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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tão de ouro era a luz desta manhã, que me quedei na varanda quieta do meu quarto, aberta sobre os campos próximos e alegrada pelo voo de melros, pardais, verdilhões, toutinegras e poupas... São estas as mais raras, gosto de as ver pousar, para lhes admirar a poupinha e as penas zebradas. Senti muito a falta das andorinhas, tem-me feito sofrer a ausência delas, aqui na nossa Várzea da Pedra, nesta Primavera. Creio que, quando cá chegaram, não encontraram ninhos nem os beirais iguais aos que tinham deixado: as obras que tivemos de fazer no exterior da casa, apesar de eu ter pedido que poupassem os nichos das aves, levaram tudo a eito... E tenho saudades de ver valsar as andorinhas, e muitas mais de as ver compor, quais notas de música numa partitura, os fios elétricos e telefónicos que cruzam a vereda aqui defronte...

 

   Mas contava-te que me pus de contemplação na varanda do quarto. Eis que, súbito, surge veloz no céu um peneireiro (falcão vulgar) que se projeta e toca o solo, mesmo na margem do lago ou charca que a quinta tem lá nos baixos do pereiral. Fulminou um rato e banqueteou-se. Lembrei-me então - pois ando em semana de releitura do Taniguchi - do milhafre que, num conto de Furari, se apropria dum peixe que o pescador, num bote, está a retirar das águas do rio Sumida, preso ainda ao anzol da linha da sua cana. O protagonista do conto e do livro todo - cujo título, Furari, se pode traduzir por Ao Sabor do Vento - é um geómetra e cartógrafo japonês do fim do período Edo e início da era Meiji (séc. XIX), que se entretém a percorrer Edo/Tokyo (e outras paragens) contando os passos com que vai medindo as distâncias. Cada passo mede sensivelmente 70cm, isto é, 2 shaku (30,3cm) e 3 sun (3cm), unidades de medição ainda hoje utilizadas para antiguidades. Para ele, a velocidade e golpe certeiro do milhafre é motivo de assombro e de imaginação sobre como se desenhará Tokyo, vista do céu, lá das alturas por onde a ave voa...

 

   Furari é uma obra a que volto com frequência, não só pela sempre notável qualidade do desenho de Taniguchi, e pelo carinho perene e infantil espanto do autor pelas pessoas e o mundo à volta delas, como pela fidedigna descrição da cidade de Edo, das cenas de rua, das paisagens e das estações do ano, das vestimentas, usos e costumes, para não falar do encanto de um espírito científico e empírico sempre em caminhada de descoberta. E temos ainda o gosto das lendas e narrativas tradicionais, como na cena que a seguir para ti evoco.

 

   Os mochi são uns bolos de massa de arroz, uma pasta pegajosa e plástica, que obrigatoriamente se comem pelo Ano Novo, infelizmente vitimando por engasgamento uma ou outra pessoa idosa, todos os anos, por ocasião da festiva refeição. O primeiro dia do ano é também data de se ver o nascer do sol, sinal de novo ano, nova vida. Agosto, por sua vez, é mês de contemplar a lua cheia. Assim como nós amamos o luar de agosto e as desfolhadas. No conto A Lua, de Furari, o nosso herói passeia-se de canoa, com sua mulher, pelo rio Sumida, em plena cidade de Edo (Tokyo). Também fiz essa experiência fluvial e romântica, petiscando, bebendo saké e olhando a lua. Deixam o bote flutuar ao sabor da corrente, vão silenciosamente gozando o momento. Mas Eï, a mulher, fala: Que beleza serena! Mas porque haverá um coelho que faz mochis na lua?  E a conversa entre ambos vai continuando: Desde quando fala o budismo nisso?... Para expiar as faltas de um mundo anterior, um coelho corajoso quis fazer uma boa ação... e ofereceu a própria vida... Então Shakra comoveu-se lá no alto dos céus, e levou-o e instalou-o no reino lunar... Diz-se que é desde então que se vislumbra um coelho na lua... Será que os desenhos que vemos na lua já antes se pareciam com um coelho? ou será que essa lenda é anterior? Não sabemos. Mas seja como for, é facto que a lua é o astro mais próximo da terra... E isso de estar sempre a mudar de forma acentua ainda mais o seu mistério... Mas é um astro magnífico, que nos é familiar... Entretanto, à beira-rio, o poeta Issa escreve um poema: Apanha para mim / a lua / pede a criança chorando...

 

   Mais tarde, tal como dantes, o caminhante Ao Sabor do Vento continuará a contar e a medir os seus passos, mas sempre de olhos no céu.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   No seu texto de apresentação da exposição L´Au-delà dans l´art japonais (Paris, 1963), de que te falava na minha última carta, Seiroku Noma não podia esquecer o monge Mincho (século XIV-XV), pioneiro da utilização da tinta da china na pintura japonesa, e diz: As obras de Mincho e de Josetsu acentuaram o vigor do desenho, como que para mostrar a acuidade da intuição do Zen, e os seus temas foram sobretudo relativos à iluminação. Chama-se Zenki-ga a tal pintura, a palavra Zenki significando qualquer ocasião que provoque a iluminação. A variedade dos assuntos abordados por Shubun, Sesshu e outros artistas mais tardios estendeu-se às paisagens e à representação de flores e pássaros. Essas paisagens não valem apenas pela beleza natural dos sítios, ilustram o que os artistas consideravam ser o quadro puro e calmo conveniente à habitação de um monge Zen. Quando pintavam flores e pássaros, faziam-no para libertar a "budeidade" inerente às plantas e aos animais que, para esses artistas e o seu público, mais não eram do que formas da transmigração das almas. Pela mesma razão vimos surgir, entre esses monges, criadores de jardins...   ... Como o essencial da pintura Zen era surpreender o coração escondido por detrás da complexidade superficial da aparência, ela rejeitou a cor e escolheu o estilo monocromático.

 

   Muito embora também próximo da chamada "linha clara" da banda desenhada europeia, o desenho de Jiro Taniguchi, sobretudo o que ilustra a sua obra intimista, mais espiritual, inspira-se certamente na tradição Zen, quer no que toca a surpreender a alma das plantas, dos animais e das pessoas - e, como ele mesmo confessa, a força dos fenómenos maiores da natureza, incluindo os cataclismos em que ela se revela dura e perigosa -- como na procura da iluminação, isto é, do espírito escondido que anima tudo. Alguém já disse, e creio que muito bem, que Taniguchi tenta desenhar o indizível... Deus cala-se ou, pelo menos, parece calar-se: assim começa um livro do jesuíta Louis Barjon, que consegui desencantar das profundezas da minha biblioteca, a pedido de um velho amigo meu, o frei Eugénio de Paiva Boléo. O título da obra é Le Silence de Dieu dans la Littérature Contemporaine, tenho-o desde os anos 50, quando o comprei em Paris. Pensossinto que poderia, hoje ainda, entender os vários porquês das problemáticas a que o livro acode. Mas com outra distância: a minha convivência local com a cultura dita oriental induziu-me - devo reconhecê-lo - a uma aproximação diferente a questões como a do mal e da culpa, do mundo e do espírito e, sobretudo, da presença de Deus em tudo. Não deixei de ser e pensarsentir-me cristão, mas sê-lo-ei hoje de um modo diferente. O meu pressentimento do Zen japonês, sobretudo pelo que ele me deu de abraço da natureza e do nosso despojamento interior, retornou-me a Mestre Eckhart e a uma mística cristã que desde muito novo me envolve. Os Evangelhos continuam a ser, para mim, as mais comoventes narrativas da literatura mundial, mas quem, como tu, os tem lido e relido, compreenderá melhor o que quero dizer quando afirmo que, depois da minha meditação "oriental", os leio mais simultaneamente à luz de S. João Evangelista e com os olhos e o coração de S. Francisco de Assis.

 

   Todavia analisei muitas arquiteturas teológicas que tentam explicar a boa razão do mal que conhecemos, e até debati a questão, inclusive nas minhas cartas a José Saramago (lembras-te?), tal como escutei o grito angustiado da perplexidade de crentes (o próprio Jesus clamou na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?), assim como a revolta de ateus e agnósticos (pensa no Goetz de Le Diable et le bon Dieu do Jean-Paul Sartre : Est-ce que tu m´écoutes, Dieu sourd?- perante a morte desamparada de Catherine). Mas acabo por me render à evidência do mistério que tudo é para mim. Não entendo, não sei explicar. Faço por me despojar dos meus sentimentos, revoltas e resignações, angústias e euforias. E num silêncio escuro, vácuo, espero o encontro com o indizível, inefável, porque fora do tempo e do espaço das nossas medições. E pensossinto que a minha desinvestidura, despojamento e despedimento de mim, é a porta aberta para a íntima alegria possível: a do acolhimento universal, que é o amor. Até de mim, que em tanto mal tenho comungado e ao bem apenas tenho aspirado. Deus - eis a lição da incarnação, morte e ressurreição de Cristo - está connosco, presente na partogénese da Jerusalém celeste.

 

   Escrevo-te estas linhas ao som das Pièces de Viole, 1701 (Hommage à Mons. de Lully et Mons. de Sainte Colombe) de Marin Marais, excecional compositor de peças para viola da gamba, neste registo tocadas por Jordi Savall. Foi este músico catalão que redescobriu Marais e o seu instrumento antecessor do violoncelo. O mesmo Savall - de quem tantas vezes te falei já - que, há pouco ainda, foi partilhar, com companheiros músicos sérvios, afegãos, africanos, judeus, turcos e outros europeus, sul-americanos, etc., música do mundo, com os refugiados migrantes encerrados na "selva de Calais". O Jordi tem feito diálogo de culturas através da música, e, em Calais mesmo, não tocou só para refugiados em seu ghetto, foi à cidade tocar para os seus habitantes: o objetivo da integração é que cada cultura tenha o seu espaço e fecunde a sociedade pela sua contribuição. A riqueza de um país mede-se pela sua diversidade; as sociedades fechadas tornam-se decadentes, apenas prosperam as que se abrem - disse ele recentemente. E mais adiante: A intensidade dos fluxos migratórios e a falta de uma política de acolhimento eficaz levam os povos a sentirem-se invadidos no seu próprio solo...  ... Por isso toquei também na cidade de Calais, para apresentar aos habitantes aqueles que vivem perto deles. E à pergunta sobre se o Ocidente terá o monopólio da intolerância (a entrevista é atual e francesa), responde: É evidentemente necessário opormo-nos à mentalidade teocrática, à rejeição do incréu que grassa em certos países e é por vezes exportada para os nossos. Mas nós contribuímos, através de intervenções nossas, para a emergência de regimes intolerantes e totalitários, e assim também para a destruição dos países donde vêm esses refugiados. O problema fundamental não é um racismo que fosse exclusivo deste ou daquele povo, mas a incapacidade de muita gente aceitar um autêntico diálogo intercultural, o único que nos permite conhecermo-nos na paz. Ajudando os jovens a apropriarem-se da sua cultura, e a partilhá-la connosco, podemos fazer com que as coisas avancem...   ... É preciso trabalhar naquilo que amamos; se sentirmos que o resultado tem alguma utilidade, tudo muda. É por isso que não toco só nas grandes salas, mas também nos hospitais e nas prisões. Se não levarmos aos jovens a experiência da beleza, dentro de vinte anos estarão vazias as salas de concerto. É preciso trabalhar para o porvir. Sem utopia, não há criação possível.

 

   Antes de assinar esta carta, pensossinto o Papa Francisco (nome profético!) no Egipto, em convívio, sem proteção blindada. O Ernâni que, com o António Luciano, é um dos amigos do coração, com que partilhava afinidades espirituais difíceis de proclamar - e eles eram, noutras coisas, bem diferentes um do outro!  -- acreditava muito na comunhão dos santos. Ambos da minha mesmíssima idade já não precisam de instrumentos de métrica, muito menos de cálculos a prazo. Sabem melhor do que eu o que nos comove no Taniguchi, no Savall, no Francisco, e em todos aqueles que fazem da descoberta e contemplação do mundo e da vida, não pretexto de revolta, medo, culpa, angústia ou depressão, mas razão de amor ativo.

 

Camilo Maria 

P.S.- Esta noite, quebrou-se a seca persistente, choveu como Deus dá. Saí de manhã cedo, extasiei-me à vista da alegria dos campos: toda a vegetação, agradecida, cantava verdura e vida. E lembrei-me do Taniguchi, que tão bem desenhava a graça anímica dos bosques...

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Por cá, o toque de alvorada é dado pelos melros, quando a luz que vejo lá fora, estremunhada e pálida, ainda nem põe cores nos campos mas apenas vai rompendo a escuridão da noite que foge, distinguindo contornos e tons. A noite que fundira num campo só seu todos os campos que eu via (lembrando Pessoa) deixa agora a alba abrir as sombras... E os melros cantam acolhendo o dia e reconhecendo-se nele. E eu quedo-me a sentir a luz da manhã que cresce e não comando. E então vou descobrindo como é alto o céu, e ocorre-me aquele desabafo do Hiroshi Nakahara, protagonista de Harukana Machi-E, de Jiro Taniguchi: O céu é tão alto... e, todavia, temos a impressão de que bastaria estendermos a mão para tocar nas nuvens... O céu é tão misterioso, como se fosse imutável para lá dos homens e do tempo... E se a eternidade fosse isso, um simples céu... Nunca ninguém se torna verdadeiramente adulto... A criança que fomos está aí, bem viva no muito fundo de nós... É como o céu... Com o tempo, julgamos que crescemos, mas a maturidade não passa de engano, mais não é do que um entrave à nossa alma livre de crianças... Reli esta noite essa maravilhosa narrativa do regresso sonhado de um homem maduro aos seus catorze anos, para compreender que não se muda a vida que nos construiu. Tal como não se reinventa o passado, e afinal permanecemos na incessante procura do desconhecido que somos. Numa das minhas primeiras cartas (seria ainda uma das muitas que escrevi por um homónimo antes de mim?) já te falava da difícil relação que tenho com o tempo, e tenho-te dito como, ainda hoje, procuro conciliar, na circunstância da intemporalidade, a aparente contradição entre tempo escatológico e tempo circular. Esta manhã, neste momento em que te escrevo, escuto as rolas que começaram a arrulhar lá fora. Já lá vão as seis horas da manhã e calou-se a música dos melros; dão agora as oito, será hora de rolas, mas não sei dizer-te se se deitaram tarde ou são preguiçosas. Também é verdade que te digo horas de hoje, mas, embora melro me pareça mais madrugador que rola, nem todas as aves acordam todos os dias à mesma hora. Quiçá melros e rolas, amanhã ou depois, se anunciem a horas diferentes das minhas, sempre contadas. Penso que o relógio das aves não é como os nossos: tem dois ponteiros, sim, mas um é a claridade da luz, e o outro a temperatura do ar. Ambos medem só o momentâneo, desconhecem a duração. Menos angústia, menos grilhões. 

 

   Noutro livro, Taniguchi adapta e desenha um romance de Hiromi Kawakami, intitulado Sensei no Kaban (literalmente A Pasta do Mestre, que, aliás, na narrativa ilustrada, ele visivelmente traz sempre consigo) - obra que, de certo modo, nos fala também de um passado revisitado e, simultaneamente, longínquo e intrometido na vida presente. Trata-se do reencontro de uma mulher de 37 anos com um seu antigo professor, agora com 67, reformado. Apesar da diferença de idades, de conhecimentos e cultura, entendem-se no gosto por passeios com paragem obrigatória e deliciada em tasquinhas de petiscos japoneses. Eu mesmo fiz, sozinho, essa experiência de comer sentado ao balcão, mandando vir pratinhos conformes ao deambular do meu apetite e sem mais conversa, e muitas vezes volto aos relatos que o Taniguchi faz de variados momentos gastronómicos do Petisqueiro, noutro dos seus livros. Até na diversificação dos pormenores, dos ingredientes, das cores, dos cheiros, dos paladares, a cozinha japonesa tem sempre algo de comunhão telúrica, e pode convidar ao silêncio e à meditação. No caso de Sensei no Kaban é também motivo de encontro e afeto.

 

   A mancha urbana de Tokyo e cidades adjacentes terá mais de 43 milhões de habitantes, mas todavia está semeada de minúsculos jardins e pequenas hortas, de ruas estreitas que são caminhos de aldeia, de recolhimentos, cantos e campos esquecidos... Tudo muito seguro e limpo. Sair das grandes artérias e dos centros de azáfama para se deambular por ali é como viajar-se para muito longe pelo seu próprio pé. Assim, onde mais me senti como que no campo foi nos corações secretos da megalópole de Tokyo. Por aí também me consola o convívio com a obra de Taniguchi. O desenho é limpo e nítido, o pormenor nunca é esquecido, as cenas são enquadradas de modo a descobrirmos o sentimento das coisas e das pessoas - e as belezas escondidas, mesmo quando estas não são aparentes em paisagens urbanas monotonamente arquitetadas, nas ruas cobertas pelo cruzar de cabos elétricos e telefónicos, onde o belo reina pela simples sentida presença do asseio e da paz. Inesperado, súbito, surge um pequeno parque, um templo budista, o cemitério anexo, tudo verde e cinzento e antigo. Tudo calado. Ali se prolonga e instala o repouso da paz interior. A vida e a morte confundem-se na natureza.

 

   Curiosamente - e talvez seja isto o que me ocorreu dizer-te hoje - tenho abertos, em prateleiras da sala cá de casa, dois livros grandes, de ilustrações: um, japonês, reproduz cem pinturas antigas referentes às estações do ano, e abri-o na página que nos mostra uma pintura de cerejeira em flor, do século XVI; o outro, português, é uma edição fac-similada das gravuras do De Aetatibus Mundi, do português Francisco d´Ollanda, e delas mostro a nº 69, alusiva ao tempo e à eternidade. É uma composição intrigante, apresenta-nos um gigante ajoelhado sobre uma mó, apoiado em duas muletas com rodas, assim conduzindo a mó para cima de um esqueleto humano, que uma foice identifica como morte. É velho barbudo, tem asas abertas, parece devorar um corpo de mulher que traz na boca, uma serpente enrosca-se na muleta esquerda e aponta a cabeça à mão desse lado. É, o nome inscrito na mó assim o indica, o Tempo. Por cima da cabeça, uma clepsidra, por detrás um sol radiante donde jorra, de cada lado, um arco íris que toca a terra onde dois veados, símbolos da esperança, pacíficos e alheios, pastam. Acima do sol abre-se um espaço circular e vazio: a Eternidade. Por debaixo da gravura, o rosto do Pretérito olha para trás, o do Futuro para a frente. Entre ambos inscreve-se Agora, e a legenda reza Finis Temporis. No reverso dessa gravura do século XVI, surge representada a Ressurreição de Cristo. Uma vez mais, é o Tempo que morre, e Vida e Morte se confundem.

 

   Pego no catálogo, para mim autografado por um conservador do Museu Nacional de Tokyo, em romaji (caracteres latinos) e kanji (sino-japoneses), Seiroku Noma comissário duma exposição no Petit Palais de Paris, ao tempo de André Malraux, ministro da cultura, que tomara a iniciativa de propor a sua realização. A data da dedicatória é 16 de dezembro de 1963, e  Seiroku Noma escreve a introdução ao catálogo da exposição intitulada L´Au-delà dans l´art japonais. Naquela, ele chama a atenção para a pintura aguada e o espírito do Zen, seita contemplativa do budismo, de afastar todas as preocupações terrenas e procurar uma visão intuitiva para assim surpreender a verdade da vida e do universo...   ... Com vista a atingir o coração da verdade, era necessário eliminar as impurezas devidas aos acontecimentos e à circunstância. Na terminologia Zen, essa eliminação dos entraves e essa aproximação dircta da verdade são chamadas nada, vacuidade. É por uma contemplação esvaziante e por uma disciplina visando atingir o reino do não pensamento que Çakyamuni, o fundador do budismo na Índia, alcançou a iluminação suprema. Fui a este texto, que guardava de uma estadia em Paris, há mais de meio século, porque me ocorreu quando relia o 17º capítulo, A Pasta do Mestre, do romance de Kawakami que Taniguchi verteu para desenho, com o mesmo título em japonês: Sensei no Kaban. Ali se conta que, depois da união do pudor e da paixão poderosa e íntima do professor e da sua ex-aluna, aquele irá morrer. No dia do funeral. o seu filho entrega, em memória grata do pai, um presente à jovem senhora: quando esta, saudosa e só, o abrirá, encontra a pasta que todos os dias ele trazia consigo, e lhe legara em testamento: estava vazia, nada tinha dentro. Lembra-se então de um poema de Seihaku Iraku que o Mestre um dia lhe ensinara: Tanto viajei / que trago a roupa gasta / e o frio a trespassa /  Está claro o céu desta noite / mas dói-me o coração. E olhando o céu calado, dirige-se ao Mestre: Gostava tanto de voltar a vê-lo... E lá do alto, do céu vazio, uma voz lhe diz: Está prometido, um dia será!

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Passei tempos sozinho em todos os lados por onde fui vivendo, e ia mobilando os meus fins de semana conforme o gosto, a curiosidade, a meteorologia e a disposição. Tudo quase lembrado, e resumidas as lembranças, posso hoje dizer que procurei constantemente caminhar, exercitando o corpo, deambulando o espírito. Talvez por isso me sejam ainda tão familiares grandes metrópoles como New York ou Tokyo, tal como cidades muito conhecidas desde a infância, como Paris ou Bruxelas. E tantos, tantos, cantinhos de Lisboa... Por muitos atalhos regresso agora a passeios longínquos, e volto a perder os passos para me encontrar, até comigo, em novas-velhas circunstâncias.

 

   Escrevo-te tudo isto, Princesa, para te falar dum companheiro antigo, que reencontro: Jiro Taniguchi. Morreu há semanas, resolvi-me a reler as magníficas e tão profundamente originais bandas desenhadas que escreveu e desenhou. Tem obras que contemplam o homem na natureza, o desafio espiritual das altitudes, das paisagens amplas e desertas, e também uma das mais interessantes sobre as tensões do pensarsentir das elites políticas, militares, literárias e artísticas japonesas no decurso da era Meiji (1867-1912), em que se "ocidentalizava" o Japão... Mas deu-nos sobretudo histórias de amor simples, aventuras interiores da ternura, das ilusões e desilusões de todos os dias de todos nós, da tessitura das almas comuns, dos desafios da vida em família, e da grandeza desta. Entre várias narrativas, contam-se as que nos falam das deambulações das nossas solidões, todavia despidas de angústias postiças e muito cheias do inefável gosto da procura. O próprio Taniguchi busca encontrar-se na circunstância da sua cidade e no contacto dos outros. Sem alarde, em contos que são peregrinações onde se revelam silêncios interiores e o seu diálogo íntimo não se traduz, mesmo quando escrito, em proposições verbais. Entre elas, as pessoas adivinham-se, intuem-se entre si. Talvez seja esse o segredo da ternura, o sentido da mão que se estende. Como é, por outro lado, estranho dizer-se que é uma qualquer forma de egoísmo o gosto particular de nos passearmos sozinhos... O encontro, mesmo que silencioso, com o outro, o desconhecido, pode dar-se como auto-reconhecimento recíproco, cada um fazendo de espelho... Deves "ler", Princesa de mim, esse pequeno conto inserido no "antológico" O Homem que Caminha, e se intitula O Caminho Comprido, historieta sem palavras, só desenhos, em que o nosso caminhante em passeio passa por outro, mais idoso, de bengala mas andar vigoroso. Consoante as distrações do percurso e o estugar do passo, vão-se alternadamente ultrapassando. Até que, quando uma cancela se encerra e passa um comboio, o idoso já atravessara a linha férrea, deixando para trás o nosso caminhante. Todavia, ao não se ver seguido, parou e esperou. Com um sorriso apenas, sem palavra alguma, ambos prosseguem então, lado a lado, a caminhada. Pensossinto que a profundidade de ser quem sou pode ser modo de dádiva de mim. Afinal, serei sempre com os outros o que me encontro. Ser-me é dar-me. Reparo, Princesa de mim, que do meu mim te falo mais do que do Jiro Taniguchi. Volto a ele. Sem deixar de te dizer, desde já, como tanto me reconheço no seu apego às origens: em várias das suas histórias, regressa a Tottori, cidade onde nasceu, à infância, à família, a lembranças de apego a entes queridos, mesmo quando tremem e doem ainda antigas perdas, separações, incompreensões e ruturas. Tudo contado com um pudor quase silencioso, em que se respeita a solidão como retiro mas também como disponibilidade. Poucas vezes nos ocorre, Princesa, o quanto pode um solitário dar-se ou esperar por nós...

 

   As personagens de Taniguchi sentem-se frequentemente a viver fora do tempo, impressão que eu mesmo também tenho, e de que já te falei. Transportam-se as pessoas para além da duração, não por desejo de prolongamento, mas por saudade da permanência. A eternidade não tem qualquer dimensão, quiçá por isso se possa sentir a medida de qualquer espaço ou tempo como simples ilusão. Todos nós sempre fugimos da circunstância próxima, porque nos prende e encerra, e se nos impõe como limitação. De modo muito japonês, os heróis de Taniguchi estão sempre à procura de uma saída que, afinal, é outra entrada: quanto mais alguém mergulha em si, melhor compreende os outros; quanto mais reconhece os outros, melhor se percebe a si. Os títulos dos seus livros são significativos: O Bairro Longínquo, O Petisqueiro da Solidão, Céu Radioso, O Diário do Meu Pai, O Homem que Caminhava, O Passeante, etc... Chichi no Koyomi (O Diário - ou calendário - do Meu Paizinho) é a descoberta, por um homem adulto, na noite do velório do pai morto, e que ele já não via há vinte anos, do amor atento que este toda a vida lhe votara e ele ignorara. É nessa altura só - quando o pai já habita fora do tempo - que o filho o encontra, escutando os muitos testemunhos de familiares que lhe revelam essa figura tutelar: a criança que tanto sofrera com o divórcio dos pais e passara a vida toda carregando o peso dessa dor percebe então, quando o tempo morreu para dar lugar à misericórdia, que afinal nunca o amor a abandonara. E é comovente ver como Taniguchi nos conta uma história tensa sem sequer uma mínima censura a qualquer personagem. Apenas nos ensina que o amor é o nosso único verdadeiro segredo, e pode não ser fácil descobri-lo.


   A amor é sempre transcendência, só ele constrói e habita a eternidade. A novela Um Céu Radioso conta-nos a coabitação - no corpo de um jovem motar de 17 anos, que sobrevive, amnésico, a um acidente de viação -  do regresso dele à consciência de si e do espírito do pai de família que morreu no mesmo acidente, e reincarna para ter a última oportunidade de se despedir da sua família. Subjacente a interrogações como a da reincarnação, da ressurreição e da saudade, está uma fé, substância das coisas que devemos esperar, desejo e esperança de eternidade, que só o amor pode criar e infinitamente sustentar... Escreve Taniguchi: Imaginei um homem que vai morrer e que, antes de paulatinamente se ir embora, consegue apanhar tudo o que o seu coração insatisfeito ia deixar num estado de incompletude. Desejei escrever o arrepio do coração de alguém que acompanha um próximo querido no momento da sua morte, e o renascimento da alma...   ... "Um Céu Radioso" é, assim também, a narrativa de uma família que decide ultrapassar uma morte impensável. E apesar da história ser um tanto estranha, quis representar, com os meios da banda desenhada, os conflitos e os rasgões do coração, a aflição que é aceitar a morte de um ser, e o que é preciso fazer para partir sem deixar atrás de si qualquer conflito interior não resolvido. 

 

   O título do livro, na versão francesa da Casterman (2006) é Un Ciel Radieux. Mas o título japonês Hareyuku Sora também se pode traduzir por Um Céu Limpo. Ou um céu claro. Diz-me muito.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Há poucas semanas, fui surpreendido pela reação de uma assistente de caixa da FNAC. Comprara um livro, ela perguntou-me se eu tinha cartão FNAC, ao puxar por este arrastei um da Bertrand que lhe caiu em frente. Diz, com maus modos: "Isto não é cartão FNAC, é da Bâârtrende!" Pedi desculpa, explicando que caíra por vir colado ao outro, que logo apresentei. E, com um sorriso, perguntei: "Porque é que diz Bâârtrende, à inglesa, um nome de origem francesa, que em francês se diz Berrtrrãnd e nós por cá vamos pronunciando Bertrã?" Resposta gritada: "Eu digo como quiser, você não tem nada a ver com isso!" Paciente reação minha: "Olhe que nenhum de nós pode dizer as palavras como quer, temos de dizê-las para serem entendidas..." Seguiu-se um disparate de berros, com afirmações tão substanciais como "Nem ao meu marido eu admito que me corrija, ouviu?"

 

   Esqueci o episódio, nem pedi livro de reclamações. Mas fui moendo o sentido da ignorância teimosa, pensando quão facilmente se ouve, hoje em dia, dizer, repetir, reproduzir, divulgar os mais diversos disparates, sem qualquer motivação de instrução, verificação, correção ou simples procura de entendimento. "Aí vai disto Eu é que sei!" parece ser o grito cultural na moda... Há poucos dias, três conhecidas e reconhecidas personalidades televisivas batiam o papo acerca de cinema:

 

 "Lembram-se desse grande filme, Casablanca, com o Humphrey Bogart e aquela estrela maravilhosa..." E todos em uníssono: "A Lóren Beiquel!", assim mal pronunciando o nome da Lauren Bacall, ainda por cima mal dado à parceira do Bogart naquela fita, que era, simplesmente, a Ingrid Bergman. Pouco depois - estava num dos raríssimos dias em que vejo alguma televisão - reparo que uma legenda em português traduzia hand writing por ortografia... E por aí fora, até aos sisudos e "responsáveis" jornais económicos que vão traduzindo ingenuity (= engenho, coisa de génio) por ingenuidade. Et j´en passe, para não ter de te falar da ignorância propriamente dita, seja qual for a língua utilizada para a transmitir.

 

   Vêm-me estas rabugices de velho relho, por ter lido na cama, na passada noite, um artigo de José Pacheco Pereira, no Público de 3-4-2017, intitulado Nó Górdio, e outro do professor Tom Nichols, na revista Foreign Affairs (Março-Abril-2017) com o longo título de How America Lost Faith in Expertise - And Why That´s a Giant Problem. Consolou-me sentir que, afinal, encontro vária e pensante companhia para as minhas - tuas tão conhecidas  --  cogitações sobre cultura, comunicação, confiança, memória, rigor e humildade (ou a falta crescente e esquecimento de tudo isso) nas nossas sociedades hodiernas. Não vou remeter-te para cartas minhas, nem mesmo transcrever-te textos delas. Fico-me pelos autores que me acompanham   a solidão nestes meus achaques quotidianos de algum desgosto pela multiplicação das asneiras, sem que lhes acuda espírito crítico nem capaz preocupação com o sentido do que se vai atirando por aí... 

 

   Pacheco Pereira encabeça o seu artigo pela afirmação de que o problema atual da ignorância é que ela nunca teve tão boa imprensa, tão bons defensores. E prossegue: Dedicado à memória de José Medeiros Ferreira, que uma vez, numa entrevista, falou do "nó górdio" a uma jornalista que lhe disse que não sabia o que era e recebeu como resposta: "Se não sabe, devia saber". E, mais adiante, diagnostica: Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação, -  já para não falar das chamadas "redes sociais" - e a política dá hoje às humanidades e estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da filosofia. Por mim - como já repetidamente fui escrevendo, inclusive em cartas para ti - acredito que o saber não ocupa lugar, sobretudo se considerarmos que ele não é essencialmente erudição mas a sementeira que produz as raízes do nosso espírito, donde brotarão ramos de conhecimento, e, antes deles, o tronco que é a faculdade de ajuizar, algo muito marcado pela cultura que nos deram, isto é pelo nosso modo de laborar a inteligência. Em vez de terra lavrada, adubada e semeada, a nossa cabeça é cada vez mais um oco vaso de vidro onde todos os dias se põem flores colhidas em "sites" que por aí abundam, sem origem nem rega conhecidas. Quando murcham, por aí se apanham outras... O que quero dizer é que a "cultura" não é mais do que o cultivo que cada um de nós faz do seu espírito. 

 

   O artigo do professor Nichols, Princesa de mim, traz-me outras preocupações que, afinal, me reconduzem à efeméride com que te abria esta carta, tornando o simplesmente ridículo ou despiciendo em algo talvez considerável. Começa assim (traduzo): Em 2014, depois da invasão russa da Crimeia, o Washington Post publicou os resultados de uma sondagem que perguntava aos americanos se os Estados Unidos deveriam intervir militarmente na Ucrânia. Só um em seis inquiridos conseguiu localizar a Ucrânia num mapa; a média das respostas errava por mais ou menos 2500 quilómetros. Mas esta falta de conhecimento não impediu as pessoas de expressarem pontos de vista. Na verdade, os respondentes favoreciam a intervenção na proporção direta da sua ignorância. Dito de outro modo, as pessoas que pensavam que a Ucrânia estava situada na América Latina ou na Austrália foram as mais entusiastas a favor do uso, lá, de força militar.

 

   No ano seguinte, o Public Policy Polling perguntou a uma ampla amostragem de eleitores democratas e republicanos se apoiariam o bombardeamento de Agrabah. Cerca de um terço dos republicanos respondeu que sim, contra 13% que se opunham à ideia. As preferências democratas foram "grosso modo" inversas: 36% opunham-se, 19% eram a favor. Agrabah não existe. É um país de ficção no filme de 1992, da Disney, Aladino. Os liberais berraram que a sondagem revelara as tendências agressivas dos republicanos. Os conservadores retorquiram que ela mostrara o reflexo pacifista dos democratas. Peritos em segurança nacional não deixaram de observar que 45% dos republicanos e 55% dos democratas interrogados tinham uma visão real e definida do bombardeamento de um lugar num desenho animado.

 

   Cada vez mais, incidentes como este são mais norma do que exceção. Não é só porque as pessoas não sabem muito de ciência, política ou geografia. Claro que não sabem, mas esse problema tem barbas. Maior problema, hoje em dia, é que os americanos chegaram a um ponto em que a ignorância - pelo menos no tocante ao que geralmente se considera saber adquirido em matéria de coisa pública - é considerada realmente uma virtude. Rejeitar o parecer de peritos é afirmar autonomia, caminho para os americanos demonstrarem a sua independência de nefastas elites - e isolarem os seus crescentemente frágeis "egos" de qualquer possibilidade de lhes dizerem que estão enganados. 

 

   Tal triunfo da ignorância não é só atributo dos americanos em geral ou da senhora da FNAC em particular. Pior ainda, em Portugal, por exemplo, é o "reino" das capelinhas que se presumem muito sábias e, como os gatos, vão marcando o seu território profissional, "influencial" e mediático... Todos os dias desligo rádios e tv´s, fecho jornais e revistas vários, só para evitar o contacto pernicioso de uns quantos selecionados para nos falarem de tudo... O triunfo da ignorância também começa com o monopólio de uns gurus sobre os comentários destinados à opinião pública. Falam do que não sabem, muito do que pouco ou nunca viram e apenas vislumbraram noutros livros consultados à pressa, aparentemente convictos, sombriamente cautelosos em afastar possíveis intervenções de quem sabe, até escamoteando ou omitindo nomes e citações... Muitas vezes me lembro daquela cena de O Primo Basílio em que entra o Conselheiro Acácio:

 

   - Já esteve no Alentejo, Conselheiro? - Perguntou-lhe Luísa.

   - Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.

   Tomou uma pitada duma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:

   - De resto, país de grande riqueza suína! 

 

   O mais triste, nisto tudo, talvez até nem seja a vaidade ridícula dos títeres da "cultura", o seu receio de menos consideração, nem sequer a respetiva "dor de cotovelo"... Nem, só por si, essa presunção de brilhar, fechando portas e janelas, apagando outras luzes...  É a auto glorificação de supostas "elites" num panorama de ignorância generalizada. Porque - fixa bem, Princesa, - se vai dividindo a comunidade possível entre o que poderia ser partilha e entendimento e, afinal, é o pensarsentir-se em privilégio e superioridade... Saber é sempre ato humilde, uma aprendizagem que é escuta e diálogo. Gosto do verbo francês apprendre, pois tanto diz aprender como ensinar. E é bem verdade que ambos são partilha. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Esta manhã, cedinho ainda, pareceram-me mais silenciosos os melros que me alegram o despertar. Fui à varanda do quarto e avistei um gato que manhosamente rondava o espaço onde os pássaros soem saltitar, a bicarem minhocas, sementes e uns pedacinhos de pão que, todos os fins de tarde, ali deixamos para o dejejum de suas excelências. Como gato não voa, melro esperto pousa mais alto, depois de piar alarme geral e, caladinho, aguarda. Andam por aí, soltos, uns gatos poderosos, que servem a desratização de terrenos da quinta com elevado e eficaz profissionalismo. Um deles, de lindo pelo preto, simpatizou comigo e, uma vez por outra, vem bater-me à porta para, ao cair da tarde, eu lhe levar uma malga de leite. Não lhe conheço calendário litúrgico, mas deve ser em datas festivas, ou simplesmente dia de jantar fora.

 

   Saí de casa há pouco. Assim que me viram, logo os melros acorreram e voltaram ao saltitar da sua restauração. E os gatos lá foram, pachorrentos, para longe da minha vista, enrolar-se em qualquer cantinho acolhedor, ao calor do abençoado sol da manhã amiga. Os pássaros já se habituaram à minha companhia, vou-me passeando, chego junto da "minha" cerejeira do Japão. Os botões, e muitas folhas, começaram a rebentar, três deles já desabrocharam em tímidas flores brancas, a árvore começa a cantar. Anuncia o "meu" hanami bombarralense. Recordo os piqueniques nipónicos, a fraterna alegria de festejar a primavera, com a mãe natureza, os irmãos humanos, os deuses todos, essa ação de graças pelo efémero da flor, tão belo como o da vida, pois morre depressa mas certamente voltará a nascer...

 

   Sabias tu, Princesa, que as flores que os japoneses mais admiram e amam são precisamente as que mais cedo murcham ou os ventos mais depressa levam? Já te tenho falado do despojamento, da assimetria, do silêncio, como valores estéticos na cultura do Império do Sol Nascente. Talvez possa dizer-te que todos têm uma essência de humildade, como assim também a contemplação do efémero - pois a efemeridade embeleza a beleza, esta é irmã do passarinho que Murasaki solta no Conto do Genji: a posse encerra, a liberdade voa - ou a visão agradecida do sol que, pela manhã, acolhemos. A tradição dos hanami (hana=flor, mi=visão, hanami=ver as flores) vem do início do século IX, da corte do imperador Saga em Heiankyo (Kyoto), que, pela primavera, juntava os cortesãos debaixo das cerejeiras em flor (sakura).

 

   O amor da beleza que passa, e as graças que a Deus damos pela vida que morre e vive sempre, são marca indelével da espiritualidade japonesa. Por paradoxal que pareça, a duração do belo não se encontra na visão imediata, descobre-se na contemplação do que é invisível para os olhos. Tal como não podemos circunscrever - nem sequer o vemos - o espaço do espírito: ele é infinito, como a tamanha liberdade que Deus connosco partilha. Deixo-te com a minha versão portuguesa de um haiku de Matsuo Basho (1644-94): 

              
               os visitantes recolhidos no templo

               não veem

               que as cerejeiras deram flor

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Na cena segunda do segundo ato da sua peça The Judas Kiss (Londres, Faber&Faber, 1998), David Hare põe a sua personagem de Oscar Wilde a dizer: - Na prisão, tive oportunidade de ler a vida de Cristo. Repetidamente. Vi nela a maior história que alguma vez tinha lido. Todavia, tinha um defeito. Cristo é traído por Judas, que é um estranho. Judas é um homem que ele não conhece bem. A verdade artística seria maior se ele tivesse sido traído por João. Porque João é aquele que ele mais ama. Não te escrevo, Princesa, para te falar da peça que, aliás, não terá saído nem tão boa nem tão má como críticos e públicos a acolheram... mas se concentra nos amores e desavenças sobre estratégias processuais de Oscar Wilde e Lord Douglas, seu viciado amante e némesis. Quem traiu Wilde, acho eu, foi o próprio ou, se quiseres assim, sua fraqueza e paixão. Qualquer traição é cega, porque tem necessariamente de fechar os olhos; para ser suportável, poderá ser, ainda, mais ou menos cobarde. A cobardia é uma forma, repugnante ou vocativa de compaixão, de fraqueza. De fraqueza todos sofremos, com mais ou menos humildade, na razão inversa da coragem. Já a paixão tem um lado tenebroso e, nesse sentido, é o que define o pecado: este, tantas vezes o digo - até e sobretudo para comigo - é a paixão dos nossos limites, a obsessão do inultrapassável, a recusa de qualquer conversão. Se me deixares brincar um pouco, dir-te-ei, Princesa de mim, que não me confunde o que por aí se chama "estupidez natural": nenhum de nós nasce absoluta, brilhante ou superiormente inteligente. A estupidez que me incomoda tem mais a ver, isso sim, com a teimosia do preconceito, com a recusa a dar um passo e estender a mão a outra pessoa, a uma ideia diferente, a um desafio. 

 

   Também não venho falar-te da figura misteriosa de Judas Iscariotes, esse que ninguém pode provar exatamente quem foi, nem sequer Geza Vermes, sábio judeu que foi jesuíta e deixou a confissão católica, respeitado investigador e professor universitário (em Lovaina e Oxford, por exemplo) que, no seu Who´s Who in the Age of Jesus (2005), distingue quatro Judas desse tempo: o irmão de Jesus; o filho de Saforeu, este fariseu; o galileu, filho de Ezequias e revolucionário; e o Iscariotes, o tal. Há quem pretenda ainda que a personagem de Judas Iscariotes seja, afinal, uma ficção literária, uma espécie de bandido ou bode expiatório que a tradição oral que circulava nas primitivas igrejas cristãs (e, consequentemente, a redação dos evangelhos registou) teve de inventar para um episódio que ajudasse a construir a narrativa da Paixão, tornando-a mais aceitável pelos fiéis. Porque, na verdade, muitos seguidores de Cristo o abandonaram nessa hora, incluindo os mais próximos. Diz-nos São João que além do discípulo que ele amava, junto à cruz de Jesus estavam apenas sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena...Tal distância nos leva a consultar as referências evangélicas ao homem (apóstolo, discípulo) que traiu (?) - denunciou (?) - entregou (?) o Mestre. E então nos surge um Judas Iscariotes que, simultaneamente, é e não é, para Jesus, um estranho. Ocorreu-me tal paradoxo - que nos levará ao Judas - The troubling history of the renegade apostle (Houdder & Stoughton Ltd, 2015) de Peter Stanford - ao assistir, no canal Mezzo, a um Don Giovanni, do Mozart, com arrojada encenação e coreografia (houve quem lhe chamasse  pornografia) transmitida do De Munt (Théatre Royal de la Monnaie), em Bruxelas...  Lá iremos! Quanto à tenebrosa figura do Iscariotes nas narrativas evangélicas, sugiro, Princesa, que leias o Stanford, e me deixes ultrapassar várias considerações que ele adianta, para seguir o meu caminho. Sem todavia esquecer o interesse inegável daquele autor. Desde logo, e cabalmente, chama a atenção para o facto de Judas - figura que, ao longo da história, tem sido por todos conhecida e comentada - ser referido apenas vinte e duas vezes no conjunto dos quatro evangelhos... S. Marcos nomeia-o, primeiro, no versículo 19 do seu capítulo 3º, no relato do chamamento dos doze apóstolos por Jesus: E a Judas Iscariotes, o que o entregou.

 

   Tal referência, tão precoce, deixa suspeitar que, na tradição oral das primeiras igrejas cristãs, a personagem do traidor era geralmente conversada, como aliás testemunham os evangelhos de Mateus (10, 4) e de Lucas (6, 16) que, tal como o de Marcos, desde logo o incluem na lista dos doze chamados: ...e Judas Iscariotes, aquele que o traiu...  ... E Judas, o filho de Tiago; e Judas Iscariotes, que foi o traidor. Nota, Princesa, que tal labéu é atributo do Iscariotes, em qualquer dos sinópticos, logo desde o início da vocação apostólica. Na última citação acima, a de S. Lucas, o apelido parece explicar-se pela necessária distinção entre ele e o outro Judas, o santo, filho de Tiago. O Iscariotes é o único distinguido por nome e apelido. Em S. João - o quarto evangelho, de "família" não sinóptica - não há momento único, um episódio, ou uma listagem de nomes, para o chamamento dos doze, e a primeira referência a Judas Iscariotes dá-se em 6, 70-71: "Não vos escolhi a vós, os doze? E um de vós é um diabo". E isto dizia Ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze. Essa menção do apelido e filiação de Judas, e à sua traição, retoma-se no episódio da unção dos pés de Jesus por Maria de Betânia (João, 12) e ainda na narrativa do lava-pés (Jo. 13, 2), em que o diabo volta a ser lembrado, tal como na última ceia (Jo. 13, 26-27): "Aquele a quem eu der o bocado molhado". E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão. E após o bocado, entrou nele Satanás. Disse pois Jesus: "O que tens de fazer, -lo depressa". Acho curioso observar, Princesa de mim, que o Iscariotes participou, com os outros apóstolos, na instituição da eucaristia, e que o bocado de pão que Jesus molhou e lhe ofereceu era, provavelmente, pedaço do seu corpo eucarístico. Se, por outro lado, considerarmos como o apelido Iscariotes e a filiação deste Judas poderão indicar que, diferentemente dos outros onze, ele não é galileu, mas judeu (da cidade de Queriote?), seremos tentados a concluir que se pretende aí sugerir que o diabo, Satanás ou o Mal, aquele que divide, é simultaneamente nosso e alheio, participante familiar e estranho. É sobre esse "nós e o nosso monstro" que agora me debruço. Judas, portanto, passa de protagonista a pretexto. E não me demoro na consideração das circunstâncias, motivos e pulsões que têm sido adiantadas para tornar plausível o comportamento de Judas. Nem tampouco no aproveitamento desse comportamento, ligado ao nome do traidor e à sua origem judaica, por vagas sucessivas de propaganda antissemítica ou tão só para fazer do povo judeu o culpado, o bode expiatório da morte de Jesus. Talvez por me ter chocado a história de uma denúncia, traição, entrega desnecessária e inútil do Filho de Deus por um seu muito próximo, quando, afinal, Jesus Cristo era conhecido de todos e já reconhecidamente fora acusado e perseguido pelos seus inimigos. Mais: a vítima traída sabia desde sempre o que lhe aconteceria, quando, em que circunstâncias e por quem, como se ela própria fosse comandante dos acontecimentos: o que tens a fazer, fá-lo depressa. Como se dissesse "não enganas ninguém, mas só a ti". Aquela história não é narração de factos reais, antes me parece ser uma chamada de atenção para o inesperado que nos habita, para essa divisão da alma que nos leva à autossuficiência e arrasta à infidelidade. Obra do diabo, dizia-se dantes. Nesse sentido, a observação de Oscar Wilde na peça de Hare sublinha como é no íntimo de nós que a traição acontece, quando amamos (?) e, por a nós nos preferirmos, ao amor nos negamos.

 

   O apego a si mesmo, essa tal grandeza que, diria Pascal, é a miséria do homem, também levou Don Juan a cair no inferno. Mas com ele, de certo modo, podem cair todas as outras personagens, se ninguém finalmente se desembaraçar do apego próprio que faz, de cada um de nós, um burlador com propensão a Judas. A arrojada, quiçá violenta, encenação e coreografia da ópera Don Giovanni, realizada para De Munt por Krzysztof Warlikowski, em 2014, insiste, precisamente, em mostrar que o protagonista pode não ser a exceção.


   Aliás, ocorre-me agora o início do prefácio que Claude Roy escreveu para a edição, que conservo, de Le Spleen de Paris (Le Livre de Poche, Paris, 1964) : «Encontrareis, neste livro, a história do homem enamorado de uma mulher perfeita, tão perfeita, tão incapaz de cometer um erro de sentimento ou de cálculo», que o seu amante a admirou durante muitos anos, com o coração cheio de ódio. No fim, mata-a, para acabar com essa insuportável perfeição. Como se ecoasse em Charles Baudelaire aquele trecho do evangelho de S. João (1, 9-11): Ali estava a luz verdadeira que alumia a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Nesta tarde tão chuvosa dum primeiro domingo de primavera, ponho a tocar e escuto a versão do mozartiano Don Giovanni (Praga/Viena 1787-88) dirigida por René Jacobs em 2006.

 

  Lembrei-me de que a tinha na minha discoteca, ali pretendendo marcar diferença relativamente ao tratamento que lhe tem sido dado, desde E.T.A. Hoffmann, no século XIX: para este, diz Jacobs em entrevista, Don Giovanni é um herói trágico, sempre em busca da mulher que pudesse facultar-lhe a demanda de uma união com o infinito. Donna Anna é elevada tanto acima das outras personagens que a sua "personalidade luminosa" faz dela a verdadeira adversária de Don Giovanni. A demanda do infinito, do inacessível, a redenção pelo sentimento, pelo amor, que aqui se cumpre por morte trágica... - eis certamente uma bela invenção, mas que nada tem a ver com a peça: é, de facto, uma falsificação muito sedutora. Se deve haver um adversário à altura de Don Giovanni, não será Donna Anna, mas Donna Elvira, a "donna abbandonata" da ópera barroca, como já Ariana o tinha sido por Teseu, em Monteverdi. É, de longe, o papel mais comovente de toda a ópera. O seu amor por Don Giovanni é totalmente irracional e profundamente autodestrutivo. 

 

   A grisalha desta tarde parece perguntar-me: como foi Dona Elvira capaz de desejar a morte, pior, a condenação do seu amor? Seria Judas Iscariotes fadado para demandar o sacrifício do seu Cristo? Poderá qualquer de nós ser tão magoado pela bela claridade do amor - como abertura de portas e caminho de liberdade e entrega - ao ponto de se afogar com um tesouro que quer só para si? Don Giovanni colhe a mão gelada do Comendador (ou do seu fantasma) e cai no inferno, depois de ter recusado arrepender-se. Fica preso pelo seu apego a si, recusa o amor que liberta. Mas o epílogo acrescentado a esse final também soa postiço, moralizador à força: nessa cena última, Don Ottavio exprime bem o sentimento egoísta de todos, quando canta "já agora, depois de todos nós termos sido vingados pelo Céu, dá-me, ó meu tesouro, o teu conforto, não me deixes mais à espera"... E os circunstantes vão todos à vida, em busca do conforto próprio. A menos que, com ironia, se insinue aí que, uma vez achado e castigado o bode expiatório, nos possamos, afinal, render ao nosso agrado... O sacrifício de Don Giovanni é assim comentado, em coro (Donna Anna, Donna Elvira, Zerlina, Don Ottavio, Masetto, Leporello): Questo è il fin di qui fa mal! / E de´perfidi la morte / Alla vita è sempre ugual. Cai o pano. Mas eu quedo-me a pensarsentir qual será o lugar do Iscariotes no amor misericordioso de Deus. Quiçá Judas, consumado o sacrifício de Jesus Cristo, tenha finalmente percebido que nisto está o amor: não em termos amado a Deus, mas em Ele nos ter amado primeiro e ter enviado seu Filho para remissão dos nossos pecados. Se Deus assim nos amou, também nos devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós e em nós é perfeito o seu amor (1ª Carta de S. João, 4, 10-12).

 

   Perdoa-me, Princesa, escrever-te a fazer perguntas, ainda por cima bem diferentes daquelas que, em tempos, abriam tantas cartas que pelo mundo se escreviam: Minha Querida Mãe: Como está de saúde, como estão todos? Eu por cá bem, graças a Deus! Vi há pouco uma reportagem sobre essa guerra que vai matando centenas de milhares de civis, a maioria por estarem apenas em suas casas. Para além do horror, a que assistimos, desta visão infernal do mal, onde está a culpa? Será que Deus se esconde para nos pôr à prova? Silencio-me para conseguir entrar nessa oração suprema que é a contemplação da misericórdia. Neste momento, há em mim um Judas que quer, com todo o coração, acreditar que Deus nos amou primeiro. Para também eu amar, até no insuportável. 

   
Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizes-me que suspeitas de algum pessimismo no teor da minha última carta... Sei bem que falar da morte é, e será sempre - como o próprio tema da conversa - uma coisa incerta: até mania pode ser, mas será vício, será virtude? Olhar a morte não é, creio eu, algo necessariamente deprimente, tampouco ansiosamente exultante. É natural, tão natural como termos certezas. Melhor: mais natural ainda, porque a morte, essa, não podemos desmenti-la. Claro que o nosso olhar para ela poderá ser otimista ou pessimista: ou acreditamos que, conservados em congeladores, ressuscitaremos pelos progressos da ciência, ou, sem tais congeladores preservativos, ressuscitaremos de entre os mortos, em tempo igualmente indeterminado; ou pensamos que, simplesmente, ao darmos o triste pio, nos apagamos de vez, coisa que não nos atrai, razão pela qual nos entretemos a perpetuar memórias, em monumentos, nomes de ruas, dias festivos...

 

   Aquilo que te disse, ou quis dizer-te, na minha carta, será melhor entendido se releres outra anterior, aquela em que te escrevia citando frei José Augusto Mourão: A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir sem porquê, nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas apenas em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser, a sua própria vida» (Sermão 6 de Mestre Eckhart, século XIII)...  ... O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de "sobrenatural", eterno ou "supra-humano". A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue mas não separa.

 

   E acrescentava eu que muito tenho repetido o meu intimíssimo pensarsentir o cristianismo como incarnação de Deus, secularização do sagrado. E podes agora ligar aqui, Princesa de mim, o final da minha carta anterior, em que refiro São Paulo que nos lembra ser o amor a maior das virtudes, que permanece eternamente, e cito a 1ª epístola de São João: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e seja quem for que ame, nasce de Deus e conhece a Deus...   ... porque Deus é amor. E a mesma carta dirá: estas coisas vos escrevi para que saibais que tendes a vida eterna. A vida além da morte começa pelo amor antes dela. E o ser vivo é o mesmo: quem ama não vive duas vezes, vive sempre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Nota: Pela curiosidade recordamos dois textos oportunamente publicados:
>> Cartas de Camilo Maria de Sarolea, 16 de outubro de 2016
>> Cartas de Camilo Maria de Sarolea, 21 de outubro de 2016

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizes que te tenho escrito muito pouco, quase nada. Amigos meus também me mandam recados, aconselhando a que não me isole tanto... E todas essas vozes me soam distantes, indistintamente as ouço. Sem querer parafrasear o António Alçada Baptista, sinto-me em peregrinação interior. Talvez porque a necessária arrumação de objetos, livros e escritos com décadas de repouso, quiçá esquecimento, em malas e caixas, em armários fechados, donde os vou retirando atentamente, ainda que sem apreensão, me devolva um caminho de vida que, afinal, passou e ficou. A memória acordada restitui-me a mim, como se o retrovisor fosse um espelho constitutivo. Desenha-se-me meu o rosto que descubro em papéis velhinhos, apontamentos que fui fazendo, desde menino... E fico estupefacto: afinal, todos estes anos de vida não me mudaram muito, permaneço aquele rapaz de vinte anos, em que reconheço o que ainda hoje são as minhas cismas. Este texto data do início dos anos sessenta, escrito a tinta, por caneta célere, mas arrumadora, sem hesitações nem rasuras, num caderno chamado Sebenta, fornecido pela Papelaria Americana, de Leiria:

 

   «A angústia surge quando chega a idade da opção (que em muitos parece nunca chegar), quando nos encontramos como possibilidade, como responsáveis, como autodetermináveis vitalmente por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é então o não ter certezas absolutas, o inquietar-se porque não sabemos se havemos de apostar a vida pela fé ou contra ela, por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é a marca do homem adulto e a passagem necessária para uma fé autêntica, ou para uma autêntica aventura humana quotidianamente acompanhada pelo desespero.

 

   Nós não escolhemos entre a angústia e a fé (isso seria uma falsa opção e a fé seria então um lenitivo), mas escolhemos a fé para além da angústia ou, se quisermos, assumimos a nossa angústia na fé, tal como a poderíamos assumir no ateísmo.

 

   Talvez, sim, talvez, liberdade e angústia sejam simultâneas.

 

   Kierkegaard vê bem quando diz que a angústia é diferente do medo e coisas parecidas, que sempre se referem a um objeto preciso. Porque a angústia é a realidade da liberdade porque é o possível dela.

 

   Mais perto de Heidegger, a angústia é essa inquietação que surge a "ligar"- me ao meu projeto.

 

   E continuando mais com Kierkegaard, a angústia é como que o imenso nada da ignorância.

 

   Enquanto que, para Heidegger, o homem é ser-para-a-morte e a angústia é, de certo modo, diríamos, a consciência disso, para Kierkegaard a morte é para a vida.

 

   O desespero é precisamente esse saber que não se será mais nada, aquilo que queríamos ser, e, simultaneamente, o não poder aniquilar-se. E isto é o sinal do eterno no homem. Diferentemente, Kierkegaard olha tudo numa perspetiva cristã.

 

   O Absurdo é um divórcio.

 

   Divórcio entre o desejo de vida que sinto em mim e o quotidiano que a minha condição me oferece, e a morte.

 

   Divórcio entre a sede da minha inteligência e a insuficiência ou a "mentira" de tudo o que "conheço".

 

   Em suma: divórcio entre mim e o mundo, entre mim e a minha condição.»

 

   Quase sessenta anos depois de ter escrito isto num caderno só para mim, reencontro-me comigo numa questão precisa, e pego outra vez na 7ª edição do Sein und Zeit, de Martin Heidegger (Max Niemeyer Verlag, Tübingen, 1953) que será, como muitos pretendem, uma "análise existencial". Ocorre-me então a explicação que dá Fernando Savater, professor de filosofia na Complutense de Madrid, a propósitos do filósofo de Tubinga: A morte é sempre a minha morte, a própria para cada um dos que podem dizer "eu", isto é, para os Dasein ou seres que existimos aqui, atirados para o mundo e destinados ontologicamente a perecer. Como a morte é essencialmente a minha e não o destino genérico de uma espécie de que sou simplesmente membro de número, é a morte que me constitui com irrepetível propriedade. O mesmo professor madrileno, aliás, no seu Diccionario Filosofico (Editorial Planeta, 1995; tradução portuguesa de Carlos Aboim de Brito nas Publicações Dom Quixote, 2010, donde tiro as citações) diz, ele próprio, na entrada Morte: Não o facto da morte e sua espantosa frequência estatística mas a certeza da morte, como destino próprio e de todos os nossos semelhantes, conhecidos ou desconhecidos, odiados ou amados... essa certeza universal é que nos converte em humanos. A previsão certa da morte - própria, alheia - é a diferença específica da estirpe humana, não a razão ou a linguagem. A segurança da morte é o único segredo que conhecemos de todos os nossos semelhantes e também de nós mesmos, embora intimamente permaneçamos incrédulos perante tão fatal perspetiva.  Assim, para o incréu Savater, isso a que, Princesa de mim, chamamos espírito, o nosso espírito, nasce da presciência da morte. Escreve: Que significa ter espírito? Não é gozar de algum misterioso elemento sobrenatural misturado com o barro comum da nossa natureza nem sentir o latir do imortal dentro do que tem de morrer, mas sim o contrário. Ter espírito é sermos conscientes de que não podemos dar o nosso corpo por garantido (como fazem o resto dos animais que, por isso, chegam a ser muito espertos mas nunca espirituais); ter espírito é dar o corpo por perdido e amá-lo assim, na sua marcha e no seu quebranto. O espírito é a celebração do corpo (do complexo de vida e mundo que corporalmente se manifesta) porque valentemente ainda vive no seu resvalar certo para a morte. O espírito não é, pois, o que nunca morre, mas o que sabe sempre que vai morrer.

 

 

   Aqui chegado, o leitor que sou lembra-se do que escreveu, e muito daquilo que te disse, sobre o amor, em tantas cartas. O amor que é a única vitória possível para um ser em relação, como sempre defino (ou indefino) o ser humano. E volto a recordar o São Paulo que nos fala da permanência única do amor. Curiosamente, o artigo de Fernando Savater sobre a morte encerra-se com um poema do argentino Macedonio Fernandez, que foi precedido por considerações que, sem o desligarem de Heidegger, o aproximam do cristão que eu sou e continua a repetir a pergunta: Ó morte, onde está a tua vitória? Escreve o madrileno: A morte permanece e continua a permanecer inassimilável. Talvez tenha sido precisamente isso que pretendeu Espinosa ao assegurar que o homem livre em nada pensa menos do que na morte e toda a sua sabedoria está concentrada na vida...   ...O pensamento morre quando aceita que o seu tema mais próprio é mergulhar na morte, apropriar-se dela. Em contrapartida, os poetas assumem a morte mas opondo-lhe a outra grande força que nos individualiza, que nos personifica: o amor. O incompatível com a morte não é viver (a vida exige a morte) mas amar: o amor desconhece a força da morte, embora amemos a partir da consciência da nossa mortalidade e da do amado.

 

   A revelação íntima do Evangelho está bem dita, para mim sempre esteve, Princesa, na 1ª Carta de São João, no capítulo 4º, de que destaco os versículos 7 e 8: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e seja quem for que ame nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama não conheceu Deus, porque Deus é amor. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, venceu a morte. Os três últimos versos do poeta argentino que Savater cita:  Pouco mais a Morte logra, pois não pode / entrar seu medo no peito onde Amor pode. / Que a Morte rege a vida; o Amor a Morte.

 

   O rapaz de mim que escreveu aquelas linhas num simples caderno de apontamentos tinha então vinte anos. Foi por essa altura que conheci o Ruy Belo, com quem conversei muito. Meia dúzia de anos depois (em 1966), ele publicava, pela Ática, o seu Boca Bilingue. Lembrei-me hoje, ao ver-me ao tosco espelho de um velho caderno de apontamentos, de uma das Sete Coisas Verdadeiras que o poeta ali recorda, com o título de Em Cima de Meus Dias, poema de que transcrevo as duas primeiras estrofes, por tão minhas as sentir neste momento:

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse 

          e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida

          e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece

          e já nem sei ao certo quantos dias meço

          Regresso com o gado contra o sol rasante

          Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas

          aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?

 

   Olho para dentro de mim e talvez encontre a saída de um caminho.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

Previa-se mais chuva, mas a manhã surpreende-nos com um sol já primaveril. Talvez de pouca dura, mas ofereceu-me uma visita à "minha" cerejeira do Japão, prometedoramente coberta de rebentos anunciadores de sakura em flor, beleza mágica e efémera. Encheu-se-me o coração de memórias do Japão, sobretudo dessa ternura de comunhão com a natureza que nos embala a vida...

 

Lembrei-me dos hanámi, passeios e piqueniques debaixo das cerejeiras em flor (mankai no sakura): fazem-se por toda a parte, no deslumbramento da vida nova, ainda que efémera. Mesmo nos cemitérios: quantas vezes vi, em anos seguidos, centenas de japoneses, sentados em esteiras dispostas sob as árvores das avenidas do cemitério de Aoyama, em Tokyo, petiscando e bebendo saké e cerveja, na alegria da renascença... Pela Primavera, o arquipélago nipónico enfeita-se de muitas e variegadas flores, e campos e jardins alegram-se com elas e com os milhares de japoneses que acorrem a contemplá-las. Mais impressionante do que a tagarelice dos piqueniques, todavia, é precisamente o respeito, a íntima comunhão de todos e tudo nessa contemplação da beleza sempre efémera, renascente, eterna. Ocorre-me agora um poema de Tatsuji Miyoshi (1900-1964), Kiri no Hana, a flor da paulównia, que traduzo para ti:

 

          Subitamente mais fugitivas do que um sonho

          Flores de paulównia deixaram os seus ramos

          E mansamente dançando foram caindo

          Duas três quatro...

          E as felizes levadas pelo vento

          Desceram afagando o teu ombro...

          Que ciúmes tenho

          Dessas flores tão ricas de cor e de perfume

          Que em tardia hora do chão

          Foram recolhidas pela tua mão...

 

   Nem Salomão, disse Jesus, se vestiu com tanta glória.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira