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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Traduzo para ti um trecho do Vasco de Gama (Paris, Fayard, 1997) de Geneviève Bouchon, só porque, tendo sido escrito por uma historiadora francesa, traz outro sabor a uma história que todos conhecemos... Diz assim:

 

   A escala de Melinde permaneceria na memória coletiva portuguesa como momento privilegiado da história das descobertas. O acolhimento reservado aos portugueses pelo sultão foi logo atribuído à «vontade de Deus» que o inspirara. No dia de Páscoa, era a esperança reencontrada depois de tantas desventuras. Durante os nove dias de duração da escala, os homens da tripulação puderam regalar-se com laranjas doces, refastelar-se com carnes e legumes deliciosos, que os jardins da vizinhança, regados por noras, profusamente dispensavam. Comparavam a cidade à vila portuguesa de Alcochete, com as suas muralhas, as suas casas altas brancas de cal, sobre um fundo de palmeirais despenteados pelos primeiros ventos da monção nascente.

 

   Tudo lhes falava da Índia: as especiarias, os têxteis e os homens. Pela primeira vez descobriam a rede tecida à volta dela, de que Melinde era uma das extremidades. A maioria dos seus habitantes era bantu mas, quando a cidade se animava ao cair da noite, no porto se cruzavam também com árabes de turbante que andavam em tronco nu, com a parte baixa do corpo envolta num longo pano de algodão ou de seda. Encontravam também mercadores da Índia, esses chamados gujarates, nome que em breve se tornaria familiar aos ouvidos portugueses, pois em todo o lado os encontrariam. Vinham a Melinde buscar ouro, âmbar e marfim, que trocavam pelos seus algodões, cobre e mercúrio. Quatro navios estavam ancorados no porto, por conta de cristãos do Malabar. Os portugueses não queriam acreditar nesse novo signo da Providência, depois das falsas alegrias de Moçambique e dos dececionantes encontros de Mombaça. Mas parecia mesmo tratar-se aqui de verdadeiros cristãos, membros da Igreja de São Tomé Apóstolo. Eles próprios tinham vindo saudar os portugueses, que se maravilharam ao ver homens de pele escura que não eram africanos. Eram mais pequenos e mais magros, e traziam grandes barbas e longos cabelos atados nas costas nuas. Exprimiam-se numa língua com acentos metálicos, que os intérpretes dos portugueses não entendiam. Recusavam comer carne de vaca, mas prosternaram-se diante de uma imagem de Nossa Senhora que o capitão-mor lhes apresentou para verificar a sua fé. Alguns sabiam algumas palavras de árabe e deixaram entender que não vinham de Calecute, mas de Cranganor, onde de facto existia uma importante comunidade cristã. Também souberam pôr o capitão-mor de sobreaviso contra a "malícia" das gentes de Melinde.

 

   O guião de Geneviève Bouchon é o nosso cronista quinhentista Fernão Lopes de Castanheda (História dos descobrimentos e conquista da Índia pelos Portugueses, 9 volumes, Coimbra, 1924-1933).  Facilmente compreenderás com que pena, agora, eu não possa ter o texto aqui à mão. Já te disse que não sou historiador, nem tenho outras pretensões do que trazer-te comigo a umas voltas que nos façam pensar... Antes de te convidar para um passeio por este relato - que tem que se lhe diga - deixo-te a narrativa - que Camões canta, depois de trazer ao episódio Mercúrio, por Vénus enviado a avisar o Gama -  quando a armada zarpara de Moçambique para Mombaça: Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece, /  Dizendo: fuge, fuge, Lusitano, / Da cilada que o Rei malvado tece, /  Por te trazer ao fim e extremo dano. / Fuge, que o vento e o Céu te favorece;/ Sereno o tempo tens e o Oceano, / E outro Rei mais amigo, noutra parte, / Onde podes seguro agasalhar-te... ///... Vai-te ao longo da costa discorrendo / E outra terra acharás de mais verdade / Lá quase junto donde o Sol, ardendo, / Iguala o dia e noite em quantidade; / Ali tua frota alegre recebendo / Um Rei, com muitas obras de amizade, / Gasalhado seguro te daria / E, para a Índia, certa e sábia guia... ///... E como o Gama muito desejasse / Piloto para a Índia, que buscava, / Cuidou que entre estes Mouros o tomasse; [os de Mombaça, donde foge] / Mas não lhe sucedeu como cuidava, / Que nenhum deles há que lhe ensinasse / a que parte dos céus a Índia estava; / Porém dizem-lhe todos que tem perto / Melinde, onde acharão piloto certo.  // Louvam do Rei os Mouros a bondade, / Condição liberal, sincero peito, / Magnificência grande e humanidade, / Com partes de grandíssimo respeito / O Capitão o assela por verdade, / Porque já lho dissera deste jeito / O Cileneu em sonhos, e partia / Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia... ///... Quando chegava a frota àquela parte / Onde o Reino Melinde já se via / De toldos adornada e leda de arte / Que bem mostra estimar o Santo dia. [o Domingo de Páscoa] / Treme a bandeira, voa o estandarte, / A cor purpúrea ao longe aparecia; / Soam os atambores e pandeiros; / E assim entravam ledos e guerreiros. // Enche-se toda a praia Melindana / Da gente que vem ver a leda armada, / Gente mais verdadeira e mais humana / Que toda a doutra terra atrás deixada. / Surge diante a frota Lusitana, / Pega no fundo a âncora pesada. / Mandam fora um dos Mouros que tomaram, / Por quem sua vinda ao Rei manifestaram. Continuaria, sem qualquer cansaço, mas tão só com alegria, a ler-te, Princesa de mim, muitos mais trechos de rimas do nosso Camões. Acontece-me, com alguma frequência, sentindo-me em estado de abandono, agarrar-me à escrita tão bonita de Luís de Camões ou de Frei Luís de Sousa. Deste, leio e releio passos da Vida do Arcebispo Dom Frei Bartolomeu dos Mártires. Do poeta, as líricas e Os Lusíadas. Nunca percebi como foi já possível achar-se maçadora, dura de roer, aquela crónica e a epopeia, cuja leitura sempre me proporcionou momentos de intenso prazer, esse gosto inefável oferecido pela plasticidade da língua portuguesa. As oitavas que acima transcrevi relatam um acontecimento, mas de modo a que o leitor possa saboreá-lo, como se o visse e ouvisse, e ainda entendê-lo "por dentro", inserindo-o na circunstância e na sua história próxima, deixando adivinhar expectativas, apreensões, receios e alegrias. E eu leio essas estrofes a cantarem- me na alma, foram compostas e escritas há 450 anos numa língua que, hoje ainda, eu festejo como muito minha... Meu também, isto é, como se para mim fora escrito, sinto este passo do capítulo XX (Do cuidado com que acudia aos pobres e dos hospitais que ordenou na cidade...) do Livro I da Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires -  escrita por aquele que em pleno século XIX, Almeida Garrett considerou o mais perfeito prosador da língua, em discurso ao Conservatório Real:

 

   Parecerá por ventura, a quem ler com cuidado o que vamos escrevendo deste prelado, que a quem andava tão ocupado nas cousas espirituais não lhe poderia ficar tempo, nem ainda memória pera o governo das temporais, e é engano, porque não se prezava de menos diligente e cuidadoso em acudir às necessidades corporais dos pobres, do que o era em remediar as espirituais de todos. Atrás fica dito como, tirado o pouco que despendia em sua casa e o que montavam os salários dos oficiais de justiça, tudo o mais se entesourava nas mãos dos pobres, que era o mesmo que passa-lo ao Céu por elas, como dizia a Daciano o glorioso mártir S. Lourenço, em cujo dia vamos escrevendo. Agora é lugar de dizermos a ordem com que o fazia. E frei Luís de Sousa (que, "no mundo" fora D. Manuel de Sousa Coutinho) conta-nos então o cuidado, o rigor, a ordem assente na atenção prestada a cada pessoa, com que o arcebispo (que, tal como o seu biógrafo, também era frade dominicano) ia acudindo aos mais necessitados, que até em sua casa acolhia: Costumava dizer o arcebispo que em sua casa só ele era o estranho e os pobres eram os verdadeiros e naturais senhores dela. Saboreia, Princesa de mim, esta palavra, dita por quem - vimo-lo acima - entesourava nas mãos dos pobres a riqueza que recebesse, o mesmo Bartolomeu que, menininho ainda,  em casa de seus pais, na freguesia dos Mártires, em Lisboa, acolheu um pobre que lhes batera à porta: Encarou no pobre todo risonho, todo alegre, debatendo-se pera ele, e festejando-o com as mãozinhas, boca e olhos, como se fora um dos mais conhecidos de casa; e enquanto o pobre se não despediu, não desviou os olhos dele, nem deixou de o estar agasalhando com aquelas inocentes mostras... A língua portuguesa tem maneiras, ora profundas, ora bonitas, de dizer. Estas que para aqui trouxe, fui busca-las ao século XVI e primórdios do XVII. Guardei-as como sussurra António Nobre : Teu coração dentro do meu descansa / Teu coração desde que lá entrou / E tem tão bom dormir essa criança / Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

 

    E quiçá seja o coração também a pátria da nossa pátria, residência de um intimíssimo pensarsentir a pertença ou a comunhão com coisas e pessoas, passadas, presentes e desconhecidamente futuras. Afinal, a identidade nacional por ventura existirá apenas nessa comunhão de cada um no sonho ou na realidade de algo que todos sentem em uníssono (como quando cantamos o hino ou gritamos "Viva!") mas cada qual representa a seu jeito. Só nesse presente ela existe, sempre a fazer-se, sempre proposta. Nos textos que acima dou ao teu sentido, encontro propostas para a nossa nação de cada dia: aprender a olhar os outros pelos frutos, e não pelo preconceito, pela descoberta do que as diferenças podem fazer umas pelas outras; ganhar o espírito inato da justiça, não vendo nos indigentes encargos, fardos pesados, mas irmãos amáveis e libertadores, e, dando a cada um o seu direito (Ulpiano: Justitia est jus suum cuique tribuendi), entesourar riquezas espirituais. Muitas vezes me recordo ensinamentos cristãos da nossa tradição, que ainda hoje animam tantos gestos de solidariedade espontânea do povo português... Identidade nacional como mística fraterna, que qualquer português-novo é chamado a abraçar. Nunca como gloríola mitológica. Disso, sim, teremos de falar, Princesa. E talvez tenha de dizer-te de mim, português antigo e meio-português por nascimento, a caminho dos oitenta, com mais de metade da vida passada lá fora, e todavia querendo ser, nos dias de hoje, um português de agora...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sanjay Subrahmanyam explica bem a circunstância da cuidada distinção que os Portugueses começaram a fazer entre os mouros da terra e os mouros de meca (ou seja, do Médio Oriente: viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia porém resultado de árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental. Álvaro Velho, que escrevia um diário de bordo da São Rafael, uma das naus da armada, declara de modo enfático: «Esta cidade de Calecute é de cristãos, os quais são homens baços. E andam eles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiadas». Nem se desengana de tais ideias no apêndice do "Roteiro": aí se encontram listados, como reinos cristãos da Ásia, Cranganor, Coulão, Kayal (que aparentemente tem um rei mouro mas súbditos cristãos), Coromandel, Ceilão, Samatra, Sião, Tenasserim, Malaca e Pegu; apenas o Bengala, que possuía «muitos mouros e poucos cristãos, e o rei é um mouro», e Calecute, ficam fora da lista. É significativo que o termo gentio (mais tarde usado para designar hindus e budistas) não se encontre uma única vez no texto.

 

   Sabes bem, Princesa, que os pioneiros portugueses acreditavam -  como muita gente na Europa de então -  na existência de povos e reinos cristãos no Oriente, e com ansiedade procuravam encontra-los, pois eles estariam nas costas do Islão que, naquele tempo, cercava, ao Sul e no Médio Oriente, a Europa cristã. O desejo dessa descoberta era tão forte que explica, não só as afirmações, acima, de Álvaro Velho, como a confusão dos primeiros templos hindus visitados com igrejas cristãs, até porque tinham inúmeras estátuas e imagens, como se locais de culto cristão pudessem ser. Logo que desfeita tal baralhação -  pela experiência madre -  a designação de gentios distingue-os dos cristãos e, simultaneamente, dos muçulmanos, apelidados de infiéis, cujas mesquitas, aliás, não dispunham de representações ou imagens santas, abolidas pela lei islâmica. A classificação de infiel -  aliás recíproca entre cristãos e muçulmanos - denuncia as raízes comuns das três religiões monoteístas, ditas do Livro: judaísmo, cristianismo e islamismo, e ajuda-nos também a perceber as animosidades e os ódios atiçados pelo preconceito de que o outro, o infiel, é um traidor, e nunca podemos confiar em quem nos atraiçoa. Judeu, cristão ou mouro, cada um deles reza ao mesmo Deus único, clemente e misericordioso. Mas, ao longo da História, a própria fé os separa e põe em afrontamento. Talvez um melhor conhecimento mútuo pudesse ajudar a que a fé fosse mais verdadeira, isto é, mais próxima da comunhão fraterna com a clemência e misericórdia de Deus... Ainda por cima, Princesa, muitas histórias sagradas, lendas e mitos, pessoas santas e ensinamentos, são comuns a essas religiões. Há poucos dias atrás, em jantar de amigos, com gente instruída e interessada, houve quem duvidasse de um dito meu sobre a crença muçulmana na maternidade virginal de Maria, na sua veneração de Jesus, esta ao ponto de, no Corão, se negar a sua crucifixão, pois tal santo não pode morrer. E, todavia, olha o que Alcorão diz:

 

   Sura IV, versículos 155 e 156 - Não acreditaram em Jesus. Inventaram contra Maria uma mentira atroz. Dizem: «Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o apóstolo de Deus». Não, não o mataram, não o crucificaram; foi substituído por outro indivíduo parecido com ele, e mesmo os que debatiam acerca dele tiveram dúvidas. Não tinham qualquer conhecimento preciso, apenas suposições. Na realidade não o mataram. Deus elevou-o até Ele, e Deus é poderoso e sábio.

 

   Sura III, versículos 37 e segs. - Os anjos disseram a Maria: Deus escolheu-te, fez-te isenta de qualquer mácula, elegeu-te entre todas as mulheres do universo. Os anjos disseram a Maria: Deus anuncia-te o seu Verbo. Chamar-se-á o Messias, Jesus filho de Maria, venerado neste mundo e no outro, e um dos confidentes de Deus. Senhor, respondeu Maria, como terei um filho? Nenhum homem se aproximou de mim. É assim, retorquiu o anjo, que Deus cria o que quer. Diz: Seja! E é.

 

   O desconhecimento mútuo das diferentes leituras das três religiões "do Livro", nega oportunidades de se descobrirem familiaridades, o facto da cristandade (bizantina e latina) e do islão (árabe e otomano) invocarem a proteção divina para as suas campanhas de expansão e conquista, alimenta a desconfiança e o ódio "religioso". Tal não impediu, todavia, que, na própria bacia mediterrânica, ocasionalmente se estabelecessem alianças entre cristãos e muçulmanos em guerras contra outros cristãos ou muçulmanos, os interesses políticos e ambições territoriais não coincidindo sempre com as confissões religiosas das potências envolvidas. No Índico, os portugueses não fugirão à regra do pragmatismo militar, político ou comercial, e desde logo começam por diferenciar os mouros da terra dos mouros de Meca, e ambos dos gentios. Estes, não sendo infiéis, inimigos sempre suspeitos de traição, são considerados aliados mais prováveis, além de "searas" para obra do Senhor Deus. Por muito estranhos que sejam os seus cultos e imagens, depois de desfeita a confusão com cristãos do Oriente. Luís de Camões (in Os Lusíadas, canto VII, oitava 47 e segs.) diz bem essa surpresa e, quiçá, desgosto que, talvez, o próprio Gama terá sentido, em visita a templos hindus:

 

          Aí estão das Deidades as figuras,

          esculpidas em pau e pedra fria,

          Vários de gestos, vários de pinturas,

          A segundo o Demónio lhe fingia.

          Vem-se as abomináveis esculturas,

          Qual a Quimera em membros se varia

          Os cristãos olhos a ver Deus usados

          Em forma humana, estão maravilhados.

 

          Um na cabeça cornos esculpidos,

          Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

          Outro num corpo rostos tinha unidos,

          Bem como o antigo Jano se pintava;

          Outro, com muitos braços divididos,

          A Briareu parece que imitava;

          Outro fonte canina tem de fora,

          Qual Anúbis Menfítico se adora.

 

          Aqui feita do bárbaro Gentio

          A supersticiosa adoração...  

 

   Mas regressemos a Subrahmanyam e ao nosso jornalista quinhentista Álvaro Velho, para, como escreve o primeiro, nos debruçarmos sobre o contexto em que o nosso observador ingénuo se encontra em Calecute, na costa do Malabar. Subrahmanyam alude a duas debatidas questões acerca dessa primeira viagem de Vasco da Gama à Índia: uma refere-se à escolha do mesmo para o comando da armada, já que o Gama era de pequena nobreza e quase desconhecido; outra interroga o relativamente longo prazo de nove anos entre a dobragem do Cabo das Tormentas/Boa Esperança, por Bartolomeu Dias e a partida da expedição de Vasco. Finalmente, debruça-se sobre a questão de que te falo a seguir, e que tem a ver com a demora, ou atraso da chegada dos portugueses à costa ocidental indiana:

 

   A armada de Vasco da Gama deixou efetivamente o estuário do Tejo a 8 de julho de 1497, e chegou ao Cabo da Boa Esperança a 19 de novembro, mas só atingiu Calecute, o seu verdadeiro destino, a 20/21 de maio de 1498. As razões deste longo atraso, que contabilizava o total da viagem Lisboa-Calecute em 316 dias, foi a paragem de quatro meses na costa oriental africana. Os historiadores descuraram atá hoje esta parte da viagem, centrando-se na chegada a Calecute; de facto, parte do que ocorreu em Calecute só pode ser compreendido tendo em vista a experiência do Gama na África Oriental. Parece-me acertada, Princesa de mim, esta observação: aliás, os factos apontados por Subrahmanyam, na Ilha de Moçambique, em Mombaça e Melinde (donde a armada largou para o Malabar) encontram-se também narrados em Os Lusíadas, e Camões nem esquece a personagem de Fernão Martins que havia sido cativo no Norte de África e sabia falar árabe. O relato de Álvaro Velho contém uma súmula das suas observações. Eis o modo como viram Moçambique, no seu primeiro encontro com o sistema de comércio do Índico:

 

   «Os homens desta terra são ruivos e de bons corpos e da seita de Mafamede e falam como mouros; e as suas vestiduras são de panos de linho e algodão, muito delgados e de muitas cores de listras, e são ricos e lavrados; e todos trazem toucas nas cabeças, com vivos de seda lavrados com fio de ouro; e são mercadores e tratam com mouros brancos, dos quais estavam aqui, em este lugar, quatro navios deles que traziam ouro, prata e pano e cravo e pimenta e gengibre...»

 

   Após esta citação de Álvaro Velho, Subramahnyam continua: Há dois reparos a fazer: a rápida identificação do lugar como muçulmano, mas ao mesmo tempo o desejo de distinguir os muçulmanos "nativos" dos do Médio Oriente. De facto, quando as relações com o rei local azedaram, como ocorreu a breve prazo, há novamente uma clara tentativa de apontar a culpa do sucedido aos mouros brancos.

 

 

   Fosse qual fosse o motivo do desentendimento e algumas escaramuças, ainda hoje debatido, o certo é que a armada zarpou para Quíloa e Mombaça, onde se deram novos confrontos, tendo alguns muçulmanos, que haviam sido feitos prisioneiros, confessado que o rei de Mombaça urdiria uma conspiração contra os portugueses... Seguiram estes, então, até Melinde. O episódio da sua paragem aí merece umas estrofes de Os Lusíadas - como adiante te citarei - mas deixo-te, primeiro, o relato de Subrahmanyam, que segue o "diário" de Álvaro Velho:

 

   A breve estadia na África Oriental é essencial para definir a conduta dos Portugueses no Malabar. Salientemos a extrema desconfiança da atitude do Gama em Calecute: ele espera por navios de terra para se aproximarem das suas naus, em vez de tomar a iniciativa do contacto, após o que manda a terra um membro dispensável da sua frota - um degredado chamado João Nunes - em vez de alguém com autoridade. Nunes, ao encontrar dois mercadores tunisinos no porto, é o verdadeiro protagonista da célebre cena seguinte.

 

[Assim chego à prometida transcrição de um trecho do "Diário" de Álvaro Velho]:

   «E aqueles com que ele ia levaram-no aonde estavam dois mouros de Tunes, que sabiam falar castelhano e genovês. E a primeira salva que lhe deram foi esta que se ao diante segue:

 

   - Ao diabo que te dou: quem te trouxe cá?

   E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe, e ele respondeu:

   - Vimos buscar cristãos e especiaria.

   Eles lhe disseram:

   - Porque não manda cá el-rei de Castela e el-rei de França e a senhoria de Veneza?

   E ele respondeu que el-rei de Portugal não queria consentir que eles cá mandassem. E eles disseram que fazia bem».

 

   Em próxima carta voltarei a Camões e ao rei de Melinde. E também para ti guardo uns passeios à volta das cousas da China, com frei Gaspar da Cruz.

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Mia Couto.png

 

     Minha Princesa de mim:

 

Ocorre-me um trecho de uma entrevista de Mia Couto ao Jornal de Letras (?), não me recordo agora de quando, apenas leio a transcrição que anotei. Penso que falava dos frutos de Moçambique: A maior parte não tem nome em português. A maior parte dos animais também não. Os ingleses, nas suas ex-colónias, foram capazes de chegar até aí, e toda a fauna e toda a flora estão nomeadas em inglês. Eles tinham uma aproximação à natureza. Os portugueses não; diziam a "passarada" o "mato", a "bicharada" e pronto. Deves lembrar-te, Princesa, das vezes em que te falei da minha comichão epidérmica ao ouvir as lusas pronúncias "kivi" e "Havai", por exemplo, de nomes que ingleses haviam transcrito do original (kiwi ou quiúi, Hawai ou Haùaií) para a fonética da sua língua... E que nós, hoje, teimamos em pronunciar à "alemã"! Ignorantes de que também dizemos Molucas em vez de Malucas, quando nomeamos as ilhas cujo nome malaio indonésio foi corretamente transcrito para a fonética portuguesa, por portugueses, e mais tarde, a partir dessa, para a inglesa por ingleses, que escreveram Molucas para lerem Malucas. O nosso desentendimento com o rigor decorre da nossa educação: transmite-nos mais sentimento do que pensamento (os nossos debates públicos, sobretudo políticos, são exemplares dessa carência intelectual), mais desejos e fantasia do que capacidade de análise fria e espírito crítico. A tal diferença sergiana entre política de fixação e de transporte é muito mais profunda do que possa parecer: não foi, ou é, só perder oportunidades de criação local de riqueza, por indústria transformadora ou comércio sustentável, é quase repugnância por obra construtiva a longo prazo, é a pressão da mentalidade de um indigente para que a realização da riqueza, por altos que sejam os riscos, se faça rapidamente e em força. Os trunfos que elites portuguesas detiveram no século XVI foram desbaratados pela ganância de uma classe comerciante que não chegou à humildade de vindouros emigrantes, desses que, sobretudo nossos contemporâneos, foram lá para fora aprender o que é trabalho organizado e produtivo e a realizá-lo por conta própria. Destes, pouco ou nada falam os nossos intelectuais, que insistem em repetir o que os nossos humanistas da Renascença espalhavam pela Europa culta e curiosa sobre os inauditos feitos dos portugueses de então, em textos e traduções latinas, o latim sendo a língua franca da ciência daquele tempo...

 

   Tenho à minha frente um texto curioso, redigido por um tal Zinadim (não o Zidane, que também se chama Zinadim, mas é cidadão francês de origem argelina e, em pleno século XXI, treinador do Real Madrid, da equipa de futebol cuja estrela polar é o português CR7...), este Zinadim a que me refiro foi um árabe do Malabar, ali vivo e ativo no século XVI. Esse texto, de que apenas transcrevo alguns trechos, foi traduzido do árabe e publicado sob o título de História dos Portugueses no Malabar, por um tal David Lopes, em Lisboa, em 1899:

   Em nome de Deus, o Piedoso e Misericordioso!

   Os muçulmanos no Malabar viviam no bem estar e comodidade da vida graças à brandura dos príncipes do país, ao respeito dos seus antigos usos e à amenidade do seu trato. Eles, porém, esqueceram o benefício, pecaram e revoltaram-se contra Deus. Por isso, pois, Deus mandou-lhes como senhores os Portugueses, franges cristãos - queira Ele abandoná-los! - que os tiranizaram, corromperam e praticaram contra eles atos ignóbeis e infames. Eram sem conta as violências, o desdém, o escárnio, quando os obrigavam a trabalhar; punham as suas embarcações a seco; lançavam-lhes lama ao rosto e ao resto do corpo, e escarravam-lhes; despojavam-nos no seu tráfego, impediam sobretudo a sua peregrinação [a Meca], roubavam-nos, queimavam as suas cidades e mesquitas, a apresavam-lhes os navios, maltratavam o seu Livro Santo e os livros, pisando-os e queimando-os; profanavam os recintos sagrados das mesquitas; incitavam os muçulmanos à apostasia e à adoração da cruz, peitando-os para tal; enfeitavam suas mulheres com as joias e os ricos vestidos arrancados às mulheres dos muçulmanos; assassinavam os peregrinos e os demais muçulmanos com toda a espécie de violentações; insultavam o Apóstolo de Deus publicamente; cativavam os muçulmanos e aos cativos punham pesadas cadeias [...] Quantas mulheres de distinção eles cativaram e violaram até terem delas filhos cristãos, inimigos da fé de Deus e danosos dos muçulmanos! Quantos senhores, homens de ciência e principais cativaram e violentaram até que os mataram! Quantos muçulmanos e muçulmanas eles converteram ao cristianismo! E muitos outros atos semelhantes eles cometeram, tão afrontosos e ignóbeis que a língua se cansa a narrá-los, e tem repugnância em pô-los a claro: queira Deus, glorioso e omnipotente puni-los!

 

O nosso padre António Vieira escreve algures:

Se não tivessem ido os comerciantes em busca de tesouros terrenos na Índia Oriental e Ocidental, quem teria então transportado os pregadores que levavam consigo os tesouros celestiais? Os pregadores levaram o Evangelho e os comerciantes levaram os pregadores. 

Cita este trecho da História do Futuro de Vieira o professor Charles Boxer, no seu The Portuguese Seaborne Empire - 1415-1825, mais precisamente a abrir o capítulo III (Converts and Clergy in Monsoon Asia - 1500-1600), na página 65 da edição que possuo (Hutchinson & Co, Londres, 1969). Mas antes dessa transcrição, Boxer refere que the importance of Japanese silver, Chinese silks, Indonesian spices, Persian horses, and Indian pepper in Portuguese Asia should not obscure the fact that God was omnipresente as well as Mammon. E logo a seguir à citação do jesuíta, continua (traduzo do inglês): Se o comércio seguiu a bandeira no império britânico, o missionário vinha mesmo atrás do mercador no império português. Admite-se geralmente que se os homens de Vasco da Gama disseram que tinham vindo à Índia em busca de cristãos e especiarias, a procura destas foi feita com muito mais vigor do que o posto em cuidar de achar os outros durante as primeiras quatro décadas da atividade portuguesa no Oriente. A alusão a Vasco da Gama refere-se, penso eu, Princesa, a um episódio relatado no Diário de Álvaro Velho, aquando da chegada do Gama a Calecute. Vale a pena relê-lo, sobretudo como aqui te lo deixo no contexto em que Sanjay Subrahmanyam o apresenta no capítulo III do seu O Império Asiático Português, 1500-1700. Digo-te isto, minha Princesa de mim, por me parecer que a livre abertura das nossas interpretações ao critério e análise de outros nos ajudará certamente a melhor entender como a complexa realidade das coisas se pode disfarçar - ou descobrir - pela contraposição de pontos de vista e pelas intenções que os inspiram...

 

Começa assim esse capítulo, intitulado Dois Modelos e a sua Lógica: a Criação de um Império, 1498-1540 (na versão portuguesa da DIFEL, Lisboa, 1995): A chegada dos portugueses à Ásia em 1498 não passou despercebida nas obras asiáticas de História de então. Um dos trabalhos mais pormenorizados dedicado às suas atividades é uma crónica árabe Tuhfat al-Mujahidin (ou "Dádiva aos Guerreiros Santos"), escrita nos finais da década de 70 por um tal Zaid al-Din Ma´bari, [o mesmo Zinadim que te citei], que pretendia glorificar os feitos dos adversários muçulmanos dos Portugueses na Ásia. Mas Zain al-Din queria igualmente elaborar um argumento teórico, justificando a guerra contra os Portugueses e demonstrando como estes haviam desrespeitado os modelos de comportamento […] Zain al-Din escreveu quase três quartos de século depois da chegada dos Portugueses à costa do Malabar, no sudoeste da Península Indiana. Uma vez que escreveu a posteriori não se pode julgar a sua visão como representativa da reação espontânea das elites islâmicas locais para com os recém chegados. É de facto o primeiro a sugerir que os muçulmanos do Malabar (os chamados Mapilas) «pecaram e desobedeceram-lhe [a Deus]. Então, Ele mandou-lhes como senhores um povo frangue, os Portugueses - queira Deus abandoná-los! - que os oprimiram, vexaram e hostilizaram com toda a sorte de opressões e vexames!» [Subrahmanyam também retoma aqui a tradução de Zinadim ou Zain al-Din, editada por David Lopes, em Lisboa, 1899]. E, adiante, comenta:

   Como visão dos factos, Zain al-Din é, de um modo perturbante, próximo de alguns dos primeiros textos portugueses respeitantes aos seus feitos na Ásia. O conceito de guerra santa está tão presente nestes últimos como na "Dádiva aos Guerreiros Santos" daquele. Subrahmanyam realça e sublinha que a cronologia e geografia dos factos imputáveis aos recém chegados portugueses é corretamente notada por Zinadim, designadamente o despoletamento da "Guerra Santa" logo desde o final da segunda viagem: As hostilidades entre os recém chegados e os "mouros" não foram porém indiscriminadas: os Portugueses faziam agora uma cuidada distinção entre os mouros da terra e os mouros de Meca (ou seja, do Médio Oriente); viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia, porém, resultado de uma árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável acerca da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental... Mas, paulatinamente e porque a "experiência é madre de todas as cousas", como nos lembrou Duarte Pacheco Pereira, lá se foram adquirindo novos conhecimentos e perspetivas...

 

Deixo mais desenvolvimentos para próxima carta, em que te falarei também do Tratado das Cousas da China, do dominicano frei Gaspar da Cruz, impresso em Évora por André de Burgos, em 1569/70, e primeira obra sobre a China a ser publicada na Europa. Trabalho pioneiro.

 

 

     Camilo Maria 

  

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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      Minha Princesa de mim:   

 

Recordo-me desse conceito de irrealismo prodigioso português, que Eduardo Lourenço invoca no seu O Labirinto da Saudade e Onésimo Teotónio Almeida retoma no seu recente A Obsessão da Portugalidade, livro em que inclui um texto escrito nos anos 90, por lhe parecer que essa tendência para o nacional ufanismo se voltava a manifestar. Na sua referida entrevista à revista LER (Primavera 2017), diz o professor açoriano da Brown University (EUA):

A entrada na Europa e o acesso aos fundos europeus, que supostamente permitiriam a Portugal recuperar o atraso gerado ao longo dos últimos séculos, provocaram um novo delírio. Reinstaurou-se no País um clima festivo, celebratório, completamente desligado do real. De um momento para o outro, Portugal parecia sentir-se truncado das suas raízes, como se fosse possível atirar-se pela janela com 500 anos de História. O País parecia acreditar de novo em fadas e estar a viver nas nuvens. Atingiu-se os picos do irrealismo por altura da Expo 98. Uma outra manifestação dessa mesma época que refletia esse tipo de atitude, uma vivência no mundo poético, foi a euforia com o caso de Timor-Leste...

 

A expressão nacional ufanismo - que, aliás, posso aplicar a uma qualificação das citadas frases sobre a ação de mudar os hábitos do mundo ou de ter a Ásia sob influência portuguesa - remetem-me para outra lembrança: essa, de que várias vezes te falei, das crónicas intituladas Lágrimas de Crocodilo (???), publicadas na revista Flama, na década de 50se a memória não me atraiçoa, por um tal Joaquim Silva Pinto: Que irão os estrangeiros pensar de nós? Eis o reverso da medalha: ao nacional ufanismo corresponde um exacerbado e receoso sentimento de detetável e fatal inferioridade...

 

Na verdade, creio, Onésimo Almeida põe, pelo menos, um dedo na nossa ferida histórica quando aponta para a impossibilidade de atirarmos 500 anos de História pela janela... Não se refere a glórias passadas, antes nos recorda o esquecimento dos séculos da "decadência" - aqueles sobre que se debruçou a "nossa" geração de 70, com destaque para a conferência [do Casino] de Antero de Quental, como tantos outros, então e mais tarde, em Portugal e na Espanha irmã (Miguel de Unamuno, por exemplo). A questão que se levanta não é, pois, a de saber porque é que a lembrança e consciencialização de "glórias passadas" não tem sido suficiente para apoiar a regeneração de sociedades anquilosadas. Já sabemos que assim não tem sido, antes deparamos, cada vez mais, crescentemente, com fantasias coletivas, alienações que nos levam a substituir o mito Gama pelo mito Ronaldo, qualquer vitória desportiva ou êxito festivaleiro sendo transformados em sacramento ou sinal "eficaz" da lusitana vocação para a superioridade. A grande interrogação a que nos cabe responder é a do porquê do desgosto por, ou quase ausência de espírito crítico e analítico em Portugal, ao longo de tantos séculos e hoje ainda. E não chega acusar a Inquisição nem o obscurantismo fatalista e beato do ensino tradicional da Igreja portuguesa - por muitos casos demonstrativos que se possam apontar - pois também todos sabemos que o último quase meio século de democracia "progressista" pouco conseguiu elevar o nível geral dos nossos debates públicos, diminuir a futebolice reinante, ou tirar fôlego às nossas inspirações mitómanas... 

 

Por obscura razão se pretende, entre portugueses, singularizar uma identidade nacional pela sua essencial diferença ôntica, essa alma lusíada que inspirou um povo a realizar obras inéditas: ser português é ser forte, fiel, façanhudo, fazendo feitos famosos. À nossa maneira, sempre original, com mais ou menos desenrascanço, a grande virtude nacional. E/ou a saudade no cerne da "nacional-filosofia"... Os chamados intelectuais, com variações, discordâncias e até polémicas, lá vão insistindo no labor de definirem uma identidade cultural pela diferença de ser, tal como a tradição popular nos remete para o fado, o "marialvismo" e a saudade, ou se considera o "milagre" de Fátima um sinal da especial estima mariana e divina pela nação lusitana. O patriotismo não pode ser um qualquer "ópio do povo", nem evasão "mística", fantasia épica ou efabulação de um ser ideal e acima de qualquer suspeita, menos ainda uma forma mesquinha de sentimentalidade, que o Eça tão bem caricaturou ao fustigar o clamor de "ó pátria, ó querida"! comparando-o a qualquer torpe declaração a "uma espanhola barata". Antes seja o patriotismo, como o amor, uma forma suprema da misericórdia de nós como comunidade histórica, isto é, passada, presente, futura. Somos portugueses entre todos os povos, com suas e nossas forças e fraquezas, tristezas e alegrias, originalidades, também, quiçá todas resultantes de encontros e heranças, de trocas e empréstimos... A mesma humanidade, e as suas caras. Cabe aqui, Princesa, a ida a outros passeios, novos devaneios das minhas cartas que, por isso mesmo, por serem cartas escritas ao correr da pena, ou seja, dos meus dedos sobre o teclado do computador, são só confidências ou partilhas amigas, destituídas de qualquer propósito de tratamento estruturado de ideias.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:

 

Alertas-me para um prolongado silêncio meu, como se as minhas cartas falassem e eu te faltasse com a minha conversa fiel. Esqueces que, neste voluntário retiro, além dos milhares de livros que vou arrumando ou dispondo - em benefício, espero, de quem os possa apreciar - cozinho os petiscos quotidianos... Primum manducare, deinde philosophare, diriam os antigos, e eu, pobrecito, nem à filosofia chego, só procuro tratar de mim... Também recolho, escolho e dou abrigo mais seguro a muitos documentos da vida passada da nossa família, e da minha própria, não tanto por gosto de colecionar memórias, como pela serenidade de uma comunhão intemporal. E é bem verdade que o intemporal talvez nos tire muito tempo...

 

Dou comigo, muitas vezes, a entrelaçar lembranças e descobertas várias, tantas delas insuspeitas de qualquer relação entre si...ou comigo! No fundo, talvez dê por mim a dizer, com o Alberto Caeiro, que a espantosa realidade das coisas / é a minha descoberta de todos os dias. Aliás, dei novamente com estes versos hoje mesmo, evocados por José Mattoso no seu prefácio, de 13 de abril de 1985, à Identificação de um País, que começa assim: Este livro nasce de uma insatisfação: a de não encontrar na historiografia portuguesa atual respostas para muitas interrogações que a moderna ciência histórica não pode deixar de colocar. Tentei dar as minhas e coordená-las num conjunto que constituísse uma visão global da História de Portugal durante os seus dois primeiros séculos. A minha curiosidade orientou-se especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar [...] o que mais me atrai no passado medieval é a mentalidade: como é que os homens viam o mundo e se organizavam para tentarem dominar a realidade, nessa época tão diferente da nossa?

 

Tu também sabes, Princesa, como eu sempre pensossinto a constante mudança das coisas: a vida, o mundo, tudo é movimento, e quando olho para pessoas ou para povos, pela perspetiva do que chamamos História, melhor me apercebo de quão dinâmica, afinal, dialética mesmo, é a ideia ortegana de sermos e sermos a nossa circunstância. Assim, o conceito hegeliano de que die Weltgeschichte ist das Weltgericht deve ser só tomado no sentido de que os efeitos apurados dos factos produzidos são os únicos juízes destes, a História não podendo ser tribunal como se se pudesse julgar o passado por critérios presentes e retroativos... E sabemos quanto atos, factos e seus efeitos vão padecendo de mui diversas interpretações.

 

A História, como um dia disse João Ameal, é a nossa vida antes de nós, sim, mas tal não tem de tornar esta necessariamente gloriosa, nem vergonhosa: as lições da História não são gabanços nem pedidos de desculpa, podem, quando muito, e devem ser ensinamentos da escola da vida.

 

Qualquer povo tem uma história passada - a dos seus seniores - mas, essa mesma, não são os hodiernos que a fazem, é, tão simplesmente, um da sein que herdaram. É dele, de dantes, mas está aí, já feita. E dou aqui, mentalmente, o salto até uma resposta, há pouco lida, de Onésimo Almeida à revista LER, que lhe perguntava se, afinal, o carácter nacional não existe: Não, e deveríamos acabar com conceitos desse género. Não é possível, para qualquer povo, generalizar seja o que for. Nem nunca, em nenhuma época, toda a gente pensa e age da mesma forma, nem nunca, através dos tempos, uma nação se comporta da mesma maneira. Quer dizer que não se pode generalizar, nem diacrónica nem sincronicamente.

 

Ocorreu-me então algo que vou pensandossentindo acerca do modo como eu mesmo e muitos dos meus amigos fomos cultivados no ambiente de "uma certa História do Grande Portugal", algo que tanto me foi remoendo pelo convívio que tive, durante a minha longa estadia no Japão, com versões claramente míticas - para um estrangeiro que eu era - da História nipónica, sobretudo das origens do povo e da estirpe divina da linhagem imperial.

 

Não te esqueças de que até Wenceslau de Moraes escreveu um Dai Nippon (Grande Japão)... Como sabes, já amiúde falei sobre isso. Mas nunca me "psicanalisei" disciplinadamente no tocante ao meu entranhado sentimento de português enquanto filho de uma nação gloriosa, única, diferente de todas as outras. Pensossinto "Portugal", e vibro! Mas a leitura de obras hodiernas, de historiadores estrangeiros e portugueses, dos tais cuja curiosidade - repetindo o dito de José Mattoso acima citado - se orienta especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar, ao ponto de os levar a procurar e consultar outras fontes - até agora esquecidas ou ignoradas, quer por razões políticas ou ideológicas, quer por tradicional desconhecimento de estranhas línguas e culturas - para acharem novas perspetivas e, acima de todas elas, uma visão mais global, muda-me o sentir da História, das nossas vidas antes de nós, com as suas circunstâncias. Não já só "nós", os Portugueses, como pioneiros e condutores, mas todo um vasto mundo, povoado por outros, com que sucessivos lusos foram interagindo.

 

Dias atrás, falava com alguns amigos sobre um livro que há já uns anos me encantou, ao ponto, aliás, de dele ter adquirido vários exemplares para oferecer - incluindo alguns na sua bela edição francesa - a conhecidos, amigos e, - vieillesse oblige - aos inescapáveis netos. Trata-se de A Aventura das Plantas, do Prof. Eng.º Mendes Ferrão, famoso catedrático do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, reconhecido internacionalmente. Tive o grande gosto de o conhecer em 2004/5, quando recorri à sua sapiência para melhor me informar sobre a globalização das plantas que surgiu com a aventura da descoberta de caminhos marítimos entre todos os continentes, tema que decidira abordar em exposições e sessões públicas a realizar no pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão), de que eu era Comissário Geral. Um dos meus convivas referiu então um artigo recente de Guilherme d´Oliveira Martins que diz: "As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos" de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.
Os "negritos" são meus - já perceberás porquê. Antes, todavia, deixa-me dizer-te que, com muito gosto lusíada contei a aventura das plantas aos meus netos, por ela ser um dos mais antigos e persistentes sinais do que afinal a globalização é ou pode ser na vida quotidiana e comezinha das pessoas. Mas quantas vezes lembramos, ou quantos de nós sabem, que não se cultivavam nem comiam batatas, feijões ou tomates na Europa, antes das grandes viagens?

 

História fascinante, tetra secular, elucidativa, divertida, consoladora de humanidade... Quem mudava, então, as plantações de legumes e frutos no mundo de todos, era essa mancha de gente de muitas paragens, muito ou pouco ou nada sábia, a mor das vezes sem mais pertença do que qualquer obediência consciente ou instintivamente devida, que andava embarcada. E não eram só portugueses...

 

Já a razão dos meus "negritos" tem a mesma raiz dos que mostro de seguida, por mim postos num anúncio da Fundação e Museu do Oriente: Os Portugueses na Ásia na Segunda Metade do Século XVII  -  curso administrado por João Paulo Oliveira e Costa  -  dá a conhecer o panorama político, económico e sociocultural da Ásia sob a influência portuguesa.

 

No mesmo ou em dia próximo daquele em que recebi esta notícia, lera eu no Público uma entrevista a Eduardo Lourenço, em que este, a dado passo, afirmava: Portugal não é uma ilha, mas vive como se fosse. Talvez por uma determinação de quase autodefesa. O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos a viver um Ronaldo coletivo, um "nós somos o melhor do mundo"... E, mais adiante: Fomos os primeiros que largámos da Europa para ir para um sítio mítico, só conhecido através de novelas, como as de Marco Polo. De repente, deslocamo-nos do ocidente europeu e demos a volta a África - demos..., deram eles, os navegadores, porque eu não tenho um pé marítimo propriamente dito - para chegar à Índia. E foi como chegar a outro mundo, descobrir outro planeta, e durante dois séculos a nossa capital era mais fora de nós do que dentro de nós. E sempre nos habituámos a que essa imagem que adquirimos num lá fora hípermítico fosse tão universal que ninguém podia não saber que nós lá tínhamos chegado... Há aqui, nesta análise de um nonagenário, muita cândida lucidez. Que, quanto a mim, me levou sobretudo à intuição de que as mitomanias nos podem conduzir a algo que eu definiria como "narcisismo nacional"...

 

          Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Ontem ainda, falava pelo telefone com velho amigo meu sobre o meu incómodo com a impressão que me faz uma igreja clerical, que me parece muito mais preocupada com observâncias canónicas, rituais e institucionais, do que movida pela urgência da abertura do nosso pensarsentir ao espírito de vida, que sopra tudo em todos. Nas cartas que, com alguma fidelidade e franqueza, te vou escrevendo já muitas vezes te falei da minha vivência do cristianismo como libertação de tudo o que possa entravar um caminho de comunhão com o vero-belo-bom. Esta manhã, bem cedinho, madrugada ainda, quedei-me a ler e meditar trechos de uma entrevista do quase nonagenário François Cheng, chinês só, até aos vinte anos, sino-francês paulatinamente criado, desde então, membro da Académie Française, pai de Anne Cheng, sinóloga de nomeada, professora no Collège de France. Recolhi e traduzo para ti passos da resposta de François (nome cristão que escolheu pelo exemplo de São Francisco de Assis) à pergunta do Philosophie Magazine sobre a sua descoberta de Assis, acerca da qual escrevera «C´est là que mon exil va prendre fin». Trata-se de uma conversão? - pergunta a entrevistadora Catherine Portevin. Resposta:

 

   Não totalmente, pelo menos no sentido que lhe dão Claudel ou Pascal. Se, em mim, a via taoista e a via crística não se excluem, é em razão dessa visão comum assente na ideia de Via, um processo de devir que conduz, não ao encerramento ou ao nada, mas ao Aberto. O taoismo tem uma visão organicista do universo vivo onde, animadas pelo sopro primordial e os sopros vitais que dele decorrem, todas as entidades se ligam e se sustêm. As transformações que se produzem entre elas constituem o próprio movimento do Tao-«Vida», movimento sempre puxado para cima. Esta visão de um universo em devir, nenhum chinês se dispõe a abandoná-la, seja ele taoista ou confucionista, torne-se ele budista, marxista ou cristão.

 

   Pelo que me toca, embora dizendo que desposei a via crística, devo precisar que não me situo em relação a uma instituição religiosa ou a uma crença. Trata-se de uma adesão a uma verdade de Vida incarnada. Foi tardio, na minha vida, o verdadeiro encontro com Cristo. Tal se deve, em parte, a um conjunto de factos históricos que nublaram a imagem de Cristo e, por outro lado, ao meu tortuoso itinerário, bem cedo marcado por acontecimentos trágicos...

 

   E François Cheng conta então os factos e suas traumáticas consequências que, a partir de 1937, tinha ele então apenas oito anos, o afetaram: invasão da China pelo Japão, o massacre de Nanquim, a guerra civil chinesa que se lhe seguiu até ao triunfo de Mao Ze Dong, todo um cortejo de horrores, o mal como vento a varrer vidas e bens, a apagar o próprio sentimento da dignidade humana. E prossegue:

 

   Aprendi mais tarde que a crueldade sem limite é um facto inerente a toda a humanidade. Seja como for, a minha jovem alma já sabia que nenhuma verdade de vida seria válida se não respondesse de maneira absoluta aos dois mistérios instalados nas duas extremidades do universo vivo: o mistério da sublime beleza e o do mal radical. Quando me encontrei com Cristo, disse para comigo: «Já aconteceu». O quê? Alguém veio e viveu entre nós. Disse palavras e fez gestos sem qualquer semelhança com outros, e depois, em nome duma transcendência a que chamava Pai, deixou-se pregar numa cruz. Num único ato juntou as duas pontas da verdade: afrontou o mal radical e, simultaneamente, mostrou que o bem absoluto - o amor absoluto - existe. Passou por essa morte que se revelara indispensável. Eis a sua maneira de vencer a morte: oferecer uma Via aberta ao destino humano. Nisso, ele não é apenas uma vítima expiatória, pois mudou a própria natureza da morte, transfigurou-a. Antes dele ninguém fora tão longe. Depois dele, jamais alguém irá além. Na continuidade do tempo humano produziu-se efetivamente um corte: antes dele e depois dele. Quanto a mim, sem esta resposta crística, não sei se poderia viver com o problema do mal.

 

   Se recordares, Princesa de mim, as cartas em que te falava do mal e do absurdo, da coexistência do mal radical e do bem absoluto, este só podendo ser o amor absoluto como vocação da humanidade inteira, a vida tendo apenas sentido quando a anima o amor que vence a própria morte, entenderás agora melhor a comoção profunda com que me encheram a alma e a manhã estas palavras da vocação cristã dum taoista. Por isso, com elas também, que só são minhas porque como tal as tomo, te encho esta carta. Que aqui termino, com o final da entrevista de François Cheng:

 

   A Vida é a única aventura acontecida no universo, não há mais nenhuma. Ela não nos pertence: pertencemos-lhe nós. Sem essa aventura, não seríamos. Todavia, sem nós, a aventura, privada de conteúdo, também não seria. Somos capazes de pensar o universo, porque em nós o universo pensa. Presentemente, quando até temos o poder de interromper o próprio processo vital, é grande a responsabilidade que nos compete. Será bom lembrar que como princípio a Vida é uma Via aberta e ascendente. A Morte é uma lei imposta pela Vida, para que esta possa renovar-se, transformar-se e aceder a outra ordem de ser. Aceitemos com humildade tal mistério. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Estou de volta àquela página de diário que escrevi em Scarsdale, num fim de serão, há trinta e três anos atrás. Na minha última carta, deixara-te esse meu texto no fim de uma citação de São Tomás de Aquino que dizia: Por isso falamos de amor íntimo e das entranhas da caridade... Logo adiante acrescentei: «E lembramos Camões: Transforma-se o amador na coisa amada / por virtude do muito maginar; / não tenho logo mais que desejar / pois em mim tenho a parte desejada. // Se nela está minha alma transformada, / que mais deseja o corpo de alcançar? / Em si somente pode descansar / pois consigo tal alma está liada. Lembrei-me de procurar estas reminiscências na desvairada biblioteca que trago comigo, depois de ter aberto ao acaso um dos volumes do Le je-ne-sais-quoi et le Presque rien do Vladimir Jankélévitch:

 

   Mais Platon pense que l´amour n´est ni ce vieillard vénérable, ni ce jouvenceau ridicule; à vrai dire, Diotime, porte-parole de Platon [no "Banquete", e continuo com Jankélévitch, mas traduzindo-o], descreve-nos um Amor mais próximo dos jovens do que dos velhos, posto que o Amor, segundo ela, está, vez a vez, em plena flor e moribundo e de novo renascente; infatigável caçador, eterno aprendiz, incorrigível noctâmbulo - eis o Amor! Em resumo, foi Pascal quem com maior clareza formulou o paradoxo do Amor: "O amor não tem idade, está sempre a nascer..." Por isso os poetas no-lo representam como uma criança. O amor é simultaneamente criação e reprodução; é totalmente aurora radiosa de uma nova era e herdeiro duma continuidade biológica, duma tradição imemorável. Quantas incontáveis vezes não terá sido repetida a palavra do amor, desde que o mundo é mundo? E sempre nos mesmos termos! E todavia o novel enamorado que hoje declara o seu novo amor improvisa essa palavra como se fosse o primeiro namorado desde a origem dos tempos, como se ninguém, antes dele, jamais tivesse pronunciado a palavra do amor, como se pela a primeira vez na história do mundo um homem dissesse o seu amor a uma mulher ; os próprios gestos do amor, gestos cuja iniciativa se perde na longínqua noite dos primórdios, dir-se-ia que o novel enamorado os reinventa a par e passo: porque cada homem, nesses momentos, é um inspirado e um inventor de génio. Tornando insensível a eterna repetição, o encanto sempre renovado arrasta o namorado no seu incansável impulso; cada manhã é para ele a primeira manhã do mundo.

 

   E, nesta catalisação de memórias e raízes que me provocou a conversa ao jantar (que andou muito à volta da demanda do reconhecimento ou angústia do irreconhecimento em Camus), recordo um texto de Diniz, teólogo antigo, no seu Tratado dos nomes divinos: O Amor é ele mesmo causa de tudo. Pelo excesso da sua bondade ele ama tudo. Faz tudo. Contém tudo. Realiza e leva tudo à plenitude. Ele é, Eros divino, bom, a própria Bondade, a Bondade emanente pela Bondade. Na verdade, Amor benfeitor dos seres, substituindo-se ele mesmo no Bem, infinitamente, não quis que o Bem permanecesse estéril, e levou-o a operar segundo a infinita eficácia da sua virtude.

 

   Depois da conversa sobre Camus e Sartre, etc., lembrei-me de ir a uma dessas estantes em que o Livro Sexto da Sophia está ao lado de títulos como Business Economics e o Ricardo Reis ombreia com o Código Comercial -  à caça de A Capital do Eça que, por acaso, se encostava ao Romancero Gitano e aos Veinte Poemas de Amor (Llorca de um lado, Neruda do outro). Porquê? Porque me lembrei de que Artur Corvelo é pretexto para descrever a superficialidade, a projeção desenraizada, a dificuldade ou impossibilidade de comunicar. E quis que a "minha" criançada me ouvisse ler, naquele português queirosiano, as fantasias, as peneiras, as deceções, as vergonhas, os melindres, os desgostos e as agressividades contidas, ou não, de um jovem provinciano incomunicado num salão (afinal provinciano também) de Lisboa.

 

   Tudo, esconso, está no olhar interior que nos criamos e nos faz nascer. Diz uma canção de Coimbra: És linda, se foras feia / mesmo assim eu te queria... / Não é por ser lua cheia / que a lua mais alumia... E posso dizer precisamente o mesmo, assim:

És feia, se foras linda / mesmo assim eu te queria... Mais luminosa brilharia então essa virtude criadora que se chama ternura. O amor não tem idade nem gosto, é um sopro de Deus.»

 

   Mais de três décadas depois, a minha biblioteca está muito maior e, com a instalação definitiva em Portugal, vou-lhe dando outra arrumação... que, aliás, inclui a doação de muitos, muitos livros. A pouco e pouco, com tempo até para ir tecendo novos panoramas de leituras idas e lembranças, de relações sem idade. Às vezes, um livro que agarro para lhe achar o lugar em estante retém-me, para que o vá ligar ao que me vai no peito ou na cabeça. Assim me encontrei hoje nas Maximes et Réflexions de François VI de La Rochefoucauld. Deixo-te, para fecho desta carta, as sentenças ou máximas morais fixadas no texto de 1678, com os números 68 a 76, que traduzo: É difícil definir o amor. O que se pode dizer é que, na alma, é uma paixão de reinar; nos espíritos, é uma simpatia, e no corpo mais não é do que um desejo escondido e delicado de possuir o que se ama depois de muitos mistérios... ... Se há amor puro e isento de mescla com as nossas outras paixões, é o tal que se esconde no fundo do coração e nós próprios ignoramos...   ... Não há disfarce algum que por muito tempo possa esconder o amor que aí esteja, nem fingi-lo onde ele não está...   ... Não há pessoas que não se envergonhem de se terem amado, quando já não se amam...   ... Se julgarmos o amor pela maioria dos seus efeitos, parece-se mais com o ódio do que com a amizade...   ... Podemos encontrar mulheres que nunca tiveram galanteria, mas é raro encontrar alguma que apenas tivesse tido só uma...   ... Há só uma espécie de amor, mas dele existem mil diferentes cópias...   ... O amor, tal como o fogo, não pode subsistir sem um movimento contínuo, e deixará de viver logo que deixe de esperar ou de temer.

 

 

   Das considerações de La Rochefoucauld posso concluir que o amor é uma potência ativa, só como ato existe, mas cuja essência ainda ignoramos, pois quanto muito apenas sabemos que se esconde no fundo do nosso coração. E é bem certo que muitas vezes com amor se confundem paixões de domínio e de posse... o que não significa que essas, ainda se contraditórias do bem querer, sejam totalmente estranhas ao impulso nativo do desejo de amar. Por isso, em carta anterior, eu te dizia que o amor se destila no silêncio do coração, no despojamento interior de cada si. Amores há muitos e diversos, todos eles devem ser filtrados por esse exercício ascético da procura do encontro do Amor. Como escreveu São João: para que seja completa a nossa alegria. 

 

Camilo Maria

     
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Subi à cidade, num qualquer destes dias. Digo subi, sem ofensa para ninguém, até me parece que Lisboa está lá mais em baixo. Mas faço sempre um exercício de alpinismo, por vezes quase acabrunhante, para lá chegar. E de vez a vez me vou sentindo mais ligeiro no regresso, deve ser alívio de pressão atmosférica... Entre consultas médicas e outras tarefas, ainda consegui dar um salto à Bertrand, em busca do último Agualusa, do recente Miguel Real, e, para trazer conforto às minhas insónias, trouxe A memória dos outros II, Caminhos e Destinos do meu velho amigo Marcello Duarte Mathias, cujo estilo de escrita sempre me delicia, e de quem muito aprecio o rigor de uma inteligência independente, seja eu concordante ou não... O Marcello não é correto politicamente, nem por força, obra ou graça de qualquer outro advérbio: apenas por fidelidade à sua inteligência e ao seu gosto, e respeito pelos de outros.  


   A leitura desta coletânea de textos que o autor já antes editara ou pronunciara não é necessariamente contínua e sequente, pelo que desde logo me conduzi aos que se debruçam e refletem sobre Albert Camus: Camus, um homem livre  -  prefácio à 3ª edição de A Felicidade em Albert Camus, do mesmo Marcello Mathias; Camus  -  um homem só  -  texto da participação do autor num colóquio realizado na Universidade do Porto, em 2013, sobre Albert Camus e Vergílio Ferreira; e ainda o texto da palestra proferida na Academia das Ciências, numa homenagem ao filósofo e escritor francês. Li com gosto despertador este último, que não conhecia, e reli os outros dois, com igual cumplicidade. Reencontrei-me em vários passos do Marcello a circunver Camus, como neste: ... o enraizamento é nele a expressão da sua mais íntima identidade. Numa palavra, Camus liberta-se ao ancorar-se na infância, eterna fonte redentora, ponto de encontro e renovado deslumbramento! E cita um trecho do autor de Noces, retirado da polémica política que, em 1948, o defrontou com Emmanuel d´Astier de la Vigerie: «Há a história, mas há também outra coisa, a simples felicidade, a paixão dos seres, a beleza natural. Também estas são raízes que a história ignora, e a Europa, porque as perdeu, é hoje um deserto.» E desse dito de Camus conclui: Sem dúvida: nós somos também as nossas fidelidades.

 

   O que acima para ti transcrevo, Princesa de mim, surgiu-me esta noite como remissão à última carta que te escrevi e que, afinal - vejo-o agora -, desce mais profundamente às raízes e circunstâncias dessa demanda de mim, peregrinação interior, liberdade de um caminho aberto por misteriosas fidelidades. Sabes bem que sou alguém diferente do Marcello Duarte Mathias, e por isso mesmo simpatizo com estes encontros avulsos de percursos pessoais estranhos, quiçá pela magia desses marcos de encruzilhadas de caminhos que são alguns autores lidos, semeadores de olhares e pressentimentos. Aconselho-te a leitura das páginas do Marcello sobre Camus, por esse reconhecimento de uma independência tantas vezes solitária, que me marcou, a mim também, na formação da juventude: Albert Camus e Georges Bernanos foram dois mestres que tive, ensinando-me que o rigor da coerência (ou a chamada honestidade intelectual) é condição necessária de uma autêntica abertura de um olhar humanista à nossa volta. Sem esquecer outros, entre eles François Mauriac, com quem Camus polemicou... e até chegou a reconhecer razão! Todos somos parcelas. 

 

   As trabalhosas arrumações em que me meti vão-me também descobrindo cartas, diários e outras intimidades. Hoje, curiosamente, encontrei-me com umas páginas minhas, datadas de 13/12/84 (23h30), provavelmente escritas logo depois de um jantar em família, em Scarsdale, New York: presumo que a minha filha Teresa - que na altura tinha os seus 17 anos - trouxe para a nossa conversa à mesa duas obras que estaria a ler. Uma delas, Le Malentendu, seria, como confessa o autor em carta a Jean Grenier, ao tempo da conclusão da primeira versão da peça, une histoire de paradis perdu et pas retrouvé. Um regresso à infância?... E/ou, como disse o próprio autor em outubro de 1944, será essa história a de um filho que quer ser reconhecido sem ter de revelar o seu nome [porque me lembro eu agora do Lohengrin?] e que é morto pela sua mãe e por sua irmã, na sequência de um mal entendido.  Registei eu, em 1984:

 

   «Ao jantar, a Teresa lançou a conversa sobre o Huis Clos do Sartre e o Malentendu do Camus. Falar da prisão que tantas vezes nos sentimos, ou da comunicação que é, tão frequentemente, precisamente o contrário...

 

   A mentira, que o dizer, na roda livre de códigos incontrolados, tende a ser. O suicídio que é recusar a comunicação, pelo desespero de ser autêntico.

 

   Compreender que a solidão se vence por dentro, nunca com conversas ou, por exemplo, como cantaria o Marceneiro: foi bem efémero o desejo / do teu coração que, vejo, / no bulício se treslouca...

 

   Entre ouvir a voz de Deus num poço tapado ou cantar a cantiga do infinito numa capoeira (estarão bem lembrados estes versos do Álvaro de Campos?) não há diferença alguma. A única abertura possível está cá dentro, porque só o silêncio nos comunica e só em silêncio ouvimos. Fazer algazarra é equivalente a tapar os ouvidos.

 

   Assim, o amor é secreto, ou seja, uma destilação do silêncio. O que fala por si e só dizemos porque nos ensinaram o hábito de falar.

 

   O pudor é como quem espera, no silêncio, que a liberdade aconteça. Tudo se comunica de dentro. A vida ativa - dizia São Gregório - é um serviço; a vida contemplativa uma liberdade.

 

   Ao amor chama São Tomás de Aquino (e na Summa Theologiae!) o sentimento de inerência mútua. Explica-se ele, quanto à potência afetiva:

 

   Diz-se que o Amado está no Amante, no sentido de se achar no seu afeto por uma certa complacência [gosto partilhado]. Quer dizer-se que o Amante se deleta no Amado se este está presente. Ou, se estiver ausente, que a ele aspira por um amor de desejo; ou ainda, por amor de amizade, pelo bem que quer ao Amado. Tudo isso, não por ação de causa extrínseca, como quando queremos uma coisa com vista a outra, ou como quando queremos bem a alguém por motivo estranho à sua pessoa. Mas, sim, por complacência no Amado, cuja origem está no intimíssimo do Amante. Por isso falamos de amor íntimo e das entranhas da caridade.»

 

   Voltarei, em carta próxima, a estas considerações que, sobre o misterioso Amor, eu tecera num caderno, num fim de serão, já lá vão 33 anos... Elas apenas couberam aqui, pela coincidência do sentimento da minha tensão interior, dessa necessidade do silêncio na construção da palavra livre, ou da solidão como condição fundadora do amor. Marcello Mathias refere no seu Camus - um homem só o conto O Hóspede, em que o professor Daru, a quem um polícia confiara um revoltoso árabe (passa-se isto durante a guerra da Argélia) para que o entregasse à prisão, explica ao árabe as duas opções possíveis - o atalho que o leva diretamente à penitenciária, e o outro, em sentido oposto, que o levará à liberdade, deixando a decisão final nas mãos do prisioneiro. E assim se despedem. Passados uns momentos, Daru olha para trás e avista o árabe a caminho da penitenciária. Por decisão própria. De regresso à escola, Daru lê rabiscado a giz no quadro preto da sala de aulas: «Entregaste o nosso irmão. Hás-de pagar.»

 

   E Marcello conclui assim o seu conto do conto de Camus: Daru está sozinho, vem até cá fora, olha em redor a imensa paisagem à sua volta, dele tão familiar. E Camus termina o conto com esta belíssima imagem: «Dans ce vaste pays qu´il avait tant aimé, il était seul.» 

 

   Estava só - assim se descobria - porque fora silenciosamente capaz desse supremo gesto de amor: deixara ao árabe uma decisão de liberdade, e este livremente escolhera o caminho da prisão. E porque não quisera impor nenhuma lei exterior à que a consciência do próprio revelasse, era agora considerado traidor. Assim também podemos entender a Paixão de Cristo.  

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Era muito ténue a madrugada, mal despontava a alba, quando a passarada desatou sinfonias bem sonoras: surpresa anunciando surpresas? Certo é que a canícula seca destes últimos dias não me deixara prever a súbita libertação de águas celestes que, mal os pássaros se calaram, foi abençoado refresco... Só não sei se tantas aves canoras a pressentiram ou, simplesmente avisadas, celebraram, anunciando-a. Esta manhã, a alegria precedeu o nascer do sol. E logo o peso de outro dia quente me reavivou a memória de imagens tremendas, o choro magoado de tanta gente que o incêndio raivoso de Pedrógão Grande privou de entes queridos e de bens estimados pelo valor do trabalho que os criou. Eis que agora apenas o silêncio dos pássaros me habita, e fecho os olhos: não quero ver a explicação que não encontro. Talvez espere que a contemplação do mistério de tudo me volte a reconciliar. Talvez esse fado da meninice que diz:  É tão bom ser pequenino / ter pai, ter mãe, ter avós, / ter confiança no destino / e ter quem goste de nós... Se possa cantar assim:  É tão bom ser pequenino, / tão fracos, tão pobres, tão sós, / sem sabermos do destino, / querer quem goste de nós! Ninguém sabe como se ressuscita, a fé encontra-se no que devemos esperar.

 

   Aqui há dias, lia no Philosophie Magazine alguns artigos glosando o mote Quel part d´enfance gardons nous? - e encontrei várias citações de autores celebrantes da infância, momento construtor do nosso ser, talvez por ser a idade da esperança, aquela em que um olhar ou um sorriso ainda pode apagar desgosto e tristeza, por vir ao encontro do indestrutível núcleo de qualquer de nós, dessa força vital que é a tal esperança. Recorda-se o sentido evangélico da palavra de Jesus que diz se não fordes como estes pequeninos não entrareis no Reino, ou o ensinamento taoista - que contrariamente ao confucionismo, para o qual a infância é uma situação que deve ser abandonada, por ser o estádio das nossas incapacidades - a considera, não algo para ser deixado para trás, mas um objetivo, um fim a atingir, como nos explica Alexis Lavis, da Universidade de Rouen: Abra-se o livro atribuído a Laozi, o Dao De Jing. Em vários passos, Laozi, "o Velho Mestre", se serve da infância como imagem com valor de modelo. Ali se lê que " o sábio é semelhante ao menino nu. Enquanto os adultos complicam inutilmente a vida, o menino é um símbolo de simplicidade, de despreocupação. Para nos realizarmos, não precisamos de capitalizar saberes nem de entrar no jogo das interações sociais, mas de regressar a essa inocência primeira. Laozi até chega a comparar-se a uma criança de mama. Num trecho espantoso, diz de si mesmo: "ainda mamo na minha mãe"... ...Não se trata, é evidente, de um apelo à regressão, à infantilização absoluta. A "mãe", aqui, remete para o que os taoistas chamam o "Dao", ou Tao, a "Via", que é o fundamento de tudo o que é, o princípio de todo o movimento. O sábio "mama" porque se alimenta nessa fonte da vida - está numa relação de intimidade com o Dao. Em cartas antigas, Princesa de mim, também te falava do Shinto nipónico - essa Via dos Espíritos - tal como te referi o amae, palavra japonesa que resume a doçura do amor, da dependência da mãe, e afinal nos diz essa saudade fundadora da nossa pessoa. Lembro-te ainda duas expressões, uma de Gilles Deleuze, outra de Charles Baudelaire, neste Philosophie Magazine (junho de 2017): Só a infância é capaz de reanimar um adulto como se reanima uma marionete, injectando-lhe conexões vivas... E ...O génio mais não é do que a infância reencontrada à vontade. É, digo eu, essa nossa capacidade de renascer e recriar.

 

   No meu pensarsentir, ser criança é ser ainda capaz de acreditar em que tudo poderá ser melhor, nós e os outros e o universo inteiro, pois que tragédia mesmo é só o inexplicável e há muitas, muitas coisas que só entenderemos quando formos "crescidos". E nenhum de nós sabe quando será nem se nos será então dado o apocalipse. A esperança não é, não pode ser, a pretensão de poder definir e decidir o destino do que se quer que seja, é apenas, autenticamente, a confiança infantil de que o porvir sempre virá por bem. Tal é quase impossivelmente aceitável pela nossa geração, tão convencida ela está de que tudo é controlável, ao ponto de tão facilmente apontar a outros culpas e responsabilidades pelos desastres que nos escapam... Não se prevê, precavê ou investiga, é sempre mais fácil a gente descartar-se.

 

   Dois grandes escritores e pensadores europeus, Stefan Zweig e Georges Bernanos, estiveram exilados no Brasil, onde o segundo, aliás, recebeu a visita do primeiro na sua casa, em Cruz das Almas. Conta Geraldo França de Lima que Bernanos acolheu Zweig com amiga ternura e grande compaixão pelo drama interior que o judeu austríaco atravessava naqueles atribulados anos 40 do século passado. O escritor católico francês admirava nele o espírito europeu, europeísta e pacifista, e ainda a sua marcada defesa dos perseguidos e humilhados. Sentimento com raízes certamente muito profundas no autor do Journal d´un Curé de Campagne, Les Grands Cimetières sous la Lune, ou desse diário que, considero, será a sua mais bela obra: Les Enfants Humiliés. Os humilhados foram também personagens muito afetuosamente queridas por Stefan Zweig, um homem mundano que, todavia, nas suas novelas, se coloca sempre, como que por dever ético, do lado dos humilhados. Jean-Yves Masson, curiosamente, aponta ainda outro aspeto que, no contexto desta carta, gostaria de te mostrar: Um dos textos que mais me tocou foi uma das suas primeiras novelas, O Segredo Ardente. Uma criança é testemunha duma aventura entre a sua mãe e um homem. Mas nada diz, protege sua mãe. Encontramos aí o fascínio de Zweig pelo segredo, pelo que não se deve nem pode dizer. É também um grande texto sobre a infância.

 

   Stefan Zweig suicida-se em Petrópolis (Brasil) no ano de 1942. À pergunta que lhe foi feita por Le Monde, sobre se o escritor austríaco não teria tido forças para recomeçar a sua vida no Brasil, de que tanto gostava, o mesmo professor da Sorbonne, Jean-Yves Masson, responde: ... Esse suicídio é misterioso... porque, afinal ele estava salvo, não estava na miséria. Mas tinha nele mesmo, há muito, um permanente fascínio pelo suicídio. Não como gesto de protesto, mas como gesto de liberdade, um modo de levar em conta o facto de que pertencia a um mundo que já não renasceria. A um mundo perdido, que ele viu acabar-se. Não quis ver o que se seguiria, o renascimento noutro mundo. Seria então um estrangeiro, não por feito do espaço, mas por feito do tempo. O que era verdade.

 

   As pessoas, como as instituições, sejam estas nações, estados ou igrejas, existem enquanto assim podem, mas só são conforme forem capazes de ressurreição que, subjetivamente, é a confiante esperança da infância. Quando, logo após o suicídio de Stefan Zweig, que tantas elegias provocou, Bernanos escreve no brasileiro O Jornal (6 de março de 1942) um texto sobre as Apoogias do suicídio. Diz: Léon Bloy escreveu que devemos a verdade aos mortos. Desse lugar de repouso - locum refrigerii, lucis et pacis - donde doravante lhe é dado observar o mundo que a nossos olhos aparece como a exposição permanente de todas as formas da ignorância ou do ódio, mas de que certamente saberemos um dia que está perdido na imensa piedade de Deus, como um pequeno seixo no mar, o Sr. Stefan Zweig vê a verdade melhor do que nós, e tenho a certeza de que preferiria o silêncio a certos panegíricos sobre o seu acto desesperado... E mais adiante explica: O suicídio do Sr. Stefan Zweig não é, aliás, um drama privado. Mesmo antes e ter sido lançada a última pazada de terra sobre o caixão do célebre escritor, já as agências transmitiam a notícia ao público universal. Milhares e milhares de homens que tinham por mestre o Sr. Zweig, e como tal o honravam, podem ter pensado que esse mestre tinha desesperado da causa dele, e que essa causa estava perdida. A cruel deceção desses homens é um facto ainda muito mais lamentável do que o desaparecimento do Sr. Stefan Zweig, porque a humanidade pode dispensar o Sr. Stefan Zweig ou qualquer escritor, mas não pode ver, sem angústia, reduzir-se o número de homens obscuros, anónimos, que, sem nunca terem conhecido as honras nem os proveitos da glória, se recusam a consentir na injustiça, e vivem do único bem que lhes resta, uma humilde e ardente esperança. Quem toca nesse bem sagrado, quem arrisca a dissipar uma parcela dele, desarma a consciência do mundo e despoja os miseráveis.

 

   Penso e sinto muito, minha Princesa de mim - agora que te escrevo uma carta que não terá continuação tão cedo, já que outros trabalhos proximamente me aguardam - esta minha união a Les Enfants Humiliés do Georges Bernanos, pelo poder da saudade da infância como esperança regeneradora, talvez a força que me faz escrever, bem pior do que ele, como acreditando que, afinal, ainda tudo está ao nosso alcance. Dou-lhe a palavra:

 

   Falar uma linguagem cristã, uma linguagem que toque os corações, ganhe corações - não quero dizer uma linguagem somente ortodoxa, aprovada pelos censores, irrepreensível, mas uma linguagem cristã, Deus meu!... Quantas vezes, desde a vossa infância, ouvistes realmente falar cristão?...   ... Não sei para quem escrevo, mas sei porque escrevo. Escrevo para me justificar. - Aos olhos de quem? -- Já vo-lo disse, mas desafio o ridículo de o redizer. Aos olhos da criança que fui. Que ela tenha deixado de me falar, ou não, que importa, não me acomodarei ao seu silêncio, responder-lhe-ei sempre. Quero mesmo ensiná-la a sofrer, não a desviarei do sofrimento, prefiro vê-la revoltada do que desapontada, pois a revolta, o mais das vezes, mais não é do que um passo, enquanto que a deceção já não pertence a este mundo, está cheia e densa como o inferno.

 

   Por muito que me tivesse doído escrever-te tudo isto, sobretudo pelo receio de não me entenderes, dou graças a Deus e fico com saudade maior do menino que fui.

 

Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira