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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 29 de maio a 4 de junho de 2017.

 

«José de Almada Negreiros – Uma Maneira de Ser Moderno», o catálogo da exposição comissariada por Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos (Gulbenkian, 2017) constitui um repositório fundamental para a compreensão do modernismo português e do lugar que nele desempenhou o autor de «Invenção do Dia Claro» ao lado de Fernando Pessoa e da geração de Orpheu.

 

PERSONALIDADE MULTIFACETADA
José de Almada Negreiros é uma personalidade complexa e multifacetada que não pode ser compreendida nem através de interpretações conjunturais nem de simplificações anacrónicas. A sua vida e o seu tempo foram plenos de contradições que devem ser encarados com uma prudente distância que permita usar o rigor da análise e o entendimento relativo dos compromissos. A história portuguesa do início do século XX foi demasiado carregada de fatores paradoxais, correspondentes a uma tensão evidente entre a situação de um país periférico e as aspirações de um escol urbano que estava em contacto com a evolução da Europa culta. E não podemos esquecer que também nesse campo aberto ao exterior havia o confronto entre aqueles que assumiam uma perspetiva aberta e cosmopolita e os que, em consonância com a hipervalorização dos nacionalismos, punham a tónica na lógica identitária… Antero de Quental e a sua geração, na sequência dos grandes românticos, como Garrett e Herculano, já prenunciara, na célebre conferência sobre as Causas da Decadência, profeticamente, a necessidade de haver um sobreaviso relativamente às simplificações cosmopolitas e identitárias. Muito do debate do bom senso e do bom gosto está nas conferências de Almada Negreiros e na escolha de um símbolo, Dantas, como noutro tempo fora escolhido Castilho. E a verdade é que a geração de «Orpheu» representa uma encruzilhada onde, naturalmente, encontramos todas as contradições, que conduzem tantas vezes à desvalorização ou à hipervalorização do significado criador desses artistas.

 

O ÚNICO AUTÊNTICO MODERNISTA
Eduardo Lourenço fala de Almada como o “único autêntico modernista em sentido estrito de sintonizado com o vanguardismo (ou sucessivos vanguardismos) da época”. E sobre Fernando Pessoa, salienta, ao invés do delírio, a “consciência das insolúveis contradições do mundo moderno e da mesma modernidade, porventura até, rejeição do seu próprio espírito”… (Cf. O Labirinto da Saudade). Se virmos o percurso de Almada compreendemos que esse gosto absoluto da novidade o leva a crer, menos na lógica dos sistemas, e mais na força da criação. Nesse sentido, quis ser ele mesmo, permanentemente interrogante, ávido da busca. “Os sistemas e os programas servem para conduzir e jamais para criar”. Quem, por isso, suscita a hipótese de se estar perante um artista do regime, deve dizer-se que, para além do seu pensamento político, não deve esquecer-se a ideia de autonomia da arte que defendeu e que Gustavo Rubim refere a propósito de um texto importante publicado nos cadernos “SW - Sudoeste” (nº2, 1935): “A Arte não pode viver antes de criar a sua própria autoridade de autonomia dentro da coletividade”. Contudo o artista é o primeiro a reconhecer que essa capacidade criadora tem “dias melhores e outros piores”. Em 1945, com Fernando Amado no Centro Nacional de Cultura insiste, aliás, nessa ideia de autonomia do artista na sociedade. Eis por que razão há sempre uma luta na capacidade criadora – e essa luta obriga a uma exigente demanda. Dêem-se dois exemplos: o dos painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos (1945-48) e o da obra “Começar” na Fundação Calouste Gulbenkian (1968-69). Estamos perante duas abordagens bem diferentes, mas que representam facetas complementares da mesma atitude. Hoje sorrimos perante o relato das pressões exercidas por aqueles que consideraram esses painéis perigosos, não só pela eventual influência de Portinari, mas também pelos temas dos saltimbancos e da emigração, supostamente inconvenientes para receber visitantes estrangeiros. E foi a intervenção de João Couto, diretor do Museu de Arte Antiga, que poderá ter evitado (quem sabe?) a destruição dos painéis. A verdade, porém, é que estamos diante de obras-primas da pintura portuguesa de sempre, que Almada considerou como as mais próximas da sua própria capacidade criadora, “pinturas da nossa solidão”, onde o sentido criador assume plenamente a autonomia da Arte que o artista defendia. Se o cubismo se faz sentir inequivocamente, há também a procura de alternativas no domínio do espaço pela geometria. Na composição “Começar” temos uma verdadeira síntese de vida e de incessante pesquisa, dando continuidade à tapeçaria “O Número” executada para o Tribunal de Contas (1958). Há uma procura do cânone geométrico e simbólico, que “não está exclusivamente nos exemplos da Idade Média, não está só nos exemplos da Suméria, não está só nos de Creta, Gregos, Bizantinos, Árabes, Hebraicos, Romanos ou Góticos. Ele está sempre e é por isso mesmo que ele é cânone. E cada época tira do cânone as suas regras…”. A obra é impressionante e pretende demonstrar que “a arte precede a ciência, a perfeição precede a exatidão”. Afinal, “a perfeição contém e corrige a exatidão”. E, como salienta Mariana Pinto dos Santos: “Em Almada a abstração matemática e geométrica não é um fim em si mesmo, mas sim meio para encontrar uma linguagem comum, sem pátria, intemporal e imemorial da comunicação visual, raiz de toda a representação”. Na busca do cânone não há recusa de representação. A abstração corresponde, assim, a uma fase superior da reflexão.

 

UMA PAIXÃO TEATRAL
A paixão de Almada pelo teatro, referida por Ana Vasconcelos, invoca ainda a preocupação do encenador, designadamente quando dispõe as figuras nos painéis, como o da Rocha do Conde de Óbidos. É a sociedade heterogénea, multifacetada e inconformista que se manifesta. Essa paixão teatral recorda as suas peças, “Antes de Começar” (1919), “Deseja-se Mulher” (1928) e “Pierrot e Arlequim” (1931), bem como a amizade muito próxima e quase familiar com Fernando Amado, com especial destaque para os tempos do Centro Nacional de Cultura e da criação da Casa da Comédia. É significativo o “Diálogo entre Almada Negreiros e Fernando Amado” de 1946 (“Cidade Nova, nºs 5 e 6, 1950). Por seu lado, os sessenta e quatro desenhos de “O Naufrágio da Ínsua” (1934) mostram-nos um verdadeiro ensaio entre a banda desenhada e os desenhos animados – onde o humor e a ironia revelam a “linha clara” do caricaturista exímio que ilustra a ligação entre o cinema e a ilustração narrativa. José-Augusto França fez a síntese adequada sobre o artista: “Almada situa-se na história da arte portuguesa contemporânea como uma figura única, no seu valor estético tanto quanto no valor referencial da sua mensagem poética”. Se em 1993, por ocasião do centenário não foi possível realizar a grande exposição retrospetiva, o certo é que agora temos um repositório de inequívoca qualidade. A expressão “português sem mestre” caracteriza plenamente o artista completo que procurou abrir caminhos novos – “chegar a cada instante pela primeira vez” – com originalidade e um sentido próprio de praticar diferentes artes com subtil mestria, tendo na galáxia dos modernismos não um lugar de escola, mas uma posição de múltiplos caminhos e influências…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 22 a 28 de maio de 2017.

 

«Antologia dos Economistas Portugueses», com seleção, prefácio e notas de António Sérgio (Biblioteca Nacional, 1924) é um clássico da nossa bibliografia a não perder.

 

UM PENSAMENTO OPORTUNO
O pensamento económico português foi marcado ao longo dos séculos pelo estudo das condições que caracterizam a nossa situação quase paradoxal de um território europeu virado ao mar, mas com inequívocas carências, com exigentes solicitações globais em razão da presença dos portugueses no mundo. Tal é o pano de fundo dos movimentos que obrigaram sucessivas gerações a partir – ora para a Índia, ora, em ocasiões diferentes e com destinos diversos, para a emigração. Se a longa costa atlântica portuguesa permitiu contrariar a situação periférica, o certo é que houve sempre uma tensão entre a defesa de um melhor aproveitamento dos recursos próprios e a consideração das oportunidades dos movimentos de pessoas e mercadorias… São bem conhecidos os alertas de Infante D. Pedro das Sete Partidas na célebre Carta de Bruges ou as queixas de Francisco Sá de Miranda: “Não me temo de Castela, donde guerra inda não soa, / mas temo-me de Lisboa que ao cheiro desta canela o reino nos despovoa”. E não esquecemos o conde da Ericeira na defesa do espírito manufatureiro, a que a chegada do ouro do Brasil não deu continuidade. Houve, assim, plena consciência de que era preciso fixar riquezas depois de partir em sua busca. Essa procura teria de ser compensada de alguma forma, para que a míngua de pessoas não impedisse a criação e consolidação de uma cabeça coerente e de uma orientação eficaz para o império.

 

OBRAS PIONEIRAS DA NOSSA CULTURA
Falando de obras pioneiras portuguesas no tocante à economia, cabe referir, os fundamentais autores seiscentistas – Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Ribeiro de Macedo. Em 1608, Diálogos do Sítio de Lisboa de Luís Mendes de Vasconcelos (c. 1542-1623) é o primeiro exemplo de uma tomada de consciência sobre a importância da capacidade criadora da economia. O autor viveu na passagem do século XVI para o século XVII, foi Capitão das Armadas do Oriente egovernador em Angola. Nesse livro – onde discutem um Filósofo, um Soldado e um Político – encontramos a exaltação das qualidades da cidade de Lisboa, sobretudo quando comparada com Madrid e, tratando-se do tempo de Filipe I, durante a monarquia dual, António Sérgio diz-nos que o autor procurava convencer o rei “a mudar de Madrid para Lisboa a capital do seu império”. Por outro lado, combate-se “o estonteamento da nossa política ultramarina, que consistiu em se perverter o objetivo comercial com as ideias de conquista”. Luís Mendes de Vasconcelos defende, assim, a criação e a fixação, não apenas no domínio teórico, mas com exemplos práticos do que hoje classificaríamos como ordenamento do território, em especial para o aproveitamento agrícola nas lezírias do Tejo e na região de Lisboa. Ainda para Sérgio, este reformismo assenta na “política fixadora, a da produção metropolitana, com base na estabilidade do comércio do ultramar, e da sua nacionalização”; bem como num conceito de glória e heroísmo –“a glória do político e do militar, o heroísmo do servidor da pátria está em concorrer para a prosperidade dela”…

 

REMÉDIOS PARA O DESPOVOAMENTO
Já o clérigo e teólogo formado pela Universidade de Évora, Manuel Severim de Faria (1583-1654) subscreve, com preocupações paralelas, Dos Remédios para Remédios para a falta de Gente (1655), onde critica a prioridade bélica em detrimento do comércio e da manufatura – somando-se esse mal á falta de investimento, aos defeitos do arranjo agrário, à concentração fundiária, ao absentismo e ao despovoamento... De mais a mais, o império do Índico apresentava-se frágil por falta de organização mercantil, e por defeitos no arranjo agrário. Daí se advogar a prioridade para o comércio, a indústria e as manufaturas, único modo de fixar recursos, devendo a preocupação de criar riqueza prevalecer sobre a conquista. Só favorecendo o governo do Reino a introdução de ofícios e técnicas modernas poderia o mesmo alcançar a independência económica da nação. O jurisconsulto e diplomata Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680) publicou o Discurso sobre a introdução das artes no Reino (1675). Em coerência com a sua correspondência com o Padre António Vieira e D. Francisco Manuel de Melo. O escritor considera ser fundamental a compreensão de que só haveria um meio para evitar a dependência do exterior pelas importações, e esse seria impedir que o dinheiro saísse do Reino através da criação de artes e manufaturas. A introdução de uma tal orientação evitaria o dano que fazem ao Reino o luxo e as modas; obstaria à ociosidade; tornaria o país povoado e abundante com gentes e frutos; aumentaria as rendas reais (“porque o peso que levam poucos, dividido por muitos, é mais fácil de levar e pode ser maior”); e atrairia ouro de Espanha, aproveitaria mais as colónias e daria ao porto de Lisboa, superior ao de Constantinopla, a primazia do comércio do mundo. Escrevendo na França de Colbert, Ribeiro de Macedo considerava que haveria que seguir os caminhos mercantilistas de França e Itália e que a Inglaterra começava a trilhar. Saliente-se ainda que, tal como o Padre Vieira, o diplomata defendeu a necessidade de encontrar um entendimento com judeus e cristãos-novos de modo a angariar novos meios e capacidades. Dois outros diplomatas merecem referência pela valia dos seus escritos de orientação convergente com a de Duarte Ribeiro de Macedo – refiro-me a Alexandre de Gusmão (1658-1753) e D. Luís da Cunha (1662-1749). O primeiro defendeu o combate à ociosidade, o aumento da agricultura, o aproveitamento das ribeiras para navegar e regar, o estabelecimento de fábricas, o aumento da indústria e o favorecimento do comércio dentro e fora do reino. O segundo insiste na necessidade de dar um uso positivo à propriedade agrícola e de favorecer o investimento nas artes. Tratava-se de colher nas experiências das nações civilizadas os melhores exemplos com resultados práticos.

 

LIÇÕES PARA DIVERSOS TEMPOS
Quando António Sérgio publicou a sua Antologia dos Economistas Portugueses (1924), lembrou que os três autores seiscentistas “iniciaram a doutrina da política da Fixação, contra a política do Transporte; e o reformismo português, desde aí até agora, será o desenvolvimento dos princípios que defenderam nas suas obras. Em Luís Mendes de Vasconcelos é a Fixação, pela agricultura; em Severim de Faria, pela agricultura e pelas indústrias; em Ribeiro de Macedo, finalmente, são as minúcias de um programa de fomento industrial”. Logo no final do século XVII, porém, o dinheiro das minas do Brasil e mais tarde os empréstimos do constitucionalismo e as remessas dos emigrantes adiaram a realização das ideias dos três reformadores. Mas o seu espírito continua, ressalvadas as distâncias e qualquer anacronismo, vivo e pertinente, em nome de um reformismo que foi assumido por Herculano, pela geração de 1870, pela “Seara Nova” e pelo moderno pensamento democrático. Regressar aos clássicos é, no fundo, um privilégio, sobretudo quando podemos usufruir através da sua leitura de ensinamentos duradouros e perenes.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de maio de 2017.

 

«Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã» (Esfera dos Livros, 2017), da autoria de Carlos A. Moreira Azevedo é uma obra fundamental para a compreensão séria e serena de um fenómeno muito complexo, como Fátima, que deve ser analisado como rigor histórico e prudência, à luz de uma reflexão teológica, histórica e sociológica, que previna simplificações redutoras e especulativas.

 

 

A VISÃO CRISTÃ DE FÁTIMA
“A grande questão subjacente a toda a polémica sobre Fátima situa-se (…) na capacidade de percecionar o lugar das mediações entre a religiosidade popular e a visão cristã de Deus”. É o autor que o afirma, continuando: “Se Deus nunca ninguém o viu, o crente aceita a debilidade das mediações para alimentar a sua fé com sinais, que nunca atingem Deus, mas aproximam e ajudam a entrar em relação: gestos, ritos, memórias. Neste processo de humanização e encarnação, os videntes e profetas põem-se ao serviço das mensagens de Deus e a Igreja assume a missão de supervisão entre a religiosidade natural e popular e estes frágeis intérpretes da vontade de Deus”. Eis donde parte a obra, considerando que a fé é sempre pessoal (no sentido mais rico do termo), devendo ser compreendida muito para lá da pura racionalidade ou do cientificismo, mas em articulação com a razão – recusando a irracionalidade, que vive paredes meias com a magia. Estamos, pois, a falar de fenómenos testemunhados pela humanidade, com uma dimensão comunitária muito relevante, que devem ser considerados no contexto de uma religiosidade ou de uma espiritualidade adulta e consciente – leiam-se os testemunhos recolhidos por Leonor Xavier e veja-se o filme de João Canijo. E não esquecemos a afirmação de Paul Claudel: “Fátima é uma irrupção violenta e escandalosa do mundo sobrenatural neste agitado mundo material”. Eis por que razão temos de lidar com o fenómeno com especial atenção – até para que o mesmo seja respeitado e considerado como uma manifestação de fé. Cabe à Teologia integrar as devoções, ligando-as à globalidade da Revelação e à comunhão eclesial. E como temos aprendido, tantas vezes, tragicamente, ao longo da História, os fenómenos religiosos e a liberdade de consciência têm de ser compreendidos e respeitados, não numa lógica absolutista ou relativista, mas num são pluralismo, que pressupõe um diálogo informado e conhecedor. Nada pior do que os monólogos sobranceiros e ignorantes, que apenas favorecem a irracionalidade e a intolerância.

Uma visão cristã do fenómeno de Fátima obriga a partir de Jesus Cristo e a considerar o arreigado culto mariano a essa luz, enquanto riquíssimo fator de mediação. E o caso português tem um especial significado – falamos da Terra de Santa Maria, as dioceses estão consagradas à Mãe de Deus, numa das suas designações antigas a cidade de Faro invoca expressamente Santa Maria, os reis de Portugal entregaram a sua coroa à Padroeira na Restauração. E sem procurarmos muito, encontramos nas origens da nacionalidade a visão da Senhora da Nazaré do Almirante das Armadas D. Fuas Roupinho. E As Memórias Paroquiais de 1758 dão notícia de diversas aparições. Estamos, assim, perante um culto muito difundido – que se projeta Além-Mar na missionação e que encontra uma continuidade com as suas raízes num culto muito antigo e bem consolidado.

 

UMA CONJUNTURA COMPLEXA
O livro debruça-se sobre o fenómeno de um modo claro e rigoroso, em quatro partes: o Cenário, onde se analisa a conjuntura sociopolítica e económica de 1917; o Acontecimento, sobre o fenómeno das visões (do Anjo, marianas de maio a outubro de 1917 e o que seguiu); as Personagens, envolvendo os videntes e os supervisores; e a Mensagem – fases de apropriação, segredo e perspetiva de futuro. Publica-se ainda um importante apêndice sobre o trabalho documental. A conjuntura de 1917 é um caldo de cultura rico em acontecimentos, num período marcado pela questão religiosa portuguesa, coincidente com o anticlericalismo que acompanhou a implantação da I República. Apesar dos apelos de católicos como Abúndio da Silva no sentido de uma renovação da Igreja e de uma maior independência do poder político, a verdade é que a orientação laicista e os excessos na hostilização religiosa prevalecem (como a faculdade legal de dissolução das mesas administrativas das irmandades e confrarias e sua substituição ou a posse pelo Estado dos bens das extintas ordens religiosas), num ambiente de grande tensão social, sobretudo fora de Lisboa e dos grandes centros urbanos. A entrada de Portugal na Grande Guerra viria, porém, a dar lugar à necessidade de um apoio de teor religioso. “Afinal, a função da religião para a vivência pessoal e social ia além do racionalismo e da instituição clerical”. A defesa dos interesses marítimos e coloniais levaram à entrada no conflito, com número assinalável de baixas. Em janeiro de 1917 começam a chegar a França os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português e o executivo chefiado por António José de Almeida permite a presença de 15 capelães para 50 mil homens, embora sem vencimento. Este serviço revelar-se-á da maior importância, com forte apoio da sociedade.

 

UM ANO PLENO DE ACONTECIMENTOS
O ano de 1917 foi denso de factos: os bispos portugueses assinam uma Instrução Pastoral Coletiva na qual se diz que os católicos não devem eximir-se de funções ou cargos públicos, o que levará à constituição do Centro Católico (onde se destacará António Lino Neto); em dezembro ocorre o golpe militar de Sidónio Pais, que institui a chamada “República Nova”, abruptamente interrompida um ano depois em virtude do assassinato do Presidente. O certo é que se inicia um período de atenuação da crise religiosa, que corresponde (conforme Luís Salgado de Matos em A Separação do Estado e da Igreja, D. Quixote, 2010) à concordata informal de Sidónio Pais, à orientação pacificadora de Bento XV, à abertura do Presidente António José de Almeida, tendo entretanto ocorrido a beatificação de Nuno Álvares Pereira em 1918 E bem longe, em outubro de 1917, as convulsões sociais na Rússia culminariam na queda do czarismo e depois na revolução bolchevique. Tudo isto está em pano de fundo em Fátima. O centro do fenómeno encontra-se na mensagem – ligada ao amor, à oração, à conversão e à paz. Estamos, como salienta o autor, perante visões, encaradas como “diálogos interiores, com a ajuda do Espírito Santo”, resultantes de um “mecanismo natural de projeção, de compensação, de diálogo transposto para um encontro”. As “visões são olhares humanos, a partir do olhar de Deus sobre a nossa realidade, para provocar e mover a Humanidade a corresponder ao maior bem criador de esperança no futuro”. Esse o ponto fundamental de que parte o autor, projetando essa hermenêutica na evolução histórica que reforçará a mensagem: desde a primeira Guerra Mundial e da epidemia da pneumónica até ao atentado ao Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981… E é a tensão complexa entre a religiosidade popular e a visão cristã da relação entre Deus e os homens que, no fundo, aqui está bem presente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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De 8 a 14 de maio de 2017.

 

«A Armadilha Diabólica» de E.P.Jacobs (1962), obra inspirada em «A Máquina do Tempo» (1895) de H.G.Wells, é uma ilustração viva da interrogação eterna da humanidade sobre as utopias e as distopias, que este ano animaram o «Bibliotecando em Tomar», que decorreu entre o MAAT de Lisboa e a Biblioteca Municipal de Tomar e constituiu, na sua oitava edição, de novo um assinalável êxito, graças ao entusiasmo da equipa de António Godinho.

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A PAIXÃO DE VIAJAR
A ideia de viagem é apaixonante sempre, ainda que a concebamos de um modo que se vai modificando consoante as circunstâncias concretas. Ora ao encontro de outros lugares e outros povos, ora na procura de paragens e tempos misteriosos e exóticos, do que se trata é de compreender a humanidade como realidade multifacetada e inesperada. Viaja-se na procura dos outros e na busca de nós próprios – desde o quarto de De Maistre às fantasias de Mandeville, desde as aventuras reais de Fernão Mendes Pinto ou das imaginárias de D. Quixote, aos périplos de Marco Polo. Quando Thomas Morus nos relatou o testemunho do português Rafael Hitlodeu e da ilha que encontrou, onde a sociedade humana procurava aproximar-se da perfeição, fê-lo menos para apresentar um modelo ou uma construção fechada, mas como a proposta de um horizonte de exigência a considerar pela humanidade. O escritor chamou a essa ilha, propositadamente, Utopia, buscando na etimologia grega a noção do que não tinha lugar – do mesmo modo que nos punha de sobreaviso perante a imaginação certamente fértil do marinheiro. E houve quem tenha contraposto a essa proposta de sociedade porventura ideal o texto do grande amigo de Morus, e também próximo do nosso Damião de Goes, Erasmo de Roterdão «O Elogio da Loucura» (publicado em 1511), cinco anos antes da obra do britânico. Afinal, perante a crítica direta à sociedade em que viviam, Morus optou por fazer a descrição de uma organização que estava nos antípodas da que na prática existia. E, ao ler a «Utopia» lembramo-nos de «A República» de Platão, onde o filósofo grego tinha em mente a conceção de uma sociedade que pudesse obedecer ao domínio das ideias. E invocamos ainda «Timeu» e «Critias», onde o mito é lembrado, como lugar mítico de referência e modelo. E se caminhamos para trás até à antiguidade grega, poderemos ainda andar para diante até 1602 para encontrarmos a proposta de Campanella da «Cidade do Sol», nitidamente inspirada pela mesma ideia de «Utopia». Fazendo a crítica relativamente à sociedade humana, plena de contradições e de imperfeições, podemos ainda dar o exemplo de Jonathan Swift com as viagens de Gulliver (1726-1735), nas quais há uma forte e severa ironia relativamente à sociedade britânica do início do século XVIII. Do mesmo passo, a obra do contemporâneo Daniel Defoe põe o viajante Robinson Crusoe (1719) no centro da reflexão sobre a curiosidade e a adaptabilidade humanas… De facto, sempre a ideia de utopia apaixonou a humanidade, sedenta da busca da felicidade – quer no eterno retorno, como na Atlântida de Sólon e de Platão, quer num lugar distante, quer na dimensão futura do tempo.

 

UM VIAJANTE DO TEMPO
O misterioso «viajante do tempo» de Wells chega por um complexo encadeamento de cálculos matemáticos a uma nave capaz de se movimentar na quarta dimensão, a duração do tempo, até ao ano 802.601, onde à primeira vista parece encontrar-se uma sociedade pacífica e integrada – a dos Elóis, descendentes da humanidade e depositários das suas virtudes. No entanto, depressa se percebe que essa comunidade, complacente e diurna, é dominada pelos Morlocks, que vivem nas entranhas da terra, impõem a servidão e são predadores relativamente a quantos sobrevivem nessa humanidade remanescente. Ora é essa mesma influência de H.G.Wells que encontramos em «A Armadilha Diabólica» de E.P.Jacobs, banda desenhada de culto, da série de Blake e Mortimer. E ficamos sem verdadeiramente saber se o perverso Miloch programou os comandos do célebre Cronoscafo para enviar Philip Mortimer em direção a tempos especialmente perigosos (bem mais próximos de nós do que o tempo dos Elóis e dos Morlocks) ou se se limitou a sabotar o aparelho para fazer desaparecer para sempre o cientista escocês no labirinto do tempo… São as teorias da relatividade de Einstein e a complexa relação espaço / tempo que estão presentes nesta ficção, domínios em que a ciência continua muito interessada… Na pré-história, Mortimer consegue evitar ser engolido por um dinossauro; na Idade Média, em La Roche-Guyon, depara-se com o tempo da Guerra dos Cem Anos e das jacqueries, com os grandes perigos inerentes e na França do futuro encontra um segundo Dr. Fausto, explorador da pirâmide de Keops, inventor do telecefaloscópio e buscador da Atlântida – para não falar da Europa dentro de três mil anos, dominada por asiáticos… A lista de utopias e distopias é inesgotável. A imperfeição encontra a busca da felicidade.

 

A GRANDE METÁFORA
O filme de Fritz Lang «Metropolis» (1927) está bem presente na nossa memória, apesar (ou por isso mesmo) de situado num tempo demasiado próximo de nós, o ano de 2026. É a grande metáfora do progresso e das suas desigualdades que está sobre a mesa. Por seu turno, o «Fausto» de Murnau interroga a precariedade dos desígnios e desejos humanos. A lista das obras literárias, tantas delas trazidas para o cinema, que põem a tónica na contradição entre o desejo de perfeição e a tirania do absurdo é longa e estimulante: Jack London com «Iron Heel» (Tacão de Ferro, de 1908); «Nós» de Eugueny Zamiatin (1924), que tanto influenciou George Orwell quando este nos pôs de sobreaviso em relação aos totalitarismos – em «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro» e em «O Triunfo dos Porcos (Animal Farm); «O Processo» de Franz Kafka» (1925); «O Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley («The Brave New World», de 1931), cujo título é tragicamente irónico, já que a sociedade organizada segundo princípios científicos e laboratoriais se torna um pesadelo desumano; «Eu Robô» de Isaac Asimov (1950), «Farenheit 451» de Ray Bradbury (1953), pondo-nos alerta perante a desertificação da leitura e da literatura; «O Senhor das Moscas» de William Golding (1954); «A Laranja Mecânica» de Anthony Burgess (1962); ou «O Caçador de Andróides» de Philip Dick (1968), passado à tela como «The Blade Runner»; até «Neuromance» de William Gibson (1984), uma alucinação coletiva digital, e «Homem na Escuridão» de Paul Auster (2008), relato de uma trágica fragmentação de uma América em guerra consigo própria… A busca da felicidade, do respeito mútuo, do desenvolvimento, da paz estão bem presentes – num apelo constante para que nos compreendamos melhor. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 1 a 7 de maio de 2017.

 

A publicação em curso da Obra Completa de Maria Helena da Rocha Pereira pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Universidade de Coimbra constitui a melhor homenagem que pode ser prestada à grande mestra dos Estudos Clássicos.

 

 

UM DIÁLOGO PERMANENTE COM OS CLÁSSICOS
“Quando se menciona, pela primeira e única vez na Odisseia, a possibilidade de um homem continuar a existir numa região privilegiada, a que se dá o nome de Campos Elísios, as palavras que traduzem esse pensamento dão claro testemunho da antiguidade da crença. Ao lado desta existiam outras, de que algumas perderam o significado no volver dos anos, entrando depois na mitologia sob uma rubrica diferente, e outras pela sua semelhança, vieram a confundir-se inextricavelmente com a mais antiga versão que conhecemos”. Este o ponto de partida da Dissertação de Doutoramento de Maria Helena da Rocha Pereira – Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão (1955) -, cuidadosamente preparada em Oxford, graças à orientação e magistério dos Professores Carlos Ventura, em Coimbra, e E. R. Dodds, em Inglaterra. Ao lermos hoje esse texto (irrepreensível exemplo do excelente domínio da língua portuguesa) referencial para os estudiosos da cultura clássica, compreendemos a especial paixão da autora pelos antigos, com quem gostava de dialogar permanentemente, na base de uma evidente proximidade histórica e humana. De certo modo, somos contemporâneos dessa gesta antiga, que nos configura culturalmente – na língua, nos valores, nas mentalidades. Isso nos ensinou a Mestra de muitas gerações, presentes e futuras. E essa relação não era fantasmática, mas palpável, uma vez que os testemunhos literários dão veracidade e verosimilhança à relação com os clássicos. E a grande riqueza desses testemunhos literários permite uma convivência espiritual, que a cultora dos estudos greco-latinos sempre nos legou, pode dizer-se, com autêntico amor. No tema escolhido do Além Feliz, estamos no âmago da compreensão da vida, da sua dinâmica e dos seus limites, hoje e sempre - desde as crenças mais antigas, dos mitos das terras longínquas, dos Campos Elísios ao Jardim das Hespérides, à Bem-aventurança no Hades, até às ideias sobre a felicidade do Além nos séculos VI e V a. C., no Orfismo e no Pitagorismo, em Empédocles, na poesia lírica e dramática, nos testemunhos epigráficos – e nos grandes mitos de Platão: Górgias, Fédon, Er, Fedro e no diálogo pseudo-platónico Axíoco…

 

NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
O percurso da estudiosa é apaixonante, tanto mais que a jovem o seguiu pelas vias mais audaciosas. Tudo isto num tempo em que a mulher estava ainda fora da vida académica. Só uma alemã, Carolina Michaëlis, tinha tido lugar antes na docência da Lusa Atenas. Frederico Lourenço falou, por isso, justamente, de coragem, determinação e vontade de aprender. Em Coimbra, Maria Helena fora desafiada por Carlos Simões Ventura e seguira o conselho de ir até Oxford. A opção parecia impensável. A família do Porto Culto apoiou e abriu um caminho novo para as humanidades, no sentido mais rico e amplo do termo. Desse seu professor dirá: “Escrupulosamente fiel aos seus princípios (…) norteou a sua vida académica e particular por uma rigidez quase estoica, sem desvios nem afrouxamentos numa linha de conduta sempre coerente e límpida…”. E lembrava a expressão de Horácio - justum et tenacem propositi – e a paráfrase vernácula de Correia Garção: “constante varão justo e firme”. A discípula seguiu as pisadas do professor, superando-as largamente. E atenta ao exemplo do Professor E. R. Dodds (o célebre autor de Os Gregos e o Irracional) manteve uma ligação constante à evolução das condições históricas e das mentalidades nas sociedades greco-romanas. Daí um especial cuidado relativamente à dimensão humana subjacente aos textos que analisa. Homero, Hesíodo, Píndaro, Aristófanes, até culminar em Platão. “O mito do Górgias está claramente ligado à tradição homérica, embora já nele se evidenciem alguns traços novos. O do Fédon constrói um vasto cenário geográfico, onde a luz, a cor e a forma desempenham o papel mais importantes. No mito de Er depara-se-nos uma cosmogonia, na qual os efeitos visuais e auditivos ocupam um lugar não menos proeminente, embora o problema central não deixe nunca de ser o da escolha do destino. O mito de Fedro coloca definitivamente a cena no céu e retira deliberadamente todos os pormenores que possam sugerir objetos materiais”.

 

A CAMINHO DE OXFORD
Teria sido a leitura de uma tragédia grega, Oresteia, de Ésquilo, quando tinha 13 anos, que a levou a seguir Clássicas, mas quando chegara à Escola Litterae Humaniores de Oxford, ainda sob os efeitos do racionamento da Guerra, terminada cinco anos antes, apenas tinha quatro anos de Grego. As excecionais capacidades de trabalho permitiram-lhe, porém, ganhar grande competência na língua grega, envolvendo crítica textual, paleografia e epigrafia. E ainda se tornaria uma reputada especialista de vasos helénicos. O seu contacto desde cedo com a língua e a cultura alemãs foi de grande utilidade, tendo realizado para a célebre Biblioteca Teubneriana a edição crítica da obra de Pausânias em três volumes. A obra de Maria Helena da Rocha Pereira tem um valor múltiplo – é cientificamente essencial, é pedagogicamente única e é historicamente indispensável para o conhecimento das raízes culturais europeias e mediterrânicas. A edição da Fundação Gulbenkian de A República de Platão é justamente considerada uma tradução exemplar, reveladora de um conhecimento abrangente e universalista da sua autora. A publicação da obra completa pela Gulbenkian e pela Imprensa da Universidade de Coimbra em curso tem assim um valor indiscutível. A Medeia de Eurípedes e a Antígona de Sófocles, nascidas da colaboração com o Teatro Universitário de Coimbra, são, em si mesmas, obras literárias de primeira água. António Guerreiro falou da preocupação da Professora “de mostrar que (a cultura grega e latina) não era uma relíquia de museu ou objeto de uma historiografia mortuária” (Público, 11.4.2017). Daí também a importância dos ensaios sobre a influência clássica nos autores portugueses, de Camões a Torga, a Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner. A sua familiaridade com a obra de Platão leva a ter de ser considerada como uma das leitoras mais estimulantes do ponto de vista filosófico. Mas o que se revela fascinante é a capacidade integradora do pensamento na cultura grega. Desse modo, considera a inclinação dionisíaca de Nietzsche um “erro genial”, mas um erro, já que não pode subalternizar-se a força indiscutível da tendência apolínea. Como afirma no fecho da sua crucial dissertação doutoral: “a noção de que a bem-aventurança no além devia ser de natureza puramente intelectual surgiu, pela primeira vez, do cérebro de um filósofo, como era de esperar. Representa uma meta alcançada na evolução do pensamento escatológico, cuja importância não é demais encarecer. Porém, as outras conceções, que acabámos de ver, de tal modo refletem o amor pela beleza da forma e das cores, o desejo de gozo da vida física em toda a sua plenitude, que menosprezá-las seria pôr de parte uma das características mais marcantes do espírito helénico”… Não esqueço a sua amizade!    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

    De 24 a 30 de abril de 2017

 

 

«A República» de Platão está traduzida em português por Maria Helena da Rocha Pereira (Fundação C. Gulbenkian, 1972), constituindo um exemplo literário, pedagógico e científico de revivência de um grande clássico colocado ao alcance da sociedade contemporânea – que aqui invocamos na passagem do Dia Mundial do Livro, ontem assinalado.

 

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VIVIA COM OS CLÁSSICOS
Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) é um símbolo do Porto Culto, dos Estudos Clássicos em Portugal no último quartel do século XX e uma das referências mais importantes de sempre. Num tempo em que, muito justamente, se procura uma relação mais rica e abrangente no âmbito das Humanidades, o exemplo da professora da Universidade de Coimbra, merece uma atenção especial. O seu desaparecimento deixa um vazio, mas sobretudo obriga a uma grande responsabilidade. Se houve por parte da grande Mestra uma preocupação de deixar escola, há um dever mais vasto no mundo da educação e na vida cultural e científica no sentido de ter de compreender-se que as raízes só podem enriquecer plenamente a capacidade criadora se puderem abranger o que de mais rico nelas existe. E, como recordava há dias Frederico Lourenço, homenageando a Professora, pouco antes do seu falecimento, só a valorização dos clássicos pode fazer-nos reencontrar na arte de educar a compreensão do humanismo integral da «paideia». É a «humanitas» de Cícero a ser chamada, não como o fechamento de uma área do conhecimento, mas como capacidade de diálogo e abertura de horizontes, em que os melhores exemplos da antiguidade clássica nos podem ajudar. E é verdade que nos poderemos compreender melhor se relermos Homero, Platão ou Aristóteles ou se nos reportarmos ao teatro helénico. E estamos a ouvir Maria Helena, que tive o gosto de conhecer e com quem colaborei (sempre beneficiando da sua amizade, do seu rigor e cuidado) – “Eu vivo com os antigos”… E assim foi, sempre com a preocupação de os trazer até nós, na exigente tarefa de percebermos a essência do género humano. “A dúvida é científica. Às vezes mais científica do que a verdade”. A educação era, assim, o seu domínio e o seu prazer.

 

HISTÓRIA DA CULTURA CLÁSSICA
Foi a primeira mulher doutorada pela Universidade de Coimbra, em 1956, e catedrática, em 1964. Antes, tinha sido de origem alemã a única professora – a célebre Carolina Michaëlis de Vasconcelos. A obra completa em dez volumes de Maria Helena da Rocha Pereira que está a ser publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Imprensa da Universidade de Coimbra, graças à sua preciosa orientação (e coordenação de Delfim Leão), dá-nos conta de uma grande riqueza e de um cuidadoso sentido pedagógico e científico. E lembremo-nos ainda de Estudos de História da Cultura Clássica (FCG, vol. I, Cultura Grega, 1ª edição 1966, 11ª edição 2012; vol. II, Cultura Romana, 1ª edição 1984, 4ª edição, 2008) ou de A República de Platão (FCG, 1972), onde a tradução, as notas e a introdução são referenciais no mundo dos estudos clássicos. Isto, além das compilações de textos gregos e latinos (Hélade e Romana) ou das fundamentais traduções das grandes tragédias de Sófocles (Antígona) e Eurípedes (Medeia)… A aprendizagem das línguas pela grande mestra deveu-se à necessidade de ler os originais, para os compreender melhor. E começou pelo alemão, o que muito a ajudou na abertura aos clássicos. Até ao fim da vida, foi extraordinária a sua preocupação em se manter atenta e atualizada. Graças a essa atitude, muitos estudiosos puderam beneficiar de ferramentas de trabalho fantásticas, rigorosíssimas, que foi fazendo e aperfeiçoando. Em tudo o que realizava era de um método e de uma organização impressionantes, e fui, durante vários anos, testemunha disso mesmo, num júri por si presidido. Esse viver com os antigos, que gostava de lembrar, era, no entanto, o contrário de uma atitude passadista ou retrospetiva. Afinal, dizia, o género humano não mudou muito desde a Antiguidade clássica… Para si, a educação e a aprendizagem eram realidades do presente e de futuro. E pode dizer-se que as origens familiares do Porto ajudaram a que esta extraordinária mulher tenha sido marcante na sua influência e no exemplo – uma vez que para seus pais, a cultura não era algo desligado da vida, sendo a erudição um modo de melhor compreender o mundo, em vez de qualquer tipo de ostentação.

 

PIONEIRISMO E CORAGEM
Nesse tempo era difícil a uma mulher optar por um percurso científico. E as duas irmãs Rocha Pereira optaram pelos estudos clássicos e pela matemática – como pioneiras de uma nova mentalidade. Mas, como bem se nota na dissertação de doutoramento (Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão), as referências éticas foram essenciais para a coerência entre o magistério e o exemplo quotidiano. Para o pioneirismo foi, porém, necessária uma grande coragem. Não bastava ter 17 valores na licenciatura de Filologia Clássica, havia que superar preconceitos. Contra todas as resistências a jovem foi para Oxford em 1950 e aí estudou e preparou o tema do doutoramento. Todavia quando regressou a Coimbra não tinha júri para a julgar – em 666 anos era a primeira mulher (já que D. Carolina tinha vindo da Alemanha). Entretanto, especializara-se em vasos gregos (Greek Vases in Portugal, 1962)… A sua autoridade científica era reconhecida internacionalmente. Em 1964 é aprovada por unanimidade no concurso para catedrática – e não escondia o seu íntimo orgulho por ter podido ser acompanhada por seu pai nesse momento único. A partir da Universidade de Coimbra, mas como uma influência entre os diversos estudiosos da Antiguidade Clássica, refundou os estudos greco-latinos em Portugal, com repercussões em toda a Europa – lembre-se a Pausaniae Greciae descriptio, Edição crítica publicada em 3 volumes na prestigiada coleção Teubneriana (1978-81) de Leipzig. Coube, assim, a uma portuguesa a publicação moderna da obra completa do geógrafo Pausânias, o que demonstra o enorme prestígio adquirido. Quando Frederico Lourenço fala do terror que causava a presença de Maria Helena da Rocha Pereira num júri académico, tal devia-se menos à personalidade da professora, e mais à exigência extraordinária que praticava consigo mesma. Sendo uma pessoa integralmente dedicada à cultura e à educação, nada lhe escapava. No caso de A República de Platão continua a ser um best-seller em todo o mundo que fala português. Só uma pessoa de cultura superior poderia chegar a uma qualidade como a que aí se encontra – e que obrigou a profundos conhecimentos filosóficos, históricos, políticos, científicos, além de filológicos e linguísticos. Essa versatilidade e o conhecimento universalista também têm expressão em Portugal e a Herança Clássica (2004), onde é estudada a presença da cultura clássica em autores contemporâneos, como Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade e Miguel Torga, além da consideração de Camões e Camilo. Hoje percebemos que talvez não se tenha compreendido inteiramente o seu lugar extraordinário na cultura portuguesa. Mas não há dúvidas que o seu labor incansável continuará a produzir os seus frutos. Em verdade, a grande professora ensinou-nos algo custoso de entender plenamente: as coisas belas são difíceis. E a melhor arte está em tornar aparentemente fácil e natural essa qualidade… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS


   De 17 a 23 de abril de 2017

 

Frederico Lourenço, quando recebeu o Prémio Pessoa, lembrou uma conversa com Sophia de Mello Breyner sobre a sua opção pelos estudos clássicos. É da maior importância essa recordação e a proposta que lhe está subjacente, no sentido do reconhecimento da importância das Humanidades, num sentido amplo e integrador, para a compreensão das nossas raízes.

 

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AO ENCONTRO DAS RAÍZES

A poesia da autora de Geografia e de Dual foi profundamente inspiradora para o jovem Frederico Lourenço que então dava passos decisivos relativamente à sua vocação. Houve, naturalmente, outras influências, como as muito marcantes de seus pais, Manuela e M.S. Lourenço ou a de seu padrinho João Bénard da Costa – nessa geração extraordinária de “O Tempo e o Modo” – mas o caso de Sophia foi muito especial. Ela “inventou uma Grécia própria. Não é a Grécia dos guias turísticos, não é a Grécia dos compêndios de história, filosofia ou literatura. (…) É uma Grécia construída pelo olhar dela, uma geografia anímica que tem tanto de Grécia como de Portugal” (Valsas Nobres e Sentimentais). De facto, a atração clássica, veio até Sophia dessa confluência fantástica do Mediterrâneo e do Atlântico, donde houve existência Portugal e que Orlando Ribeiro estudou com génio e brilhantismo. E Frederico Lourenço recorda o búzio comprado na ilha de Cós, onde apenas se ouvia “o cântico da longa vasta praia / Atlântica e sagrada / Onde para sempre a minha alma foi criada”. É Sophia quem fala, naturalmente, e cada um de nós sente familiaridade nessa sensação. E poderíamos recordar ainda nos Contos Exemplares as referências homéricas a Manuel Bote, banheiro mítico da Granja… Mas voltemos ao discurso do premiado e à recordação do modo desconcertante como a autora de Livro Sexto rematou essa conversa iniciática: “Só espero que não se arrependa”… Nada havia mais a acrescentar, tudo de essencial estava, porém, na ligação poética ao mar e ao “país de montanhas e navios onde os golfinhos correm quase à tona de água, onde a alegria se multiplica de ilha a ilha e sobre o qual paira a grande felicidade dos deuses de Homero” (O Nu na Antiguidade Clássica). Tudo estava dito e não dito. O amor fundamental de Sophia tinha a ver com as raízes antigas, em que os portugueses, como novos Argonautas, não poderiam ser compreendidos sem a referência aos genes que nos chegaram de Homero e de Ulisses – nosso pai mitológico...

UMA PROPOSTA SÉRIA E NECESSÁRIA

Naquele fim de tarde, na Culturgest, ao ouvirmos o galardoado, fomos transportados até a essas fontes mais distantes, onde bebemos a cultura que nos formou. E percebemos como o gérmen da cultura clássica ficou bem presente na criatividade perene do mais recente tradutor da Bíblia. “Além da inspiração que fui beber a Eugénio de Andrade e a Ruy Belo, ou a Camões e Pessoa, não tenho a menor dúvida de que o génio tutelar da minha tradução é Sophia. No fundo, o que eu tentei fazer foi traduzir Homero como se eu próprio me chamasse Sophia Andresen, embora, como eu já frisei, sem andresenizar artificialmente o texto” (Valsas…). Com especial pertinência, F. Lourenço defendeu agora ser “preciso começar o estudo do grego e do latim no ensino secundário. Enquanto isso não voltar a acontecer, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos”. Esta ideia merece uma especial atenção. E não se pense que estamos perante uma sugestão avulsa de um cultor de determinado ramo de saber. Não. Do que se trata é de um apelo sério, que tem a ver com a preparação adequada dos estudantes na área essencial da língua e da cultura. O bom domínio da língua não é tema de gramáticos, é questão de cidadãos. Precisamos de saber comunicar bem, de modo a que nos entendam, a que nos entendamos uns aos outros e a que saibamos exprimir-nos com ideias claras e distintas. Não há verdadeiro diálogo se não soubermos falar e ouvir. Infelizmente, quando ouvimos tantos debates nos meios de comunicação, presenciamos monólogos maçadores e uma invariável incapacidade para exprimir pontos de vista próprios e para responder aos interlocutores.

 

A CULTURA COMO CRIAÇÃO

A sugestão de Frederico Lourenço é muito mais profunda, positiva e plena de consequências do que à primeira vista possa parecer. E não se julgue que tudo se poderia resolver com acrescentos curriculares. Bem sei que há sempre a tentação de colocar mais um adereço numa espécie de árvore de natal de temas. Não é disso que se trata. Impõe-se uma atitude inteligente que permita nos núcleos essenciais de aprendizagem saber integrar o conjunto e o contexto, a razão histórica, a diacronia e a sincronia, a etimologia, as regras e o método. Nesse sentido, o escritor tem toda a razão. Como poderemos entender e proteger a língua que falamos se não conhecemos de onde provém e qual a razão de ser das palavras que usamos. De facto, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos se não dermos atenção as nossas raízes culturais. E insisto num ponto de que tenho feito cavalo de batalha – uma cultura aberta, consciente da necessidade de preservar o património como realidade viva, precisa de assentar numa atitude que favoreça a atenção ao que tem valor humano, assegurando o cuidado relativamente ao que recebemos dos nossos ancestrais. Só haverá atenção e cuidado se estivermos despertos. E as humanidades têm a ver com as letras e as artes, mas também com a matemática, a cultura científica e a importância do método experimental. Não se trata de dizer que tudo tem lugar, mas de compreendermos que a complexidade do mundo contemporâneo obriga à complementaridade de conhecimentos e de perspetivas. Mais do que da especialização, vivemos a era da cooperação de saberes. Na última crónica falávamos de Damião de Goes e de José Mariano Gago. Não podemos esquecer que os gregos referiam a “paideia” e os romanos a “humanitas”. E temos de nos lembrar das artes liberais da Idade Média: o Trivium, abrangendo: lógica, gramática e retórica; e o Quadrivium, com aritmética, música, geometria e astronomia… Se lembro isto mesmo não é para desfazer fronteiras e enfraquecer as ditas ciência sociais, mas sim para evitar o fechamento e garantir o encontro, a inter e a transdisciplinaridade. Sobre Oxford, que Frederico Lourenço conheceu desde tenra idade, encontramos, como se fosse uma metáfora sobre o diálogo entre o conhecimento e a vida: “é indesmentível que Oxford parece propiciar esse constante esmaecimento de fronteiras entre o literário e o factual, sobretudo quando o olhar que perceciona a cidade é, já de si, atreito a substituir a realidade que tem à sua frente por imagens e projeções livrescas”. A valorização das humanidades é, no entanto, o favorecimento de um combate constante e sereno contra a mediocridade e a ignorância. Não se trata de fechar conhecimentos sobre si mesmos ou de ignorar que a educação para todos obriga, nas suas profundas diferenças, a compreendermos a subtileza das relações entre cultura e vida e que não podemos confundir pessoas e robôs. A presença dos clássicos ajuda certamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 10 a 16 de abril de 2017.

 

«Occasionalia – Homens e Ideias de Ontem e de Hoje» da autoria do Padre Manuel Antunes, S.J. (Multinova, 1980) é uma reunião de textos sobre figuras e ideias marcantes do século XX, onde a personalidade muito rica do académico e grande mestre da cultura se manifesta em toda a sua plenitude.


 

A FORÇA DA CULTURA
A cultura para o nosso autor é, entre muitas outras coisas, tradição, diálogo, especialização e interdisciplinaridade. Sem tradição, há o risco de se cair no infantilismo e no primarismo; sem diálogo, pode cair-se «na sofística mais labiríntica e/ou obsessiva, no hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação»; sem especialização pode ficar-se em generalidades inócuas ou em afirmações sem fundamento; e sem interdisciplinaridade falta a perspetiva de conjunto e as árvores impedem a visão da floresta… A sociedade contemporânea tem de compreender que a capacidade criadora depende do conhecimento, da visão de conjunto e do entendimento da complexidade. O Padre Manuel Antunes foi um dos professores da Faculdade de Letras de Lisboa mais respeitado, pelo conhecimento, pela sabedoria, pela abertura de espírito e sobretudo pela extraordinária capacidade de tornar próxima a cultura clássica. Nas Memórias, há pouco dadas à estampa, de José Medeiros Ferreira está bem expressa a grande admiração que o intelectual devotava ao grande mestre. No Centro Nacional de Cultura recordamos também a sua influência e o seu magistério, determinantes na compreensão das mudanças necessárias na sociedade portuguesa no sentido da democracia, do pluralismo, em nome da dignidade da pessoa humana. A sua ligação a Sophia de Mello Breyner, aos poetas e escritores que se situavam na esfera de influência de «O Tempo e o Modo» foi muito significativa. O cidadão e o professor de Cultura Clássica complementavam-se, assim, naturalmente – em nome de um humanismo centrado na ideia de aperfeiçoamento constante da pessoa humana e da centralidade da consciência histórica. Como Werner Jaeger, que tanto admirava, pode dizer-se que Manuel Antunes também habitou três pátrias – considerando, além da própria, a Antiguidade e o Cristianismo. E o elo que as une é a filologia, a história e a filosofia. Para o português, talvez mais a literatura. E é assim que lembra a afirmação do mestre alemão: «Todo o humanismo antigo é orientado para a imitação de um modelo. O cristianismo tinha aceitado desde o começo este pensamento, mas referia-o a Cristo. (…) O processo de formação do homem tornou-se o processo de formação de Cristo nos cristãos»… Por ocasião da morte de Gabriel Marcel, em 1973, o pensador afirmava que o filósofo foi dos que melhor soube compreender o perigo da substituição progressiva e total do sagrado pelo profano, bem como das técnicas manipuladoras ou de lavagem aos cérebros de milhões e milhões de seres humanos. E o autor salienta como doía a Marcel a vontade reducionista que via «nos princípios, nos métodos e nas estruturas das ideologias do seu tempo». Hoje, sentimos os efeitos dessa tendência. Eis o que está em causa: o vazio ético e espiritual gera a tentação do fanatismo – em lugar de favorecer o respeito mútuo, o pluralismo e a salvaguarda da liberdade de consciência. Notícias inquietantes enchem os periódicos.

 

ENTRE A ARBITRARIEDADE E A INTOLERÂNCIA
A indiferença gera a arbitrariedade, a simplificação abre caminho à intolerância. E lembra o jesuíta a emergência não do espírito de verdade, mas do mero espírito de verificação - «espírito não do primado dos fins mas da soberania absoluta dos meios; espírito não de contemplação mas de ação e manipulação das pessoas e das coisas; espírito principalmente hábil, organizativo e tecnocrático que a racionalização conduz e a eficiência inspira». Não que a experiência e o sentido crítico devam ser desvalorizados, mas urge que não se caia na tentação do abstrato. «A abstração, isolando e desvinculando seres e realidades, ergue, vai erguendo, sistemas fechados, que surgindo com a pretensão de encerrarem a totalidade, a mutilam e a deformam»… E qual o resultado? A demonstração de que a indiferença e o fundamentalismo são faces de uma mesma moeda… «O fanatismo, a despersonalização e a massificação, eis os resultados». Gabriel Marcel falava, por isso, dos homens contra o humano. E assim «os extremos do racionalismo e do irracionalismo tocam-se na mesma abolição das diferenças, na mesma promoção do uniforme e do homogéneo, na mesma negação do humano». A desordem que oprime e a ordem que reprime são expressões da mesma violência. E o que presenciamos hoje nesta tremenda escalada do ressentimento e da irracionalidade representa, no fundo, que «violência da paixão e violência da razão são as duas faces da mesma realidade histórica do ideologismo». E nessa palavra se resume a intolerância dos que julgam possuir o exclusivo da verdade e da razão. O Padre Manuel Antunes recorda, a propósito, o seu encontro com Gabriel Marcel: «estou a vê-lo na sua infinita curiosidade por tudo quanto é humano, nobremente humano, de preferência, e se revela através de uma superior forma de cultura: poema, quadro, drama, romance, música, pensamento filosófico e reflexão teológica, principalmente». Como «homo viator» buscava a unidade e a coerência, na «disponibilidade de serviço em prol do humano, na sua busca permanente de mais justiça, de mais verdade e de maior amor entre os homens».

 

DIVERSOS REGISTOS E SENTIDO CRÍTICO
Os textos que compõem «Occasionalia» homenageiam figuras como, e damos apenas alguns exemplos: Blondel, Guardini, Maritain, Eliot, Graham Greene, Waugh, mas também Tomás More, Pascal e Claudel, Raul Brandão, António Sérgio, José Régio e Vitorino Nemésio; analisam Kafka, Malraux, Gorki, Steinbeck, Gide, Chateaubriand, Toynbee ou Bloch, Heidegger e Marcuse; interrogam Croce, Hegel, Marx, Lenine e Mao. Estamos, afinal, perante a extraordinariamente fecunda produção publicada nas páginas da «Brotéria», onde o autor se desmultiplicou em pseudónimos, reveladores da sua grande versatilidade e de uma singular capacidade para compreender o mundo moderno. E podemos, a propósito do que o autor diz de Pascal, apontar uma síntese, aplicável ao nosso cicerone: «ele continua vivo (…).Partindo da meditação sobre a condição humana, a sua reflexão projetou-se além, muito além de esquemas e de formalismos, de sistemas e de conteúdos que costumam limitar o pensamento de tantos filósofos e cientistas dos tempos modernos. A nós, nesta hora incerta e conturbada, neste momento crucial da história humana – e nossa, principalmente – compete recolher a lição».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 3 a 9 de abril de 2017.

 

Luísa Ferreira acaba de publicar «Ao Encontro de Damião de Goes – Para José Mariano Gago» (2017) um imperdível pequeno livro de imagens, onde relata um singelo mas muito significativo ato de homenagem de José Mariano Gago ao grande humanista português Damião de Goes, que tanto admirava e que se apresenta como símbolo do combate determinado contra a mediocridade e a ignorância, contra a intolerância e o fechamento.

 

EXPEDIÇÃO A ALENQUER
Na Galeria da Livraria Sá da Costa, pudemos ver expostas as fotografias de Luísa Ferreira e ouvir Luís Filipe Barreto e Karin Wall a invocarem os dois percursos de vida que se misturam na memória longa, uma vez que José Mariano quis que alguns dos seus últimos passos se dirigissem ao Renascentista. Tratou-se de uma expedição a Alenquer, ao encontro de Damião de Goes, no dia 9 de março de 2015, segunda-feira. “Mariano falou-me (…) sobre Damião. O grande humanista português do século XVI nasceu e morreu em Alenquer, depois de ter passado muitos anos fora do país. Foi viver para a corte aos nove anos e o Rei enviou-o para a Europa. Conviveu com Erasmo de Roterdão, entre outros pensadores, comprou e partilhou obras de arte, voltou a Alenquer onde adquiriu uma quinta e sofreu com a Inquisição”. Foi com estas referências que Luísa Ferreira aceitou o desafio de ir com José Mariano, para este olhar de frente o retrato que o próprio cronista mandara gravar na pedra. Infelizmente, o busto está hoje bastante danificado, apresentando um rosto alterado pelo tempo. Mas ele queria ver a efígie de Damião de Goes, para poder olhá-lo, para sentir a sua presença e para oferecer a sua representação à Real Academia Belga, onde dele falara. “Fotografia é estar com os outros, mostrar-lhes, ver”. E sobre o ato de registar imagens, Mariano gostava de recordar Alhazen, o físico e matemático árabe do século XI, que escreveu “o primeiro tratado decente sobre Ótica”, construindo diversas câmaras escuras como meio de experimentar um novo modo de considerar e de conhecer a visão humana…

 

PERCEBER PORTUGAL
Durante um ano Damião de Goes acompanhou José Mariano. A Descrição da Cidade de Lisboa (1554) era revisitada com especial prazer. Tornou-se leitura de cabeceira. O pequeno opúsculo “foi por ele escrito (na Flandres) quando todos os dias chegavam a Antuérpia galeões portugueses com especiarias das Índias – e a Europa queria perceber Portugal – e entender Lisboa”. E lembramos o que está escrito relativamente a uma cidade que rivalizava “com todas as outras cidades da Europa, tanto pelo número de habitantes, como pela beleza e variedade das construções”… É a Cidade Global, documentada na exposição do Museu Nacional de Arte Antiga, descrita pela pena de Damião de Goes. “Passando a Rua Nova do Rei, que transborda de entalhadores, joalheiros, ourives, cinzeladores, fabricantes de vasos, artistas de prata, bronze e de ouro, bem como fanqueiros; cortando à esquerda, chegaremos a uma outra artéria que tem o nome de Rua Nova dos Mercadores, muito mais vasta que todas as outras ruas da cidade, ornada de um lado e de outro, com belíssimos edifícios. Para aqui confluem todos os dias, à compita, comerciantes de quase todas as partes do mundo e suas gentes, em concurso extremo de pessoas, por causa das vantagens oferecidas pelo comércio e pelo porto”. O livrinho “deu a volta à Europa e contou o que era Lisboa nessa época (um tanto desgraçada de ódios e guerras de religião). Sendo Damião de Goes o grande humanista português do século XVI e que sempre conseguiu defender a tolerância! Contra os ódios”. É a letra de José Mariano Gago que no-lo diz. Apesar de o rosto do humanista estar deteriorado, a verdade é que é, segundo testemunhos coevos, o mais próximo da realidade. Podemos, porém, recordar o epitáfio fotografado nos finais do século XIX, na igreja da Várzea, onde se vê o busto antes de ter sido danificado. O túmulo está na igreja de S. Pedro, desde 1941, vindo da Várzea. E o próprio Damião de Goes, na descrição de Lisboa, fala-nos da sua terra natal: “A meio, pouco mais ou menos, do curso do Tejo, na margem de cá, indo para o poente, fica a fortaleza de Alenquer – a terra onde nasci -, e que, segundo Resende, os antigos chamavam Gerobriga”. Na capela de S. Pedro, em Alenquer, estão representadas as armas de Damião de Goes, dadas pelo Imperador Carlos V, e as de sua mulher D. Joana de Hargen. “Ao maior e ótimo Deus, Damião de Goes, cavaleiro lusitano fui em tempos; corri toda a Europa em negócios públicos; sofri vários trabalhos de Marte; as musas, os príncipes e os varões doutos amaram-me com razão…”. A cabeça do humanista esteve guardada durante anos até ser colocada na igreja. E conta-se que antes foi vista a rolar na rua a servir de brinquedo para as crianças… Mas José Mariano quis confrontar-se com o estado atual da pedra, sabendo que foi ela que o humanista mandou esculpir, numa representação fiel. Depois dos tratos de polé a que foi submetida, importava recordar a memória do cronista e diplomata em pelo menos três facetas: a do espírito aberto e livre, lutador pela tolerância e companheiro de outros grandes humanistas; a do português regressado à pátria, incompreendido, perseguido pela injustiça inquisitorial e porventura assassinado; e a de um exemplo maior da cultura portuguesa cujo monumento funerário foi sujeito a um ignóbil tratamento, por ignorância e desmazelo.

 

UMA CARTA DE ERASMO
Simbolicamente, lemos ainda no Caderno de Alenquer uma Carta de Erasmo de Roterdão a Damião de Goes. Não está aí por acaso. Sentimos o azedume das incompreensões. “Os italianos a cada passo arreganham contra mim, em opúsculos maléficos. Em Roma foi imprensa (sic) a Defesa da Itália contra Erasmo, dedicada a Paulo III. A rixa nasceu de duas palavras minhas não entendidas e que estão nesta máxima: Micónio calvo, é dizer cita erudito ou italiano belicoso, - as quais eles interpretam como tendo eu censurado os italianos por serem pacíficos, quando a verdade é que nesta expressão a Itália foi louvada e não vituperada. Comer, beber, - são vocábulos médios; comilão, beberrão, palrador – toam como vício. De igual modo, belicoso não traduz louvor, que sim exprobação. Os citas, por seus costumes bárbaros e selvagens, desprezam todas as disciplinas liberais, inclinados só para as armas; os ítalos, esses cultivam a filosofia, as artes e a eloquência, que são fomentadoras de paz, diametralmente contrárias por isso às daqueles. Eis excelente matéria de defensão”. A presença de Erasmo, que conhecemos do Elogio da Loucura, significa a um tempo a crítica às mentes intolerantes e a necessidade de esclarecer as ideias pelo diálogo franco e aberto… Fica-nos um testemunho em prol do conhecimento e da tolerância, como valores assentes no respeito mútuo. “Criticar os costumes dos homens, sem atacar qualquer pessoa denominada, será efetivamente morder? Não será antes ensinar e aconselhar? Aliás, não faço incessantemente a crítica a mim próprio?” Erasmo dixit, e poderia tê-lo feito Damião de Goes… José Mariano pede-nos para não os esquecermos.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de março a 2 de abril de 2017.

 

«O Essencial sobre Teixeira de Pascoaes» (INCM, 1999) de Maria das Graças Moreira de Sá constitui uma excelente síntese sobre uma das figuras mais complexas e mais ricas da cultura portuguesa do século XX, tantas vezes mal compreendido e alvo de simplificações ilegítimas.

 

PERSONALIDADE MARCANTE
A coleção «O essencial» da Imprensa Nacional – Casa da Moeda é um exemplo da boa pedagogia e da elaboração de sínteses cuidadas e exigentes, nas quais prevalece a preocupação de tornar a cultura acessível a todos. Lembramo-nos da Biblioteca Breve do velho ICALP e de outros breviários de qualidade que constituíram bons exemplos que devem continuar a ser seguidos. Neste caso de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), estamos diante de um caso paradigmático, em que a autora em menos de sessenta páginas nos apresenta toda a riqueza e complexidade da vida e obra de uma das personalidades mais marcantes da vida cultural portuguesa na primeira metade do século passado. Antes do mais, referimo-nos a um poeta dos mais influentes, mas simultaneamente tratamos de alguém que no movimento da «Renascença Portuguesa» e na revista «Águia» abriu a porta, muito para além do que subjetivamente poderia prever, para uma profunda renovação da vida cultural e literária portuguesa. Uma Renascença não poderia ser simples regresso ao passado, mas a consideração de que as nações pequenas só podem contrariar as tendências absorventes das grandes nações através do «carácter e originalidade do seu espírito criador». Pascoaes combateu, nessa linha, o estrangeirismo desnacionalizador e apontou a necessidade de cuidar da originalidade portuguesa – na confluência da herança europeia, céltica, greco-romana, germânica, e da influência de fenícios, cartagineses, judeus e árabes, tendo como pano de fundo o cristianismo. «Quem ler alguns dos nossos grandes escritores, sobretudo Camões e Bernardim, nos tempos antigos, e nos tempos modernos, Camilo e António Nobre, vê que a sua sensibilidade é, por assim dizer, dualista: tem alma e corpo; vibra ante a forma e o Espírito, ao mesmo tempo e com a mesma energia. Quero dizer: a emoção destes escritores nasce do contacto das suas almas humanas com a parte material e espiritual das cousas ou dos seres contemplados; e desses dois contactos resulta uma só impressão que é o seu sentimento». Daí a articulação, muito evidente em Pascoaes, entre o paganismo greco-romano (culto do corpo) com o Cristianismo judaico (culto do espírito). Unamuno fala, assim, da cultura portuguesa como um encontro do lirismo e da história trágico-marítima. E a Renascença Portuguesa enquanto impulso para diversos caminhos vai aprofundar, através da geração de 1890, o que os homens de 1870 tinham desejado e aquilo por que tinham lutado. Se lermos bem «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» de Antero de Quental, facilmente percebemos que as suas preocupações pressupõem uma ideia de «Renascimento». A noção de decadência aí não é um caminho sem saída, é um apelo a que o sebastianismo (prova póstuma da nacionalidade) não se torne um reconhecimento de impotência, dando lugar a uma vontade libertadora. Não se esqueça, pois, que a resposta de Pascoaes não é exclusiva, ao lado dela temos o modernismo de «Orpheu», com as suas diversas «nuances», de Alberto Caeiro e Álvaro de Campos até ao ortónimo de Fernando Pessoa, sem esquecer Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e etc., e depois a «Presença» e o riquíssimo movimento poético dos mais jovens (os «Cadernos de Poesia» e o que se seguiu) e a «Seara Nova», nas suas várias sensibilidades, de Sérgio, Cortesão, Proença até Raul Brandão. Dir-se-ia que a renovação ansiada por Pascoaes veio a realizar-se da maneira fecunda, multiforme, plena de diferenças e complementaridades, com um programa aberto e ciente de que o novo tempo obrigaria a cultivar o sentido crítico, a compreensão dos mitos para além de uma lógica redutora.

 

ENTRE O SONHO E O MITO
Pode dizer-se ainda que o «heterodoxo» Eduardo Lourenço irá compreender que o sonho e o mito deveriam estar presentes e não poderiam ser esquecidos ou subalternizados – antes tendo de funcionar, não como explicação retrospetiva, mas como ligação necessária entre a sensibilidade e a racionalidade. A aventura poética e espiritual preconizada por Teixeira de Pascoaes tornou-se, assim, um desafio não redutor. E Jacinto do Prado Coelho refere que o uso da ironia pelo poeta (em especial nas últimas obras) visava «corrigir a excessiva convicção com que se acredita, nimbar a fé ou o mito duma lógica dinamizante, (…) e, por outro lado, denunciar o ridículo de tudo quanto, no homem, é hirto, convencional, tacanhez e rotina». Quando Mário Cesariny de Vasconcelos considera Teixeira de Pascoaes como poeta maior do nosso Olimpo acima de Fernando Pessoa, quando António Sérgio grande crítico do saudosismo não deixa de reconhecer o talento indiscutível do poeta ou quando o próprio Fernando Pessoa coloca o poeta num lugar proeminente – na «busca de uma Índia nova, que não existe no espaço e em que as naus são construídas ‘daquilo que os sonhos são feitos’» - muitos põem o autor de «Marânus» num lugar especial nas letras portuguesas. E Eduardo Lourenço afirma que «o verbo de Pascoaes rasura ou dissolve a nossa pequenez objetiva, onde enraízam todos os temores pelo nosso futuro e identidade, instalando Portugal, literalmente falando, fora do mundo e fazendo desse estar fora do mundo a essência mesma da realidade» - não havendo na nossa literatura diálogo-combate mais fundo e complexo que o que entrelaça as aventuras poético-espirituais de Pessoa e Pascoaes» (cf. «O Labirinto da Saudade»). A poesia é conhecimento, filosofia, religião, profecia e o seu universo imaginário pressupõe uma «multiplicidade de centros de forças». E assim, para Maria das Graças Moreira de Sá, estamos perante um poeta da sombra, mais do que do dia claro ou das trevas. Daí ter de se entender a saudade não como um estereotipo simplificador, mas como uma encontro complexo de elementos contraditórios e paradoxais. Trata-se de um sentimento simultâneo de falência e de plenitude. Duarte Nunes do Leão fala sobre a saudade de lembrança de alguma coisa com o desejo dela e Garrett liga um gosto amargo ao delicioso pungir… A saudade é necessariamente contraditória. E que é a vida? «Para agir é preciso ser antes de tudo». Há, pois, um caminho que envolve a compreensão da abertura e da complexidade, do sentimento e da razão, de modo que se possa ir à conquista do Futuro… Tendo procurado encontrar o fundo do nosso espírito e reclamando uma «Renascença», essencialmente prospetiva, como Vieira falara de saudades do futuro, Pascoaes pôs em funcionamento uma espécie de lâmpada de Aladino, deu asas à sua imaginação poética, reclamou a força criadora, explorou o sentimento complexo da saudade, mas de facto pôde fazer da revista «Águia» uma incubadora da inovação cultural…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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