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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Deixa-me voltar à história do povo hebraico, muito resumidamente, apenas como referência.  Datas e factos citados por opção minha, de preferência respigados de autores judeus, com confiança naqueles que procuram aproximar-se das "verdades" que a historiografia contemporânea vai apurando. Esqueço as polémicas e vou escolhendo uns "diz-se que". Tampouco hesito em saltar por cima de hiatos ou relatos pouco verificados. Simplifico tudo, serei telegráfico, não estou a dar aulas, muito menos sobre matérias em que sou muito mais curioso do que sabedor.

 

    Diz-se que, por volta de 1760 a.C., Abraão, patriarca e pai dos povos (árabe, por via do seu primogénito Ismael, filho de Agar, serva de Sara, sua mulher, e, claro está, no relato da Bíblia hebraica, de Isaac, donde descendem os hebreus, filho da própria Sara, anciã que concebe por milagre de Yahvé), terá saído da Suméria (Ur?) para Canaã, entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. Por lá ficam os patriarcas sucessores, até que secas e fome os empurram para o Egipto. Poupo-te aqui os relatos sobre Isaac, seus filhos Esaú e Jacob, os doze filhos deste, que originam as tribos de Israel, ou a sua luta com o anjo, que lhe trará o nome de Israel ("Deus é forte", ou "forte contra Deus"). Lembro-te um deles, Judá, e outro ainda, cuja história, contada na Bíblia, merece leitura e atenção: é a história de José, undécimo filho de Jacob e, com Benjamim, um dos dois de Raquel, serrana bela, o início, ainda no livro do Génese, do Êxodo que de lá tirará os israelitas, dessa libertação que marca bem o princípio do que será Israel como nação, nem sempre, nem por sombras, constituída em Estado. A passagem do Egipto para Canaã, onde os israelitas se estabelecem (com ou sem conquista, discute-se), é marcada pela paragem no monte Sinai e a atribuição da Lei (Torá) por Moisés. Seguem-se quase três séculos de reinos ou governos tribais - há quem lhes chame democracias... -, até ao início do período monárquico (Samuel, Saúl, David e Salomão) em 1020 a.C. No final do reino de Salomão, este divide-se entre Judá e Israel, e inicia-se um período de independência política por excelência, com reis sucessivos e muitos profetas a avisá-los. Em 722 a. C., os assírios destroem Israel e, em 582, os babilónios ocupam Judá e exilam a população: Sôbolos rios que vão / por Babilónia me achei / onde sentado chorei / as lembranças de Sião… Regressa o povo, mais tarde virão as conquistas persa e helenística (Alexandre Magno), até 165 a.C. (recuperação de soberania com os príncipes asmónidas) e, finalmente, a conquista romana que, em 135 d.C., porá fim definitivo à independência possível de qualquer estado judeu. O Templo de Jerusalém fora arrasado, acentua-se, nos judeus restantes e nos inúmeros de uma Diáspora prosélita - que vai convertendo gente, tal com também albergará, nas suas sinagogas, reuniões do cristianismo nascente - uma consciência nacional israelita que é, como desde o início fora, eminentemente crença religiosa. 

 

   Sobre a língua hebraica, deixa-me dizer-te mais pouco do que sei que foi, foi sendo e hoje é. E também como terá sido, tal como o aramaico, língua bíblica mais por tradição oral do que escrita, ainda que qualquer daqueles dois idiomas palestinos tenha veiculado textos bíblicos redigidos, desde o século X a.C., como demonstram documentos entretanto descobertos. O hebraico antigo evoluiu de línguas faladas pelas populações de Canaã, já antes do estabelecimento dos israelitas, tais como o fenício, o moabita e o aramaico, todas pertencentes, como o árabe, ao ramo ocidental das línguas semitas, descendentes do acádio. O aramaico, numa região muito influenciada, culturalmente, pelos encontros entre vários povos nómadas, terá sido o idioma que mais se espalhou, e dele descenderia, parcial e diretamente, o hebraico antigo. Os textos dos diferentes livros da Bíblia judaica registaram, entre o século X a.C. e a nossa era, tradições orais, postas então por escrito, maioritariamente em hebraico, mas também em aramaico.

 

   Para o que aqui nos interessa, Princesa de mim, hebraico e aramaico eram falados pelos judeus palestinos desde meados do século IV a.C. até ao primeiro terço do século II da nossa era, já que depois de 135, ano da queda final do estado de Israel (que, aliás, muito antes, desde a tomada de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C., caíra sob o controlo e, depois, domínio romano, como sabes), o hebraico se foi apagando, mantendo-se como língua vernácula o aramaico e, na Diáspora como na própria Palestina, o grego. A importância do idioma helénico já se tornara notada pela tradução dos Setenta, na Alexandria da Diáspora. O texto grego, a partir do século II, com o acrescento do Novo Testamento, que, junto à Bíblia judia, formaria a cristã, torna-se então referência para muitas traduções (e, ainda agora, em Portugal, Frederico Lourenço vai publicando a sua versão lusíada do texto helénico).

 

   O hebraico permaneceu todavia a língua religiosa e litúrgica do judaísmo, bem como a dos sábios e teólogos judeus. Além disso, sobrevive sob outra forma, literária, a mishnaica, apelido derivado da antologia Mishná que, no século II, reuniu vários textos, sobretudo, creio, comentários à Lei, escritos num hebraico literário do tempo. Recolhe, este, vocábulos provenientes do aramaico, do persa, do grego, do latim, e sofre, por essas influências externas, variações semânticas e gramaticais estranhas à língua antiga. Não te contarei mais história do hebraico, que aliás conheço pouco e mal: olhando para um texto escrito nessa língua, tudo o que sei é que se lê na horizontal, e da direita para a esquerda, como o árabe. E disse. Mas traduzo-te passos dum artigo do professor V. Nikiprowatzky, do Collège de France, que nos ajudam, Princesa de mim, a entender melhor observações de David Grossman:

 

   O período moderno do hebraico começa na segunda metade do século XIX, com a predominância do estilo russo. O despertar da nação judia e a sua afirmação política transformam a língua forjada pelos grandes autores do judaísmo russo em vernáculo, isto é, no atual hebraico vivo, ou israelita.

 

   A necessidade de exprimir as realidades complexas da vida contemporânea tinha obrigado o hebraico dos autores russos a recorrer a todas as potencialidades do vocabulário hebraico, em vez de se restringirem ao léxico da Bíblia. Prolongando e sistematizando esse esforço de renovação linguística, E. Ben-Yehuda publica, na segunda década do século XX, um "Thesaurus totius hebraitatis" [acho curioso, Princesa, o título em latim], que tem um papel decisivo na formação do hebraico atualmente falado no novo estado nacional. Ben-Yehuda nem sequer hesita em preconizar empréstimos de certas línguas vivas, como o árabe. Voltando a ser língua quotidiana, o hebraico não pára, doravante, de enriquecer, como qualquer língua viva, o seu dicionário, ao sabor das contingências históricas...

 

   ... A pronúncia do hebraico moderno é conforme à dos judeus orientais, ou sefarditas. A pronúncia dos judeus da Europa, ou asquenazes, mantém-se por vezes na poesia...

 

   Pessoalmente, não só compreendo a necessidade de recriação duma língua nacional (se não, como se entenderiam os cidadãos israelitas provenientes de desvairadas partes?), como admiro o engenho, a persistência e a modernidade com que tem vindo a ser constituída e articulada. Por outro lado, devo reconhecer que tal também pertence ao génio judaico que a Diáspora, enquanto estar em mundos sem ser deles, incansavelmente foi alimentando. Lembra-te, Princesa de mim, do ídiche e do ladino.  

 

   Ídiche tem raiz alemã, vem de Jiddish que, evidentemente, que dizer Jüdisch (judeu). Terá surgido por volta do ano 1000, na Renânia alemã, e levado para a Europa Oriental (Polónia e Rússia, entre outros) a partir do século XIV. Pelo Leste europeu se foi espalhando como língua das comunidades judias e, a partir dos anos 20 do século XX, tornou-se mais língua nacional (da nação judaica na diáspora russa) do que língua religiosa. Calcula-se que, cerca de 1939, 12 milhões de europeus falariam ídiche.

 

   Já o ladino surge como língua litúrgica dos sefarditas, judeus da diáspora greco-turca, magrebina e ibérica, por ordem de deslocação histórica e geográfica e a mesma, mas inversa. O seu vernáculo, ou língua popular, será o judio-espanhol ou judio-português, sendo que todas estas designações são muitas vezes confundidas. Ao que parece (repito o que já li ou ouvi dizer), rabinos ibéricos terão traduzido a Bíblia hebraica para ladino, essa espécie de luso-castelhano hablar-falar, que as comunidades judias, que já não sabiam hebraico, usavam no seu seio. Claro que o «papiá judeu» - digo assim lembrado do «papiá cristiano» que descobri em Malaca e na Indonésia, curioso crioulo português -  também acolhera palavras do turco, do grego, do latim, etc.... O meu querido Espinosa também falou assim.

 

   Tudo isto, Princesa de mim, me leva a pensarsentir mais profundamente a profunda verdade universal daquele dito do nosso padre António Vieira, que abrevio: Para nascer, pouca terra, Portugal. Para morrer, o mundo inteiro. No sentido espiritual, no que a peregrinação nos é essencial, há muito de judeu em nós, Princesa.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Corri a abrir um livro que recebi por correio recente, ao deparar hoje com uma entrevista de David Grossman, escritor israelita que desconhecia, ao jornal Público. O tal livro, que eu já folheara no princípio da semana, é uma tradução, com longa introdução e abundantes notas, da Kabbala denudata de autoria ainda hoje discutida, mas atribuída a Christian Knorr von Rosenroth, datada de 1684, na sua edição em Frankfuhrt. O título original completo dessa obra setecentista, que traduzo para português, reza assim: Esboço da Kabala Cristã, isto é, Sincatabase Hebraica, ou Breve Aplicação da Doutrina Cabalística dos Hebreus aos Dogmas da Nova Aliança, para Formar uma Hipótese Útil à Conversão dos Judeus... Trata-se de um diálogo ou debate, em doze capítulos, entre um cabalista judeu e um filósofo cristão, de que voltarei a falar-te em próxima carta, bem lembrado de que uma certa evolução semântica fez a palavra cabala dizer-nos hoje algo mais próximo de sinistra conspiração do que de mística, seu significado original. Mas neste dia, não fui ao livro por pensar na cabala, mas para encontrar uma citação que o responsável pela edição francesa a que me refiro (Les Belles Lettres, Paris, 2018), o frade dominicano Jérôme Rousse-Lacordaire, usa para epígrafe da sua introdução intitulada À l´Ombre de la Kabbale. Trata-se de um passo de Max Jacob, tirado de Les Oeuvres burlesques et mystiques de Frère Matorel mort au couvent. Traduzo-o para ti, mas lembrado do meu amigo Marcello Mathias, que se sorri apelidando-me de místico excessivo... Aqui vai:

 

   Contudo, ó demasiado místico filósofo, eis-te inquieto, não estarás a insinuar que os ignorantes tomam os símbolos por realidades, e que os outros tomam as realidades por símbolos?

 

   E que tem isto tudo a ver com as cinco páginas que o suplemento Ypsilon do Público dedica a David Grossman, incluindo uma elogiosa resenha do seu último livro publicado em português (Um Cavalo Entra num Bar, tradução de Lúcia Liba Mucznik, D. Quixote)? Obra, aliás, também aconselhada por Francisco Louçã, nesta mesma 6ª feira, na sua habitual aparição no jornal da noite da SIC-Notícias, e que, pelo que me foi dado perceber, trata de modo estimulante, ainda que ficcional, o humor judeu. Não sei se tal humor se reproduz por clones em Israel e todas as várias reuniões da diáspora, mas o que conheço - dos filmes do Woody Allen e de muitos convívios pessoais com judeus em New York e não só -  leva-me a concordar com a apreciação feita por Isabel Lucas ao livro de Daniel Grossman: Rir ou não rir não é uma opção, há verdade na gargalhada, e Dovaleh [o protagonista, contador de piadas] sabe. Ele é um humorista porque conheceu cedo o riso dos outros, os que não riam com ele mas dele. Na infância e na adolescência ele era a piada má, e agora, adulto, quase velho, quer olhar-se de frente, pela primeira vez.

 

   E eu dou comigo, Princesa, a parafrasear Max Jacob: os sobreviventes tomam as piadas por realidades, ou tomarão estas por piadas? Isto é: não será o humor incansável um remédio cabalístico para aguentarmos o trágico? Mas pode ele ser universal, como a música que faz o belo milagre de nos harmonizar, de nos pôr -  e somos tão diferentes! - a comungar as mesmas emoções? No período do último Natal, meditei muito sobre o desentendimento, não tanto enquanto diferendos ou discórdias, mas muito mais enquanto ausência de comunhão humana. Ao longo da vida conheci, graças a Deus, muitas amizades, amores e famílias constituídas por pessoas que inicialmente nem falavam a mesma língua, vinham de povos e culturas, não só diferentes, mas ignorantes uns dos outros. Eram felizes, viviam em profunda comunhão humana, tinham sabido abrir a porta para o caminho da descoberta mútua contínua, que é a única via do amor. Mas, infelizmente, também todos os dias deparo com relações quebradas e corações rasgados entre gente de igual nascimento e criação, que se combate por ganância, por egoísmo ou por soberba, cuja forma mais vulgar, generalizada e insidiosa, é a das chamadas verdades e dos pretensos direitos inatos. Será talvez aí que se confundem, em nebulosas dos espíritos, a cabala mística e a conspirativa, e as nossas boas intenções são nubladas por crenças, preconceitos e ingenuidades. Lê, Princesa de mim, com atenção, os seguintes trechos das declarações de David Grossman a Isabel Lucas (transcrevo do jornal, não traduzo):

 

   Sou muitas vezes questionado se Dovaleh é uma metáfora de Israel. Não acho que uma pessoa possa ser a metáfora de um país, mas há uma ou duas coisas que são similares na vida de Dovaleh e a realidade aqui: primeiro, a contradição entre uma interioridade muito suave e um exterior muito duro; segundo, o sentimento trágico de sentir que se vive em paralelo com a vida que se poderia ter ou devíamos ter. Em 1967, quando Israel venceu a Guerra dos Seis Dias e ocupou todos estes territórios, a grande vitória militar revelou-se uma tragédia nacional: fez de nós ocupantes, criou de modo profundo em nós uma bebedeira de poder que nos trouxe à situação atual, em que há muito pouca esperança para o futuro, com israelitas e palestinianos numa espécie de bloqueio ou beco sem saída. Esta vertigem sem esperança nunca fica de facto vazia, porque há sempre elementos com uma agenda clara, fundamentalistas fanáticos, uma agenda fascista, racista, que está a pular, a ditar o nosso futuro e a sequestrar o nosso futuro e o dos nossos filhos. A situação parece bastante inoperante, sem saída.

 

   Já quando perguntado sobre «o que pensa da decisão de Trump reconhecer Jerusalém como capital política de Israel e mudar para aí a embaixada americana», começa por responder dizendo: Antes de mais, Jerusalém é a capital de Israel. Isto é histórico. Quanto a histórico, resposta mais correta seria dizer que Jerusalém foi a Cidade Santa, a do Templo da Aliança, a das Duas Pazes (terrenal e celestial), mais do que capital de qualquer reino judeu: foi conquistada pelo rei David, da tribo de Judá, em 997 a.C. (em tempos, aliás, para muitos historiadores, ainda não pertinentemente determinados, mas conforme consta dos relatos bíblicos). Depois te falarei, resumidamente, dessa ideia de estado ou reino antigo.

 

  Mais adiante, diz Grossman que no futuro, se avançarmos para negociações de paz entre nós e a Palestina, devemos trazer a questão de Jerusalém como parte de um equilíbrio complicado e devemos decidir que Jerusalém seja dividida a leste, o lado da Palestina, e a ocidente, o lado de Israel. E fazemos o acordo de como nos movimentarmos entre os dois lados, podendo ir rezar aos lugares sagrados das duas religiões. Isto terá de ser feito de forma muito lenta e com uma solução muito detalhada, e não por uma declaração «fast food» do senhor Trump. Este arrazoado, levando em conta apenas judeus e muçulmanos, escamoteando a forte presença de cristãos, muitos destes sendo palestinos ali instalados há séculos, tal como os judeus propriamente do sítio (não os adventícios ocupantes), reflete a influência da propaganda sionista, que insiste em apresentar um Israel "forte, fiel, façanhudo", todo judeu, hoje mais do que nunca guardião da fronteira avançada contra o pernicioso islão. Ignora a verdade histórica e, sobretudo, lamentavelmente, os exemplos passados de uma Cidade do Mundo que, ainda no fim do domínio otomano, conseguiu ser gerida em paz, na convivência e acordo de todas as suas comunidades étnicas e religiosas (donde os quatro bairros, ainda hoje existentes: judeu, cristão, muçulmano e arménio). Curiosamente, leva-me a recordar um vídeo, desses que circulam pela rede (ou teia?) chamada "internet", e que querida amiga me reencaminhou: aí, com ar científico e professoral, um PR (leia-se pi ar), além da treta de Jerusalém ser capital do estado de Israel há mais de 3000 anos, diz-nos que os muçulmanos rezam virados para Meca, e só os judeus para Jerusalém...

 

   Noutro trecho da entrevista, Grossman confirma que escreveu o livro em hebraico (aliás, o prémio Man Booker International 2017 foi-lhe atribuído e, simultaneamente, à sua tradutora inglesa), e diz: Sim, o hebraico é uma das línguas mais antigas. Parte da Bíblia é escrita em hebraico. O que mais é preciso para provar quão antiga e importante é esta língua para as religiões e cultura ocidentais e islâmica? O modo de narrar que está na Bíblia afetou tanto outras culturas e religiões! Para nós, em Israel, o hebraico é um milagre. Foi uma língua em dormência, não uma língua falada, durante quase dois mil anos. Renasceu no início do século XX quando quase ninguém a falava, era apenas a língua das orações, uma língua sagrada. E por causa da insistência e devoção de uma pessoa, Eliezer Ben-Yehuda (1858-1922). Ele reinventou a língua hebraica, baseando-se na Bíblia, no Talmude ou no Mishná. Ele beijou a bela adormecida e viu-a acordar para a vida, e hoje quase toda a gente em Israel fala hebraico, as pessoas fazem negócios em hebraico, apaixonam-se em hebraico, o Exército fala hebraico, as pessoas mais jovens fazem tudo em hebraico. E dá um prazer especial escrever em hebraico, porque se pode escrever numa língua cheia de identidade, de herança e jogar com as diferentes camadas dessa língua. - Continuam a inventar-se palavras? - Sempre! Por causa da anormalidade de uma língua muito antiga que quase se perdeu e que teve de ser reinventada, tiveram de se inventar palavras que faltavam. Por exemplo, Eliezer Ben-Yehuda teve de arranjar um nome para a palavra "tomate". Não havia tomate no tempo da Bíblia, nem gelados, e ele inventou-a. O nome que deu ao tomate foi o que em inglês corresponde a «flirtatious lady», porque ela cora nessa situação [«agvania» em transliteração]. É uma mulher ruborizada [risos]. Quando estou a escrever e chego a um momento em que me falta uma palavra em hebraico e ela não existe, então muitas vezes essa palavra surge numa forma que me parece clara, e imediatamente toda a gente sabe o seu significado, sabe o que quero dizer, como se ela fosse encaixar num lugar que lhe estava reservado.

 

   O linguista que não sou, um essoutro qualquer estudioso rigoroso, poderia dizer que, afinal, a exemplo dos mitos histórico-políticos que hoje se vão (re) inventando, o hebraico que ali se constrói é uma pretensão de língua sem historial de vox populi. Indubitavelmente uma tentativa de unidade linguística de populações provenientes de muitos lados da diáspora, transportadoras de culturas e linguagens diferentes, não sei se também escamoteadora das línguas antigas que muitas dessas comunidades falavam, como o ídiche ou o ladino. Tal como, no século XV, os Reis Católicos uniram reinos de Espanha, pela imposição da uniformidade religiosa. Não sendo cientista nem sábio, limito-me a recorrer a outras fontes de apreciação. Sem, todavia, resistir a remeter-nos primeiro, Princesa de mim, para a poética informação de que «agvania» afinal traduz «flirtatious lady», posto que o fruto tomate evoca o ruborizado rosto de uma dama em amorosos calores... Tanto quanto lembrar-me posso, tomate deriva do inca tomatl, assim se registou o nome desse fruto em castelhano, cerca de 1532, quando nos trouxeram a pertinente solanácea do Peru. Aliás, peru também chamamos nós a essa pobre ave, natalícia iguaria a que, pelo thanks giving, os americanos do norte chamam turkey (da Turquia, herança britânica), e os franceses insistem em tratar por dinde (da Índia, já que o maneirismo gaulês dá sempre prioridade às senhoras pelo que ao peru macho chamará dindon). Afinal, pergunto eu, que nem sobre animais sou sábio: donde veio o bicho? do Perú, da Turquia, da Índia? Mas, correndo o sério risco de ruborizar-te, Princesa, volto ao tomate, que os italianos tratam, bíblica e italicamente lembrados do pecado original, por pomo de ouro (pomodoro). Ou, como regista, sempre competentemente, António Houaiss, no seu Dicionário da Língua Portuguesa : Tomate já figura no dicionário de Bluteau (1721), que comenta: «Não aprova Ruellio o nome de "Poma Amoris", que alguns dão aos Tomates por serem fermosos à vista, porque todos os mais frutos, que tem esta excellencia, justamente pretenderiam este mesmo nome; & se nós lhes chamamos Tomates, dando a entender que a sua fermosura convida a gente, que os vê, a Tomallos, toda a mais fruta vistosa, &  agradável aos olhos se poderá com razão chamar Tomate. E noutra entrada regista que "tomates, substantivo masculino no plural, significa também (desde 1899?), testículos e, por extensão, o conjunto das qualidades viris: valentia, audácia, etc."...

 

   Com este pouco ou nada de riso pícaro, deixo-te, Princesa de mim, até próxima carta, a voltar ao assunto subjacente. Afinal, estas cartas mais não são do que uma conversa entre nós.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

      A nação judia, livre e independente, dispõe-se a colaborar com os seus vizinhos árabes livres, para promover a verdadeira independência de todos os países semitas do Médio Oriente... -  afirmava Ben Gurion um dos pais e primeiros governantes do atual estado de Israel. Aliás, foi ele quem pronunciou a declaração de constituição e independência do estado de Israel, em 14 de maio de 1948.

 

   Já no século I da nossa era, Flávio José, judeu, cidadão romano, cronista ou historiador de seu ofício, propunha, na sua obra Antiguidades Judaicas (I, 180; VII, 67), a seguinte etimologia para o topónimo Jerusalém: Visão da Paz. O topónimo terá raiz muito antiga, surge no século XIX antes de Cristo gravado num figurino egípcio: Rushalimin. 

 

   Em Lettrines, março de 1967, Julien Gracq escrevia: Jerusalém, cometa histórico cuja história quase se reduz a um longo rasto inflamado, pousada na sua colina como foguetão em rampa de lançamento - tanta fúria de eternidade em tão pequeno corpo - cidade Pítia, cidade epiléptica, soluçando sem tréguas do transe do porvir...

 

   No seu Éthique de la Considération, a professora de filosofia na Universidade de Paris-Est-Marne-la-Vallée, Corine Pelluchon, que tem a idade da minha filha Teresa, cita São Bernardo de Claraval, pai da reforma beneditina de Cister e pregador de Cruzada - sim, esse mesmo, o tal que é evocado, em azulejos do nosso mosteiro de Alcobaça, pelos seus monges e conversos, obreiros da colonização agrícola de grande parte de Portugal, nos tempos d´El Rei Dom Afonso Henriques, o Fundador:

 

   Bernard de Clairvaux écrit au pape Eugene III en exil: «Lembra-te de que nasceste de uma mulher!» É impossível governarmos sem nos lembrarmos, nós mesmos, de que saímos nus do ventre de uma mulher, de que somos um ser engendrado. Para mim, todavia, a humildade, mais do que uma virtude, é antes do mais um método. Porque nos permite purificar o olhar, e deixarmos de estar em pleno poder e domínio, que são as tentações constantes do humano. A humildade é uma experiência que despoja o indivíduo dos seus atributos sociais, permitindo-lhe agarrar a sua nua humanidade, e ter compaixão para com outro, e então compreender o seu próprio lugar no mundo, sem perder o sentido da justa medida. Isso que hoje falta a tanta gente brilhante...

 

   Lembrei-me destes passos e trechos - ouvidos ou lidos há mais ou menos tempo, sem precisão de datas ou ocasiões, pois que cada vez mais indiferentes se me tornam as horas e distâncias - ao refletir hoje, dia 27 de janeiro de 2018, na memória do Holocausto. Que a lembrança da barbárie nazi e de tantas outras perseguições e injustiças de que judeus foram vítimas possa levar hoje Israel a pensarsentir, não ressentimento ou vingança, nem sequer desforra - muito menos a custas de populações de cristãos e muçulmanos palestinos, inocentes de genocídios e, na sua esmagadora maioria, povos há mais tempo radicados na Palestina do que os judeus de origem caucasiana e descendentes de outros convertidos, que o movimento sionista veio trazendo para aquelas paragens, ali adquirindo e, depois, expropriando terras, nem sempre de forma condizente com as leis e usos locais, menos ainda com o respeito devido a paisanos sujeitos, primeiro, ao domínio otomano (até 1917) e, a seguir, ao do mandato britânico (de 1917 a 1945).

 

   Recordo, comovido, um trecho de Pour l´Amour de Bethléem, ma Ville Emmurée, de Vera Baboun, eleita, em 2012, presidente da Câmara Municipal de Belém, professora universitária, católica palestina, de origem árabe e arménia, mãe de cinco filhos, viúva de um palestino morto por forças israelitas de ocupação: Acontecia-me ir diretamente, à saída da escola São José, assistir à missa das 17horas na igreja de Santa Catarina. Lembro-me especialmente desse dia de maio, mês da Virgem Maria. Tinha 16 anos. Estava sentada na nave, com a farda da escola, e a pasta ao lado. Escutava a homilia. Foi então que o padre pronunciou esta frase: «As bênçãos e as graças escondem-se no coração dos sofrimentos. Aprendei a fazê-las nascer!» Falava em árabe, e fascinava-me o ritmo, mesmo se ainda não lhe percebia o sentido. De regresso a casa, apressei-me a apontá-la num canto do diário íntimo que então escrevia. Tal como a ouvira. «As bênçãos e as graças escondem-se no coração dos sofrimentos. Aprendei a fazê-las nascer!» Quem era eu então? Uma filha de boa família, que se ia casar, tão jovem ainda, com um rapaz vindo também de um meio considerado bem. Tinha pais amorosos. A vida era bela! Não conhecia o sentido da palavra «sofrimento». E todavia aquela frase ia mudar a minha vida.   

 

   Acrescento, Princesa de mim, mais duas breves citações do livro de Vera Baboun, porque também nos fazem refletir:

 

   Trinta e sete anos depois, Belém está muito mudada. Do lado de Jerusalém, um muro com oito metros de altura encerra-nos cada vez mais hermeticamente...  ...Doravante, a avenida de Hebron, a artéria principal, dantes com tanta vida, que levava a Jerusalém, é um beco sem saída...  ...O muro impõe-se à nossa vida quotidiana, pesando sobre cada um dos nossos movimentos, penetrando insidiosamente nos nossos espíritos...

 

   Geralmente, a primeira pergunta que os visitantes fazem ao presidente da Câmara de Belém é «Fale-nos das relações entre cristãos e muçulmanos!», como se estas devessem ser necessariamente más. Mas não é assim. Cristãos ou muçulmanos, em Belém vivemos sempre juntos. Quando era nova, todos os nossos vizinhos eram muçulmanos e mantínhamos as melhores relações do mundo. Vinham a nossa casa, íamos a casa deles. Partilhávamos almoço ou jantar. Jogávamos futebol na rua, rapazes e raparigas, muçulmanos e cristãos. Hoje, face ao muro, seja qual for a nossa religião, nós, Palestinos, somos todos arrumados pelo mesmo labéu.

 

   O detestável surto de terrorismo cego que se reclama de inspiração islâmica (imagina, Princesa, outro qualquer movimento de violência "evangélica" que se pretendesse sequaz da expulsão dos vendilhões do Templo) tem gerado reações que, cada vez mais, tendem a apontar motivações religiosas ao espírito bélico e suas inerentes sevícias e injustiças gritantes. Juízo que, apesar de substanciado por atos e factos indesmentíveis, não deixa, finalmente, de ser temerário pela extensão generalizadora e discriminatória que fomenta, e pouco lúcido pela estreiteza da compreensão da própria natureza humana. Não chegarei ao exagero de afirmar que em cada um de nós habita um médico e o seu monstro, mas sei que todos sofremos a tentação de impulsos para o bem e para o mal. Muitos textos religiosos, da Bíblia ao Corão, e outros ainda, conservam palavras de ordem, pretensamente reveladas ou ditadas por divina voz, incitando a uma qualquer guerra santa, que todavia podem ser interpretadas pela perspetiva do bem, sobretudo para quem crê que se Deus fala o fará por bem. Claro que há nisto muito de subjetivo ou, se preferires, de cultural. Mas também é verdade que, em todas as religiões, incluindo as monoteístas, desde sempre despertaram movimentos de universalização da igual dignidade humana e de paz.

 

   A vida religiosa ou qualquer vida conscientemente espiritual, é sempre uma relação e, como tal, necessariamente subjetiva ou, melhor, intersubjetiva. Se esta aparente banalidade que acabo de te escrever pode ser facilmente captável por pessoas praticantes de diferentes formas de religião - no sentido de tentativa de comunicação com o transcendente, o invisível, ou o poder ignoto -,  já a sua instituição social - no sentido cripto-jurídico de ideia que se corporiza em organizações providas de funções normalizadas e hierarquias gestoras - poderá torna-la em propriedade mobilizadora de um poder político, de vocação totalitária ou discriminatória, de que temos tantos infelizes exemplos históricos (e os judeus basto sofreram de perseguições). A Igreja Católica ainda hoje carrega o peso institucional que lhe foi moldado, no século IV, pela sua "constantinização", isto é, pela assimilação de conceitos e relações, regras e práticas, jurídicas e rituais, próprias do Império Romano e seu aparelho de Estado. Quem se dedicar um pouco - ou talvez mesmo muito - à leitura de textos coevos perceberá melhor o balanço de deve-e-haver dessa transformação das comunidades cristãs primitivas (as dos séculos I, II e III) na cristandade romana bizantina e latina do século IV. No judaísmo, quiçá por nunca ter convertido o poder imperial, a tradição religiosa (melhor diria: as tradições) foi-se transmitindo descentralizadamente pelas sinagogas da diáspora, em que, além da Torah, Jerusalém era um ponto de reencontro e união espiritual em redor da Promessa. Nesse sentido, o mito da Cidade do Templo, de David e Salomão, com mais ou menos veracidade histórica ou evidência arqueológica, é certamente respeitável e, pelo seu símbolo teológico da prometida Cidade de Deus, admirável.

 

   Mas isso não faz dela a capital política do recente estado de Israel, não só por razões abundantes de ordem histórica, política e jurídica, como ainda pelo facto de 55% dos atuais cidadãos israelitas se declararem não religiosos. E muitos israelitas judeus contestam a fundamentação religiosa exclusiva de Jerusalém-capital e defendem os direitos dos palestinos. Aliás, Israel é o segundo estado judaico do mundo (com 5 milhões de habitantes), sendo os EUA o primeiro (com 6 milhões e meio). Nessa América, onde constituem + ou - 2% da população têm uma representação de 33% do Congresso. O que ninguém contestará: na verdade, estão lá por mérito próprio, não por serem judeus ou como tal considerados. São representantes do povo americano, a que pertencem. E assumindo várias nacionalidades e culturas, vivendo entre as gentes, praticando a sua religião, outra, ou até nenhuma, as comunidades judias são testemunhas de um princípio fundador da nossa civilização: Deus, o Ser, o Nome, a Palavra, escolheu o ser humano para, no tempo histórico, ir fazendo do universo a Jerusalém Celeste.

 

   Aquilo a que hoje se chama «a Política» nada deve considerar nem resolver sem olhar para as pessoas, as populações, os povos, com suas vidas. Sem excluir ninguém, antes procurando sempre acolher os mais abandonados. Por isso, Princesa de mim, te deixo com mais uma citação de Vera Baboun, que talvez nos ajude a meditar (traduzo-te o epílogo de Pour l´Amour de Bethléem):

 

   Belém é o paraíso dos indesejados. Abrigamos o «Presépio», um lar que acolhe as crianças nascidas fora do casamento; e ainda outro abrigo, animado por freiras, que recebe mulheres espancadas ou violadas, vindas de toda a Palestina: um excelente hospital para crianças atrasadas mentais; outro, novo, para tratar dependências da droga... Porquê? Porque a piedade, a paz, o amor são o credo da Natividade. Foi sobre isto que nos construímos. Aqui estamos, cristãos de Belém, para lembrar ao resto do mundo o que aqui se passou. Belém não é apenas uma cidade, é um modo de ser, uma unção de paz que apenas pede para se espalhar pelo planeta. Mas, ai de nós, enquanto a nossa cidade, que foi o berço do Príncipe da Paz, estiver emuralhada, não reinará a paz. Nós somos o estandarte da paz, os seus guardiães e defensores. Não merecemos esta desgraça. Em Belém se encontra a gruta onde Nosso Senhor, pelo seu nascimento, mudou o calendário do mundo! A humanidade poderia dar-lhe bom ou mau uso, mas foi sinal de uma civilização nova, de uma nova leitura do nosso destino. Possa o mundo aperceber-se disso, antes de que seja tarde demais!

 

   Ninguém pode hoje provar e demonstrar que Jesus Cristo nasceu mesmo numa gruta ou em Belém. Mas tal não tira qualquer força à mensagem emitida, à vocação da paz. Tampouco sabemos tudo, ou nem sequer muito, da história de Jerusalém, que conheceu muitos e desvairados conquistadores e reinantes, vindos de perto e de longe, confessando fés diferentes (até as cruzadas lá impuseram um reino cristão). Mas, para além do conhecimento histórico, e ainda aquém de definitivas decisões políticas, pensemos em Rushalimin - Jerusalém, e desejemos, com a força das varas todas do nosso coração A Visão da Paz.

 

Camilo Maria  

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei por quê, tem-me dado, nestes dias de incerto inverno - diria mesmo que de aparições de sol zangado com a grisalha de um céu persistentemente ameaçador de desejada e abençoável chuva, mas tão teimosamente seco de lágrimas -, tem-me dado, dizia, para ouvir, cerrar os olhos e escutar, música tradicional japonesa, essa dita sô, dedilhada num koto, instrumento que veio para o Japão na segunda metade do século VI, então para prazer exclusivo da corte imperial de Nara. São treze cordas tensas sobre um tronco covo de paulónia, e dedilhadas num jeito mais seco, menos gemente do que as das guitarras portuguesas, menos ressonante também, pois que a caixa de madeira está deitada ao comprido no chão e a tocadora, de kimono vestido, sentada sobre os joelhos, à moda nipónica. Havendo canto, é também ela que lhe dá voz humana. Se me lembro bem, os portugueses, no século XVI, não lhe achavam grande graça, salvo raríssimas exceções. Eu gosto, não tenho habituação, mas a essa música recorro para introito a uma meditação: acalma-me e desperta-me um qualquer segredo de mim.

 

 

   Num dos meus tempos de Japão, creio já tê-lo contado, aconteceu-me ser convidado pela idosa e venerável aristocrata japoa, minha senhoria, para ir jantar a casa dela e partilhar a sua arte sô. A senhora já passara dos oitenta, mas não lhe falhavam os dedos nas cordas, nem a memória da música. A recordação de sons antigos, de ritmos e pausas ancestrais, enchiam-lhe a alma, convidavam-na a meditá-los com outros, e até o estrangeiro bárbaro que eu era se deixava mansamente entrar em comunhão...

 

   No isolamento campestre em que hoje vivo, tenho certamente de desafiar todos os dias um qualquer silêncio menos benfazejo. Mantenho, Princesa de mim, esse meu atavismo de escutar diariamente umas horas de música, de dialogar com os livros que me acompanham, mas sobretudo tenho aprendido a falar com o silêncio, percorrendo recordações que são rostos humanos, pessoas que me privilegiaram episódios passados. Não sei porquê, escrevo-te eu, Princesa, ao abrir esta carta, e repito de outro jeito: Não sei porquê, não são aparições, nem visões, são companhias, encontros lembrados, amizades fiéis.

 

E vendo cada uma dessas caras, dizendo cada um desses nomes, convivo íntima e reconhecidamente com todos, tanto com esses que talvez me telefonem ou escrevam hoje, amanhã ou depois, como quanto com todos aqueles que se diz que já morreram e eu sinto vivos no coração de Deus.

 

   Ó Princesa, Princesa de mim: este mistério de sermos em relação é levado da breca, não achas?

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Foi certamente em loja de aeroporto, na partida para um dos meus inúmeros voos intercontinentais, que adquiri An Intimate History of Humanity (Harper Perennial, New York, 1996), do oxfordiano (St. Anthony´s College) Theodore Zeldin, que a Livraria do Congresso dos EUA classificou na categoria de antropologia filosófica. Dei com esse livro agora, abundantemente anotado pelo meu lápis, ao arrumar a minha biblioteca. Abrindo-o distraidamente, caio no capítulo intitulado How new forms of love have been invented, e leio na página 75: Love is no longer what it was. There are two types of women in the world today of whom there were very few in the past: the educated and the divorced. E continua (traduzo): A toda a hora novas espécies de pessoas emergem, e dão nova direção às paixões. Pode parecer que continuam a acreditar em que o amor é misterioso, falando acerca de se enamorarem descontroladamente, como se o amor nunca mudasse. Todavia, no passado, muitas vezes separámos os diferentes elementos que compõem o amor e os recombinámos para que nos servissem à medida desejada, torcendo, acrescentando, suprimindo. Os humanos têm sido muito menos desamparados face à paixão do que a lenda reza. Foram capazes de lhe introduzir novos significados, vezes sem conta, tão surpreendentemente como transformaram cereais em pão, pastéis de massa tenra ou folhada.

 

   Repara, Princesa, em que o professor Zeldin começa esse capítulo pela lembrança daquela "revolução" ocorrida em 1990, em que adolescentes de Lyon, manifestando-se nas ruas da cidade, sob a liderança de Mandarine Martinon, de 16 anos, aluna de liceu provinda de um meio social proletário remediado, conseguiram obter do governo francês a bela soma de quatro mil e quinhentos milhões de francos, para a reabilitação das escolas, seu funcionamento e seus espaços. O "programa" de Mandarine é assim resumido pelo antropólogo britânico: pessoalmente, ela tem alguns ideais: igualdade é o que mais conta, democracia também, resistência à opressão estatal, embora mantendo o papel do estado na cultura e na televisão; é pela desmilitarização, mas sem abolir as forças armadas; quer ajudar os pobres; é a favor da inovação e da mudança, mas também receia a mudança e tem dúvidas sobre o desejo de mudança dos outros. Por isso, não tenta converter nem persuadir. A sua escola vai constituindo comissões para debater muito modestamente sobre como alterar o seu orçamento próprio e como atribuir a cada grupo os seus direitos; a sua única ambição é transformar a escola de fábrica de exames em ´lugar onde se viva´. A escola tornou-se na outra casa das crianças; aceitam-na como aceitam a sua própria casa; tudo o que querem é aproveitá-la ao máximo. Mandarine Radisson (Martinon) é hoje mencionada no sítio da rede Copains d´avant, entre muitos outros alunos do liceu Piierre Brossolette, de Villeurbanne, no período de 1989-92.

 

   Modestamente, quase incógnita, quiçá já casada, pois se chama Mandarine Radisson (Martinon). Na adolescência, logo desde os seus doze anitos, teve namorados, amizades, amor não. Nasceu em 6 de dezembro de 1973, filha de um maoísta de maio de 68, com quem sempre se deu bem, mais por feitios e cumplicidades, do que por acerto de horizontes de vida. O pai era o cozinheiro lá de casa, seria também mais anarco-divertido do que totalitarista. Esse convívio humano terá dado à filha, que se sentia insegura, aquela distância que uma certa humilde ironia nos oferece na observação do mundo. E ter-lhe-á também transmitido, do espírito revolucionário do jovem que o pai fora, mais o anseio de localização da justiça, e reivindicação dela, do que o desejo soturno de caça ao outro... Numa sociedade em que se apagavam luzes e outras se acendiam, incendiavam e perdiam como silenciosas estrelas cadentes ou focos de holofotes de barulhentos espetáculos, aquela miúda (hoje com 44 anos) debatia com os seus amigos: discutimos se a amizade é possível entre homens e mulheres. Decidimos que é, sim, mas que tal é difícil, porque os desejos do corpo complicam as relações... A isto comenta Zeldin que eles concluíram que "o sexo já não é a solução milagrosa, nem sequer um caminho para a amizade mas, pelo contrário, um problema que nela surge". Tal perceção varia entre rapazes e raparigas, e ainda mais entre elas do que entre eles: Mandarine entende que, ao abordarem com força o sexo, os rapazes estão a tentar disfarçar o poder que as raparigas têm sobre eles, estão a pretender ser fortes, a esconder as suas emoções. Reagindo, as moças separam-se entre as que procurarão vários parceiros, para fugirem a compromissos, e as que buscam um caminho a dois durante toda a juventude: sentimo-nos mais fortes quando somos dois, defende Mandarine. Esta divergência encontra-se claramente entre filhos de pais divorciados, explica Zeldin: ou tentam criar uma relação estável, ou simplesmente rejeitam a própria ideia de casal. Afinal, todos nós procuramos o amor e nos deparamos com amores, ou ainda, com mais ou menos luz, até às apalpadelas no escuro, nos confrontamos com o amor total, o amor fiel ou vário, qualquer amor ou amor nenhum. Neste sentido, pode dizer-se que o amor é simultaneamente a promessa mais alegre e mais triste que encontramos, fazemos e recebemos, na vida. No mundo hodierno, compreendo que se fale tanto e se aconselhe a educação sexual nas escolas. Mas lamento que se escamoteie uma satisfação da necessidade mais profundamente humana de sermos todos despertados para o bem estar no amor, que só o querer bem oferece. Talvez fosse esse o melhor caminho para chegar à raiz, e não nos gastarmos tanto a acudir a consequências que a falta de seiva espiritual vai tornando sucessivamente mais inevitáveis. O próprio testemunho desta adolescente francesa, criada em meio proletário, com pouca ou nenhuma "religião", nem moral burguesa, chama-me a atenção para o incontornável facto de o relacionamento sexual estar hoje visivelmente no cerne do desenvolvimento psicológico e afetivo dos jovens, já que a sua circunstância é a da liberdade dos convívios e contactos e de disponibilização de meios preventivos e contracetivos. E só desonestamente poderei negar que o abandono familiar e escolar a que tantas e tantas vezes são votados - por envolventes socioeconómicas e culturais - é fator poderoso da demanda de refúgio em carinhos e outras expressões de afeto humano, designadamente pelas pulsões correspondentes à sua própria idade biológica. Mas tal testemunho tampouco deixa de ser revelador de insatisfação vivencial e espiritual, de receio e dúvida, de sentida necessidade de entendimento das situações, das opções possíveis, de confiança na própria responsabilidade. Sabes bem, Princesa de mim, como sempre me desgostaram os moralistas ditadores, e vou rezando para que todos, e cada um de nós, possamos ter a fibra interior e a clarividência possível para decidir e proceder de modo a querer bem, sempre melhor e sem atrairmos males por vir. A educação, creio, é precisamente semear e cultivar a árvore de bons frutos que cada um de nós poderá ser. E que só será na medida em que compreender que a sua própria consciência é insubstituível.

 

   Fui, adolescente ainda, muito marcado pela leitura assídua de textos do cristianismo primitivo, anteriores ao período romano, iniciado com a conversão de Constantino, no primeiro quartel do século IV. E encontro, ao escrever-te esta, um trecho do livro Crainte et Tremblement - une histoire du péché, de François Euvé, professor na faculdade de teologia do Centre Sèvres (Seuil, Paris, 2010) que resume bem o meu pensarsentir: Recorde-se que nenhuma codificação vem, no começo, regular a prática cristã. O Evangelho não define precisamente qualquer doutrina, qualquer moral, alguma forma de culto litúrgico. Há apenas o modo de agir de Jesus, que os discípulos são convidados a seguir. Mas que significa exatamente "seguir"? A imagem inicialmente dominante é a de "via": são convidados a pôr-se a caminho. Esta condição itinerante deverá estar bem presente no nosso espírito, sempre que nos aproximarmos de outro, para lhe desejarmos que procure e siga a via do bem querer.

 

   Termino esta carta, Princesa, com citações traduzidas da Mandarine:

 

   Vêmo-lo nos filmes americanos, mas em casa não. Só o conhecemos pelos filmes.

   Não queremos que o amor seja tornado ordinário, banal. Devia ser algo pessoal. Não quero tornar públicos os pormenores da minha vida privada. Se formos forçados a falar da nossa vida privada, então isso tornar-se-á uma obrigação, e eles perderão qualquer interesse.

 

   Que o professor Theodore remata assim: Donde se pode ver que o amor é um dos últimos refúgios em que uma pessoa, ele ou ela, pode ser capaz de conseguir algo nobre, e receber a aprovação de outra pessoa: uma das poucas formas de êxito que se aguentará contra a autodesconfiança.

 

Camilo Maria      

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vão soando trumpetas estridentes, proclamando Jerusalém capital de Israel há já mais de três mil anos! Tanto, tanto, muito, muito tempo, meu Deus!, de cabeça de um estado que nem dois milénios durou... A falácia, com tão pouco rigor histórico como juridicamente irrelevante face ao direito internacional vigente, pretende justificar abusos do sionismo e servir populismos fáceis. Atropelando factos, entendimentos e, até, sentimentos religiosos e comunitários do próprio judaísmo. Imagina, Princesa, Portugal a reclamar Goa, por lá ter estado, efetivamente, como governo, durante meio milénio, ou pensa na balbúrdia gerada pelo pretenso estado islâmico, a reclamar a restauração de um califado... Tenho nas mãos, Princesa de mim, um livro notável do professor de sociologia da Universidade de Paris-X-Nanterre, Shmuel Trigano, fundador e diretor do Colégio de Estudos Judaicos da Aliança Israelita Universal: intitula-se Le Judaïsme et l´Esprit du Monde (Grasset, Paris, 2011), e trabalha o sentido histórico e contemporâneo do judaísmo na religião, na política e nos costumes, sem esquecer uma análise teológica da eleição de Israel e, depois, do seu desaparecimento da cena das nações: As duas entidades que se constituem no lugar vacante de Israel são dum género totalmente novo. Já não são locais (Cananeus, Filisteus, Samaritanos) mas «universais», eco devolvido da levitização de Israel, isto é, da sua extensão ao universo, à custa da sua unidade formal na terra. O cristianismo e o islão são uma Samaria à escala do universo. O reverso do povo no exílio é o império de Roma e de Meca, e esse duplo império levanta-se contra Israel à maneira dos Cananeus, quando Israel esquece a sua vocação e se afasta da aliança... 

 

   Esta obra de Shmuel Trigano divide-se em quatro livros de três partes cada um: Éthique (La séparation de la femme); Ethnos (L´Élection d´Israël); Ethos (Le cachement de l´âme); Ethnikos (Le reste d´Israël). A segunda parte do Livro II (Le Royaume d´Israël), inicia assim o seu primeiro capítulo (La Souveraineté): Porque é que o povo de Israel constitui uma realidade política? Poderíamos deduzi-la do facto de estar ali um povo, qualquer condição coletiva sendo naturalmente política na medida em que implica uma coerência organizada da massa humana e um sistema de relações regulando o poder.

 

   Ora, eis o que está precisamente em questão neste caso. Como regra geral, a Cidade política institui-se sobre a reunião de vários grupos humanos. Com Israel, a existência do povo precede a edificação da Cidade, como se o povo se bastasse a si mesmo e invertesse a ordem natural do político. Toda a dificuldade está em compreender que essa condição fundamental não está, por isso, fora do político, mesmo sendo meta-política. Este paradoxo ilustra o sentido duma expressão como «Reino dos Céus». A meta-política afixa-se no coração da política. O povo é maior do que o estado, mas não é o seu contrário. É o que verifica a história de um povo que sobreviveu a mais de vinte séculos sem estado, nem território, sem que por isso nele se tenha perdido o poder do Estado e da Terra. Poderíamos chegar a dizer que a fonte da soberania do estado está no povo que, ele próprio, surge do meta-político. Por soberania entendemos o que a língua hebraica designa por malkhout, compreendida como «reino» ou «realeza», tradução demasiado limitativa dum conceito muito mais lato. Em suma: a cidadania, o modo gerente da relação dos membros desse povo, precederia a Cidade, e transcendê-la-ia.

 

   Essa ideia de identidade (e identificação) meta-política transmitiu-se ao cristianismo e ao islamismo, muito embora ambos tenham padecido a tentação do império, isto é, de reunir num mesmo estado político, quer a cristandade, quer a "umma" dos muçulmanos, tal como vem sucedendo com a visão sionista do judaísmo. Mas não será o «Reino de Deus», afinal, e para cada uma das confissões monoteístas, algo diferente? Vamos por partes, começo com um trecho do inglês de Cambridge, Tom Holland (In the Shadow of the Sword: The Battle For Global Empire and the End of the Ancient World, Anchor Books, Random House, New York, 2012):

 

  Todavia, era nada menos do que aterradora realidade o facto de que ao longo da sua história o povo judeu nunca tinha sido confrontado com um perigo mais insidioso e opressor do que aquele a que os adoradores de Jesus o expunham. Insidioso, porque essa heresia tinha suficientes semelhanças com a sua própria fé, para exercer um fascínio terrível e secreto sobre muitos deles, inclusive alguns rabinos; e opressor, porque, ao que parecia, não havia uma única região do mundo a que não tivesse chegado... ...mas, acima de tudo, estendera-se para o ocidente, onde se estendia o «reino mais importante do mundo, o reino dos Romanos». Havia mais de um milénio, e mais do que nunca agora, que esse reino exercia o seu poder sobre Jerusalém e a Terra Prometida e, durante todo esse período, tinham sido infligidos muitos, muitos, sofrimentos ao povo judeu. Contudo, quinhentos anos depois do nascimento de Jesus, os Judeus tinham mais uma razão para temerem a força e o poder de Roma. Os Césares que, como outrora os reis da Babilónia, tinham edificado templos a uma multidão de demónios, tinham-se doravante empenhado em encerrar esses santuários para os substituir, por um culto quiçá ainda mais nefasto. A que é que o povo romano tinha decidido consagrar a sua devoção, se não ao mais ameaçador de todos os falsos ídolos? Chamavam-lhe Christos, que em grego significa «Messias».

 

   Sim, no palácio de César, agora, só se venerava Jesus. Os Judeus já não eram os únicos a acreditar-se povo eleito de um Deus único. Os Romanos também, esses senhores dum império ainda mais rico e intimidante que o dos Persas, tinham -se recentemente convertido à convicção de que Jesus reinava mesmo no Céu, para dele fazer o coração batente do seu império.

 

   Muitos acreditam que o cristianismo é um aperfeiçoamento, um passo em frente na revelação de Deus como Salvador universal. Outros mantêm que Jesus não é o Messias, porque este será o que vier cumprir a promessa da restauração de Israel como Reino de Deus, o regresso e a posse da Terra Prometida, o esplendor de Jerusalém. Nesse caso, esta Cidade de Deus não é a Jerusalém Celeste, meta-política, mas sim a Jerusalém política, a cidade capital de um reino prometido e finalmente entregue a um povo eleito. Já muitos exegetas e teólogos, judeus e cristãos, exumaram dos textos bíblicos duas leituras simultaneamente contraditórias e possíveis. Alguém, Princesa, já não recordo quem, até falou em Bíblia paradoxal. O certo é que, no Antigo Testamento, pistas de narrativas divergentes apontam, ora para um destino nacionalista e político, ora para uma mensagem libertadora da condição humana, carregada por um povo escolhido para a semear e fermentar. Socorrendo-me da Geschichte Palästinas: von der omanischen Eroberung bis zu Gründung des Staates Israel (Verlag C.H. Beck oHG, München 2002), bom livro da professora Gudrun Krämer da Freie Universität Berlin - que, aliás, tem uma edição revista e traduzida também pela autora na Princeton University Press (2008)  -, verifico como, ao longo de séculos, essa terra que chamamos Palestina não formou qualquer unidade geográfica ou politicamente independente: Como parcela do Crescente Fértil, que se estendia do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico, e dos Montes Tauro e Zagros, a norte, ao deserto da Arábia, a sul, a Palestina sempre foi terra de passagem. Daí a maior importância da toponímia corrente, já que os nomes dados a territórios, cidades e lugares, refletem a existência prévia de povos, com suas culturas e poder político. Ora, os nomes que o Ocidente foi retendo nas regiões que envolveu na designação genérica de "próximo" ou "médio" Oriente (que claramente indica uma perspetiva europeia), e designadamente na Palestina, foram evidentemente recolhidos da Bíblia, assim colocando os Judeus no centro, empurrando todos os outros grupos populacionais (mesmo se e quando constituíam a maioria) para as traseiras, e nem sempre os considerando sequer. Isto vale para tempos antigos ("bíblicos") e modernos. Claramente vale também para Cristãos Árabes, acerca dos quais sabemos muito menos do que sobre os habitantes Judeus daquela área, pelo menos no que toca à época moderna. Os Palestinos, quer Muçulmanos, quer Cristãos, têm lamentado a sua marginalização, seja na perceção pública, seja na investigação histórica. Mesmo assim, a achega "bíblica" prevalece, e é a mais poderosa historicamente. Não será tão cedo possível escaparmos-lhe. A reivindicação judaica da Palestina como a "Terra de Israel" (Eretz Yisrael) assenta ela própria em narrativas bíblicas e afirma a ininterrupta presença do povo Judeu nessa terra e o seu vínculo a ela. A reclamação Árabe, entretanto, põe em dúvida a ininterrupta presença de Judeus, e aponta raízes Árabes com mais de um milénio. Alguns referir-se-ão aos Cananeus, que se estabeleceram naquela terra antes dos Israelitas, como seus próprios antepassados.

 

   [Abro aqui um parêntese, Princesa de mim, para te assinalar que, de 26 de setembro até 14 de janeiro, está no Institut du Monde Arabe, em Paris, uma exposição sobre Chrétiens d´Orient - Deux Mille Ans d´Histoire, por ocasião da qual a revista Le Monde de la Bible (nº222, setembro-outubro-novembro de 2017) publica um interessantíssimo e ilustradíssimo dossiê acerca da história, da cultura e da fé dos cristãos árabes]

 

   Ao escrever-te esta carta, não pretendo meter-me no barulho de discussões estéreis, porque infelizmente motivadas por populismos, interesses inconfessáveis, preconceitos religiosos, culturais e históricos, e conduzidas por gente condizente e, muitas vezes, ignorante, charlatã ou exibicionista. O passado foi e deixou o que a História vai descobrindo, sobretudo na medida em que procurarmos entender povos e personagens, anseios e contradições, afrontamentos e proximidades. Por mim, prefiro mesmo ir buscando razões e exemplos de entendimento e de paz, lugares para todos à volta da mesa comum. Assim, venho recordar-te uma carta antiga, em que te falava do livro de Vincent Lemire, Jérusalem 1900 - La ville sainte à l´âge des possibles (Armand Colin, Paris, 2013). Começo por te traduzir um passo de Identité narrative et communauté historique, de Paul Ricoeur, filósofo francês, mestre do atual presidente Macron, que Lemire, para abrir o livro, foi buscar a Cahier de politique autrement [que bela designação, quelle trouvaille!], de 1994: Quando a história se esforça por reconstruir, reconstituir o que no passado foi o modo de viver, de perceber o mundo, de viver as relações com os outros, é preciso ter em conta o seguinte: os homens do passado tinham um futuro a que podemos chamar o futuro do passado, que faz parte do nosso, nosso passado. Ora grande parte do futuro do passado não se realizou. As gentes de outrora tiveram sonhos, desejos, utopias, que constituem uma reserva de sentido não realizado. Um aspeto importante da releitura e da revisão das tradições transmitidas consistirá portanto no discernimento das promessas não cumpridas do passado. Com efeito, o passado não é apenas o resolvido, o que aconteceu e já não pode ser mudado (pobríssima definição do passado), mas permanece vivo na memória, graças, diria eu, às flechas do futuro que não foram disparadas ou cuja trajetória foi interrompida. Nesse sentido, o futuro incumprido do passado talvez constitua a parte mais rica de uma tradição...

 

   Eis como Vincent Lemaire inicia o primeiro capítulo, 1900, l´âge des possibles: Para partir à descoberta de uma cidade desconhecida, é preciso aceitar viajar com pouco peso. Impõe-se afastar ideias preconcebidas e imagens convencionais, para nos apercebermos de outra realidade. Para partir à descoberta de «Jerusalém 1900», a bagagem mínima cabe em poucas linhas. No final do século XIX, Jerusalém é parte do Império Otomano. Desde 1872, ela é capital administrativa de um distrito chamado «Kudüs-i-Sherîf» ou «Filastîn» nos arquivos imperiais. Alberga 20.000 habitantes em 1870, 70.000 na véspera da Primeira Guerra Mundial. A cidade intramuros mede apenas um quilómetro quadrado, empoleira-se a 750 metros de altitude, no cimo da dorsal palestina que percorre a região de norte a sul. Os primeiros consulados europeus abrem nos anos 1840, e as peregrinações ocidentais ganham considerável importância a partir de 1880. Na verdade, Jerusalém é o berço comum dos três monoteísmos, e abriga lugares santos essenciais para fiéis do mundo inteiro. Os seus habitantes são judeus, cristãos e muçulmanos, mas também comerciantes, professores, engenheiros ou pedreiros. O movimento sionista é oficialmente fundado em 1897, em Basileia, e a imigração judia amplifica-se na viragem do século. No fim do século XIX, a cidade moderniza-se e dota-se de instituições municipais autónomas. Eis, para a «Cidade Santa», a idade dos possíveis, momento hoje tão esquecido, sepultado sob ruínas de guerras e a barulheira de guerras ideológicas.

 

   Falo-te mais desse período naquela carta antiga. Pensossinto, como então, que, em vez de ser tão estulta e infundadamente reclamada como sede de qualquer poder político exclusivo, Jerusalém deve ser cidade e símbolo de reconciliação e encontro.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   O jornal Público de 26 de dezembro de 2017 apresenta aos seus leitores o filósofo e informático italiano Luciani Floridi, cuja residência atual é a muito britânica universidade de Oxford, onde é professor de filosofia e diretor do laboratório de ética digital, ainda que a sua alma mater tivesse sido, primeiro, Roma, onde se licenciou em filosofia, e Warwick, onde se doutorou na mesma área. Mas, finalmente, foi já num pós doutoramento em Oxford que ele enveredou pela lógica, a informática e o digital... Só o título da sua última obra, recentemente publicada pela Oxford University Press, diz muito sobre a ocupação e investigação do seu espírito: The Fourth Revolution - How the Infosphere is Reshaping Human Reality. Ouso dizer-te, Princesa de mim, que é obra para trabalharmos -  lendo e refletindo - como que numa perspectiva de paradoxal história do futuro, ao lado de outras, de que já te falei, como A Estranha Ordem das Coisas do António Damásio, ou Homo Deus de Yuval Noah Harari.  Mas deixo-te lê-las primeiro, para conversarmos mais tarde. E a essa conversa trarei também essas novas investigações sobre a espiritualidade, o religioso, e as inerentes experiências pessoais, que vão sendo "cientificadas" sob a designação genérica de Neuroteologia ou, ainda, Biologia da Crença. Por hoje, regresso a meditações inspiradas por declarações de Luciano Floridi, na entrevista que, para o Público, concedeu a Diogo Queiroz de Andrade. E começo por transcrever textos das respostas dadas, precedidos, aliás, pela reprodução das perguntas pertinentes:

 

   Estamos num processo em que a religião das novas gerações poderá ser a tecnologia. Yuval Noah Harari defende, no Homo Deus, que pode ocorrer um movimento religioso face à tecnologia, tornando como inevitável uma fé dominante nela... Isso não o preocupa?  - Não há propriamente um problema quanto a uma tecno-igreja. Mas seria uma oportunidade perdida, creio. Se não percebermos quão extraordinários e simultaneamente limitados nós somos, estamos a desperdiçar o nosso capital de análise. Noutro contexto, gosto de me referir à humanidade como um erro lindo: e podemos olhar para a beleza do erro ou para a dimensão errada da beleza. Somos ao mesmo tempo capazes das coisas mais horríveis e das mais belas, o Holocausto e a mão de David na Capela Sistina foram feitos pela mesma espécie... Parece-me, nesse sentido, que é altamente limitador resignarmo-nos a almejar aquilo que somos e temos, eu gosto de acreditar que o Universo contém mais do que isso. O maior problema dessa tecno-fé ou tecno-religião é que coloca um limite na esperança, que é uma forma de a matar. Tem tudo que ver com a perspetiva: se eu for um passarinho numa gaiola enorme, eu posso não perceber que a jaula está lá - mas não é por não ter a perceção da jaula que ela deixa de existir. Acredito que essa perceção da esperança é um empobrecimento da humanidade. E há outro problema: essa forma de pensar é também frustrante em termos de ambições. Algumas das maiores realizações da humanidade ocorreram porque tivemos sempre esperança em algo mais e nunca nos contentámos com o que existia. O consumismo trata sempre de reduzir o espectro da esperança ao objeto ou produto que está em frente aos nossos olhos. Se é comparável, então está no limite da esperança - se não é comparável, então não tem valor. Assim, o que é economicamente adquirível é o que deve estar dentro do meu limite de esperança e nada mais - acho que é uma tristeza pensar assim. Outra expressão desse pensamento é a afirmação de que toda a política é económica. Não é! Há tantas coisas mais: as finanças de um país são um meio para um fim, não são um objetivo em si mesmas...

 

   A sua conclusão sugere que a humanidade deve caminhar para uma teologia da esperança, certo? - Ter esperança implica acreditar em algo que não podemos provar nem testar. Implica um salto de fé, implica simplesmente acreditar sem ter demonstrações que ajudem nessa crença. Seria bom poder injetar alguma dose de racionalismo nessa interação que fazemos com a ideia de algo transcendente. Nesse sentido, a minha proposta é a de que não se abdique da racionalidade, antes pelo contrário, se use mais racionalidade e se faça mais reflexão. Em primeiro lugar, ter esperança de que Deus exista é muito diferente de acreditar em que ele existe. Aliás, se eu acreditar, quero ter a certeza daquilo em que estou a acreditar. Mas não preciso de chegar aí; preciso só de aceitar a hipótese de que existe um valor transcendente no Universo - algo mais do que aquilo que é fisicamente palpável. Isto tem muito mais que ver com esperança do que com crença. E é aqui que a esperança se torna uma suspensão da crença. Eu não posso acreditar e decidir sim ou não pela existência do divino, porque não tenho provas para o fazer. O que eu posso é desejar que sim, que exista, até porque o mundo faria muito mais sentido. E seria muito bom para a sociedade, porque nos permitiria ser ainda mais ambiciosos nos nossos objetivos - indo muito para além da sociedade consumista em que estamos...

 

   E é por isso, por essa superação do ser humano, que um homem que não acredita em Deus se preocupa com a existência desse mesmo Deus?  - Sim. Mas note que não é uma preocupação. Eu não acredito em Deus - eu espero é que ele exista.

 

   Antes do mais, ocorre-me essa espécie de ameaça à liberdade - e dignidade - do ser humano que tem vindo a ser e a tornar-se, mais ainda, o consumerismo. Recordo as crianças, adolescentes e jovens -  hoje patologicamente amarrados por redes eletrónicas várias - que a "economia" consumista e a desresponsabilização de famílias e escolas lhes propõem ou oferecem como sucedâneas do carinho e conforto humanos que deveriam ser-lhes próximos. [A Maria Benedita Monteiro, como já te reportei, psicóloga agnóstica de alma evangélica (essa que não descansa a procura da boa nova), pedia-nos que pensássemos em como ajudar as gerações vindouras a construir o futuro melhor...] É certo que, em tempos passados, noutras circunstâncias sócio económicas, culturais e mentais - para não falarmos das tentações totalitárias de poderes políticos, sinagogas, igrejas, etc. - a religião poderia ser apontada como "ópio do povo". E, de certo modo, foi ou tentou ser: no caso da Igreja Católica, que é a "minha", sobram exemplos dessa fraqueza (ou pecado, chama-lhe o papa Francisco, a pedir perdão), mas também nunca faltaram os testemunhos evangélicos de pastores, missionários, padres operários, teólogos e leigos, até excomungados, que se mantiveram firmes - enfrentando, sem romper a comunhão cristã, a sua própria "hierarquia" - testemunhos vivos, apesar das ameaças e execuções, de que a sua fé não era servidão mas um passo no caminho da libertação dos homens. Passo adiante, quis apenas recordar-me contigo de que houve mal e bem, mas talvez sejam hoje outros os mais letais "ópios do povo"...  A julgar pelos alarmes lançados pela OMS, médicos e psicólogos, pelo mundo fora, os ópios dos povos, hoje, parecem ser tão preocupantes nas sociedades liberais capitalistas como nas estatais capitalistas (China). Pensa, por exemplo, nos jogos vídeo e no número crescente de dependentes que eles vão gerando, alheando-os da realidade do mundo e das pessoas, remetendo-os, até, a estranhas formas de solidão e autismo.

 

   No nº1 do Nouveau Magazine Littéraire - que se apresenta com o significativo título de "uma viagem ao coração das novas utopias" - Michel Onfray, ateu militante de quem já várias vezes te falei, escreve um longo artigo intitulado La Boétie, le véritable insoumis. Para marcar bem, e bem a seu (dele Onfray) gosto, a provocação, começa assim (traduzo): "Sede resolutos a não mais servir, e eis-vos livres". O jovem autor do "Discours de la servitude volontaire", grande amigo de Montaigne, transmitiu o modo de emprego: para não mais padecer o poder do tirano, basta não lho dar mais! Este pensamento radical prefigura uma esquerda libertária. Exemplar para os movimentos anarquistas que se seguirão, ela quer crer que o cidadão, por força de vontade, poderá libertar-se da submissão à qual ele próprio está obrigado... Não vou repetir-te os exemplos de rebelião intelectual que Michel Onfray respiga do passado, noto apenas que se esquece de S. Tomás de Aquino que, já no século XIII, e sempre em demanda da tal racionalidade de que Floridi acima fala, justificava teologicamente o direito de revolta contra os tiranos... Mas traduzo um trecho que me veio a talho de fouce, sob o subtítulo que Onfray lhe dá, Une Ébauche du Consumérisme:

 

   Não haja dúvida de que hoje La Boétie acrescentaria [aos gladiadores e jogos circenses] o circo mediático e a tirania dos ecrãs, a ditadura da televisão com os canais de informação em contínuo ou os serões ditos de divertimento, a proliferação do cinema como arte de fabricar o inverosímil com o que é falso, a das séries televisivas que fazem a mesma coisa mas pior, o turismo de massa e o lazer generalizado, as festas obrigatórias e os campeonatos mundiais de futebol, ou os jogos olímpicos e outras maneiras de manter o respeitinho no povo através do divertimento - no sentido pascaliano da palavra...  ...É evidente que temos de ver aí o esboço do que se tornará, no século XXI, a sociedade de consumo com tudo o que lisonjeia o egotismo e o narcisismo...

 

   Vai longa a carta, de São Tomás recordo sempre, muitas vezes, esse princípio do raciocínio que é a necessidade de saber diferenciar para poder entender: em plena Idade Média, afirma-se um espírito analítico, curioso. E também lembro que, ainda muito novo, o depois chamado Doutor Angélico, frequentemente perguntava o que é, quem é Deus. E, muitos anos depois, no termo de uma obra monumental, ao longo da qual foi procurando a razão intelectual do Deus que a sua fé nele animava, dessa suma do saber filosófico e teológico, que tanto trabalho lhe dera e tantas provações custara, apenas soube dizer que tudo aquilo era palha... Retomo aqui um comentário do grande teólogo dominicano holandês, professor na Universidade de Nimega, como também noutras, entre as quais Berkeley, a passos da Summa Theologiae (I, q.1 e II-II, q.1) de Tomás de Aquino (1225-1274):

 

   Tomás pergunta se o ato dos crentes se refere apenas ao próprio Deus, ou se a fórmula da fé, como por exemplo um dogma, também faz parte do objeto da fé. Esta questão é sugerida pela tradição cristã da "teologia negativa", que se funda no carácter inexprimível da realidade de Deus. Não temos nenhum conceito adequado para falar de Deus, a nossa linguagem é e permanece limitada, uma linguagem terrestre para coisas terrestres. Deus é o inexprimível: nós não sabemos o que é Deus em si mesmo; dele captamos apenas um esplendor fraco através do mundo criado e no decurso da nossa história no mundo, história feita de acontecimentos felizes e de tragédias. Não é só o Deus incognoscível, mas também as expressões ou os dogmas sobre Deus que pertencem, à sua maneira ao objeto da fé. Isso não implica porém, de modo nenhum, que devam ser tratados em pé de igualdade. A auto revelação de Deus é dada em experiências humanas interpretadas. Nunca temos acesso à "Palavra de Deus" de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa. É por isso que, no uso litúrgico, utilizo o menos possível a conclusão solene "Palavra do Senhor", precisamente porque Deus nunca fala assim. São crentes que falam. Poucos exegetas, ou talvez nem um, poderão hoje garantir e provar que foram efetivamente pronunciadas por Jesus, por exemplo, as palavras que as narrativas evangélicas lhe atribuem. Afinal, elas foram registadas por escrito décadas depois da vida de Cristo, são memórias que tradições orais foram comunicando. Pelo que, todavia, não deixam de ser testemunhos de fé. A minha fé é a certeza de uma presença descoberta, o Tudo em todos, presença tão imensa que - tal como Tomás de Aquino, teólogo e santo, coisas que eu não sou - não tenho, na minha limitação, capacidade alguma de a definir e codificar. 

 

   Talvez pela mesma razão - essa presença sentida do mistério de Deus em mim - eu me sinta tantas vezes mais próximo daqueles que andam atrás dela, tanto mais quanto, como permanente desafio, esse mistério é uma esperança aberta, do que de muitos crentes que pretendem encerrar a imensidão de Deus em "revelações", preceitos, ditos, códigos e rituais, cujas raízes históricas e culturais vão sendo cada vez mais abundantemente identificáveis. Para não falar nos exercícios espirituais que garantidamente lhes conquistarão a celeste eternidade... Não nego, não discuto, não censuro outras experiências subjetivas, digo apenas que essas todas, como as minhas, são ainda só representações que devemos respeitar. 

 

   Neste final 2017, escrevendo-te a minha última carta deste ano, volto a recordar a intuição metafísica de Espinosa desse empenho inato de qualquer ser em perseverar sendo, que levou António Damásio a pensar como "o organismo vivo está construído de forma a manter a coerência das suas estruturas e funções contra inúmeras imprevistas ameaças à vida". O mesmo neurologista português que, quase uma década antes do seu Looking for Spinoza, já escrevera em Descartes´Error: Emotion, Reason and the Human Brain (Grosset/Putnam, New York, 1994): ...nem angústia nem exaltação pelo facto de que o amor ou a arte possam ser desvalorizados pelo entendimento das miríades de processos biológicos que os tornem possíveis. É precisamente do oposto que se trata. O nosso sentido do maravilhoso devia aumentar e extasiar-se perante os mecanismos complicados que tornam tal magia possível. Sou assim levado a dar a volta e fechar o cinto que abri falando-te, Princesa de mim, de Luciani Floridi, recorrendo agora a Joaquim Fernandes, diretor do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa, no Porto (em Deus no século XXI e o futuro do cristianismo, obra coletiva, donde também extraí o trecho de frei Eduardo Schillebeeckx que te transcrevi, publicada, sob coordenação do padre Anselmo Borges, por Campo das Letras, Porto, 2007). Define ele assim a "neuroteologia": De uma maneira simplista, podemos dizer que o objeto da Neuroteologia é cartografar quais as regiões do cérebro maioritariamente associadas aos estados visionários ou extraordinários da consciência e que especificamente se associam às mudanças de perceção do mundo interior e exterior. Estudos recentes identificam com alguma segurança os circuitos neuronais afetados à oração e meditação, às práticas rituais ou à música sacra. Vemos, assim, a emergência de uma sinergia entre a natureza biológica do ser humano e a teologia, que possibilita a indução intencional de experiências místicas e consequente avaliação científica, e abre, fatalmente, campo a novas questões sobre a natureza intrínseca da nossa consciência e o papel da espiritualidade na nossa adaptação e evolução enquanto espécie. Nesse sentido, é possível que a teoria da informação tenha aqui uma palavra a dizer, não sendo ousado prever que um eventual descerrar dos véus que obnubilam o nosso religare com a realidade numenal, venha a revolucionar por completo o nosso modo de entender o universo e o nosso lugar no cosmos.

 

   Nasci e cresci numa cultura em que, ao falar-se de revelação religiosa, ou divina, se carregava no acento tónico da objetividade de mensagens celestes transmitidas por intermediários veneráveis. Apresentavam-se erga omnes, em praticamente todas as religiões e escolas mágicas ou místicas de contacto com o invisível. Nos monoteísmos abraâmicos, a palavra de Deus e os ditos dos profetas eram tendencialmente tomados à letra, com pouca ou nenhuma leitura crítica (como hoje já largamente se faz sobretudo nas igrejas cristãs e várias escolas judaicas, menos ainda, mas surgindo, em escolas islâmicas), ignorando, desprezando ou combatendo os exercícios de distinção entre a mensagem e os seus invólucros sociais, históricos e culturais. Mas também sempre, mais ou menos inesperadamente, se ergueu esse impulso da interrogação do mistério, do mundo, da vida, do humano, para muitos logo identificado como demanda de Deus, para outros como aplicação da racionalidade. Hoje em dia, curiosamente, a nossa inquiridora peregrinação abre-se sobre encruzilhadas do sentimento religioso da intuição metafísica e da investigação científica, em todos os domínios. Talvez aí surja um caminho comum, já que, afinal, parece que biologicamente fomos programados para o mesmo. Por enquanto, esse mesmo é ainda perguntarmo-nos qual será o futuro do humano.

 

  Já muitas, muitas, vezes te repeti, parafraseando S. Paulo, que a substância da fé são as coisas que hão de vir: Ora a fé é a garantia das coisas que esperamos, a prova das realidades que não vemos (Hebreus, 11, 1).  Nesse sentido, e parafraseando Santa Teresinha (da minha Avó Teresa, como gosto de a lembrar) e Georges Bernanos, posso dizer que, se tudo é graça, a fé é a graça maior, enquanto dom que nos incita ao amor. Este é o grande mandamento, que nos é dado a título de vocação para o repetirmos. E não deixarmos ninguém lá fora.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Recordo que, em carta recente (?), te escrevia: «Insisto, Princesa de mim, perdoa-me por isso, nessa minha experiência espiritual da mágoa. A tal que nos vem desde o berço, sim, porque Deus nos quis livres, e a ternura é difícil». Adiante te direi mais desse labirinto interior, onde intimamente em mim nem todas as mágoas encontram saídas. Mas, antes disso, deixa-me lembrar-te ainda de que muitas vezes te repeti a minha perplexidade - posso mesmo afirmar que se trata de repugnância - perante esse mito da expulsão do Paraíso, pena e cumprimento de um castigo tremendamente injusto (porque será sequer desobediência querer conhecer o bem e o mal?), sobretudo por ser original e transmissível de culpa a gerações sucessivas. A menos que se trate, como te escrevia, de uma «parábola do nosso lançamento à liberdade própria»... Ou, se preferires, uma exigência de inteligência nossa, enquanto resposta ao desfio do mistério. E eu contrapunha à narrativa do Génese, trechos da primeira epístola de São João... Já depois de te ter enviado a carta, li no Figaro Littéraire uma entrevista à romancista francesa Sylvie Germain, em que esta afirma (traduzo): Sinto-me como agnóstica cristã, por falta de certeza. Todavia, regresso sempre ao texto inesgotável dos Evangelhos, e sinto-me interrogada, com atenção retida, pela proposta de sentido que eles oferecem. O que me atrai num pensamento é a libertação que ele traz, o espaço interior que nos abre, o crescimento de vida que suscita. Eis o que encontro especialmente e subtilmente desenvolvido nos Evangelhos. Jesus remete incessantemente aqueles que encontra à sua liberdade, é por isso que a sua mensagem mexe com a gente - coisa que lhe censura o velho Inquisidor de Dostoievski - porque nos obriga a pensar pela própria cabeça. Uma religião muito codificada, com um corpo de regras estritas, é, de certo modo, mais confortável, alivia-nos do tormento das dúvidas e das decisões a tomar. Jesus nada impõe, convida-nos a segui-lo, sem balizar o caminho.

 

   A referência a Dostoievski é tirada de Os Irmãos Karamazov, a um trecho, que também já em carta antiga te transcrevi, dum capítulo que Sigmund Freud considerou ponto altíssimo de toda a literatura mundial. A mim - mesmo correndo o risco de novamente me apontares excesso de misticismo - estas reflexões levam-me sempre ao cerne da minha respiração espiritual, a esse drama íntimo, sempre magoado de dor e, todavia, a estoirar de ignorada alegria, esperando vir a ver tudo sobretudo quando mais cego estou. Não te falo de êxtases, antes quero contar-te o meu pensarsentir as mágoas de todos os dias... Aliás, lembrei-me hoje novamente do trecho de Os irmãos Karamazov que te citei na última carta, ao ler aquele passo do Evangelho de Lucas que diz: Quando os fariseus lhe perguntaram quando viria o Reino de Deus, respondeu-lhes: «A vinda do Reino de Deus não se deixa observar, "nem ninguém dirá "Ei-lo, está aqui!", nem tampouco "Está ali!", porque o Reino de Deus está no meio de vós». É a construção da reconciliação universal.

 

   Eis a ideia simples que tenho vindo a considerar. Se nos ferimos e sentimos dor, seja qual for a causa do ferimento ou o perfil da dor, temos a possibilidade de remediar o problema. A variedade de situações que podem causar sofrimento humano inclui não só as lesões físicas, mas também o tipo de dor que resulta da perda de um ente querido ou de uma humilhação. Assim diz António Damásio, a dado passo do seu último livro, A Estranha Ordem das Coisas - a vida, os sentimentos e as culturas humanas (Lisboa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, novembro de 2017), título que me parece mais significativo no seu original inglês The Strange Order of Things - Life, Feeling and the Making of Cultures, talvez por "feeling" ser singular... Quero com isto dizer que, mais do que termos estes ou aqueloutros sentimentos, nós vamos sentindo. E, até no que vamos sentindo, podemos ser privilegiados. Quanta tanta gente, minha Princesa de mim, apenas pode sofrer o sentir do que lhe é imposto... Mas teremos nós de viver a condição humana, sem que sequer nos seja aberta a possibilidade de tentarmos saber porquê? Saltando uns passos, volto ao livro de António Damásio - que aqui aproveito, mas cuja leitura em sua original integridade, vivamente te recomendo:

 

   Assim sendo, a ideia simples é que as sensações de dor e de prazer, desde os diversos níveis de bem estar ao desconforto e à doença, foram os catalisadores dos processos de interrogação, de compreensão, e de solução de problemas que melhor distinguem as mentes humanas das mentes de outras espécies. Quando se interrogaram, compreenderam e solucionaram problemas, os seres humanos terão conseguido desenvolver soluções interessantes para as situações complexas das suas vidas e elaborado os meios para promoverem o seu desenvolvimento. Terão aperfeiçoado formas de se alimentarem, vestirem, abrigarem e cuidarem das suas feridas físicas, procedendo assim à invenção do que viria a ser a medicina. Quando a dor e o sofrimento eram causados por outros - por aquilo que sentiam pelos outros; pela forma como entendiam o que os outros sentiam por eles - ou quando a dor era causada pela avaliação das suas próprias condições ao confrontar, por exemplo, a inevitabilidade da morte, os seres humanos terão usado os seus recursos individuais e coletivos, cada vez mais vastos, e inventado uma variedade de respostas, desde as prescrições morais e os princípios de justiça aos modos de organização social e governação, às manifestações artísticas e crenças religiosas.

 

   Quem for capaz de limpar o seu olhar de forma a poder simplesmente contemplar o mundo, este universo que nos rodeia e em que necessariamente nos encontramos e deveríamos encontrarmo-nos, saberá perceber, sem comer do fruto proibido, maçã, romã, figo ou hardcore, que todas as propostas de eterna juventude, fatal beleza física (?) e "cool atraction",  de garantida riqueza material, de ótimos lugares celestes comprados por indulgências (sendo este um produto em manifesta perda de quota de mercado e valor bolsista) valem hoje tanto como pretensos títulos vários e prerrogativas, isto é, como Jesus ensinava e ainda hoje ensina : zero. Limpas as peneiras, o sol ilumina a nossa interrogação fundamental: como é que, ao confrontar, por exemplo, a inevitabilidade da morte, os seres humanos...inventaram uma variedade e respostas desde as prescrições morais e jurídicas às artes e às crenças religiosas?

 

   Numa entrevista, muito bem conduzida por Filipa Melo, à revista LER, Frederico Lourenço, a dado passo, afirma: O Antigo Testamento dá-nos respostas completamente antagónicas, relativamente a uma pergunta fundamental: o que temos de fazer para agradar a Deus? Os profetas eram homens que consideravam os sacrifícios em honra de Deus completamente inúteis. [Lembro-te de que essa conversa vinha por ocasião da recente publicação da tradução, pelo F. Lourenço, dos livros proféticos da Bíblia, diretamente da versão grega conhecida por Septuaginta]. Entendiam que não é isso que Deus quer dos seres humanos. Ao passo que, por exemplo, nos textos mais dogmáticos do Pentateuco (Levítico ou Deuteronómio sobretudo) está muito claro que aquilo que Deus quer de nós é que lhe prestemos sacrifícios e que estes só podem ser realizados no Templo de Jerusalém. Não podemos fechar os olhos a estas diferentes questões, abordagens e diferentes formas de entender Deus. A meu ver, põe o tradutor - que se esforça por nos trazer os textos que verte para português tanto quanto possível bem dentro da respetiva circunstância histórica e linguística - a questão no seu sítio. De certo modo, ele fica bem próximo da intuição íntima de Silvye Germain quando ela diz o que me atrai num pensamento é a libertação que ele traz, o espaço interior que nos abre, o crescimento de vida que suscita. E ambos se encontram, afinal, nesse esforço coletivo e vital dos seres humanos para, como disse António Damásio, encontrarem respostas. Pessoalmente, fui buscando abrir caminho pelo sentimento da mágoa, e da mágoa sentida como comunhão.

 

   O que me magoa não é apenas ofensa, insulto ou agressão recebida, é igualmente toda e qualquer que, com maior ou nenhuma intenção, eu tenha infligido. A mágoa, Princesa de mim, nunca é só minha nem só tua, tampouco a alguém exclusivamente dói. É-nos comum, sempre todos nos magoamos - assim a pensossinto como recusa de regresso à culpa inútil, à escusada violência, à primitiva desumana condição... Os profetas antigos e Jesus Cristo anunciaram que o agrado de Deus não é o sacrifício, mas a misericórdia. E esta não é "ter pena de", é querer bem, socorrer quem nos ofende como quem ofendemos, sofrer a mágoa como vocação à liberdade para o bem comum. 

 

   Chegou-me há pouco, pelo correio, o Jesus - L´Encyclopédie (Albin Michel, Paris, 2017) e corro a ler o texto que Joseph Doré, o diretor da obra, pediu a Sylvie Germain, de quem te falava acima. Traduzo-te apenas o trecho final:

 

   Tudo está cumprido - a missão divina, a aventura humana, a secreta e sublime revolução da salvação tecida pelo Verbo nos corações e nos espíritos que dela ainda não ganharam consciência. Que aqueles que têm um ouvido interior escutem o inaudito apelo neles lançado por essa revolução.

 

 

   Tudo está consumado - o sofrimento, a agonia, o pavor perante os abismos de desconhecido que por toda a parte se vão abrindo. Os zero dilatam-se, rasgam-se. O órfão de seus irmãos humanos e de seu divino Pai entrega o seu espírito nas mãos desse mesmo Pai, por amor de uns e do Outro. A morte agarra o Vivo.

 

   Retorno. Tudo pode começar - o insuspeito, o inesperado. O Vivo agarra a morte, ceifa-a, arruína-a. Todos os zeros explodem, mudam-se em infinito, em movimento, em energia nova. O espírito do Filho do homem depositado nas mãos do Deus ausente vai buscar a esse poço vazio a luz na sua fonte, a vida na sua eternidade, e põe a nu o esplendor do desnudamento de Deus. Esplendor de um mistério desvendado enquanto mistério, para sempre assim e sempre irradiando a humanidade de espanto e de interrogações, de carência e de desejo.

 

   De mágoa, digo-te eu, prenhe da esperança da alegria.

 

   E recordo Mestre Eckhart, de quem tanto te falei já. Mas, nesta pilha de correio que uma carrinha trouxe até este apagado destino, acho também Le Figaro de ontem, 5ª feira, 23 de novembro. Na página dedicada às ideias, encontro um artigo de Charles Jaigu, resenha da versão francesa (L´Ordre Étrange des Choses) do tal último livro de António Damásio. Respigo logo uma legenda a uma fotografia do cientista português que, com o inevitável chauvinismo gaulês [no Monde des Livres, ele até é apelidado de le neurologue américain...], se escreve: «Les sentiments tiennent l´esprit informé du corps, ils sont les adjoints du "dur désir de durer" - António Damásio, citant Paul Éluard»... Do poeta francês, Princesa, é só o verso "duro desejo de durar", que o texto do artigo informa ter estado afixado por Damásio na sua banca de estudante... Tal não prejudica, todavia, a resenha feita, que, aliás, refere que o autor português exigiu que todas as traduções retomassem esse belo título : A Estranha Ordem das Coisas.  E diz porquê: Porque se trata de mostrar como, na verdade, é muito estranho o curso da vida que, desde o primeiro começo, reitera obstinadamente a mesma estratégia de evitar a dor e sobreviver a qualquer preço. Damásio dá a essa coisa estranha um nome que os estudantes de medicina conhecem bem: homeostasia, ou como os seres vivos perseveram no seu ser o mais tempo possível. Esse fenómeno químico começa com o aparecimento das primeiras bactérias, há quatro mil milhões de anos. Desde logo reagem a sinais positivos ou negativos. Damásio batiza essas condutas de atração ou de repulsão, «emotividade» primitiva das células. Desses primeiros tijolos decorrerão os sistemas nervosos, e depois, nos animais e nos homens, a capacidade de cartografar o mundo, de o representar de maneira reflexiva graças à produção de imagens neuronais. Ao jeito dos filósofos vitalistas, este livro medita sobre as estratégias de regulação da vida, que se aguenta mesmo quando uma catástrofe exógena, meteorito ou glaciar, elimina 95% dos seres à superfície da terra. Afinal, talvez reencontremos, pela senda de outra disciplina científica, o mesmo impulso de cosmogénese que Teilhard de Chardin defendia. Se não fui o primeiro, terei sido certamente dos primeiros tradutores de Teilhard para português, há mais de meio século. Tal como verti, na nossa língua, obras várias sobre o autor de La Place de l´Homme dans la Nature. E para sempre guardei essa crença numa "lei" da complexidade crescente, e no advento da noosfera. A perspetiva biológica do pensarsentindo humano que António Damásio explora e investiga não tem de se pronunciar sobre a vida post mortem, apenas analisa essa espantosa realidade que é a perseverança do ser, que arranca com as mais primitivas e simples formas de vida até à formação de culturas e religiões. Lembro o que ele escreve a páginas 241 da 1ª edição portuguesa, pelo Círculo de Leitores - Temas e Debates (2017) da obra citada:

 

   No seu começo a medicina não estava preparada para lidar com os traumas da alma humana. No entanto, podemos bem dizer que as crenças religiosas, os sistemas morais e a justiça, e a governação política visavam, em grande medida, esses mesmos traumas e tinham como objetivo a sua recuperação. Concebo o desenvolvimento das crenças religiosas como estreitamente relacionado com a mágoa provocada por toda a espécie de perdas pessoais, perdas que obrigavam os seres humanos ao confronto com a inevitabilidade da morte e com o sem fim de maneiras em que ela pode surgir... E ainda te cito outro passo do livro, que encontrei nas páginas finais, nos agradecimentos do autor: ...certos sofrimentos específicos são, com frequência, o incentivo para criações pessoais. Falávamos sobre um livro curioso ("L´Atelier de Alberto Giacometti", de Jean Genet), uma obra que Picasso considerou ser a melhor alguma vez escrita sobre a criação artística. As palavras de Genet - «A única origem da beleza é a ferida singular, diferente em cada um, oculta ou visível» - associam-se perfeitamente à ideia de que o sentimento é um motivo-chave do processo cultural.

 

   Assim também, Princesa de mim, a minha mágoa e a esperança de a ver frutificar alegria, é o solo em que se enraíza a minha fé. Parafraseando Genet, a origem da minha fé é a ferida singular de andar expulso do Paraíso, diferente em cada um, oculta ou visível... Ou, de outro jeito, relendo São Paulo: Sim, vou-vos dizer um mistério: não morreremos todos, mas todos seremos transformados. Na verdade, deverá este ser corruptível revestir-se de incorruptibilidade, e este ser mortal de imortalidade... Se me aconchega essa partogénese paulina, implicitamente também terei de pensarsentir que a imortalidade será uma transformação de tudo: a morte é uma duração interrompida, só no tempo contado pode existir.

 

   Para entendermos melhor o que acabo de te dizer, recorro a um trecho do subcapítulo The Right to Happinness de The New Human Agenda, capítulo inicial do Homo Deus - A Brief History of Tomorrow ( Harvill Secker, 2016) do professor Yuval Noah Harari, em que o autor se interroga sobre a circunstância da imortalidade que cientistas hodiernos pensam tornar realizável nos próximos anos : Some 2,300 years ago, Epicurus warned his disciples that immoderate pursuit of pleasure is likely to make them miserable rather than happy. E prossegue e traduzo: A couple of centuries earlier Buda had made an even more radical claim, ensinando que a procura de sensações agradáveis é realmente a própria raiz do sofrimento. Tais sensações são só efémeras e insignificantes vibrações. Mesmo quando as experimentamos, não lhes reagimos com contentamento; mas antes ficamos a desejar mais. Daí que, sejam quantas forem as abençoadas e excitantes sensações que eu possa experimentar, elas nunca me satisfarão. A felicidade perfeita só fora do tempo se pode obter. Quando, sem duração, descansarmos em paz.

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em tempos de pós estudante só aprendiz a inquirir, escrevi uma dissertação intitulada A Liberdade em Espinosa. Não sei já porque escolhi o judeu excomungado da sinagoga portuguesa de Amesterdão, que, aliás, também curioso visitei... e onde me impressionou, em pleno século XX, ouvir uma comunidade judaica holandesa, mas nomeada por inúmeros apelidos portugueses (patronímicos e outros como Álvares, Fernandes, Marques, Mendes, Fonseca, da Costa, Teixeira da Mota, Ribeiro, Pinto, eu sei lá!...) recitar uma oração "pela Rainha e a Madama sua Mãe", na língua lusa de seiscentos. Talvez tivesse essa minha opção sido influenciada por aquele que, ainda que nascido nos Países Baixos, sempre ficou também português de coração, nunca tendo deixado de falar a nossa língua, e assinando quase sempre os seus escritos como Bento, de preferência a Baruch ou Benedictus, o mesmo onomástico tendo sido gravado em três línguas no seu registo de nascimento: Bento Baruch Benedictus Marques Espinhosa, e depois d´Espinoza ou, apenas de Spinoza... Já o pai, Miguel, e o avô, Pedro, usavam os nomes portugueses para negócios e vida corrente, e os hebraicos para a sinagoga. Como Bento-Baruch faria, o Benedictus acabando por lembrar que esse judeu português quis aprender latim e escrever nessa língua da liturgia católica, que, todavia, era também a língua franca dos filósofos e cientistas do seu tempo. E, além do português e castelhano ladinos, também falava e escrevia neerlandês e hebraico.

 

   Mais certamente ainda, terei escolhido Bento Espinosa, por sentirpensar a liberdade, não como "fazer o que apetece", sem mais, mas como um atributo conatus (essencial ao ser pessoal):  Qualquer ente, tanto quanto esteja em seu poder, luta por perseverar no seu próprio ser. E, desde então, liguei esta ideia à da distinção espinosiana, não entre corpo e alma, mas entre tristeza (ou mágoa?) e alegria... A liberdade, digo eu, de cada um de nós é o direito inato à demanda da alegria.

 

   Achei há dias, entre vários escritos de Espinosa e livros sobre ele, um volume das suas obras traduzidas e anotadas por Charles Appuhn, para a Garnier-Flammarion (Paris, 1964), e bastamente percorrida de sublinhados e apontamentos feitos por um meu lápis de então. A edição de Appuhn recorre a muitas observações antes feitas por Gebhardt na versão alemã publicada pela Heidelberg Karl Winters Universitätsbuchandlung, que eu conhecera na minha passagem pela universidade renana em 1962. Não encontro, na papelada vária que por cá vou liquidando, o texto que escrevi na altura sobre "A Liberdade em Espinosa". Mas algo me diz que o mesmo espírito me terá sobrado dos sinais que hoje achei na referida edição francesa, muito próximos também das memórias do filósofo que ainda recordo. Lá iremos, não sei, quiçá em próxima carta, posto que te escrevo hoje com essas lembranças agudizadas por conversas que tenho tido com o Gonçalo, em celebração da "sua" Maria Benedicta, que tão recentemente ficou a viver só no coração dos seus familiares e amigos. E continuamente - é essa a minha fé - no coração de Deus. Ia falar-te de Espinosa, mas intrometeu-se outra história de incompreensão, de expulsão ou não-acolhimento, que te quero contar agora. Que em mim se mistura com uma incorrigível esperança numa universal comunhão na alegria. 

 

   Adiante compreenderás porque te transcrevo aqui um trecho do decreto de excomunhão de Bento Espinosa da sinagoga de Amesterdão, a 27 de julho de 1656, tinha o filósofo 23 anos. Tal herém - comparável à fatwah islâmica ou à excomunhão cristã - de Baruch (Bento, Bendito ou Benedito) reza assim, in folio 408 do Livro dos Acordos de Naçam (em português hodierno Livro dos Acórdãos da Nação, esta designando a comunidade judaica portuguesa de Amesterdão):

 

   Com sentença dos Anjos, com dito dos Santos excomungamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa...   ... com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar... Esta citação é acessível em Uma Suprema Alegria: escritos sobre Espinosa de Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Quarteto, Coimbra, 2003) e, antes, em Espinosa e Outros Herejes, de Yirmihahu Yovel (INCM, 1993). Mas não resisto a traduzir-te, por não ter aqui à mão o texto integral em português, doutra fonte, estrangeira, o final do herém: Queira o Eterno nunca mais lhe perdoar. Queira o Eterno acender contra este homem toda a Sua cólera e derramar sobre ele todos os males referidos no livro da Lei: que o seu nome seja apagado neste mundo e para sempre, e seja do agrado de Deus de todas as tribos de Israel, afligindo-o com todas as maldições que a lei contém. E a vós, que permaneceis fiéis ao Eterno, vosso Deus, vos mantenha Ele em vida! Sabei que não devereis ter com Espinosa qualquer relação, nem escrita, nem verbal. Que ninguém lhe preste serviço, nem alguém se aproxime dele a menos de quatro passos. Que ninguém habite sob o mesmo teto, nem alguém leia qualquer dos seus escritos!

 

   Assim decidiram os rabinos e anciãos da sinagoga. Não te vou contar agora, Princesa de mim, os motivos e argumentos das acusações, de heresia e outras, que fundamentaram esse ostracismo. Nem da circunstância de tudo isso se passar num país que, apesar de tudo - dos fundamentalismos dos "religiosos" calvinistas, do liberalismo político dos republicanos do Grande Pensionário De Witt, das ambições monárquicas dos Guilherme de Orange (na raiz da atual casa reinante de Nassau)  - acolhia muita gente refugiada de países bem menos tolerantes que, aliás, os judeus ibéricos conheceriam melhor do que ninguém... Permite-me que dê um salto  afinal, o que te escrevo são apenas simples cartas familiares - e vá buscar citações a um texto da Maria Benedicta, num encontro de cristãos, já no tempo em que ela se sentira excomungada da Igreja Católica e como que entrara numa nebulosa a que João Bénard da Costa daria, entre decisão pensadassentida e saudade, o nome de Nós, os Vencidos do Catolicismo, "plagiando" um verso de Ruy Belo, que primeiro como tal se assumiu. O livrito do João Bénard que tem por título esse primeiro verso do poema do Ruy em Homem de Palavra(s) - que a seguir transcrevo - reuniu para as Edições Tenacitas, os artigos escritos para O Independente, em 1, 8 e 15 de agosto de 1997. É, tudo bem ponderado, um testemunho muito pessoal da aventura ou peregrinação espiritual de uma geração de católicos que, nos anos 50 e 60, procurava aproximar a Igreja do povo de um Portugal - que se desruralizava, industrializava e emigrava, mantinha guerra em África, sem qualquer demanda de diálogo  -, desidentificá-la do Estado Novo e suas obras - o que não quer dizer que excluísse do seu diálogo gente do regime vigente - e empenhar os cristãos nos processos de transformação da nossa sociedade numa comunidade moderna, mais livre e democrática, mais justa e mais fraterna. Falhados muitos objetivos desse movimento e desanimados muitos esforços, por inércia, desconfiança, ou mesmo oposição da hierarquia clerical, foram desertando uns e mais alguns, e sobre essa geração pairou a desolação, o desgosto da orfandade espiritual. Leio Ruy Belo:

 

               Nós os vencidos do catolicismo

               que não sabemos já donde a luz mana

               haurimos o perdido misticismo

               nos acordes dos carmina burana

 

               Nós que perdemos na luta da fé

               não é que no fundo não creiamos

               mas não lutamos já firme e a pé 

               nem nada impomos do que duvidamos

 

               Já nenhum garizim nos chega agora

               depois de ouvir como a samaritana

               que em espírito e verdade é que se adora

               deixem-me ouvir os carmina burana

 

               Nesta vida é que nós acreditamos

               e no homem que dizem que criaste

               se temos o que temos o jogamos

               "meu deus meu deus porque me abandonaste?"

 

   Pessoalmente, estive muito próximo desse e doutros grupos, sobretudo católicos, com que comungava no propósito e na urgência de uma renovação de culturas e políticas, num mundo onde já fermentavam novos horizontes. Assinei, como sabes, entre outros, o famoso "dos 101", colaborei em obras várias da Moraes Editora, respondi a uma vocação religiosa, apesar de, em certo sentido muito próprio - ou talvez em razão dele -  ter sido sempre muito reservado em qualquer adesão aos comandos de clérigos (incluindo a chamada "hierarquia"), considerados códigos de conduta canónica e sem discussão, só por provirem do clero. [Certo dia uma amiga advertiu-me de que "a Igreja não é nenhuma democracia!", ao que retorqui que a instituição clerical que açambarcava o nome de Igreja, evidentemente não era... E, mais ainda, pensava eu que a Igreja não é "cracia" nenhuma, muito menos clerocracia, mas, isso sim, a comunhão dos santos ou comunicação dos humanos em Cristo. Foi sem ilusões acerca da omnipresente infalibilidade da "hierarquia", nem qualquer temor a quem se toma por polícia de Deus, que permaneci na comunhão dos que confessam o credo dos Apóstolos e se alimentam dos sacramentos como sinais efetivos de reconciliação, isto é, da presença de Deus connosco. Igreja onde encontrei muitos humanos carregadores da Palavra, e estimo tantos ministros ordenados que não esquecem ser o seu ministério um serviço e, não, como no foro da política, o exercício de um poder. Este Natal, muito especialmente, procurarei meditar nos caminhos de reconciliação de que a incarnação de Deus num menino humano é o supremo exemplo e desafio].

 

   Mas vamos ao testemunho da Maria Benedicta, dado na sessão "Identidades, comportamentos e modos de vida" do programa Escutar a Cidade, contributo para o Sínodo da Diocese de Lisboa, em 15 de janeiro de 2015. Começou por recordar estas palavras de Martin Luther King: A minha grande preocupação é o silêncio das pessoas sensatas. Frase que retomará ao encerrar a sua intervenção, depois de ter manifestado a sua preocupação com situações e problemas contemporâneos, para a solução dos quais - ou progresso para um mundo melhor - apresentara análises, intuições e sugestões, e apelara ao diálogo e esforço comum:

 

   Como vivem, o que pensam, o que querem os jovens portugueses e europeus deste século?...   ... Que síntese fazem do percurso dos mais velhos?

 

   Em relação ao futuro, o que pensam, em que acreditam, o que esperam as gerações de "entre-séculos"? Que sociedade lhes interessa? Quanto estão disponíveis para a construir? Onde estamos agora? Para onde vamos?

 

   A Maria faz então uma longa referência ao projeto de estudo da Comissão Europeia intitulado Os jovens enquanto motores de mudança social. Podes e deves ler integralmente, Princesa de mim, esta contribuição da Maria para uma reflexão cujo objetivo será averiguar:

 

   - quais são as normas e os valores que esses jovens reconhecem e quais as suas atitudes em relação a múltiplos aspetos da vida social;

 

   - quais são as suas expectativas em relação às políticas públicas e à organização da vida económica, social e privada, incluindo a organização das cidades e a ética dos negócios;

 

   - qual é a orientação e a disponibilidade dos jovens para serem o motor da transição para formas inovadoras da vida individual e coletiva na Europa, num quadro intergeracional e intercultural.

 

   Consulta em linha, na rede, o sítio escutar a cidade. Com o impulso à abertura e participação da Igreja nos diálogos interculturais e interreligiosos, bem como em iniciativas e movimentos ecuménicos e abrangentes de todos os humanos, que o papa Francisco tem procurado dar, vejo sempre com alegria a publicação de textos de "outros" em sítios católicos. Mas voltando a dar a palavra à Maria Benedicta Monteiro, logo após a citação de Martin Luther King:

 

   ... Tenho que começar por louvar a iniciativa que hoje aqui começa, e agradecer a possibilidade de estar aqui convosco.

 

   Para quebrar o silêncio entre cristãos e não cristãos.

   Para quebrar a barreira dos estereótipos mútuos.

   O que é difícil:

      Porque não vale a pena.

      Porque já sabemos o que eles pensam.

      Porque achamos que temos valores diferentes.

      Porque achamos que "eles" não vão mudar de ideias.

 

   Não foi fácil aceitar. Eu perguntava-me: o que querem ouvir os católicos de Lisboa? O que tenho eu, que sou agnóstica, para lhes dizer?

 

   Resolvi por isso interrogar a minha própria vida, e a partir daí mostrar como vejo, hoje, algumas preocupações da sociedade que me rodeia.

 

   Para tua reflexão, Princesa, respigo apenas dois passos do que a Maria contou de si. Deixo-te, assim, um trecho breve daquela confissão (agostiniana), a resumir o seu afastamento da Igreja:

 

   1º aviso, em Belém, em 1960, pelo Padre Felicidade Alves, recém chegado como pároco: "Dado o seu envolvimento em atividades de natureza política naturalmente prejudiciais à sua função de catequista desta paróquia, fica dispensada desse serviço".

 

   2º aviso, na Faculdade de Letras, pelo Padre Maurício, mentor da Juventude Católica Feminina: "Dado o seu envolvimento em atividades políticas condenadas pela Igreja, deve fazer a sua opção: ou continua na JUCF e se desliga da Associação Académica da Faculdade, ou devolve-me o seu emblema e considera-se fora deste movimento católico". 

 

   A Maria era cabalmente frontal e demasiado honesta para poder disfarçar a mágoa de se sentir expulsa de uma comunidade cristã, só porque se empenhava em combates de natureza política que lhe pareciam justos, ao ponto de até os considerar desafios dignos de um espírito cristão. Mas quem com ela conviveu também sabe como poderia dizer:  "se não me queres assim, ou só me acolhes se eu mudar, paciência, há convívios que não se forçam..."

 

   Creio - talvez por fiel amizade à Maria e ao Gonçalo, como a tantos outros que foram saindo e ficando pelo adro - que, no fundo, todos eles terão reagido como Bento Espinosa, que confessa no seu Tratado da Reforma do Entendimento: constitui tandem inquirere an aliquid daretur, quo invento et acquisito, continua, ac summa, in aeternum fruere laetitia [Em tradução livre e sucinta: "decidi procurar o que, uma vez achado, para todo o sempre dê suprema alegria...]. A demanda da alegria é o motor da vida de todos e de toda a vida cristã. E não deixa de ser intrigante que um filósofo luso judeu, que por muitos foi considerado ateu, tenha escrito no seu Tratado Teológico-Político que Cristo teve revelação dos desígnios divinos sobre a salvação dos homens, não por intermédio de palavras nem de visões, mas imediatamente...   ... Nesse mesmo sentido, podemos também dizer que a Sabedoria de Deus, isto é, uma Sabedoria sobre humana, se incarnou em Cristo, e Cristo se tornou caminho de salvação...   ... Para sempre Ele escreveu a lei divina no fundo dos corações...

 

   Olhemos pois para o fundo dos corações: talvez nada enxerguemos, cada um tem o seu mistério. Mas a contemplação do mistério do outro, daquilo que nele não entendemos deverá ser motivo de respeito e espera, não de rejeição ou humilhação. Se entendermos isso, entenderemos a Festa Grande do Natal, a celebração do mistério maior que nos anima: a alegria do encontro, da reconciliação de Deus com todos e em todos. Este ano, alegro-me com a Natividade de Jesus, sobretudo como sacramento do encontro e da paz. E agradeço o testemunho da Maria Benedicta e a constância do Gonçalo, que tanto me recordam quanto devemos reunir todos à volta do Presépio, e nunca deixar ninguém de fora. Assim, talvez para nos lembrar de que nenhum de nós é dono de nada, Deus, quando se fez homem, quis nascer pobre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Josquin des Prés compôs para Carlos V, aquando da morte de Isabel de Portugal, a canção Mille Regretz:
          

Mille regretz de vous habandoner
Et deslonger votre fache amoureuse,
J´ai si grand dueil et paine douloureuse,
Qu´on me verra bref mes jours definer
      Mil penas por vos abandonar
      E afastar-me de vosso amoroso rosto.
     Tenho tão grande luto, dor e desgosto,
     Que em breve verei meus dias definhar

 

   A mesma melodia serviu para Luiz de Narváez arranjar uma Canción del Emperador, sem vozes, mas com harpa renascentista, por ocasião da abdicação e retiro final do soberano em Yuste.

 

   E com o título Circunderunt me gemitus mortis ("Gemidos de morte me cercaram"), Cristóban de Morales, por ocasião da morte do imperador, compõe um motete:

 

          M´ont encerclé                                                     Da morte os gemidos

          les gémissements de la mort,                              me cercaram,

          les douleurs de l´enfer                                         de inferno doridos

          m´ont encerclé                                                     me rodearam

     

   Há depoimentos coevos de como se passaram os derradeiros dias do imperador Carlos V. Para te lembrar aqui, retenho apenas aqueles que claramente se referem aos seus últimos desejos Entre estes, o pedido de lhe trazerem para a beira do leito final dois quadros de Ticiano, que estavam pendurados noutra sala dos seus modestos aposentos em Yuste : A Trindade, postumamente conhecido como A Glória de Carlos V, em que, ajoelhados em adoração, aparecem Isabel de Portugal e Carlos seu marido - obra encomendada entre 1551 e 1554 - e o retrato da imperatriz, pintado também depois da morte desta. Ambos os quadros, companheiros de exílio, dizem muito dos sentimentos mais íntimos e secretos, sonhos, preocupações e afectos, do imperador.

 

   A Trindade ou A Glória de Carlos V, como lhe queiras chamar, representa-o, com sua mulher, em acção de louvor e graças diante da Santíssima Trindade, e rodeado de gentes e símbolos vários do seu império e vitórias, do seu serviço de Deus, num ambiente evocativo do que seria o juízo final da sua vida, que Isabel não viveu a tempo inteiro, mas partilhou. O retrato desta é testemunho de como, mesmo depois de morta, continuou a ser companheira sua e das obras da sua religião. Não resisto a traduzir-te aqui um trecho sentido da historiadora Michèle Escamilla inserto no Charles V que escreveu com Pierre Chaunu:

 

   O imperador, sentindo-se morrer, reclamou uma imagem da Virgem diante da qual falecera a imperatriz - Isabel de Portugal, a belíssima e caríssima esposa, morta de parto no 1º de Maio de 1539 -, e o crucifixo que ela então tivera nas mãos; esse crucifixo que ele, desde aquela hora, guardava no seu quarto - com vista à sua própria morte - tal como nove velas bentas em cera branca, provenientes do mosteiro catalão de Monserrate; pois ele votava, desde que viera a Espanha pela primeira vez, a essa  Virgem negra, velada pelos beneditinos, uma grande devoção.

 

  Terá sido nesse momento de adeus final, a que não faltou a leitura da Paixão de Cristo segundo S. Lucas, que Bartolomeu Carranza de Miranda terá proferido estas palavras: Eis que deste livro se vai lendo a Vossa Majestade. Mas quando já não conseguirdes ouvi-lo, pousai os vossos olhos aqui. E quando já não puderdes ver, procurai-o no vosso coração e na vossa memória; confiai nesse Senhor que morreu por vós, e na sua misericórdia; pois tal como Vossa Majestade mais do que uma vez defendeu a sua causa e os interesses da santa fé católica, também Ele saberá defender os vossos no céu. Não tendes de ter medo, com a ajuda de tal Senhor, não deixeis o demónio perturbar-vos pela lembrança dos vossos pecados, como ele sói fazer, neste falecimento. Rei, ponde toda a vossa esperança naquele que já pagou o preço; porque, posto que haveis feito, pela vossa parte, o que devíeis, recebendo os sacramentos da Igreja, o demónio doravante já não mais poderá fazer-vos qualquer mal.

 

   Esta exortação final custou a Carranza problemas, suspeitas de heresia, inquisições e prisões, pois houve quem o acusasse de que, afinal, teria dito «que não há pecado, a Paixão de Cristo é suficiente para a salvação», ou seja, de ter defendido o ensinamento protestante da sola fide: a fé só nos salva. Valer-lhe-á, mais tarde, São Pio V, o papa dominicano (o tal que, não quis trocar o seu fradesco hábito branco pelo esplendor das vestes pontifícias - e por isso mesmo os papas ainda hoje vestem de branco e, no caso do jesuíta Francisco, mesmo só de branco sem outros "luxos") que ordenou à Inquisição espanhola que o mandasse libertar e o transferisse para Roma... A história de frei Bartolomeu Carranza, ele também frade dominicano, amigo próximo de Carlos V e de Filipe II, prestigiado teólogo e professor, perito conciliar em Trento e que, depois de por várias vezes ter recusado ser bispo e cardeal, mesmo apesar da insistência do imperador, acabou por aceder a arcebispo de Toledo, primaz de Espanha, tem muito que se lhe diga, sobretudo em relação a tensões internas da Igreja de Espanha, e a afrontamentos gerados pela crescente omnipotência do poder da Inquisição. Carlos V era conhecido pelas suas amizades ou simpatia com "erasmistas", católicos sempre suspeitos de heresia, como, em Portugal, foi Damião de Góis que, aliás, foi defensor da universitária Lovaina, domínio do imperador, aquando do cerco que lhe moveu Francisco I de França. Vir-lhe-ia tal gosto dos seus tempos de mocidade flamenga, talvez mesmo do seu mestre Adriano de Utrecht, que chegou a papa (Adriano VI), contra o voto dos cardeais mais "conservadores" e o seu próprio desejo. Na verdade, esse cristão austero e livre não nutria qualquer apetência pelo chamado "trono pontifício", por entender que o fausto da cúria ou corte papal pouco se inspirava no evangelho. Deus fez-lhe, pouco depois, a vontade, chamando-o a Si um ano após a sua eleição. Mas tal homem sempre guardou prestígio e influência sobre o imperador, que chegou a confessar que o pouco de bom que tinha a ele lho devia... Carranza, apesar de Carlos V se ter ressentido da sua aceitação final do arcebispado de Toledo, já no tempo de Filipe II, filho em quem abdicara do trono de Espanha e da Borgonha, recebeu dele a absolvição in articulo mortis: frei Bartolomeu Carranza estava junto do imperador nessa hora.

 

   Não te esqueças, Princesa de mim, de que Erasmo de Roterdão foi nomeado conselheiro do duque Carlos de Habsburgo, futuro imperador Carlos V, e rei de Espanha, no ano em que este fazia dezasseis de idade. E ao príncipe que assim lhe fora confiado, o autor do Elogio da Loucura dedicou, no mesmo ano, a sua Instituição do Príncipe Cristão. Traduzo-te um trecho do capítulo XI dessa obra:

 

   O príncipe nunca deve encarar seja o que for com precipitação, mas em circunstância alguma ele mostrará mais firmeza e circunspeção do que no momento de decidir entrar em guerra. O poder é, em grande parte, consentimento do povo, e foi esse consentimento que primeiro esteve na origem dos Reis. Se qualquer discórdia surgir entre Príncipes, por que não recorrer primeiro a uma arbitragem? Há tantos bispos, tantos abades e eruditos, tantos sábios magistrados, cujos conselhos poderiam regular o conflito mais oportunamente do que uma multidão de carnificinas, de saques e calamidades universais. Quando o Príncipe tiver feito, por minucioso cálculo, a soma de todos esses males, acabará por pensar então: serei eu só a causa de tantas infelicidades? Tanto sangue humano derramado, tantas viúvas, tantos lares de luto, tantos anciãos privados de seus filhos, tantos pobres reduzidos à mendicidade, total ruína dos costumes, das leis e da piedade, deverá tudo isto ser imputado a mim somente? Serei eu quem deverá pagar tal dívida a Cristo? Um bom Príncipe procurará sempre adquirir a glória sem efusão de sangue nem desgraça para ninguém. Não tenho qualquer dúvida, ilustríssimo Príncipe, que te animem tais intenções: assim o requer teu nascimento, tal como a tua educação, confiada a homens tão excelentes quanto íntegros. Quanto ao resto, rezo para que Cristo tão bom e tão grande persista em fazer prosperar os teus esforços tão meritórios. Deu-te um império em que não correu sangue; oxalá assim seja sempre! Ele alegra-se por ser chamado Príncipe da Paz.

 

   Numa Europa dividida pelas lutas da Reforma e Contra Reforma, pelas ambições de Francisco I de França, retomando as rivalidades antigas com a casa de Borgonha, parte da herança genealógica e política de Carlos V, e aliando-se com o próprio império Otomano contra o imperador e os Habsburgos de Áustria, cumprir com tais propósitos não era fácil... Tampouco o Papado ajudou sempre as causas mais justas ou mais promissoras de apaziguamento e paz. Uma das maiores infelicidades de Carlos, que sempre lhe pesou na consciência e magoou o coração, foi o saque de Roma cometido por tropas suas, em desordem por atraso do soldo, em 1527. Os dois grandes revezes políticos que o afligiram antes de abdicar foram não ter conseguido afastar a ameaça turca, nem reunir numa só Igreja a cristandade latina europeia. No íntimo de todos estes desgostos de si, surge sempre, até à hora da morte, dois anos depois de abdicar, a carência ou saudade de Isabel de Portugal. A imperatriz teria sobre Carlos V uma influência que se exercia mais pelo carácter e comportamento dela, do que por coisas que fosse dizendo. Reservada, austera e devota, não sofria, todavia, como seu marido, de períodos de intensa melancolia. Referindo-se a Marcel Bataillon (Érasme et l´Espagne), Jacques Le Brun (Le Pouvoir d´Abdiquer - essai sur la déchéance volontaire, obra que nos fala das abdicações de Diocleciano, Carlis V, Ricardo II, Jaime II e Filipe V) escreve que o retiro para Yuste é o termo de uma série doutros: Assim, desde 13 de Abril de 1527, quando ainda não o marcavam a idade, nem o cansaço, nem a doença, Carlos V, em momento crítico, retirou-se ao mosteiro de Abrojo, para aí passar a Semana Santa. A data não é indiferente: está-se na expectativa de acontecimentos temíveis, a descida sobre Roma de hordas imperiais que nada parecia poder impedir; e é efetivamente em maio de 1527 que se fará o saque de Roma. Esse tempo de espera, mesmo que não se pudesse prever a extrema gravidade do acontecimento, passou-o o imperador na solidão de um mosteiro.

 

   É no quadro de uma vida de piedade, da qual temos muitos indícios, que se incluem esses retiros, mesmo no coração das suas atividades: testemunhos relatam as práticas piedosas do imperador, que tinha o hábito de compor, ele mesmo, orações e de se retirar «no fervor da oração»...   ... como se, na teia das intensas atividades exteriores, se abrissem instantes de solidão e oração; então se revelaria, no próprio coração do exercício do poder, uma retirada do poder ou, pelo menos, um aquém ou um além do poder, causa de espanto para os contemporâneos e para a posteridade...

 

   Tenho para comigo, Princesa de mim, que a religiosidade de Carlos V o rasgava, o dividia entre o "faz tudo" de Deus, servidor da fé católica e da monarquia universal, e o príncipe que aprendera como será vazio de sentido e força o poder exercido à margem das aspirações dos povos, e quão difícil é conseguir que estas se conjuguem. Na Trindade de Ticiano, pinta-se a glória maior do imperador: com sua mulher, agradece e bendiz, entrega a Deus a sua obra e o humano cansaço dela... Foi famoso pela bravura e intrepidez nos campos de batalha, e venceu em muitos. Também pela gula, por apetites de manjares vários e muitos, que regava, à flamenga, de boa cerveja fria. E, a par dos arrebatamentos ascéticos, caía com gosto em tentações eróticas, com proles patentes antes do casamento e depois da morte de Isabel. Mas quem somos nós, Princesa de mim, para negar que, graças a Deus, o ser humano é sempre circunstância e contradição...

 

   O que não impede alguém de ter fidelidades íntimas, por temperamento inato ou por educação. Aquele que muitos dizem ter sido o primeiro e o último imperador da Europa, era visceralmente um homem ecuménico. Confrontado com a hostilidade de Francisco I de França, que vencera e aprisionara em Pavia, dar-lhe todavia, mais tarde, em casamento, sua irmã Leonor, viúva de Dom Manuel I de Portugal, seu sogro. Em sinal de paz desejada e seguro de aliança. Perante a instabilidade crescente de uma cristandade europeia, que se ia dividindo entre católicos e protestantes - e os virava uns contra os outros - definiu em 1521, na Dieta de Worms, uma política, assim resumida por Joseph Pérez no seu Charles V, Empereur des deux monde: desaprova Lutero, ao qual censura de ofender a tradição secular da Igreja, mas tem repugnância em reduzir o cisma pela força das armas: preferiria que um debate levasse as duas partes a chegarem a acordo. Por outras palavras, é de um concílio universal que ele espera a solução. Mas a reunião de tal concílio pressupõe três condições prévias: que o papa o convoque; que os luteranos aceitem participar; que a Europa cristã esteja em paz. É por isso que o concílio, quando finalmente se reúne [em Trento], apenas poderá tomar nota da divisão religiosa da Europa e de que a reforma que iniciará só irá abranger os territórios que tiverem permanecido fiéis à Igreja de Roma.

 

   Se Adriano VI não tivesse morrido em 1523, um ano depois de eleito papa, talvez tudo fosse diferente. Mas Clemente VII, que lhe sucedeu, era um Medici que, como diz Pérez, "estava demasiado preocupado com manter, em Itália, um equilíbrio subtil entre as potências rivais - Francisco I e Carlos V - para que pudesse dar satisfação ao imperador, convocando o concílio que daria a Carlos V superior autoridade ; além disso, o papa não estava preparado para reconhecer que Lutero tinha alguma razão de querer reformar a Igreja"... Só após muita inútil guerra, incluindo o saque de Roma, em 1527, o mesmo papa, em 22 de Fevereiro de 1530, entregará a Carlos V a coroa de ferro dos reis lombardos e, dois dias depois, no trigésimo aniversário do marido de Isabel de Portugal - e quinto da vitória deste sobre Francisco I, em Pavia  -  a coroa de oiro do Sacro Império. Doravante,Carlos V passa a ser verdadeiramente imperador : até aí fora apenas rei dos Romanos e imperador eleito. Pela última vez na História, um papa coroou um imperador do Sacro Império.

 

   Nem tais vitórias, nem tanta honraria, pensossinto, Princesa de mim, venceram a melancolia da incompletude em Carlos de Habsburgo. Tal como prazer algum ou aparente conforto lhe apagou o possessivo desgosto da viuvez, depois da morte de Isabel. A desilusão alimentou o seu cansaço político. O adeus de Isabel terá sido o seu único pesar de amor. Eis o que, com infeliz inabilidade, eu quis dizer, há três anos atrás num dos meus Sonetos de Amor Mordido, como última oração de Carlos V, abdicado, em Yuste:

 

               Erguendo as mãos, Te levo este embaraço:

               na coroa, império e amor não tive sorte,

               e já nem sei qual foi a pior morte,

               se a de Isabel, ou só o meu cansaço...

 

               Não desci, nem deixei o trono só:

               vim apagar mágoas fundas e dores,

               sonhos secretos e os seus estertores

               no tempo, que de nós nunca tem dó...

 

               Eterno, acreditei, pudesse ser

               de todos nós, cristãos, o nosso reino,

               e sobre a divisão prevalecer

 

               a redentora cruz, esse sinal,

               tão forte como outro que em mim tenho:

               Morta, vive Isabel de Portugal!

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira