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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A resistência da palavra de António Alçada Baptista

 

Revi então toda a minha vida de homem casado com as suas mais pequenas experiências. Em primeiro lugar o casamento como um fim. Toda a construção do meu universo moral estava sujeita a este princípio: ou se vai para padre ou se casa. (…) mas o problema nunca foi o deixar de casar: a imposição do casamento exercia-se não só perante uma sexualidade que devia ser considerada, como pela impossibilidade de a viver fora do casamento. De certo modo, só nos interrogámos sobre a forma de viver o nosso casamento, nunca sobre a sua viabilidade.

 

Eu ainda fui educado a ouvir dizer que o «destino da mulher é ser esposa e mãe» e até demorei a reparar que isso é tão bizarro e inadequado como dizer que o «destino de um homem é ser esposo e pai».

 

António Alçada Baptista, in “O Tecido do outono” 1999, ed. Presença

 

Teresa Bracinha Vieira

OS CANDEEIROS…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (VII) - 7 de agosto de 2017

 

Esta também é do António Alçada, mas associa outro amigo do coração – o José Guilherme Merquior, grande ensaísta e diplomata brasileiro. 

Pouco depois do 25 de Abril, o José Guilherme passou por Lisboa e fez uma conferência no Centro Nacional de Cultura sobre a crise da cultura contemporânea. Ele era uma personalidade fascinante que amava verdadeiramente a liberdade. Ainda havia naquele tempo um fervor revolucionário…
A conferência, como se esperava, foi um sucesso e revelou a extraordinária lucidez do seu autor. Um perguntador profissional invocou a ladainha habitual do materialismo dialético. E o José Guilherme foi claro, como era seu apanágio, na resposta:
- «O mais que eu posso conceder é que o materialismo dialético, como método de interpretação, pode ocasionalmente servir-nos de alguma utilidade, mas como filosofia, acho que funciona como os candeeiros para os bêbedos: mais para se agarrar do que para iluminar»…  

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

PRODUTIVIDADE…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (V) - 5 de agosto de 2017

 

O António Alçada Baptista era um incansável contador de histórias. Podiámos estar com ele horas a fio, serões seguidos, mas sempre havia motivo para bom convívio. A ele voltaremos mais vezes… Esta é dele.
Um amigo, diplomata brasileiro, foi colocado na Embaixada do Brasil na Holanda. Chegou à noite e, logo na manhã seguinte, telefonou para a Embaixada para combinar com o Embaixador a sua apresentação. Atendeu o porteiro, um português emigrado, que assegurava a guarda daquela casa. O diplomata perguntou: - O Senhor Embaixador está? – O Senhor Embaixador não está.
E como ele sabia como se compunha o quadro da Embaixada, foi perguntando, um por um, pelos seus titulares. Não estava nenhum. Admirado, perguntou: - Então, de manhã não trabalham? Resposta do porteiro zeloso: - Não. De manhã não vêm. À tarde é que não trabalham!...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RECORDAR: “lembrar-se, trazer à mente”, de RE-, “de novo”, mais COR, “coração”


A

António Alçada Baptista 

 

PLURALIDADE

 


Voltámos a pousar as palavras no local do seu nascimento. Fez-se um silêncio, e perguntaste

          - Queres ser minha vizinha? Farei o que for possível para que os olhos dos outros não deixem queixas nos teus

Vizinha sou e fui

(asilo e paz. Porta)

Eram sete os palácios brancos e habituámo-nos a deles partir sem nunca dizer adeus.

Não sei se nasci para este destino

(disse)

Pois também acho que deveria ser possível inverter o sentido dos dias

- Eu escolhia ontem e tu o amanhã. E ambos o mesmo ainda assim

E eu, dúvida, a pensar se acaso, os ponteiros do relógio se encurvam no meio dos dias e digo-te

- É que a aprendizagem também se converte no aprendido

(que se não resigna)

a superfície do mistério não existe. Olha-se de dentro das coisas

- Pois. O que interessa não é que a infância retorne. As perguntas não devem despistar

(também as quero com ternura)

-E?

Cada um tem o seu pedaço de tempo, de espaço, de vida. Não se deve viver na vida dos outros. Aliás isso faz confundir as mortes

Fazia frio. Recostei à lareira

e não é preciso ler para aprender

- Não, não é. A prometida razão expõe-se e tu sabes, se sabes que o caminho real passa pelo meio

(quando deixo de te escutar, pareces-me impossível)

Não digas isso. Uma pessoa, às vezes, agarra-se a tudo, até mesmo às contradições

- E o Borges também dizia que o mundo es el segundo término

cuyo primer elemento se há perdido.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2007