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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

    De 24 a 30 de abril de 2017

 

 

«A República» de Platão está traduzida em português por Maria Helena da Rocha Pereira (Fundação C. Gulbenkian, 1972), constituindo um exemplo literário, pedagógico e científico de revivência de um grande clássico colocado ao alcance da sociedade contemporânea – que aqui invocamos na passagem do Dia Mundial do Livro, ontem assinalado.

 

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VIVIA COM OS CLÁSSICOS
Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) é um símbolo do Porto Culto, dos Estudos Clássicos em Portugal no último quartel do século XX e uma das referências mais importantes de sempre. Num tempo em que, muito justamente, se procura uma relação mais rica e abrangente no âmbito das Humanidades, o exemplo da professora da Universidade de Coimbra, merece uma atenção especial. O seu desaparecimento deixa um vazio, mas sobretudo obriga a uma grande responsabilidade. Se houve por parte da grande Mestra uma preocupação de deixar escola, há um dever mais vasto no mundo da educação e na vida cultural e científica no sentido de ter de compreender-se que as raízes só podem enriquecer plenamente a capacidade criadora se puderem abranger o que de mais rico nelas existe. E, como recordava há dias Frederico Lourenço, homenageando a Professora, pouco antes do seu falecimento, só a valorização dos clássicos pode fazer-nos reencontrar na arte de educar a compreensão do humanismo integral da «paideia». É a «humanitas» de Cícero a ser chamada, não como o fechamento de uma área do conhecimento, mas como capacidade de diálogo e abertura de horizontes, em que os melhores exemplos da antiguidade clássica nos podem ajudar. E é verdade que nos poderemos compreender melhor se relermos Homero, Platão ou Aristóteles ou se nos reportarmos ao teatro helénico. E estamos a ouvir Maria Helena, que tive o gosto de conhecer e com quem colaborei (sempre beneficiando da sua amizade, do seu rigor e cuidado) – “Eu vivo com os antigos”… E assim foi, sempre com a preocupação de os trazer até nós, na exigente tarefa de percebermos a essência do género humano. “A dúvida é científica. Às vezes mais científica do que a verdade”. A educação era, assim, o seu domínio e o seu prazer.

 

HISTÓRIA DA CULTURA CLÁSSICA
Foi a primeira mulher doutorada pela Universidade de Coimbra, em 1956, e catedrática, em 1964. Antes, tinha sido de origem alemã a única professora – a célebre Carolina Michaëlis de Vasconcelos. A obra completa em dez volumes de Maria Helena da Rocha Pereira que está a ser publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Imprensa da Universidade de Coimbra, graças à sua preciosa orientação (e coordenação de Delfim Leão), dá-nos conta de uma grande riqueza e de um cuidadoso sentido pedagógico e científico. E lembremo-nos ainda de Estudos de História da Cultura Clássica (FCG, vol. I, Cultura Grega, 1ª edição 1966, 11ª edição 2012; vol. II, Cultura Romana, 1ª edição 1984, 4ª edição, 2008) ou de A República de Platão (FCG, 1972), onde a tradução, as notas e a introdução são referenciais no mundo dos estudos clássicos. Isto, além das compilações de textos gregos e latinos (Hélade e Romana) ou das fundamentais traduções das grandes tragédias de Sófocles (Antígona) e Eurípedes (Medeia)… A aprendizagem das línguas pela grande mestra deveu-se à necessidade de ler os originais, para os compreender melhor. E começou pelo alemão, o que muito a ajudou na abertura aos clássicos. Até ao fim da vida, foi extraordinária a sua preocupação em se manter atenta e atualizada. Graças a essa atitude, muitos estudiosos puderam beneficiar de ferramentas de trabalho fantásticas, rigorosíssimas, que foi fazendo e aperfeiçoando. Em tudo o que realizava era de um método e de uma organização impressionantes, e fui, durante vários anos, testemunha disso mesmo, num júri por si presidido. Esse viver com os antigos, que gostava de lembrar, era, no entanto, o contrário de uma atitude passadista ou retrospetiva. Afinal, dizia, o género humano não mudou muito desde a Antiguidade clássica… Para si, a educação e a aprendizagem eram realidades do presente e de futuro. E pode dizer-se que as origens familiares do Porto ajudaram a que esta extraordinária mulher tenha sido marcante na sua influência e no exemplo – uma vez que para seus pais, a cultura não era algo desligado da vida, sendo a erudição um modo de melhor compreender o mundo, em vez de qualquer tipo de ostentação.

 

PIONEIRISMO E CORAGEM
Nesse tempo era difícil a uma mulher optar por um percurso científico. E as duas irmãs Rocha Pereira optaram pelos estudos clássicos e pela matemática – como pioneiras de uma nova mentalidade. Mas, como bem se nota na dissertação de doutoramento (Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão), as referências éticas foram essenciais para a coerência entre o magistério e o exemplo quotidiano. Para o pioneirismo foi, porém, necessária uma grande coragem. Não bastava ter 17 valores na licenciatura de Filologia Clássica, havia que superar preconceitos. Contra todas as resistências a jovem foi para Oxford em 1950 e aí estudou e preparou o tema do doutoramento. Todavia quando regressou a Coimbra não tinha júri para a julgar – em 666 anos era a primeira mulher (já que D. Carolina tinha vindo da Alemanha). Entretanto, especializara-se em vasos gregos (Greek Vases in Portugal, 1962)… A sua autoridade científica era reconhecida internacionalmente. Em 1964 é aprovada por unanimidade no concurso para catedrática – e não escondia o seu íntimo orgulho por ter podido ser acompanhada por seu pai nesse momento único. A partir da Universidade de Coimbra, mas como uma influência entre os diversos estudiosos da Antiguidade Clássica, refundou os estudos greco-latinos em Portugal, com repercussões em toda a Europa – lembre-se a Pausaniae Greciae descriptio, Edição crítica publicada em 3 volumes na prestigiada coleção Teubneriana (1978-81) de Leipzig. Coube, assim, a uma portuguesa a publicação moderna da obra completa do geógrafo Pausânias, o que demonstra o enorme prestígio adquirido. Quando Frederico Lourenço fala do terror que causava a presença de Maria Helena da Rocha Pereira num júri académico, tal devia-se menos à personalidade da professora, e mais à exigência extraordinária que praticava consigo mesma. Sendo uma pessoa integralmente dedicada à cultura e à educação, nada lhe escapava. No caso de A República de Platão continua a ser um best-seller em todo o mundo que fala português. Só uma pessoa de cultura superior poderia chegar a uma qualidade como a que aí se encontra – e que obrigou a profundos conhecimentos filosóficos, históricos, políticos, científicos, além de filológicos e linguísticos. Essa versatilidade e o conhecimento universalista também têm expressão em Portugal e a Herança Clássica (2004), onde é estudada a presença da cultura clássica em autores contemporâneos, como Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade e Miguel Torga, além da consideração de Camões e Camilo. Hoje percebemos que talvez não se tenha compreendido inteiramente o seu lugar extraordinário na cultura portuguesa. Mas não há dúvidas que o seu labor incansável continuará a produzir os seus frutos. Em verdade, a grande professora ensinou-nos algo custoso de entender plenamente: as coisas belas são difíceis. E a melhor arte está em tornar aparentemente fácil e natural essa qualidade… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS


   De 17 a 23 de abril de 2017

 

Frederico Lourenço, quando recebeu o Prémio Pessoa, lembrou uma conversa com Sophia de Mello Breyner sobre a sua opção pelos estudos clássicos. É da maior importância essa recordação e a proposta que lhe está subjacente, no sentido do reconhecimento da importância das Humanidades, num sentido amplo e integrador, para a compreensão das nossas raízes.

 

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AO ENCONTRO DAS RAÍZES

A poesia da autora de Geografia e de Dual foi profundamente inspiradora para o jovem Frederico Lourenço que então dava passos decisivos relativamente à sua vocação. Houve, naturalmente, outras influências, como as muito marcantes de seus pais, Manuela e M.S. Lourenço ou a de seu padrinho João Bénard da Costa – nessa geração extraordinária de “O Tempo e o Modo” – mas o caso de Sophia foi muito especial. Ela “inventou uma Grécia própria. Não é a Grécia dos guias turísticos, não é a Grécia dos compêndios de história, filosofia ou literatura. (…) É uma Grécia construída pelo olhar dela, uma geografia anímica que tem tanto de Grécia como de Portugal” (Valsas Nobres e Sentimentais). De facto, a atração clássica, veio até Sophia dessa confluência fantástica do Mediterrâneo e do Atlântico, donde houve existência Portugal e que Orlando Ribeiro estudou com génio e brilhantismo. E Frederico Lourenço recorda o búzio comprado na ilha de Cós, onde apenas se ouvia “o cântico da longa vasta praia / Atlântica e sagrada / Onde para sempre a minha alma foi criada”. É Sophia quem fala, naturalmente, e cada um de nós sente familiaridade nessa sensação. E poderíamos recordar ainda nos Contos Exemplares as referências homéricas a Manuel Bote, banheiro mítico da Granja… Mas voltemos ao discurso do premiado e à recordação do modo desconcertante como a autora de Livro Sexto rematou essa conversa iniciática: “Só espero que não se arrependa”… Nada havia mais a acrescentar, tudo de essencial estava, porém, na ligação poética ao mar e ao “país de montanhas e navios onde os golfinhos correm quase à tona de água, onde a alegria se multiplica de ilha a ilha e sobre o qual paira a grande felicidade dos deuses de Homero” (O Nu na Antiguidade Clássica). Tudo estava dito e não dito. O amor fundamental de Sophia tinha a ver com as raízes antigas, em que os portugueses, como novos Argonautas, não poderiam ser compreendidos sem a referência aos genes que nos chegaram de Homero e de Ulisses – nosso pai mitológico...

UMA PROPOSTA SÉRIA E NECESSÁRIA

Naquele fim de tarde, na Culturgest, ao ouvirmos o galardoado, fomos transportados até a essas fontes mais distantes, onde bebemos a cultura que nos formou. E percebemos como o gérmen da cultura clássica ficou bem presente na criatividade perene do mais recente tradutor da Bíblia. “Além da inspiração que fui beber a Eugénio de Andrade e a Ruy Belo, ou a Camões e Pessoa, não tenho a menor dúvida de que o génio tutelar da minha tradução é Sophia. No fundo, o que eu tentei fazer foi traduzir Homero como se eu próprio me chamasse Sophia Andresen, embora, como eu já frisei, sem andresenizar artificialmente o texto” (Valsas…). Com especial pertinência, F. Lourenço defendeu agora ser “preciso começar o estudo do grego e do latim no ensino secundário. Enquanto isso não voltar a acontecer, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos”. Esta ideia merece uma especial atenção. E não se pense que estamos perante uma sugestão avulsa de um cultor de determinado ramo de saber. Não. Do que se trata é de um apelo sério, que tem a ver com a preparação adequada dos estudantes na área essencial da língua e da cultura. O bom domínio da língua não é tema de gramáticos, é questão de cidadãos. Precisamos de saber comunicar bem, de modo a que nos entendam, a que nos entendamos uns aos outros e a que saibamos exprimir-nos com ideias claras e distintas. Não há verdadeiro diálogo se não soubermos falar e ouvir. Infelizmente, quando ouvimos tantos debates nos meios de comunicação, presenciamos monólogos maçadores e uma invariável incapacidade para exprimir pontos de vista próprios e para responder aos interlocutores.

 

A CULTURA COMO CRIAÇÃO

A sugestão de Frederico Lourenço é muito mais profunda, positiva e plena de consequências do que à primeira vista possa parecer. E não se julgue que tudo se poderia resolver com acrescentos curriculares. Bem sei que há sempre a tentação de colocar mais um adereço numa espécie de árvore de natal de temas. Não é disso que se trata. Impõe-se uma atitude inteligente que permita nos núcleos essenciais de aprendizagem saber integrar o conjunto e o contexto, a razão histórica, a diacronia e a sincronia, a etimologia, as regras e o método. Nesse sentido, o escritor tem toda a razão. Como poderemos entender e proteger a língua que falamos se não conhecemos de onde provém e qual a razão de ser das palavras que usamos. De facto, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos se não dermos atenção as nossas raízes culturais. E insisto num ponto de que tenho feito cavalo de batalha – uma cultura aberta, consciente da necessidade de preservar o património como realidade viva, precisa de assentar numa atitude que favoreça a atenção ao que tem valor humano, assegurando o cuidado relativamente ao que recebemos dos nossos ancestrais. Só haverá atenção e cuidado se estivermos despertos. E as humanidades têm a ver com as letras e as artes, mas também com a matemática, a cultura científica e a importância do método experimental. Não se trata de dizer que tudo tem lugar, mas de compreendermos que a complexidade do mundo contemporâneo obriga à complementaridade de conhecimentos e de perspetivas. Mais do que da especialização, vivemos a era da cooperação de saberes. Na última crónica falávamos de Damião de Goes e de José Mariano Gago. Não podemos esquecer que os gregos referiam a “paideia” e os romanos a “humanitas”. E temos de nos lembrar das artes liberais da Idade Média: o Trivium, abrangendo: lógica, gramática e retórica; e o Quadrivium, com aritmética, música, geometria e astronomia… Se lembro isto mesmo não é para desfazer fronteiras e enfraquecer as ditas ciência sociais, mas sim para evitar o fechamento e garantir o encontro, a inter e a transdisciplinaridade. Sobre Oxford, que Frederico Lourenço conheceu desde tenra idade, encontramos, como se fosse uma metáfora sobre o diálogo entre o conhecimento e a vida: “é indesmentível que Oxford parece propiciar esse constante esmaecimento de fronteiras entre o literário e o factual, sobretudo quando o olhar que perceciona a cidade é, já de si, atreito a substituir a realidade que tem à sua frente por imagens e projeções livrescas”. A valorização das humanidades é, no entanto, o favorecimento de um combate constante e sereno contra a mediocridade e a ignorância. Não se trata de fechar conhecimentos sobre si mesmos ou de ignorar que a educação para todos obriga, nas suas profundas diferenças, a compreendermos a subtileza das relações entre cultura e vida e que não podemos confundir pessoas e robôs. A presença dos clássicos ajuda certamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 10 a 16 de abril de 2017.

 

«Occasionalia – Homens e Ideias de Ontem e de Hoje» da autoria do Padre Manuel Antunes, S.J. (Multinova, 1980) é uma reunião de textos sobre figuras e ideias marcantes do século XX, onde a personalidade muito rica do académico e grande mestre da cultura se manifesta em toda a sua plenitude.


 

A FORÇA DA CULTURA
A cultura para o nosso autor é, entre muitas outras coisas, tradição, diálogo, especialização e interdisciplinaridade. Sem tradição, há o risco de se cair no infantilismo e no primarismo; sem diálogo, pode cair-se «na sofística mais labiríntica e/ou obsessiva, no hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação»; sem especialização pode ficar-se em generalidades inócuas ou em afirmações sem fundamento; e sem interdisciplinaridade falta a perspetiva de conjunto e as árvores impedem a visão da floresta… A sociedade contemporânea tem de compreender que a capacidade criadora depende do conhecimento, da visão de conjunto e do entendimento da complexidade. O Padre Manuel Antunes foi um dos professores da Faculdade de Letras de Lisboa mais respeitado, pelo conhecimento, pela sabedoria, pela abertura de espírito e sobretudo pela extraordinária capacidade de tornar próxima a cultura clássica. Nas Memórias, há pouco dadas à estampa, de José Medeiros Ferreira está bem expressa a grande admiração que o intelectual devotava ao grande mestre. No Centro Nacional de Cultura recordamos também a sua influência e o seu magistério, determinantes na compreensão das mudanças necessárias na sociedade portuguesa no sentido da democracia, do pluralismo, em nome da dignidade da pessoa humana. A sua ligação a Sophia de Mello Breyner, aos poetas e escritores que se situavam na esfera de influência de «O Tempo e o Modo» foi muito significativa. O cidadão e o professor de Cultura Clássica complementavam-se, assim, naturalmente – em nome de um humanismo centrado na ideia de aperfeiçoamento constante da pessoa humana e da centralidade da consciência histórica. Como Werner Jaeger, que tanto admirava, pode dizer-se que Manuel Antunes também habitou três pátrias – considerando, além da própria, a Antiguidade e o Cristianismo. E o elo que as une é a filologia, a história e a filosofia. Para o português, talvez mais a literatura. E é assim que lembra a afirmação do mestre alemão: «Todo o humanismo antigo é orientado para a imitação de um modelo. O cristianismo tinha aceitado desde o começo este pensamento, mas referia-o a Cristo. (…) O processo de formação do homem tornou-se o processo de formação de Cristo nos cristãos»… Por ocasião da morte de Gabriel Marcel, em 1973, o pensador afirmava que o filósofo foi dos que melhor soube compreender o perigo da substituição progressiva e total do sagrado pelo profano, bem como das técnicas manipuladoras ou de lavagem aos cérebros de milhões e milhões de seres humanos. E o autor salienta como doía a Marcel a vontade reducionista que via «nos princípios, nos métodos e nas estruturas das ideologias do seu tempo». Hoje, sentimos os efeitos dessa tendência. Eis o que está em causa: o vazio ético e espiritual gera a tentação do fanatismo – em lugar de favorecer o respeito mútuo, o pluralismo e a salvaguarda da liberdade de consciência. Notícias inquietantes enchem os periódicos.

 

ENTRE A ARBITRARIEDADE E A INTOLERÂNCIA
A indiferença gera a arbitrariedade, a simplificação abre caminho à intolerância. E lembra o jesuíta a emergência não do espírito de verdade, mas do mero espírito de verificação - «espírito não do primado dos fins mas da soberania absoluta dos meios; espírito não de contemplação mas de ação e manipulação das pessoas e das coisas; espírito principalmente hábil, organizativo e tecnocrático que a racionalização conduz e a eficiência inspira». Não que a experiência e o sentido crítico devam ser desvalorizados, mas urge que não se caia na tentação do abstrato. «A abstração, isolando e desvinculando seres e realidades, ergue, vai erguendo, sistemas fechados, que surgindo com a pretensão de encerrarem a totalidade, a mutilam e a deformam»… E qual o resultado? A demonstração de que a indiferença e o fundamentalismo são faces de uma mesma moeda… «O fanatismo, a despersonalização e a massificação, eis os resultados». Gabriel Marcel falava, por isso, dos homens contra o humano. E assim «os extremos do racionalismo e do irracionalismo tocam-se na mesma abolição das diferenças, na mesma promoção do uniforme e do homogéneo, na mesma negação do humano». A desordem que oprime e a ordem que reprime são expressões da mesma violência. E o que presenciamos hoje nesta tremenda escalada do ressentimento e da irracionalidade representa, no fundo, que «violência da paixão e violência da razão são as duas faces da mesma realidade histórica do ideologismo». E nessa palavra se resume a intolerância dos que julgam possuir o exclusivo da verdade e da razão. O Padre Manuel Antunes recorda, a propósito, o seu encontro com Gabriel Marcel: «estou a vê-lo na sua infinita curiosidade por tudo quanto é humano, nobremente humano, de preferência, e se revela através de uma superior forma de cultura: poema, quadro, drama, romance, música, pensamento filosófico e reflexão teológica, principalmente». Como «homo viator» buscava a unidade e a coerência, na «disponibilidade de serviço em prol do humano, na sua busca permanente de mais justiça, de mais verdade e de maior amor entre os homens».

 

DIVERSOS REGISTOS E SENTIDO CRÍTICO
Os textos que compõem «Occasionalia» homenageiam figuras como, e damos apenas alguns exemplos: Blondel, Guardini, Maritain, Eliot, Graham Greene, Waugh, mas também Tomás More, Pascal e Claudel, Raul Brandão, António Sérgio, José Régio e Vitorino Nemésio; analisam Kafka, Malraux, Gorki, Steinbeck, Gide, Chateaubriand, Toynbee ou Bloch, Heidegger e Marcuse; interrogam Croce, Hegel, Marx, Lenine e Mao. Estamos, afinal, perante a extraordinariamente fecunda produção publicada nas páginas da «Brotéria», onde o autor se desmultiplicou em pseudónimos, reveladores da sua grande versatilidade e de uma singular capacidade para compreender o mundo moderno. E podemos, a propósito do que o autor diz de Pascal, apontar uma síntese, aplicável ao nosso cicerone: «ele continua vivo (…).Partindo da meditação sobre a condição humana, a sua reflexão projetou-se além, muito além de esquemas e de formalismos, de sistemas e de conteúdos que costumam limitar o pensamento de tantos filósofos e cientistas dos tempos modernos. A nós, nesta hora incerta e conturbada, neste momento crucial da história humana – e nossa, principalmente – compete recolher a lição».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 3 a 9 de abril de 2017.

 

Luísa Ferreira acaba de publicar «Ao Encontro de Damião de Goes – Para José Mariano Gago» (2017) um imperdível pequeno livro de imagens, onde relata um singelo mas muito significativo ato de homenagem de José Mariano Gago ao grande humanista português Damião de Goes, que tanto admirava e que se apresenta como símbolo do combate determinado contra a mediocridade e a ignorância, contra a intolerância e o fechamento.

 

EXPEDIÇÃO A ALENQUER
Na Galeria da Livraria Sá da Costa, pudemos ver expostas as fotografias de Luísa Ferreira e ouvir Luís Filipe Barreto e Karin Wall a invocarem os dois percursos de vida que se misturam na memória longa, uma vez que José Mariano quis que alguns dos seus últimos passos se dirigissem ao Renascentista. Tratou-se de uma expedição a Alenquer, ao encontro de Damião de Goes, no dia 9 de março de 2015, segunda-feira. “Mariano falou-me (…) sobre Damião. O grande humanista português do século XVI nasceu e morreu em Alenquer, depois de ter passado muitos anos fora do país. Foi viver para a corte aos nove anos e o Rei enviou-o para a Europa. Conviveu com Erasmo de Roterdão, entre outros pensadores, comprou e partilhou obras de arte, voltou a Alenquer onde adquiriu uma quinta e sofreu com a Inquisição”. Foi com estas referências que Luísa Ferreira aceitou o desafio de ir com José Mariano, para este olhar de frente o retrato que o próprio cronista mandara gravar na pedra. Infelizmente, o busto está hoje bastante danificado, apresentando um rosto alterado pelo tempo. Mas ele queria ver a efígie de Damião de Goes, para poder olhá-lo, para sentir a sua presença e para oferecer a sua representação à Real Academia Belga, onde dele falara. “Fotografia é estar com os outros, mostrar-lhes, ver”. E sobre o ato de registar imagens, Mariano gostava de recordar Alhazen, o físico e matemático árabe do século XI, que escreveu “o primeiro tratado decente sobre Ótica”, construindo diversas câmaras escuras como meio de experimentar um novo modo de considerar e de conhecer a visão humana…

 

PERCEBER PORTUGAL
Durante um ano Damião de Goes acompanhou José Mariano. A Descrição da Cidade de Lisboa (1554) era revisitada com especial prazer. Tornou-se leitura de cabeceira. O pequeno opúsculo “foi por ele escrito (na Flandres) quando todos os dias chegavam a Antuérpia galeões portugueses com especiarias das Índias – e a Europa queria perceber Portugal – e entender Lisboa”. E lembramos o que está escrito relativamente a uma cidade que rivalizava “com todas as outras cidades da Europa, tanto pelo número de habitantes, como pela beleza e variedade das construções”… É a Cidade Global, documentada na exposição do Museu Nacional de Arte Antiga, descrita pela pena de Damião de Goes. “Passando a Rua Nova do Rei, que transborda de entalhadores, joalheiros, ourives, cinzeladores, fabricantes de vasos, artistas de prata, bronze e de ouro, bem como fanqueiros; cortando à esquerda, chegaremos a uma outra artéria que tem o nome de Rua Nova dos Mercadores, muito mais vasta que todas as outras ruas da cidade, ornada de um lado e de outro, com belíssimos edifícios. Para aqui confluem todos os dias, à compita, comerciantes de quase todas as partes do mundo e suas gentes, em concurso extremo de pessoas, por causa das vantagens oferecidas pelo comércio e pelo porto”. O livrinho “deu a volta à Europa e contou o que era Lisboa nessa época (um tanto desgraçada de ódios e guerras de religião). Sendo Damião de Goes o grande humanista português do século XVI e que sempre conseguiu defender a tolerância! Contra os ódios”. É a letra de José Mariano Gago que no-lo diz. Apesar de o rosto do humanista estar deteriorado, a verdade é que é, segundo testemunhos coevos, o mais próximo da realidade. Podemos, porém, recordar o epitáfio fotografado nos finais do século XIX, na igreja da Várzea, onde se vê o busto antes de ter sido danificado. O túmulo está na igreja de S. Pedro, desde 1941, vindo da Várzea. E o próprio Damião de Goes, na descrição de Lisboa, fala-nos da sua terra natal: “A meio, pouco mais ou menos, do curso do Tejo, na margem de cá, indo para o poente, fica a fortaleza de Alenquer – a terra onde nasci -, e que, segundo Resende, os antigos chamavam Gerobriga”. Na capela de S. Pedro, em Alenquer, estão representadas as armas de Damião de Goes, dadas pelo Imperador Carlos V, e as de sua mulher D. Joana de Hargen. “Ao maior e ótimo Deus, Damião de Goes, cavaleiro lusitano fui em tempos; corri toda a Europa em negócios públicos; sofri vários trabalhos de Marte; as musas, os príncipes e os varões doutos amaram-me com razão…”. A cabeça do humanista esteve guardada durante anos até ser colocada na igreja. E conta-se que antes foi vista a rolar na rua a servir de brinquedo para as crianças… Mas José Mariano quis confrontar-se com o estado atual da pedra, sabendo que foi ela que o humanista mandou esculpir, numa representação fiel. Depois dos tratos de polé a que foi submetida, importava recordar a memória do cronista e diplomata em pelo menos três facetas: a do espírito aberto e livre, lutador pela tolerância e companheiro de outros grandes humanistas; a do português regressado à pátria, incompreendido, perseguido pela injustiça inquisitorial e porventura assassinado; e a de um exemplo maior da cultura portuguesa cujo monumento funerário foi sujeito a um ignóbil tratamento, por ignorância e desmazelo.

 

UMA CARTA DE ERASMO
Simbolicamente, lemos ainda no Caderno de Alenquer uma Carta de Erasmo de Roterdão a Damião de Goes. Não está aí por acaso. Sentimos o azedume das incompreensões. “Os italianos a cada passo arreganham contra mim, em opúsculos maléficos. Em Roma foi imprensa (sic) a Defesa da Itália contra Erasmo, dedicada a Paulo III. A rixa nasceu de duas palavras minhas não entendidas e que estão nesta máxima: Micónio calvo, é dizer cita erudito ou italiano belicoso, - as quais eles interpretam como tendo eu censurado os italianos por serem pacíficos, quando a verdade é que nesta expressão a Itália foi louvada e não vituperada. Comer, beber, - são vocábulos médios; comilão, beberrão, palrador – toam como vício. De igual modo, belicoso não traduz louvor, que sim exprobação. Os citas, por seus costumes bárbaros e selvagens, desprezam todas as disciplinas liberais, inclinados só para as armas; os ítalos, esses cultivam a filosofia, as artes e a eloquência, que são fomentadoras de paz, diametralmente contrárias por isso às daqueles. Eis excelente matéria de defensão”. A presença de Erasmo, que conhecemos do Elogio da Loucura, significa a um tempo a crítica às mentes intolerantes e a necessidade de esclarecer as ideias pelo diálogo franco e aberto… Fica-nos um testemunho em prol do conhecimento e da tolerância, como valores assentes no respeito mútuo. “Criticar os costumes dos homens, sem atacar qualquer pessoa denominada, será efetivamente morder? Não será antes ensinar e aconselhar? Aliás, não faço incessantemente a crítica a mim próprio?” Erasmo dixit, e poderia tê-lo feito Damião de Goes… José Mariano pede-nos para não os esquecermos.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de março a 2 de abril de 2017.

 

«O Essencial sobre Teixeira de Pascoaes» (INCM, 1999) de Maria das Graças Moreira de Sá constitui uma excelente síntese sobre uma das figuras mais complexas e mais ricas da cultura portuguesa do século XX, tantas vezes mal compreendido e alvo de simplificações ilegítimas.

 

PERSONALIDADE MARCANTE
A coleção «O essencial» da Imprensa Nacional – Casa da Moeda é um exemplo da boa pedagogia e da elaboração de sínteses cuidadas e exigentes, nas quais prevalece a preocupação de tornar a cultura acessível a todos. Lembramo-nos da Biblioteca Breve do velho ICALP e de outros breviários de qualidade que constituíram bons exemplos que devem continuar a ser seguidos. Neste caso de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), estamos diante de um caso paradigmático, em que a autora em menos de sessenta páginas nos apresenta toda a riqueza e complexidade da vida e obra de uma das personalidades mais marcantes da vida cultural portuguesa na primeira metade do século passado. Antes do mais, referimo-nos a um poeta dos mais influentes, mas simultaneamente tratamos de alguém que no movimento da «Renascença Portuguesa» e na revista «Águia» abriu a porta, muito para além do que subjetivamente poderia prever, para uma profunda renovação da vida cultural e literária portuguesa. Uma Renascença não poderia ser simples regresso ao passado, mas a consideração de que as nações pequenas só podem contrariar as tendências absorventes das grandes nações através do «carácter e originalidade do seu espírito criador». Pascoaes combateu, nessa linha, o estrangeirismo desnacionalizador e apontou a necessidade de cuidar da originalidade portuguesa – na confluência da herança europeia, céltica, greco-romana, germânica, e da influência de fenícios, cartagineses, judeus e árabes, tendo como pano de fundo o cristianismo. «Quem ler alguns dos nossos grandes escritores, sobretudo Camões e Bernardim, nos tempos antigos, e nos tempos modernos, Camilo e António Nobre, vê que a sua sensibilidade é, por assim dizer, dualista: tem alma e corpo; vibra ante a forma e o Espírito, ao mesmo tempo e com a mesma energia. Quero dizer: a emoção destes escritores nasce do contacto das suas almas humanas com a parte material e espiritual das cousas ou dos seres contemplados; e desses dois contactos resulta uma só impressão que é o seu sentimento». Daí a articulação, muito evidente em Pascoaes, entre o paganismo greco-romano (culto do corpo) com o Cristianismo judaico (culto do espírito). Unamuno fala, assim, da cultura portuguesa como um encontro do lirismo e da história trágico-marítima. E a Renascença Portuguesa enquanto impulso para diversos caminhos vai aprofundar, através da geração de 1890, o que os homens de 1870 tinham desejado e aquilo por que tinham lutado. Se lermos bem «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» de Antero de Quental, facilmente percebemos que as suas preocupações pressupõem uma ideia de «Renascimento». A noção de decadência aí não é um caminho sem saída, é um apelo a que o sebastianismo (prova póstuma da nacionalidade) não se torne um reconhecimento de impotência, dando lugar a uma vontade libertadora. Não se esqueça, pois, que a resposta de Pascoaes não é exclusiva, ao lado dela temos o modernismo de «Orpheu», com as suas diversas «nuances», de Alberto Caeiro e Álvaro de Campos até ao ortónimo de Fernando Pessoa, sem esquecer Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e etc., e depois a «Presença» e o riquíssimo movimento poético dos mais jovens (os «Cadernos de Poesia» e o que se seguiu) e a «Seara Nova», nas suas várias sensibilidades, de Sérgio, Cortesão, Proença até Raul Brandão. Dir-se-ia que a renovação ansiada por Pascoaes veio a realizar-se da maneira fecunda, multiforme, plena de diferenças e complementaridades, com um programa aberto e ciente de que o novo tempo obrigaria a cultivar o sentido crítico, a compreensão dos mitos para além de uma lógica redutora.

 

ENTRE O SONHO E O MITO
Pode dizer-se ainda que o «heterodoxo» Eduardo Lourenço irá compreender que o sonho e o mito deveriam estar presentes e não poderiam ser esquecidos ou subalternizados – antes tendo de funcionar, não como explicação retrospetiva, mas como ligação necessária entre a sensibilidade e a racionalidade. A aventura poética e espiritual preconizada por Teixeira de Pascoaes tornou-se, assim, um desafio não redutor. E Jacinto do Prado Coelho refere que o uso da ironia pelo poeta (em especial nas últimas obras) visava «corrigir a excessiva convicção com que se acredita, nimbar a fé ou o mito duma lógica dinamizante, (…) e, por outro lado, denunciar o ridículo de tudo quanto, no homem, é hirto, convencional, tacanhez e rotina». Quando Mário Cesariny de Vasconcelos considera Teixeira de Pascoaes como poeta maior do nosso Olimpo acima de Fernando Pessoa, quando António Sérgio grande crítico do saudosismo não deixa de reconhecer o talento indiscutível do poeta ou quando o próprio Fernando Pessoa coloca o poeta num lugar proeminente – na «busca de uma Índia nova, que não existe no espaço e em que as naus são construídas ‘daquilo que os sonhos são feitos’» - muitos põem o autor de «Marânus» num lugar especial nas letras portuguesas. E Eduardo Lourenço afirma que «o verbo de Pascoaes rasura ou dissolve a nossa pequenez objetiva, onde enraízam todos os temores pelo nosso futuro e identidade, instalando Portugal, literalmente falando, fora do mundo e fazendo desse estar fora do mundo a essência mesma da realidade» - não havendo na nossa literatura diálogo-combate mais fundo e complexo que o que entrelaça as aventuras poético-espirituais de Pessoa e Pascoaes» (cf. «O Labirinto da Saudade»). A poesia é conhecimento, filosofia, religião, profecia e o seu universo imaginário pressupõe uma «multiplicidade de centros de forças». E assim, para Maria das Graças Moreira de Sá, estamos perante um poeta da sombra, mais do que do dia claro ou das trevas. Daí ter de se entender a saudade não como um estereotipo simplificador, mas como uma encontro complexo de elementos contraditórios e paradoxais. Trata-se de um sentimento simultâneo de falência e de plenitude. Duarte Nunes do Leão fala sobre a saudade de lembrança de alguma coisa com o desejo dela e Garrett liga um gosto amargo ao delicioso pungir… A saudade é necessariamente contraditória. E que é a vida? «Para agir é preciso ser antes de tudo». Há, pois, um caminho que envolve a compreensão da abertura e da complexidade, do sentimento e da razão, de modo que se possa ir à conquista do Futuro… Tendo procurado encontrar o fundo do nosso espírito e reclamando uma «Renascença», essencialmente prospetiva, como Vieira falara de saudades do futuro, Pascoaes pôs em funcionamento uma espécie de lâmpada de Aladino, deu asas à sua imaginação poética, reclamou a força criadora, explorou o sentimento complexo da saudade, mas de facto pôde fazer da revista «Águia» uma incubadora da inovação cultural…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de março de 2017.

 

O debate de ideias é sempre bem-vindo, mas pouco cultivado. As exceções são importantes – como o Embaixador José Fernandes Fafe, autor multifacetado que deve ser lembrado.

 

UM EMBAIXADOR NO MUNDO DAS IDEIAS
José Fernandes Fafe era uma personalidade rica e multifacetada. Sempre ouvi a Mário Soares os maiores elogios à sua coerência, ao seu pragmatismo e ao seu arreigado gosto pelas ideias e pelas letras. Foi com Álvaro Guerra, Coimbra Martins e José Cutileiro um dos nossos grandes embaixadores com origem política – aliando uma tradição culta a um cuidadoso sentido diplomático. Como disse Francisco Seixas da Costa, “foi um diplomata de Abril, uma figura que levou o seu prestígio intelectual para as estruturas da política externa. Serviu o país com brilho, empenhamento e qualidade”. Vi-o e falámo-nos, a última vez, nos Jerónimos, quando nos fomos despedir de Mário Soares. Gostei de o reencontrar pelo que o admirava e porque tinha saudades da sua presença serena e ponderada. No tempo em que escreveu o seu célebre Caderno Diário, no Diário de Notícias de Mário Mesquita, falámos bastante – e convergimos em muitas ideias e propostas. Foi o tempo em que publicou os textos que reuniria em Esquerda – a Novíssima e a Eterna (O Jornal, 1985), e devo dizer que, ao reler essas reflexões, verifico que devem ser revisitadas, contrastando, pela sua riqueza, com muito do que hoje se lê, sem a mesma profundidade, a mesma informação e a mesma lucidez, a propósito do presente e do futuro do Estado Social… O certo é que o tempo confirmou que se mantêm as preocupações de Fernandes Fafe sobre as políticas públicas e sobre a resposta às crises. De facto, as pistas aí apresentadas revelam extrema atualidade. E se falo de atualidade, é porque o tema do contrato social, que intensamente preocupava o ensaísta, ganhou uma premência iniludível. “Neste período de crise (diz o nosso autor), a concertação social torna-se mais difícil. A classe trabalhadora vê deteriorarem-se e diminuírem os serviços sociais. O desemprego cresce, muitas vezes o patronato não resiste à tentação de fazer da luta contra o desemprego e da inflação armas contra os sindicatos. A obsessão dos capitalistas, nesta fase, é o investimento. A paz social passou a segundo plano e pensam consegui-la através de um governo forte”. Com esta passagem, verifica-se como o “contrato social” não evoluiu no sentido de garantir uma concertação representativa que possa pôr o combate ao desemprego e a coesão social na ordem do dia. Estávamos ainda antes de Maastricht e a verdade é que então poucos ouviram Jacques Delors, a dizer que a lógica puramente monetária não funcionaria, devendo dar-se atenção à criação de empregos e à redistribuição de riqueza. Ao invés, “os governos sociais-democratas, para se aguentarem, deitam muita água monetarista no seu velho vinho keynesiano. Descaracterizam-se”. E foi esta descaracterização que deu lugar, em parte, à situação em que nos encontramos.

 

A PERFECTIBILIDADE HUMANA
Quando se fala do suposto esgotamento do modelo social-democrata, importa considerar os elementos contraditórios (excesso de formalismo monetarista e míngua de atenção à sociedade) que corroem a ideia-mestra da partilha de responsabilidades e da justiça distributiva… É verdade que as circunstâncias estão a mudar, mas é essencial compreender a importância do movimento e da perfectibilidade humana, que José Fernandes Fafe considerava serem marcas da esquerda. E nesse ponto a lógica formalista tem de ceder perante a coesão social, a estabilidade de preços articular-se com a criação de emprego. Daí que François Fejtö referisse a necessária afinação de influências entre os diferentes protagonistas – para que a concertação fosse equilibrada e não desvalorizasse o fator trabalho. Norberto Bobbio defendia um socialismo no quadro demoliberal – com melhor ligação entre a representação e a participação, capaz de superar a burocratização e a tecnocracia e de garantir o predomínio do poder político democrático sobre o poder económico. J. F. Fafe analisava os diferentes autores com interesse para o debate sobre o conteúdo de um novo contrato social, capaz de atualizar a social-democracia. Nesse sentido visitava Marx e relia-o criticamente, pela compreensão das instituições livres e do pluralismo eleitoral – entendendo a importância das leituras de Popper, Kolakowski e Duby… E falava-nos de Ivan Illich e da ideia de Patrick Viveret segundo a qual um horizonte utópico como o do autor de Inverter as Instituições, assente na convivialidade, permitiria afirmar um sentido crítico na sociedade injusta e incompleta. Jacques Julliard, Pierre Rosanvallon, André Gorz e Alain Touraine preocupavam-se com a fragilidade da sociedade, incapaz de poder ser inteiramente liberal. O que estava em causa era a salvaguarda da autonomia (Cornelius Castoriadis) e a partir desta urgia pensar os caminhos futuros – segundo “as grandes ideias da esquerda”: Liberdade, consciência da servidão voluntária, Igualdade, compreensão da justiça social, Fraternidade e Solidariedade. E assim a renovação política teria de ser fiel à coerência. “A direita não é o Erro, nem o Mal. A direita é metade da verdade do Homem, resignação ao mal e incompreensão da outra metade – a do apelo à Aventura. Esquerda e direita constituem uma tipologia, portanto uma abstração (…). Tendo ligado o conservadorismo à memória, encontramo-nos na obrigação de ligar o socialismo ao desejo. Raul Brandão fê-lo clamando de profundis. Espero, ainda na cova espero, o fim da exploração do homem pelo homem”.

 

NÃO PROCURE, ESTÁ DENTRO DE SI
Na busca da esquerda, Fernandes Fafe dizia: “Não procure mais. Está dentro de si”. A liberdade exige a igualdade – ou a menor desigualdade possível, numa convergência entre igualdade de oportunidades e correção das desigualdades. Liberdade e igualdade conflituam? Norberto Bobbio pugnava por uma liberdade igual e uma igualdade livre, e encontrava aí o paradigma da esquerda. E Dworkin falava de igual consideração e respeito por todos – para superar o risco de contradição. Rawls apenas aceitava a desigualdade desde que fosse no interesse de todos. J. Fernandes Fafe considerava, assim, a complexidade em lugar da simplificação, pela coexistência de diversos fatores no sentido da perfectibilidade. “Do ponto de vista da dicotomia esquerda-direita, o importante, o que é difícil de definir, mas que está lá, o núcleo duro, o que, desde que instalado, não muda. É o carácter. A ideia de perfectibilidade do mundo, no carácter de esquerda. A obsessão parmenídea da Ordem, no de direita. (Repito que esquerda e direita são tipos, construções abstratas portanto, que não se encontram puros no concreto)”. O que muda são as ideias-instrumentos de acordo com a evolução social, económica e cultural. Não podemos esquecer os acontecimentos, a emergência de novos fenómenos, das novas tecnologias ao aquecimento global, das evoluções demográficas assimétricas aos choques económicos, do envelhecimento da população às energias alternativas. No mundo das ideias, que tanto interessava o Embaixador e o homem de cultura, estava, afinal, o centro da ética da responsabilidade…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de março de 2017.

 

«Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo» nasceu em 1941, por iniciativa de António Ferro, tendo publicado quatro séries até 1973, dentro da preocupação de promover, interna e externamente, Portugal como destino turístico.

 

 

UMA REVISTA NOVA
Quando hoje voltamos a folhear a revista «Panorama» fica-nos uma dupla sensação – a da grande qualidade gráfica e a da presença de um conjunto de artistas com reconhecimento geral, sobretudo quando nos reportamos à fase inicial, em que António Ferro tem uma significativa margem de manobra na capacidade de atrair os melhores artistas do momento. As ilustrações de Bernardo Marques, Emmérico Nunes, Ofélia Marques, Paulo Ferreira, Manuel Lapa, Eduardo Anahory ou Júlio Gil marcam a identidade da revista. Para Ferro, seria importante apostar na vertente das artes. E diz: «Enganam-se os homens de ação (…) que desprezam ou esquecem as belas-artes e a literatura, atribuindo-lhes uma função meramente decorativa (…). A política do Espírito (Paul Valéry acaba de fazer uma conferência com o mesmo título) não é apenas necessária, se bem que indispensável em tal aspeto, ao prestígio exterior da nação: é também necessária ao seu prestígio interior, à sua razão de existir». Não por acaso, o Secretário da Propaganda Nacional vai buscar um título muito prestigiado para a nova revista – nem mais nem menos do que o do órgão da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, que fora dirigida por Alexandre Herculano a partir de 1837, contando com a participação das principais figuras culturais portuguesas da época, como António Feliciano de Castilho, Oliveira Marreca, Camilo Castelo Branco... Lembremo-nos que a revista romântica apresentava um mote «positivo, otimista, apaziguador, apelando ao entendimento entre todos os liberais» - não tendo entrada os assuntos políticos… Agora os tempos eram outros e o conteúdo cultural e científico da velha revista não seria replicado no novo órgão de comunicação. No entanto, a qualidade gráfica tornar-se-ia a marca que compensaria um conteúdo essencialmente de divulgação, sobretudo centrado em iniciativas oficiais ou próximas, apesar de algumas colaborações serem assinadas por especialistas de prestígio, como Reynaldo dos Santos, João Couto, Diogo de Macedo ou Reis Santos. Contudo, António Ferro é, sem dúvida, quem marca a revista nas suas origens e na sua missão, nitidamente orientadas por objetivos de divulgação e propaganda, com um sentido de favorecimento económico – compreendendo a importância crescente do turismo no mundo – e de promoção do regime político. Os sucessores de Ferro seriam, aliás, essencialmente continuadores do projeto, sem carácter inovador. Referimo-nos a António Eça de Queiroz, José Manuel da Costa, Eduardo Brazão, César Moreira Baptista e Pedro Feytor Pinto.

 

UMA LÓGICA PREMONITÓRIA
Quando hoje regressamos à memória histórica da revista, temos de compreender a sua natureza e o facto de o seu fundador ter entendido a importância da ligação entre o turismo e a cultura. Essa compreensão conduz, naturalmente, a que seja a fase inicial a mais interessante da vida da revista, uma vez que estamos perante a sua natureza precursora e o ativismo do seu fundador. Como afirma Reis Torgal, A. Ferro é, sem sombra de dúvidas, um «intelectual do Estado Novo», como o foram D’Annunzio, Marinetti ou Gentile em Itália, supondo esse conceito «um certo nível de produção e intervenção cultural e uma problematização de conceitos, servidos por uma boa leitura, mais ou menos complexa ou simples, de obras e de autores, de estéticas, de sociedades, de políticas e de religiões». E é esse perfil que nos permite hoje debruçarmo-nos sobre a originalidade e a importância do seu papel, fora de juízos de valor ideológicos, que pecariam sempre por anacrónicos. E que visa o ativismo de António Ferro? Valorizar o que os portugueses tinham para dar. E o seu percurso pessoal e intelectual não permite fechar-se numa lógica provinciana. Dir-se-ia que há um culto paradoxal da lógica nacionalista – já que, defendendo-a, não esquece o cosmopolitismo que os modernistas representam. Essa coexistência de fatores diferentes nota-se na revista «Panorama», em que a estética moderna vive paredes meias com a tradição e a lógica conservadora. O folclore, a aldeia mais portuguesa de Portugal, a simbologia popular não deixam de ser cultivados com as audácias de quem não esquecia a participação na aventura de «Orpheu».

 

O JORNALISTA DE OUTRORA…
O jornalista de outrora não esquecia o que dissera um dia nas termas de Vidago, sobre quem jamais conseguiria divertir-se, levando consigo uma «apagada e vil tristeza» «em que a raça se afunda, que dá a Portugal uma atitude sonâmbula, mediúnica, que espectraliza os seres em árvores, que dá às árvores uma expressão humana». Do mesmo modo, não esquecia a «povoação abandonada, suja, uma terra maldita, uma terra de farrapos, de gatos lazarentos, de mendigos torpes, de crianças que são chagas», a propósito de Moledo do Minho… Como poderia haver turismo nessa vil tristeza, nesse abandono ou entre tais farrapos? Mas também lembrava o que dissera de José de Almada Negreiros quando o apresentou no dia em que leu em público a genial «Invenção do dia claro»: «Imaginário quer dizer, para mim, um profissional do Sonho, aquele que desenha imagens no papel, Ingres da Alma»… E não dissera de Mário de Sá-Carneiro: «quando aqueles que se esquecem dele estiverem todos esquecidos, Mário de Sá-Carneiro será lembrado»? Afinal, tal como os seus companheiros de «Orpheu» tinham desejado culturalmente, haveria que abrir portas ao Imaginário. Se virmos o pensamento de António Ferro sobre o turismo, há uma premonição sobre a importância futura dessa indústria – apesar da guerra mundial parecer contradizer essa tendência inexorável. O tempo longo veio a confirmar a intuição do intelectual, desmentindo, porém, a lógica autárcica… Só uma economia aberta e não protecionista poderia favorecer a livre circulação dos turistas… Havia uma inteligência fina que antecipava as grandes tendências, mas descria agora dos ideais republicanos que abraçara outrora – preferindo a mão dura de um Estado forte. Percebe-se, contudo, como a personalidade irrequieta do fundador da nova revista era complexa e contraditória. E essas características permitiram antecipar a tendência dos factos e antever o desenvolvimento da ligação indelével entre cultura e turismo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 6 a 12 de março de 2017.

 

Zvetan Todorov, num livro atualíssimo, intitulado «Mémoire du mal, Tentation du bien» (Laffont, 2000), cujo tema ganha nos dias de hoje uma importância crescente, diz-nos que “querer erradicar a injustiça da face da terra ou apenas as violações de direitos humanos e instaurar uma nova ordem mundial donde sejam banidas as guerras e as violências, é um projeto que converge com as utopias totalitárias na sua tentativa de tornar a humanidade melhor e de estabelecer o paraíso sobre a terra”.

 

 

RESISTIR AO MAL, NÃO SUCUMBIR AO BEM
Como nos alertou Thomas Morus na sua «Utopia», do que se trata nas sociedades humanas é de não renunciar à capacidade de nos aperfeiçoarmos, em lugar da tentação do império cego da virtude, contrário à liberdade igual e à igualdade livre. Todorov insiste: “É possível resistir ao mal sem sucumbir à tentação do bem”. Mas não se interprete apressadamente o aparente paradoxo. É de pessoas concretas que cuidamos, nos seus vários caminhos ao encontro de si e dos outros, e não de seres abstratos, formatáveis segundo um qualquer modelo de perfeição que não tem lugar no mundo concreto. Por isso, a Utopia é um horizonte, um desafio, e não um modelo ou uma exigência abstrata. Zvetan Todorov (1939-2017) morreu há poucas semanas em Paris e é uma das vozes mais lucidas na complexa reflexão sobre a liberdade e a democracia nos dias de hoje – quando um sério mal-estar atinge as sociedades contemporâneas, a ponto de presenciarmos a adoção de estranhas escolhas e de inesperadas decisões, que à partida julgaríamos fora de um horizonte previsível de racionalidade e de saudável partilha de responsabilidades. Nascido em Sofia na Bulgária, o então jovem estudante chegou à Universidade no ano do relatório Krutchev (1956), no qual se denunciavam os “desvios” estalinistas. Então escolheu enveredar pelos estudos sobre a literatura tradicional búlgara – o que talvez lhe permitiu começar a fugir à uniformização ideológica do materialismo dialético então em voga. Foi esta necessidade de fugir à ideologia oficial que o levou a esforçar-se por esclarecer o mistério da arte da escrita – através da leitura de Tolstoi, Dostoievski, Tchekov ou Maiakovski. E assim, em 1963, parte para França, onde viverá a cultivar a sua criação literária, tornando-se um dos pensadores europeus mais importantes e influentes do seu tempo – através da investigação sobre a complexa relação entre as diversas culturas do velho continente. No seu primeiro livro estudará os formalistas russos (como Chklovski, Tomachevski e Propp) – em Théorie da la Littérature Seuil, 1965). Na Sorbonne, encontra Gérard Genette e aproxima-se de Philippe Sollers e Marcellin Pleynet do grupo “Tel Quel” e cultiva a semiologia, com Roland Barthes, deixando-se influenciar pela busca do sentido escondido nos códigos, nos signos e nas estruturas da escrita… Dialoga intensamente com Barthes, Sollers e Derrida; estuda as Liaisons Dangereuses de Choderlos de Laclos; é diretor de investigação no CNRS e anima a revista “Poétique” com Genette. Contudo, talvez vacinado pela experiência búlgara, não se deixa influenciar pelo radicalismo de Maio de 1968. Não esquece o que designa como os trinta anos desastrosos do leste europeu (1945-1975) e não hesita em falar, contra-corrente, do Movimento parisiense de 1968 como de “arrière-garde”. E não o faz de ânimo-leve. Esse entendimento corresponde a uma exigente reflexão teórica, que assume em diálogo com a intelectualidade do seu tempo. Com Théorie du symbole (1977) afasta-se do estruturalismo, assumindo uma atitude humanista (Nous et les autres, Seuil, 1989) e afastando-se do relativismo de Lévi-Strauss.

 

O TEMA DIFÍCIL DA ALTERIDADE
O tema da alteridade passa a marcar a obra de Todorov, a partir dos anos oitenta, centrando-se o ensaísta na sua própria condição de imigrante ou “deslocado” e na importância das mestiçagens culturais. E aqui encontramos referência ao “universalismo da alteridade”, que Emmanuel Lévinas designava como “humanismo do outro homem”. Nesta ordem de ideias, o escritor combate não apenas o relativismo cultural, mas também o culturalismo nacionalista. Para o ensaísta a literatura não é um discurso, mas um pensamento que transmite valores. Nestes termos, o conflito entre o totalitarismo e a democracia é o acontecimento mais importante na história política do século XX – exigindo uma atenção redobrada relativamente às mais subtis formas que podem pôr em causa a liberdade e a responsabilidade pessoais. Daí que, para Todorov, a crítica da democracia não signifique renunciar a esse ideal. O que está em causa é a preservação do pluralismo, do primado da lei, das legitimidades do voto e do exercício, de modo que a mais ínfima das vozes possa ser ouvida. No seu último livro, acabado de sair por estes dias – Le Triomphe de l’Artiste (Flammarion, 2017) – diz-nos: “O mundo contemporâneo, não menos que as sociedades totalitárias, empurra-nos em todos os domínios, trabalho, justiça, saúde e educação, para o que Alain Supiot designa como ‘governo pelos números’, o que obrigaria a substituir a ‘administração das coisas pelo governo dos homens’”. Daí a necessidade de considerar as fraquezas inerentes ao género humano, sem renunciar ao aperfeiçoamento permanente da humanidade, no sentido de melhores sociedade e democracia. O ultraliberalismo aliou-se, no entanto, à lógica do totalitarismo. E o pensador considera este facto particularmente inquietante, influenciando muitos dos caminhos inesperados que agora têm o seu curso dos dois lados do Atlântico, com a subtil emergência dos inimigos da sociedade aberta. “A tirania dos indivíduos pode ter consequências tão graves como a tirania do Estado”. E, em lugar da racionalidade, o que vemos surgir são a “pós-verdade”, os egoísmos e as ilusões.

 

ENTENDER O SENTIDO DE SER PESSOA
Não basta estudar a diferença entre metáfora e metonímia, é preciso entender o sentido poético de ser pessoa. Mais do que a semiologia, importa ir ao encontro do “sentido moral da história”, compreender como Baudelaire nos legou Les Fleurs du Mal, para além do seu formalismo. Daí a necessidade de perceber a exemplaridade dos Insubmissos (R. Laffont, 2015) de Germaine Tillion e Etty Hillesum a Nelson Mandela ou mesmo a Edward Snowden. E assim se passa da estética à ética, do belo ao bem, na procura da força dos valores. Daí a importância do sentido crítico, que põe à nossa consideração. Conhecedor dos fenómenos totalitários do Estado, sabe que a realidade não se repete e, sem simplificações, fala das continuidades entre o totalitarismo e o neoliberalismo – segundo a uniformização do conformismo das sociedades ocidentais e a emergência de um novo e estranho intervencionismo, mascarado de liberdade, com desregulação, pensamento único e subalternização das pessoas. “Se desejamos defender o ser humano contra as forças sociais que o destroem, não basta imaginá-lo produzido por princípios abstratos, precisamos de aceitar vê-lo com os traços do seu destino”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de fevereiro a 5 de março de 2017.

 

«D. Afonso III, o Bolonhês, Um Grande Homem de Estado» de Diogo Freitas do Amaral (Bertrand, 2015) constitui uma obra importante de um dos nossos mais qualificados cultores do Direito Público, sobre as origens Estado português, numa fase essencial da construção da Nação. Mais do que história política, estamos perante um documento que nos permite compreender a génese e a evolução das instituições públicas. Daí a importância desta obra.

 

 

ANTES DO MAIS, EUROPEU
A biografia hoje referenciada salienta as excecionais qualidades políticas e militares do «Bolonhês», bom conhecedor da Europa e das melhores práticas governativas, quer em virtude da sua experiência em França, onde viveu durante 16 anos – sob a influência de sua tia D. Branca de Castela (1188-1252) e, mais tarde ao lado de seu primo, Luís IX (S. Luís), com quem ganhou fama de excelente homem de armas – quer ainda pelo facto de ter acompanhado sua irmã D. Leonor, precocemente falecida, como rainha da Dinamarca (1211-1231). Esse conhecimento e as qualidades desenvolvidas permitiram no seu reinado ter tomado medidas fundamentais para a afirmação de um reino moderno e precursor em muitos domínios – abrindo caminho ao reinado extraordinariamente fecundo de D. Dinis. Por exemplo, as Cortes de Leiria de 1254 são um momento fundamental, por serem as primeiras que contam com a participação, entre nós, dos representantes do terceiro estado – o Povo, fator premonitório na configuração da legitimidade do Estado no final da Idade Média. Com especial significado, em termos práticos, para a afirmação do reino de Portugal, merece especial referência a conquista do Algarve e o complexo processo que conduziu ao seu reconhecimento desse facto. Em 16 de fevereiro de 1267, há sete séculos e meio (como foi assinalado, em boa hora, pela Universidade do Algarve) foi firmada a Convenção de Badajoz entre o rei de Castela Afonso X, o Sábio (poeta maior do galaico-português), e o rei de Portugal, Afonso III. Este assumira a legitimidade real, após a guerra civil, que o opusera a seu irmão D. Sancho II, deixando o condado de Bolonha. O acordo firmado em Badajoz estabelecia que daí para o futuro o rei de Portugal renunciaria a qualquer direito sobre os territórios entre os rios Guadiana e Guadalquivir a favor do rei de Castela, seu sogro, desde que desposara D. Beatriz em 1253. Assim, foram cedidas as terras de Aroche e Aracena – estabelecendo-se que da confluência do rio Caia à foz do rio Guadiana, o limite da fronteira entre os domínios dos dois monarcas seria este curso de água. A norte de Elvas, as terras de Arronches e Alegrete ficariam pertencendo ao rei de Portugal e ao de Leão e Castela as de Marvão e Valença de Alcântara. Afonso X renunciava, deste modo, definitivamente ao reino do Algarve, ordenando que se fizesse a entrega imediata ao rei de Portugal dos castelos ainda à guarda dos seus lugares-tenentes. A partir da Convenção de Badajoz, para regularizar a fronteira a estabelecer com D. Dinis em Alcanizes (1297) só faltaria incorporar no reino de Portugal a comarca de Riba Coa.

 

A CONSOLIDAÇÃO DE PORTUGAL
Este acordo de Badajoz, assumirá especial importância, atribuindo a D. Afonso III o papel crucial de definidor do Reino de Portugal como origem da Nação – não apenas nos seus limites essenciais, mas na sua organização política, económica, cultural e administrativa, com novo centro de poder em Lisboa, em lugar de Coimbra. Para compreender o significado pleno deste papel, temos de recordar que o reino do Algarve (Al Gharb do Al-Andaluz, ocidente da Andaluzia) coincidia parcialmente, a oeste, com a antiga taifa ou reino de Niebla, que tinha permanecido depois da conquista de Sevilha por Castela nas mãos de Ibn Mahfut. Este, para salvaguardar a sua frágil autonomia, manifestamente precária, declarou-se vassalo do rei de Castela, Afonso X, desde 1253, tendo reconhecido em 1262 a definitiva perda da independência. No entanto, ainda antes de Afonso X ter sucedido a Fernando III, em 1252, já Afonso III tinha concretizado a conquista do Algarve, em 1249. Tal não tinha, porém, reconhecimento de Castela, em virtude de compromissos assumidos com o rei deposto Sancho II, o que motivou que Afonso X, uma vez aclamado, tenha tomado medidas concretas no sentido da afirmação da soberania sobre o Algarve – pedindo mesmo a restauração do bispado de Silves. O conflito entre os dois monarcas era manifesto – tendo apenas sido atenuado a partir do casamento de Afonso III com D. Beatriz, filha de Afonso X (1253). Recorde-se que o casamento com a condessa de Bolonha, D. Matilde, teve de ser anulado para permitir a solução política que consolidou os poderes do rei de Portugal. Apesar de tudo, ainda em 1254 Afonso III protesta com veemência contra os atos unilaterais de Afonso X em território algarvio, no tocante à posse de Lagos, Albufeira, Faro, Tavira e Silves. O Papa apela, entretanto, a um acordo efetivo e Afonso III parece aceitar uma solução jurídica transitória – Afonso X continuava a considerar-se Senhor feudal do Algarve, mas Afonso III reivindicava o domínio do território. Em 1261, nasceria o futuro rei D. Dinis, sendo em 1263 nomeada uma comissão entre os dois reinos para tratar da divergência de fronteiras. Em 1264, Afonso X cede, porém, às pretensões portuguesas e atribui os seus direitos a seu neto D. Dinis, por ser de seu sangue, estabelecendo uma contrapartida de cinquenta lanças. Essa solução seria, contudo, transitória até à celebração do Tratado de Badajoz. À definição da fronteira, associa-se a institucionalização política, jurídica e administrativa de Afonso III, reconhecido como rei de Portugal e do Algarve. É o tempo da nomeação de um Bispo pelo rei de Portugal, Frei Bartolomeu, bem como da centralização da coroa, da política anti-senhorial e da aliança do poder real com os Concelhos por contraponto aos poderes do Alto Clero e da Alta Nobreza – que Sancho II não tinha assegurado, enfraquecendo a independência do Reino. O antigo reino de Niebla ficará, assim, dividido pelo rio Guadiana, cabendo ao rei de Portugal o Algarve. Com a morte de Afonso X, sua filha D. Beatriz, como testamenteira, ainda foi designada para receber o reino de Niebla, num afloramento do conflito com Sancho IV. Mas este impõe-se como novo rei de Leão e Castela, com todos os inerentes direitos. E D. Dinis, sucedendo a seu pai (1279), garantirá plenamente a orientação do «Bolonhês», reforçando-a definitivamente – pela prevalência centralizadora e redução dos poderes senhoriais, pela fronteira e pela língua.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de fevereiro de 2017.

 

«O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz» é uma excelente edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros.

 

UM NOVO CONCEITO DE SABER
Fernando Gil tinha grande admiração pela filosofia e pela personalidade de Leibniz. E falava com entusiasmo desse autêntico inventor do conceito moderno de conhecimento e de enciclopédia. Do cálculo infinitesimal à monadologia, passando pela política, pela história e pelo direito, o pensador alemão, quase esquecido no momento da sua morte, pôde abrir pistas novas, que a ciência e o pensamento contemporâneos desenvolveram. Para Fernando Gil, o importante é considerar que se trata de um “filósofo de princípios”, sobretudo preocupado com o trabalho da fundamentação. E é essa perspetiva que permite garantir a perenidade da sua obra e dos desafios que nos lança. Lembrei-me desta genuína admiração ao ler O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz, uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros. Conhecedor da minha predileção pelo filósofo alemão, Adelino Cardoso teve a amabilidade de me enviar o precioso voluminho. Diversos ensaios constituem-no. O fiel ofertante fala-nos do autoquestionamento da modernidade. Marta Mendonça trata das edições da obra. François Duchesneau refere o cientista e o filósofo da ciência. Michel Serfati interroga-se sobre o genial matemático. Wenchao Li fala-nos do projeto de troca de conhecimentos entre a Ásia e a Europa, com especial referência à China. E aqui podemos compreender alguns dos pressupostos que levaram à querela sobre os ritos e à incompreensão relativamente à atitude dos jesuítas no relacionamento com o Império do Meio – e nesse ponto os portugueses são especialmente lembrados. António Braz Teixeira reporta-se, por fim, à recepção do pensamento português relativamente à obra de Leibniz. No conjunto dos temas, o filósofo aparece-nos na riqueza multifacetada da sua obra – sendo impressionante a pertinência e a atualidade deste que é um dos autores mais surpreendentes e ricos da história do pensamento. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), cujo centenário da morte ocorreu há pouco, é “um dos mais influentes instauradores da modernidade (para Adelino Cardoso) e aquele em que algumas linhas orientadoras da racionalidade moderna são submetidas a forte crítica, abrindo novas possibilidades na construção da modernidade”. Muitos dos seus contemporâneos não compreenderam, porém, a sua força inovadora – e daí que tenha prevalecido uma certa leitura caricatural, de que o paradigma é o Dr. Pangloss no Cândido de Voltaire. No entanto, a modernidade veio a demonstrar que a figura não se adequava ao suposto modelo. Mesmo em Portugal, Leibniz começou por ser visto com desconfiança e depois, progressivamente, tornou-se precursor de um pensamento crítico de crescente influência. Leia-se Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-1743), o primeiro autor a referir-se ao pensador alemão entre nós. A sua apreciação é animada pelo espírito do tempo, referindo depreciativamente à monadologia. Também Verney pôs reticências ao filósofo. E só o oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804) procedeu a uma análise detida e informada sobre a obra de Leibniz. Em Recreação Filosófica falou do princípio da razão suficiente e da teoria da harmonia pré-estabelecida – referindo-se, contudo, a esta última como “um sistema muito engenhoso, mas não verdadeiro”.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL
Importa ter presente que, ao longo da obra, fica nítido como a harmonia para Leibniz significa “a diversidade compensada pela identidade”. Não estamos diante de uma identidade homogénea, mas de uma realidade que se desdobra infinitamente. “Sob o fundo de uma harmonia invisível (dizem os coordenadores), o que se apresenta ao olhar de uma inteligência finita é um labirinto imenso com uma infinidade de entradas, quantas as formas diversas que compõem a tessitura do nosso mundo”. E assim a “razão suficiente” leva-nos ao limite da cadeia de razões, já que não se trata de encontrar a razão da harmonia, mas de chegar à complexidade das motivações e dos caminhos. Nesta compreensão, será Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) o primeiro português a tratar a obra de Leibniz de um modo aprofundado – falando de um sistema pluralista de substâncias. Assim, sustentava que para compreender como uma substância atua sobre outra bastaria saber quais as mudanças de cada uma e a respetiva prevalência. Também Amorim Viana (1822-1901), Cunha Seixas (1836-1895) e Antero de Quental (1842-1891) puseram Leibniz em lugar de relevância na sua reflexão. Amorim Viana partiu da harmonia pré-estabelecida, mas não contrapunha os conceitos de fé e razão, considerando a razão ao lado do sentimento moral e dos mistérios, entendidos estes como verdades que excedem a capacidade de entendimento, sem o contrariarem ou a ele se oporem. Cunha Seixas afirmava-se panteísta e concordava com Silvestre e Viana na consideração de que o bem seria a suprema realidade e o mal corresponderia a uma negação. Já Antero de Quental declarava a Jaime Batalha Reis ser a sua filosofia “uma fusão do hegelianismo com a monadologia de Leibniz” (1885), dizendo a Wilhelm Stork que “a monadologia de Leibniz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente à interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista”. E acrescentava: “o espírito é que é o tipo da realidade; a natureza não é mais do que uma longínqua imitação, um vago arremedo, um símbolo obscuro e imperfeito do espírito” (1887). Assim, a monadologia anteriana era de feição pluralista, distinguindo três regiões no mundo real – matéria, vida e espírito – ordenadas hierarquicamente, tendo cada uma por base a anterior.

 

LEIBNIZ E NÓS
E foi o “espírito” que ocupou essencialmente Antero, enquanto força consciente, energia simples, autónoma e espontânea – como modo de explicar “todo o sistema de forças em que consiste a natureza, bem como o sentido da evolução, como ascensão dos seres à liberdade, como criação de uma ordem racional, como desdobramento incessante energia moral, uma ação contínua da vontade impulsionada pelo ideal, a realização final do bem”. Pode dizer-se que Antero de Quental foi, entre nós, dos que melhor compreenderam as virtualidades do pensamento de Leibniz, aplicando-o numa perspetiva dinâmica à evolução das sociedades humanas. Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Basílio Teles sofreram também, mas diversamente, a influência leibniziana. Enquanto o poeta de Os Simples conciliava o criacionismo com a plenitude divina, o mesmo não se passava com os outros dois, para quem não era possível conciliar a ideia de Deus com a dramática realidade do mal. Leonardo Coimbra foi, porém, o nosso pensador que mais intensamente refletiu sobre a lição de Leibniz. O que caracterizava a monadologia era o acréscimo da vida moral e a tradução da liberdade em amor – ou seja, quando uma alma se excede, crescendo em liberdade, adquire maior capacidade de harmonia e beleza. Em suma, o “labirinto imenso” de Leibniz não nos pode ser indiferente.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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