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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Esta manhã, cedinho ainda, pareceram-me mais silenciosos os melros que me alegram o despertar. Fui à varanda do quarto e avistei um gato que manhosamente rondava o espaço onde os pássaros soem saltitar, a bicarem minhocas, sementes e uns pedacinhos de pão que, todos os fins de tarde, ali deixamos para o dejejum de suas excelências. Como gato não voa, melro esperto pousa mais alto, depois de piar alarme geral e, caladinho, aguarda. Andam por aí, soltos, uns gatos poderosos, que servem a desratização de terrenos da quinta com elevado e eficaz profissionalismo. Um deles, de lindo pelo preto, simpatizou comigo e, uma vez por outra, vem bater-me à porta para, ao cair da tarde, eu lhe levar uma malga de leite. Não lhe conheço calendário litúrgico, mas deve ser em datas festivas, ou simplesmente dia de jantar fora.

 

   Saí de casa há pouco. Assim que me viram, logo os melros acorreram e voltaram ao saltitar da sua restauração. E os gatos lá foram, pachorrentos, para longe da minha vista, enrolar-se em qualquer cantinho acolhedor, ao calor do abençoado sol da manhã amiga. Os pássaros já se habituaram à minha companhia, vou-me passeando, chego junto da "minha" cerejeira do Japão. Os botões, e muitas folhas, começaram a rebentar, três deles já desabrocharam em tímidas flores brancas, a árvore começa a cantar. Anuncia o "meu" hanami bombarralense. Recordo os piqueniques nipónicos, a fraterna alegria de festejar a primavera, com a mãe natureza, os irmãos humanos, os deuses todos, essa ação de graças pelo efémero da flor, tão belo como o da vida, pois morre depressa mas certamente voltará a nascer...

 

   Sabias tu, Princesa, que as flores que os japoneses mais admiram e amam são precisamente as que mais cedo murcham ou os ventos mais depressa levam? Já te tenho falado do despojamento, da assimetria, do silêncio, como valores estéticos na cultura do Império do Sol Nascente. Talvez possa dizer-te que todos têm uma essência de humildade, como assim também a contemplação do efémero - pois a efemeridade embeleza a beleza, esta é irmã do passarinho que Murasaki solta no Conto do Genji: a posse encerra, a liberdade voa - ou a visão agradecida do sol que, pela manhã, acolhemos. A tradição dos hanami (hana=flor, mi=visão, hanami=ver as flores) vem do início do século IX, da corte do imperador Saga em Heiankyo (Kyoto), que, pela primavera, juntava os cortesãos debaixo das cerejeiras em flor (sakura).

 

   O amor da beleza que passa, e as graças que a Deus damos pela vida que morre e vive sempre, são marca indelével da espiritualidade japonesa. Por paradoxal que pareça, a duração do belo não se encontra na visão imediata, descobre-se na contemplação do que é invisível para os olhos. Tal como não podemos circunscrever - nem sequer o vemos - o espaço do espírito: ele é infinito, como a tamanha liberdade que Deus connosco partilha. Deixo-te com a minha versão portuguesa de um haiku de Matsuo Basho (1644-94): 

              
               os visitantes recolhidos no templo

               não veem

               que as cerejeiras deram flor

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Na cena segunda do segundo ato da sua peça The Judas Kiss (Londres, Faber&Faber, 1998), David Hare põe a sua personagem de Oscar Wilde a dizer: - Na prisão, tive oportunidade de ler a vida de Cristo. Repetidamente. Vi nela a maior história que alguma vez tinha lido. Todavia, tinha um defeito. Cristo é traído por Judas, que é um estranho. Judas é um homem que ele não conhece bem. A verdade artística seria maior se ele tivesse sido traído por João. Porque João é aquele que ele mais ama. Não te escrevo, Princesa, para te falar da peça que, aliás, não terá saído nem tão boa nem tão má como críticos e públicos a acolheram... mas se concentra nos amores e desavenças sobre estratégias processuais de Oscar Wilde e Lord Douglas, seu viciado amante e némesis. Quem traiu Wilde, acho eu, foi o próprio ou, se quiseres assim, sua fraqueza e paixão. Qualquer traição é cega, porque tem necessariamente de fechar os olhos; para ser suportável, poderá ser, ainda, mais ou menos cobarde. A cobardia é uma forma, repugnante ou vocativa de compaixão, de fraqueza. De fraqueza todos sofremos, com mais ou menos humildade, na razão inversa da coragem. Já a paixão tem um lado tenebroso e, nesse sentido, é o que define o pecado: este, tantas vezes o digo - até e sobretudo para comigo - é a paixão dos nossos limites, a obsessão do inultrapassável, a recusa de qualquer conversão. Se me deixares brincar um pouco, dir-te-ei, Princesa de mim, que não me confunde o que por aí se chama "estupidez natural": nenhum de nós nasce absoluta, brilhante ou superiormente inteligente. A estupidez que me incomoda tem mais a ver, isso sim, com a teimosia do preconceito, com a recusa a dar um passo e estender a mão a outra pessoa, a uma ideia diferente, a um desafio. 

 

   Também não venho falar-te da figura misteriosa de Judas Iscariotes, esse que ninguém pode provar exatamente quem foi, nem sequer Geza Vermes, sábio judeu que foi jesuíta e deixou a confissão católica, respeitado investigador e professor universitário (em Lovaina e Oxford, por exemplo) que, no seu Who´s Who in the Age of Jesus (2005), distingue quatro Judas desse tempo: o irmão de Jesus; o filho de Saforeu, este fariseu; o galileu, filho de Ezequias e revolucionário; e o Iscariotes, o tal. Há quem pretenda ainda que a personagem de Judas Iscariotes seja, afinal, uma ficção literária, uma espécie de bandido ou bode expiatório que a tradição oral que circulava nas primitivas igrejas cristãs (e, consequentemente, a redação dos evangelhos registou) teve de inventar para um episódio que ajudasse a construir a narrativa da Paixão, tornando-a mais aceitável pelos fiéis. Porque, na verdade, muitos seguidores de Cristo o abandonaram nessa hora, incluindo os mais próximos. Diz-nos São João que além do discípulo que ele amava, junto à cruz de Jesus estavam apenas sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena...Tal distância nos leva a consultar as referências evangélicas ao homem (apóstolo, discípulo) que traiu (?) - denunciou (?) - entregou (?) o Mestre. E então nos surge um Judas Iscariotes que, simultaneamente, é e não é, para Jesus, um estranho. Ocorreu-me tal paradoxo - que nos levará ao Judas - The troubling history of the renegade apostle (Houdder & Stoughton Ltd, 2015) de Peter Stanford - ao assistir, no canal Mezzo, a um Don Giovanni, do Mozart, com arrojada encenação e coreografia (houve quem lhe chamasse  pornografia) transmitida do De Munt (Théatre Royal de la Monnaie), em Bruxelas...  Lá iremos! Quanto à tenebrosa figura do Iscariotes nas narrativas evangélicas, sugiro, Princesa, que leias o Stanford, e me deixes ultrapassar várias considerações que ele adianta, para seguir o meu caminho. Sem todavia esquecer o interesse inegável daquele autor. Desde logo, e cabalmente, chama a atenção para o facto de Judas - figura que, ao longo da história, tem sido por todos conhecida e comentada - ser referido apenas vinte e duas vezes no conjunto dos quatro evangelhos... S. Marcos nomeia-o, primeiro, no versículo 19 do seu capítulo 3º, no relato do chamamento dos doze apóstolos por Jesus: E a Judas Iscariotes, o que o entregou.

 

   Tal referência, tão precoce, deixa suspeitar que, na tradição oral das primeiras igrejas cristãs, a personagem do traidor era geralmente conversada, como aliás testemunham os evangelhos de Mateus (10, 4) e de Lucas (6, 16) que, tal como o de Marcos, desde logo o incluem na lista dos doze chamados: ...e Judas Iscariotes, aquele que o traiu...  ... E Judas, o filho de Tiago; e Judas Iscariotes, que foi o traidor. Nota, Princesa, que tal labéu é atributo do Iscariotes, em qualquer dos sinópticos, logo desde o início da vocação apostólica. Na última citação acima, a de S. Lucas, o apelido parece explicar-se pela necessária distinção entre ele e o outro Judas, o santo, filho de Tiago. O Iscariotes é o único distinguido por nome e apelido. Em S. João - o quarto evangelho, de "família" não sinóptica - não há momento único, um episódio, ou uma listagem de nomes, para o chamamento dos doze, e a primeira referência a Judas Iscariotes dá-se em 6, 70-71: "Não vos escolhi a vós, os doze? E um de vós é um diabo". E isto dizia Ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze. Essa menção do apelido e filiação de Judas, e à sua traição, retoma-se no episódio da unção dos pés de Jesus por Maria de Betânia (João, 12) e ainda na narrativa do lava-pés (Jo. 13, 2), em que o diabo volta a ser lembrado, tal como na última ceia (Jo. 13, 26-27): "Aquele a quem eu der o bocado molhado". E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão. E após o bocado, entrou nele Satanás. Disse pois Jesus: "O que tens de fazer, -lo depressa". Acho curioso observar, Princesa de mim, que o Iscariotes participou, com os outros apóstolos, na instituição da eucaristia, e que o bocado de pão que Jesus molhou e lhe ofereceu era, provavelmente, pedaço do seu corpo eucarístico. Se, por outro lado, considerarmos como o apelido Iscariotes e a filiação deste Judas poderão indicar que, diferentemente dos outros onze, ele não é galileu, mas judeu (da cidade de Queriote?), seremos tentados a concluir que se pretende aí sugerir que o diabo, Satanás ou o Mal, aquele que divide, é simultaneamente nosso e alheio, participante familiar e estranho. É sobre esse "nós e o nosso monstro" que agora me debruço. Judas, portanto, passa de protagonista a pretexto. E não me demoro na consideração das circunstâncias, motivos e pulsões que têm sido adiantadas para tornar plausível o comportamento de Judas. Nem tampouco no aproveitamento desse comportamento, ligado ao nome do traidor e à sua origem judaica, por vagas sucessivas de propaganda antissemítica ou tão só para fazer do povo judeu o culpado, o bode expiatório da morte de Jesus. Talvez por me ter chocado a história de uma denúncia, traição, entrega desnecessária e inútil do Filho de Deus por um seu muito próximo, quando, afinal, Jesus Cristo era conhecido de todos e já reconhecidamente fora acusado e perseguido pelos seus inimigos. Mais: a vítima traída sabia desde sempre o que lhe aconteceria, quando, em que circunstâncias e por quem, como se ela própria fosse comandante dos acontecimentos: o que tens a fazer, fá-lo depressa. Como se dissesse "não enganas ninguém, mas só a ti". Aquela história não é narração de factos reais, antes me parece ser uma chamada de atenção para o inesperado que nos habita, para essa divisão da alma que nos leva à autossuficiência e arrasta à infidelidade. Obra do diabo, dizia-se dantes. Nesse sentido, a observação de Oscar Wilde na peça de Hare sublinha como é no íntimo de nós que a traição acontece, quando amamos (?) e, por a nós nos preferirmos, ao amor nos negamos.

 

   O apego a si mesmo, essa tal grandeza que, diria Pascal, é a miséria do homem, também levou Don Juan a cair no inferno. Mas com ele, de certo modo, podem cair todas as outras personagens, se ninguém finalmente se desembaraçar do apego próprio que faz, de cada um de nós, um burlador com propensão a Judas. A arrojada, quiçá violenta, encenação e coreografia da ópera Don Giovanni, realizada para De Munt por Krzysztof Warlikowski, em 2014, insiste, precisamente, em mostrar que o protagonista pode não ser a exceção.


   Aliás, ocorre-me agora o início do prefácio que Claude Roy escreveu para a edição, que conservo, de Le Spleen de Paris (Le Livre de Poche, Paris, 1964) : «Encontrareis, neste livro, a história do homem enamorado de uma mulher perfeita, tão perfeita, tão incapaz de cometer um erro de sentimento ou de cálculo», que o seu amante a admirou durante muitos anos, com o coração cheio de ódio. No fim, mata-a, para acabar com essa insuportável perfeição. Como se ecoasse em Charles Baudelaire aquele trecho do evangelho de S. João (1, 9-11): Ali estava a luz verdadeira que alumia a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Nesta tarde tão chuvosa dum primeiro domingo de primavera, ponho a tocar e escuto a versão do mozartiano Don Giovanni (Praga/Viena 1787-88) dirigida por René Jacobs em 2006.

 

  Lembrei-me de que a tinha na minha discoteca, ali pretendendo marcar diferença relativamente ao tratamento que lhe tem sido dado, desde E.T.A. Hoffmann, no século XIX: para este, diz Jacobs em entrevista, Don Giovanni é um herói trágico, sempre em busca da mulher que pudesse facultar-lhe a demanda de uma união com o infinito. Donna Anna é elevada tanto acima das outras personagens que a sua "personalidade luminosa" faz dela a verdadeira adversária de Don Giovanni. A demanda do infinito, do inacessível, a redenção pelo sentimento, pelo amor, que aqui se cumpre por morte trágica... - eis certamente uma bela invenção, mas que nada tem a ver com a peça: é, de facto, uma falsificação muito sedutora. Se deve haver um adversário à altura de Don Giovanni, não será Donna Anna, mas Donna Elvira, a "donna abbandonata" da ópera barroca, como já Ariana o tinha sido por Teseu, em Monteverdi. É, de longe, o papel mais comovente de toda a ópera. O seu amor por Don Giovanni é totalmente irracional e profundamente autodestrutivo. 

 

   A grisalha desta tarde parece perguntar-me: como foi Dona Elvira capaz de desejar a morte, pior, a condenação do seu amor? Seria Judas Iscariotes fadado para demandar o sacrifício do seu Cristo? Poderá qualquer de nós ser tão magoado pela bela claridade do amor - como abertura de portas e caminho de liberdade e entrega - ao ponto de se afogar com um tesouro que quer só para si? Don Giovanni colhe a mão gelada do Comendador (ou do seu fantasma) e cai no inferno, depois de ter recusado arrepender-se. Fica preso pelo seu apego a si, recusa o amor que liberta. Mas o epílogo acrescentado a esse final também soa postiço, moralizador à força: nessa cena última, Don Ottavio exprime bem o sentimento egoísta de todos, quando canta "já agora, depois de todos nós termos sido vingados pelo Céu, dá-me, ó meu tesouro, o teu conforto, não me deixes mais à espera"... E os circunstantes vão todos à vida, em busca do conforto próprio. A menos que, com ironia, se insinue aí que, uma vez achado e castigado o bode expiatório, nos possamos, afinal, render ao nosso agrado... O sacrifício de Don Giovanni é assim comentado, em coro (Donna Anna, Donna Elvira, Zerlina, Don Ottavio, Masetto, Leporello): Questo è il fin di qui fa mal! / E de´perfidi la morte / Alla vita è sempre ugual. Cai o pano. Mas eu quedo-me a pensarsentir qual será o lugar do Iscariotes no amor misericordioso de Deus. Quiçá Judas, consumado o sacrifício de Jesus Cristo, tenha finalmente percebido que nisto está o amor: não em termos amado a Deus, mas em Ele nos ter amado primeiro e ter enviado seu Filho para remissão dos nossos pecados. Se Deus assim nos amou, também nos devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós e em nós é perfeito o seu amor (1ª Carta de S. João, 4, 10-12).

 

   Perdoa-me, Princesa, escrever-te a fazer perguntas, ainda por cima bem diferentes daquelas que, em tempos, abriam tantas cartas que pelo mundo se escreviam: Minha Querida Mãe: Como está de saúde, como estão todos? Eu por cá bem, graças a Deus! Vi há pouco uma reportagem sobre essa guerra que vai matando centenas de milhares de civis, a maioria por estarem apenas em suas casas. Para além do horror, a que assistimos, desta visão infernal do mal, onde está a culpa? Será que Deus se esconde para nos pôr à prova? Silencio-me para conseguir entrar nessa oração suprema que é a contemplação da misericórdia. Neste momento, há em mim um Judas que quer, com todo o coração, acreditar que Deus nos amou primeiro. Para também eu amar, até no insuportável. 

   
Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizes-me que suspeitas de algum pessimismo no teor da minha última carta... Sei bem que falar da morte é, e será sempre - como o próprio tema da conversa - uma coisa incerta: até mania pode ser, mas será vício, será virtude? Olhar a morte não é, creio eu, algo necessariamente deprimente, tampouco ansiosamente exultante. É natural, tão natural como termos certezas. Melhor: mais natural ainda, porque a morte, essa, não podemos desmenti-la. Claro que o nosso olhar para ela poderá ser otimista ou pessimista: ou acreditamos que, conservados em congeladores, ressuscitaremos pelos progressos da ciência, ou, sem tais congeladores preservativos, ressuscitaremos de entre os mortos, em tempo igualmente indeterminado; ou pensamos que, simplesmente, ao darmos o triste pio, nos apagamos de vez, coisa que não nos atrai, razão pela qual nos entretemos a perpetuar memórias, em monumentos, nomes de ruas, dias festivos...

 

   Aquilo que te disse, ou quis dizer-te, na minha carta, será melhor entendido se releres outra anterior, aquela em que te escrevia citando frei José Augusto Mourão: A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir sem porquê, nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas apenas em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser, a sua própria vida» (Sermão 6 de Mestre Eckhart, século XIII)...  ... O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de "sobrenatural", eterno ou "supra-humano". A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue mas não separa.

 

   E acrescentava eu que muito tenho repetido o meu intimíssimo pensarsentir o cristianismo como incarnação de Deus, secularização do sagrado. E podes agora ligar aqui, Princesa de mim, o final da minha carta anterior, em que refiro São Paulo que nos lembra ser o amor a maior das virtudes, que permanece eternamente, e cito a 1ª epístola de São João: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e seja quem for que ame, nasce de Deus e conhece a Deus...   ... porque Deus é amor. E a mesma carta dirá: estas coisas vos escrevi para que saibais que tendes a vida eterna. A vida além da morte começa pelo amor antes dela. E o ser vivo é o mesmo: quem ama não vive duas vezes, vive sempre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Nota: Pela curiosidade recordamos dois textos oportunamente publicados:
>> Cartas de Camilo Maria de Sarolea, 16 de outubro de 2016
>> Cartas de Camilo Maria de Sarolea, 21 de outubro de 2016

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizes que te tenho escrito muito pouco, quase nada. Amigos meus também me mandam recados, aconselhando a que não me isole tanto... E todas essas vozes me soam distantes, indistintamente as ouço. Sem querer parafrasear o António Alçada Baptista, sinto-me em peregrinação interior. Talvez porque a necessária arrumação de objetos, livros e escritos com décadas de repouso, quiçá esquecimento, em malas e caixas, em armários fechados, donde os vou retirando atentamente, ainda que sem apreensão, me devolva um caminho de vida que, afinal, passou e ficou. A memória acordada restitui-me a mim, como se o retrovisor fosse um espelho constitutivo. Desenha-se-me meu o rosto que descubro em papéis velhinhos, apontamentos que fui fazendo, desde menino... E fico estupefacto: afinal, todos estes anos de vida não me mudaram muito, permaneço aquele rapaz de vinte anos, em que reconheço o que ainda hoje são as minhas cismas. Este texto data do início dos anos sessenta, escrito a tinta, por caneta célere, mas arrumadora, sem hesitações nem rasuras, num caderno chamado Sebenta, fornecido pela Papelaria Americana, de Leiria:

 

   «A angústia surge quando chega a idade da opção (que em muitos parece nunca chegar), quando nos encontramos como possibilidade, como responsáveis, como autodetermináveis vitalmente por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é então o não ter certezas absolutas, o inquietar-se porque não sabemos se havemos de apostar a vida pela fé ou contra ela, por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é a marca do homem adulto e a passagem necessária para uma fé autêntica, ou para uma autêntica aventura humana quotidianamente acompanhada pelo desespero.

 

   Nós não escolhemos entre a angústia e a fé (isso seria uma falsa opção e a fé seria então um lenitivo), mas escolhemos a fé para além da angústia ou, se quisermos, assumimos a nossa angústia na fé, tal como a poderíamos assumir no ateísmo.

 

   Talvez, sim, talvez, liberdade e angústia sejam simultâneas.

 

   Kierkegaard vê bem quando diz que a angústia é diferente do medo e coisas parecidas, que sempre se referem a um objeto preciso. Porque a angústia é a realidade da liberdade porque é o possível dela.

 

   Mais perto de Heidegger, a angústia é essa inquietação que surge a "ligar"- me ao meu projeto.

 

   E continuando mais com Kierkegaard, a angústia é como que o imenso nada da ignorância.

 

   Enquanto que, para Heidegger, o homem é ser-para-a-morte e a angústia é, de certo modo, diríamos, a consciência disso, para Kierkegaard a morte é para a vida.

 

   O desespero é precisamente esse saber que não se será mais nada, aquilo que queríamos ser, e, simultaneamente, o não poder aniquilar-se. E isto é o sinal do eterno no homem. Diferentemente, Kierkegaard olha tudo numa perspetiva cristã.

 

   O Absurdo é um divórcio.

 

   Divórcio entre o desejo de vida que sinto em mim e o quotidiano que a minha condição me oferece, e a morte.

 

   Divórcio entre a sede da minha inteligência e a insuficiência ou a "mentira" de tudo o que "conheço".

 

   Em suma: divórcio entre mim e o mundo, entre mim e a minha condição.»

 

   Quase sessenta anos depois de ter escrito isto num caderno só para mim, reencontro-me comigo numa questão precisa, e pego outra vez na 7ª edição do Sein und Zeit, de Martin Heidegger (Max Niemeyer Verlag, Tübingen, 1953) que será, como muitos pretendem, uma "análise existencial". Ocorre-me então a explicação que dá Fernando Savater, professor de filosofia na Complutense de Madrid, a propósitos do filósofo de Tubinga: A morte é sempre a minha morte, a própria para cada um dos que podem dizer "eu", isto é, para os Dasein ou seres que existimos aqui, atirados para o mundo e destinados ontologicamente a perecer. Como a morte é essencialmente a minha e não o destino genérico de uma espécie de que sou simplesmente membro de número, é a morte que me constitui com irrepetível propriedade. O mesmo professor madrileno, aliás, no seu Diccionario Filosofico (Editorial Planeta, 1995; tradução portuguesa de Carlos Aboim de Brito nas Publicações Dom Quixote, 2010, donde tiro as citações) diz, ele próprio, na entrada Morte: Não o facto da morte e sua espantosa frequência estatística mas a certeza da morte, como destino próprio e de todos os nossos semelhantes, conhecidos ou desconhecidos, odiados ou amados... essa certeza universal é que nos converte em humanos. A previsão certa da morte - própria, alheia - é a diferença específica da estirpe humana, não a razão ou a linguagem. A segurança da morte é o único segredo que conhecemos de todos os nossos semelhantes e também de nós mesmos, embora intimamente permaneçamos incrédulos perante tão fatal perspetiva.  Assim, para o incréu Savater, isso a que, Princesa de mim, chamamos espírito, o nosso espírito, nasce da presciência da morte. Escreve: Que significa ter espírito? Não é gozar de algum misterioso elemento sobrenatural misturado com o barro comum da nossa natureza nem sentir o latir do imortal dentro do que tem de morrer, mas sim o contrário. Ter espírito é sermos conscientes de que não podemos dar o nosso corpo por garantido (como fazem o resto dos animais que, por isso, chegam a ser muito espertos mas nunca espirituais); ter espírito é dar o corpo por perdido e amá-lo assim, na sua marcha e no seu quebranto. O espírito é a celebração do corpo (do complexo de vida e mundo que corporalmente se manifesta) porque valentemente ainda vive no seu resvalar certo para a morte. O espírito não é, pois, o que nunca morre, mas o que sabe sempre que vai morrer.

 

 

   Aqui chegado, o leitor que sou lembra-se do que escreveu, e muito daquilo que te disse, sobre o amor, em tantas cartas. O amor que é a única vitória possível para um ser em relação, como sempre defino (ou indefino) o ser humano. E volto a recordar o São Paulo que nos fala da permanência única do amor. Curiosamente, o artigo de Fernando Savater sobre a morte encerra-se com um poema do argentino Macedonio Fernandez, que foi precedido por considerações que, sem o desligarem de Heidegger, o aproximam do cristão que eu sou e continua a repetir a pergunta: Ó morte, onde está a tua vitória? Escreve o madrileno: A morte permanece e continua a permanecer inassimilável. Talvez tenha sido precisamente isso que pretendeu Espinosa ao assegurar que o homem livre em nada pensa menos do que na morte e toda a sua sabedoria está concentrada na vida...   ...O pensamento morre quando aceita que o seu tema mais próprio é mergulhar na morte, apropriar-se dela. Em contrapartida, os poetas assumem a morte mas opondo-lhe a outra grande força que nos individualiza, que nos personifica: o amor. O incompatível com a morte não é viver (a vida exige a morte) mas amar: o amor desconhece a força da morte, embora amemos a partir da consciência da nossa mortalidade e da do amado.

 

   A revelação íntima do Evangelho está bem dita, para mim sempre esteve, Princesa, na 1ª Carta de São João, no capítulo 4º, de que destaco os versículos 7 e 8: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e seja quem for que ame nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama não conheceu Deus, porque Deus é amor. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, venceu a morte. Os três últimos versos do poeta argentino que Savater cita:  Pouco mais a Morte logra, pois não pode / entrar seu medo no peito onde Amor pode. / Que a Morte rege a vida; o Amor a Morte.

 

   O rapaz de mim que escreveu aquelas linhas num simples caderno de apontamentos tinha então vinte anos. Foi por essa altura que conheci o Ruy Belo, com quem conversei muito. Meia dúzia de anos depois (em 1966), ele publicava, pela Ática, o seu Boca Bilingue. Lembrei-me hoje, ao ver-me ao tosco espelho de um velho caderno de apontamentos, de uma das Sete Coisas Verdadeiras que o poeta ali recorda, com o título de Em Cima de Meus Dias, poema de que transcrevo as duas primeiras estrofes, por tão minhas as sentir neste momento:

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse 

          e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida

          e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece

          e já nem sei ao certo quantos dias meço

          Regresso com o gado contra o sol rasante

          Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas

          aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?

 

   Olho para dentro de mim e talvez encontre a saída de um caminho.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

Previa-se mais chuva, mas a manhã surpreende-nos com um sol já primaveril. Talvez de pouca dura, mas ofereceu-me uma visita à "minha" cerejeira do Japão, prometedoramente coberta de rebentos anunciadores de sakura em flor, beleza mágica e efémera. Encheu-se-me o coração de memórias do Japão, sobretudo dessa ternura de comunhão com a natureza que nos embala a vida...

 

Lembrei-me dos hanámi, passeios e piqueniques debaixo das cerejeiras em flor (mankai no sakura): fazem-se por toda a parte, no deslumbramento da vida nova, ainda que efémera. Mesmo nos cemitérios: quantas vezes vi, em anos seguidos, centenas de japoneses, sentados em esteiras dispostas sob as árvores das avenidas do cemitério de Aoyama, em Tokyo, petiscando e bebendo saké e cerveja, na alegria da renascença... Pela Primavera, o arquipélago nipónico enfeita-se de muitas e variegadas flores, e campos e jardins alegram-se com elas e com os milhares de japoneses que acorrem a contemplá-las. Mais impressionante do que a tagarelice dos piqueniques, todavia, é precisamente o respeito, a íntima comunhão de todos e tudo nessa contemplação da beleza sempre efémera, renascente, eterna. Ocorre-me agora um poema de Tatsuji Miyoshi (1900-1964), Kiri no Hana, a flor da paulównia, que traduzo para ti:

 

          Subitamente mais fugitivas do que um sonho

          Flores de paulównia deixaram os seus ramos

          E mansamente dançando foram caindo

          Duas três quatro...

          E as felizes levadas pelo vento

          Desceram afagando o teu ombro...

          Que ciúmes tenho

          Dessas flores tão ricas de cor e de perfume

          Que em tardia hora do chão

          Foram recolhidas pela tua mão...

 

   Nem Salomão, disse Jesus, se vestiu com tanta glória.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim: 

 

   Começo esta carta por curta tradução de Matsuo Basho (1604-1654), poeta japonês que bem conheces:

 

               meses e dias são

               perpétuos passageiros

               e viajantes os anos

               que se encadeiam

 

   Somos prisioneiros do tempo. Dessa cadeia que nos amarra e arrasta, num qualquer movimento, seja roda circular ou progressão escatológica. Esta manhã, em visita à minha cerejeira do Japão, que continua a florir em tão lindos dias, murmurei outro haiku do Basho que, se bem me lembro, nos diz algo como "todos os anos, as flores que caem ao chão vão sustentar a cerejeira"... O que hoje penso ser apenas aparente - a contradição entre tempo escatológico e tempo circular - será quiçá tão só a diferença do modo da vivência que qualquer de nós possa ter da circunstância de um momento. Em si própria, a circunstância do tempo é a intemporalidade. O tempo mais não é do que um conceito, categoria mental por que construímos a duração. E esta mais não é do que o que vamos conseguindo apreender, isto é, o que vai preenchendo o nosso alcance. O tempo define-se pela nossa presente limitação. A realidade, como o universo, é o infinito, não tem tempo. Nem espaço. Como Deus. "Criador inefável ! "- assim, todas as manhãs, ao começar as aulas, no colégio, os meus colegas e eu nos dirigíamos, rezando, ao invisível, intocável, inapreensível, pedindo-lhe luz...

 

   Hoje, em Domingo de Ramos, ao ouvir outra prece "Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", lembro-me dessa oração infantil, e pensossinto que todos fomos abandonados ao nosso tempo de cada um, talvez perdidos no infinito que ainda não alcançamos. Mas a Páscoa é um convite a transpor o tempo que nos circunscreve. Além da desolação de tão incompreensível desgraça e mortandade, à nossa volta, talvez a esperança nos dê a coragem de acreditar. O sustento da vida é a infinita renovação. Talvez por isso me lembre tanto do Bolero de Ravel, quando me ocorre o destino do tempo na intemporalidade... O final dessa peça musical é um inesperado apocalipse. Nenhum de nós conhece o dia nem a hora da revelação, cada um, todavia, saberá como entregar-se.

 

   Nesta Páscoa, chamo a nós, Princesa, esse princípio da filosofia africana ubuntu: Existo porque existimos. Evocando uma declaração de Nelson Mandela: Essa ideia tão africana de que só somos humanos graças à humanidade de outrem, contribuiu fortemente para o nosso desejo universal de um mundo melhor. Não sou "eu", sozinho, quem se pode descobrir- "me eu mesmo", mas somente "nós juntos" que poderemos aprender a conhecer e apreciar respeitosamente "os outros" e "nós mesmos". Aqui entre nós, pergunto, quantas vezes pensamossentimos que o convite pascal é um apelo à ressurreição de todos?

 

   Feliz Páscoa!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   André Velter, diretor da coleção Poésie da editora Gallimard, dizia, em recente entrevista à revista Lire: Baudelaire é aquele que, em momento histórico do seu século, realiza absolutamente o que é o génio da língua nesse instante - isto é, a aliança que se opera entre o som e o sentido, aqui levada a um extremo grau de suavidade, de sensualidade. Soube criar uma poesia metrificada e rimada, que simultaneamente parecesse tão natural e sofisticada quanto possível. Em Baudelaire, não há momento algum em que cheire a suor. É uma poesia que nos dá o sentimento de que o sentido que ele quer exprimir e a música que quer criar vêm naturalmente, com a evidência do surto. Eis uma graça que muito raramente se encontra, mesmo em poetas, e que lhe é absolutamente específica...   ... Com ele, tudo se torna lícito! Eis o que é magnífico em "Les Fleurs du Mal", essa liberdade de colher todas as flores...   ... Baudelaire pensa que a beleza não reside no tema abordado, mas na maneira de o fazer, e que daí, portanto, será necessário procurar por todo o lado. Volto assim, Princesa de mim, cento e sessenta anos depois da primeira edição de Les Fleurs du Mal, a essa embriaguez baudelairiana da língua francesa, que, sem talvez ter traduzido qualquer dos seus poemas, Cesário Verde soube provar e beber em língua portuguesa. Como sabes, sou hipersensível à musicalidade marítima das palavras e, talvez por isso, tanto gostei de L´Homme et la Mer:

 

          Homme libre, toujours tu chériras la mer!

          La mer est ton miroir; tu contemples ton âme

          Dans le déroulement infini de sa lame,

          Et ton esprit n´est pas un gouffre moins amer.

 

          Homem livre, sempre amarás o mar!

          O mar é o teu espelho; contemplas a tua alma

          Na onda que ao desenrolar-se acalma...

          Mas nem por isso deixas de amargar!

 

   Esta tradução é minha. Maria Gabriela Llansol tem outro génio, e verte assim:

 

          Homem livre,

          Ser-te-á sempre querido o mar, ele te reflete

          E tu te contemplas no infinito oscilar da sua rebentação,

          Sua planura não é menos cruel que teu abismo __

 

   Nas leituras que tenho feito de Baudelaire, nunca se desperta em mim qualquer desejo de tradução, de tal modo sinto que as palavras usadas pelo poeta, e a sua arrumação, são música escrita na língua que as anima e lhes dá novo significado. Explico mal, Princesa, o que te quero dizer; talvez percebas melhor este meu pensarsentir se procurares entender como, afinal, encontro, na língua portuguesa, mais Baudelaire em Cesário Verde, que não o traduz, mas profundamente o respira: Na parte que abateu no terremoto, / Muram-me as construções retas, iguais, crescidas; / Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas, / E os sinos dum tanger monástico e devoto. // Mas, num recinto público e vulgar, / Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras, / Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras, / Um épico doutrora ascende, num pilar! // E eu sonho o Cólera, imagino a Febre, / Nesta acumulação de corpos enfezados; / Sombrios e espectrais recolhem os soldados; / Inflama-se um palácio em face de um casebre. // Partem patrulhas de cavalaria / Dos arcos dos quartéis que foram já conventos; / Idade Média ! A pé, outras, a passos lentos, / Derramam-se por toda a capital, que esfria. Neste "spleen" de Lisboa, O Sentimento dum Ocidental ecoa Le Spleen de Paris, ambas as cidades são doentes e fechadas, abafam o poeta dum tédio que se chama "spleen", palavra cujo étimo grego significa a bílis negra do baço. Mas desse e nesse mal estar nascem flores, flores do mal a que a consciência e a graça das palavras poéticas trazem consolação e beleza. Assim Baudelaire canta em Le Soleil:

 

          Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures 

          Les persiennes, abris des secrètes luxures,

          Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés

          Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,

          Je vais m´exercer seul à ma fantasque escrime,

          Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,

          Trébuchant sur les mots comme sur les pavês,

          Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.

 

          [...] Quand, ainsi qu´un poète, il descend dans les villes,

          Il ennoblit le sort des choses les plus viles,

          Et s´introduit en roi, sans bruits et sans valets,

          Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais.

 

   Fantástica esgrima, essa procura da rima, esse tropeçar nas palavras, aos encontrões a versos há muito sonhados! Quando o poeta desce à cidade transforma em nobreza a vileza das coisas, torna-se rei, sem alarido nem lacaios, entrando em todos os hospitais e em todos os palácios. A consciência do mal pode também ser o seu exorcismo e, pela revelação da beleza ignota, a poesia deletéria torna-se edificante. Escreveu Santa Teresinha:

 

          Seigneur, la souffrance

          Devient jouissance

          Quand l´âme s´élance

          Vers toi sans retour.

 

   A alma humana é um mistério que ninguém vê e todos sentimos. Assim a poesia como real absoluto, no dizer de Novalis.

 

Camilo Maria         

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Perceberás adiante, nesta ou noutra carta, por que pergunto se o antónimo ou antinómico de edificante é deletério. Ocorreu-me tal interrogação ao cair-me nas mãos - no decurso desta atarefada arrumação de milhares de livros em que a mudança de casa me meteu - uma edição bilingue (Relógio d´Água, Lisboa, 2003) de Les Fleurs du Mal (1857) de Charles Baudelaire, com versão portuguesa de Maria Gabriela Llansol. Já tinha, e ainda conservo, duas edições francesas da obra, quando adquiri esta, num período em que apreciava cotejar originais e suas traduções por "nomes conhecidos" das letras portuguesas, como, entre outros amigos, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura, etc...

 

   Sobre esta versão de As Flores do Mal, teimo em sentir que deparo com dois estilos distintos, a tal ponto que só posso afirmar que um poema é tradução de outro pela coincidência dos temas e a genealogia das inspirações, por vezes ainda porque uns e outros versos tocam as mesmas notas. A edição bilingue sublinha trechos do seu posfácio, que reproduz a Introduction que Paul Valéry escreveu para a edição francesa de 1926. Escolho um, assaz claro, de acordo com a editora portuguesa que, sabiamente, o destacou, quiçá para chamar a atenção para a tentação do original e o desafio da tradução:

 

   Há nos melhores versos de Baudelaire uma combinação de carne e de espírito, uma mistura de solenidade, de calor e de amargura, de eternidade e de intimidade, uma raríssima aliança da vontade com a harmonia, que os distingue nitidamente dos versos românticos, como os distingue nitidamente dos versos parnasianos...   ... Vemos hoje que a ressonância, passados mais de sessenta anos [este escrito de Valéry, não esqueças, Princesa, data de 1926], da obra única e muito pouco volumosa de Baudelaire preenche ainda toda a esfera poética, está presente nos espíritos, é impossível de ignorar, reforçado por um número notável de obras que dela derivam, que não são imitações, mas consequências, e que seria pois necessário, para ser equitativo, juntar à delicada recolha das "Flores do Mal" diversas obras de primeira ordem, e um conjunto de investigações mais profundas e mais subtis como nunca a poesia empreendeu. [Tradução de Manuel Alberto]

 

   Confesso - a ti, Princesa de mim, depositária de meus inauditos segredos - que não sei se prefiro a tradução que a Maria Gabriela Llansol fez de Un Cantique d´Amour (com o título, em português, de O Alto Voo da Cotovia - Relógio d´Água, Lisboa, 1999), de Therèse Martin, aliás, Santa Teresinha do Menino Jesus, à sua versão de Les Fleurs du Mal. Não confronto o pensadossentimento com que a escritora portuguesa verteu, para a sua língua, qualquer dessas obras tão diferentes. Tampouco me atrevo a pretender que uma ou outra se coaduna melhor com o pensarsentir o mundo, a alma e a vida de Gabriela. Só ela, ela e ninguém mais, poderia ter consciência disso. E mesmo esta não teria, ao calhar, a mesma densidade. Mas, por estranho que te possa parecer, vejo uma essência comum a ambas as versões, de obras aparentemente tão diversas e contrárias como flores do mal e lírios de castidade. Talvez lhe chame misericórdia, esse mistério de entreajuda universal, o primeiro dos nossos deveres e o eminente direito de cada um de nós. Caio aqui em pensarsentir a misericórdia como o poder gratuito de revelar e edificar a beleza escondida, de renovar o ser. Estranhamente, poucos entenderão que é precisamente essa gratuidade que Deus quer dar e que seja dada. Como nesse lema medievo: Deus la deu, Deus la há dado.

 

   Escreve, sobre Teresa de Lisieux, Gabriela Llansol: Perguntam-me se é escritora. Respondo-lhes que, em escassos quatro anos, a poesia foi servida como mandam os manuais. Mas vou responder-lhe de outro modo. A Teresa entrou, de facto, no armazém dos sinais da literatura. Noto que foi buscar imagens e ritmos a Musset, a Chateaubriand e a Lamartine. Que entrou, se serviu como entendeu, e fez poemas. Também foi buscar pensamentos e palavras aos Evangelhos, a São João da Cruz, à mística carmelita. As freiras, suas irmãs, apreciaram. Tudo rimava, apesar de quase nada respirar. As ideias pareciam ortodoxas, as sonoridades não chocavam, a mobilidade rítmica introduzia movimento, algum drama, as imagens vinham quase todas da natureza e da vida familiar, os versos eram fáceis de cantar. Sim, porque os poemas eram para ser cantados. Não é inconveniente ver freiras cantar versos que não são os do Ofício. Não é sequer inconveniente que as melodias sejam profanas...   ... Como não nos desviarmos, sem discordar? Sim "dis-cordar" é separar os corações. O teu   escondeste-o nos poemas e nas palavras estranhas que utilizas. Escreves Deus e não sabes o que é. Escreves vale de lágrimas / céu / divino-pai / paraíso / carmelo / coro celeste / pecadores / felicidade / eleitos / anjos / divino / e nenhuma dessas palavras dizem o que parecem. São estranhos de passagem. Como os Musset, Chateaubriand e outros Lamartine não disseram o que te ia na alma. Nem por instantes acreditariam no que os teus olhos viam. Nunca o teu jesus seria para eles o encontro arriscado de uma vida.  E para as tuas irmãs? / Imaginaram-no vindo do sagrado / quando / ele veio para ti vindo do fulgor, / «misericórdia», / como lhe chamaste.

 

   E na misericórdia se encontram as flores do mal e essas que Santa Teresinha canta no seu JÉSUS, MON BIEN AIMÉ, RAPELLE-TOI !... Rapelle-toi qu´au soir de l´agonie / Avec ton sang se mélêrent tes pleurs / Rosée d´amour, sa valeur infinie / a fait germer de virginales fleurs... A escrita francesa de Teresa vai crescendo num ritmo e num balanço sonoro que a versão de Gabriela não pretende imitar. Basta-lhe, magnificamente, colher o coração do poema e, adiante, traduzi-lo assim:

 

          Eis o mistério __ Esse orvalho fecundo,

          Tal um sémen __ virginizou as corolas floridas __

          Flores de um ventre invisível __ onde germinam

          E crescem __ inumeráveis corações maternos.

 

          Meu corpo cresceu nesse mistério __ Sou virgem __ Virginizada

          Por ti __ um corpo materno de corações sem fim

 

          Flores virginais que libertam os homens

          Da ilimitada tristeza

          De viver.

 

          Foste um condenado __ forçado ao extremo

          Sofrimento humano __ que se mirou no azur __ aflito,

          E exclamo __ «Mais um pouco e ver-me-eis

          Surgir glorioso __ na extrema mudez do Pai».

 

   Não, Princesa de mim, não me esqueci de Charles Baudelaire nem de Les Fleurs du Mal;  tampouco, ou ainda menos, olvidarei esta conversa em que se me aproximaram um poeta maldito e uma santa de altar (da qual, lembras-te?, ainda guardo uma relíquia que herdei da minha Avó Teresa...). Espera pela próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

  


Minha Princesa de mim:

 

   Um feroz amigo meu, dos antigos, dos tais que até gostamos de ver muitas vezes - mesmo quando discordamos - pegou num texto que escrevi sobre grupocentrismo português, em que citava Rúben A. e a referência deste a "atrasados culturais", e enviou-me uma carta de apreço pelo dito texto, intitulando-se, a si mesmo, "atrasado cultural".

 

   Devo dizer que essa expressão do autor de O Mundo à Minha Procura não é da minha lavra, nem sequer corresponde a um qualquer olhar meu para isso a que, de modo equívoco ou plurívoco, por aí se vai chamando "cultura". Esta é, para mim, como sobejamente te tenho dito, uma circunstância ou, se quiseres, o ecossistema do nosso pensarsentir. Todos, cada um de nós "tem" a sua cultura, todo um sistema, mais ou menos consciente, herdado e adquirido, de valores, normas, referências, onde respira e se move a sua, nossa, de cada um, visão do mundo, bem como o nosso modo de pensarsentir o tempo em que vivemos. Tal circunstância não é adiantada nem atrasada, é como é, presente e evolutiva. Nesse sentido, parece-me também claro que a cultura de cada um poderá ser mais ou menos aberta a descobertas, ilustrações, tentativas de compreensão de si e dos outros... Assim, até em sentido etimológico, cultura ganha o significado de ato de cultivar, ou seja, é espiritícola. Mas nota bem: o homem culto não é necessariamente erudito, não é um acumulador de ficheiros e referências; é, acima de tudo, aquele que trabalha o seu espírito no entendimento do mundo. Todos nós conhecemos analfabetos cultos e eruditos sem janelas. Atrevo-me a dizer, Princesa, que isso de "fazermos pela cultura" até é uma questão ética. 

 

   Por isso me parece hoje tão importante, Princesa de mim, todos aprendermos a ter presente essa motivação da cultura como incansável labor do entendimento do mundo, precisamente porque ela não se esgota em qualquer acumulação de saberes ou conhecimentos sempre revisíveis, mas antes é um exercício fundamental da nossa liberdade de pensarsentir, isto é, da dignidade humana. As pessoas não se cultivam por decreto, menos ainda pela imposição de dogmas, nem tampouco pela banalização de modas ou mesmo outros quaisquer padrões de pensaragir corretamente. As pessoas cultivam-se pelo gosto da descoberta e o exercício do espírito crítico. A raiz de ambos tem duas faces, afinal iguais, que compõem cada rosto humano: liberdade e dignidade. Para algum espanto de gente com que converso, muitas vezes repito - quiçá lembrado do horror de Georges Bernanos à robotização das almas, temor que bebi na minha juventude - que, nas sociedades hodiernas, o bombardeamento quotidiano de "notícias" e publicidade, "conselhos" e opiniões, vai estruturando uma ditadura insidiosa e anónima que retira a muita gente a simples largueza - ou, pelo menos, o descanso - de respirar espiritualmente. Tenho ideia de que o maior problema - para não dizer o impasse atual - das nossas democracias é a esclerose da comunicação pela ausência crescente de cultura das pessoas, isto é, de educação e oportunidades de exercício do espírito crítico, condições imprescindíveis de diálogo em liberdade. Na verdade, o problema não é as pessoas pensarem pelas próprias cabeças; é tornarem-se cada vez mais incapazes de o fazer... Talvez, sobretudo, por viverem num ambiente (numa cultura) tóxico. Daí a importância crescente da animação de grupos de reflexão e diálogo, de encontro de pessoas que, graças ao progresso e facilidade dos meios de comunicação, até nem precisam de se reunir fisicamente. Retorquir-me-ás que é por vezes bastante desanimador o panorama de notícias e comentários nos jornais e revistas "on line"... Mas se pensares que ele é sobretudo revelador da incultura corrente e da leviandade irresponsável do que por aí se diz, talvez ganhes ânimo para entrares na discussão e reclamares o direito de cada um à seriedade do outro. Quando, em carta recente, te falava, a ti também, nos tais grupocentrismos, tinha ainda em mente como a censura ditatorial se exerce em tempos e modos diversos, por caminhos tão aparentemente limpos e claros, mas ínvios ou encerrados a contestatários mal vindos... E, na verdade, não creio que seja fácil enveredar pelos caminhos "oficialmente" estabelecidos, para fazermos valer uma ideia nova ou diferente, uma dissonância de qualquer daqueles catecismos. Mas não será viável tornar audíveis vozes mais independentes das "corretas" inteligências, como da balbúrdia tóxica reinante, vozes apenas mais refletidas? Deixo-te a pergunta, Princesa de mim.

 

   Como achega à meditação de uma resposta, junto alguns estímulos de reflexão, algo paradoxais, a exigirem subtileza à nossa consideração. Quiçá eu seja um tanto conservador, na aceção do filósofo britânico Michael Oakeshott (1901-1990): Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o que já foi utilizado ao que nunca o foi, o facto ao misterioso, o verdadeiro ao possível, o limitado ao turvo, o próximo ao distante, o suficiente ao excedente, o conveniente ao perfeito. O mais curioso é este pensamento ocorrer-me quando lia a resposta do filósofo socialista francês Jean-Claude Michéa a uma pergunta do Philosophie Magazine sobre quais as "queixas" que ele teria contra a "visão siliconiana" do mundo defendida pelo patrão do Facebook, Mark Zuckerberg: É preciso muita ingenuidade para se acreditar que essa visão "siliconiana" do mundo possa contribuir de modo decisivo para a ultrapassagem dessa "atomização do mundo" e desse "isolamento do indivíduo", em que Engels via, em 1845, "o princípio fundamental da sociedade atual". Antes do mais, porque o tempo que o indivíduo "conectado" passa então a surfar de um ecrã para outro é forçosamente tirado ao da verdadeira vida comum, e portanto a essas relações humanas cara a cara que dela são o suporte privilegiado: uma "amizade Facebook" é muito diferente duma amizade real (um verdadeiro amigo é algo muito diferente de um follower!). Depois, porque esse mundo das redes sociais se organiza prioritariamente sobre um modo afinitário. Ora, o que define o pedestal antropológico fundamental de qualquer vida realmente comum, é que ela assenta no hábito psicologicamente formador de viver com pessoas - vizinhos, parentes, colegas, etc. --  que não escolhemos e que, portanto, não pensam necessariamente como nós... E, por isso mesmo, são condição essencial da nossa cultura.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   José Augusto Mourão, frade dominicano, semiólogo e professor universitário (UNL-DCC), de quem já te falei, escreveu o posfácio para A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol, um dos três livros que, para consolo ou provocação do espírito que eu não queria ver a concentrar-se em cirurgias, decidi que andariam comigo. Serão textos difíceis, isto é, exigirão atenção, mas eis o modo que encontrei para me distrair de atrapalhações sobre as quais pouco entendo e nada posso. Em tempo de bem vinda chuva, clareou a tarde deste domingo, e fui ao fundo do jardim iluminar-me com o amarelo solar da mimosa em flor, exuberante, carnavalesca, em qualquer inverno, em pleno fevereiro. E esta é teimosa sobrevivente, a única que escapou ao tornado que nos varreu em dezembro de 2013. Cheio dessa alegria interior, vim pegar nos textos reservados, e escolhi para ti aqueles que aquela exuberância floral mais iluminou na presente leitura. Há comunicações esquisitas como estas vozes da luz que não se ouve...

 

   Mourão recorda, na senda de Llansol, o "meu" querido Mestre Eckhart, de que tantas vezes te falei e em mim sempre sustenta o indizível:

 

   A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir» «sem porquê», «nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas unicamente em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser e a sua própria vida» (Sermão 6)... [...] A única resposta à vertigem é o ritmo. O ritmo - o ritmo poético, o batimento da língua - é uma figura. A imagem - a imagem poética - é uma figura. A língua do poeta configura-se, o poema é uma configuração. O «como» da comparação é também um «cum» - um com -,, logo uma reciprocidade, uma mutualidade. Para o artista, o mundo é o lugar de desenvolvimento das figuras. É a figuratividade do mundo que o poema diz.

 

 

   O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de «sobrenatural», eterno ou «supra-humano». A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue, mas não separa. As fórmulas de samsara/nirvana/atman, theios/theopoiesis, união hipostática, Encarnação, tudo aponta numa mesma direção: os valores seculares são sagrados. Pannikar propõe a palavra tempiternidade para exprimir esta intuição.

 

   Sabes bem, Princesa de mim, quanto tenho insistido no meu muito íntimo pensarsentir o cristianismo como a incarnação de Deus, a secularização do sagrado, quiçá no cerne de um processo de renovadora transformação do cosmos, como acreditava Teilhard de Chardin. Ou frei Sérgio de Beaurecueil, solitário padre católico em Cabul, quando trazia o seu quinhão de pão partilhado com muçulmanos ao almoço e o consagrava, ao fim da tarde, na sua capelinha. O Corpo de Deus não é coisa que se exponha à reverência, antes é a comunhão dos homens no amor, sublime ação de graças, eucaristia. A nossa religião nada tem de mágico; ou, se assim quiseres, tem como única magia o incessantemente repetido gesto de Deus a querer habitar o coração dos homens. Quanto à escrita de Maria Gabriela, que aqui me trouxe a ti, lê comigo a Lição 1ª de A Restante Vida:

 

   Ana de Peñalosa chegou ao fim da vida. Ser o fim é-lhe indiferente, não tem muito sentido. Mais uma vez pensa utilizar

a escrita

que sempre lhe serviu

de laboratório

e de alquimia.

 

                                             Refletindo,

                                             disse para consigo:

                                             Não será uma arte demonstrativa.

 

A escrita,

vê-la escrever-se lucidamente,

é o fundamento deste real.

 

   Este livro que venho trazendo comigo é o segundo da trilogia Geografia de Rebeldes, que começara com O Livro das Comunidades e se termina com Na Casa de julho e agosto. No final da reedição deste, em 2003, insere a Relógio de Água, o Espaço Edénico - uma entrevista que a autora deu a João Mendes, publicada pelo Público em 18 de janeiro de 1995. Desta te transcrevo uma simples resposta da escritora, que me ajuda a pensar no que te tenho dito:

 

   Como não sou teóloga, o que vejo no texto é que há uma «presença insondável» na nossa vida. Não vale a pena ter medo dela. E tens os atributos. Não há maneira de passar em silêncio. E tens a substância. Com as palavras, não a consegues falar; mas ninguém te impede de caminhar na direção da tua imagem. Conheces outra utilidade melhor para o teu corpo?

 

   E agora, Princesa de mim, sou eu a dizer-te que não, que não conheço. Fez-se escuro lá fora, calaram-se todas as vozes dos campos. Mas dentro de mim me chama a luminosidade de uma mimosa em flor, no céu de fevereiro. Vês? Também não sou teólogo, nem coisa que se pareça. Sou um homem simples que olha para o céu a fechar-se sobre os campos. Citadino de origem, no século XXI, já sei que ele, o céu, não é uma abóbada, nada que nos cubra e obrigue - com sinais de cometas, meteoritos ou estrelas fugazes - mas algo que o nosso conhecimento ainda não sabe nem pode limitar... E tanto, ou tão pouco, me basta para contemplar e amar a infinitude de Deus. Eterna saudade que me chama, sempre a mesma, incansável vocação, mesmo falando muitas vozes. Gente que se diz muito religiosa, cheia de uma fé inamovível em dogmas definitivos, quiçá possuidora de conceitos arquitetados para encerrarem Deus, pensará que serei pouco ou nada religioso. E, na sua perspetiva, tem certamente razão. Afinal, eu acredito numa presença insondável na minha vida, como um sopro que me move e percorre o mundo todo. Esperança em que, no dia tremendo da paz, o amor mandará finalmente nisto tudo.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira