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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 17 a 23 de julho de 2017.

 

«Ensaios & Artigos (1951-2007)» de Agustina Bessa-Luís (3 volumes, Gulbenkian, 2016), com recolha e organização de Lourença Baldaque e prefácio de José António Saraiva, constitui um reportório de textos que acompanham, e como que ilustram, o riquíssimo percurso da marcante romancista.

 

UMA EXTRAORDINÁRIA REUNIÃO
Contos, crónicas de viagem, referências ao Porto, textos históricos, crítica literária e artística, intervenção política, jornalismo, comentários de atualidade – eis o que encontramos em três deliciosos e substanciosos volumes, nos quais Agustina Bessa-Luís se expõe plenamente, revelando segredos da sua extraordinária oficina de escrita. Dir-se-ia que ao lermos esta reunião podemos visitar os bastidores de um magnífico teatro. E esse teatro é, nem mais nem menos, do que o lugar por excelência de representação da obra romanesca da escritora. A título de exemplo, encontramos num texto escrito no «Diário Popular» em 1968, referência à revista «Águia», órgão da Renascença Portuguesa, cujo diretor literário foi Teixeira de Pascoaes. Aí se afirma, com razão, que a Renascença «representou decerto o movimento mais importante da nossa vida intelectual». De facto, tratou-se de um alfobre único, que fez convergir as repercussões da decadência finissecular e as aspirações de um novo tempo e de um novo século. O que aconteceu foi que nesse momento crucial, a expectativa que a I República representou pôde ultrapassar a mera circunstância política, projetando-se em todo o século XX, na preparação de uma democracia que renasceu tardia, mas que pôde alimentar-se, desde as raízes culturais mais antigas, que vão dos trovadores ao grande lirismo de Camões ou à oratória de Vieira até à força criadora do Romantismo de Garrett e Herculano, do vitalismo das raízes de Camilo ou de Júlio Dinis, da ambição antifatalista da Geração de 1870, de Antero ou de Eça, e da renovação artística do simbolismo. E que foi a Renascença Portuguesa senão o ponto de encontro de Pascoaes, Leonardo, Cortesão, Sérgio e Pessoa? Toda a pujança de um século que o tempo foi enriquecendo – donde sairia da Seara Nova ao Orpheu. Para a nossa autora, «a Renascença foi a breve epopeia de espírito de alguns homens movidos por ideias sentimento e que, de repente, instauraram a noção de pátria além do vago consenso quotidiano». Numa fórmula muito própria de Agustina - «a pátria faz-se penumbra de todos, e não apenas teatro de alguns». E foi essa penumbra que se tornou desafio, pela insatisfação e pelo apelo à inquietude e ao «desassossego»: «não para dar a conhecer insubmissos mistérios da alma, mas para contar o segredo antiquíssimo da pátria». E é esta a chave que atrai a escritora, ciente de que essa ânsia de Renascença ocupa o espaço que para os liberais decimonónicos era a Regeneração.

 

COMPREENDER A SOCIEDADE CONCRETA
Contra os lugares comuns, do que se trata é de tentar compreender a sociedade feita de pessoas de carne e osso com destinos contraditórios, em que as complexas relações de influência e de poder pesam permanentemente. A sua escrita intensa e laboriosamente construída como uma renda de bilros – procura dar-nos um retrato fiel de uma grande complexidade escondida por trás de aparente placidez. E assim o português «troca-se em homem sensato quando esperam dele loucuras». O saudosismo torna-se, deste modo, contraditório - «apontem-se glórias a decidir, optará pelo papel dos que não foram célebres nem lutadores; reservem-lhe alianças poderosas, sentirá necessidade de se distrair delas». O português é contraditório por natureza. E assim Agustina define-o: «Hábil, certo, elementar, terrível, é este recriar das brumas, iludindo a agressão, esperando sem desejar, tendo esperança sem planos, coragem sem abismos, causa sem ordem, influência sem poder, alma sem cruz. Renasce já em cinzas, mas renasce sempre». Identificamo-nos com este retrato? O certo é que é este o tecido humano, a matéria-prima da romancista de «A Sibila»… E a ilustração é dada, neste significativo texto, por uma carta de Camilo Castelo Branco, sombra sempre tão presente na reflexão agustiniana. Aí o romancista é apresentado como português paradigmático – dizendo nessa missiva que vai inscrever-se em Teologia na Universidade de Coimbra, mas pondo-se em posição para sustentar uma polémica. «Nas suas palavras anda um voo de vespas, da mistura com aves que delas se nutrem». É o gosto da contradição que se manifesta. Se virmos bem em Agustina também encontramos essa permanente tensão entre o desejo e a resistência, entre o prazer e a repulsa. E fala Camilo de «tristes convicções», de que «fica proveito descontente» - e são tristes porque se «limitam a julgar, mais do que a crer». São ecos quase autobiográficos em que os romancistas se encontram. As águias voam baixo e por isso sobrevivem. Mas a audácia exige mais. É o instinto que sempre prevalece. E as grandes gestas geram grandes culpas, com consequente desejo de reconstruir o passado. «O nosso saudosismo não é amor do passado, é só consentimento da sua força. E no consentimento o aplacamos». Compreende-se a ideia de renascimento, como desejo e lembrança, decorrentes das contradições, de que o universo romanesco da escritora se alimenta. E sobre Camilo (ou, em boa verdade, sobre o romance português) diz, num ensaio em «O Tempo e o Modo» (1964), sobre uma experiência partilhada com José Régio, algo que tem a ver com a proximidade que Agustina sente do bruxo de Seide: «Dos seus livros, alguns há que sempre me causam admiração; a frescura da sua prosa é inimitável, o seu humor, como uma rajada fulgurante traz consigo, porém, aquela reticência nostálgica que um português de boa lei sempre faz acompanhar, quer dos seus juízos graves, quer das confissões líricas. (…) A ironia e a versatilidade, o prazer iconoclasta logo redimido por uma afabilidade pelos humilhados, vão direitos a certa culpabilidade congénita no português». Mais do que ideias, do que se trata é de entender o género humano e de descobrir nele todas as fascinantes contradições que nos permitem compreender a vida como um drama, mas sempre cheia de uma estranha ironia. Um dia apontaram a Agustina algumas aparentes contradições que se apresentam nas suas obras. Prontamente respondeu: E a vida não está cheia de incoerências? O interlocutor ficou sem palavras… Em suma, lembremo-nos apenas do que Agustina disse da Cultura (e não das honras e reputações): «O fenómeno cultural parte da renúncia aos “caminhos bifurcados que se dirigem para norte ou para sul”, como dizia um letrado chinês, o seu mérito está em não ser interrogável de maneira vã. A cultura só existe quando um povo a resumiu num traço de ódio ou de humor». Nestes ensaios e artigos é a fecunda ficcionista que se exprime e manifesta – e nela a criatividade vai ao encontro da humanidade e da sua inesperada complexidade. O génio de Agustina está exatamente nessa capacidade de ir ao âmago da alma humana.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 10 a 16 de julho de 2017.

 

A exposição do Museu Nacional de Arqueologia intitulada “Loulé: Territórios, Memórias, Identidades”, com coordenação de António Carvalho, Dália Paulo e Rui de Almeida, constitui uma oportunidade única para tomarmos contacto com o riquíssimo passado do Sudoeste Ibérico, uma das zonas da Europa mais ricas em termos arqueológicos, em razão de estarmos numa encruzilhada de povos e de influências, que muito tem para contar… 

 

 

PARTIR DO PIONEIRISMO
O trabalho pioneiro de Estácio da Veiga (1828-1891) tem de ser lembrado, quando visitamos a exposição do Museu Nacional de Arqueologia intitulada “Loulé: Territórios, Memórias, Identidades” (como dissemos com a competente coordenação de António Carvalho, Dália Paulo e Rui de Almeida). Partindo da riqueza histórica e patrimonial algarvia, como encruzilhada entre o Mediterrâneo e o Atlântico, temos um conjunto de informações, materiais e conhecimentos, inicialmente destinados a um Museu Arqueológico do Algarve. Estamos diante de uma narrativa que conta a evolução das comunidades que constituíram o cadinho deste extremo ocidente mediterrânico, desde a Pré-História à Idade Média, a partir de vestígios arqueológicos e fontes documentais recolhidos e conservados ao longo do tempo, com persistência e rigor científico. Como diz Lídia Jorge: “Aqui tudo fala de um tempo antes da História, em que a África estava unida à Europa, e ao mesmo tempo tudo esconde. Depois, muito mais tarde, quando as ervas deram flores, e já existiam homens para colhê-las, levas sucessivas de povos do mundo pré-histórico aqui vieram fixar-se, porque ali havia terra boa, sol brilhante e mar tranquilo, e era após era, foram deixando o rasto das suas mãos fabricadoras no solo generoso que habitaram. Hoje, passados milhares de anos, o movimento é semelhante…”. Estas palavras são as de quem ama e lembram aquele pequeno azulejo com que meus avós acolhiam os forasteiros: “Bem-vindo seja quem vier por bem”. Ao encontrar agora Joaquim Romero Magalhães, lembrei-me das conversas com seu Pai, a invocar a terra vermelha que acolhe a cultura destes campos de fecundidade exigente, as memórias antigas de muitas gerações de gentes diversas e heterogéneas, para quem a rede de pesca e o arado, a proa da embarcação de inspiração grega e fenícia, a açoteia e a nora se complementam naturalmente, de modo milenar e as identidades abertas capazes de unir e complementar judeus, cristãos e árabes, na riquíssima herança moçárabe.

 

DESDE AS MAIS ANTIGAS RAÍZES
Das antigas sociedades camponesas, entre 6 mil e 2 mil antes da nossa era, encontramos a bilha da Retorta (Boliqueime), os menires do Serro das Pedras, o sítio do Forte Novo, o povoado do Cerro do Castelo de Corte João Marques (Ameixial) com uma instimável riqueza desde a cerâmica e pedra à metalurgia do cobre. Para a Idade do bronze, apesar da míngua de elementos, temos da necrópole da Vinha do Casão (Vilamoura) cerâmicas, artefactos metálicos e de pedra. Na Idade do ferro, temos os fantásticos vestígios da cultura que possuía uma forma de escrita gravada sobre estelas, a escrita do Sudoeste, derivada do alfabeto fenício, cuja decifração constitui grande desafio para os dias de hoje. É a “pedra com letras que não se dá conta de ler”, de que o povo fala. No tempo do império romano instalam-se as villae e propriedades agrícolas, que vão permitir a ligação dos produtos da terra aos preparados de peixe, exportados em ânforas de barro. Para este tempo, o Cerro da Vila (Quarteira) é um caso de requinte e progresso (lembremos a belíssima cabeça feminina de mármore dos séculos II-III d.C.). Depois, bizantinos, visigodos e árabes continuarão aqui, com novas culturas, para além da oliveira, como a alfarrobeira, a figueira ou a laranjeira. E, na chamada Vila Moura, que deu origem ao moderno topónimo, foram encontradas esculturas, mosaicos, vidros, cerâmica fina, lucernas e adornos femininos.

 

QUINHENTOS ANOS…
Os povos de língua árabe estiveram 500 anos no Algarve, mas continua a haver um grande desconhecimento da sua influência. Loulé não tem uma matriz romana, mas muçulmana – daí o processo lento da sua construção. As cidades de influência moura ou árabe ou nascem da vontade política ou de uma dinâmica local. No caso de Loulé prevalece a riqueza agrícola do barrocal e, como Tavira, singulariza-se pela dimensão mercantil – daí abranger as três zonas algarvias e ter das principais vias usadas pelos almocreves em direção ao Alentejo. Agricultores, pescadores, mercadores movimentavam-se intensamente no maior concelho meridional. Sinal de progresso está nos banhos árabes de Loulé, para lazer e purificação do corpo, a que se refere a poesia árabe, que demonstram estar-se em Madinat al-‘Ulyà no auge da época almóada (séculos XII-XIII) muito para além da economia de subsistência. É uma identidade aberta a que aqui se encontra… No século XI, Loulé ainda era uma aldeia ou alcaria que se desenvolveu num vasto território com 45 por cento de serra xistosa e de mato, 40 por cento de barrocal calcário e 15 por cento de litoral. E se Loulé não tem porto, o litoral permitiu o contacto com as navegações de fenícios, gregos, cartagineses, romanos e normandos. Os pescadores algarvios irão nas caravelas e o Morgado de Quarteira servirá de laboratório para as ilhas Atlânticas a cultura da cana-de-açúcar. Compreende-se a afirmação de Orlando Ribeiro: “A civilização mediterrânica é (…) uma civilização da pedra, consequência da intimidade do homem com este elemento, que ora elimina nas terras de cultura ora utiliza na maior parte das suas obras materiais; daí o carácter construído da paisagem mediterrânica, tanto nas formas de povoamento como na organização do campo”. Ora, a pedra usada em valados, muros de suporte e de resguardo, caminhos, pontes, aquedutos, forro de poços é um precioso elo com a longa duração. A cada passo descobrimos vestígios antigos, onde se manifesta a sobreposição de gerações e de tempos. “Mas o Algarve não é o jardim do Éden” – ensinava ainda Mestre Orlando. “Olhe-se como os campos e os arvoredos estão encerrados por afloramentos de calcário estéril. Repare-se como, por toda a parte, os muros de pedra, as belas sebes de opúncias, a casa esparsa e o entrecruzar de caminhos, mostram até que ponto a terra está ocupada”. Foi a fragmentação dos reinos taifas que facilitou a reconquista cristã… O Al-Gharb do Al-Andaluz compunha-se de distritos militares (Faro e depois Silves), comarcas civis e rurais, casais e aldeias (alcarias), cidades amuralhadas e castelos, de pedra ou de taipa. O Mediterrâneo funcionou como ponto de encontro, como zona de intenso relacionamento do Oriente e do Ocidente, que se interpenetram. Aqui encontramos as cerâmicas finas da Gália, o azeite de Sevilha, o preparado de peixe da Bética – e daqui saem os figos secos, as amêndoas e as laranjas… Isto, enquanto culturalmente o moçarabismo permite o diálogo fecundo entre judeus, cristãos e árabes – sendo a Península Ibérica, com Constantinopla, eixo da renovação do pensamento europeu, graças ao progresso técnico vindo da Ásia, através do Levante, e à redescoberta da filosofia grega. Perante este repositório apaixonante de referências antigas, desde as raízes aos tempos de memória mais próxima, “de todos recebemos pedaços da história local, regional, nacional e todos, todos, são Loulé”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 3 a 9 de julho de 2017.

 

Quando António Nobre publicou em Paris, em 1892, «Só», a poesia portuguesa deparou-se com uma obra única, difícil de definir, com reminiscências românticas, pendor melancólico, um sinal nitidamente simbolista e uma originalidade que a liga á criatividade da língua, de acordo com sensibilidade popular de Garrett e Júlio Dinis.

 

 

SENTIMENTO TRÁGICO

Poucos poetas assumiram tão íntima e pessoalmente o drama de um povo, caído na contradição suprema de ter um passado glorioso e um presente sujeito à humilhação. O «Ultimato» inglês resume esse momento dramático de incapacidade nacional, que se projeta nas angústias individuais. Conhecedor das novas correntes literárias, António Nobre não segue um simbolismo de escola ou de cartilha. Prolonga a tradição lírica, vinda dos trovadores, de Bernardim Ribeiro e sublimada em Camões, e procura na genuína língua portuguesa uma interpretação própria, baseada num diálogo melancólico, que articula a história trágico-marítima e o sentimento contraditório da saudade. E no desenvolver de um diálogo vital que o poeta se singulariza. «Georges, anda ver o meu país de Marinheiros, / O meu país das naus, de esquadras e de frotas! / Oh as lanchas dos poveiros / A saírem a barra, entre ondas de gaivotas! / Que estranho é! / Fincam o remo na água, até que o remo torça, / À espera de maré, / Que não tarda aí, avisa-se lá fora! / E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, / Clamam todas à uma: "Agôra! agôra! Âgora" / E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo / (Às vezes, sabe deus, para não mais entrar...) / Que vista admirável! Que lindo! Que lindo / Içam a vela, quando já não têm mar: / Dá-lhes o Vento e todas, à porfia, / Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas, / rosário de velas, que o vento desafia, / A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas: / Senhora Nagonia! / Olha acolá! / Que linda vai com o seu erro de ortografia... / Quem me dera ir lá! / Senhora Daguarda!». Dir-se-ia que nesta passagem se ilustra a razão de ser de uma independência e de um coração aberto – de lembrança e desejo, gosto e amargura, «mal de que se gosta e bem de que se padece», na expressão de Francisco Manuel. O «Só» é o livro mais triste que houve em Portugal – mas como compreender a sua oportunidade, quando Garrett e Júlio Dinis, que Nobre tanto admirava, souberam pôr em comum paradoxalmente a melancolia e a genuína alegria dos dias solarengos? E quando se travaram de razões Ílhavos e Bordas-de-Água – foi o mar que prevaleceu sobre o toiro, no testemunho de Garrett - «os campinos ficaram cabisbaixos; e o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo». Não está em causa o reconhecimento para ambos, mas a importância maior de enfrentar as vagas implacáveis, para cuidar da vida e da sobrevivência.

 


O MAR E A VONTADE DOS PORTUGUESES
O mar e a vontade dos portugueses são as razões da nossa independência para Alexandre Herculano. No entanto, o fim do século XIX trouxera-nos a triste consciência de que tudo agora parecia vão. Unamuno chamou-nos «país de suicidas», impressionado com o momento dramático de contradições supremas. Era um excesso simplificador, que o mestre de Salamanca amenizou considerando a metáfora do purgatório. António Nobre é símbolo dessa estranha e singular circunstância. «…Saudade! Saudade! Palavra tão triste / E ouvi-la faz bem: / Meu caro Garrett, tu bem a sentiste, / Melhor que ninguém…». Muitas vezes deparamo-nos com esse trágico cruel do autor do «Sentimento Trágico da Vida» e temos consciência de que há aí uma certa injustiça. Mas, ao lermos, o autor de «Lusitânia no Bairro Latino» parece-nos que podemos compreender, com as limitações naturais… Depois das ilusões sobre como se poderia chegar à civilizada Europa, a dívida pública, a periferia, a instabilidade, a incerteza prevaleciam. «Amigos! Que desgraça ter nascido em Portugal». Urgia romper com o fatalismo. Antero de Quental traçara a linha que definira a fronteira da decadência, mas num grito de alerta recusara o fatalismo do destino. E se Unamuno fala de uma tendência suicida (de Camilo, Soares dos Reis, Antero e Laranjeira), também aponta para a existência de um século de ouro português e nesse ponto foi profético, pois descobriu energias escondidas, que funcionaram como uma pulsão de Renascença… E António Nobre simboliza a ambiguidade da tristeza e da revolta, num crescendo de dor («Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Cala, ó Job os teus ais / Que os tem maiores este filho de seus Pais»)… Do que trata é de maximizar a melancolia, como exercício de exorcismo que procura dar sentido á «terra encantada, cheia de Sol», aos campanários, às luas-cheias, à lavadeira, às ermidas, aos sinos das aldeias, à ceifeira que cega cantando, ao moleiro das estradas, aos carros de bois, chiando, às flores dos campos, aos beiços de fadas, aos poentes de julho, aos choupos, aos luares e às regas de verão… No fundo, há vida para além da dor. Há contradição? Garrett dissera que Camões tivera a desventura de não ser romântico. Muitos demos graças aos céus pelo anacronismo. António Nobre quis-se intérprete de um momento trágico e a sua vida e a sua poesia misturam um drama existencial e uma experiência coletiva. Não há contradição – há, sim, exacerbamento da melancolia, como marca de emancipação. E o sebastianismo funciona, não como justificação da inércia do destino, mas como exigência de superação da decadência e da desistência. Como José Carlos Seabra Pereira tem salientado, a geração de 90, em que Nobre se insere, assume o combate do positivismo e do naturalismo pela inquietação metafísica, e assim procura considerar os mitos como meios libertadores pela crítica. Daí o carácter contraditório da poética do «Só». E Unamuno, mais do que simplificar sobre o que Portugal seria verdadeiramente, fala-nos de um «Purgatório de almas» e nele de uma ânsia libertadora. É disso que se trata quando deparamos com a dramaturgia de António Nobre.      

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de junho a 2 de julho de 2017.

 

Miguel Real acaba de dar à estampa Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, 2017), que constitui um belíssimo repositório de reflexões, na linha de um percurso sério e persistente, de análise e estudo, que o autor vem seguindo.

 

 

PORTUGAL EM TRAÇOS FUNDAMENTAIS
Na linha de obras anteriores, temos agora uma síntese, onde se apresentam os “traços fundamentais” de uma cultura plena de diferenças e contradições, que alguns procuram simplificar, mas insuscetíveis de redução, que, a existir, tornar-se-ia caricatura. Uma cultura de “melting pot”, como a nossa, não pode deixar de se afirmar numa tensão entre o que se mantém e o que muda, entre os que ficam, os que partem e os que chegam. De facto, como Eduardo Lourenço ou José Mattoso têm ensinado, na linha de Garrett e Herculano, da geração de 1870 e das correntes críticas do século XX, para Miguel Real: “não existe uma essência identitária de Portugal, uma noção metafísica sintetizadora da existência de Portugal e identificadora da sua história…” – e “um dos maiores equívocos dos teóricos da cultura portuguesa tem sido a insistência, ao longo dos tempos, mas fortemente desde o final da monarquia, em 1910, na busca de um conceito absoluto, transcendente, exclusivo, excecional e extraordinário, definidor da identidade nacional ou do homem português”. Este é o ponto de partida, não só para compreendermos a diversidade e a complexidade de quem somos, mas também para nos mantermos abertos às diferenças – sobretudo considerando que a nossa cultura está na génese de outras culturas, geradas a partir de uma língua falada em todos os continentes, que se enriquece através da coexistência de várias outras línguas (como os crioulos), correspondentes às zonas geográficas onde o português é língua oficial… Deste modo, o futuro não pode deixar de ser encarado como um campo aberto à diversidade e de multiplidade cultural, onde coexistem vários e naturais polimorfismos… De facto, não podemos esquecer as sequelas de ressentimento (para que nos alerta o autor, na senda de Eduardo Lourenço) nos Estados e povos colonizados, “que ora legitimamente desconfiam do afã lusófono”. Por isso, a “Lusofonia não pode repetir a história, renovando os vícios dos diferentes desencontros históricos havidos em séculos passados”. Daí a necessidade de uma “paisagem política nova” – que considere o alerta do célebre título do ensaio de Maria Manuel Baptista: «a lusofonia não é um jardim ou a necessidade de “perder o medo à realidade e aos mosquitos”»… No fundo, a saudade e a morabeza, bem como as diversas idiossincrasias resultantes dos diálogos interculturais, fazem parte integrante de um modo de ser complexo e heterogéneo do mundo da língua portuguesa…

 

QUEM SOMOS, AFINAL…
Longe de uma explicação de destino transcendente, não somos nem melhores nem piores que outros – nem um segundo povo eleito de Deus, da herança judaica, nem depositários exclusivos da saudade (de Pascoaes), nem vocacionados para o Quinto Império sebastianista ou para a Terceira Idade de Joaquim de Flora… Portugal é um cadinho de múltiplas influências. Está aí a sua “maravilhosa imperfeição”. E quando encontramos em Fernando Pessoa as contradições insanáveis, que a heteronímia alberga, verificamos a importância da coexistência das diferenças que enriquecem a nossa cultura e das culturas que a animam. “A cultura é uma espécie de biblioteca, de ideal, em que nós pensamos separar aquilo que ainda perdura na memória, ainda atuante, daquilo que está morto”. Eis o ponto em que nos encontramos e que permite compreendermos que António Sérgio e Jaime Cortesão correspondem a faces de uma mesma exigência de compreensão da realidade que nos cerca. Sérgio alerta-nos para as condições materiais e para o conflito entre a fixação e o transporte, que marca o patriotismo prospetivo – contra o fatalismo do atraso. Cortesão não nos deixa esquecer, ao lado da razão, o anseio espiritual e emotivo. E sabemos bem, lendo os textos fundamentais de ambos e confrontando-os entre si e com a moderna historiografia, como Portugal e os Portugueses, apesar de todas as vicissitudes, continuam na luta, combatendo a mediocridade e a irrelevância. País suspenso no tempo? As elites alimentam uma cultura dúplice, ora escolástica e contra-reformista; ora europeia, reformista e aberta à modernidade; enquanto a cultura popular persiste vernacular, nativa e rústica. E a psicanálise mítica do destino português invoca a ciclotimia do sucesso e do fracasso, a força do centralismo da Arcada e de S. Bento e as resistências à autonomia e a descobrir e inovar. Afinal, perante as dificuldades encontramos energias desconhecidas, que se relacionam com a sobrevivência. Mas a que se deve o atraso estrutural? O debate sobre os estrangeirados e sobre a fragilidade das elites não perdeu atualidade. A natureza complexa da nossa realidade cultural leva-nos a que os elementos vários que a constituem favoreçam a formação de uma vontade comum, apesar dos egoísmos. E o pessimismo nacional? Será que o velho do Restelo de Camões ou Sá de Miranda na carta a D. João III são demonstrações insanáveis de uma incapacidade congénita para nos superarmos? E estaremos condenados a ser um “povo póstumo”? Se virmos bem, os melhores momentos da nossa existência coletiva (1415-1539) e a durabilidade do projeto Portugal deveram-se não ao improviso, mas à determinação e à definição de metas de largo prazo… Leia-se a «Crónica dos Feitos da Guiné» e perceba-se que não há aí espontaneísmo ou loucura… Há capacidade de planear e de mobilizar vontades.

 

O PORTUGAL FUTURO…
A anteceder o prefácio de José Eduardo Franco, está transcrito o poema de Ruy Belo “O Portugal Futuro”. “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível…”. O poeta diz que, chamem o que chamarem, “Portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a Espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz”. Em lugar do pessimismo sem horizonte, é possível a determinação e a continuidade. Para tanto, há que cultivar o espírito crítico e conhecer a história. Os mitos tornam-se construtivos, quando compreendidos reflexivamente. Os judeus, a Inquisição, os jesuítas, Camões, o sebastianismo, Vieira, Pombal, a ideia de nação superior e inferior, o pessimismo nacional, a decadência, o país suspenso no tempo como lugar cultural e mental encantado, o canibalismo cultural, os grupos fratricidas e parricidas – são fatores que nos obrigam a perceber a identidade nacional limitada nas condicionantes de nove séculos de história. «Por via da Europa – honra lhe seja feita -, e não por gradual esforço nosso, não são apenas dois ou três pensadores portugueses a exigirem o império da tolerância, mas as próprias instituições sociais, e antes de mais o Estado e a Igreja Católica…». E assim, preparamo-nos para enfrentar o século XXI, libertando Portugal de um passado económico, político e cultural que há meio milénio «sempre nos atrofiou as virtualidades».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 19 a 25 de junho de 2017.

 

Pico della Mirandola (1463-1494) foi o mais célebre erudito do seu tempo e o maior cultor das Humanidades e escreveu “Discurso sobre a Dignidade Humana” (1480), traduzido em português pelas Edições 70 (2011).

 

APRENDER A DIGNIDADE
Falar de Humanidades, hoje e sempre, é reportarmo-nos a uma aprendizagem ligada à dignidade humana. Quando tomamos contacto com um texto clássico, vindo da tradição oral da civilização grega, como a «Ilíada» ou a «Odisseia», ou com um antigo diálogo filosófico, estamos no cerne das Humanidades. Do mesmo modo, quando nos deparamos com o património imaterial da humanidade – a gastronomia, as línguas, as tradições, os costumes - ou com a cultura científica e as técnicas ancestrais e novas. É de Humanidades que falamos – muito mais do que de cultura geral, ou de ideias genéricas. Muitas vezes, julga-se que o alargamento das fronteiras da Humanidades visa diluir os limites entre saberes e enfraquecer as ciências sociais e humanas. Puro engano. Lembre-se os exemplos de Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro. É de Humanidades que falamos para qualquer um deles, como procura e encontro de saberes e conhecimentos, que permitam melhor compreender a humanidade. E as modernas neurociências têm permitido salientar a importância da capacidade criadora das sociedades humanas e das pessoas – o poeta e o cientista encontram novos caminhos quanto ao conhecer e à criatividade em processos semelhantes. Por isso, estamos a abandonar o otimismo da autossuficiência, percebendo-se que a ciência económica ou a sociologia, a história ou a biologia, a arte e a física não podem viver separadamente, na ignorância umas das outras. Para tanto, impõe-se um caminho de partilha e de complementaridade. Dê-se dois exemplos recentes: o progresso das novas tecnologias de informação e comunicação não pode fazer esquecer que se impõe reforçar a relevância das relações interpessoais (a robótica deve facilitar a qualidade de vida e a integração das pessoas); do mesmo modo, quando vemos a evolução da ciência económica, facilmente percebemos que a recente crise financeira obrigou a articular cada vez mais o risco e a incerteza como fatores de análise, o que determina que a complexidade e a partilha de experiências entre equipas se tenham tornado elementos cruciais que permitem superar as limitações das explicações unívocas ou centradas em projeções lineares do crescimento económico… A desvalorização das Humanidades tem correspondido, assim, à subalternização da complexidade como método científico transversal – capaz de favorecer a especialização (e não a fragmentação), o espírito de equipa e de compreender que o desenvolvimento humano obriga à articulação das duas culturas de C. P. Snow, sem subalternizações nem complexos de superioridade e inferioridade. Como salienta a Professora Isabel Capeloa Gil: “Sem enveredar pelo género da jeremiada da crise, pretendo (…) pensar a importância das humanidades e ciências sociais como macroárea e propor que, apesar de constituída como saber próprio e disciplinarmente organizado, esta é afinal a base conceptual transversal necessária a qualquer trabalho em ciência. (…) Interessa-me propor uma reflexão sobre a importância social de um discurso sobre a falta de impacto, de utilidade, na verdade, de falta de valor das humanidades e ciências sociais” (in Humanidade(s) – Considerações radicalmente contemporâneas, Universidade Católica Portuguesa, 2016, pp. 12-13). E é daqui que devemos partir, de modo a assegurar a compreensão do fenómeno complexo da criação e de garantir um progresso partilhado de métodos em nome de uma autêntica e profícua cultura científica. E não se pense que o problema é meramente teórico, porque não é, já que está em causa a mobilização de recursos, a definição de prioridades e a existência de condições concretas para o progresso das ciências – com todas as implicações sociais, económicas, políticas, educativas…

 

BASE DE UM PROJETO EPISTEMOLÓGICO
Importa, no fundo, assumir, como faz Isabel Gil, que as humanidades constituem a base de qualquer projeto epistemológico. Toda a ciência é, no fundo, uma ciência humana. Cabe às Humanidades levantar questões e exercer uma função crítica – pondo na ordem do dia o espanto, donde resulta o pensamento, como origem e impulso da investigação. E assim as Humanidades são definidoras de uma matriz societal, a começar na Europa. Uma ciência de excelência não pode desenvolver-se sem considerar essa força criadora. Mais do que falarmos dos critérios gerais para financiamento de projetos, por exemplo, no âmbito da União Europeia e do Programa Horizonte 2020, no qual se tem verificado uma subalternização das Humanidades (em sentido estrito) e das Ciências Sociais, importa definir com muita clareza a articulação transversal dos diversos campos do conhecimento. E é na transdisciplinaridade que as Humanidades devem ganhar maior importância. De facto, o futuro dos saberes e da investigação científica depende do cultivo das ciências sociais e humanidades. Os Principia de Newton, Electricity de Franklin ou o Tratado de Química de Lavoisier foram a um tempo obras científicas e literárias – e são monumentos da cultura científica e das Humanidades. Longe de uma separação, há uma natural ligação. Condorcet defendeu a harmonização das artes com as ciências e Rousseau no célebre Discurso sobre as ciências e as artes afirmou que as ciências da natureza não poderiam separar-se das artes, sob pena de contribuírem para o atraso moral da humanidade. Quando F. R. Leaves respondeu a C. P. Snow, dizendo que o apelo deste para que os académicos da literatura se familiarizassem com a segunda lei da termodinâmica era um exemplo de diletantismo académico, não tinha razão, uma vez que a cultura científica tende a atenuar as fronteiras tradicionais entre o método explanatório das ciências naturais e o método interpretativo ou hermenêutico das ciências humanas. Do que se trata é de encontrar no diálogo científico novas pistas que permitam compreender melhor o mundo. Como tem defendido Martha Nussbaum, importa considerar o regresso à educação de valores, segundo um conhecimento não padronizado e uma visão transversal do saber assente num novo senso comum… É a democracia que está em causa, que exige a criação de uma cultura universal decente. Não se trata, pois, de fazer uma análise estática, dentro do pressuposto de que prevalecem os critérios tradicionais de permanência das circunstâncias conhecidas – “a universidade deve transmitir conhecimentos sólidos, competências sociais, culturais e técnicas robustas que permitam aos licenciados adaptar-se às transformações, e não a agir simplesmente como instituição que se adapta ao mercado” (p.55). Pico della Mirandola continua a ser o melhor esteio neste tema difícil das Humanidades. É necessário o diálogo de saberes e o fim do divórcio entre as duas culturas. Saber lidar com as leis da física, com os computadores, com as novas tecnologias, mas também com as artes tradicionais, será tão importante como conhecer o grego e o latim e ler os grandes textos e os grandes autores. Afinal, as Humanidades são “as guardiãs da república, fonte de memória nacional e vigor cívico, da compreensão cultural e comunicação, da realização individual e das ideias que partilhamos em comum” – como disse John Hennessy, presidente da Universidade de Stanford.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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    De 12 a 18 de junho de 2017

 

"Genuína Fazendeira - Os 100 anos de Cleonice Berardinelli", obra coordenada por Gilda Santos e Paulo Motta Oliveira (Bazar do Tempo, 2016), agora apresentada em Lisboa na Fundação Gulbenkian, assinala os cem anos de Dona Cleo e permite-nos usufruir de uma obra preciosa (livro-oferenda) de homenagem à notabilíssima Professora de Literatura Portuguesa.

 

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UM TÍTULO MAGNÍFICO

O título é dado por um poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado à parabenizada – “uma ensancha prazenteira / (a justiça é que me impele) / à genuína fazendeira…”. Aí se enaltece a importância de quem tem dedicado a sua vida à “constante maravilha do linguajar português”. São cerca de novecentas páginas suculentas, em que temos a colaboração de uma larga comunidade dos mais qualificados admiradores da mestra, cujo centenário celebramos, com muita alegria, em sua vida. E, além do mais, recordamos alguém a quem a língua e a literatura portuguesas muito devem e que tem sido injustamente esquecido. Falo de Fidelino de Figueiredo, que fundou uma verdadeira escola do estudo da literatura portuguesa em S. Paulo e que trouxe Cleonice Berardinelli para a ribalta. É, aliás, fundamental a carta de 1958 que endereçou à sua discípula (e ora publicada), com elementos curiosos para o conhecimento de Fernando Pessoa, ele mesmo. Dizia Fidelino: “Fomos condiscípulos no 1º ano da faculdade, que então se chamava Curso Superior de Letras. Acabava ele de chegar da África do Sul. Era alto, magro, narigudo, um pouco tartamudo e mantinha sempre uma expressão sorridente, que fazia lembrar o rir japonês, como defesa. Caminhava de esguelha, como afligido por escoliose espinal. Em breve desapareceu, talvez por não obter a revalidação dos estudos que trazia. Perdemo-nos de vista, apesar da simpatia que nos atraíra”. Depois, houve um encontro junto da igreja da Madalena, em que falaram animadamente, mas tendo Fidelino louvado um texto do poeta sobre o espírito provinciano – “não foi preciso mais para lhe sobrevir um acesso de timidez. Corou, enrugou mais o sorriso e partiu muito confuso. E nunca mais o vi – coisa bem explicável pelo meu exílio de 24 anos”. Nessa epístola, para além do testemunho, Figueiredo confirma as fundamentais qualidades de Cleonice, sua discípula dileta, dando-lhe conselhos avisados sobre a defesa e publicação da tese. Poesia e Poética de Fernando Pessoa (1959) é, de facto, um texto muito importante – “uma exemplificação perfeita dos métodos da estilística moderna e passará a constituir indispensável instrumento para a compreensão da obra do poeta, principalmente se for articulada ao movimento poético imediatamente anterior”. E se Fidelino de Figueiredo foi o mestre essencial da mestra, não podemos esquecer o afeto que esta dedica ao rigor de Pierre Hourcade (lamentando não ter podido falar com ele sobre Pessoa) e à fantasia, quase loucura, de Giuseppe Ungaretti.

 

SORRISO INCONFUNDÍVEL

No conjunto riquíssimo de textos de Genuína Fazendeira, Maria Alzira Seixo invoca o sorriso inconfundível: “o seu sorriso a desdobrar-se! – neste monumento centenário que nenhum abalo corrói – que dura e resiste. Cleonice”. Vasco Graça Moura não nos deixa por menos: “se a camões se consentisse / ter uma vida segunda / diria da mais profunda / gratidão a cleonice”. E Luís Filipe Castro Mendes recorda uma curiosidade avassaladora: “Nós passeámos por Praga, / por seus becos e travessas, / numa insaciável saga / de viagens e conversas…”. Pessoalmente, não esquecerei o momento em que encontrei Dona Cleo. Foi a 14 de outubro de 2011, graças ao nosso querido Eduardo Lourenço, com uma sessão riquíssima Fundação Gulbenkian em Paris, e um adorável jantar oferecido pelo casal Seixas da Costa, com a fidalguia conhecida… E ouvimos o ensaísta, admirador confesso da homenageada de agora, a exprimir o seu enlevo: “a paixão e o saber dessa cultura em comum (do elo que une as nossa únicas margens do atlântico cultural que há séculos une e separa o antigo cantar da galaica raiz e de imemorial futuro) eram – são – uma espécie de segunda natureza da filóloga herdeira do berço comum da latinidade que tem hoje no Brasil o seu espaço de memória mítica”. Como disse Anne-Marie Quint (a quem a literatura portuguesa tanto deve): “naquele dia, estivemos em presença de dois ilustres defensores das culturas lusófonas, abertos um e outra à cultura universal. O evento, além disso, reafirmava os vínculos poderosos e seculares que ligam a cultura portuguesa à cultura brasileira”…

 

UMA SIMBIOSE FECUNDA

Para Cleonice, não há conflito entre as literaturas portuguesa e brasileira. Têm em comum a mesma língua. “As pequenas diferenças que se verificam entre elas não fazem com que haja, nunca, uma dissensão. Portanto nem dissensão nem colisão” (entrevista ao JL, 10.8.87). Quando veio lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa, a convite de Maria de Lourdes Belchior e de Maria Vitalina Leal de Matos, teve oportunidade de exprimir o maior contentamento. E lembrava as lições que recebera na sua Universidade, sob a batuta de Fidelino de Figueiredo – através das quais se apaixonou por Gil Vicente, Camões, Garrett, Herculano, e Eça de Queiroz e, por outro, bem forte, Machado de Assis. Depois virá, como dissemos o misterioso Pessoa e uma relação muito especial com o engenheiro Álvaro de Campos. E como esquecer Vieira, “figura complexa,… mistura de lucidez e de imaginação prodigiosamente criadora”? Se a referência a Mestre Gil ficou sempre muito em evidência, Dona Cleo não esquece as representações que fez dos Autos da Alma, de Mofina Mendes e da Lusitânia, com o seu querido Manuel Bandeira, na primeira fila, a aplaudir… E lembrando intuições lapidares da professora como não trazer à baila Cesário, entre Fradique e Mário de Sá-Carneiro ? Trata-se de uma espécie de ponte que anuncia o século XX, em que Fradique é muito mais do que uma criação ficcional, simboliza os seus criadores (Antero e Eça) e anuncia “Orpheu” e um novo tempo – ou não fora Caeiro leitor de Cesário... Mas a preocupação fundamental de Cleonice Bernardinelli mantém-se bem viva – é indispensável que as literaturas da língua portuguesa, a começar pelas dos nossos países irmãos sejam mais conhecidas e estudadas, no seu diálogo mais íntimo e fecundo. Infelizmente, continua a haver grande desconhecimento mútuo, e todos perdemos com isso. Como afirma a homenageada, para o caso brasileiro: a Literatura Portuguesa deve fazer parte das matérias básicas – não só “porque é a literatura mãe a primeira a exprimir-se em língua portuguesa, a que constitui o passado da Literatura Brasileira, a que preenche todo o espaço medieval anterior à nossa experiência, mas também porque é o elemento primordial de uma cultura viva, dentro da qual tomamos as nossas origens e que não pode ser excluída da nossa formação histórica”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 5 a 11 de junho de 2017

 

«Linguagem e Silêncio – Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o inumano» de George Steiner (Gradiva, 2014) é uma interrogação atualíssima sobre as humanidades e a comunicação nos dias de hoje.

 

 

QUE HUMANIDADES?
O que são hoje as Humanidades? Será que compreendemos plenamente o papel atual das chamadas humanidades quando o progresso científico e tecnológico segue caminhos inesperados e imprevisíveis? Basta lermos os grandes humanistas ao longo da história para percebermos que não podemos fechar-nos dentro de fronteiras rígidas, como se nos devêssemos ater apenas ao formalismo de algumas categorias tradicionais. Quando Dostoievski, em «O Idiota», põe na boca de Hipólito a pergunta ao Príncipe Michkine se haverá uma beleza que salve o mundo, não há uma resposta, apenas silêncio. É desse silêncio que Steiner, na prática, se ocupa – uma vez que não podemos descurar a emoção, a arte, a criatividade, a graça, a emoção e o espírito, mas temos de ligar-lhes o cuidado e a atenção. E se é verdade que há muito barulho à nossa volta, o certo é que temos de saber ver e ouvir, de modo que a indiferença e a idolatria não ocupem o espaço do sentido e da dignidade do ser. Eis por que razão devemos valorizar o silêncio, que permita ouvirmo-nos uns aos outros, e distinguir o que tem valor. Steiner costuma lembrar que por trás da casa de Goethe há um campo de concentração e que grandes atrocidades foram cometidas por quem dizia amar a arte. Eis por que não basta invocar as humanidades, é fundamental torna-las humanas. «Toda a minha vida (diz Steiner) me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. (…) Passo o dia todo com os meus alunos a ler o «King Lear» e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Algyuém grita por ajuda e eu não ouçio. Sempre me intrigou até que ponto a ficção – e ficção é a palavra-chave – pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção». De que falamos quando tratamos da literatura? Em bom rigor é da própria vida. O mesmo se diga das diversas artes – quando ouvimos Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven ou Mahler somos transportados para um domínio que supera a nossa natureza, mas que não pode fazer-nos esquecer que somos imperfeitos. Lembrando-nos de Dante e da sua viagem com Virgílio, percebemos que a vida tem inúmeras cambiantes, contraditórias, enigmáticas, sempre difíceis. Não é o facto de podermos usufruir do que há de mais sublime que muda a nossa natureza. E não é essa limitação que nos pode fazer negar a importância da dimensão artística – para compreendermos a relação entre a razão e a emoção e para entendermos que nunca sabemos o suficiente para ser intolerantes.

 

UMA CULTURA DE EMANCIPAÇÃO
A cultura é um talento cheio de ambiguidades, e se Tolstoi não foi capaz de nos libertar da imperfeição, pelo menos, foi quem nos abriu os olhos para a força emancipadora das diferenças e das convergências… Caldéron de la Barca disse-nos que a «vida é sonho», mas não nos apresentou uma fuga à realidade, sim uma procura da realidade humana, do mesmo modo que Platão nos fala da alegoria da caverna… Perante os gigantes devemos ficar calados – mas temos de preservar a liberdade e o sentido crítico. Assim, George Steiner procura assegurar que não haja uma humanização da mentira. E chega, desse modo, à cultura científica, não numa lógica positivista ou naturalista, mas como a procura da capacidade criadora – que faz com que se encontrem o artista e o investigador científico, o novelista e quem descobre um novo tratamento para uma doença até então incurável… E o pensador diz-nos que a cultura científica tende a não conhecer a hipocrisia e a não fazer bluff. Quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Nas ciências sociais talvez seja mais fácil fazer batota… É certo que as coisas não são tão simples assim. Mas do que se trata é de nos aproximarmos de Humanidades que se tornem humanas e humanizadoras… Mais poderosas que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. E este funciona através da linguagem. Como poderemos proteger-nos? Por vezes vivemos como se a memória fosse retrospetiva. Tratar-se-ia de considerar o mundo como um grande museu. Uma das razões para o otimismo de Steiner tem a ver com o facto de a ciência se ocupar do futuro. Mas não basta ver o mundo através desses contrastes. O Admirável Mundo Novo de Huxley reserva-nos muitas perplexidades e desenha um futuro inquietante.

 

COLOCAR AS PESSOAS NO CENTRO DA REFLEXÃO
As Humanidades têm, assim, de colocar as pessoas no centro da vida e do mundo – sem a tentação de repetir o que recebemos nem de considerar o novo como um absoluto.  Mas surge a pergunta perturbadora: sobreviveremos como civilização? O pensador não está certo de qual a resposta. O nacionalismo é um poderoso veneno do nosso tempo. O chauvinismo torna o outro e o diferente como inimigos. Despreza as pessoas com nacionalidade diferente. A absolutização da identidade torna-se um fator de fechamento. Uma civilização autista tende a decair e a desaparecer por incapacidade de responder aos novos desafios, limitando-se a repetir tiques exteriores. O que nos caracteriza e nos distingue uns dos outros deve ser considerado como elemento de enriquecimento mútuo – não como de separação, de indiferença ou de ignorância. Os fundamentalismos e os protecionismos têm a mesma raiz. Hoje o tema dos refugiados não pode, pois, ser visto de modo simplista, como se correspondesse apenas a uma ordem de razões. Impõe-se articular a compreensão do outro, considerar a mobilidade das populações nos dias de hoje como algo de natural e tantas vezes necessário – bem como a cooperação para o desenvolvimento realizada nos países de origem… Os que se limitam a pensar na questão da segurança, bem como os que se atêm exclusivamente ao acolhimento de refugiados como tema humanitário estão equivocados – uma vez que há que equacionar a complexidade de temas, entendendo-se não só a resposta ao agravamento das desigualdades e à ocorrência dos fenómenos de exclusão, mas também a motivação social e humana e a emancipação cultural. A diversidade linguística e a comparação das diferentes literaturas colocam-nos no cerne da cultura como criação – e George Steiner permite-nos compreender a complexidade de fatores humanos que devemos considerar. E porventura estaremos hoje a atravessar um período muito semelhante ao que ocorreu no Renascimento. Daí a multiplicidade de pistas abertas e a necessidade de um diálogo entre saberes. O livro é ainda hoje uma referência para o pensador, mas ele próprio compreende que a criatividade e a resposta humana aos diferentes desafios vão depender de diferentes caminhos, a que a humanidade tenderá a responder de um modo múltiplo… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 29 de maio a 4 de junho de 2017.

 

«José de Almada Negreiros – Uma Maneira de Ser Moderno», o catálogo da exposição comissariada por Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos (Gulbenkian, 2017) constitui um repositório fundamental para a compreensão do modernismo português e do lugar que nele desempenhou o autor de «Invenção do Dia Claro» ao lado de Fernando Pessoa e da geração de Orpheu.

 

PERSONALIDADE MULTIFACETADA
José de Almada Negreiros é uma personalidade complexa e multifacetada que não pode ser compreendida nem através de interpretações conjunturais nem de simplificações anacrónicas. A sua vida e o seu tempo foram plenos de contradições que devem ser encarados com uma prudente distância que permita usar o rigor da análise e o entendimento relativo dos compromissos. A história portuguesa do início do século XX foi demasiado carregada de fatores paradoxais, correspondentes a uma tensão evidente entre a situação de um país periférico e as aspirações de um escol urbano que estava em contacto com a evolução da Europa culta. E não podemos esquecer que também nesse campo aberto ao exterior havia o confronto entre aqueles que assumiam uma perspetiva aberta e cosmopolita e os que, em consonância com a hipervalorização dos nacionalismos, punham a tónica na lógica identitária… Antero de Quental e a sua geração, na sequência dos grandes românticos, como Garrett e Herculano, já prenunciara, na célebre conferência sobre as Causas da Decadência, profeticamente, a necessidade de haver um sobreaviso relativamente às simplificações cosmopolitas e identitárias. Muito do debate do bom senso e do bom gosto está nas conferências de Almada Negreiros e na escolha de um símbolo, Dantas, como noutro tempo fora escolhido Castilho. E a verdade é que a geração de «Orpheu» representa uma encruzilhada onde, naturalmente, encontramos todas as contradições, que conduzem tantas vezes à desvalorização ou à hipervalorização do significado criador desses artistas.

 

O ÚNICO AUTÊNTICO MODERNISTA
Eduardo Lourenço fala de Almada como o “único autêntico modernista em sentido estrito de sintonizado com o vanguardismo (ou sucessivos vanguardismos) da época”. E sobre Fernando Pessoa, salienta, ao invés do delírio, a “consciência das insolúveis contradições do mundo moderno e da mesma modernidade, porventura até, rejeição do seu próprio espírito”… (Cf. O Labirinto da Saudade). Se virmos o percurso de Almada compreendemos que esse gosto absoluto da novidade o leva a crer, menos na lógica dos sistemas, e mais na força da criação. Nesse sentido, quis ser ele mesmo, permanentemente interrogante, ávido da busca. “Os sistemas e os programas servem para conduzir e jamais para criar”. Quem, por isso, suscita a hipótese de se estar perante um artista do regime, deve dizer-se que, para além do seu pensamento político, não deve esquecer-se a ideia de autonomia da arte que defendeu e que Gustavo Rubim refere a propósito de um texto importante publicado nos cadernos “SW - Sudoeste” (nº2, 1935): “A Arte não pode viver antes de criar a sua própria autoridade de autonomia dentro da coletividade”. Contudo o artista é o primeiro a reconhecer que essa capacidade criadora tem “dias melhores e outros piores”. Em 1945, com Fernando Amado no Centro Nacional de Cultura insiste, aliás, nessa ideia de autonomia do artista na sociedade. Eis por que razão há sempre uma luta na capacidade criadora – e essa luta obriga a uma exigente demanda. Dêem-se dois exemplos: o dos painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos (1945-48) e o da obra “Começar” na Fundação Calouste Gulbenkian (1968-69). Estamos perante duas abordagens bem diferentes, mas que representam facetas complementares da mesma atitude. Hoje sorrimos perante o relato das pressões exercidas por aqueles que consideraram esses painéis perigosos, não só pela eventual influência de Portinari, mas também pelos temas dos saltimbancos e da emigração, supostamente inconvenientes para receber visitantes estrangeiros. E foi a intervenção de João Couto, diretor do Museu de Arte Antiga, que poderá ter evitado (quem sabe?) a destruição dos painéis. A verdade, porém, é que estamos diante de obras-primas da pintura portuguesa de sempre, que Almada considerou como as mais próximas da sua própria capacidade criadora, “pinturas da nossa solidão”, onde o sentido criador assume plenamente a autonomia da Arte que o artista defendia. Se o cubismo se faz sentir inequivocamente, há também a procura de alternativas no domínio do espaço pela geometria. Na composição “Começar” temos uma verdadeira síntese de vida e de incessante pesquisa, dando continuidade à tapeçaria “O Número” executada para o Tribunal de Contas (1958). Há uma procura do cânone geométrico e simbólico, que “não está exclusivamente nos exemplos da Idade Média, não está só nos exemplos da Suméria, não está só nos de Creta, Gregos, Bizantinos, Árabes, Hebraicos, Romanos ou Góticos. Ele está sempre e é por isso mesmo que ele é cânone. E cada época tira do cânone as suas regras…”. A obra é impressionante e pretende demonstrar que “a arte precede a ciência, a perfeição precede a exatidão”. Afinal, “a perfeição contém e corrige a exatidão”. E, como salienta Mariana Pinto dos Santos: “Em Almada a abstração matemática e geométrica não é um fim em si mesmo, mas sim meio para encontrar uma linguagem comum, sem pátria, intemporal e imemorial da comunicação visual, raiz de toda a representação”. Na busca do cânone não há recusa de representação. A abstração corresponde, assim, a uma fase superior da reflexão.

 

UMA PAIXÃO TEATRAL
A paixão de Almada pelo teatro, referida por Ana Vasconcelos, invoca ainda a preocupação do encenador, designadamente quando dispõe as figuras nos painéis, como o da Rocha do Conde de Óbidos. É a sociedade heterogénea, multifacetada e inconformista que se manifesta. Essa paixão teatral recorda as suas peças, “Antes de Começar” (1919), “Deseja-se Mulher” (1928) e “Pierrot e Arlequim” (1931), bem como a amizade muito próxima e quase familiar com Fernando Amado, com especial destaque para os tempos do Centro Nacional de Cultura e da criação da Casa da Comédia. É significativo o “Diálogo entre Almada Negreiros e Fernando Amado” de 1946 (“Cidade Nova, nºs 5 e 6, 1950). Por seu lado, os sessenta e quatro desenhos de “O Naufrágio da Ínsua” (1934) mostram-nos um verdadeiro ensaio entre a banda desenhada e os desenhos animados – onde o humor e a ironia revelam a “linha clara” do caricaturista exímio que ilustra a ligação entre o cinema e a ilustração narrativa. José-Augusto França fez a síntese adequada sobre o artista: “Almada situa-se na história da arte portuguesa contemporânea como uma figura única, no seu valor estético tanto quanto no valor referencial da sua mensagem poética”. Se em 1993, por ocasião do centenário não foi possível realizar a grande exposição retrospetiva, o certo é que agora temos um repositório de inequívoca qualidade. A expressão “português sem mestre” caracteriza plenamente o artista completo que procurou abrir caminhos novos – “chegar a cada instante pela primeira vez” – com originalidade e um sentido próprio de praticar diferentes artes com subtil mestria, tendo na galáxia dos modernismos não um lugar de escola, mas uma posição de múltiplos caminhos e influências…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 22 a 28 de maio de 2017.

 

«Antologia dos Economistas Portugueses», com seleção, prefácio e notas de António Sérgio (Biblioteca Nacional, 1924) é um clássico da nossa bibliografia a não perder.

 

UM PENSAMENTO OPORTUNO
O pensamento económico português foi marcado ao longo dos séculos pelo estudo das condições que caracterizam a nossa situação quase paradoxal de um território europeu virado ao mar, mas com inequívocas carências, com exigentes solicitações globais em razão da presença dos portugueses no mundo. Tal é o pano de fundo dos movimentos que obrigaram sucessivas gerações a partir – ora para a Índia, ora, em ocasiões diferentes e com destinos diversos, para a emigração. Se a longa costa atlântica portuguesa permitiu contrariar a situação periférica, o certo é que houve sempre uma tensão entre a defesa de um melhor aproveitamento dos recursos próprios e a consideração das oportunidades dos movimentos de pessoas e mercadorias… São bem conhecidos os alertas de Infante D. Pedro das Sete Partidas na célebre Carta de Bruges ou as queixas de Francisco Sá de Miranda: “Não me temo de Castela, donde guerra inda não soa, / mas temo-me de Lisboa que ao cheiro desta canela o reino nos despovoa”. E não esquecemos o conde da Ericeira na defesa do espírito manufatureiro, a que a chegada do ouro do Brasil não deu continuidade. Houve, assim, plena consciência de que era preciso fixar riquezas depois de partir em sua busca. Essa procura teria de ser compensada de alguma forma, para que a míngua de pessoas não impedisse a criação e consolidação de uma cabeça coerente e de uma orientação eficaz para o império.

 

OBRAS PIONEIRAS DA NOSSA CULTURA
Falando de obras pioneiras portuguesas no tocante à economia, cabe referir, os fundamentais autores seiscentistas – Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Ribeiro de Macedo. Em 1608, Diálogos do Sítio de Lisboa de Luís Mendes de Vasconcelos (c. 1542-1623) é o primeiro exemplo de uma tomada de consciência sobre a importância da capacidade criadora da economia. O autor viveu na passagem do século XVI para o século XVII, foi Capitão das Armadas do Oriente egovernador em Angola. Nesse livro – onde discutem um Filósofo, um Soldado e um Político – encontramos a exaltação das qualidades da cidade de Lisboa, sobretudo quando comparada com Madrid e, tratando-se do tempo de Filipe I, durante a monarquia dual, António Sérgio diz-nos que o autor procurava convencer o rei “a mudar de Madrid para Lisboa a capital do seu império”. Por outro lado, combate-se “o estonteamento da nossa política ultramarina, que consistiu em se perverter o objetivo comercial com as ideias de conquista”. Luís Mendes de Vasconcelos defende, assim, a criação e a fixação, não apenas no domínio teórico, mas com exemplos práticos do que hoje classificaríamos como ordenamento do território, em especial para o aproveitamento agrícola nas lezírias do Tejo e na região de Lisboa. Ainda para Sérgio, este reformismo assenta na “política fixadora, a da produção metropolitana, com base na estabilidade do comércio do ultramar, e da sua nacionalização”; bem como num conceito de glória e heroísmo –“a glória do político e do militar, o heroísmo do servidor da pátria está em concorrer para a prosperidade dela”…

 

REMÉDIOS PARA O DESPOVOAMENTO
Já o clérigo e teólogo formado pela Universidade de Évora, Manuel Severim de Faria (1583-1654) subscreve, com preocupações paralelas, Dos Remédios para Remédios para a falta de Gente (1655), onde critica a prioridade bélica em detrimento do comércio e da manufatura – somando-se esse mal á falta de investimento, aos defeitos do arranjo agrário, à concentração fundiária, ao absentismo e ao despovoamento... De mais a mais, o império do Índico apresentava-se frágil por falta de organização mercantil, e por defeitos no arranjo agrário. Daí se advogar a prioridade para o comércio, a indústria e as manufaturas, único modo de fixar recursos, devendo a preocupação de criar riqueza prevalecer sobre a conquista. Só favorecendo o governo do Reino a introdução de ofícios e técnicas modernas poderia o mesmo alcançar a independência económica da nação. O jurisconsulto e diplomata Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680) publicou o Discurso sobre a introdução das artes no Reino (1675). Em coerência com a sua correspondência com o Padre António Vieira e D. Francisco Manuel de Melo. O escritor considera ser fundamental a compreensão de que só haveria um meio para evitar a dependência do exterior pelas importações, e esse seria impedir que o dinheiro saísse do Reino através da criação de artes e manufaturas. A introdução de uma tal orientação evitaria o dano que fazem ao Reino o luxo e as modas; obstaria à ociosidade; tornaria o país povoado e abundante com gentes e frutos; aumentaria as rendas reais (“porque o peso que levam poucos, dividido por muitos, é mais fácil de levar e pode ser maior”); e atrairia ouro de Espanha, aproveitaria mais as colónias e daria ao porto de Lisboa, superior ao de Constantinopla, a primazia do comércio do mundo. Escrevendo na França de Colbert, Ribeiro de Macedo considerava que haveria que seguir os caminhos mercantilistas de França e Itália e que a Inglaterra começava a trilhar. Saliente-se ainda que, tal como o Padre Vieira, o diplomata defendeu a necessidade de encontrar um entendimento com judeus e cristãos-novos de modo a angariar novos meios e capacidades. Dois outros diplomatas merecem referência pela valia dos seus escritos de orientação convergente com a de Duarte Ribeiro de Macedo – refiro-me a Alexandre de Gusmão (1658-1753) e D. Luís da Cunha (1662-1749). O primeiro defendeu o combate à ociosidade, o aumento da agricultura, o aproveitamento das ribeiras para navegar e regar, o estabelecimento de fábricas, o aumento da indústria e o favorecimento do comércio dentro e fora do reino. O segundo insiste na necessidade de dar um uso positivo à propriedade agrícola e de favorecer o investimento nas artes. Tratava-se de colher nas experiências das nações civilizadas os melhores exemplos com resultados práticos.

 

LIÇÕES PARA DIVERSOS TEMPOS
Quando António Sérgio publicou a sua Antologia dos Economistas Portugueses (1924), lembrou que os três autores seiscentistas “iniciaram a doutrina da política da Fixação, contra a política do Transporte; e o reformismo português, desde aí até agora, será o desenvolvimento dos princípios que defenderam nas suas obras. Em Luís Mendes de Vasconcelos é a Fixação, pela agricultura; em Severim de Faria, pela agricultura e pelas indústrias; em Ribeiro de Macedo, finalmente, são as minúcias de um programa de fomento industrial”. Logo no final do século XVII, porém, o dinheiro das minas do Brasil e mais tarde os empréstimos do constitucionalismo e as remessas dos emigrantes adiaram a realização das ideias dos três reformadores. Mas o seu espírito continua, ressalvadas as distâncias e qualquer anacronismo, vivo e pertinente, em nome de um reformismo que foi assumido por Herculano, pela geração de 1870, pela “Seara Nova” e pelo moderno pensamento democrático. Regressar aos clássicos é, no fundo, um privilégio, sobretudo quando podemos usufruir através da sua leitura de ensinamentos duradouros e perenes.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de maio de 2017.

 

«Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã» (Esfera dos Livros, 2017), da autoria de Carlos A. Moreira Azevedo é uma obra fundamental para a compreensão séria e serena de um fenómeno muito complexo, como Fátima, que deve ser analisado como rigor histórico e prudência, à luz de uma reflexão teológica, histórica e sociológica, que previna simplificações redutoras e especulativas.

 

 

A VISÃO CRISTÃ DE FÁTIMA
“A grande questão subjacente a toda a polémica sobre Fátima situa-se (…) na capacidade de percecionar o lugar das mediações entre a religiosidade popular e a visão cristã de Deus”. É o autor que o afirma, continuando: “Se Deus nunca ninguém o viu, o crente aceita a debilidade das mediações para alimentar a sua fé com sinais, que nunca atingem Deus, mas aproximam e ajudam a entrar em relação: gestos, ritos, memórias. Neste processo de humanização e encarnação, os videntes e profetas põem-se ao serviço das mensagens de Deus e a Igreja assume a missão de supervisão entre a religiosidade natural e popular e estes frágeis intérpretes da vontade de Deus”. Eis donde parte a obra, considerando que a fé é sempre pessoal (no sentido mais rico do termo), devendo ser compreendida muito para lá da pura racionalidade ou do cientificismo, mas em articulação com a razão – recusando a irracionalidade, que vive paredes meias com a magia. Estamos, pois, a falar de fenómenos testemunhados pela humanidade, com uma dimensão comunitária muito relevante, que devem ser considerados no contexto de uma religiosidade ou de uma espiritualidade adulta e consciente – leiam-se os testemunhos recolhidos por Leonor Xavier e veja-se o filme de João Canijo. E não esquecemos a afirmação de Paul Claudel: “Fátima é uma irrupção violenta e escandalosa do mundo sobrenatural neste agitado mundo material”. Eis por que razão temos de lidar com o fenómeno com especial atenção – até para que o mesmo seja respeitado e considerado como uma manifestação de fé. Cabe à Teologia integrar as devoções, ligando-as à globalidade da Revelação e à comunhão eclesial. E como temos aprendido, tantas vezes, tragicamente, ao longo da História, os fenómenos religiosos e a liberdade de consciência têm de ser compreendidos e respeitados, não numa lógica absolutista ou relativista, mas num são pluralismo, que pressupõe um diálogo informado e conhecedor. Nada pior do que os monólogos sobranceiros e ignorantes, que apenas favorecem a irracionalidade e a intolerância.

Uma visão cristã do fenómeno de Fátima obriga a partir de Jesus Cristo e a considerar o arreigado culto mariano a essa luz, enquanto riquíssimo fator de mediação. E o caso português tem um especial significado – falamos da Terra de Santa Maria, as dioceses estão consagradas à Mãe de Deus, numa das suas designações antigas a cidade de Faro invoca expressamente Santa Maria, os reis de Portugal entregaram a sua coroa à Padroeira na Restauração. E sem procurarmos muito, encontramos nas origens da nacionalidade a visão da Senhora da Nazaré do Almirante das Armadas D. Fuas Roupinho. E As Memórias Paroquiais de 1758 dão notícia de diversas aparições. Estamos, assim, perante um culto muito difundido – que se projeta Além-Mar na missionação e que encontra uma continuidade com as suas raízes num culto muito antigo e bem consolidado.

 

UMA CONJUNTURA COMPLEXA
O livro debruça-se sobre o fenómeno de um modo claro e rigoroso, em quatro partes: o Cenário, onde se analisa a conjuntura sociopolítica e económica de 1917; o Acontecimento, sobre o fenómeno das visões (do Anjo, marianas de maio a outubro de 1917 e o que seguiu); as Personagens, envolvendo os videntes e os supervisores; e a Mensagem – fases de apropriação, segredo e perspetiva de futuro. Publica-se ainda um importante apêndice sobre o trabalho documental. A conjuntura de 1917 é um caldo de cultura rico em acontecimentos, num período marcado pela questão religiosa portuguesa, coincidente com o anticlericalismo que acompanhou a implantação da I República. Apesar dos apelos de católicos como Abúndio da Silva no sentido de uma renovação da Igreja e de uma maior independência do poder político, a verdade é que a orientação laicista e os excessos na hostilização religiosa prevalecem (como a faculdade legal de dissolução das mesas administrativas das irmandades e confrarias e sua substituição ou a posse pelo Estado dos bens das extintas ordens religiosas), num ambiente de grande tensão social, sobretudo fora de Lisboa e dos grandes centros urbanos. A entrada de Portugal na Grande Guerra viria, porém, a dar lugar à necessidade de um apoio de teor religioso. “Afinal, a função da religião para a vivência pessoal e social ia além do racionalismo e da instituição clerical”. A defesa dos interesses marítimos e coloniais levaram à entrada no conflito, com número assinalável de baixas. Em janeiro de 1917 começam a chegar a França os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português e o executivo chefiado por António José de Almeida permite a presença de 15 capelães para 50 mil homens, embora sem vencimento. Este serviço revelar-se-á da maior importância, com forte apoio da sociedade.

 

UM ANO PLENO DE ACONTECIMENTOS
O ano de 1917 foi denso de factos: os bispos portugueses assinam uma Instrução Pastoral Coletiva na qual se diz que os católicos não devem eximir-se de funções ou cargos públicos, o que levará à constituição do Centro Católico (onde se destacará António Lino Neto); em dezembro ocorre o golpe militar de Sidónio Pais, que institui a chamada “República Nova”, abruptamente interrompida um ano depois em virtude do assassinato do Presidente. O certo é que se inicia um período de atenuação da crise religiosa, que corresponde (conforme Luís Salgado de Matos em A Separação do Estado e da Igreja, D. Quixote, 2010) à concordata informal de Sidónio Pais, à orientação pacificadora de Bento XV, à abertura do Presidente António José de Almeida, tendo entretanto ocorrido a beatificação de Nuno Álvares Pereira em 1918 E bem longe, em outubro de 1917, as convulsões sociais na Rússia culminariam na queda do czarismo e depois na revolução bolchevique. Tudo isto está em pano de fundo em Fátima. O centro do fenómeno encontra-se na mensagem – ligada ao amor, à oração, à conversão e à paz. Estamos, como salienta o autor, perante visões, encaradas como “diálogos interiores, com a ajuda do Espírito Santo”, resultantes de um “mecanismo natural de projeção, de compensação, de diálogo transposto para um encontro”. As “visões são olhares humanos, a partir do olhar de Deus sobre a nossa realidade, para provocar e mover a Humanidade a corresponder ao maior bem criador de esperança no futuro”. Esse o ponto fundamental de que parte o autor, projetando essa hermenêutica na evolução histórica que reforçará a mensagem: desde a primeira Guerra Mundial e da epidemia da pneumónica até ao atentado ao Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981… E é a tensão complexa entre a religiosidade popular e a visão cristã da relação entre Deus e os homens que, no fundo, aqui está bem presente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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