesse confinado a uma insularidade periférica (a portuguesa), mas segundo o direito próprio de ser um cidadão e um pensador europeu e do mundo do seu tempo – não limitado às nossas fronteiras. Essa era a preocupação fundamental e a atitude do grupo de jovens intelectuais que antecipou a inexorabilidade de uma presença futura entre as nações civilizadas, com uma forte consciência da evolução e da justiça. Longe de uma realidade confinada ou de qualquer ideia identitária, do que se tratava, neste carácter “naturalmente universal”, era de considerar a humanidade como compreensão das diferenças, dos conflitos, dos interesses e das complementaridades. A racionalidade e a sensibilidade emocional estão, assim, claramente presentes na modernidade da poesia de Antero e dos seus. Oliveira Martins, no fundamental prefácio, fala-nos de “um helenismo coroado por um budismo”, na fórmula usada pelo próprio poeta. Mas o crítico acrescenta: “pobre humanidade, se se visse condenada à coroação budista! Nós europeus, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte, sofreríamos as agonias, experimentaríamos as aflições do poeta que, tendo no peito um coração ativo, tem na cabeça uma imaginação mística, e, para obedecer ao pensamento, tortura o coração, sem poder também esmagá-lo sob o mando da inteligência”.

 

RAZÃO, IRMÃ DO AMOR E DA JUSTIÇA
Afinal, esta mesma tensão é aquela que existe e que sentimos entre os autores e as referências fundamentais da cultura europeia (de Goethe a Shopenhauer). No entanto, em Antero e na geração dita de 1870 do que se tratou foi de abrir novos horizontes – buscando uma visão capaz de superar as limitações e as fragilidades de uma realidade nacional considerada periférica. E assim ouvimos: “Razão, irmã do Amor e da Justiça / Mais uma vez escuta a minha prece. / É a voz dum coração que te apetece, / Duma alma livre só a ti submissa”. Dir-se-á, contudo, que só a morte espreita (“Morte! Irmã do Amor e da Verdade”), mas é mais do que isso, sendo certo que essa perspetiva não tira à visão de conjunto a importância conformadora. E o filósofo “há de aliar à compreensão da nulidade extrínseca das coisas a compreensão da sua excelência intrínseca (diz O.M.); exigindo que o homem seja ativo, porque a atividade é boa por ser indispensável à saúde do espírito, embora os objetos da atividade sejam as mais das vezes írritos e nulos, quando considerados em si próprios e isoladamente”… Aí se apartavam os dois inseparáveis amigos do budismo, indo até ao Inconsciente de Hartmann (“O espetro familiar que anda comigo, / sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto, / Que umas vezes encaro com desgosto / E outras muitas ansioso espreito e sigo”). “É loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento, e sábio é aquele que se limita a registar as relações das coisas”. E é nesta relação com o agir – e Antero considerava Oliveira Martins nesse ponto seu complemento natural – que encontramos a capacidade singular de uma geração que lançou sementes de futuro. Daí a consideração do prefaciador: “quem, emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas páginas, e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua língua perdeu o hábito de falar português”.

 

ANSEIO DE ETERNIDADE
Ao recordarmos quem chamou ao poeta maior “santo Antero”, vem à lembrança o que Tolstoi anotou no seu diário no dia 15 de março de 1889 (perante a tradução alemã dos «Sonetos» por Wilhelm Storck, antecedida da carta autobiográfica) concordando o genial russo com Antero sobre o seu conceito de liberdade, apenas plenamente alcançável pela santidade, através da renúncia a todo o egoísmo. Mas, não podemos deixar de lembrar Miguel de Unamuno e o seu “sentimento trágico da vida”, tão chegado a Antero, e só compreensível plenamente em diálogo com essa poesia: “Quental há sido una de las almas más atormentadas por sed de infinito, por el hambre de eternidad. Hay sonetos suyos que vivirán cuanto viva la memoria de las gentes”… E ao invocarmos dois dos maiores escritores de dimensão universal fazemos a demonstração cabal do universalismo anteriano, que o tempo se tem encarregado de confirmar plenamente. A ligação entre Camões, Antero e Pessoa que Eduardo Lourenço tornou inequívoca – confirmada pelos mais significativos poetas contemporâneos, como Ruy Belo e Sophia de Mello Breyner Andresen – projeta-se globalmente. E foi exatamente Ruy Belo quem disse: “Antero foi possivelmente o maior pensador português dos tempos modernos. Não importa que não tenha dito a última palavra, por circunstâncias a que a doença não terá sido alheia. Até o seu silêncio pesa mais do que as palavras de muitos palradores contemporâneos. E quando fala e a sua voz chega até nós, não já com aquele calor que punha nas conversas com os amigos, mas gramaticalmente organizada, travamos conhecimento com um dos momentos mais altos da prosa portuguesa”.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins 
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