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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

Previa-se mais chuva, mas a manhã surpreende-nos com um sol já primaveril. Talvez de pouca dura, mas ofereceu-me uma visita à "minha" cerejeira do Japão, prometedoramente coberta de rebentos anunciadores de sakura em flor, beleza mágica e efémera. Encheu-se-me o coração de memórias do Japão, sobretudo dessa ternura de comunhão com a natureza que nos embala a vida...

 

Lembrei-me dos hanámi, passeios e piqueniques debaixo das cerejeiras em flor (mankai no sakura): fazem-se por toda a parte, no deslumbramento da vida nova, ainda que efémera. Mesmo nos cemitérios: quantas vezes vi, em anos seguidos, centenas de japoneses, sentados em esteiras dispostas sob as árvores das avenidas do cemitério de Aoyama, em Tokyo, petiscando e bebendo saké e cerveja, na alegria da renascença... Pela Primavera, o arquipélago nipónico enfeita-se de muitas e variegadas flores, e campos e jardins alegram-se com elas e com os milhares de japoneses que acorrem a contemplá-las. Mais impressionante do que a tagarelice dos piqueniques, todavia, é precisamente o respeito, a íntima comunhão de todos e tudo nessa contemplação da beleza sempre efémera, renascente, eterna. Ocorre-me agora um poema de Tatsuji Miyoshi (1900-1964), Kiri no Hana, a flor da paulównia, que traduzo para ti:

 

          Subitamente mais fugitivas do que um sonho

          Flores de paulównia deixaram os seus ramos

          E mansamente dançando foram caindo

          Duas três quatro...

          E as felizes levadas pelo vento

          Desceram afagando o teu ombro...

          Que ciúmes tenho

          Dessas flores tão ricas de cor e de perfume

          Que em tardia hora do chão

          Foram recolhidas pela tua mão...

 

   Nem Salomão, disse Jesus, se vestiu com tanta glória.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim: 

 

   Começo esta carta por curta tradução de Matsuo Basho (1604-1654), poeta japonês que bem conheces:

 

               meses e dias são

               perpétuos passageiros

               e viajantes os anos

               que se encadeiam

 

   Somos prisioneiros do tempo. Dessa cadeia que nos amarra e arrasta, num qualquer movimento, seja roda circular ou progressão escatológica. Esta manhã, em visita à minha cerejeira do Japão, que continua a florir em tão lindos dias, murmurei outro haiku do Basho que, se bem me lembro, nos diz algo como "todos os anos, as flores que caem ao chão vão sustentar a cerejeira"... O que hoje penso ser apenas aparente - a contradição entre tempo escatológico e tempo circular - será quiçá tão só a diferença do modo da vivência que qualquer de nós possa ter da circunstância de um momento. Em si própria, a circunstância do tempo é a intemporalidade. O tempo mais não é do que um conceito, categoria mental por que construímos a duração. E esta mais não é do que o que vamos conseguindo apreender, isto é, o que vai preenchendo o nosso alcance. O tempo define-se pela nossa presente limitação. A realidade, como o universo, é o infinito, não tem tempo. Nem espaço. Como Deus. "Criador inefável ! "- assim, todas as manhãs, ao começar as aulas, no colégio, os meus colegas e eu nos dirigíamos, rezando, ao invisível, intocável, inapreensível, pedindo-lhe luz...

 

   Hoje, em Domingo de Ramos, ao ouvir outra prece "Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", lembro-me dessa oração infantil, e pensossinto que todos fomos abandonados ao nosso tempo de cada um, talvez perdidos no infinito que ainda não alcançamos. Mas a Páscoa é um convite a transpor o tempo que nos circunscreve. Além da desolação de tão incompreensível desgraça e mortandade, à nossa volta, talvez a esperança nos dê a coragem de acreditar. O sustento da vida é a infinita renovação. Talvez por isso me lembre tanto do Bolero de Ravel, quando me ocorre o destino do tempo na intemporalidade... O final dessa peça musical é um inesperado apocalipse. Nenhum de nós conhece o dia nem a hora da revelação, cada um, todavia, saberá como entregar-se.

 

   Nesta Páscoa, chamo a nós, Princesa, esse princípio da filosofia africana ubuntu: Existo porque existimos. Evocando uma declaração de Nelson Mandela: Essa ideia tão africana de que só somos humanos graças à humanidade de outrem, contribuiu fortemente para o nosso desejo universal de um mundo melhor. Não sou "eu", sozinho, quem se pode descobrir- "me eu mesmo", mas somente "nós juntos" que poderemos aprender a conhecer e apreciar respeitosamente "os outros" e "nós mesmos". Aqui entre nós, pergunto, quantas vezes pensamossentimos que o convite pascal é um apelo à ressurreição de todos?

 

   Feliz Páscoa!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   André Velter, diretor da coleção Poésie da editora Gallimard, dizia, em recente entrevista à revista Lire: Baudelaire é aquele que, em momento histórico do seu século, realiza absolutamente o que é o génio da língua nesse instante - isto é, a aliança que se opera entre o som e o sentido, aqui levada a um extremo grau de suavidade, de sensualidade. Soube criar uma poesia metrificada e rimada, que simultaneamente parecesse tão natural e sofisticada quanto possível. Em Baudelaire, não há momento algum em que cheire a suor. É uma poesia que nos dá o sentimento de que o sentido que ele quer exprimir e a música que quer criar vêm naturalmente, com a evidência do surto. Eis uma graça que muito raramente se encontra, mesmo em poetas, e que lhe é absolutamente específica...   ... Com ele, tudo se torna lícito! Eis o que é magnífico em "Les Fleurs du Mal", essa liberdade de colher todas as flores...   ... Baudelaire pensa que a beleza não reside no tema abordado, mas na maneira de o fazer, e que daí, portanto, será necessário procurar por todo o lado. Volto assim, Princesa de mim, cento e sessenta anos depois da primeira edição de Les Fleurs du Mal, a essa embriaguez baudelairiana da língua francesa, que, sem talvez ter traduzido qualquer dos seus poemas, Cesário Verde soube provar e beber em língua portuguesa. Como sabes, sou hipersensível à musicalidade marítima das palavras e, talvez por isso, tanto gostei de L´Homme et la Mer:

 

          Homme libre, toujours tu chériras la mer!

          La mer est ton miroir; tu contemples ton âme

          Dans le déroulement infini de sa lame,

          Et ton esprit n´est pas un gouffre moins amer.

 

          Homem livre, sempre amarás o mar!

          O mar é o teu espelho; contemplas a tua alma

          Na onda que ao desenrolar-se acalma...

          Mas nem por isso deixas de amargar!

 

   Esta tradução é minha. Maria Gabriela Llansol tem outro génio, e verte assim:

 

          Homem livre,

          Ser-te-á sempre querido o mar, ele te reflete

          E tu te contemplas no infinito oscilar da sua rebentação,

          Sua planura não é menos cruel que teu abismo __

 

   Nas leituras que tenho feito de Baudelaire, nunca se desperta em mim qualquer desejo de tradução, de tal modo sinto que as palavras usadas pelo poeta, e a sua arrumação, são música escrita na língua que as anima e lhes dá novo significado. Explico mal, Princesa, o que te quero dizer; talvez percebas melhor este meu pensarsentir se procurares entender como, afinal, encontro, na língua portuguesa, mais Baudelaire em Cesário Verde, que não o traduz, mas profundamente o respira: Na parte que abateu no terremoto, / Muram-me as construções retas, iguais, crescidas; / Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas, / E os sinos dum tanger monástico e devoto. // Mas, num recinto público e vulgar, / Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras, / Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras, / Um épico doutrora ascende, num pilar! // E eu sonho o Cólera, imagino a Febre, / Nesta acumulação de corpos enfezados; / Sombrios e espectrais recolhem os soldados; / Inflama-se um palácio em face de um casebre. // Partem patrulhas de cavalaria / Dos arcos dos quartéis que foram já conventos; / Idade Média ! A pé, outras, a passos lentos, / Derramam-se por toda a capital, que esfria. Neste "spleen" de Lisboa, O Sentimento dum Ocidental ecoa Le Spleen de Paris, ambas as cidades são doentes e fechadas, abafam o poeta dum tédio que se chama "spleen", palavra cujo étimo grego significa a bílis negra do baço. Mas desse e nesse mal estar nascem flores, flores do mal a que a consciência e a graça das palavras poéticas trazem consolação e beleza. Assim Baudelaire canta em Le Soleil:

 

          Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures 

          Les persiennes, abris des secrètes luxures,

          Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés

          Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,

          Je vais m´exercer seul à ma fantasque escrime,

          Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,

          Trébuchant sur les mots comme sur les pavês,

          Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.

 

          [...] Quand, ainsi qu´un poète, il descend dans les villes,

          Il ennoblit le sort des choses les plus viles,

          Et s´introduit en roi, sans bruits et sans valets,

          Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais.

 

   Fantástica esgrima, essa procura da rima, esse tropeçar nas palavras, aos encontrões a versos há muito sonhados! Quando o poeta desce à cidade transforma em nobreza a vileza das coisas, torna-se rei, sem alarido nem lacaios, entrando em todos os hospitais e em todos os palácios. A consciência do mal pode também ser o seu exorcismo e, pela revelação da beleza ignota, a poesia deletéria torna-se edificante. Escreveu Santa Teresinha:

 

          Seigneur, la souffrance

          Devient jouissance

          Quand l´âme s´élance

          Vers toi sans retour.

 

   A alma humana é um mistério que ninguém vê e todos sentimos. Assim a poesia como real absoluto, no dizer de Novalis.

 

Camilo Maria         

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Perceberás adiante, nesta ou noutra carta, por que pergunto se o antónimo ou antinómico de edificante é deletério. Ocorreu-me tal interrogação ao cair-me nas mãos - no decurso desta atarefada arrumação de milhares de livros em que a mudança de casa me meteu - uma edição bilingue (Relógio d´Água, Lisboa, 2003) de Les Fleurs du Mal (1857) de Charles Baudelaire, com versão portuguesa de Maria Gabriela Llansol. Já tinha, e ainda conservo, duas edições francesas da obra, quando adquiri esta, num período em que apreciava cotejar originais e suas traduções por "nomes conhecidos" das letras portuguesas, como, entre outros amigos, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura, etc...

 

   Sobre esta versão de As Flores do Mal, teimo em sentir que deparo com dois estilos distintos, a tal ponto que só posso afirmar que um poema é tradução de outro pela coincidência dos temas e a genealogia das inspirações, por vezes ainda porque uns e outros versos tocam as mesmas notas. A edição bilingue sublinha trechos do seu posfácio, que reproduz a Introduction que Paul Valéry escreveu para a edição francesa de 1926. Escolho um, assaz claro, de acordo com a editora portuguesa que, sabiamente, o destacou, quiçá para chamar a atenção para a tentação do original e o desafio da tradução:

 

   Há nos melhores versos de Baudelaire uma combinação de carne e de espírito, uma mistura de solenidade, de calor e de amargura, de eternidade e de intimidade, uma raríssima aliança da vontade com a harmonia, que os distingue nitidamente dos versos românticos, como os distingue nitidamente dos versos parnasianos...   ... Vemos hoje que a ressonância, passados mais de sessenta anos [este escrito de Valéry, não esqueças, Princesa, data de 1926], da obra única e muito pouco volumosa de Baudelaire preenche ainda toda a esfera poética, está presente nos espíritos, é impossível de ignorar, reforçado por um número notável de obras que dela derivam, que não são imitações, mas consequências, e que seria pois necessário, para ser equitativo, juntar à delicada recolha das "Flores do Mal" diversas obras de primeira ordem, e um conjunto de investigações mais profundas e mais subtis como nunca a poesia empreendeu. [Tradução de Manuel Alberto]

 

   Confesso - a ti, Princesa de mim, depositária de meus inauditos segredos - que não sei se prefiro a tradução que a Maria Gabriela Llansol fez de Un Cantique d´Amour (com o título, em português, de O Alto Voo da Cotovia - Relógio d´Água, Lisboa, 1999), de Therèse Martin, aliás, Santa Teresinha do Menino Jesus, à sua versão de Les Fleurs du Mal. Não confronto o pensadossentimento com que a escritora portuguesa verteu, para a sua língua, qualquer dessas obras tão diferentes. Tampouco me atrevo a pretender que uma ou outra se coaduna melhor com o pensarsentir o mundo, a alma e a vida de Gabriela. Só ela, ela e ninguém mais, poderia ter consciência disso. E mesmo esta não teria, ao calhar, a mesma densidade. Mas, por estranho que te possa parecer, vejo uma essência comum a ambas as versões, de obras aparentemente tão diversas e contrárias como flores do mal e lírios de castidade. Talvez lhe chame misericórdia, esse mistério de entreajuda universal, o primeiro dos nossos deveres e o eminente direito de cada um de nós. Caio aqui em pensarsentir a misericórdia como o poder gratuito de revelar e edificar a beleza escondida, de renovar o ser. Estranhamente, poucos entenderão que é precisamente essa gratuidade que Deus quer dar e que seja dada. Como nesse lema medievo: Deus la deu, Deus la há dado.

 

   Escreve, sobre Teresa de Lisieux, Gabriela Llansol: Perguntam-me se é escritora. Respondo-lhes que, em escassos quatro anos, a poesia foi servida como mandam os manuais. Mas vou responder-lhe de outro modo. A Teresa entrou, de facto, no armazém dos sinais da literatura. Noto que foi buscar imagens e ritmos a Musset, a Chateaubriand e a Lamartine. Que entrou, se serviu como entendeu, e fez poemas. Também foi buscar pensamentos e palavras aos Evangelhos, a São João da Cruz, à mística carmelita. As freiras, suas irmãs, apreciaram. Tudo rimava, apesar de quase nada respirar. As ideias pareciam ortodoxas, as sonoridades não chocavam, a mobilidade rítmica introduzia movimento, algum drama, as imagens vinham quase todas da natureza e da vida familiar, os versos eram fáceis de cantar. Sim, porque os poemas eram para ser cantados. Não é inconveniente ver freiras cantar versos que não são os do Ofício. Não é sequer inconveniente que as melodias sejam profanas...   ... Como não nos desviarmos, sem discordar? Sim "dis-cordar" é separar os corações. O teu   escondeste-o nos poemas e nas palavras estranhas que utilizas. Escreves Deus e não sabes o que é. Escreves vale de lágrimas / céu / divino-pai / paraíso / carmelo / coro celeste / pecadores / felicidade / eleitos / anjos / divino / e nenhuma dessas palavras dizem o que parecem. São estranhos de passagem. Como os Musset, Chateaubriand e outros Lamartine não disseram o que te ia na alma. Nem por instantes acreditariam no que os teus olhos viam. Nunca o teu jesus seria para eles o encontro arriscado de uma vida.  E para as tuas irmãs? / Imaginaram-no vindo do sagrado / quando / ele veio para ti vindo do fulgor, / «misericórdia», / como lhe chamaste.

 

   E na misericórdia se encontram as flores do mal e essas que Santa Teresinha canta no seu JÉSUS, MON BIEN AIMÉ, RAPELLE-TOI !... Rapelle-toi qu´au soir de l´agonie / Avec ton sang se mélêrent tes pleurs / Rosée d´amour, sa valeur infinie / a fait germer de virginales fleurs... A escrita francesa de Teresa vai crescendo num ritmo e num balanço sonoro que a versão de Gabriela não pretende imitar. Basta-lhe, magnificamente, colher o coração do poema e, adiante, traduzi-lo assim:

 

          Eis o mistério __ Esse orvalho fecundo,

          Tal um sémen __ virginizou as corolas floridas __

          Flores de um ventre invisível __ onde germinam

          E crescem __ inumeráveis corações maternos.

 

          Meu corpo cresceu nesse mistério __ Sou virgem __ Virginizada

          Por ti __ um corpo materno de corações sem fim

 

          Flores virginais que libertam os homens

          Da ilimitada tristeza

          De viver.

 

          Foste um condenado __ forçado ao extremo

          Sofrimento humano __ que se mirou no azur __ aflito,

          E exclamo __ «Mais um pouco e ver-me-eis

          Surgir glorioso __ na extrema mudez do Pai».

 

   Não, Princesa de mim, não me esqueci de Charles Baudelaire nem de Les Fleurs du Mal;  tampouco, ou ainda menos, olvidarei esta conversa em que se me aproximaram um poeta maldito e uma santa de altar (da qual, lembras-te?, ainda guardo uma relíquia que herdei da minha Avó Teresa...). Espera pela próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

  


Minha Princesa de mim:

 

   Um feroz amigo meu, dos antigos, dos tais que até gostamos de ver muitas vezes - mesmo quando discordamos - pegou num texto que escrevi sobre grupocentrismo português, em que citava Rúben A. e a referência deste a "atrasados culturais", e enviou-me uma carta de apreço pelo dito texto, intitulando-se, a si mesmo, "atrasado cultural".

 

   Devo dizer que essa expressão do autor de O Mundo à Minha Procura não é da minha lavra, nem sequer corresponde a um qualquer olhar meu para isso a que, de modo equívoco ou plurívoco, por aí se vai chamando "cultura". Esta é, para mim, como sobejamente te tenho dito, uma circunstância ou, se quiseres, o ecossistema do nosso pensarsentir. Todos, cada um de nós "tem" a sua cultura, todo um sistema, mais ou menos consciente, herdado e adquirido, de valores, normas, referências, onde respira e se move a sua, nossa, de cada um, visão do mundo, bem como o nosso modo de pensarsentir o tempo em que vivemos. Tal circunstância não é adiantada nem atrasada, é como é, presente e evolutiva. Nesse sentido, parece-me também claro que a cultura de cada um poderá ser mais ou menos aberta a descobertas, ilustrações, tentativas de compreensão de si e dos outros... Assim, até em sentido etimológico, cultura ganha o significado de ato de cultivar, ou seja, é espiritícola. Mas nota bem: o homem culto não é necessariamente erudito, não é um acumulador de ficheiros e referências; é, acima de tudo, aquele que trabalha o seu espírito no entendimento do mundo. Todos nós conhecemos analfabetos cultos e eruditos sem janelas. Atrevo-me a dizer, Princesa, que isso de "fazermos pela cultura" até é uma questão ética. 

 

   Por isso me parece hoje tão importante, Princesa de mim, todos aprendermos a ter presente essa motivação da cultura como incansável labor do entendimento do mundo, precisamente porque ela não se esgota em qualquer acumulação de saberes ou conhecimentos sempre revisíveis, mas antes é um exercício fundamental da nossa liberdade de pensarsentir, isto é, da dignidade humana. As pessoas não se cultivam por decreto, menos ainda pela imposição de dogmas, nem tampouco pela banalização de modas ou mesmo outros quaisquer padrões de pensaragir corretamente. As pessoas cultivam-se pelo gosto da descoberta e o exercício do espírito crítico. A raiz de ambos tem duas faces, afinal iguais, que compõem cada rosto humano: liberdade e dignidade. Para algum espanto de gente com que converso, muitas vezes repito - quiçá lembrado do horror de Georges Bernanos à robotização das almas, temor que bebi na minha juventude - que, nas sociedades hodiernas, o bombardeamento quotidiano de "notícias" e publicidade, "conselhos" e opiniões, vai estruturando uma ditadura insidiosa e anónima que retira a muita gente a simples largueza - ou, pelo menos, o descanso - de respirar espiritualmente. Tenho ideia de que o maior problema - para não dizer o impasse atual - das nossas democracias é a esclerose da comunicação pela ausência crescente de cultura das pessoas, isto é, de educação e oportunidades de exercício do espírito crítico, condições imprescindíveis de diálogo em liberdade. Na verdade, o problema não é as pessoas pensarem pelas próprias cabeças; é tornarem-se cada vez mais incapazes de o fazer... Talvez, sobretudo, por viverem num ambiente (numa cultura) tóxico. Daí a importância crescente da animação de grupos de reflexão e diálogo, de encontro de pessoas que, graças ao progresso e facilidade dos meios de comunicação, até nem precisam de se reunir fisicamente. Retorquir-me-ás que é por vezes bastante desanimador o panorama de notícias e comentários nos jornais e revistas "on line"... Mas se pensares que ele é sobretudo revelador da incultura corrente e da leviandade irresponsável do que por aí se diz, talvez ganhes ânimo para entrares na discussão e reclamares o direito de cada um à seriedade do outro. Quando, em carta recente, te falava, a ti também, nos tais grupocentrismos, tinha ainda em mente como a censura ditatorial se exerce em tempos e modos diversos, por caminhos tão aparentemente limpos e claros, mas ínvios ou encerrados a contestatários mal vindos... E, na verdade, não creio que seja fácil enveredar pelos caminhos "oficialmente" estabelecidos, para fazermos valer uma ideia nova ou diferente, uma dissonância de qualquer daqueles catecismos. Mas não será viável tornar audíveis vozes mais independentes das "corretas" inteligências, como da balbúrdia tóxica reinante, vozes apenas mais refletidas? Deixo-te a pergunta, Princesa de mim.

 

   Como achega à meditação de uma resposta, junto alguns estímulos de reflexão, algo paradoxais, a exigirem subtileza à nossa consideração. Quiçá eu seja um tanto conservador, na aceção do filósofo britânico Michael Oakeshott (1901-1990): Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o que já foi utilizado ao que nunca o foi, o facto ao misterioso, o verdadeiro ao possível, o limitado ao turvo, o próximo ao distante, o suficiente ao excedente, o conveniente ao perfeito. O mais curioso é este pensamento ocorrer-me quando lia a resposta do filósofo socialista francês Jean-Claude Michéa a uma pergunta do Philosophie Magazine sobre quais as "queixas" que ele teria contra a "visão siliconiana" do mundo defendida pelo patrão do Facebook, Mark Zuckerberg: É preciso muita ingenuidade para se acreditar que essa visão "siliconiana" do mundo possa contribuir de modo decisivo para a ultrapassagem dessa "atomização do mundo" e desse "isolamento do indivíduo", em que Engels via, em 1845, "o princípio fundamental da sociedade atual". Antes do mais, porque o tempo que o indivíduo "conectado" passa então a surfar de um ecrã para outro é forçosamente tirado ao da verdadeira vida comum, e portanto a essas relações humanas cara a cara que dela são o suporte privilegiado: uma "amizade Facebook" é muito diferente duma amizade real (um verdadeiro amigo é algo muito diferente de um follower!). Depois, porque esse mundo das redes sociais se organiza prioritariamente sobre um modo afinitário. Ora, o que define o pedestal antropológico fundamental de qualquer vida realmente comum, é que ela assenta no hábito psicologicamente formador de viver com pessoas - vizinhos, parentes, colegas, etc. --  que não escolhemos e que, portanto, não pensam necessariamente como nós... E, por isso mesmo, são condição essencial da nossa cultura.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   José Augusto Mourão, frade dominicano, semiólogo e professor universitário (UNL-DCC), de quem já te falei, escreveu o posfácio para A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol, um dos três livros que, para consolo ou provocação do espírito que eu não queria ver a concentrar-se em cirurgias, decidi que andariam comigo. Serão textos difíceis, isto é, exigirão atenção, mas eis o modo que encontrei para me distrair de atrapalhações sobre as quais pouco entendo e nada posso. Em tempo de bem vinda chuva, clareou a tarde deste domingo, e fui ao fundo do jardim iluminar-me com o amarelo solar da mimosa em flor, exuberante, carnavalesca, em qualquer inverno, em pleno fevereiro. E esta é teimosa sobrevivente, a única que escapou ao tornado que nos varreu em dezembro de 2013. Cheio dessa alegria interior, vim pegar nos textos reservados, e escolhi para ti aqueles que aquela exuberância floral mais iluminou na presente leitura. Há comunicações esquisitas como estas vozes da luz que não se ouve...

 

   Mourão recorda, na senda de Llansol, o "meu" querido Mestre Eckhart, de que tantas vezes te falei e em mim sempre sustenta o indizível:

 

   A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir» «sem porquê», «nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas unicamente em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser e a sua própria vida» (Sermão 6)... [...] A única resposta à vertigem é o ritmo. O ritmo - o ritmo poético, o batimento da língua - é uma figura. A imagem - a imagem poética - é uma figura. A língua do poeta configura-se, o poema é uma configuração. O «como» da comparação é também um «cum» - um com -,, logo uma reciprocidade, uma mutualidade. Para o artista, o mundo é o lugar de desenvolvimento das figuras. É a figuratividade do mundo que o poema diz.

 

 

   O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de «sobrenatural», eterno ou «supra-humano». A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue, mas não separa. As fórmulas de samsara/nirvana/atman, theios/theopoiesis, união hipostática, Encarnação, tudo aponta numa mesma direção: os valores seculares são sagrados. Pannikar propõe a palavra tempiternidade para exprimir esta intuição.

 

   Sabes bem, Princesa de mim, quanto tenho insistido no meu muito íntimo pensarsentir o cristianismo como a incarnação de Deus, a secularização do sagrado, quiçá no cerne de um processo de renovadora transformação do cosmos, como acreditava Teilhard de Chardin. Ou frei Sérgio de Beaurecueil, solitário padre católico em Cabul, quando trazia o seu quinhão de pão partilhado com muçulmanos ao almoço e o consagrava, ao fim da tarde, na sua capelinha. O Corpo de Deus não é coisa que se exponha à reverência, antes é a comunhão dos homens no amor, sublime ação de graças, eucaristia. A nossa religião nada tem de mágico; ou, se assim quiseres, tem como única magia o incessantemente repetido gesto de Deus a querer habitar o coração dos homens. Quanto à escrita de Maria Gabriela, que aqui me trouxe a ti, lê comigo a Lição 1ª de A Restante Vida:

 

   Ana de Peñalosa chegou ao fim da vida. Ser o fim é-lhe indiferente, não tem muito sentido. Mais uma vez pensa utilizar

a escrita

que sempre lhe serviu

de laboratório

e de alquimia.

 

                                             Refletindo,

                                             disse para consigo:

                                             Não será uma arte demonstrativa.

 

A escrita,

vê-la escrever-se lucidamente,

é o fundamento deste real.

 

   Este livro que venho trazendo comigo é o segundo da trilogia Geografia de Rebeldes, que começara com O Livro das Comunidades e se termina com Na Casa de julho e agosto. No final da reedição deste, em 2003, insere a Relógio de Água, o Espaço Edénico - uma entrevista que a autora deu a João Mendes, publicada pelo Público em 18 de janeiro de 1995. Desta te transcrevo uma simples resposta da escritora, que me ajuda a pensar no que te tenho dito:

 

   Como não sou teóloga, o que vejo no texto é que há uma «presença insondável» na nossa vida. Não vale a pena ter medo dela. E tens os atributos. Não há maneira de passar em silêncio. E tens a substância. Com as palavras, não a consegues falar; mas ninguém te impede de caminhar na direção da tua imagem. Conheces outra utilidade melhor para o teu corpo?

 

   E agora, Princesa de mim, sou eu a dizer-te que não, que não conheço. Fez-se escuro lá fora, calaram-se todas as vozes dos campos. Mas dentro de mim me chama a luminosidade de uma mimosa em flor, no céu de fevereiro. Vês? Também não sou teólogo, nem coisa que se pareça. Sou um homem simples que olha para o céu a fechar-se sobre os campos. Citadino de origem, no século XXI, já sei que ele, o céu, não é uma abóbada, nada que nos cubra e obrigue - com sinais de cometas, meteoritos ou estrelas fugazes - mas algo que o nosso conhecimento ainda não sabe nem pode limitar... E tanto, ou tão pouco, me basta para contemplar e amar a infinitude de Deus. Eterna saudade que me chama, sempre a mesma, incansável vocação, mesmo falando muitas vozes. Gente que se diz muito religiosa, cheia de uma fé inamovível em dogmas definitivos, quiçá possuidora de conceitos arquitetados para encerrarem Deus, pensará que serei pouco ou nada religioso. E, na sua perspetiva, tem certamente razão. Afinal, eu acredito numa presença insondável na minha vida, como um sopro que me move e percorre o mundo todo. Esperança em que, no dia tremendo da paz, o amor mandará finalmente nisto tudo.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


   Ruben A.

Minha Princesa de mim.

 

   Vivi hoje uma experiência intrigante para mim, quiçá despicienda para outros: cheguei a casa, aqui no meio do campo, depois de quatro dias de cidade e hospital, com uma cicatriz (?) inchada no pescoço, vaga memória de uma cirurgia e o habitual desarranjo dos antibióticos. Tudo OK! Vim direitinho a este gabinete onde me guardo de muitos malefícios, e passeei o olhar turvo para além da janela, sobre os campos que uma quieta tristeza invernal e uma paz sem tempo me descobriram bem belos... Foi um alívio, renasci, isto é, abri olhos novos. Tinha levado comigo, para entretém convalescente, Os Degraus do Parnaso, do M. S. Lourenço, A Restante Vida, da Maria Gabriela Llansol, e o 1º volume de O Mundo à Minha Procura, do Rúben A. Tenho coisas para te dizer de todos eles, ou melhor, dos passos deles que fui relendo. Mas agora, já caída a noite, e a caminho de um aconchego no silêncio que recolhe esta casa quase deserta, quero transcrever-te um trecho de O Mundo à Minha Procura - que levarei para vale de lençóis: Sou, portanto, contrário a que uma autobiografia se escreva no momento da reforma, quando se deixou de ser chefe de Estado, se abandonou a vida pública, ou quando da caneta já nada mais pinga. Uma autobiografia como O Mundo à Minha Procura só pode ser escrita por volta dos quarenta anos. Deixá-la para mais tarde é deixar vivência poderosa que se acarreta, mas que na pista dos quarenta tem de alijar parte da carga que trouxera das estações do passado. Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental, e no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra...

 

  Reconheço-me, nesta vida campestre que há três meses iniciei, na limpeza da casa, nas telhas procuradas, num novo sistema de sentimento do mundo, num jardim com a delícia de inexplicável paz, nessa voz que me diz, todas as manhãs, que daqui para a frente a contagem é outra. Essa é, para mim, a voz da Misericórdia a acolher-me, e sempre me diz que não tenha pressa, pois o dia que chega é como todos os outros: traz suor e pão. Tampouco tenho com que escrever uma autobiografia, ainda que me aproximando de duas vezes quarenta... Seja como for, viver no campo faz do citadino de mim um velho novo.

 

   Rúben A. publicou este primeiro volume da sua autobiografia em 1966, com quarenta e seis anos de idade, nove antes de morrer, de um enfarte, em Londres. O título está bem achado, o que o autor nos conta é a história dos seus encontros e desencontros com o mundo, a dialética dele mesmo com a sua circunstância, que tanto o faz tornar-se dela como dela fugir. Eis a vida de um ser em relação, narrada com a simplicidade de memórias autênticas, percebida com desconcertante ingenuidade, esta entendida como a inocência inicial. Quando há décadas li pela primeira vez o livro todo, aconteceu-me o que me sucedeu com El Amor en los Tiempos del Colera do Gabriel Garcia Marquez e O Ano da Morte de Ricardo Reis do José Saramago: levei o volume para a cama e só o fechei na manhã seguinte. Mais tarde, regressei a eles todos, para reler passos ou trechos, e também acabei sempre por descobrir coisas que antes não encontrara. Esta noite, reencontrei aquela parte em que Rúben A. nos conta:  Vem-me logo à imaginação o caminhar apressado da rua para apanhar o elétrico que dava mesmo para a primeira aula, aquela rua sem fim, palmilhada com o credo na boca e que servia aos últimos momentos para, de livro em punho, saltando de cova em cova, estudar, rever, passar a limpo pela memória as conjugações irregulares dos verbos franceses, as descrições mineralógicas de cristais que viviam apenas na minha imaginação, e o muito teórico latim, o famigerado latim, o facinorado latim. E o horror que eu tinha em ir ser chamado, em ir pôr-me em sentido diante dos professores de gerações já passadas há muito tempo! Quem escreve aquelas linhas é licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra e no momento da escrita, penso, seria funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa. Ou antes será o adolescente que morava na casa grande da sua avó, na Quinta do Campo Alegre, no Porto (onde hoje é o Jardim Botânico) e vai a caminho do liceu?

 

   Desta feita, o que descobri (novamente?) e me fez pensar foi algo que com alguma frequência pensossinto, sempre com receio de estar a ser injusto, isto é, de ter mais direito ou virtude do que outros. A dado passo, não é o jovem liceal que fala, mas certamente o homem maduro, mordido e marcado: Na sociedade portuguesa há um ciúme indescritível perante a coragem e perante a cultura. Que um dos seus membros se liberte pelo espírito ou pelo valor humano é o maior insulto que eles, atrasados culturais, julgam que se lhes pode fazer. Sentem-se ofendidos, reagem de certo modo com maledicência, uma vez que não tendo nem grandes amores nem grandes ódios oferecem apenas o mesquinho da perseguição, fechando as casas, achando as pessoas um peso, ou votando a um ostracismo aqueles três ou quatro - em cada década só há também três ou quatro aves migradoras - bodes expiatórios da purga mental da sociedade, ancorados para toda a vida a um inferno. Esquecem-se da felicidade que irá acolher os eleitos, os que souberam fazer a escolha depois de anos de amadurecida visão, depois de terem estado sós... ... Não compreendem, porque está fora do seu alcance, o sentido de plenitude contemplativa que paira em seres semelhantes mas de idioma mais delicado...   ...São os cadáveres adiados que procriam, de que fala o genial Pessoa... ... Têm uma linguagem especial; raros são os que tentam novo alfabeto. Só conheci um homem rico e civilizado em Portugal - o resto são amigos uns dos outros, falam em cifras, comungam moedas, apertam a mão em notas e quando conjugam a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo dar enganam-se e dizem o pretérito em dei. Já dei, já dei, como quem foge a esconder-se de uma peste. Não tenho tido, na vida, mesmo apesar de agressões sofridas, experiências traumatizantes. Talvez por sempre me ter lembrado desse ensinamento de minha Mãe que dizia como, perante, certos ataques ou negações da nossa circunstância, devemos pensarsentir que ça glisse sur la cuirasse de mon indiférence... Mas este passo de O Mundo à Minha Procura - que, neste particular, até me apetece, com alguma ironia, traduzir para francês como Ce Monde qui me Cherche - evoca em mim impressões mais ou menos vagas ou constantes da atmosfera grupocêntrica da sociedade portuguesa, composta de clubes ou partidos que gostam de se reunir no seu modo próprio, pensando sensivelmente da mesma maneira, repudiando por princípio o outro, olhando para a diferença com superioridade, desconfiança ou receio. Já reparaste, Princesa, que em vários sectores da nossa sociedade aparecem sempre os mesmos a perorar e sustentar-se? Nesse sentido, somos profundamente provincianos. E creio que, precisamente porque nos encerramos em ortodoxias e correções, não nos autodesenvolvemos. Vamos "lá fora" buscar ideias e vocabulário, nem sempre reparando em muitos erros de tradução. Deixa-me transcrever para ti um parágrafo de Uma Pérola para Fradique, texto inserto em Os Degraus do Parnaso do M. S. Lourenço: Eça de Queiroz convence ao desenhar um verdadeiro cosmopolita na figura de Fradique. Nós sabemos que este é o cosmopolitismo verdadeiro em virtude da perceção de Portugal que ele torna possível, uma perceção dura mas que sugere também um programa de regeneração: Portugal é na verdade um país traduzido do francês para calão. A descoberta cosmopolita de Fradique, de que os portugueses só utilizam uma variante reles da sua própria língua, contém no entanto em si a possibilidade de os mesmos portugueses deixarem de falar, de pensar e de sentir em calão.

 

   Escrever-te esta carta, Princesa de mim, foi um exercício de alívio do incómodo físico em que me encontro. Bem hajas!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de que quando fiz os exames do nosso "7º ano do liceu", como então se dizia, para a "média" das classificações das provas escritas também contribuiu a "nota alta" que me foi dada a "História", no liceu Passos Manuel, onde me apresentara a exame, vindo do Colégio de Clenardo, de padres e privado. Recordo a efeméride, porque a minha dissertação escrita incidira e se concentrara sobre a importância histórica da descoberta do caminho marítimo para a Índia, com forte insistência na consideração de objetivos estratégicos (económicos, políticos e religiosos) e no seu confronto real com outros povos e culturas. Era certamente entusiástica e - pelo menos assim sentipensei - talvez bem fundamentada, para me merecer a recompensa. Quarenta anos depois, em 1998, quando acompanhei a visita do príncipe herdeiro do Japão à EXPO de Lisboa, mais, talvez, do que na lembrança de Portugal no pavilhão nipónico, reparei na referência que "nos" fazia, logo à entrada do seu pavilhão, a União Indiana: resumindo, explicava que o eldorado que os europeus procuravam se encontrava na Índia, e o caminho para lá fora descoberto pelos portugueses. O novo mundo de Cristóvão Colombo fora engano. Por muito que tal pudesse festejar o ego tão carente da cultura portuguesa tradicional - que, aliás, neste particular não distingue monárquicos de republicanos, nem "fascistas" de comunistas - a representação oficial da União Indiana procurava aqui, sobretudo e aproveitando uma exposição em Portugal, tornar-se centro de atenções... E agradar aos indígenas (nós, claro!)

 

   O que, francamente, tampouco deixou indiferente o meu próprio "brio patriótico"... Mas também me levou a refletir e me interrogar - era residente no Japão - sobre a perceção corrente (a tal que é comum e quotidiana) que a gente nipónica tem de "nós", comparando-a, ainda, com a versão dela que nos é proposta pelo nosso amor próprio. Falei muitas vezes, em charlas e círculos restritos, da evolução do meu pensarsentir sobre o assunto. Hoje, pela primeira vez, e para ti, escrevo sobre a questão.  É, com os pés no chão, uma lembrança de coisas que li, vi, ouvi e registei in loco. Como sabes, não sou mitómano...

 

   Em todas as escolas japonesas se aprende, logo nas primeiras classes de história, que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, que náufragos portugueses foram os primeiros europeus a arribar ao Japão, onde introduziram o teppo, ou arcabuz, creio, e que Francisco Xavier foi ali o primeiro missionário cristão, chegado seis ou sete anos depois. [Também todos nós, na escola primária, Princesa, ouvimos falar de Viriato...] Hoje, a esmagadora maioria dos japoneses pouco ou nada sabe de Portugal, e os que em nós pensam podem ser classificados em dois grupos: aqueles que, ao acaso de encontros ou por tradição familiar ou outra, são amigos de Portugal, podendo até participar e animar (secundários) departamentos de "português" em universidades locais (pouquíssimas e, aliás, hoje mais orientadas pela relação muito mais estreita com as comunidades nipo-brasileiras (o Brasil foi importante destino da emigração japonesa) ou, ainda, grupos, clubes, associações de amizade, etc.; e os que, quanto mais privam connosco, tanto mais à vontade nos dizem que se sentem por vezes menores   por se apontar como primeira gente curiosa do ocidente por eles um ínfimo e pobríssimo povo europeu... Claro que há outros interesses japoneses em Portugal, e é sobretudo comovente a simpatia dos pequenos núcleos que celebram amizade connosco. Mas somos, naquele oceano, uma gotinha de água - e qualquer português que lá tenha vivido uns anos sabe do que falo. Nas visitas oficiais, o tema do primado da chegada e contactos dos portugueses, claro está, é sempre recordado... quiçá porque nada mais há para invocar. [Já noutro registo, ocorre-me, Princesa, uma crónica publicada na revista Flama, nos anos 50 (cujo título era Lágrimas de Crocodilo...seria?... e o autor Joaquim Silva Pinto, já não me lembro...) que perguntava, com ironia: O que é que os estrangeiros pensarão de nós? Ainda temos o mesmo tique, basta passar os olhos pelos nossos jornais ou um distraído ouvido pelos debates políticos...] Facto é que nem o conhecimento do Portugal atual, nem a curiosidade pelos portugueses de hoje são comparáveis ao maravilhado encanto que, no século XVI, os nanban, ou bárbaros do sul despertaram nas gentes do arquipélago nipónico. Alguns saborosos exemplos dessa atração vêm apontados no capítulo Os Nanban do meu Fomos em busca do Japão... Mesmo os vocábulos de origem portuguesa que, naquele tempo, diziam, na fala japonesa, as coisas que eles antes não conheciam (gibão, capa, botão, vidro, copo, etc.) caíram em desuso e foram substituídos por anglicismos. Ficaram as palavras da doutrina e da liturgia cristã católica (Deus, Maria, missa, etc.), aliás de origem luso-latina: a língua da religião, na altura, era, como sabes, o latim. Dito isto, é sempre com indestrutível carinho e admiração que recordo o século cristão (o "nosso" século) no Japão. Sabendo hoje que também ganharei dele um melhor entendimento, se o considerar como um período importante, a vários títulos, da história dos japoneses, e não sobretudo como saudosa épica glória "nossa"... 

 

   Eu mesmo já inocentemente disse que Silêncio, o livro mais célebre de Shusaku Endo, era um romance histórico. Queria só lembrar que todo esse drama é situado num passado distante, mas tive logo o cuidado de chamar a atenção para o propósito do autor, que poderia ter escolhido outro cenário. Depois de tanto escarcéu à volta do filme com o mesmo título, sinto-me na obrigação de sublinhar que não, não é um romance histórico - muito menos no sentido lusocêntrico de exaltação das nossas primazias e glórias - e já expliquei porquê. E até a personagem principal, o padre Cristóvão Ferreira, eminência parda na tramoia dos factos relatados e inventados, está, afinal, perenemente presente, é ela a metáfora da luta, no coração do homem, entre as opções possíveis da fraqueza humana e a misericórdia de Deus... O romancista, trata-o, aliás, com compassiva simpatia, ao ponto de achar um desfecho, uma "explicação" da apostasia que os documentos históricos não corroboram. Cito o padre Francis Mathy, s.j., da Universidade Sophia, Tokyo, sobre o padre Cristóvão Ferreira (1580-1650): Em 1632 foi feito Provincial do Japão e, portanto superior de todos os jesuítas que ali trabalhavam. O relatório anual do estado da missão foi escrito por ele em 1628, 1629, 1630 e 1631; todos estão ainda conservados nos arquivos romanos. O último é especialmente interessante por dar longa e vívida conta dos mártires em Unzen. Em 1636 foi capturado e submetido à tortura da fossa, tendo subsequentemente apostatado. Foi-lhe dado o nome de um criminoso executado, Sawano Chuan, mais a mulher e o filho deste, e juntou-se aos seus antigos perseguidores na sua inquisição. Em 1636 escreveu o livro "Kengiroku" (Uma Clara Exposição da Falsa Doutrina), um rigoroso ataque cerrado ao Cristianismo. Também traduziu para japonês vários tratados ocidentais de medicina e astronomia. Anos mais tarde, o seu nome aparece em vários julgamentos a que foram levados cristãos. Por exemplo, estava no tribunal de Edo, em 1639, que condenou à morte o padre Kibe, jesuíta japonês. Este, nos seus momentos derradeiros, exortou zelosamente Ferreira a voltar à prática da sua fé.

 

   Mas sem resultado, porque Ferreira parece ter morrido sem arrependimento em 1650. No drama teatral sobre o mesmo tema da apostasia de Cristóvão Ferreira, a peça Ogon no Kuni (O País do Ouro), o padre pisa o fumi-e para poupar, não só a sua vida, mas a de outros cristãos, acreditando que a voz de Cristo assim lhe ordena. Outro apóstata, Inoué, um perseguidor japonês que foi cristão e abjurou por ter concluído que o cristianismo não é adaptável ao Japão, dirá a Ferreira, na última cena da peça: Indo direito ao assunto, não foi por mim que foste vencido, mas por este pântano chamado Japão... Mas a última voz a ouvir-se, antes do cair do pano, será a de Hirata Shunzen, adjunto de Inoué: Quatro padres cristãos acabam de desembarcar em Amami O-shima. Chegaram num barquito remado por chineses e conseguiram desembarcar a coberto da noite. Dizem que, em Silêncio, é vencedor o pântano, enquanto que, em O País do Ouro, esse novo Judas que se chama Cristóvão parece ter feito da sua queda um sacrifício reparador, ele mesmo que confessa já não ser português, nem poder vir a ser japonês, nem cristão, nem opositor de cristãos. Sou um cadáver vivo. As reações de leitores e críticos ao romance de Endo terão encontrado mais simpatizantes no ocidente do que no próprio Japão. Tal pode explicar-se pelas circunstâncias culturais de uns e de outros. Já em 1969, no seu prefácio à primeira versão inglesa de Silêncio, o tradutor, William Jonhston, da Universidade Sophia, afirmava que o problema central que preocupou o Sr. Endo desde os primeiros dias é o conflito entre Oriente e Ocidente, especialmente na sua relação com o cristianismo... Já me referi a isso várias vezes no passado, incluindo em considerações sobre o carácter estrangeiro do cristianismo, no meu Fomos em Busca do Japão. Voltarei ao tema em próxima carta, pois continuo a pensar que, mais do que religioso - mesmo tendo "facilitadores" culturais - o processo de perseguição do cristianismo no Japão foi eminentemente político. Mas hoje quero só citar-te mais um passo do prefácio do jesuíta Francis Mathy à sua versão inglesa do Ogon no Kuni: A ação de "O País do Ouro" centra-se sobre a tensão existente entre o cristianismo e o "pântano", uma tensão que, antes do mais, está no próprio Endo. Na novela "Silêncio" é o pântano que vence. Não acontece assim na peça, escrita pouco depois. A impressão que envolve a peça e mais tempo permanece com o espectador é a da coragem, nobreza e amor dos mártires. Contra essa imagem concreta, a abstrata tese de Inoué é impotente. Todavia, tanto a novela como a peça sublinham com força o trabalho que ainda é necessário fazer para modelar o cristianismo essencial numa forma que vá tocar nas cordas do coração japonês e liberte o seu amor e ação. Um cristianismo que permaneça um credo abstrato ou uma lista de obrigações jurídicas, de faças e não faças, nunca sobreviverá no pântano. Contudo, isto não é basicamente um problema de Oriente e Ocidente, mas de qualquer motivação humana, independentemente das culturas. Concordo inteiramente: já não me lembro de quando e onde escrevi um dia que o pântano de Shusaku Endo é uma metáfora não necessariamente negativa, nem pessimista: apenas quer exprimir a dialética interior própria a qualquer conversão. Por isso a escrita de Endo é sempre desafiante e controversa... É, por outro lado, ridículo e confrangedor alguém pretender que Silêncio é uma tentativa de justificação ou perdão da apostasia. O romance não é apologético, muito menos pretende ser teológico. É, em meu entender, e como já disse e repito, a narração metafórica da luta interior de qualquer de nós contra e pela sua fé... Além disso, também pensossinto - e tal, insisto, é eminentemente subjetivo - que a nossa relação com Deus se tende pela simultaneidade de uma presença com a sua própria distância. Assim, qualquer conversão é um caminho de saudade, um regresso.

 

   Como exemplo de outras reações nipónicas ao romance de Endo, transcrevo a do professor universitário Yanaibara, cristão japonês protestante, que - quiçá não compreendendo essa tensão interior de que falo - curiosamente faz ressaltar outro aspeto negligenciado da japonização do cristianismo, que vai desdramatizar a tal oposição oriente/ocidente e nos leva também a considerar a realidade histórica que foi terem sido muito maioritariamente japoneses as vítimas da perseguição. Facto que, aliás, Endo não escamoteia na sua própria ficção, onde, ao lado de apóstatas, a gente nipónica também surge com mártires seus. Mas escreveu Yanaibara no jornal Asahi Shinbum:

 

   Os mártires ouviram a voz de Cristo, mas para Ferreira e Rodrigues Deus estava silente. Não quer isto dizer que, desde o princípio, esses padres não tinham fé? Por essa razão, o combate de Rodrigues com Deus não é descrito... ...Obviamente, a crença de Inoué e Ferreira em que o Japão é um pântano que não pode absorver o cristianismo não é razão para apostasia. Foi por ter perdido a fé que Ferreira começou a pensar dessa maneira... ... Naquele século cristão, houve muitos japoneses que sinceramente acreditavam em Cristo, e há hoje muitos que também acreditam. Nenhum cristão acreditará que o cristianismo não pode criar raízes no Japão. Se os japoneses não podem compreender o cristianismo, como teria sido possível o Sr. Endo escrever tal romance? -  Este artigo foi publicado no Asahi, em japonês, em 1966, três anos antes da primeira tradução (para inglês) de Chinmoku (Silêncio).

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Neste meu retiro campestre, lá vou guardando umas três horitas distribuídas pelo dia, para escuta meditada de música. Sempre encontrei, nessa entrega simultânea ao som de instrumentos e vozes humanas e ao meu silêncio interior, momentos de inefável consolação. Assim me harmonizo.

 

   Esta manhã, fui buscar à discoteca cá de casa o registo, pela Deutsche Grammophon, das duas cantatas imperiais de Beethoven, interpretadas, em 1992 (dois séculos depois da respetiva composição, em 1790) por solistas, coro e orquestra da Deutsche Oper Berlin, sob direção de Christian Thielemann. Ambas com letras de Severin Anton Averdonck, dedicadas, a primeira - Trauerkantate auf den Tod Kaiser Josephs des Zweiten - à morte do imperador José II; a segunda - Kantate auf die Erhebung Leopold des Zweiten zur Kaiserwürde - à entronização de Leopoldo II, não foram, todavia, executadas na altura, sendo a Josephs Kantate, contudo, a que primeiro se fez escutar, aquando da descoberta de ambas, em 1884.  Ouvindo-as, uma a seguir à outra, veio-me à memória a célebre aclamação: Morreu El-Rei, viva El-Rei! Na verdade, Ocorreu-me a tese de Ernst Kantorowicz sobre os dois corpos do rei (The King´s Two Bodies: A Study in Medieval Political Theology, Princeton University Press, 1957).  Judeu e nacionalista alemão, prudentemente fugido ao nazismo, autor de uma biografia de Frederico II, sagrado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (a ênfase é voluntariamente minha), o qual foi, no século XIII (viveu de 1194 a 1250), curiosamente, um soberano independente, talvez mais preocupado com o seu reino da Sicília e o domínio da Itália do que com a sua Alemanha dos Hohenstaufen; católico tradicional mas cético, coroado pelo papa, mas adversário de papas, quatro vezes excomungado, protetor da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, poliglota e culto... Penso que a teoria dos dois corpos do rei está bem lembrada, e a propósito, por Nicole Lemaître, professora emérita na universidade de Paris, que em entrevista à revista CODEX (1º trimestre de 2017) afirma: Penso na teoria dos dois corpos do rei, nascida na Idade Média. Tal ideia tem a sua fonte na teologia cristã da dupla natureza de Cristo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem). De acordo com teólogos e canonistas, os reis, na época medieva, têm um corpo mortal e um corpo glorioso. O corpo mortal é o corpo terrestre, o corpo glorioso é político e imortal. Representa a comunidade constituída pelo Reino. O rei no seu corpo glorioso não pode morrer, donde o adágio: "Morreu o rei, viva o rei." eis o que me leva a pensar o rei como garante da paz civil. Esta teoria permite-nos pensar num Estado moderno distinto e eterno. Um Estado que não depende da arbitrariedade do soberano. Na génese do Estado moderno há, pois, uma ideia teológica. Eis o que nos dizem os medievalistas que estudaram a teoria dos dois corpos do rei, a partir dos rituais das sepulturas e das coroações...

 

   E será assim, Princesa, que a primeira cantata de que falamos primeira vai sobreviver na segunda. Ouvimos:

 

   Tot! Tot! Tot! Tot stöhnt es durch die öde Nacht. Morte! Morte! Morte! Morte, se ouve gemer na noite desolada...   ... José o Grande, José, o pai de feitos imortais, está morto, ai!, morto! ...   ... Aqui adormeceu em profunda paz aquele que tanto aguentou, que quando por cá andou nunca pôde colher uma rosa sem se ferir, o que trouxe a felicidade da humanidade no seu generoso coração, sofrendo, até ao fim dos seus dias...

 

   E escutamos, depois, a sua sequência na segunda:

 

   Er schlummert... schlummert! Adormeceu... adormeceu! Deixai o grande príncipe repousar em paz! Quando morreu, a morte proclamou a infelicidade dos povos e os filhos de Teutão gritaram para as estrelas: dor! Então Yahvé lançou um olhar compassivo e os terrores da noite desapareceram... Eis que o céu voltou a ser rosado e já as gargantas metálicas fazem trovejar a alegria e a glória, descidas do Olimpo. Glória! Trovejou o trovão, caiu o raio, já não se enraivecem as tempestades no mar, secaram as lágrimas das nações. Glória! Vem aí uma nuvem brilhante... Abre-se, e que vejo eu? É Leopoldo, eis o nosso imperador, príncipe e pai!

 

   Esse Averdonck dos versos era irmão de uma cantora, Joana-Helenea Averdonck, discípula de Beethoven, e padre "constitucional", muito próximo das ideias e instituições do Iluminismo praticado pelo imperador José II, admirado por Beethoven. Morreu antes de completar 25 anos, a autoria das letras de ambas as cantatas ter-lhe-á sido pedida pelo compositor que, aliás, recebera a encomenda da primeira pela Bonn Lese-und Erholungsgesellschaft para um serviço fúnebre a celebrar em Bona, cujo Eleitor era, precisamente, o irmão mais novo do imperador, Maximiliano Francisco. Ao que parece, na altura, Igreja e Maçonaria iam-se vendo... E a monarquia hereditária não estava necessariamente fora de moda.

 

   Fui à janela deste meu gabinete ver a serenidade dos campos, tão quietos no Inverno. Vejo homens que, além, podam as pereiras, cortando com sageza (ou prudência, se preferires, lembro-me sempre de que esta é um amor sagaz...). Mais perto, outros limpam os miosporos, que ladeiam o caminho por onde saio e entro, das folhas que a geada queimou. Peço a um deles que pode a cerejeira do Japão que há quatro anos plantei, mesmo aqui defronte. Talvez venha a dar, na Primavera próxima, as primeiras sakura. Quiçá?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Com tanto alarido à volta do filme do Scorsese, Silêncio tem havido pouco. Nem tampouco ouço vozes que nos aproximem do drama dos cristãos japoneses, nem sequer de uma compreensão mais próxima do combate obsessivo de Endo Shusaku pelo entendimento da sua própria fé cristã. Este, tanto quanto possamos depreender de passos da sua obra literária, tem muito a ver com sentimentos de divisão e traição (ao pai ou à mãe), com solidão e separação (rasgões que experimentou através da companhia e deserção de animais domésticos) e, já no plano mais propriamente racional, cultural, filosófico e religioso, com o problema do mal, do pecado e da graça, da misericórdia de Deus. Começo por te referir um passo do romance Rio Profundo (Deep River, na versão inglesa, Le Fleuve Sacré, na francesa), em que Otsu, seminarista jesuíta japonês em Lyon, França, desabafa assim: Não posso perceber a diferença entre o que as pessoas de cá chamam o bem e o mal. Penso que no bem se esconde o mal, e vice versa. E aí intervém a magia de Deus. Até pode servir-se dos meus pecados para os transformar em salvação...   ... A Igreja considera-me herético. Corrigiram-me: "Não distingues claramente as coisas, tens de agir com mais discriminação. Deus não é assim". A pobre personagem quererá pensar num cristianismo que se coadune com a mentalidade japonesa. Eis um ponto fulcral para o entendimento, não só de atitudes e comportamentos de católicos japoneses perante os  estrangeiros (lembra-te do que eu já contei da minha experiência com a família católica dos meus senhorios em Tokyo ou das diligências que, enquanto Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, fiz junto da hierarquia da Igreja em Nagoya) mas sobretudo da estranheza - para não dizer dificuldade de aceitação, desconfiança, ou mesmo aversão - que uma pregação rígida da ideia cristã pode causar nos japoneses. Já no século XVI, em debates entre missionários jesuítas e bonzos budistas, os japoneses interrogavam sobre se poderia ser infinitamente misericordioso um Deus omnipotente que, todavia, condena e castiga gente, mesmo até ao inferno eterno. Ou como poderia o mesmo Deus ser justo, ao pretender que há uma só religião verdadeira, quando, afinal, tanta e tanta gente nunca ouviu nem ouvirá a boa nova evangélica, do que não têm culpa. Nesse romance de Endo, Otsu afirma que estou persuadido de que o homem elege o seu Deus em função do seu local de nascimento, da sua cultura, das suas tradições e do seu ambiente. Os europeus escolheram o cristianismo porque assim o haviam feito os seus antepassados, e a cultura cristã era predominante no seu país. Não se pode dizer que os habitantes do Médio Oriente se tornaram muçulmanos, nem a maioria dos indianos hindus, após terem feito rigorosas comparações com outras religiões. Quanto a mim, foi a minha mãe e a sua particular influência que fizeram de mim o que sou. [Este passo é claramente autobiográfico, num romance em que Endo Shusaku se revê, ou descreve, sobretudo noutra personagem, Numada de seu nome]...   ..." Mas nunca pensaste que teres nascido numa certa família foi graças à bênção de Deus e ao seu amor?" - perguntou-me certo dia o meu diretor espiritual. "Sim, mas foi também graças à Sua bênção que aqueles que nasceram noutros lares acreditam noutras religiões... - responde Otsu/Endo.

 

   O tal Numada, como Endo ele-mesmo na vida real, passara a infância em Dalian, na Manchúria, que à época fora colonizada pelos japoneses. Ajudado por um jovem criado chinês - que seu pai mais tarde despediria - recupera da vadiagem das ruas um cão manchu, que criará e a quem chamará Negrão. Quando os pais se divorciam, na sequência do alcoolismo crónico do marido, Numada/Endo parte para o Japão com a mãe. E assim, depois de ter perdido Li, o criado amigo, terá de se separar de Negrão. Mais tarde, o menino já adulto nunca esquecerá o olhar de despedida do seu cão. Foi graças a ele e a Li que aprendeu o significado da palavra separação. Já casado e escritor conhecido, Numada adquire um estranho pássaro tropical, um calau. Este acabará por voar livremente no gabinete do romancista, que com ele conversa e o calau observa enquanto escreve. Quando a ave morre, a mulher de Numada, que muito discutia e protestava contra a sujidade que o bicho lhe fazia em casa, oferecer-lhe á outro pássaro diferente. Percebera que o marido era incapaz de explicar o seu desejo intenso de se religar a todos os seres vivos. A semente nele plantada pelo Negrão, na infância, tinha lentamente frutificado num mundo imaginário que ele só podia descrever através das histórias que contava. Aí, as crianças eram capazes de compreender o murmúrio das flores, as conversas das árvores, e até de ler os sinais trocados pelas abelhas entre elas, ou as formigas. Apenas um cão e um calau tinham compreendido a solidão que, já adulto, ele não conseguira dissipar... 

 

   Essa sentida solidão - em Endo autor e muitas das suas personagens - acaba sempre por ter uma proposta de companhia: a de Jesus. No romance Chinmoku (Silêncio), o padre apóstata ouve em confissão o renegado Kichijiro, que o traíra. Ambos haviam pisado o fumie, a imagem de Cristo. - "Senhor, ressenti o teu silêncio". - "Eu não estava silente. Sofri ao teu lado". Após a confissão secreta, Kichijiro chora mansamente e sai. E o livro termina assim: O padre tinha administrado o sacramento que só um padre pode administrar. Sem dúvida de que os seus colegas padres condenariam o seu ato porque sacrílego; mas mesmo que estivesse a traí-los, ele não traíra o seu Senhor. Amava-o agora de uma maneira diferente de dantes. Tudo o que ocorrera até agora fora necessário para o trazer a este amor. "Agora mesmo sou o último padre nesta terra. Mas Nosso Senhor não estava silencioso. Mesmo que estivesse calado, a minha vida até hoje teria falado dele". William Johnston, jesuíta da Universidade Sophia, em Tokyo, amigo e tradutor de Endo Susaku, escreve, a abrir um prefácio ao romance, algo que traduzo para ti:

 

   Shusaku Endo tem sido apelidado de Graham Greene japonês. Se com isso se quer dizer que ele é um romancista católico, que os seus livros são problemáticos e controversos, que a sua escrita é profundamente psicológica, que ele descreve a angústia da fé e a misericórdia de Deus - então é certamente verdade. Porque o senhor Endo chegou à ribalta do mundo literário japonês escrevendo sobre problemas que, a dado momento, pareciam longe deste país: problemas de fé e Deus, de pecado e traição, de martírio e apostasia.

 

   Sobre o pano de fundo desta história - que é o século cristão do Japão - já escrevi bastante. Mas talvez volte a escrever, em carta só para ti. Por hoje, basta lembrar-te de que, como já te disse, Silêncio não é um romance histórico, muito menos uma análise da missionação dos jesuítas no Japão dos séculos XVI-XVII. É um cenário e uma ficção para questões que o seu autor foi interrogando, sofrendo e meditando.


Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira