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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de setembro de 2017.

 

«Os Naufrágios de Camões» de Mário Cláudio (D. Quixote, 2017) é uma hipótese romanesca que nos obriga a repensar o mito sebastianista e a interrogarmo-nos sobre a figura de Camões.

 

UM OUTRO CAMÕES
Mário Cláudio permitiu-me, entre tantas provas de amizade, conhecer Tiago Veiga e, além do mais, contactar, através dele, com a cultura portuguesa viva – plena de surpresas e de inesperados protagonistas. Quando há uns meses recebi, com amável dedicatória, Os Naufrágios de Camões (D. Quixote, 2017) li-o imediatamente e prometi a mim mesmo aproveitar o mês de Agosto para voltar à prosa, a fim poder gozá-la lentamente, com lápis e caderno de notas, já que me pareceu ser excelente exercício para seguir os passos da complexa investigação imaginada pelo escritor para seu e nosso deleite. Cumpri escrupulosamente o intento. E o livro seguiu-me e seguiram-me Timothy Rassmunsen, neto de Tiago Veiga, Richard Francis Burton, o descobridor das nascentes do Nilo e inesperado camonista, e Ruy, o escrivão de bordo da nau anual da China. Acontece, porém, que para facilitar o exercício, acompanhei com pormenor a preparação da grande viagem deste ano do Centro Nacional de Cultura, “Os Portugueses ao Encontro da sua História” – à Cochinchina e ao Camboja – e, segundo a conjetura romanesca, foi em Phu Quocq, a maior ilha do Vietname, nas proximidades do Mekong, que Luís de Camões deixou o mundo dos vivos… Portanto, tudo se conjugava para tirar o máximo partido desse reencontro com o universo de Tiago Veiga. E, para tornar as coisas mais apetecíveis, uma vez que Mário Cláudio cultiva a necessária ambiguidade entre a ficção e a realidade, foi-me possível, em dado passo do romance, confundir uma diligência real com o meu amigo José Carlos Seabra Pereira com uma consulta literário-filosófica a propósito do clima que perpassa no “Banquete” de Platão e em Camões, confirmando-se que este leu o comentário de Marsílio Ficino sobre a obra do grego. Afinal, estamos sempre a circular da lá para cá e de cá para lá no espelho que nos é dado quando falamos de literatura… E, falando de moderna investigação, está já demonstrado que no Rossio está mesmo D. Pedro IV e não Maximiliano, por causa do colar da Torre e Espada… Enfim, pormenores.

 

O OUTRO LADO DO SEBASTIANISMO
A experiência de Os Naufrágio de Camões é do puro romance, em que a realidade se mistura com a ficção, mesmo sabendo que estamos no domínio do sonho. E o que encontramos? Uma autêntica revisitação do “sebastianismo” – não só porque o próprio Desejado é enganado no decorrer dos acontecimentos do enredo, mas também porque Camões se vê envolvido na ilusão, do mesmo modo que mais tarde D. Sebastião voltaria falsamente à Ericeira ou a Penamacor. Nesta trama é o próprio épico a ser substituído por um biltre, que se apresenta como se fosse o poeta, podendo mesmo (na conjetura discutível mas estimulante) ser autor da parte final do genial poema. De facto, o enredo parte da hipótese de Camões ter morrido no Oriente. Rassmunsen é claro: “estou em crer que um enorme naco de texto, digamos as últimas estâncias do Canto VIII e os Cantos IX e X, ainda por realizar à data da tragédia marítima, não resultam do punho de Luís de Camões, mas são com toda a verosimilhança da lavra do capitão da nau anual da China”. E o cerne do romance parte da ideia de que o poeta morreu no Camboja. E o capitão, Bartolomeu de Castro, oriundo de Ponte da Barca e amigo de Diogo Bernardes, faz-se passar por Camões. Foi recolhido pelos nativos, rumando a Goa, a Malaca, Chaul e à Ilha de Moçambique, dando continuidade ao poema e mandando-o imprimir em 1572. E assim Os Lusíadas participam, como obra referencial, do drama sebástico. Não é só o rei jovem que desaparece nas areias de Alcácer-Quibir, tornando-se reencarnação do Rei Artur, esperado em manhã de nevoeiro, é também o poema imorredouro que sofre a dúvida sobre a sua plena autoria. Mário Cláudio faz, assim, de Os Naufrágios de Camões uma revisitação do mito das conquistas. E quando seguimos as reflexões e as demonstrações de Rassmunsen o que está em causa? De facto, há uma menor fulgurância da escrita da parte final do poema. “Que as imortalidades, que fingia / A antiguidade, que os ilustres ama…”. Esta vulgaridade choca o neto de Veiga (como Aquilino). Bartolomeu de Castro teria míngua de talento e é exemplo do oportunismo mercenário dos “fumos da Índia”. E o romance dá-nos na primeira parte as deambulações testemunhadas pelo próprio autor… O relato é alucinante, envolvendo diligências científicas e pseudocientíficas, espiritismo, estudos sobre textos em língua tâmil, manuscritos em folha de palmeira, budismo, missionação cristã etc. E o fim do desarvorado Rassmunsen é dramático e patético.

 

A SOMBRA DE UMA SOMBRA
Morto o neto de Tiago Veiga a dizer “Não sei quem sou, nem onde e quando estou”, o romancista põe-se na peugada de Richard Burton, ao perceber que era este que Timothy perseguia no final de sua vida transtornada. E chegamos a Dinamene, “Aquela cativa, / que me tem cativo…”, o amor derradeiro de Camões. Compreende-se como o grande épico pôde atrair a figura do explorador inglês, herói atual – pela sua personalidade pioneira, aventureira e moderna. Burton admirava Camões, de quem se considerava quase um émulo, pelo carácter corajoso e culto: “desordeiro e erudito, familiar de alcouces, desabrido no trato e tão pronto a acariciar as coxas de uma nativa de África ou da Ásia, como a mimosear um camarada com dois murros aplicados na fronha”. E num sonho mediúnico, Bartolomeu de Castro, capitão da nau anual da China, é desmascarado: “É tempo de pormos ponto final à falcatrua, as derradeiras estâncias do grande poema foram de facto escritas pelo nosso homem”… Tratava-se da sombra de uma sombra… E é o relato de Ruy que nos dá a chave do mistério. “Embarcámos em Macau na São Lourenço, a nau anual da China, por entre uma vozearia de adeuses, de pilhérias e imprecações, e mirados de longe pelos nativos”. Iam conduzir Luís de Camões à prisão de Goa. O poeta era acompanhado da jovem Dinamene e de Jau, escravo de Java. E há o naufrágio. “A última imagem de que me restaria consciência haveria de ser a do cavername que, emergindo como um Adamastor, se erguia à minha frente enquanto a barca se empinava até desaparecer connosco, ou sem nós, nas tenebrosas goelas da tormenta”. Era na Cochinchina e o padre-pregador Gaspar da Cruz ali passara. Dinamene morreu. Camões não teria resistido. Dele rapidamente se perdeu a memória, segundo “a tradicional desmemória lusitana”. Em Lisboa, na Rua Nova apareceu um vate a recitar versos com uma pala a tapar a vista cega… Descobriu Ruy que era o comandante da nau da China que fazia das suas. Até ameaçara com violência Antónia Braz, já muito velha, antiga amásia do épico… Seguiu então os passos do farsante. O próprio rei D. Sebastião seria levado a ouvir o biltre a recitar o poema roubado. Veio o desastre de Marrocos e Filipe I tornou-se rei. As coisas mudaram e misteriosamente lemos em Os Lusíadas: “Este receberá plácido e brando, / no seu regaço o Canto, que molhado / vem do naufrágio triste e miserando, / dos procelosos baixos escapado” (Canto X, CXXVIII)…

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

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     De 11 a 17 de setembro de 2017

 

Ler «A Renascença Portuguesa: um movimento cultural portuense» (1990) de Alfredo Ribeiro dos Santos constitui oportunidade para compreendermos a influência extraordinária que o Porto Culto teve no século XX português.

 

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CIDADE INVICTA, CIDADE CULTA

Alfredo Ribeiro dos Santos (1917-2012) é um símbolo do Porto Culto. Esta noção antiga de Sampaio Bruno cabe especialmente a este médico, discípulo de Leonardo Coimbra, para quem a tradição da “Renascença Portuguesa” não poderia caber numa qualquer noção estrita de escola ou de grupo fechado. Se lermos textos fundamentais de sua autoria como «A Renascença Portuguesa: um movimento cultural portuense» (1990), «Jaime Cortesão: um dos grandes de Portugal» (1996), «O Perfil de Leonardo Coimbra» (1998) ou «História Literária do Porto…» (2009) depressa e facilmente compreendemos que a riqueza e a fecundidade dessa plêiade coerente mas heterogénea (de Pascoaes a Proença e a Brandão) teve a ver com a fidelidade às raízes bem portuguesas de uma cultura aberta, multifacetada e complexa. Alfredo Ribeiro dos Santos foi cicerone privilegiado relativamente a esse movimento e a esse grupo de exceção – ensinando-nos que a sua atualidade se deve ao espírito aberto e persistente, baseado na autonomia enraizada da cidade do Porto, de onde houve nome Portugal, a única cidade-estado que houve em Portugal, pátria do Infante D. Henrique e também de Garrett (“nós, os do Porto, podemos trocar os b pelos v, mas nunca a liberdade pela tirania”), urbe invicta na guerra civil, fiel à causa da liberdade de D. Pedro – que, em preito de homenagem, deixou à cidade o seu próprio coração – sede da «Vida Nova» e da amizade entre Antero e Oliveira Martins, simbolizada nas Águas Férreas, ou de Soares dos Reis.

 

A «RENASCENÇA PORTUGUESA» COMO NINHO

Ribeiro dos Santos ensinou-nos que a «Renascença Portuguesa» constitui um exemplo de como o republicanismo teve diversas leituras e exerceu uma influência multifacetada e rica na evolução do século XX português. Recorde-se que no dealbar do movimento (em 1911), Teixeira de Pascoaes e Raul Proença apresentaram para ele dois projetos de manifesto que, sendo bastante diferentes, representam aos olhos de hoje a imagem significativa do que foi originalmente a ideia. «O fim da “Renascença Lusitana” – escrevia Pascoaes – é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual, e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo que sejam essencialmente lusitanas». Proença, por seu lado, falava “em pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar-se pelo que interessa aos homens lá de fora, dar-lhe o espírito atual, a cultura atual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais”. Como salientou José Augusto Seabra: “o ideal patriótico é idêntico, apenas os meios de o atingir divergem, embora sejam afinal complementares, como Pascoaes, aliás, n’A Águia, intentará mostrar”. Ambos se demarcam do positivismo ou de lógicas redutoras, estando em causa o que Jaime Cortesão propunha: «dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana». Como dirá Pascoaes, havia que «criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo, onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram».

 

ESPÍRITO MULTIFACETADO

Alfredo Ribeiro dos Santos encarna este espírito multifacetado! Fez os seus estudos secundários no Porto, no Liceu Rodrigues de Freitas, tornou-se discípulo de Leonardo Coimbra, colaborou ativamente na candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República, foi frequentador das tertúlias literárias e políticas portuenses e colega do Dr. Veiga Pires, resistente de sempre, com quem estagiou no Hospital de Santo António, e com quem militou no MUNAF e no MUD. Mário Soares disse dele que «deixou sempre por onde passou um rasto de simpatia, de humanidade, de aprumo moral e de respeito verdadeiramente invulgares». Nesse sentido, devo insistir na ideia de que é um símbolo indelével do Porto culto. E não poderemos esquecer a sua ligação ao Professor Abel Salazar, referência maior da ciência e da arte, da medicina e da pintura – sobre quem escreveu em termos de uma justiça e de uma sensibilidade lapidares. Foi o meu saudoso amigo José Augusto Seabra quem primeiro me apresentou o Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos, elo indispensável entre a Renascença Portuguesa antiga e a Nova Renascença. O seu exemplo era fundamental, já que nos permitiria compreender, com todas as suas consequências, a força e a durabilidade da mensagem renovada da ideia de Renascença, que se seguia à Regeneração constitucional de 1820. Afinal, o tempo veio a revelar que a velha revista «Águia», nascida na aurora da República portuguesa, constitui símbolo da perenidade do constitucionalismo – ligando os fatores democráticos desde a formação de Portugal que Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra assumiram plenamente, à causa liberal de D. Pedro, à liberdade constitucional e ao melhor da causa republicana, com a orientação socializante da «Seara Nova», o modernismo do «Orpheu» de Fernando Pessoa e Almada Negreiros e a democracia moderna da revolução de 25 de abril e do constitucionalismo democrático da contemporaneidade. No centenário de Alfredo Ribeiro dos Santos, invocamos o seu exemplo, mas mais do que ele, toda a sua lição ligada aos grandes mestres modernos da democracia portuguesa – que o cidadão e intelectual sempre enalteceu. No fundo, a chave do «Porto Culto» tem a ver com a perenidade dos fatores democráticos da formação e afirmação de Portugal. Eis o que não pode ser olvidado!   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 4 a 10 de setembro de 2017.

 

Eduardo Lourenço ensinou-nos que ao contrário do que muitos disseram, a Geração portuguesa de 1870 não foi nem exemplo de decadência, nem sinal de desistência. Pelo contrário, quem ler com atenção a sua obra crítica facilmente encontrará a busca persistente de uma saída positiva baseada na capacidade de regeneração ou de renascença de Portugal.

 

 

A CHAVE DA HISTÓRIA
A célebre conferência de Antero de Quental no Casino Lisbonense em 1871 sobre as causas da decadência do povos peninsulares constitui, muito mais do que uma intervenção circunstancial, uma chave para o tempo que se seguiu e no qual ainda participamos. Não por acaso, Miguel de Unamuno considerou esse momento como o culminar do “século de ouro português”. É certo que há paradoxos e contradições, mas o que aparece com nitidez é a ideia da procura de fatores democráticos, capazes de mobilizar os cidadãos e de fixar as riquezas… Antero falava de três causas da decadência: Trento, o Absolutismo e as Conquistas. O fechamento religioso, a centralização política protecionista e a dispersão de um império dificilmente governável para um país europeu de dimensão média – tudo isso determinou a incapacidade de criar condições económicas e políticas capazes de assegurar um verdadeiro autogoverno democrático. A verdade é que, no final, do século XIX Portugal tornara-se periférico, pobre e mais distante (como não antes) da economia e da cultura europeias. É esse afastamento dramático que constitui pano de fundo do romance Os Maias ou do dilema de Gonçalo Mendes Ramires em A Ilustre Casa de Ramires… E se o batismo de “Vencidos da Vida” teve o seu quê de irónico, como melhor do que ninguém demonstrou Eduardo Lourenço na sua psicanálise mítica do destino português, o certo é que essa marca de decaimento significava a necessidade de partir de uma visão autocrítica para a superação da mediocridade – daí haver, de Alexandre Herculano a Jaime Cortesão, a procura do reencontro com as raízes ancestrais da liberdade e da democracia. O reencontro de Portugal com a democracia e a Europa, no último quartel do século XX e início do século XXI, corresponde assim a uma resposta que confirma que a permanência cultural portuguesa se reforça com a autonomia, com o sentido crítico, a desconstrução dos mitos e com a capacidade inovadora.

 

OS EFEITOS NEFASTOS DAS CONQUISTAS
Herculano e Coelho da Rocha, na linha de pensamento que Antero seguiria no Casino, puseram-nos de sobreaviso relativamente ao sonho e à dispersão imperiais. “As riquezas do Oriente produziram entre os portugueses os mesmos efeitos que em todos os tempos têm feito sentir aos seus conquistadores” – ensinava o professor de Coimbra. “A antiga singeleza foi substituída por um luxo imoderado; este corrompeu os costumes; e a avidez do ouro ocupou o lugar da virtude e do patriotismo. Por outra parte, as longas e perigosas viagens, a guerra e a colonização despovoaram o reino e abriram um vazio que as riquezas não podiam preencher”. É como se voltássemos a ouvir Gil Vicente, Sá de Miranda ou o incompreendido Camões, pela boca do Velho do Restelo… Ao invés da glorificação do passado está aqui o apelo à fixação… Afinal, “a glória de mandar e a vã cobiça” mostraram-se mais poderosas do que o espírito inovador e do que a capacidade de dar novos mundos ao mundo… Oliveira Martins lembrou: “a bordo fomos tudo; em terra apenas pudemos demonstrar o heroísmo do nosso carácter e a incapacidade do nosso domínio”. A orientação para o mar foi ditada pela situação geográfica e pela tradição comercial – menos por uma vocação imperial, daí que os defensores do regresso à “vida simples” e à “fixação” tenham considerado não haver contradição histórica, mas complementaridade de vocações, enfatizando a fixação como complemento do transporte… E Herculano atribuiu, assim, a falta de esforço, crença e patriotismo na crise dinástica de 1580 aos “hábitos de desenfreio, cobiça, ódio e egoísmo que em cada monção carreávamos do Oriente para a Europa”. E um certo providencialismo decorreria da contradição entre os feitos alcançados e a míngua de efeitos duradouros conseguidos.

 

ENTRE FIXAÇÃO E TRANSPORTE
António Sérgio deu coerência a uma genealogia nobre, enaltecida por Herculano: desde a política de independência da primeira dinastia, passando pela justificação do Infante D. Pedro na Carta de Bruges, pelo sentido crítico de Sá de Miranda e de Camões, pelos economistas do século XVII, pelos académicos de setecentos e finalmente por Mouzinho da Silveira… Não por acaso, Oliveira Martins considerou modelar o exemplo do Príncipe Perfeito, como delineador de um plano para a Índia, fundado na criação de uma base económica na Península Ibérica. Ainda que concordasse com Herculano e Antero, estudou a hipótese de uma estratégia global assente na articulação entre a inserção europeia e o melhor aproveitamento dos recursos obtidos na circulação mercantil. A criação de uma base peninsular gorou-se, porém, do mesmo modo que as posições dos economistas do século XVII e a tentativa da atração dos capitais dos judeus e cristãos-novos não tiveram consequência em fixação manufatureira – que a descoberta do ouro do Brasil tornou aparentemente dispensável. O fulgor da corte de D. João V correspondeu à passagem das riquezas pelo transporte, e não a uma consolidação económica e cultural. Daí a evolução do século seguinte. Se é verdade que, desde a primeira geração liberal, de Garrett e Herculano, intelectuais e políticos reivindicaram a aproximação à Europa, sem prejuízo da salvaguarda das especificidades nacionais, o certo é que, entre meados e o fim do século XIX, houve uma clara divergência no tocante ao produto per capita, chegando-se à primeira década do século XX com uma distância não alcançada anteriormente. O PNB per capita português que era de 86% da média dos países desenvolvidos, em 1860, passa para 45% no início do século XX. Isto poderá parecer estranho, quando assistimos a uma política de melhoramentos, tantas vezes à custa da dívida pública. No entanto, o desfasamento em relação à Europa deveu-se ao facto de faltar entre nós a fixação, que permitiu no resto da Europa um crescimento muito mais rápido, graças às economias de escala. Tem razão Rui Ramos quando encontra as raízes da condenação dos efeitos das descobertas e das conquistas em Herculano, Antero e Oliveira Martins na ideia de que urgia construir uma “república”, como comunidade de cidadãos patriotas, autónoma e viável, explorando o enraizamento e a “vida simples” baseada nos próprios recursos. Fora da ideia de uma história impossível, como Eduardo Lourenço ensina, trata-se de assumir a herança multifacetada (de Pedro Nunes, Garcia de Orta, Camões, Fernão Mendes Pinto e D. João de Castro) e as suas lições – sendo o regresso ao cais europeu a possibilidade de conciliar a fixação na ampla frente de mar do hemisfério norte com o aproveitamento das virtualidades de um relacionamento global, em geometria variável, designadamente do mundo da língua portuguesa.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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     De 28 de agosto a 3 de setembro de 2017

 

«Tudo o que não Escrevi» de Eduardo Prado Coelho (2 volumes), edições Asa, 1991-1992, é um retrato em forma de diário de uma das personalidades mais interessantes e ativas do meio cultural português da passagem do século XX para o século XXI.

 

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DEZ ANOS DEPOIS…

Já decorreram dez anos desde que o Eduardo Prado Coelho nos deixou e no entanto a sua memória, a vitalidade do seu exemplo continuam bem presentes, sendo justo que devamos recordá-lo, como ele gostaria. Fora de qualquer ideia retrospetiva, a sua preocupação fundamental estava no culto de uma atenção desperta para o tempo e a realidade que o cercava. Não conheci mais ninguém que estivesse tão atento ao debate de ideias e ao surgimento de novos contributos e de novas perspetivas. No Centro Nacional de Cultura contei sempre com a sua participação ativa nas iniciativas para que era desafiado. Quando o Chiado ainda estava morto, sob os efeitos do terrível incêndio, lançámos as festas no Chiado (na altura, duas por ano). Era um tempo em que ninguém estava certo de que seria possível dar vida àquela capital de Lisboa, na expressão de José-Augusto França, e o Eduardo aceitou o desafio dos cinco livros, cinco autores – para trazer aqui os mais interessantes escritores, ensaístas e poetas. E com que zelo e prazer fazia o seu trabalho… Muitas vezes, os autores que indicava eram ainda pouco conhecidos, mas o tempo veio a provar que o Eduardo tinha um faro verdadeiramente raro para descobrir o que tinha realmente qualidade. Lembramo-nos que, relativamente a um autor hoje consagradíssimo, tivemos 5 pessoas da primeira vez que foi escolhido – mas um ou dois anos depois já havia para a mesma pessoa quase uma centena de presenças… O tempo passou e o Chiado renasceu, pujante, graças a uma extraordinária convergência de esforços e de vontades – entre os quais Siza Vieira teve um papel crucial. E se lembro o entusiasmo de Eduardo, a verdade é que os livros e a cultura foram âncoras essenciais para que o Chiado tenha renascido mais forte do que nunca… O certo é que a ideia de cultura, que sempre esteve presente na sua ação, tinha a ver com a criatividade, a atenção e o cuidado. Educação, formação, ciência, pensamento, cidadania ativa, responsabilidade política, antecipação do futuro, ligação entre tradição e mudança – eis o que o ensaísta soube cultivar e aprofundar (e essa ligação íntima a Eduardo Lourenço deve ser lembrada especialmente). Se nos lembrarmos do seu contributo para os primeiros passos do estruturalismo entre nós, verificamos, antes do mais, a atenção aos novos caminhos, sem se deixar aprisionar pelas leituras exclusivas ou unilaterais. O primeiro entusiasmo dava lugar a outras influências e outros contributos. O mesmo se diga relativamente ao pensamento marxista ou depois à lógica liberal-libertária.

 

UMA GENUÍNA CURIOSIDADE.

O que Eduardo Prado Coelho tinha era uma curiosidade genuína pelo mundo das ideias. Daí a capacidade de se apaixonar por elas, mas simultaneamente também a disponibilidade crítica para abrir novos capítulos e novas influências. Deste modo, foi um cultor de um pensamento plural, aberto à diversidade. Esse o balanço geral do rico percurso intelectual que assumiu e que teve diversas facetas. E se alguns salientam este ou aquele momento mais marcado por determinada opção, a verdade é que o conjunto da intervenção do ensaísta (que ele foi essencialmente) dá-nos um panorama de abertura à diversidade – e de capacidade para se pôr em causa ao descobrir novos caminhos para a sua reflexão. Quando apoiou Maria de Lourdes Pintasilgo em 1985 teve a lucidez de pôr a ênfase no que essa candidatura tinha de mais novo e enriquecedor, salientando a importância da convergência com o movimento de ideias que Mário Soares pôde suscitar e depois assumir. Fui testemunha dessa fase e sei da importância que teve esse diálogo na renovação das ideias da esquerda democrática, numa fase especialmente difícil, em que havia o risco da fragmentação. A filosofia política anglo-saxónica, a segunda esquerda francesa, a nova escola de Frankfurt punham-se em confronto e em diálogo – num momento em que F. Fukuyama e S. Huntington não poderiam ser lidos de modo simplista, já que o sistema de polaridades difusas gerado no fim da guerra-fria e na queda do muro de Berlim abria caminho a uma imprevisibilidade perigosa. Hoje sabemo-lo: «Brexit», Trump, Putin, Síria, Estado Islâmico, República Popular da China, Coreia do Norte e assim sucessivamente… E fica-nos a grande curiosidade de saber que teria dito o Eduardo perante Houellebecq no seu romance «Submissão», para além da lógica da «Espuma dos dias» de Boris Vian…

 

O DILEMA EUROPEU.

Estará a Europa condenada à fragmentação e à irrelevância? Muitos são os temas para os quais o Eduardo Prado Coelho seria, certamente, um ativo estimulador de ideias – a partir da capacidade de compreender como o diálogo do pensamento pode ser um fator de progresso e emancipação, compreendendo que nunca descobriremos uma qualquer via de reconciliação definitiva… Não esqueço que a última vez que falámos, poucos dias antes da sua morte. Disse-me que se sentia melhor e que estava disponível para continuar a animar uma iniciativa centrada na literatura… Estava otimista e parecia com uma energia renovada, eis por que razão foi um choque receber a notícia. O certo é que a última lembrança do Eduardo foi positiva, com o seu entusiasmo de sempre… Por isso, escrevi na altura um texto em que recordava «Emílio e os Detetives», uma narrativa juvenil – ciente de que a ficção era para ele uma prova de vida… Por isso, costumava lembrar as suas lágrimas de criança quando leu a descrição de Salgari da morte de Sandokan, na célebre coleção da Romano Torres, envolvendo o inconfundível português Gastão de Sequeira. Na reta final da vida assumiram uma especial importância as cartas que trocou com o Cardeal Patriarca D. José Policarpo, onde a independência de espírito, a inteligência e a compreensão do mundo estavam bem presentes. No seu diário, confessa a dificuldade da relação com o mundo da vida. Há muitas perplexidades, mas sempre a preocupação com o ter os olhos abertos perante a realidade humana: «Há uma frase que me tem seguido pela vida fora. Qualquer coisa como "não tens vida interior". Que significa? Não propriamente que me seja atribuída uma ausência de "pensamento interior" - de modo algum. Mas perpassa a suspeita de que esse pensamento se desenrola numa espécie de impessoalidade indiferente aos relevos afetivos de todos os dias. Confesso que isto me espanta, porque se alguma coisa eu sinto é que tudo aquilo que penso se modela sobre um corpo afetivo extremamente atento e vibrátil. Tudo o que seja um pensamento segregado do quotidiano me parece insignificante».    

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 21 a 27 de agosto de 2017

 

"Diário de Viagens Fora da Minha Terra" de Eugénio Lisboa (Opera Omnia, 2017) completa os imperdíveis cinco volumes das Memórias do escritor e ensaísta - «Acta est Fabula».

 

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UM LEITOR INCANSÁVEL

Depois de termos seguido a par e passo nas Memórias as deambulações ao longo da vida do escritor, do engenheiro, do diplomata, do ensaísta, do estudioso e do crítico literário, temos direito a uma interessante sobremesa, na qual contamos com a verve e o estilo do leitor incansável, que nos acompanha em encontros e caminhadas por Montevideo, Los Angeles, Peru, Viena, Budapeste, Praga, São Tomé, Havana, Paris e Marrocos. E Antonieta está presente. É como se o escritor nos convidasse para irmos com ele ao encontro de referências culturais e literárias que nos enchem de prazer e curiosidade. As recordações de Eugénio Lisboa têm a extraordinária virtude de ser genuínas e de não embrulhar em papel de presente, com flamantes laços, o que pensa sobre o que vê, lê, conhece e encontra. Daí dizer-nos, a propósito de um obituário sobre Vergílio Ferreira, que a melhor atitude perante um autor que respeitamos é dizer o que se pensa – abrangendo os claros e os escuros, as penumbras e as luminosidades, e nesse sentido elogia a prática britânica, que se revela imbatível em rigor e respeito por quem se pretende recordar. Ao começar por Montevideo, no ano de 1996, tão próximo, parece que se retrata um momento distante, talvez do neolítico, quando, com uma dose especial de ironia, o autor nos fala de pessoas que usavam, por uma questão de estatuto, telemóveis falsos. E conta que nesse tempo em Madrid num lugar público houve um incêndio, vieram os bombeiros, o vestiário ficou intacto e, surpresa das surpresas, nos casacos deixados pelos utentes, metade dos telemóveis eram falsos. Hoje, parece anedota... E lembro o que Umberto Eco afirmou, nessa altura, sobre a utilidade dos telemóveis sobretudo, dizia ele, para intriguistas e doentes crónicos... Onde já vai tudo isso... Em duas décadas, o que avançou o mundo da tecnologia e da informação... Hoje, há mais telemóveis que habitantes nas sociedades de consumo e a dependência desses bicharocos tornou-se endémica. Mas o fait-divers serve para ilustrar um seminário académico, em que Cleonice Berardinelli pontua com charme e interligência. Eugénio gostou do Uruguai – “a gente é acolhedora e simpática e as ruas parecem, por enquanto, seguras. Mas vê-se que é um país recente, a que ainda falta um bom bocado de história. (...) Mas há um ar exterior de riqueza relativamente bem distribuída e parece que a maior fatia da população é constituída pela classe média”. Também gosto do país, que é uma espécie de domínio do “portunhol”, dadas as vicissitudes históricas. E, pensando na Colónia de Sacramento, ainda há muito para fazer para valorizar esse património que tem tudo a ver com a cultura da língua portuguesa.

 

JOSÉ RÉGIO VEM À LEMBRANÇA

Em Los Angeles, José Régio vem à lembrança. A encenação de Lisistrata de Aristófanes é motivo de regozijo. “Fiquei contente. E o Régio também ficaria, se fosse vivo”. Mas sobre os excessos da criatividade interpretativa, lembra-se Yehudi Menuhin no King’s College a dizer que cada intérprete dá sempre a sua interpretação de uma partitura, mas esta só admite uma certa margem de variação... O reparo visa em cheio certas liberdades teóricas que nada têm a ver com o sentido original, para além da margem do bom senso... Entre contratempos burocráticos e contactos inteligentes, na companhia do amigo Boris Katz, um médico cheio de solicitações, o escritor encontra a afirmação de Charles Townes, especialista em Eletrónica Quântica: “Se olharmos para aquilo de que a religião se ocupa, verificamos que ela visa compreender o propósito e o significado do universo. A ciência tenta compreender funções e estruturas. Se existe algum significado, a estrutura terá muito que ver com esse significado. A longo termo, chegarão a convergir”. Mas Eugénio Lisboa fica cético e fala de especulação e de wishful thinking... O mundo do conhecimento está naturalmente cheio de dúvidas e contradições... No Peru, “pobrete e nada alegrete”, vai ao encontro da filha Geninha e família, e depara com o “país vivendo de desassossego em desassossego, até que um dia salta uma erupção qualquer, que um ditador sem escrúpulos, como Fujimori, sufocará, legislando no sentido de dar às forças de repressão imunidades que são uma vergonha”. Sente-se uma situação de incerteza e instabilidade – e na passagem por Caracas (era 2005) ainda não se sentia todo o inferno em que a Venezuela se transformou. Já a peregrinação ao Império Austro-Húngaro – a Viena, Budapeste e Praga – é singular. Apesar das pequenas desilusões culinárias, é Graham Greene, do “Terceiro Homem”, a ser recordado, como símbolo da transição após o fim da catástrofe da Segunda Guerra, que prolongou por trinta anos o inesperado conflito iniciado em Agosto de 1914. Há um fundo musical mozartiano nesta invocação vienense. Os Habsburgos, o Palácio de Belvedere, o principe Eugénio,  e compreende-se que a ponte Francisco José tenha as luzes apagadas, por contraste com a iluminação da ponte Sissi – que é venerada, “farta das peneiras austríacas, veio viver para Budapeste e não quis mais nada com os seus compatriotas, que abominava...”. Depois vem Kafka: “Habita-me a presença de Kafka que, obviamente, não cabia aqui”... Eugénio parece-se fisicamente com Kafka, já o diziam Vergílio e Régio... A inesgotável matéria-prima kafkiana poderia não ter chegado até nós... E a imersão total parisiense lembra que “foi bom ter-te conhecido, em 1953, ter-te visitado, depois, uma dúzia e meia de vezes e ter estado contigo, agora, mais uma – que será, provavelmente, a última. Que milagre ter nascido e que milagre maior ter nascido entre aquele número muito reduzido de pessoas a quem foi dado conhecer cidades e tesouros, como tu, Paris...”. E se a capital francesa é uma referência civizacional, Cuba é o lugar mítico que recorda Fidel e Che a descerem da Sierra Maestra em 1959, para pôr fim à ditadura de Fulgêncio Batista. Depois o regime começou a endurecer, a eternizar-se no poder  e a perseguir e prender os dissidentes. E com que emoção, na viagem a S. Tomé, Eugénio Lisboa fala de Isaura Carvalho, que com João Carlos Silva era a alma da deslumbrante roça de S. João dos Angolares. Deixou-nos há pouco – com uma voz lindíssima e um português que era um modelo de perfeição... As memórias tornam a vida presente...  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 14 a 20 de agosto de 2017

 

Na preparação da viagem do CNC ao Vietnam e Camboja damos conta de ecos das fontes de Diogo do Couto, Tomé Pires e Francisco Rodrigues…

 

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UMA CIVILIZAÇÃO ANTIGA

Chegou aos nossos dias, graças ao Professor Charles Boxer, um texto inédito de Diogo do Couto, onde este nos dá conta da descoberta pelo rei do Camboja, quando caçava elefantes, pelos mais espessos matos que havia em todo aquele reino, de uns edifícios magníficos que constituem as preciosidades de Angkor... Nesse texto, há um encontro emocionante de culturas, uma que se descobre a si mesma e outra que vem de longe em sua busca... Após a chegada à Índia, os portugueses cedo obtiveram informações sobre a Ásia, que antes não possuíam, compreendendo, por exemplo, que Malaca constituía o centro de atividade comercial do Índico e que o primeiro parceiro económico da região era a China. Quando os portugueses chegam às Molucas e a Cantão descobrem que a península de Sião tem maiores potencialidades do que se pensava inicialmente. Quer o «Roteiro» de Francisco Rodrigues, quer a «Suma Oriental» de Tomé Pires confirmam, porém, o relativo desinteresse pela Indochina por parte dos comerciantes por ausência de uma clara vantagem mercantil. Apesar de ser um entreposto dos chineses, Sião não vai ser considerado de início nos percursos comerciais relevantes para os portugueses. A ida de uma pequena esquadra à Baía da Cochinchina em 1523 deveu-se, assim, ao facto de se tratar de uma zona com forte influência chinesa. Fernão Peres de Andrade terá sido o primeiro a visitar a região em 1516. Duarte Coelho foi dos portugueses que mais vezes circulou junto à costa, tendo sido incumbido por Jorge de Albuquerque, Capitão de Malaca a ir explorar a enseada da Cochinchina, onde terá colocado um ou dois padrões e uma inscrição com seu nome na Ilha de Cham (Cu Lao Cham) datada de 1518, segundo informação de Fernão Mendes Pinto. Este descreve a referida costa com detalhe, incluindo dificuldades de navegação, sistema de ventos, correntes, paisagens, produções, comércio e o negócio do sal. Contudo, a instabilidade política na zona não permitirá a permanência de um contacto estável. Apesar de tudo, há algum investimento dos portugueses no estudo das rotas marítimas e da cartografia da região – o que permitirá o desenvolvimento do interesse pelas costas do Dai-Viet e o acesso dos primeiros missionários. O que acontece é que os portugueses passam a utilizar a Cochinchina para acesso ao relacionamento com o comércio das costas da China. E, deste modo, nos anos quarenta do século XVI, a Indochina torna-se, contudo, domínio da influência dos mercadores mercenários, aventureiros que agiam por sua conta, até porque a China tinha, de algum modo, renunciado a exercer o seu domínio na área. As receitas fiscais obtidas em Malaca e no comércio com a China tinham, porém, uma dimensão significativa, que tornava marginal a importância económica das trocas com a Indochina.

 

UM COMPLEXO JOGO DE XADREZ

Entretanto, os reinos de Champá e do Camboja procuram alianças que lhes proporcionem o renascimento político. Os Chams buscam apoio junto dos malaios, adversários dos portugueses, e os khmers do Camboja decidem-se, sob a influência dos nossos mercadores, a tomar contacto com Malaca e a reforçar as relações com as autoridades portuguesas (1550). A esta fase corresponde o reforço da iniciativa dos missionários. Gaspar da Cruz vai ao Camboja para pregar, mas os khmers vivem um momento de euforia, estando imbuídos pelos valores tradicionais e por um certo triunfalismo político – que afastará por um quarto de século a ação dos missionários católicos. Este contratempo religioso é, no entanto, compensado pela concessão feita pelos chineses do entreposto de Macau, que pemite o reforço do interesse político-económico relativamente à Indochina Meridional – já não na dependência de Malaca, mas na esfera chinesa, com a vantagem de não sofrer influência muçulmana. Apesar da conjuntura desfavorável, com perda de importância de Sião, conquista de Ayutuia pelos birmaneses (1569) e fechamento do Camboja às rotas do mar da China, os khmers vão jogar alternadamente, consoante as circunstâncias, com os mercadores chineses, portugueses, chams, japoneses e malaios. E uma nova oportunidade parece surgir quando em Dai-Viet surge a pretensão autonomista das províncias do sul, através do Senhorio de Nguyens. Com a crise dinástica portuguesa e a monarquia dual (1580), há uma convergência de interesses ibéricos, Manila precisa de apoio na Baixa Indochina e urge uma coordenação peninsular na política do Sueste Asiático. Momentaneamente, há uma aproximação com Sião contra a influência holandesa, mas falta aos portugueses apoio e autoridade políticos, prevalecendo apenas a lógica dos mercadores e mercenários. A pouco-e-pouco, as rivalidades dos clãs cambojanos tornam difícil o controlo da situação pelos portugueses – cabendo a Sião o domínio no Camboja. Errando estrategicamente, surdos aos apelos de Sião, os portugueses irão perder uma após outra as suas posições na Indochina, com declínio inexorável das trocas entre a Cochinchina e os portugueses de Macau.

 

UMA NOVA ATENÇÃO…

Depois do Édito de expulsão dos missionários do Japão (1614) e da saída compulsiva dos portugueses (1639), os jesuítas de Macau reorientam-se para a Indochina, com alguns cristãos japoneses. É o tempo das missões no Senhorio dos Nguyens (1615) e no Camboja (1616). O rei cambojano procura, assim, contrariar a influência siamesa. Os portugueses procuram aproveitar-se desta oportunidade, jogando com os conflitos locais no Champa e em Tonquim. Mas o peso crescente dos holandeses inquieta os tailandeses, o que os leva a virarem-se claramente para os portugueses, designadamente quanto ao armamento, em especial no aprovisionamento de canhões. Mas a presença portuguesa é limitada e reduzida a comerciantes sem poder económico. O isolamento japonês parece favorecer os portugueses, mas as condições económicas são muito precárias. E os holandeses não cessam de ganhar influência. Os missionários portugueses dão lugar aos franceses e à Propaganda Fide – e mesmo a influência de Macau perde-se, enquanto Malaca deixa de ser praça portuguesa (1641), e reduz-se drasticamente o peso dos portugueses no Camboja e no Senhorio dos Nguyens... É certo que até meados do século XVII a presença portuguesa na Indochina permanece, quase exclusivamente ligada a Macau; mas os mercadores e as comunidades mestiças asseguram uma influência limitada e assente no papel individual dos portugueses, com determinadas especialidades técnicas (por exemplo, quanto ao armamento), mas confundindo-se, paradoxalmente, com os holandeses. Apesar de tudo, o balanço do relacionamento entre os portugueses e os antepassados dos vietnamitas é positivo. A imagem dos portugueses era identificada com a expressão «casa da vinha» (Bò Dào Nha) – correspondente a um país que nunca declarou a guerra, que transmitiu novos conceitos e ensinamentos e que abriu bons negócios, tendo o Padre Francisco de Pina (1585?-1625) tido um papel pioneiro na divulgação e estudo da língua anamita, antecipando o célebre dicionário de Gaspar Amaral. Quando Marguerite Duras nos dá o seu «Indochina, meu Amor...» - vamos aos confins da história e compreendemos como as diferenças e os mistérios nos enriquecem!

 

 Guilherme d'Oliveira Martins

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 7 a 13 de agosto de 2017.

 

Em Caminhos e Destinos – A Memória dos Outros – II – Ensaios e Crónicas (D. Quixote, 2017), Marcello Duarte Mathias dá-nos um conjunto multifacetado de reflexões, que nos obrigam a conceder especial atenção ao mundo contemporâneo.

 

LEMBRAR UM EPISÓDIO INQUIETANTE
Dei-me a perguntar, ao ler Marcello Duarte Mathias sobre Aldo Moro, como foi possível esquecer-se tão rapidamente esse episódio tremendo da recente história italiana. Para a minha geração, esse assassinato, entre o previsível e o inesperado, constituiu um motivo muito sério de reflexão e de dúvida. E o certo é que as cartas escritas nesse ignóbil cárcere correspondem à interrogação suprema sobre as situações limite entre a violência e o absurdo. E ainda hoje, quando nos lembramos, “renasce a controvérsia, nunca verdadeiramente extinta, sobre as responsabilidades políticas e morais imputáveis pelo seu assassínio, até porque muitos pontos continuam por esclarecer”. Para as Brigadas Vermelhas, Moro pagava com a vida pelo “compromisso histórico” que defendia, abrindo as portas ao eurocomunismo de Berlinguer – e assim “personificava, talvez melhor que ninguém, o espírito reformista que todo o bom revolucionário abomina”. As cartas dessa prisão são impressionantes e deixam-nos cheios de pensamentos contraditórios. Leonardo Sciascia considerou que o cativeiro terá libertado a vítima dos constrangimentos político-partidários… Nunca se saberá o que ocorreu verdadeiramente. Moro insiste para que procedam à sua libertação em troca dos elementos das Brigadas presos… Indubitavelmente, o que há é o drama de uma violência cega. Só um terço da correspondência chegará, no entanto, aos seus destinatários, o que é um pormenor macabro. Mas notamos a “sobriedade do tom”, a “ternura e o afeto” para com os seus, a insistência na coerência do caminho político antes traçado, a lucidez perante o inexorável desenlace previsto, e “a fé religiosa que nunca o abandona e à qual se entrega sem reservas”. Hoje o terrorismo mudou de feição, mas mantém o mesmo ódio à humanidade. “O seu rosto multiplicou-se, atuando agora à escala planetária”. Aldo Moro é o “símbolo e uma peça da engrenagem”, que acaba a pagar “por aqueles seus correligionários que o deixarão morrer, vítima afinal – supremo paradoxo – de um equívoco. O espírito de conciliação face à cegueira sectária”. O retorno do trágico não é aqui uma figura de estilo ou uma questão de voga intelectual… E os dias de hoje continuam a reservar-nos um estranho espaço ocupado pelo esquecimento ou pela desatenção relativamente a Aldo Moro, ao seu testemunho, à sua vida e à sua tragédia.

 

MEMORIALISTA DE PRIMEIRA ÁGUA
Se comecei pelo texto sobre Aldo Moro, fi-lo uma vez que constitui uma espécie de pedra angular nesta obra, onde o autor afirma, mais uma vez, as qualidades de analista atento aos acontecimentos e às pessoas. Diarista e memorialista de primeira água, entre nós como quase ninguém mais, o escritor manifesta nos textos ora reunidos o domínio indiscutível do ensaio. Assim se entende a admiração que nutre por Michel de Montaigne, de quem fala a propósito de um precioso “essencial” de Clara Rocha, aludindo aos Ensaios como livro de referência: “Nele o autor se descreve, dele se emancipa, para nele se voltar a encontrar – inesgotável deambulação à volta de si mesmo”. E há ainda a omnipresença tutelar de Camus. “Não há justiça, mas há limites”. E fica bem clara a opção perante a distância assinalada por Vergílio Ferreira entre Sartre e Camus: “o que separa um do outro é o caminho que vai do niilismo à tentativa de o superar”. E os textos entrelaçam-se, dando motivos de diversão, para citar Auberon Waugh, mas mais do que isso, de compreensão e de conhecimento, no sentido da “co-naissance” de Claudel. É a “segurança de tom que nasce do classicismo da forma e da singularidade da sensibilidade, sempre tão à flor da emoção” de que Sophia de Mello Breyner é exemplo sublime. E lembra-se António Tabucchi a dizer: “no fundo, creio que ao escrever, mais não faço do que uma espécie de autoanálise. Deste ponto de vista, os meus livros seriam outras tantas etapas de uma reflexão sobre mim mesmo que, naturalmente, se oculta evocando outras coisas”…

 

FALANDO DE DIPLOMACIA...
Falando, de Diplomacia, de que o escritor é exímio conhecedor e praticante, deparamo-nos com o retrato (hoje oportuníssimo) de Arthur Schelinger, que «representou à sua maneira o que de melhor existe no escol americano: o patriotismo, a firmeza de convicções, o entusiasmo criativo, o gosto da descoberta e da partilha, a tolerância de espírito, numa palavra, a “decência” no sentido britânico do termo, esse misto de retidão, de compostura e seriedade intelectual». No entanto, nesta matéria, para além deste perfil ático e exemplar, encontramos, depois de uma descrição cheia de humor da querida Carreira (diplomática, já se vê), o relato de uma sessão formativa para jovens adidos, em que o autor se exime a dar pequenos conselhos óbvios para aspirantes a diplomatas, com receio de ser excessivo. Mas não resistimos a lembrar o que ficou por dizer sobre esses princípios básicos que devem reger as relações entre Estados: a regra de ouro – cada país conta consigo mesmo; cada país deve todos os dias aprender a contar, sempre e somente, consigo mesmo; e um país poderá eventualmente, a título excecional, contar com os outros, desde que estes saibam que ele conta consigo e que, nessa medida, terão também de se haver com ele, naturalmente, evitando subordinações. Daí que, para o diplomata, às vezes, o que impede que aconteça, seja mais importante do que aquilo que obtém… Devo lembrar, aliás, o imprescindível texto sobre a Diplomacia e a Geração de 70, essencial para se compreender tudo desse tempo – ou seja, Portugal e a Guerra Franco-Prussiana, a Conferência de Berlim, o Mapa Cor-de-Rosa, o Ultimato, os Tratados Luso-Britânico (1891) e de Windsor (1899) até à Grande Guerra – com uma preciosa adenda, de que beneficiará a edição do Dicionário, que espera ver a luz do dia em breve. Sobre o livro de Bernardo Futscher Pereira A Diplomacia de Salazar (1932-1949), o autor lembra o que um conhecido historiador disse: “A História não se aprende, compreende-se”, referindo o equilíbrio da análise desses tempos complexos da nossa diplomacia sem a preocupação de ser bom aluno de alguém… E invoco ainda a recordação de António Pinto da França, em Angola, e a interessante correspondência entre Saint-John Perse e Calouste Gulbenkian, organizada por Vasco Graça Moura, onde o mecenas alude a Lisboa com a sua “beleza serena e tão comovente” e à amizade com o seu interlocutor como “comunidade de sentimentos assaz excecional e muito preciosa”. Ao lermos e relermos, com grande prazer, este livro de Marcello Duarte Mathias, em que, a cada passo, nos interpela para que a liberdade e a fidelidade não sejam palavras vãs, fica-nos, de novo, a lembrança de Camus: “Conservar no coração a lembrança de um mar feliz, de uma colina inesquecível, o sorriso de um rosto querido”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 

De 31 de julho a 6 de agosto de 2017.

 

“As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos” de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.

 

A CIRCULAÇÃO DE CONHECIMENTOS E HÁBITOS
Se o pequeno livro de Alfredo Margarido contém um conjunto notável de informações sobre os movimentos de influência mútua entre culturas gerados pela primeira globalização, a verdade é que podemos descobrir aí as origens de hábitos alimentares que os nossos antepassados antes do período dos descobrimentos não poderiam sequer suspeitar ou sonhar. E à obra que hoje trazemos, devemos associar outro precioso pequeno volume acabado de sair, graças à Biblioteca Nacional de Portugal, o guia da exposição a propósito dos 450 anos da publicação do “Colóquio dos Simples, e Drogas he cousas medicinais da Índia” de Garcia de Orta (2013) da autoria de João José Alves Dias – “Antes de Lineu – O Mundo das Plantas nas Coleções de Impressos da BNP” (Lisboa, 2017). Aí se afirma que pode dizer-se que no mundo científico assim como há um momento crucial representado pela obra de Carlos Lineu (1707-1778), o mesmo se pode dizer do português Garcia de Orta (1501-1568) – pelo caracter inovador da sua investigação e pelo pioneirismo do seu método. Começando pela ilustração que apresentamos, importa explicar que o quadro da autoria de Josefa de Óbidos mostra a extraordinária banalização do açúcar na vida portuguesa, durante o século XVII, que precede a grande voga europeia dos séculos seguintes, por contraste com o que ocorria anteriormente – o mel mais raro dá lugar ao açúcar, como o Infante antecipara no Algarve. Pode dizer-se, aliás, que o açúcar constitui uma das marcas do barroco português e brasileiro – lembrando-nos bem do poema ao “Menino Deus em metáfora de doce”… Perante mudanças profundas ditadas pela primeira globalização, João de Barros falou do comércio como uma ciência, afirmando-se o Renascimento sob o influxo da expansão, com “novas experiências e conhecimentos, novas formas e novos gostos”. “A paisagem modifica-se substancialmente devido à introdução de novas plantas, sobretudo americanas, tal como se alteram os jardins que mandados construir por «novos-ricos», cuja fortuna provinha do novo comércio internacional, rompiam com a velha ordem botânica da Idade Média”. De facto, “a modernidade começou a elaborar-se no momento em que os homens decidiram modificar a natureza em função dos seus interesses, alargados estes à escala intercontinental. Ou seja, a ecologia-mundo é a consequência direta e inelutável da nova leitura do mundo a que procedem os europeus: o conhecimento permite reforçar e alargar o económico, o que implica a construção de novas formas de relações humanas. (…) A ecologia-mundo permite a estruturação da economia-mundo, do que não pode deixar de resultar um homem novo, potencial cidadão do mundo” – afirma Alfredo Margarido. “Organizar e banalizar o conhecimento, eis a tarefa principal dos portugueses. Não há hoje paisagem que não conserve um traço, mesmo mínimo, das alterações introduzidas pela atividade portuguesa”.

 

UM PERCURSO APAIXONANTE
O percurso desde as plantas medievais até às plantas da modernidade é apaixonante. Em Porto Santo, os portugueses encontram o dragoeiro. Luigi de Ca da Mosto, em Cabo Verde, fala do encontro do trigo e da cevada com “o sangue de drago, que nasce em algumas árvores (…). A dita árvore produz certo fruto que está maduro no mês de Março, e é muito bom para comer; assemelha-se às cerejas, mas é amarelo”. Gil Eanes, depois de passar o Bojador, traz ao Infante D. Henrique, demonstrando que a terra não é tão estéril como as gentes diziam, um barril cheio de terra com umas ervas que se pareciam com outras a que chamam rosas de Santa Maria… Na Madeira, Cabo Verde e S. Tomé inicia-se a produção industrial da cana-de-açúcar, o que determina uma verdadeira revolução. Apesar da destruição de muitas espécies autóctones madeirenses, a Laurissilva consegue ser mantida… A descoberta da malagueta constitui uma extraordinária surpresa (“no gosto é tão forte que uma onça faz o efeito de meia libra de pimenta comum”). Afinal, em África havia especiarias cuja qualidade ombreava com o comércio da Índia… Os exemplos das boas surpresas multiplicam-se: as bananas são comparadas aos figos, a cola é muito estimada como boa mercadoria (mas não entusiasma os europeus), o azeite e o vinho de palma surpreendem pela multiplicidade de usos oferecidos pelos produtos da palmeira dendém… “Lisboa parece ser das primeiras cidades a receber e a adotar uma parte substancial das plantas que marinheiros, cientistas ou comerciantes vão encontrando pelo caminho”. Mas é a chegada ao Oriente que introduz novos e muito significativos fatores, apesar da desconfiança expressa por Gil Vicente, Sá de Miranda ou Garcia de Resende sobre o “cheiro a canela” que levaria o reino a despovoar-se… A transferência das plantas orientais para África, Reino e Brasil irá produzir a verdadeira alteração, que caracterizará a nova economia-mundo. E neste ponto a perspetiva científica é a de Garcia de Orta. Das explicações fantasiosas passa-se às análises rigorosas, no terreno, com conhecimento de causa. Em lugar da mitificação de Heródoto e contra mil fingimentos adotados pelos tradicionais intermediários, para aumentar o preço da mercadoria, havia que usar o rigor do conhecimento. “A lenta, mas constante eliminação dos mitos e das imprecisões, permitiu aos portugueses concluir que a canela fina, verdadeira, só se produz em Ceilão”. O novo método de Garcia de Orta exigia ver, desenhar e conhecer as plantas – no que o médico será seguido por Cristóvão da Costa, ilustrador exímio. Em lugar de analogias fantasiosas, importaria reproduzir exatamente as realidades até então desconhecidas pelos europeus. Os exemplos são curiosos e as plantas não servem para unir, mas para dissociar culturas: as folhas de betel serviam para mascar (mas não caíram no gosto dos portugueses); o coco ganhará fama por dar muitas cousas necessárias à vida humana, sendo assim batizado porque parecia o rosto do bugio ou de outro animal e fazia medo às crianças; a noz moscada e o cravinho – que se cultivavam nas cinco ilhas de Maluquo (Pachel, Moreu, Machiam, Tidore e Ternate) tinham grande procura - “aqui vem cada ano muitas naus de Malaca e de Java carregar”.

 

A ECONOMIA LIGADA À CIÊNCIA
“Dada a maneira como se organizou a informação portuguesa, encontramos constantemente em Garcia de Orta o contraponto científico de Duarte Barbosa: o médico retoma os materiais do marinheiro, e é por isso forçado a confirmar as informações recolhidas por Barbosa”. A bananeira continua a ser designada no vulgo como figueira-da-Índia, mas Orta já fala de banana e indica-lhe finalidades culinárias e terapêuticas. Sobre o sagu, há resistências europeias, a ponto do Padre Francisco Vieira, preso em Ternate, recusar durante trinta dias o sagu que lhe apresentam por ser comida de negro, preferindo pão e vinho. São ainda referidas as mangas (que Orta cultivava), os duriões, as líxias, as jacas e as carambolas… Sobre o chá (tendo os portugueses adotado a pronúncia de Cantão, enquanto outros europeus deram preferência ao vocábulo malaio t’e) fica um mistério, pois não encontramos descrição da planta, mas sim da bebida. Só Wenceslau de Morais, já próximo de nós, se ocupará em pormenor da planta e do ritual. E resta a América, que surpreendeu Colombo por este desconhecer tudo o que encontrava. Não podia antecipar a riqueza que o novo continente albergava. Álvares Cabral e os seus apenas identificam as palmeiras. Pero Magalhães Gândavo diz-nos: “O que lá se come em lugar de pão é farinha de pau. Esta se faz da raiz d’uma planta que se chama mandioca, a qual é como inhame…”. A mandioca, a banana-pão, a batata doce, o amendoim, o caju, grande variedade de feijões, o milho, e uma grande riqueza de frutos, como o ananás. É um mundo inesgotável. A melhor planta que corresponde ao chá do Oriente, é, na América do Sul, o tabaco. E foi de Lisboa que o embaixador Jean Nicot levou a planta do tabaco para Paris, celebrizando-a… É notável como plantas vindas de outros lugares se tornam mais férteis em novas situações… Inesgotável viagem, quando o diálogo entre a cultura e a natureza se torna tão fecundo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 24 a 30 de julho de 2017.

 

A Exposição “Tudo se Desmorona. Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal”, na Fundação Calouste Gulbenkian, comissariada por Ana Vasconcelos, Carlos Silveira e Pedro Aires de Oliveira, constitui uma oportunidade para lembrar (tal como acontece em Londres) um momento dramático e decisivo na História europeia do século XX.

 

UMA POLÉMICA INTENSA
“A grande verdade, pelo que diz respeito ao progresso da Humanidade, é que existe um horrível tumor militarista corroendo a Europa e que vários operadores se preparam para o extirpar. Qual será o resultado da operação? Esperemos; mas julgamos bem que, por muitos estragos operados, a Humanidade sofrerá ainda longo tempo desse horrível mal”. É Jaime Cortesão quem o escreve, quando a Grande Guerra dava os seus primeiros passos – em 10 de agosto de 1914. A lucidez das palavras é profética. Ninguém esperava que tudo se precipitasse, mas havia razões profundas para a eclosão do desastre. Muitos julgavam que a guerra seria rápida, depois de pensar que era impossível, até porque o Kaiser Guilherme II era neto da Rainha Vitória e porque se pensava que os proletários mobilizados para a frente recusar-se-iam a combater quando os respetivos Estados-Maiores dessem ordem para atacar. Perante tais circunstâncias, é fácil de perceber como a sociedade portuguesa se dividiu quanto a saber se deveríamos ou não participar na guerra. É este o tema da Exposição “Tudo se Desmorona. Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal”, na Fundação Calouste Gulbenkian, comissariada por Ana Vasconcelos, Carlos Silveira e Pedro Aires de Oliveira. E a oportunidade do tema não oferece dúvidas. Lembra-se a guerra em nome da cultura e da paz. Houve polémica intensa entre nós. Jaime Cortesão e Raul Proença defenderam a intervenção. Pascoaes disse: “a hora é magnífica (…). Se formos para a guerra, mostraremos ao mundo que estamos prontos a morrer pela pátria (…) e Portugal criará novas raízes na História”. No entanto, António Sérgio e Aquilino Ribeiro tinham entendimento diverso, já que a prevalência dos fatores económicos dominantes tornaria os benefícios ilusórios. No “Portugal Futurista”, Álvaro de Campos assumiu uma violenta posição antiguerra, com laivos germanófilos. Em contraste, na mesma revista (proibida pela censura), Almada Negreiros considerava a guerra como “a grande experiência” regeneradora da pátria futura. Em pano de fundo, havia o panorama negro traçado por Raul Brandão em Húmus: “Na barafunda da Europa ardem aqui e ali cidades inteiras. Um brasido e gritos”. E os ecos nas Memórias – Vale de Josafat eram igualmente pesados: “Foi a morte que se aproximou de repente de nós todos, dos desgraçados e dos outros e nos pôs o problema da vida como uma faca apontada aos peitos. A morte passou para o primeiro plano”.

 

UM REGIME MUITO FRÁGIL
A República era muito jovem e as instituições não estavam estabilizadas. A polémica era melindrosa. O eco popular das campanhas intervencionistas foi diminuto. De facto, não havia condições para uma resposta eficaz e, mais do que o teatro europeu, havia África – a lembrança do velho Ultimatum inglês de 1890 não se tinha apagado, havendo obrigações nacionais, que as ambições alemãs punham em xeque no norte de Moçambique e no sul de Angola. Esse apelo africano tornou-se natural, mas Basílio Teles dizia: “A desilusão, a fadiga, o sofrimento e o mal-estar de todo o mundo acabarão breve por fazer ouvir a sua voz retumbante e imperiosa; e os partidos da guerra, por lhe obedecer sem murmurar, pondo por uma vez ponto na pavorosa chacina”… A pergunta sacramental era: seria necessária a participação portuguesa na frente europeia para salvaguardar em futuras negociações de paz a manutenção dos nossos territórios? Não tinham tido Londres e Berlim, em 1898 e em 1912-13, a tentação de partilhar os despojos de um desmembramento do império africano português? Apesar de tudo, a situação no sul de Angola estava estabilizada, com a rendição das forças alemãs em 1915, ao contrário do que ocorria no norte de Moçambique. Foram, todavia, os ingleses que deram pretexto para a declaração de guerra alemã de março de 1916 ao instarem os portugueses a apresarem os navios alemães estacionados em portos portugueses. Mas os britânicos conheciam bem as nossas fragilidades. Se se falou do “milagre de Tancos”, pela preparação rápida do Corpo Expedicionário Português, o certo é que o desastre de La Lys (9.4.18) tornou-se um novo Alcácer-Quibir. Afonso Costa procurou fazer da guerra um fator de unificação interna que fortalecesse a República, mas a frente doméstica acabaria em colapso com o golpe e o assassinato de Sidónio Pais. O complexo contexto em que se desenvolveram os acontecimentos portugueses ligados à I Grande Guerra foi analisado no Colóquio Internacional intitulado significativamente “Ninguém Sabe que Coisa Quer – A Grande Guerra e a crise dos cânones culturais portugueses”, comissariado por António José Telo. De facto, os argumentos invocados na altura anulavam-se mutuamente, quanto às origens e às possíveis consequências do trágico conflito, que se tornaria origem de uma nova Guerra dos Trinta Anos, que só terminaria em 1945.

 

UMA ARRISCADA PARTICIPAÇÃO
Para o bem e para o mal, Portugal seria profundamente marcado por essa arriscada participação. A crise da I República, as práticas e as representações que marcaram a sociedade e a cultura, os temas religioso e social, a génese da ditadura e do Estado Novo, a questão colonial, o papel de Portugal no mapa geoestratégico, a memória presente até 1974 e decisiva para a prevenção e para a consolidação do regime democrático atual – tudo esteve bem evidente numa reflexão atual e pertinente, em que o tema da Guerra (como acontece em Londres no Imperial War Museum – agora a comemorar cem anos) constitui ponto de partida para uma reflexão histórica e estratégica sobre um conceito aberto e partilhado de identidade cultural, que se revela atualíssimo, sobretudo quando falamos das legitimidades nacional, supranacional e cidadã – num mundo em que o local e o global se confrontam e articulam contraditoriamente. Na conferência proferida pelo Cardeal Patriarca, D. Manuel Clemente, foi lembrada a proposta feita pelo Papa Bento XV aos governo beligerantes em 1 de agosto de 1917, para acabar com a “inútil carnificina”: a) desarmamento simultâneo e recíproco; b) arbitragem internacional; c) liberdade dos mares: renúncia recíproca a indemnizações de guerra; e) reexame conciliador das reivindicações territoriais. Ninguém ouviu. Pelo contrário, as potências consideraram excessiva a referência à carnificina. Mas a sensibilidade “politicante” (diferente da atitude “zelante”) de Bento XV foi importante para Portugal e para a acalmação na questão religiosa (até com a beatificação de Nuno Álvares, em 1918), quer através do papel muito importante dos capelães militares na Guerra, quer pelas consequências duráveis da concordata informal, do modus vivendi de 1919, do apoio às missões católicas. Jaime Cortesão diria em julho de 1920: “Vem aí a vida nova. Quem não o sente? Mas quem a conhece de antemão?! Sabe-se apenas que as suas mais altas esperanças mergulham as raízes nesses milhões de sepulturas. Os túmulos dos soldados da grande guerra sãos caboucos donde o palácio do futuro vai erguer-se”.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 17 a 23 de julho de 2017.

 

«Ensaios & Artigos (1951-2007)» de Agustina Bessa-Luís (3 volumes, Gulbenkian, 2016), com recolha e organização de Lourença Baldaque e prefácio de José António Saraiva, constitui um reportório de textos que acompanham, e como que ilustram, o riquíssimo percurso da marcante romancista.

 

UMA EXTRAORDINÁRIA REUNIÃO
Contos, crónicas de viagem, referências ao Porto, textos históricos, crítica literária e artística, intervenção política, jornalismo, comentários de atualidade – eis o que encontramos em três deliciosos e substanciosos volumes, nos quais Agustina Bessa-Luís se expõe plenamente, revelando segredos da sua extraordinária oficina de escrita. Dir-se-ia que ao lermos esta reunião podemos visitar os bastidores de um magnífico teatro. E esse teatro é, nem mais nem menos, do que o lugar por excelência de representação da obra romanesca da escritora. A título de exemplo, encontramos num texto escrito no «Diário Popular» em 1968, referência à revista «Águia», órgão da Renascença Portuguesa, cujo diretor literário foi Teixeira de Pascoaes. Aí se afirma, com razão, que a Renascença «representou decerto o movimento mais importante da nossa vida intelectual». De facto, tratou-se de um alfobre único, que fez convergir as repercussões da decadência finissecular e as aspirações de um novo tempo e de um novo século. O que aconteceu foi que nesse momento crucial, a expectativa que a I República representou pôde ultrapassar a mera circunstância política, projetando-se em todo o século XX, na preparação de uma democracia que renasceu tardia, mas que pôde alimentar-se, desde as raízes culturais mais antigas, que vão dos trovadores ao grande lirismo de Camões ou à oratória de Vieira até à força criadora do Romantismo de Garrett e Herculano, do vitalismo das raízes de Camilo ou de Júlio Dinis, da ambição antifatalista da Geração de 1870, de Antero ou de Eça, e da renovação artística do simbolismo. E que foi a Renascença Portuguesa senão o ponto de encontro de Pascoaes, Leonardo, Cortesão, Sérgio e Pessoa? Toda a pujança de um século que o tempo foi enriquecendo – donde sairia da Seara Nova ao Orpheu. Para a nossa autora, «a Renascença foi a breve epopeia de espírito de alguns homens movidos por ideias sentimento e que, de repente, instauraram a noção de pátria além do vago consenso quotidiano». Numa fórmula muito própria de Agustina - «a pátria faz-se penumbra de todos, e não apenas teatro de alguns». E foi essa penumbra que se tornou desafio, pela insatisfação e pelo apelo à inquietude e ao «desassossego»: «não para dar a conhecer insubmissos mistérios da alma, mas para contar o segredo antiquíssimo da pátria». E é esta a chave que atrai a escritora, ciente de que essa ânsia de Renascença ocupa o espaço que para os liberais decimonónicos era a Regeneração.

 

COMPREENDER A SOCIEDADE CONCRETA
Contra os lugares comuns, do que se trata é de tentar compreender a sociedade feita de pessoas de carne e osso com destinos contraditórios, em que as complexas relações de influência e de poder pesam permanentemente. A sua escrita intensa e laboriosamente construída como uma renda de bilros – procura dar-nos um retrato fiel de uma grande complexidade escondida por trás de aparente placidez. E assim o português «troca-se em homem sensato quando esperam dele loucuras». O saudosismo torna-se, deste modo, contraditório - «apontem-se glórias a decidir, optará pelo papel dos que não foram célebres nem lutadores; reservem-lhe alianças poderosas, sentirá necessidade de se distrair delas». O português é contraditório por natureza. E assim Agustina define-o: «Hábil, certo, elementar, terrível, é este recriar das brumas, iludindo a agressão, esperando sem desejar, tendo esperança sem planos, coragem sem abismos, causa sem ordem, influência sem poder, alma sem cruz. Renasce já em cinzas, mas renasce sempre». Identificamo-nos com este retrato? O certo é que é este o tecido humano, a matéria-prima da romancista de «A Sibila»… E a ilustração é dada, neste significativo texto, por uma carta de Camilo Castelo Branco, sombra sempre tão presente na reflexão agustiniana. Aí o romancista é apresentado como português paradigmático – dizendo nessa missiva que vai inscrever-se em Teologia na Universidade de Coimbra, mas pondo-se em posição para sustentar uma polémica. «Nas suas palavras anda um voo de vespas, da mistura com aves que delas se nutrem». É o gosto da contradição que se manifesta. Se virmos bem em Agustina também encontramos essa permanente tensão entre o desejo e a resistência, entre o prazer e a repulsa. E fala Camilo de «tristes convicções», de que «fica proveito descontente» - e são tristes porque se «limitam a julgar, mais do que a crer». São ecos quase autobiográficos em que os romancistas se encontram. As águias voam baixo e por isso sobrevivem. Mas a audácia exige mais. É o instinto que sempre prevalece. E as grandes gestas geram grandes culpas, com consequente desejo de reconstruir o passado. «O nosso saudosismo não é amor do passado, é só consentimento da sua força. E no consentimento o aplacamos». Compreende-se a ideia de renascimento, como desejo e lembrança, decorrentes das contradições, de que o universo romanesco da escritora se alimenta. E sobre Camilo (ou, em boa verdade, sobre o romance português) diz, num ensaio em «O Tempo e o Modo» (1964), sobre uma experiência partilhada com José Régio, algo que tem a ver com a proximidade que Agustina sente do bruxo de Seide: «Dos seus livros, alguns há que sempre me causam admiração; a frescura da sua prosa é inimitável, o seu humor, como uma rajada fulgurante traz consigo, porém, aquela reticência nostálgica que um português de boa lei sempre faz acompanhar, quer dos seus juízos graves, quer das confissões líricas. (…) A ironia e a versatilidade, o prazer iconoclasta logo redimido por uma afabilidade pelos humilhados, vão direitos a certa culpabilidade congénita no português». Mais do que ideias, do que se trata é de entender o género humano e de descobrir nele todas as fascinantes contradições que nos permitem compreender a vida como um drama, mas sempre cheia de uma estranha ironia. Um dia apontaram a Agustina algumas aparentes contradições que se apresentam nas suas obras. Prontamente respondeu: E a vida não está cheia de incoerências? O interlocutor ficou sem palavras… Em suma, lembremo-nos apenas do que Agustina disse da Cultura (e não das honras e reputações): «O fenómeno cultural parte da renúncia aos “caminhos bifurcados que se dirigem para norte ou para sul”, como dizia um letrado chinês, o seu mérito está em não ser interrogável de maneira vã. A cultura só existe quando um povo a resumiu num traço de ódio ou de humor». Nestes ensaios e artigos é a fecunda ficcionista que se exprime e manifesta – e nela a criatividade vai ao encontro da humanidade e da sua inesperada complexidade. O génio de Agustina está exatamente nessa capacidade de ir ao âmago da alma humana.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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