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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

  


Minha Princesa de mim:

 

   Um feroz amigo meu, dos antigos, dos tais que até gostamos de ver muitas vezes - mesmo quando discordamos - pegou num texto que escrevi sobre grupocentrismo português, em que citava Rúben A. e a referência deste a "atrasados culturais", e enviou-me uma carta de apreço pelo dito texto, intitulando-se, a si mesmo, "atrasado cultural".

 

   Devo dizer que essa expressão do autor de O Mundo à Minha Procura não é da minha lavra, nem sequer corresponde a um qualquer olhar meu para isso a que, de modo equívoco ou plurívoco, por aí se vai chamando "cultura". Esta é, para mim, como sobejamente te tenho dito, uma circunstância ou, se quiseres, o ecossistema do nosso pensarsentir. Todos, cada um de nós "tem" a sua cultura, todo um sistema, mais ou menos consciente, herdado e adquirido, de valores, normas, referências, onde respira e se move a sua, nossa, de cada um, visão do mundo, bem como o nosso modo de pensarsentir o tempo em que vivemos. Tal circunstância não é adiantada nem atrasada, é como é, presente e evolutiva. Nesse sentido, parece-me também claro que a cultura de cada um poderá ser mais ou menos aberta a descobertas, ilustrações, tentativas de compreensão de si e dos outros... Assim, até em sentido etimológico, cultura ganha o significado de ato de cultivar, ou seja, é espiritícola. Mas nota bem: o homem culto não é necessariamente erudito, não é um acumulador de ficheiros e referências; é, acima de tudo, aquele que trabalha o seu espírito no entendimento do mundo. Todos nós conhecemos analfabetos cultos e eruditos sem janelas. Atrevo-me a dizer, Princesa, que isso de "fazermos pela cultura" até é uma questão ética. 

 

   Por isso me parece hoje tão importante, Princesa de mim, todos aprendermos a ter presente essa motivação da cultura como incansável labor do entendimento do mundo, precisamente porque ela não se esgota em qualquer acumulação de saberes ou conhecimentos sempre revisíveis, mas antes é um exercício fundamental da nossa liberdade de pensarsentir, isto é, da dignidade humana. As pessoas não se cultivam por decreto, menos ainda pela imposição de dogmas, nem tampouco pela banalização de modas ou mesmo outros quaisquer padrões de pensaragir corretamente. As pessoas cultivam-se pelo gosto da descoberta e o exercício do espírito crítico. A raiz de ambos tem duas faces, afinal iguais, que compõem cada rosto humano: liberdade e dignidade. Para algum espanto de gente com que converso, muitas vezes repito - quiçá lembrado do horror de Georges Bernanos à robotização das almas, temor que bebi na minha juventude - que, nas sociedades hodiernas, o bombardeamento quotidiano de "notícias" e publicidade, "conselhos" e opiniões, vai estruturando uma ditadura insidiosa e anónima que retira a muita gente a simples largueza - ou, pelo menos, o descanso - de respirar espiritualmente. Tenho ideia de que o maior problema - para não dizer o impasse atual - das nossas democracias é a esclerose da comunicação pela ausência crescente de cultura das pessoas, isto é, de educação e oportunidades de exercício do espírito crítico, condições imprescindíveis de diálogo em liberdade. Na verdade, o problema não é as pessoas pensarem pelas próprias cabeças; é tornarem-se cada vez mais incapazes de o fazer... Talvez, sobretudo, por viverem num ambiente (numa cultura) tóxico. Daí a importância crescente da animação de grupos de reflexão e diálogo, de encontro de pessoas que, graças ao progresso e facilidade dos meios de comunicação, até nem precisam de se reunir fisicamente. Retorquir-me-ás que é por vezes bastante desanimador o panorama de notícias e comentários nos jornais e revistas "on line"... Mas se pensares que ele é sobretudo revelador da incultura corrente e da leviandade irresponsável do que por aí se diz, talvez ganhes ânimo para entrares na discussão e reclamares o direito de cada um à seriedade do outro. Quando, em carta recente, te falava, a ti também, nos tais grupocentrismos, tinha ainda em mente como a censura ditatorial se exerce em tempos e modos diversos, por caminhos tão aparentemente limpos e claros, mas ínvios ou encerrados a contestatários mal vindos... E, na verdade, não creio que seja fácil enveredar pelos caminhos "oficialmente" estabelecidos, para fazermos valer uma ideia nova ou diferente, uma dissonância de qualquer daqueles catecismos. Mas não será viável tornar audíveis vozes mais independentes das "corretas" inteligências, como da balbúrdia tóxica reinante, vozes apenas mais refletidas? Deixo-te a pergunta, Princesa de mim.

 

   Como achega à meditação de uma resposta, junto alguns estímulos de reflexão, algo paradoxais, a exigirem subtileza à nossa consideração. Quiçá eu seja um tanto conservador, na aceção do filósofo britânico Michael Oakeshott (1901-1990): Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o que já foi utilizado ao que nunca o foi, o facto ao misterioso, o verdadeiro ao possível, o limitado ao turvo, o próximo ao distante, o suficiente ao excedente, o conveniente ao perfeito. O mais curioso é este pensamento ocorrer-me quando lia a resposta do filósofo socialista francês Jean-Claude Michéa a uma pergunta do Philosophie Magazine sobre quais as "queixas" que ele teria contra a "visão siliconiana" do mundo defendida pelo patrão do Facebook, Mark Zuckerberg: É preciso muita ingenuidade para se acreditar que essa visão "siliconiana" do mundo possa contribuir de modo decisivo para a ultrapassagem dessa "atomização do mundo" e desse "isolamento do indivíduo", em que Engels via, em 1845, "o princípio fundamental da sociedade atual". Antes do mais, porque o tempo que o indivíduo "conectado" passa então a surfar de um ecrã para outro é forçosamente tirado ao da verdadeira vida comum, e portanto a essas relações humanas cara a cara que dela são o suporte privilegiado: uma "amizade Facebook" é muito diferente duma amizade real (um verdadeiro amigo é algo muito diferente de um follower!). Depois, porque esse mundo das redes sociais se organiza prioritariamente sobre um modo afinitário. Ora, o que define o pedestal antropológico fundamental de qualquer vida realmente comum, é que ela assenta no hábito psicologicamente formador de viver com pessoas - vizinhos, parentes, colegas, etc. --  que não escolhemos e que, portanto, não pensam necessariamente como nós... E, por isso mesmo, são condição essencial da nossa cultura.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   José Augusto Mourão, frade dominicano, semiólogo e professor universitário (UNL-DCC), de quem já te falei, escreveu o posfácio para A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol, um dos três livros que, para consolo ou provocação do espírito que eu não queria ver a concentrar-se em cirurgias, decidi que andariam comigo. Serão textos difíceis, isto é, exigirão atenção, mas eis o modo que encontrei para me distrair de atrapalhações sobre as quais pouco entendo e nada posso. Em tempo de bem vinda chuva, clareou a tarde deste domingo, e fui ao fundo do jardim iluminar-me com o amarelo solar da mimosa em flor, exuberante, carnavalesca, em qualquer inverno, em pleno fevereiro. E esta é teimosa sobrevivente, a única que escapou ao tornado que nos varreu em dezembro de 2013. Cheio dessa alegria interior, vim pegar nos textos reservados, e escolhi para ti aqueles que aquela exuberância floral mais iluminou na presente leitura. Há comunicações esquisitas como estas vozes da luz que não se ouve...

 

   Mourão recorda, na senda de Llansol, o "meu" querido Mestre Eckhart, de que tantas vezes te falei e em mim sempre sustenta o indizível:

 

   A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir» «sem porquê», «nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas unicamente em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser e a sua própria vida» (Sermão 6)... [...] A única resposta à vertigem é o ritmo. O ritmo - o ritmo poético, o batimento da língua - é uma figura. A imagem - a imagem poética - é uma figura. A língua do poeta configura-se, o poema é uma configuração. O «como» da comparação é também um «cum» - um com -,, logo uma reciprocidade, uma mutualidade. Para o artista, o mundo é o lugar de desenvolvimento das figuras. É a figuratividade do mundo que o poema diz.

 

 

   O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de «sobrenatural», eterno ou «supra-humano». A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue, mas não separa. As fórmulas de samsara/nirvana/atman, theios/theopoiesis, união hipostática, Encarnação, tudo aponta numa mesma direção: os valores seculares são sagrados. Pannikar propõe a palavra tempiternidade para exprimir esta intuição.

 

   Sabes bem, Princesa de mim, quanto tenho insistido no meu muito íntimo pensarsentir o cristianismo como a incarnação de Deus, a secularização do sagrado, quiçá no cerne de um processo de renovadora transformação do cosmos, como acreditava Teilhard de Chardin. Ou frei Sérgio de Beaurecueil, solitário padre católico em Cabul, quando trazia o seu quinhão de pão partilhado com muçulmanos ao almoço e o consagrava, ao fim da tarde, na sua capelinha. O Corpo de Deus não é coisa que se exponha à reverência, antes é a comunhão dos homens no amor, sublime ação de graças, eucaristia. A nossa religião nada tem de mágico; ou, se assim quiseres, tem como única magia o incessantemente repetido gesto de Deus a querer habitar o coração dos homens. Quanto à escrita de Maria Gabriela, que aqui me trouxe a ti, lê comigo a Lição 1ª de A Restante Vida:

 

   Ana de Peñalosa chegou ao fim da vida. Ser o fim é-lhe indiferente, não tem muito sentido. Mais uma vez pensa utilizar

a escrita

que sempre lhe serviu

de laboratório

e de alquimia.

 

                                             Refletindo,

                                             disse para consigo:

                                             Não será uma arte demonstrativa.

 

A escrita,

vê-la escrever-se lucidamente,

é o fundamento deste real.

 

   Este livro que venho trazendo comigo é o segundo da trilogia Geografia de Rebeldes, que começara com O Livro das Comunidades e se termina com Na Casa de julho e agosto. No final da reedição deste, em 2003, insere a Relógio de Água, o Espaço Edénico - uma entrevista que a autora deu a João Mendes, publicada pelo Público em 18 de janeiro de 1995. Desta te transcrevo uma simples resposta da escritora, que me ajuda a pensar no que te tenho dito:

 

   Como não sou teóloga, o que vejo no texto é que há uma «presença insondável» na nossa vida. Não vale a pena ter medo dela. E tens os atributos. Não há maneira de passar em silêncio. E tens a substância. Com as palavras, não a consegues falar; mas ninguém te impede de caminhar na direção da tua imagem. Conheces outra utilidade melhor para o teu corpo?

 

   E agora, Princesa de mim, sou eu a dizer-te que não, que não conheço. Fez-se escuro lá fora, calaram-se todas as vozes dos campos. Mas dentro de mim me chama a luminosidade de uma mimosa em flor, no céu de fevereiro. Vês? Também não sou teólogo, nem coisa que se pareça. Sou um homem simples que olha para o céu a fechar-se sobre os campos. Citadino de origem, no século XXI, já sei que ele, o céu, não é uma abóbada, nada que nos cubra e obrigue - com sinais de cometas, meteoritos ou estrelas fugazes - mas algo que o nosso conhecimento ainda não sabe nem pode limitar... E tanto, ou tão pouco, me basta para contemplar e amar a infinitude de Deus. Eterna saudade que me chama, sempre a mesma, incansável vocação, mesmo falando muitas vozes. Gente que se diz muito religiosa, cheia de uma fé inamovível em dogmas definitivos, quiçá possuidora de conceitos arquitetados para encerrarem Deus, pensará que serei pouco ou nada religioso. E, na sua perspetiva, tem certamente razão. Afinal, eu acredito numa presença insondável na minha vida, como um sopro que me move e percorre o mundo todo. Esperança em que, no dia tremendo da paz, o amor mandará finalmente nisto tudo.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


   Ruben A.

Minha Princesa de mim.

 

   Vivi hoje uma experiência intrigante para mim, quiçá despicienda para outros: cheguei a casa, aqui no meio do campo, depois de quatro dias de cidade e hospital, com uma cicatriz (?) inchada no pescoço, vaga memória de uma cirurgia e o habitual desarranjo dos antibióticos. Tudo OK! Vim direitinho a este gabinete onde me guardo de muitos malefícios, e passeei o olhar turvo para além da janela, sobre os campos que uma quieta tristeza invernal e uma paz sem tempo me descobriram bem belos... Foi um alívio, renasci, isto é, abri olhos novos. Tinha levado comigo, para entretém convalescente, Os Degraus do Parnaso, do M. S. Lourenço, A Restante Vida, da Maria Gabriela Llansol, e o 1º volume de O Mundo à Minha Procura, do Rúben A. Tenho coisas para te dizer de todos eles, ou melhor, dos passos deles que fui relendo. Mas agora, já caída a noite, e a caminho de um aconchego no silêncio que recolhe esta casa quase deserta, quero transcrever-te um trecho de O Mundo à Minha Procura - que levarei para vale de lençóis: Sou, portanto, contrário a que uma autobiografia se escreva no momento da reforma, quando se deixou de ser chefe de Estado, se abandonou a vida pública, ou quando da caneta já nada mais pinga. Uma autobiografia como O Mundo à Minha Procura só pode ser escrita por volta dos quarenta anos. Deixá-la para mais tarde é deixar vivência poderosa que se acarreta, mas que na pista dos quarenta tem de alijar parte da carga que trouxera das estações do passado. Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental, e no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra...

 

  Reconheço-me, nesta vida campestre que há três meses iniciei, na limpeza da casa, nas telhas procuradas, num novo sistema de sentimento do mundo, num jardim com a delícia de inexplicável paz, nessa voz que me diz, todas as manhãs, que daqui para a frente a contagem é outra. Essa é, para mim, a voz da Misericórdia a acolher-me, e sempre me diz que não tenha pressa, pois o dia que chega é como todos os outros: traz suor e pão. Tampouco tenho com que escrever uma autobiografia, ainda que me aproximando de duas vezes quarenta... Seja como for, viver no campo faz do citadino de mim um velho novo.

 

   Rúben A. publicou este primeiro volume da sua autobiografia em 1966, com quarenta e seis anos de idade, nove antes de morrer, de um enfarte, em Londres. O título está bem achado, o que o autor nos conta é a história dos seus encontros e desencontros com o mundo, a dialética dele mesmo com a sua circunstância, que tanto o faz tornar-se dela como dela fugir. Eis a vida de um ser em relação, narrada com a simplicidade de memórias autênticas, percebida com desconcertante ingenuidade, esta entendida como a inocência inicial. Quando há décadas li pela primeira vez o livro todo, aconteceu-me o que me sucedeu com El Amor en los Tiempos del Colera do Gabriel Garcia Marquez e O Ano da Morte de Ricardo Reis do José Saramago: levei o volume para a cama e só o fechei na manhã seguinte. Mais tarde, regressei a eles todos, para reler passos ou trechos, e também acabei sempre por descobrir coisas que antes não encontrara. Esta noite, reencontrei aquela parte em que Rúben A. nos conta:  Vem-me logo à imaginação o caminhar apressado da rua para apanhar o elétrico que dava mesmo para a primeira aula, aquela rua sem fim, palmilhada com o credo na boca e que servia aos últimos momentos para, de livro em punho, saltando de cova em cova, estudar, rever, passar a limpo pela memória as conjugações irregulares dos verbos franceses, as descrições mineralógicas de cristais que viviam apenas na minha imaginação, e o muito teórico latim, o famigerado latim, o facinorado latim. E o horror que eu tinha em ir ser chamado, em ir pôr-me em sentido diante dos professores de gerações já passadas há muito tempo! Quem escreve aquelas linhas é licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra e no momento da escrita, penso, seria funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa. Ou antes será o adolescente que morava na casa grande da sua avó, na Quinta do Campo Alegre, no Porto (onde hoje é o Jardim Botânico) e vai a caminho do liceu?

 

   Desta feita, o que descobri (novamente?) e me fez pensar foi algo que com alguma frequência pensossinto, sempre com receio de estar a ser injusto, isto é, de ter mais direito ou virtude do que outros. A dado passo, não é o jovem liceal que fala, mas certamente o homem maduro, mordido e marcado: Na sociedade portuguesa há um ciúme indescritível perante a coragem e perante a cultura. Que um dos seus membros se liberte pelo espírito ou pelo valor humano é o maior insulto que eles, atrasados culturais, julgam que se lhes pode fazer. Sentem-se ofendidos, reagem de certo modo com maledicência, uma vez que não tendo nem grandes amores nem grandes ódios oferecem apenas o mesquinho da perseguição, fechando as casas, achando as pessoas um peso, ou votando a um ostracismo aqueles três ou quatro - em cada década só há também três ou quatro aves migradoras - bodes expiatórios da purga mental da sociedade, ancorados para toda a vida a um inferno. Esquecem-se da felicidade que irá acolher os eleitos, os que souberam fazer a escolha depois de anos de amadurecida visão, depois de terem estado sós... ... Não compreendem, porque está fora do seu alcance, o sentido de plenitude contemplativa que paira em seres semelhantes mas de idioma mais delicado...   ...São os cadáveres adiados que procriam, de que fala o genial Pessoa... ... Têm uma linguagem especial; raros são os que tentam novo alfabeto. Só conheci um homem rico e civilizado em Portugal - o resto são amigos uns dos outros, falam em cifras, comungam moedas, apertam a mão em notas e quando conjugam a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo dar enganam-se e dizem o pretérito em dei. Já dei, já dei, como quem foge a esconder-se de uma peste. Não tenho tido, na vida, mesmo apesar de agressões sofridas, experiências traumatizantes. Talvez por sempre me ter lembrado desse ensinamento de minha Mãe que dizia como, perante, certos ataques ou negações da nossa circunstância, devemos pensarsentir que ça glisse sur la cuirasse de mon indiférence... Mas este passo de O Mundo à Minha Procura - que, neste particular, até me apetece, com alguma ironia, traduzir para francês como Ce Monde qui me Cherche - evoca em mim impressões mais ou menos vagas ou constantes da atmosfera grupocêntrica da sociedade portuguesa, composta de clubes ou partidos que gostam de se reunir no seu modo próprio, pensando sensivelmente da mesma maneira, repudiando por princípio o outro, olhando para a diferença com superioridade, desconfiança ou receio. Já reparaste, Princesa, que em vários sectores da nossa sociedade aparecem sempre os mesmos a perorar e sustentar-se? Nesse sentido, somos profundamente provincianos. E creio que, precisamente porque nos encerramos em ortodoxias e correções, não nos autodesenvolvemos. Vamos "lá fora" buscar ideias e vocabulário, nem sempre reparando em muitos erros de tradução. Deixa-me transcrever para ti um parágrafo de Uma Pérola para Fradique, texto inserto em Os Degraus do Parnaso do M. S. Lourenço: Eça de Queiroz convence ao desenhar um verdadeiro cosmopolita na figura de Fradique. Nós sabemos que este é o cosmopolitismo verdadeiro em virtude da perceção de Portugal que ele torna possível, uma perceção dura mas que sugere também um programa de regeneração: Portugal é na verdade um país traduzido do francês para calão. A descoberta cosmopolita de Fradique, de que os portugueses só utilizam uma variante reles da sua própria língua, contém no entanto em si a possibilidade de os mesmos portugueses deixarem de falar, de pensar e de sentir em calão.

 

   Escrever-te esta carta, Princesa de mim, foi um exercício de alívio do incómodo físico em que me encontro. Bem hajas!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de que quando fiz os exames do nosso "7º ano do liceu", como então se dizia, para a "média" das classificações das provas escritas também contribuiu a "nota alta" que me foi dada a "História", no liceu Passos Manuel, onde me apresentara a exame, vindo do Colégio de Clenardo, de padres e privado. Recordo a efeméride, porque a minha dissertação escrita incidira e se concentrara sobre a importância histórica da descoberta do caminho marítimo para a Índia, com forte insistência na consideração de objetivos estratégicos (económicos, políticos e religiosos) e no seu confronto real com outros povos e culturas. Era certamente entusiástica e - pelo menos assim sentipensei - talvez bem fundamentada, para me merecer a recompensa. Quarenta anos depois, em 1998, quando acompanhei a visita do príncipe herdeiro do Japão à EXPO de Lisboa, mais, talvez, do que na lembrança de Portugal no pavilhão nipónico, reparei na referência que "nos" fazia, logo à entrada do seu pavilhão, a União Indiana: resumindo, explicava que o eldorado que os europeus procuravam se encontrava na Índia, e o caminho para lá fora descoberto pelos portugueses. O novo mundo de Cristóvão Colombo fora engano. Por muito que tal pudesse festejar o ego tão carente da cultura portuguesa tradicional - que, aliás, neste particular não distingue monárquicos de republicanos, nem "fascistas" de comunistas - a representação oficial da União Indiana procurava aqui, sobretudo e aproveitando uma exposição em Portugal, tornar-se centro de atenções... E agradar aos indígenas (nós, claro!)

 

   O que, francamente, tampouco deixou indiferente o meu próprio "brio patriótico"... Mas também me levou a refletir e me interrogar - era residente no Japão - sobre a perceção corrente (a tal que é comum e quotidiana) que a gente nipónica tem de "nós", comparando-a, ainda, com a versão dela que nos é proposta pelo nosso amor próprio. Falei muitas vezes, em charlas e círculos restritos, da evolução do meu pensarsentir sobre o assunto. Hoje, pela primeira vez, e para ti, escrevo sobre a questão.  É, com os pés no chão, uma lembrança de coisas que li, vi, ouvi e registei in loco. Como sabes, não sou mitómano...

 

   Em todas as escolas japonesas se aprende, logo nas primeiras classes de história, que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, que náufragos portugueses foram os primeiros europeus a arribar ao Japão, onde introduziram o teppo, ou arcabuz, creio, e que Francisco Xavier foi ali o primeiro missionário cristão, chegado seis ou sete anos depois. [Também todos nós, na escola primária, Princesa, ouvimos falar de Viriato...] Hoje, a esmagadora maioria dos japoneses pouco ou nada sabe de Portugal, e os que em nós pensam podem ser classificados em dois grupos: aqueles que, ao acaso de encontros ou por tradição familiar ou outra, são amigos de Portugal, podendo até participar e animar (secundários) departamentos de "português" em universidades locais (pouquíssimas e, aliás, hoje mais orientadas pela relação muito mais estreita com as comunidades nipo-brasileiras (o Brasil foi importante destino da emigração japonesa) ou, ainda, grupos, clubes, associações de amizade, etc.; e os que, quanto mais privam connosco, tanto mais à vontade nos dizem que se sentem por vezes menores   por se apontar como primeira gente curiosa do ocidente por eles um ínfimo e pobríssimo povo europeu... Claro que há outros interesses japoneses em Portugal, e é sobretudo comovente a simpatia dos pequenos núcleos que celebram amizade connosco. Mas somos, naquele oceano, uma gotinha de água - e qualquer português que lá tenha vivido uns anos sabe do que falo. Nas visitas oficiais, o tema do primado da chegada e contactos dos portugueses, claro está, é sempre recordado... quiçá porque nada mais há para invocar. [Já noutro registo, ocorre-me, Princesa, uma crónica publicada na revista Flama, nos anos 50 (cujo título era Lágrimas de Crocodilo...seria?... e o autor Joaquim Silva Pinto, já não me lembro...) que perguntava, com ironia: O que é que os estrangeiros pensarão de nós? Ainda temos o mesmo tique, basta passar os olhos pelos nossos jornais ou um distraído ouvido pelos debates políticos...] Facto é que nem o conhecimento do Portugal atual, nem a curiosidade pelos portugueses de hoje são comparáveis ao maravilhado encanto que, no século XVI, os nanban, ou bárbaros do sul despertaram nas gentes do arquipélago nipónico. Alguns saborosos exemplos dessa atração vêm apontados no capítulo Os Nanban do meu Fomos em busca do Japão... Mesmo os vocábulos de origem portuguesa que, naquele tempo, diziam, na fala japonesa, as coisas que eles antes não conheciam (gibão, capa, botão, vidro, copo, etc.) caíram em desuso e foram substituídos por anglicismos. Ficaram as palavras da doutrina e da liturgia cristã católica (Deus, Maria, missa, etc.), aliás de origem luso-latina: a língua da religião, na altura, era, como sabes, o latim. Dito isto, é sempre com indestrutível carinho e admiração que recordo o século cristão (o "nosso" século) no Japão. Sabendo hoje que também ganharei dele um melhor entendimento, se o considerar como um período importante, a vários títulos, da história dos japoneses, e não sobretudo como saudosa épica glória "nossa"... 

 

   Eu mesmo já inocentemente disse que Silêncio, o livro mais célebre de Shusaku Endo, era um romance histórico. Queria só lembrar que todo esse drama é situado num passado distante, mas tive logo o cuidado de chamar a atenção para o propósito do autor, que poderia ter escolhido outro cenário. Depois de tanto escarcéu à volta do filme com o mesmo título, sinto-me na obrigação de sublinhar que não, não é um romance histórico - muito menos no sentido lusocêntrico de exaltação das nossas primazias e glórias - e já expliquei porquê. E até a personagem principal, o padre Cristóvão Ferreira, eminência parda na tramoia dos factos relatados e inventados, está, afinal, perenemente presente, é ela a metáfora da luta, no coração do homem, entre as opções possíveis da fraqueza humana e a misericórdia de Deus... O romancista, trata-o, aliás, com compassiva simpatia, ao ponto de achar um desfecho, uma "explicação" da apostasia que os documentos históricos não corroboram. Cito o padre Francis Mathy, s.j., da Universidade Sophia, Tokyo, sobre o padre Cristóvão Ferreira (1580-1650): Em 1632 foi feito Provincial do Japão e, portanto superior de todos os jesuítas que ali trabalhavam. O relatório anual do estado da missão foi escrito por ele em 1628, 1629, 1630 e 1631; todos estão ainda conservados nos arquivos romanos. O último é especialmente interessante por dar longa e vívida conta dos mártires em Unzen. Em 1636 foi capturado e submetido à tortura da fossa, tendo subsequentemente apostatado. Foi-lhe dado o nome de um criminoso executado, Sawano Chuan, mais a mulher e o filho deste, e juntou-se aos seus antigos perseguidores na sua inquisição. Em 1636 escreveu o livro "Kengiroku" (Uma Clara Exposição da Falsa Doutrina), um rigoroso ataque cerrado ao Cristianismo. Também traduziu para japonês vários tratados ocidentais de medicina e astronomia. Anos mais tarde, o seu nome aparece em vários julgamentos a que foram levados cristãos. Por exemplo, estava no tribunal de Edo, em 1639, que condenou à morte o padre Kibe, jesuíta japonês. Este, nos seus momentos derradeiros, exortou zelosamente Ferreira a voltar à prática da sua fé.

 

   Mas sem resultado, porque Ferreira parece ter morrido sem arrependimento em 1650. No drama teatral sobre o mesmo tema da apostasia de Cristóvão Ferreira, a peça Ogon no Kuni (O País do Ouro), o padre pisa o fumi-e para poupar, não só a sua vida, mas a de outros cristãos, acreditando que a voz de Cristo assim lhe ordena. Outro apóstata, Inoué, um perseguidor japonês que foi cristão e abjurou por ter concluído que o cristianismo não é adaptável ao Japão, dirá a Ferreira, na última cena da peça: Indo direito ao assunto, não foi por mim que foste vencido, mas por este pântano chamado Japão... Mas a última voz a ouvir-se, antes do cair do pano, será a de Hirata Shunzen, adjunto de Inoué: Quatro padres cristãos acabam de desembarcar em Amami O-shima. Chegaram num barquito remado por chineses e conseguiram desembarcar a coberto da noite. Dizem que, em Silêncio, é vencedor o pântano, enquanto que, em O País do Ouro, esse novo Judas que se chama Cristóvão parece ter feito da sua queda um sacrifício reparador, ele mesmo que confessa já não ser português, nem poder vir a ser japonês, nem cristão, nem opositor de cristãos. Sou um cadáver vivo. As reações de leitores e críticos ao romance de Endo terão encontrado mais simpatizantes no ocidente do que no próprio Japão. Tal pode explicar-se pelas circunstâncias culturais de uns e de outros. Já em 1969, no seu prefácio à primeira versão inglesa de Silêncio, o tradutor, William Jonhston, da Universidade Sophia, afirmava que o problema central que preocupou o Sr. Endo desde os primeiros dias é o conflito entre Oriente e Ocidente, especialmente na sua relação com o cristianismo... Já me referi a isso várias vezes no passado, incluindo em considerações sobre o carácter estrangeiro do cristianismo, no meu Fomos em Busca do Japão. Voltarei ao tema em próxima carta, pois continuo a pensar que, mais do que religioso - mesmo tendo "facilitadores" culturais - o processo de perseguição do cristianismo no Japão foi eminentemente político. Mas hoje quero só citar-te mais um passo do prefácio do jesuíta Francis Mathy à sua versão inglesa do Ogon no Kuni: A ação de "O País do Ouro" centra-se sobre a tensão existente entre o cristianismo e o "pântano", uma tensão que, antes do mais, está no próprio Endo. Na novela "Silêncio" é o pântano que vence. Não acontece assim na peça, escrita pouco depois. A impressão que envolve a peça e mais tempo permanece com o espectador é a da coragem, nobreza e amor dos mártires. Contra essa imagem concreta, a abstrata tese de Inoué é impotente. Todavia, tanto a novela como a peça sublinham com força o trabalho que ainda é necessário fazer para modelar o cristianismo essencial numa forma que vá tocar nas cordas do coração japonês e liberte o seu amor e ação. Um cristianismo que permaneça um credo abstrato ou uma lista de obrigações jurídicas, de faças e não faças, nunca sobreviverá no pântano. Contudo, isto não é basicamente um problema de Oriente e Ocidente, mas de qualquer motivação humana, independentemente das culturas. Concordo inteiramente: já não me lembro de quando e onde escrevi um dia que o pântano de Shusaku Endo é uma metáfora não necessariamente negativa, nem pessimista: apenas quer exprimir a dialética interior própria a qualquer conversão. Por isso a escrita de Endo é sempre desafiante e controversa... É, por outro lado, ridículo e confrangedor alguém pretender que Silêncio é uma tentativa de justificação ou perdão da apostasia. O romance não é apologético, muito menos pretende ser teológico. É, em meu entender, e como já disse e repito, a narração metafórica da luta interior de qualquer de nós contra e pela sua fé... Além disso, também pensossinto - e tal, insisto, é eminentemente subjetivo - que a nossa relação com Deus se tende pela simultaneidade de uma presença com a sua própria distância. Assim, qualquer conversão é um caminho de saudade, um regresso.

 

   Como exemplo de outras reações nipónicas ao romance de Endo, transcrevo a do professor universitário Yanaibara, cristão japonês protestante, que - quiçá não compreendendo essa tensão interior de que falo - curiosamente faz ressaltar outro aspeto negligenciado da japonização do cristianismo, que vai desdramatizar a tal oposição oriente/ocidente e nos leva também a considerar a realidade histórica que foi terem sido muito maioritariamente japoneses as vítimas da perseguição. Facto que, aliás, Endo não escamoteia na sua própria ficção, onde, ao lado de apóstatas, a gente nipónica também surge com mártires seus. Mas escreveu Yanaibara no jornal Asahi Shinbum:

 

   Os mártires ouviram a voz de Cristo, mas para Ferreira e Rodrigues Deus estava silente. Não quer isto dizer que, desde o princípio, esses padres não tinham fé? Por essa razão, o combate de Rodrigues com Deus não é descrito... ...Obviamente, a crença de Inoué e Ferreira em que o Japão é um pântano que não pode absorver o cristianismo não é razão para apostasia. Foi por ter perdido a fé que Ferreira começou a pensar dessa maneira... ... Naquele século cristão, houve muitos japoneses que sinceramente acreditavam em Cristo, e há hoje muitos que também acreditam. Nenhum cristão acreditará que o cristianismo não pode criar raízes no Japão. Se os japoneses não podem compreender o cristianismo, como teria sido possível o Sr. Endo escrever tal romance? -  Este artigo foi publicado no Asahi, em japonês, em 1966, três anos antes da primeira tradução (para inglês) de Chinmoku (Silêncio).

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Neste meu retiro campestre, lá vou guardando umas três horitas distribuídas pelo dia, para escuta meditada de música. Sempre encontrei, nessa entrega simultânea ao som de instrumentos e vozes humanas e ao meu silêncio interior, momentos de inefável consolação. Assim me harmonizo.

 

   Esta manhã, fui buscar à discoteca cá de casa o registo, pela Deutsche Grammophon, das duas cantatas imperiais de Beethoven, interpretadas, em 1992 (dois séculos depois da respetiva composição, em 1790) por solistas, coro e orquestra da Deutsche Oper Berlin, sob direção de Christian Thielemann. Ambas com letras de Severin Anton Averdonck, dedicadas, a primeira - Trauerkantate auf den Tod Kaiser Josephs des Zweiten - à morte do imperador José II; a segunda - Kantate auf die Erhebung Leopold des Zweiten zur Kaiserwürde - à entronização de Leopoldo II, não foram, todavia, executadas na altura, sendo a Josephs Kantate, contudo, a que primeiro se fez escutar, aquando da descoberta de ambas, em 1884.  Ouvindo-as, uma a seguir à outra, veio-me à memória a célebre aclamação: Morreu El-Rei, viva El-Rei! Na verdade, Ocorreu-me a tese de Ernst Kantorowicz sobre os dois corpos do rei (The King´s Two Bodies: A Study in Medieval Political Theology, Princeton University Press, 1957).  Judeu e nacionalista alemão, prudentemente fugido ao nazismo, autor de uma biografia de Frederico II, sagrado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (a ênfase é voluntariamente minha), o qual foi, no século XIII (viveu de 1194 a 1250), curiosamente, um soberano independente, talvez mais preocupado com o seu reino da Sicília e o domínio da Itália do que com a sua Alemanha dos Hohenstaufen; católico tradicional mas cético, coroado pelo papa, mas adversário de papas, quatro vezes excomungado, protetor da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, poliglota e culto... Penso que a teoria dos dois corpos do rei está bem lembrada, e a propósito, por Nicole Lemaître, professora emérita na universidade de Paris, que em entrevista à revista CODEX (1º trimestre de 2017) afirma: Penso na teoria dos dois corpos do rei, nascida na Idade Média. Tal ideia tem a sua fonte na teologia cristã da dupla natureza de Cristo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem). De acordo com teólogos e canonistas, os reis, na época medieva, têm um corpo mortal e um corpo glorioso. O corpo mortal é o corpo terrestre, o corpo glorioso é político e imortal. Representa a comunidade constituída pelo Reino. O rei no seu corpo glorioso não pode morrer, donde o adágio: "Morreu o rei, viva o rei." eis o que me leva a pensar o rei como garante da paz civil. Esta teoria permite-nos pensar num Estado moderno distinto e eterno. Um Estado que não depende da arbitrariedade do soberano. Na génese do Estado moderno há, pois, uma ideia teológica. Eis o que nos dizem os medievalistas que estudaram a teoria dos dois corpos do rei, a partir dos rituais das sepulturas e das coroações...

 

   E será assim, Princesa, que a primeira cantata de que falamos primeira vai sobreviver na segunda. Ouvimos:

 

   Tot! Tot! Tot! Tot stöhnt es durch die öde Nacht. Morte! Morte! Morte! Morte, se ouve gemer na noite desolada...   ... José o Grande, José, o pai de feitos imortais, está morto, ai!, morto! ...   ... Aqui adormeceu em profunda paz aquele que tanto aguentou, que quando por cá andou nunca pôde colher uma rosa sem se ferir, o que trouxe a felicidade da humanidade no seu generoso coração, sofrendo, até ao fim dos seus dias...

 

   E escutamos, depois, a sua sequência na segunda:

 

   Er schlummert... schlummert! Adormeceu... adormeceu! Deixai o grande príncipe repousar em paz! Quando morreu, a morte proclamou a infelicidade dos povos e os filhos de Teutão gritaram para as estrelas: dor! Então Yahvé lançou um olhar compassivo e os terrores da noite desapareceram... Eis que o céu voltou a ser rosado e já as gargantas metálicas fazem trovejar a alegria e a glória, descidas do Olimpo. Glória! Trovejou o trovão, caiu o raio, já não se enraivecem as tempestades no mar, secaram as lágrimas das nações. Glória! Vem aí uma nuvem brilhante... Abre-se, e que vejo eu? É Leopoldo, eis o nosso imperador, príncipe e pai!

 

   Esse Averdonck dos versos era irmão de uma cantora, Joana-Helenea Averdonck, discípula de Beethoven, e padre "constitucional", muito próximo das ideias e instituições do Iluminismo praticado pelo imperador José II, admirado por Beethoven. Morreu antes de completar 25 anos, a autoria das letras de ambas as cantatas ter-lhe-á sido pedida pelo compositor que, aliás, recebera a encomenda da primeira pela Bonn Lese-und Erholungsgesellschaft para um serviço fúnebre a celebrar em Bona, cujo Eleitor era, precisamente, o irmão mais novo do imperador, Maximiliano Francisco. Ao que parece, na altura, Igreja e Maçonaria iam-se vendo... E a monarquia hereditária não estava necessariamente fora de moda.

 

   Fui à janela deste meu gabinete ver a serenidade dos campos, tão quietos no Inverno. Vejo homens que, além, podam as pereiras, cortando com sageza (ou prudência, se preferires, lembro-me sempre de que esta é um amor sagaz...). Mais perto, outros limpam os miosporos, que ladeiam o caminho por onde saio e entro, das folhas que a geada queimou. Peço a um deles que pode a cerejeira do Japão que há quatro anos plantei, mesmo aqui defronte. Talvez venha a dar, na Primavera próxima, as primeiras sakura. Quiçá?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Com tanto alarido à volta do filme do Scorsese, Silêncio tem havido pouco. Nem tampouco ouço vozes que nos aproximem do drama dos cristãos japoneses, nem sequer de uma compreensão mais próxima do combate obsessivo de Endo Shusaku pelo entendimento da sua própria fé cristã. Este, tanto quanto possamos depreender de passos da sua obra literária, tem muito a ver com sentimentos de divisão e traição (ao pai ou à mãe), com solidão e separação (rasgões que experimentou através da companhia e deserção de animais domésticos) e, já no plano mais propriamente racional, cultural, filosófico e religioso, com o problema do mal, do pecado e da graça, da misericórdia de Deus. Começo por te referir um passo do romance Rio Profundo (Deep River, na versão inglesa, Le Fleuve Sacré, na francesa), em que Otsu, seminarista jesuíta japonês em Lyon, França, desabafa assim: Não posso perceber a diferença entre o que as pessoas de cá chamam o bem e o mal. Penso que no bem se esconde o mal, e vice versa. E aí intervém a magia de Deus. Até pode servir-se dos meus pecados para os transformar em salvação...   ... A Igreja considera-me herético. Corrigiram-me: "Não distingues claramente as coisas, tens de agir com mais discriminação. Deus não é assim". A pobre personagem quererá pensar num cristianismo que se coadune com a mentalidade japonesa. Eis um ponto fulcral para o entendimento, não só de atitudes e comportamentos de católicos japoneses perante os  estrangeiros (lembra-te do que eu já contei da minha experiência com a família católica dos meus senhorios em Tokyo ou das diligências que, enquanto Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, fiz junto da hierarquia da Igreja em Nagoya) mas sobretudo da estranheza - para não dizer dificuldade de aceitação, desconfiança, ou mesmo aversão - que uma pregação rígida da ideia cristã pode causar nos japoneses. Já no século XVI, em debates entre missionários jesuítas e bonzos budistas, os japoneses interrogavam sobre se poderia ser infinitamente misericordioso um Deus omnipotente que, todavia, condena e castiga gente, mesmo até ao inferno eterno. Ou como poderia o mesmo Deus ser justo, ao pretender que há uma só religião verdadeira, quando, afinal, tanta e tanta gente nunca ouviu nem ouvirá a boa nova evangélica, do que não têm culpa. Nesse romance de Endo, Otsu afirma que estou persuadido de que o homem elege o seu Deus em função do seu local de nascimento, da sua cultura, das suas tradições e do seu ambiente. Os europeus escolheram o cristianismo porque assim o haviam feito os seus antepassados, e a cultura cristã era predominante no seu país. Não se pode dizer que os habitantes do Médio Oriente se tornaram muçulmanos, nem a maioria dos indianos hindus, após terem feito rigorosas comparações com outras religiões. Quanto a mim, foi a minha mãe e a sua particular influência que fizeram de mim o que sou. [Este passo é claramente autobiográfico, num romance em que Endo Shusaku se revê, ou descreve, sobretudo noutra personagem, Numada de seu nome]...   ..." Mas nunca pensaste que teres nascido numa certa família foi graças à bênção de Deus e ao seu amor?" - perguntou-me certo dia o meu diretor espiritual. "Sim, mas foi também graças à Sua bênção que aqueles que nasceram noutros lares acreditam noutras religiões... - responde Otsu/Endo.

 

   O tal Numada, como Endo ele-mesmo na vida real, passara a infância em Dalian, na Manchúria, que à época fora colonizada pelos japoneses. Ajudado por um jovem criado chinês - que seu pai mais tarde despediria - recupera da vadiagem das ruas um cão manchu, que criará e a quem chamará Negrão. Quando os pais se divorciam, na sequência do alcoolismo crónico do marido, Numada/Endo parte para o Japão com a mãe. E assim, depois de ter perdido Li, o criado amigo, terá de se separar de Negrão. Mais tarde, o menino já adulto nunca esquecerá o olhar de despedida do seu cão. Foi graças a ele e a Li que aprendeu o significado da palavra separação. Já casado e escritor conhecido, Numada adquire um estranho pássaro tropical, um calau. Este acabará por voar livremente no gabinete do romancista, que com ele conversa e o calau observa enquanto escreve. Quando a ave morre, a mulher de Numada, que muito discutia e protestava contra a sujidade que o bicho lhe fazia em casa, oferecer-lhe á outro pássaro diferente. Percebera que o marido era incapaz de explicar o seu desejo intenso de se religar a todos os seres vivos. A semente nele plantada pelo Negrão, na infância, tinha lentamente frutificado num mundo imaginário que ele só podia descrever através das histórias que contava. Aí, as crianças eram capazes de compreender o murmúrio das flores, as conversas das árvores, e até de ler os sinais trocados pelas abelhas entre elas, ou as formigas. Apenas um cão e um calau tinham compreendido a solidão que, já adulto, ele não conseguira dissipar... 

 

   Essa sentida solidão - em Endo autor e muitas das suas personagens - acaba sempre por ter uma proposta de companhia: a de Jesus. No romance Chinmoku (Silêncio), o padre apóstata ouve em confissão o renegado Kichijiro, que o traíra. Ambos haviam pisado o fumie, a imagem de Cristo. - "Senhor, ressenti o teu silêncio". - "Eu não estava silente. Sofri ao teu lado". Após a confissão secreta, Kichijiro chora mansamente e sai. E o livro termina assim: O padre tinha administrado o sacramento que só um padre pode administrar. Sem dúvida de que os seus colegas padres condenariam o seu ato porque sacrílego; mas mesmo que estivesse a traí-los, ele não traíra o seu Senhor. Amava-o agora de uma maneira diferente de dantes. Tudo o que ocorrera até agora fora necessário para o trazer a este amor. "Agora mesmo sou o último padre nesta terra. Mas Nosso Senhor não estava silencioso. Mesmo que estivesse calado, a minha vida até hoje teria falado dele". William Johnston, jesuíta da Universidade Sophia, em Tokyo, amigo e tradutor de Endo Susaku, escreve, a abrir um prefácio ao romance, algo que traduzo para ti:

 

   Shusaku Endo tem sido apelidado de Graham Greene japonês. Se com isso se quer dizer que ele é um romancista católico, que os seus livros são problemáticos e controversos, que a sua escrita é profundamente psicológica, que ele descreve a angústia da fé e a misericórdia de Deus - então é certamente verdade. Porque o senhor Endo chegou à ribalta do mundo literário japonês escrevendo sobre problemas que, a dado momento, pareciam longe deste país: problemas de fé e Deus, de pecado e traição, de martírio e apostasia.

 

   Sobre o pano de fundo desta história - que é o século cristão do Japão - já escrevi bastante. Mas talvez volte a escrever, em carta só para ti. Por hoje, basta lembrar-te de que, como já te disse, Silêncio não é um romance histórico, muito menos uma análise da missionação dos jesuítas no Japão dos séculos XVI-XVII. É um cenário e uma ficção para questões que o seu autor foi interrogando, sofrendo e meditando.


Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   É sempre com alegria que vejo gente nova a interessar-se e a escrever sobre o Japão. Li um artigo de Maria José Oliveira no Observador e felicito-a pela sua curiosidade e esforço. Vi outros, também, mas confesso que me chocaram um pouco: alguns "clichés" sobre encontros de culturas, insistência na missão histórica de Portugal e dos jesuítas (cujos méritos nem sem querer pretendo diminuir), afinal olhares sobre o próprio de nós e generalizações mais ou menos apologéticas. Falando de um filme saído de um romance escrito por um cristão japonês, Shusaku Endo, acaba este, afinal por ser quase esquecido. Quando, todavia, a circunstância em que ele colocou o drama da fé e da negação, real ou aparente, dela apenas terá sido o pretexto achado para se exprimir, não só enquanto cristão e japonês, mas como crente católico, um dos muitos que a fé conforta e rasga. Não me leves, Princesa, portanto, a mal as considerações que se seguem. Devem estar, creio fora do filme: refiro-me, claro está, a essa hecatombe de comentários a que assistimos.

 

   Aliás, a mais grave observação que posso fazer ao artigo de Maria José Oliveira, por exemplo, é de somenos importância: nem os jesuítas, nem os portugueses da Nau do Trato, passaram a ser, por qualquer motivo de antipatia ou ódio, "bárbaros do sul"! Tal designação surgiu naturalmente, desde a aparição desses estranhos homens, de narizes compridos e diversas cores de pele, olhos e cabelo, exoticamente vestidos e transportando bens desconhecidos e quiçá apetitosos - desembarcando na sulista ilha de Kyushu. Vinham do sul (não do sul da Europa desconhecida dos japoneses, mas do sudeste asiático) e chamaram-lhes algo que traduzimos por bárbaros, mas que, em língua nipónica, como em mandarim, em grego - e sei lá que mais! - não tinha necessariamente sentido pejorativo, mas antes era manifestação de estranheza. Aliás, como tão bem traduzem os biombos nanban, a reação inicial dos japoneses foi a de curiosidade e expectativa, nunca de antagonismo. A questão da perseguição ao cristianismo, tal como a da limitação do comércio externo à "feitoria" de Deshima, em Nagasaki, surgirá mais tarde, por outras e complexas razões.

 

   Não vi, nem tenciono ver, o filme de Scorsese. Não tenho nada contra, é uma opção pessoal que, singularmente, tem a ver com o próprio título da película e do romance de Shuskaku Endo: SILÊNCIO. Desabafo: para mim, o drama ali exposto tem menos a ver com portugueses, jesuítas e coisas passadas, do que com o silêncio de almas humanas perante o silêncio de Deus. É claro que a circunstância histórica em que esse drama (uma luta de Jacó com o anjo?) é colocado tem diretamente a ver com a chegada dos portugueses ao Japão, a missionação jesuíta e o "século cristão". Mas esse é o cenário. Podia ser outro. Já, por várias vezes, em escritos e conferências, citei uma entrevista de Shusaku Endo à revista japonesa Kumo, em que ele afirma: Fui batizado em criança, isto é, o meu catolicismo foi um pronto a vestir. Depois tive de decidir se faria o fato adaptar-se ao meu corpo, ou se o deitaria fora, para vestir outro. Muitas vezes senti que queria desfazer-me do meu catolicismo, mas, finalmente, fui incapaz de o fazer, mas, finalmente, fui incapaz de o fazer. Não foi só não deitá-lo fora, foi sentir-me incapaz de o deitar fora. A razão disto talvez seja ele ter acabado por se tornar parte de mim. O facto de ter penetrado tão profundamente em mim quando jovem era um sinal de que, pelo menos em parte, se tornava numa co-extensão minha. Mesmo assim, não conseguia desembaraçar-me do sentimento de se tratar de algo emprestado, e comecei a perguntar-me o que seria o meu ser-eu-mesmo. Penso que isto é o pântano de lama japonês em mim. Desde que comecei a escrever romances, e até hoje, esta confrontação do meu ser-eu-mesmo católico com o ser-eu-mesmo que lhe está subjacente tem, como um refrão repetido por um idiota, ecoado e voltado a ecoar na minha obra. Senti que tinha de encontrar maneira de reconciliar ambos.


   Este tema está subjacente a um outro romance de Shusaku Endo, Escândalo, a meu ver bastante autopsicográfico, em que a personagem central é um escritor japonês premiado, o católico Suguro, que, na cerimónia de entrega da distinção, além de ouvir, até nos próprios elogios públicos de colegas e críticos, alusões à sua condição de cristão, encontra uma jovem estranha, que não conhece, mas pretende conhecê-lo bem de encontros num bairro boémio e pouco recomendável a homens sisudos e casados como ele. Tal encontro levá-lo-á a visitar o misterioso local... Não vou contar a história, deixo-te apenas uns trechos de dois discursos de homenagem então proferidos por personagens do romance.

 

   O primeiro por um tal Shiba, que assim se referia a Suguro: Algumas partes das suas histórias são...ora bem...você ainda não as agarrou com os dentes... Não há nada de estranho em falar sobre Deus, mas tudo se torna suspeito quando parece que você traz cá para fora algumas ideias ocidentais... Suguro ia retorquir, mas engole as palavras: Nenhum de vós tem qualquer ideia de quanto é difícil para um cristão escrever ficção no Japão. E o romancista Shusku Endo comenta: Ao mesmo tempo, uma parte de si mesmo não podia negar a afirmação de Shiba de que a sua obra era suspeita. Sentiu-se como se sempre tivesse escondido algo num canto recôndito do seu coração.

 

   O segundo discurso pertence a um tal Kano, e terá mais a ver com o tema Endo/Silêncio/Ferreira. Será mais longa a citação: Naqueles dias, Suguro era como uma criança perseguida no nosso grupo. Até chegámos a insistir em que abandonasse o seu cristianismo. Para nós, jovens do pós-guerra, a religião era o que Freud descrevia como uma ampliação da imagem do pai derivada dum complexo de Édipo, ou o ópio da doutrina de Marx, uma superstição irracional. E os cristãos eram uns hipócritas que tinham ido contra as suas origens japonesas - resumindo, não conseguíamos perceber porque é que Suguro não tinha posto de parte o sarilho do Deus estrangeiro. Além disso, ele não se convertera de livre vontade. Fora meramente batizado enquanto criança, por vontade de sua mãe. Assim, a sua fé não nos parecia mais do que uma força de hábito. Como sabeis, Suguro publicou mais tarde várias novelas históricas sobre os primeiros cristãos no Japão, narrando os patéticos crentes que foram forçados à apostasia por oficiais brutamontes. Pensei muitas vezes que Suguro me tinha em mente quando criou esses cruéis oficiais...

 

   ... O carácter único da literatura de Suguro reside na sua descoberta de um novo significado e valor para o que a religião chama pecado. Infelizmente, não sendo eu mesmreligioso, não faço a menor ideia do que seja o pecado...

 

   Eis porque, minha Princesa de mim, prefiro guardar silêncio perante o Silêncio: pensossinto que a única possível descoberta do insondável é a contemplação, como diálogo interior. Respeito muito o que não sei explicar, seja fé ou apostasia. E todavia sigo sendo crente. 

 

   O que não quer dizer que o século cristão japonês, a missionação jesuíta, o comércio nanban, o sincretismo religioso no Japão e a inculturação, sobretudo no caso dos cristãos clandestinos, não sejam questões interessantes. Também já falei delas, designadamente no meu Fomos em busca do Japão, editado pela VERBO/BABEL em dezembro de 2015. Mas tudo o que lá está, e mais algumas coisas, encontrá-las no blog do Centro Nacional de Cultura. E noutras cartas que te escrevi.


Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Morreu, neste último 16 de janeiro, a poeta suíça francófona Anne Perrier. Perfaria, a 16 de junho próximo, 95 anos. Filha de mãe alsaciana e pai suíço valdez, ela católica, ele calvinista, ambos não praticantes, Anne Perrier converter-se-ia à confissão católica aos 32 anos de idade. Recebeu vários prémios literários, dos quais quero destacar, não o Grand Prix de Poésie, o mais importante, mas o Rambert, pois lhe foi atribuído pelos poemas reunidos em Lettres Perdues, um ciclo dedicado àquele que ela chamava seu irmão de cristal, o poeta português Cristovam Pavia, da geração e amizade de Pedro Tamen, M. S. Lourenço, João Bénard da Costa, Nuno Cardoso Peres (hoje o dominicano frei Mateus), que se suicidara. Em homenagem a esse encontro de poetas, e a todos os que procuram caminhos de Deus no canto e meditação das palavras, deixo-te aqui a minha tradução dos primeiros daqueles poemas. A série das Lettres Perdues é uma sucessão de composições sem título, nem pontuação, com maiúsculas apenas a marcar versos ou ritmos. A poeta, cujo pai, arquiteto nascido em Viena, gostava de levar com ele a concertos de música clássica, chegou a hesitar entre a entrega às letras ou à música. Creio que acertou na opção, pois as palavras que nos deixou dizem-nos lindamente a limpidez do seu olhar espiritual.

 

                              Pelas frinchas da eternidade

                              Falaremos juntos

                              Procurando os nossos sopros

                              Pouco a pouco deixando as nossas vozes

                              Reacordarem-se

                              Tu céu eu terra

                              Falaremos muito tempo muito

                              Até que o verão

                              Nos cubra de flores campainha

 

                              À minha volta as grandes flores

                              Amordaçadas pelo dia

                              Meu coração como o mar

                              Se retira

                              É meio dia

                              Meia noite?

                              A hora prenhe de folhas mortas

                              Dobra-se

                              Meu irmão entre a salva e a sombra

                              Repousa

                              Que o dia sobre o dia

                              Cruze as suas trepadeiras

                              Vês

                              A morte cheira a erva e a orvalho

                              O teu coração está cheio de grilos 

                              Repousa

                              Meu irmão entre a menta e a sombra

                              Para ti

                              O tempo seca num ervário

                              Eu à beira da terra

                              Ainda espreito

                              A próxima partida dos pássaros

                        

Por florestas e fetos Por mil nascentes Pelas águas do abismo Pela neve inacessível Meu irmão te chamo

                              Como queres que durma?

                              De uma a outra chuva

                              Tanta pimenta nos olhos

                              Oh! no vento de outono

                              Este nunca mais

                              Como janela que bate

                              Esse infinito bater de asas!

                              Se buscasse frutos flores

                              Nada acharia

                              Altíssimo no céu

                              As nossas almas se cruzavam

                              Como cotovias

                              O espaço foi o nosso reino

 

   Convido-te, Princesa, a entrares comigo nesta comunhão de dois grandes poetas, transcrevendo aqui dois poemas de Cristovam Pavia, pensandossentindo que ele e Anna Perrier estão a falar juntos, procurando o acordo das suas vozes no eterno reino do infinito espaço. 

 

                            Estamos juntos quando nos vencemos e nos purificamos dia a dia,

                            e quando rezamos a Deus, e pedimos mais purificação...

                            E quando um descanso grato e humilde é a recompensa.

 

                            Estamos juntos, quando a Poesia nos toca

                            e entramos como reis no Reino do Silêncio...

                            Quando sentimos que tempo e risos e lágrimas e tudo

                            em nós amadurece...

 

                            Estamos juntos, quando a noite é fria e o calor custa a suportar,

                            quando a solidão é mais solidão

                            e vemos como na boca de tantos a palavra Amor é profanada...

                            Oh! Ainda que nos separem Oceanos,

                            estamos juntos, bem juntos, bem o sabes, numa profunda
                            companhia!
         

 

                           Na noite da minha morte

                           Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...

                           E os campos libertos enfim da sua mágoa

                           Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

 

                           Na noite da minha morte

                           Ninguém sentirá o encanto antigo

                           que voltou e anda no ar como um perfume...

                           Há-de haver velas pela casa

                           E xailes negros e um silêncio que eu

                           Poderia entender.

 

                          Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar

                          Vejam subitamente...

                          Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,

                          E mesmo que tu não saibas de onde vem nem porque vem

                          Talvez só tu o não esqueças. 

 

   Não resisto, Princesa - por achá-la tão clara de verdade e beleza - a transcrever ainda a Epígrafe de Cristovam Pavia:

 

                          Um barco sem velas

                          E sem rumo

                          Singrando um mar de fumo,

                          Mas descobrindo estrelas...

                          Nisto me resumo.

 

   E vai, no seu francês original, a resposta que, imagino eu, Anne Perrier lhe teria dado, quando escreveu:

 

   Je pense, ou je rêve à une manière de "posséder comme ne possédant pas", de prendre en acceptant de perdre aussitôt, je rêve à des gestes désappropriés, à une sorte de possession aux mains ouvertes où le chant passerait comme l´eau entre les doigts. Fala aqui a mesma poeta que confessou (agora traduzo):

 

                            Paro por vezes debaixo de uma palavra

                            Precário abrigo da minha voz que treme

                            E luta contra a areia

                            Mas onde está a minha morada

                            Ó aldeias de vento

                            Assim de palavra em palavra passo

                            Ao eterno silêncio

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os amigos que te referi, na carta anterior, é que me apontaram todos esses dogmas de que falo, bem como o da infabilidade papal. Para mim, este é um decreto datado, claramente decorrente de algum pânico clerical perante a crescente subversão do poder das autoridades eclesiásticas sobre as consciências, devida ao desenvolvimento do livre pensamento e do espírito crítico laico. De pouco ou nada serviu, e até eminentes teólogos e santos bispos se sentiram inconfortáveis com ele. 

 

   Quando recito o Credo de Niceia, confesso que Jesus Cristo nosso Senhor foi concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Tal conceição virginal não consta da tradição joanina, nem dos textos paulinos, nem do evangelho de Marcos, o mais antigo escrito evangélico, redigido em grego para a instrução de pagãos sem conhecimentos de cultura judaica. Consta, todavia, dos chamados "evangelhos da infância", os de Mateus e Lucas. O primeiro, feito para judeus e para lhes demonstrar que Jesus Cristo é, na verdade, o Messias prometido pelas Escrituras, começa, aliás, pela genealogia de Jesus, desde Abraão a David, deste ao exílio em Babilónia, e daqui até José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo...   ... O nascimento de Jesus Cristo ocorreu deste modo. Estando sua mãe Maria desposada com José - e antes que eles tivessem consumado o casamento - ela foi descoberta como tendo [concebido] no ventre a partir de um espírito santo...   ... Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi afirmado pelo Senhor através do profeta, ao dizer: eis que a virgem terá no ventre um filho e o parturirá; e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, o que significa Deus connosco. (Mateus,1, 18 e seguintes, na tradução de Frederico Lourenço. Em grosso, Isaías, 7, 14). Neste evangelho, se virmos bem, a anunciação surge feita pelo anjo a José. Só em Lucas (1, 26 e seguintes) aparece o relato da Anunciação a Maria, com a virgindade desta assim atestada (Lc. 1, 34-35, trad. de FL): Disse Maria ao anjo: «Como será isto, uma vez que não conheço homem?». E o anjo, respondendo, disse-lhe: «Um espírito santo virá sobre ti e o poder do altíssimo te sombreará. Por isso, o concebido é santo e chamar-se-á filho de Deus». E logo a seguir Gabriel lhe diz que Isabel, sua parente, estéril e já idosa, está grávida de seis meses e dará à luz João Baptista. A comparação de ambos os "milagres" ajuda-nos a melhor entender o significado da Virgem Mãe na fé profunda e na devoção cristãs. Já São Paulo (Romanos I, 3-4) nos aponta o "mistério": surto da linhagem de David segundo a carne e estabelecido Filho de Deus com poderio segundo o Espírito de santidade pela ressurreição dos mortos... Se a Ressurreição de Jesus Cristo o afirma como Filho de Deus, a sua Conceição terá de estar em linha com essa afirmação: será pois concebido pelo poder de Deus, por uma virgem. É inesperadamente novo, o Deus feito homem. Os relatos de Mateus e Lucas devem, portanto, compreender-se de uma perspetiva mais cristológica do que mariana. Na tradição judaica, os heróis de Israel são dados por Deus ao seu povo, quase sempre pelo milagre do parto de uma mulher estéril ou idosa que, todavia, terá tido, para o efeito, relação sexual com seu marido: Isaac, Jacó e Esaú, José e Benjamim, Sansão, Samuel... O mesmo sucederá com João Baptista. Mas que eu saiba, apenas o exemplo de Melquisedeque, contado no Livro dos Segredos de Enoque - que não é bíblico - será exceção: nesse caso, aliás, não deparamos, nem com uma conceição milagrosa (a mulher estéril que concebe um filho após uma relação sexual determinada), nem com uma virgem, mas com uma estéril não virgem, sem relação procriadora apontada. Diz o texto do Livro dos Segredos: Sofonim, a mulher de Nir, estéril e que não lhe tinha dado filhos, estava já na velhice e às portas da morte, e concebeu em seu ventre; ora Nir, o sacerdote, não tinha dormido com ela desde o dia em que o Senhor o tinha posto à cabeça do seu povo. A conclusão de Nir e de seu irmão Noé foi: Isto é obra do Senhor, meu irmão!

 

   O profeta Isaías (7, 14) dirá: Por isso o Senhor vos deixa um sinal: eis que a jovem [almah, em hebraico] está grávida e conceberá um filho e lhe dará o nome de Emanuel. Em Mateus e na tradução de Isaías na Bíblia dos Setenta, o hebraico almah será, em grego, parthénos, isto é, virgem. Há aí, claramente, uma afirmação teológica que se exprime pela imagem forte da conceição por uma virgem: a Incarnação de Deus é o início do triunfo da vontade divina sobre o mal, triunfo que se consumará gloriosamente na Ressurreição. Jesus não é um herói, um super-homem que o Senhor oferece ao seu povo. É o Emanuel, o próprio Deus connosco. Não esqueças, Princesa, que, no Credo, professas que crês em Deus Pai todo poderoso...   ...e em Jesus Cristo seu Filho unigénito, nascido do Pai antes de todos os séculos...   ...Deus de Deus...   ...gerado não criado, consubstancial ao Pai...   ...que por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus e incarnou, pelo Espírito Santo, no seio de Maria Virgem. Fez-se homem como nós, Ele que era antes de nós. Se a mulher em que tomou forma humana fora isenta do pecado original (e não será este uma parábola de explicação do mal?) parece-me questão de somenos importância, antes serão desvelos de devoção mariana ou especiosidades teológicas. Aliás, repensando, não poderia o Salvador ter sido concebido no seio de uma mortal ainda sujeita ao pecado original (se este tiver mesmo substância), não terá o resgate começado pela incarnação de Deus? Durante toda esta quadra, que hoje se encerra com a festa da Epifania, todos os dias tenho contemplado o mistério do Natal de Deus entre os homens. E tal mistério desafia qualquer ciência. Resta-nos contemplá-lo, até ao apocalipse, dia da revelação final. Intuindo, como Frederico Lourenço, que nos cabe, a nós, seres humanos, sermos a refração da luz de Jesus.

 

   Essa luz é, simplesmente, a do mandamento novo: amai-vos uns aos outros. E tu, Princesa de mim, que há tantos anos me conheces, sabes bem como pensossinto que o mundo já nos torna as vidas tão complicadas... que será certamente de Deus a graça de um sorriso que nos anime.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:
 

   Já te falei na tradução, para português, diretamente do original grego, da Bíblia Grega que, além de grande parte da chamada Bíblia dos Setenta - textos vertidos para a língua helénica, na judeo-helenística Alexandria, por sábios judeus, a partir de originais hebraicos - inclui ainda outros livros da Bíblia Hebraica acolhidos pelo cânone católico, mas que foram originalmente redigidos em grego, tal como todos os vinte e sete do Novo Testamento.  Tradução portuguesa esta empreendida pelo conceituado professor catedrático de Coimbra, especialista em cultura clássica, Frederico Lourenço. A publicação desta Bíblia em versão direta do grego para o português inicia-se pelos quatro evangelhos. Adquiri e li um exemplar desse primeiro volume da obra. Nada digo, nem me pronunciarei, sobre a qualidade da tradução: o Professor Frederico Lourenço conhece infinitamente melhor o grego clássico do que eu. Como e calo. Ponto final. Por outro lado, devo dizer-te que concordo com uma observação de Paulo Mendes Pinto, da Universidade Lusófona, publicada na edição do Jornal de Letras de 23 de dezembro de 2016: Com o trabalho de Frederico Lourenço, passamos a ter mais que uma nova edição da Bíblia, passamos a ter uma edição descomprometida de uma visão religiosa. Não que para a História da Bíblia toda e qualquer ligação religiosa não seja importante, mas hoje, mais que nunca, urge perceber que ela é um património que não se esgota no campo da crença e das afirmações de fé.

   E, já agora, deixa-me acrescentar que, tratando-se de uma tradução literária criteriosa, exercitada através de uma colocação dos textos na cultura em que foram produzidos e na gramática da língua em que foram escritos, o trabalho científico do seu autor não impede o mesmo, nem o leitor, de, no seu próprio foro interior, despertar para qualquer sentimento religioso. Aliás, testemunho claríssimo disso é o que Frederico Lourenço diz em página de Diário, editada no mesmo número do Jornal de Letras. E fá-lo com uma franqueza honesta, apetece-me dizer que é very candid, como os ingleses se referem a alguém muito franco e verdadeiro. Irei todavia respigar três passos desse texto, que o autor intitulou Até ao fim da rua.  Por perspetivas diversas, qualquer deles toca em questões que, volta e meia, me ocorrem e te tenho confiado. Mas vamos aos textos de Frederico Lourenço, pois falam por si e revelam o seu próprio enquadramento:

 

   1. Existe, por exemplo, toda uma bibliografia curiosíssima que procura demonstrar que Jesus nunca existiu. Os modernos paladinos dessa teoria - só vale a pena nomear os menos irrazoáveis, como Robert Price ou Richard Carrier - são no fundo herdeiros de ideias que já vêm desde o Iluminismo francês, quando Charles Dupuis começou a publicar a sua "Origine de Tous les Cultes ou Réligion Universelle em 1793. No entanto, os padrões pagãos nos quais esses autores procuram encaixar Jesus são tão forçados! E quem diz Jesus, diz outras figuras que o Novo Testamento nos dá a conhecer: desde logo, Paulo. Para alguém que, como eu, conhece bem a Cultura Grega clássica, não é imediatamente óbvio o paralelismo Perseu / Jesus, Adónis / Jesus, ou Penteu / Paulo que estes autores querem "provar", explicando assim as narrativas do Novo Testamento como invenções baseadas em mitos pagãos. Quando um autor como Price afirma que Paulo na estrada de Damasco é uma recriação imaginativa da tragédia grega "Bacantes", alguém que conhece bem a referida tragédia na língua original dificilmente se pode deixar convencer.

   2. Há um poema do Fernando Assis Pacheco que diz: "Um homem tem que viver [...] / Tem que viver / cheio de luz". Sempre fui apologista da luz e inimigo do obscurantismo. No Evangelho de Mateus (5:14), Jesus dirige à raça humana uma frase para mim enigmática: "vós sois a luz do mundo". Em nenhum outro evangelho é atribuída esta frase a Jesus. No Evangelho de João (8:12), são-lhe atribuídas palavras aparentemente contraditórias relativamente à frase de Mateus: "eu sou a luz do mundo". Mas não há contradição, a meu ver. Cabe-nos a nós, seres humanos, sermos a refração da " luz de Jesus" - do mesmo modo que nos cabe passar a distribuir o amor que, segundo a 1ª Carta de João, Deus é. Olharmos para o mundo e ver em cada noticiário a refutação da frase "Deus é amor" (o que se passa na Síria, meu Deus!) não é mais do que a medida do falhanço humano. Cabe às pessoas humanas fazer esse trabalho de Deus, criar a corrente de amor, a corrente de luz. É por questões assim que continuo sempre a achar que a mensagem de Jesus é tão válida para crentes, como para pessoas de outras religiões, como para ateus. É uma mensagem para o mundo inteiro. Acho que precisamos de Jesus.

   3. Ao motivo do feriado de hoje [8 de dezembro de 2016] já falta o universalismo em que pensei ontem. Só um católico muito devoto poderá encontrar sentido na ideia da Imaculada Conceição de Maria. Muitas igrejas herdeiras da Reforma luterana viram, com desânimo, a oficialização deste dogma no século XIX como algo que veio acentuar ainda mais a divisão entre católicos e protestantes. Ainda me lembro como fiquei espantado, da primeira vez que li o Novo Testamento de fio a pavio, de não encontrar qualquer sustentação bíblica para realidades teológicas que eu achava que estariam na Bíblia (entre elas o motivo do feriado de hoje).
 

   Curiosamente, por esses dias, almoçava eu com velhos amigos, todos filhos de famílias da velha nobreza portuguesa, católicos devotos, também homens do nosso tempo, atentos a formulações e interrogações. Subitamente, um deles, jurista de formação e gestor financeiro, perguntou-me o que eu pensava da enunciação de certos dogmas, hoje em dia, pela Igreja Católica. Referia-se a homilias e artigos recentes que, precisamente, lhe pareciam corroborar afirmações que talvez já não devessem ser interpretadas como se tivessem existência intemporal, nem, muito menos ainda, como se não pudessem ser datadas e lidas no seu contexto cultural e histórico.

   Remeti-me, primeiro, para considerações de ordem geral: a proclamação de dogmas surge muito em função de clarificar uma fé comum, isto é, de manter uma unidade comunitária, ou união eclesial: exemplo paradigmático disso é o Credo, o Símbolo dos Apóstolos, o do Concílio de Niceia que, aliás, com o imperador Constantino, em 325, proclamou,sobre todas as igrejas locais, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Católica em sentido contrário a sectária, antes porque universal. Por isso estava em sínodo ou concílio, isto é, se reunia. A minha fé católica professa-se aí, nada lhe retiro nem acrescento. Outros dogmas foram depois proclamados pela "autoridade" eclesial, sobretudo quando esta pareceu poder romper-se por desacordos de partidos acerca do que, em muitos casos, mais não eram do que devoções que ganhavam força em certos sectores da Igreja.

   Exemplos disso são dogmas como os da Imaculada Conceição de Maria - aliás frequentemente confundida com a sua virginal conceição de Jesus. Doutores da Igreja, como São Tomás de Aquino, recusavam a conclusão teológica da Imaculada Conceição. Claro que se, séculos mais tarde, quando o dogma foi declarado, o bom teólogo ainda fosse vivo, aceitá-lo-ia... tal como eu o aceito, ou seja, não fazendo dele condição necessária da minha confissão católica. [Mas, provavelmente, tampouco aceitaria que a confissão da fé cristã, ou de qualquer dogma católico, pudesse ser imposta em nome de uma Igreja que Jesus Cristo não fundou como instituto jurídico, mas convocou, eucaristicamente, como corpo de amor fraterno e ressurreição]. Tal dogma, dizia, não está no Credo, tal como ausentes estão a Assunção de Nossa Senhora - que também não tem relato bíblico canónico, mas nasce de uma devoção popular e seu imaginário, e de especulação "teológica" - nem sequer a Transubstanciação, resultado de um processo mais complexo que, aliás, no século XVI, as querelas entre Reforma e Contra Reforma levaram a polémicas escolásticas hoje difíceis de entender. Resumindo o que pensossinto, dir-te-ei que a consagração do pão eucarístico não é um ato de magia ou ilusionismo, o pão não deixa de ser materialmente pão, o Corpo de Cristo é um Corpo Místico, a Comunhão dos fiéis que, partilhando o pão de cada e todos os dias, continuam a tornar presente e eficaz a vontade de reconciliação que Jesus Cristo trouxe e que o levou ao sacrifício da própria vida. Pessoalmente, não sou adepto das chamadas "exposições e adorações do Santíssimo", por me parecerem - para o meu gosto, repito - mais  práticas idolátricas (no sentido de pretenderem consubstanciar numa materialidade um ser espiritual) do que atos de comunhão fraterna e reconciliação universal, com Deus e os homens, com Cristo, por Cristo e em Cristo. Formulando assim o meu credo e a minha devoção, não quero, nem devo, fechar o coração aos que de outro modo melhor possam sentir o Mistério Pascal. Cada um de nós tem as suas devoções, penso que a única exigência comum a todas é que, antes de rezarmos, devemos reconciliar-nos com os nossos irmãos, pois qualquer oração cristã é um ato de comunhão. Na minha próxima carta continuarei a conversa encetada há dias com aqueles amigos meus.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira