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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sanjay Subrahmanyam explica bem a circunstância da cuidada distinção que os Portugueses começaram a fazer entre os mouros da terra e os mouros de meca (ou seja, do Médio Oriente: viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia porém resultado de árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental. Álvaro Velho, que escrevia um diário de bordo da São Rafael, uma das naus da armada, declara de modo enfático: «Esta cidade de Calecute é de cristãos, os quais são homens baços. E andam eles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiadas». Nem se desengana de tais ideias no apêndice do "Roteiro": aí se encontram listados, como reinos cristãos da Ásia, Cranganor, Coulão, Kayal (que aparentemente tem um rei mouro mas súbditos cristãos), Coromandel, Ceilão, Samatra, Sião, Tenasserim, Malaca e Pegu; apenas o Bengala, que possuía «muitos mouros e poucos cristãos, e o rei é um mouro», e Calecute, ficam fora da lista. É significativo que o termo gentio (mais tarde usado para designar hindus e budistas) não se encontre uma única vez no texto.

 

   Sabes bem, Princesa, que os pioneiros portugueses acreditavam -  como muita gente na Europa de então -  na existência de povos e reinos cristãos no Oriente, e com ansiedade procuravam encontra-los, pois eles estariam nas costas do Islão que, naquele tempo, cercava, ao Sul e no Médio Oriente, a Europa cristã. O desejo dessa descoberta era tão forte que explica, não só as afirmações, acima, de Álvaro Velho, como a confusão dos primeiros templos hindus visitados com igrejas cristãs, até porque tinham inúmeras estátuas e imagens, como se locais de culto cristão pudessem ser. Logo que desfeita tal baralhação -  pela experiência madre -  a designação de gentios distingue-os dos cristãos e, simultaneamente, dos muçulmanos, apelidados de infiéis, cujas mesquitas, aliás, não dispunham de representações ou imagens santas, abolidas pela lei islâmica. A classificação de infiel -  aliás recíproca entre cristãos e muçulmanos - denuncia as raízes comuns das três religiões monoteístas, ditas do Livro: judaísmo, cristianismo e islamismo, e ajuda-nos também a perceber as animosidades e os ódios atiçados pelo preconceito de que o outro, o infiel, é um traidor, e nunca podemos confiar em quem nos atraiçoa. Judeu, cristão ou mouro, cada um deles reza ao mesmo Deus único, clemente e misericordioso. Mas, ao longo da História, a própria fé os separa e põe em afrontamento. Talvez um melhor conhecimento mútuo pudesse ajudar a que a fé fosse mais verdadeira, isto é, mais próxima da comunhão fraterna com a clemência e misericórdia de Deus... Ainda por cima, Princesa, muitas histórias sagradas, lendas e mitos, pessoas santas e ensinamentos, são comuns a essas religiões. Há poucos dias atrás, em jantar de amigos, com gente instruída e interessada, houve quem duvidasse de um dito meu sobre a crença muçulmana na maternidade virginal de Maria, na sua veneração de Jesus, esta ao ponto de, no Corão, se negar a sua crucifixão, pois tal santo não pode morrer. E, todavia, olha o que Alcorão diz:

 

   Sura IV, versículos 155 e 156 - Não acreditaram em Jesus. Inventaram contra Maria uma mentira atroz. Dizem: «Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o apóstolo de Deus». Não, não o mataram, não o crucificaram; foi substituído por outro indivíduo parecido com ele, e mesmo os que debatiam acerca dele tiveram dúvidas. Não tinham qualquer conhecimento preciso, apenas suposições. Na realidade não o mataram. Deus elevou-o até Ele, e Deus é poderoso e sábio.

 

   Sura III, versículos 37 e segs. - Os anjos disseram a Maria: Deus escolheu-te, fez-te isenta de qualquer mácula, elegeu-te entre todas as mulheres do universo. Os anjos disseram a Maria: Deus anuncia-te o seu Verbo. Chamar-se-á o Messias, Jesus filho de Maria, venerado neste mundo e no outro, e um dos confidentes de Deus. Senhor, respondeu Maria, como terei um filho? Nenhum homem se aproximou de mim. É assim, retorquiu o anjo, que Deus cria o que quer. Diz: Seja! E é.

 

   O desconhecimento mútuo das diferentes leituras das três religiões "do Livro", nega oportunidades de se descobrirem familiaridades, o facto da cristandade (bizantina e latina) e do islão (árabe e otomano) invocarem a proteção divina para as suas campanhas de expansão e conquista, alimenta a desconfiança e o ódio "religioso". Tal não impediu, todavia, que, na própria bacia mediterrânica, ocasionalmente se estabelecessem alianças entre cristãos e muçulmanos em guerras contra outros cristãos ou muçulmanos, os interesses políticos e ambições territoriais não coincidindo sempre com as confissões religiosas das potências envolvidas. No Índico, os portugueses não fugirão à regra do pragmatismo militar, político ou comercial, e desde logo começam por diferenciar os mouros da terra dos mouros de Meca, e ambos dos gentios. Estes, não sendo infiéis, inimigos sempre suspeitos de traição, são considerados aliados mais prováveis, além de "searas" para obra do Senhor Deus. Por muito estranhos que sejam os seus cultos e imagens, depois de desfeita a confusão com cristãos do Oriente. Luís de Camões (in Os Lusíadas, canto VII, oitava 47 e segs.) diz bem essa surpresa e, quiçá, desgosto que, talvez, o próprio Gama terá sentido, em visita a templos hindus:

 

          Aí estão das Deidades as figuras,

          esculpidas em pau e pedra fria,

          Vários de gestos, vários de pinturas,

          A segundo o Demónio lhe fingia.

          Vem-se as abomináveis esculturas,

          Qual a Quimera em membros se varia

          Os cristãos olhos a ver Deus usados

          Em forma humana, estão maravilhados.

 

          Um na cabeça cornos esculpidos,

          Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

          Outro num corpo rostos tinha unidos,

          Bem como o antigo Jano se pintava;

          Outro, com muitos braços divididos,

          A Briareu parece que imitava;

          Outro fonte canina tem de fora,

          Qual Anúbis Menfítico se adora.

 

          Aqui feita do bárbaro Gentio

          A supersticiosa adoração...  

 

   Mas regressemos a Subrahmanyam e ao nosso jornalista quinhentista Álvaro Velho, para, como escreve o primeiro, nos debruçarmos sobre o contexto em que o nosso observador ingénuo se encontra em Calecute, na costa do Malabar. Subrahmanyam alude a duas debatidas questões acerca dessa primeira viagem de Vasco da Gama à Índia: uma refere-se à escolha do mesmo para o comando da armada, já que o Gama era de pequena nobreza e quase desconhecido; outra interroga o relativamente longo prazo de nove anos entre a dobragem do Cabo das Tormentas/Boa Esperança, por Bartolomeu Dias e a partida da expedição de Vasco. Finalmente, debruça-se sobre a questão de que te falo a seguir, e que tem a ver com a demora, ou atraso da chegada dos portugueses à costa ocidental indiana:

 

   A armada de Vasco da Gama deixou efetivamente o estuário do Tejo a 8 de julho de 1497, e chegou ao Cabo da Boa Esperança a 19 de novembro, mas só atingiu Calecute, o seu verdadeiro destino, a 20/21 de maio de 1498. As razões deste longo atraso, que contabilizava o total da viagem Lisboa-Calecute em 316 dias, foi a paragem de quatro meses na costa oriental africana. Os historiadores descuraram atá hoje esta parte da viagem, centrando-se na chegada a Calecute; de facto, parte do que ocorreu em Calecute só pode ser compreendido tendo em vista a experiência do Gama na África Oriental. Parece-me acertada, Princesa de mim, esta observação: aliás, os factos apontados por Subrahmanyam, na Ilha de Moçambique, em Mombaça e Melinde (donde a armada largou para o Malabar) encontram-se também narrados em Os Lusíadas, e Camões nem esquece a personagem de Fernão Martins que havia sido cativo no Norte de África e sabia falar árabe. O relato de Álvaro Velho contém uma súmula das suas observações. Eis o modo como viram Moçambique, no seu primeiro encontro com o sistema de comércio do Índico:

 

   «Os homens desta terra são ruivos e de bons corpos e da seita de Mafamede e falam como mouros; e as suas vestiduras são de panos de linho e algodão, muito delgados e de muitas cores de listras, e são ricos e lavrados; e todos trazem toucas nas cabeças, com vivos de seda lavrados com fio de ouro; e são mercadores e tratam com mouros brancos, dos quais estavam aqui, em este lugar, quatro navios deles que traziam ouro, prata e pano e cravo e pimenta e gengibre...»

 

   Após esta citação de Álvaro Velho, Subramahnyam continua: Há dois reparos a fazer: a rápida identificação do lugar como muçulmano, mas ao mesmo tempo o desejo de distinguir os muçulmanos "nativos" dos do Médio Oriente. De facto, quando as relações com o rei local azedaram, como ocorreu a breve prazo, há novamente uma clara tentativa de apontar a culpa do sucedido aos mouros brancos.

 

 

   Fosse qual fosse o motivo do desentendimento e algumas escaramuças, ainda hoje debatido, o certo é que a armada zarpou para Quíloa e Mombaça, onde se deram novos confrontos, tendo alguns muçulmanos, que haviam sido feitos prisioneiros, confessado que o rei de Mombaça urdiria uma conspiração contra os portugueses... Seguiram estes, então, até Melinde. O episódio da sua paragem aí merece umas estrofes de Os Lusíadas - como adiante te citarei - mas deixo-te, primeiro, o relato de Subrahmanyam, que segue o "diário" de Álvaro Velho:

 

   A breve estadia na África Oriental é essencial para definir a conduta dos Portugueses no Malabar. Salientemos a extrema desconfiança da atitude do Gama em Calecute: ele espera por navios de terra para se aproximarem das suas naus, em vez de tomar a iniciativa do contacto, após o que manda a terra um membro dispensável da sua frota - um degredado chamado João Nunes - em vez de alguém com autoridade. Nunes, ao encontrar dois mercadores tunisinos no porto, é o verdadeiro protagonista da célebre cena seguinte.

 

[Assim chego à prometida transcrição de um trecho do "Diário" de Álvaro Velho]:

   «E aqueles com que ele ia levaram-no aonde estavam dois mouros de Tunes, que sabiam falar castelhano e genovês. E a primeira salva que lhe deram foi esta que se ao diante segue:

 

   - Ao diabo que te dou: quem te trouxe cá?

   E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe, e ele respondeu:

   - Vimos buscar cristãos e especiaria.

   Eles lhe disseram:

   - Porque não manda cá el-rei de Castela e el-rei de França e a senhoria de Veneza?

   E ele respondeu que el-rei de Portugal não queria consentir que eles cá mandassem. E eles disseram que fazia bem».

 

   Em próxima carta voltarei a Camões e ao rei de Melinde. E também para ti guardo uns passeios à volta das cousas da China, com frei Gaspar da Cruz.

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:

 

Alertas-me para um prolongado silêncio meu, como se as minhas cartas falassem e eu te faltasse com a minha conversa fiel. Esqueces que, neste voluntário retiro, além dos milhares de livros que vou arrumando ou dispondo - em benefício, espero, de quem os possa apreciar - cozinho os petiscos quotidianos... Primum manducare, deinde philosophare, diriam os antigos, e eu, pobrecito, nem à filosofia chego, só procuro tratar de mim... Também recolho, escolho e dou abrigo mais seguro a muitos documentos da vida passada da nossa família, e da minha própria, não tanto por gosto de colecionar memórias, como pela serenidade de uma comunhão intemporal. E é bem verdade que o intemporal talvez nos tire muito tempo...

 

Dou comigo, muitas vezes, a entrelaçar lembranças e descobertas várias, tantas delas insuspeitas de qualquer relação entre si...ou comigo! No fundo, talvez dê por mim a dizer, com o Alberto Caeiro, que a espantosa realidade das coisas / é a minha descoberta de todos os dias. Aliás, dei novamente com estes versos hoje mesmo, evocados por José Mattoso no seu prefácio, de 13 de abril de 1985, à Identificação de um País, que começa assim: Este livro nasce de uma insatisfação: a de não encontrar na historiografia portuguesa atual respostas para muitas interrogações que a moderna ciência histórica não pode deixar de colocar. Tentei dar as minhas e coordená-las num conjunto que constituísse uma visão global da História de Portugal durante os seus dois primeiros séculos. A minha curiosidade orientou-se especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar [...] o que mais me atrai no passado medieval é a mentalidade: como é que os homens viam o mundo e se organizavam para tentarem dominar a realidade, nessa época tão diferente da nossa?

 

Tu também sabes, Princesa, como eu sempre pensossinto a constante mudança das coisas: a vida, o mundo, tudo é movimento, e quando olho para pessoas ou para povos, pela perspetiva do que chamamos História, melhor me apercebo de quão dinâmica, afinal, dialética mesmo, é a ideia ortegana de sermos e sermos a nossa circunstância. Assim, o conceito hegeliano de que die Weltgeschichte ist das Weltgericht deve ser só tomado no sentido de que os efeitos apurados dos factos produzidos são os únicos juízes destes, a História não podendo ser tribunal como se se pudesse julgar o passado por critérios presentes e retroativos... E sabemos quanto atos, factos e seus efeitos vão padecendo de mui diversas interpretações.

 

A História, como um dia disse João Ameal, é a nossa vida antes de nós, sim, mas tal não tem de tornar esta necessariamente gloriosa, nem vergonhosa: as lições da História não são gabanços nem pedidos de desculpa, podem, quando muito, e devem ser ensinamentos da escola da vida.

 

Qualquer povo tem uma história passada - a dos seus seniores - mas, essa mesma, não são os hodiernos que a fazem, é, tão simplesmente, um da sein que herdaram. É dele, de dantes, mas está aí, já feita. E dou aqui, mentalmente, o salto até uma resposta, há pouco lida, de Onésimo Almeida à revista LER, que lhe perguntava se, afinal, o carácter nacional não existe: Não, e deveríamos acabar com conceitos desse género. Não é possível, para qualquer povo, generalizar seja o que for. Nem nunca, em nenhuma época, toda a gente pensa e age da mesma forma, nem nunca, através dos tempos, uma nação se comporta da mesma maneira. Quer dizer que não se pode generalizar, nem diacrónica nem sincronicamente.

 

Ocorreu-me então algo que vou pensandossentindo acerca do modo como eu mesmo e muitos dos meus amigos fomos cultivados no ambiente de "uma certa História do Grande Portugal", algo que tanto me foi remoendo pelo convívio que tive, durante a minha longa estadia no Japão, com versões claramente míticas - para um estrangeiro que eu era - da História nipónica, sobretudo das origens do povo e da estirpe divina da linhagem imperial.

 

Não te esqueças de que até Wenceslau de Moraes escreveu um Dai Nippon (Grande Japão)... Como sabes, já amiúde falei sobre isso. Mas nunca me "psicanalisei" disciplinadamente no tocante ao meu entranhado sentimento de português enquanto filho de uma nação gloriosa, única, diferente de todas as outras. Pensossinto "Portugal", e vibro! Mas a leitura de obras hodiernas, de historiadores estrangeiros e portugueses, dos tais cuja curiosidade - repetindo o dito de José Mattoso acima citado - se orienta especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar, ao ponto de os levar a procurar e consultar outras fontes - até agora esquecidas ou ignoradas, quer por razões políticas ou ideológicas, quer por tradicional desconhecimento de estranhas línguas e culturas - para acharem novas perspetivas e, acima de todas elas, uma visão mais global, muda-me o sentir da História, das nossas vidas antes de nós, com as suas circunstâncias. Não já só "nós", os Portugueses, como pioneiros e condutores, mas todo um vasto mundo, povoado por outros, com que sucessivos lusos foram interagindo.

 

Dias atrás, falava com alguns amigos sobre um livro que há já uns anos me encantou, ao ponto, aliás, de dele ter adquirido vários exemplares para oferecer - incluindo alguns na sua bela edição francesa - a conhecidos, amigos e, - vieillesse oblige - aos inescapáveis netos. Trata-se de A Aventura das Plantas, do Prof. Eng.º Mendes Ferrão, famoso catedrático do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, reconhecido internacionalmente. Tive o grande gosto de o conhecer em 2004/5, quando recorri à sua sapiência para melhor me informar sobre a globalização das plantas que surgiu com a aventura da descoberta de caminhos marítimos entre todos os continentes, tema que decidira abordar em exposições e sessões públicas a realizar no pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão), de que eu era Comissário Geral. Um dos meus convivas referiu então um artigo recente de Guilherme d´Oliveira Martins que diz: "As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos" de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.
Os "negritos" são meus - já perceberás porquê. Antes, todavia, deixa-me dizer-te que, com muito gosto lusíada contei a aventura das plantas aos meus netos, por ela ser um dos mais antigos e persistentes sinais do que afinal a globalização é ou pode ser na vida quotidiana e comezinha das pessoas. Mas quantas vezes lembramos, ou quantos de nós sabem, que não se cultivavam nem comiam batatas, feijões ou tomates na Europa, antes das grandes viagens?

 

História fascinante, tetra secular, elucidativa, divertida, consoladora de humanidade... Quem mudava, então, as plantações de legumes e frutos no mundo de todos, era essa mancha de gente de muitas paragens, muito ou pouco ou nada sábia, a mor das vezes sem mais pertença do que qualquer obediência consciente ou instintivamente devida, que andava embarcada. E não eram só portugueses...

 

Já a razão dos meus "negritos" tem a mesma raiz dos que mostro de seguida, por mim postos num anúncio da Fundação e Museu do Oriente: Os Portugueses na Ásia na Segunda Metade do Século XVII  -  curso administrado por João Paulo Oliveira e Costa  -  dá a conhecer o panorama político, económico e sociocultural da Ásia sob a influência portuguesa.

 

No mesmo ou em dia próximo daquele em que recebi esta notícia, lera eu no Público uma entrevista a Eduardo Lourenço, em que este, a dado passo, afirmava: Portugal não é uma ilha, mas vive como se fosse. Talvez por uma determinação de quase autodefesa. O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos a viver um Ronaldo coletivo, um "nós somos o melhor do mundo"... E, mais adiante: Fomos os primeiros que largámos da Europa para ir para um sítio mítico, só conhecido através de novelas, como as de Marco Polo. De repente, deslocamo-nos do ocidente europeu e demos a volta a África - demos..., deram eles, os navegadores, porque eu não tenho um pé marítimo propriamente dito - para chegar à Índia. E foi como chegar a outro mundo, descobrir outro planeta, e durante dois séculos a nossa capital era mais fora de nós do que dentro de nós. E sempre nos habituámos a que essa imagem que adquirimos num lá fora hípermítico fosse tão universal que ninguém podia não saber que nós lá tínhamos chegado... Há aqui, nesta análise de um nonagenário, muita cândida lucidez. Que, quanto a mim, me levou sobretudo à intuição de que as mitomanias nos podem conduzir a algo que eu definiria como "narcisismo nacional"...

 

          Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Ontem ainda, falava pelo telefone com velho amigo meu sobre o meu incómodo com a impressão que me faz uma igreja clerical, que me parece muito mais preocupada com observâncias canónicas, rituais e institucionais, do que movida pela urgência da abertura do nosso pensarsentir ao espírito de vida, que sopra tudo em todos. Nas cartas que, com alguma fidelidade e franqueza, te vou escrevendo já muitas vezes te falei da minha vivência do cristianismo como libertação de tudo o que possa entravar um caminho de comunhão com o vero-belo-bom. Esta manhã, bem cedinho, madrugada ainda, quedei-me a ler e meditar trechos de uma entrevista do quase nonagenário François Cheng, chinês só, até aos vinte anos, sino-francês paulatinamente criado, desde então, membro da Académie Française, pai de Anne Cheng, sinóloga de nomeada, professora no Collège de France. Recolhi e traduzo para ti passos da resposta de François (nome cristão que escolheu pelo exemplo de São Francisco de Assis) à pergunta do Philosophie Magazine sobre a sua descoberta de Assis, acerca da qual escrevera «C´est là que mon exil va prendre fin». Trata-se de uma conversão? - pergunta a entrevistadora Catherine Portevin. Resposta:

 

   Não totalmente, pelo menos no sentido que lhe dão Claudel ou Pascal. Se, em mim, a via taoista e a via crística não se excluem, é em razão dessa visão comum assente na ideia de Via, um processo de devir que conduz, não ao encerramento ou ao nada, mas ao Aberto. O taoismo tem uma visão organicista do universo vivo onde, animadas pelo sopro primordial e os sopros vitais que dele decorrem, todas as entidades se ligam e se sustêm. As transformações que se produzem entre elas constituem o próprio movimento do Tao-«Vida», movimento sempre puxado para cima. Esta visão de um universo em devir, nenhum chinês se dispõe a abandoná-la, seja ele taoista ou confucionista, torne-se ele budista, marxista ou cristão.

 

   Pelo que me toca, embora dizendo que desposei a via crística, devo precisar que não me situo em relação a uma instituição religiosa ou a uma crença. Trata-se de uma adesão a uma verdade de Vida incarnada. Foi tardio, na minha vida, o verdadeiro encontro com Cristo. Tal se deve, em parte, a um conjunto de factos históricos que nublaram a imagem de Cristo e, por outro lado, ao meu tortuoso itinerário, bem cedo marcado por acontecimentos trágicos...

 

   E François Cheng conta então os factos e suas traumáticas consequências que, a partir de 1937, tinha ele então apenas oito anos, o afetaram: invasão da China pelo Japão, o massacre de Nanquim, a guerra civil chinesa que se lhe seguiu até ao triunfo de Mao Ze Dong, todo um cortejo de horrores, o mal como vento a varrer vidas e bens, a apagar o próprio sentimento da dignidade humana. E prossegue:

 

   Aprendi mais tarde que a crueldade sem limite é um facto inerente a toda a humanidade. Seja como for, a minha jovem alma já sabia que nenhuma verdade de vida seria válida se não respondesse de maneira absoluta aos dois mistérios instalados nas duas extremidades do universo vivo: o mistério da sublime beleza e o do mal radical. Quando me encontrei com Cristo, disse para comigo: «Já aconteceu». O quê? Alguém veio e viveu entre nós. Disse palavras e fez gestos sem qualquer semelhança com outros, e depois, em nome duma transcendência a que chamava Pai, deixou-se pregar numa cruz. Num único ato juntou as duas pontas da verdade: afrontou o mal radical e, simultaneamente, mostrou que o bem absoluto - o amor absoluto - existe. Passou por essa morte que se revelara indispensável. Eis a sua maneira de vencer a morte: oferecer uma Via aberta ao destino humano. Nisso, ele não é apenas uma vítima expiatória, pois mudou a própria natureza da morte, transfigurou-a. Antes dele ninguém fora tão longe. Depois dele, jamais alguém irá além. Na continuidade do tempo humano produziu-se efetivamente um corte: antes dele e depois dele. Quanto a mim, sem esta resposta crística, não sei se poderia viver com o problema do mal.

 

   Se recordares, Princesa de mim, as cartas em que te falava do mal e do absurdo, da coexistência do mal radical e do bem absoluto, este só podendo ser o amor absoluto como vocação da humanidade inteira, a vida tendo apenas sentido quando a anima o amor que vence a própria morte, entenderás agora melhor a comoção profunda com que me encheram a alma e a manhã estas palavras da vocação cristã dum taoista. Por isso, com elas também, que só são minhas porque como tal as tomo, te encho esta carta. Que aqui termino, com o final da entrevista de François Cheng:

 

   A Vida é a única aventura acontecida no universo, não há mais nenhuma. Ela não nos pertence: pertencemos-lhe nós. Sem essa aventura, não seríamos. Todavia, sem nós, a aventura, privada de conteúdo, também não seria. Somos capazes de pensar o universo, porque em nós o universo pensa. Presentemente, quando até temos o poder de interromper o próprio processo vital, é grande a responsabilidade que nos compete. Será bom lembrar que como princípio a Vida é uma Via aberta e ascendente. A Morte é uma lei imposta pela Vida, para que esta possa renovar-se, transformar-se e aceder a outra ordem de ser. Aceitemos com humildade tal mistério. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Estou de volta àquela página de diário que escrevi em Scarsdale, num fim de serão, há trinta e três anos atrás. Na minha última carta, deixara-te esse meu texto no fim de uma citação de São Tomás de Aquino que dizia: Por isso falamos de amor íntimo e das entranhas da caridade... Logo adiante acrescentei: «E lembramos Camões: Transforma-se o amador na coisa amada / por virtude do muito maginar; / não tenho logo mais que desejar / pois em mim tenho a parte desejada. // Se nela está minha alma transformada, / que mais deseja o corpo de alcançar? / Em si somente pode descansar / pois consigo tal alma está liada. Lembrei-me de procurar estas reminiscências na desvairada biblioteca que trago comigo, depois de ter aberto ao acaso um dos volumes do Le je-ne-sais-quoi et le Presque rien do Vladimir Jankélévitch:

 

   Mais Platon pense que l´amour n´est ni ce vieillard vénérable, ni ce jouvenceau ridicule; à vrai dire, Diotime, porte-parole de Platon [no "Banquete", e continuo com Jankélévitch, mas traduzindo-o], descreve-nos um Amor mais próximo dos jovens do que dos velhos, posto que o Amor, segundo ela, está, vez a vez, em plena flor e moribundo e de novo renascente; infatigável caçador, eterno aprendiz, incorrigível noctâmbulo - eis o Amor! Em resumo, foi Pascal quem com maior clareza formulou o paradoxo do Amor: "O amor não tem idade, está sempre a nascer..." Por isso os poetas no-lo representam como uma criança. O amor é simultaneamente criação e reprodução; é totalmente aurora radiosa de uma nova era e herdeiro duma continuidade biológica, duma tradição imemorável. Quantas incontáveis vezes não terá sido repetida a palavra do amor, desde que o mundo é mundo? E sempre nos mesmos termos! E todavia o novel enamorado que hoje declara o seu novo amor improvisa essa palavra como se fosse o primeiro namorado desde a origem dos tempos, como se ninguém, antes dele, jamais tivesse pronunciado a palavra do amor, como se pela a primeira vez na história do mundo um homem dissesse o seu amor a uma mulher ; os próprios gestos do amor, gestos cuja iniciativa se perde na longínqua noite dos primórdios, dir-se-ia que o novel enamorado os reinventa a par e passo: porque cada homem, nesses momentos, é um inspirado e um inventor de génio. Tornando insensível a eterna repetição, o encanto sempre renovado arrasta o namorado no seu incansável impulso; cada manhã é para ele a primeira manhã do mundo.

 

   E, nesta catalisação de memórias e raízes que me provocou a conversa ao jantar (que andou muito à volta da demanda do reconhecimento ou angústia do irreconhecimento em Camus), recordo um texto de Diniz, teólogo antigo, no seu Tratado dos nomes divinos: O Amor é ele mesmo causa de tudo. Pelo excesso da sua bondade ele ama tudo. Faz tudo. Contém tudo. Realiza e leva tudo à plenitude. Ele é, Eros divino, bom, a própria Bondade, a Bondade emanente pela Bondade. Na verdade, Amor benfeitor dos seres, substituindo-se ele mesmo no Bem, infinitamente, não quis que o Bem permanecesse estéril, e levou-o a operar segundo a infinita eficácia da sua virtude.

 

   Depois da conversa sobre Camus e Sartre, etc., lembrei-me de ir a uma dessas estantes em que o Livro Sexto da Sophia está ao lado de títulos como Business Economics e o Ricardo Reis ombreia com o Código Comercial -  à caça de A Capital do Eça que, por acaso, se encostava ao Romancero Gitano e aos Veinte Poemas de Amor (Llorca de um lado, Neruda do outro). Porquê? Porque me lembrei de que Artur Corvelo é pretexto para descrever a superficialidade, a projeção desenraizada, a dificuldade ou impossibilidade de comunicar. E quis que a "minha" criançada me ouvisse ler, naquele português queirosiano, as fantasias, as peneiras, as deceções, as vergonhas, os melindres, os desgostos e as agressividades contidas, ou não, de um jovem provinciano incomunicado num salão (afinal provinciano também) de Lisboa.

 

   Tudo, esconso, está no olhar interior que nos criamos e nos faz nascer. Diz uma canção de Coimbra: És linda, se foras feia / mesmo assim eu te queria... / Não é por ser lua cheia / que a lua mais alumia... E posso dizer precisamente o mesmo, assim:

És feia, se foras linda / mesmo assim eu te queria... Mais luminosa brilharia então essa virtude criadora que se chama ternura. O amor não tem idade nem gosto, é um sopro de Deus.»

 

   Mais de três décadas depois, a minha biblioteca está muito maior e, com a instalação definitiva em Portugal, vou-lhe dando outra arrumação... que, aliás, inclui a doação de muitos, muitos livros. A pouco e pouco, com tempo até para ir tecendo novos panoramas de leituras idas e lembranças, de relações sem idade. Às vezes, um livro que agarro para lhe achar o lugar em estante retém-me, para que o vá ligar ao que me vai no peito ou na cabeça. Assim me encontrei hoje nas Maximes et Réflexions de François VI de La Rochefoucauld. Deixo-te, para fecho desta carta, as sentenças ou máximas morais fixadas no texto de 1678, com os números 68 a 76, que traduzo: É difícil definir o amor. O que se pode dizer é que, na alma, é uma paixão de reinar; nos espíritos, é uma simpatia, e no corpo mais não é do que um desejo escondido e delicado de possuir o que se ama depois de muitos mistérios... ... Se há amor puro e isento de mescla com as nossas outras paixões, é o tal que se esconde no fundo do coração e nós próprios ignoramos...   ... Não há disfarce algum que por muito tempo possa esconder o amor que aí esteja, nem fingi-lo onde ele não está...   ... Não há pessoas que não se envergonhem de se terem amado, quando já não se amam...   ... Se julgarmos o amor pela maioria dos seus efeitos, parece-se mais com o ódio do que com a amizade...   ... Podemos encontrar mulheres que nunca tiveram galanteria, mas é raro encontrar alguma que apenas tivesse tido só uma...   ... Há só uma espécie de amor, mas dele existem mil diferentes cópias...   ... O amor, tal como o fogo, não pode subsistir sem um movimento contínuo, e deixará de viver logo que deixe de esperar ou de temer.

 

 

   Das considerações de La Rochefoucauld posso concluir que o amor é uma potência ativa, só como ato existe, mas cuja essência ainda ignoramos, pois quanto muito apenas sabemos que se esconde no fundo do nosso coração. E é bem certo que muitas vezes com amor se confundem paixões de domínio e de posse... o que não significa que essas, ainda se contraditórias do bem querer, sejam totalmente estranhas ao impulso nativo do desejo de amar. Por isso, em carta anterior, eu te dizia que o amor se destila no silêncio do coração, no despojamento interior de cada si. Amores há muitos e diversos, todos eles devem ser filtrados por esse exercício ascético da procura do encontro do Amor. Como escreveu São João: para que seja completa a nossa alegria. 

 

Camilo Maria

     
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Subi à cidade, num qualquer destes dias. Digo subi, sem ofensa para ninguém, até me parece que Lisboa está lá mais em baixo. Mas faço sempre um exercício de alpinismo, por vezes quase acabrunhante, para lá chegar. E de vez a vez me vou sentindo mais ligeiro no regresso, deve ser alívio de pressão atmosférica... Entre consultas médicas e outras tarefas, ainda consegui dar um salto à Bertrand, em busca do último Agualusa, do recente Miguel Real, e, para trazer conforto às minhas insónias, trouxe A memória dos outros II, Caminhos e Destinos do meu velho amigo Marcello Duarte Mathias, cujo estilo de escrita sempre me delicia, e de quem muito aprecio o rigor de uma inteligência independente, seja eu concordante ou não... O Marcello não é correto politicamente, nem por força, obra ou graça de qualquer outro advérbio: apenas por fidelidade à sua inteligência e ao seu gosto, e respeito pelos de outros.  


   A leitura desta coletânea de textos que o autor já antes editara ou pronunciara não é necessariamente contínua e sequente, pelo que desde logo me conduzi aos que se debruçam e refletem sobre Albert Camus: Camus, um homem livre  -  prefácio à 3ª edição de A Felicidade em Albert Camus, do mesmo Marcello Mathias; Camus  -  um homem só  -  texto da participação do autor num colóquio realizado na Universidade do Porto, em 2013, sobre Albert Camus e Vergílio Ferreira; e ainda o texto da palestra proferida na Academia das Ciências, numa homenagem ao filósofo e escritor francês. Li com gosto despertador este último, que não conhecia, e reli os outros dois, com igual cumplicidade. Reencontrei-me em vários passos do Marcello a circunver Camus, como neste: ... o enraizamento é nele a expressão da sua mais íntima identidade. Numa palavra, Camus liberta-se ao ancorar-se na infância, eterna fonte redentora, ponto de encontro e renovado deslumbramento! E cita um trecho do autor de Noces, retirado da polémica política que, em 1948, o defrontou com Emmanuel d´Astier de la Vigerie: «Há a história, mas há também outra coisa, a simples felicidade, a paixão dos seres, a beleza natural. Também estas são raízes que a história ignora, e a Europa, porque as perdeu, é hoje um deserto.» E desse dito de Camus conclui: Sem dúvida: nós somos também as nossas fidelidades.

 

   O que acima para ti transcrevo, Princesa de mim, surgiu-me esta noite como remissão à última carta que te escrevi e que, afinal - vejo-o agora -, desce mais profundamente às raízes e circunstâncias dessa demanda de mim, peregrinação interior, liberdade de um caminho aberto por misteriosas fidelidades. Sabes bem que sou alguém diferente do Marcello Duarte Mathias, e por isso mesmo simpatizo com estes encontros avulsos de percursos pessoais estranhos, quiçá pela magia desses marcos de encruzilhadas de caminhos que são alguns autores lidos, semeadores de olhares e pressentimentos. Aconselho-te a leitura das páginas do Marcello sobre Camus, por esse reconhecimento de uma independência tantas vezes solitária, que me marcou, a mim também, na formação da juventude: Albert Camus e Georges Bernanos foram dois mestres que tive, ensinando-me que o rigor da coerência (ou a chamada honestidade intelectual) é condição necessária de uma autêntica abertura de um olhar humanista à nossa volta. Sem esquecer outros, entre eles François Mauriac, com quem Camus polemicou... e até chegou a reconhecer razão! Todos somos parcelas. 

 

   As trabalhosas arrumações em que me meti vão-me também descobrindo cartas, diários e outras intimidades. Hoje, curiosamente, encontrei-me com umas páginas minhas, datadas de 13/12/84 (23h30), provavelmente escritas logo depois de um jantar em família, em Scarsdale, New York: presumo que a minha filha Teresa - que na altura tinha os seus 17 anos - trouxe para a nossa conversa à mesa duas obras que estaria a ler. Uma delas, Le Malentendu, seria, como confessa o autor em carta a Jean Grenier, ao tempo da conclusão da primeira versão da peça, une histoire de paradis perdu et pas retrouvé. Um regresso à infância?... E/ou, como disse o próprio autor em outubro de 1944, será essa história a de um filho que quer ser reconhecido sem ter de revelar o seu nome [porque me lembro eu agora do Lohengrin?] e que é morto pela sua mãe e por sua irmã, na sequência de um mal entendido.  Registei eu, em 1984:

 

   «Ao jantar, a Teresa lançou a conversa sobre o Huis Clos do Sartre e o Malentendu do Camus. Falar da prisão que tantas vezes nos sentimos, ou da comunicação que é, tão frequentemente, precisamente o contrário...

 

   A mentira, que o dizer, na roda livre de códigos incontrolados, tende a ser. O suicídio que é recusar a comunicação, pelo desespero de ser autêntico.

 

   Compreender que a solidão se vence por dentro, nunca com conversas ou, por exemplo, como cantaria o Marceneiro: foi bem efémero o desejo / do teu coração que, vejo, / no bulício se treslouca...

 

   Entre ouvir a voz de Deus num poço tapado ou cantar a cantiga do infinito numa capoeira (estarão bem lembrados estes versos do Álvaro de Campos?) não há diferença alguma. A única abertura possível está cá dentro, porque só o silêncio nos comunica e só em silêncio ouvimos. Fazer algazarra é equivalente a tapar os ouvidos.

 

   Assim, o amor é secreto, ou seja, uma destilação do silêncio. O que fala por si e só dizemos porque nos ensinaram o hábito de falar.

 

   O pudor é como quem espera, no silêncio, que a liberdade aconteça. Tudo se comunica de dentro. A vida ativa - dizia São Gregório - é um serviço; a vida contemplativa uma liberdade.

 

   Ao amor chama São Tomás de Aquino (e na Summa Theologiae!) o sentimento de inerência mútua. Explica-se ele, quanto à potência afetiva:

 

   Diz-se que o Amado está no Amante, no sentido de se achar no seu afeto por uma certa complacência [gosto partilhado]. Quer dizer-se que o Amante se deleta no Amado se este está presente. Ou, se estiver ausente, que a ele aspira por um amor de desejo; ou ainda, por amor de amizade, pelo bem que quer ao Amado. Tudo isso, não por ação de causa extrínseca, como quando queremos uma coisa com vista a outra, ou como quando queremos bem a alguém por motivo estranho à sua pessoa. Mas, sim, por complacência no Amado, cuja origem está no intimíssimo do Amante. Por isso falamos de amor íntimo e das entranhas da caridade.»

 

   Voltarei, em carta próxima, a estas considerações que, sobre o misterioso Amor, eu tecera num caderno, num fim de serão, já lá vão 33 anos... Elas apenas couberam aqui, pela coincidência do sentimento da minha tensão interior, dessa necessidade do silêncio na construção da palavra livre, ou da solidão como condição fundadora do amor. Marcello Mathias refere no seu Camus - um homem só o conto O Hóspede, em que o professor Daru, a quem um polícia confiara um revoltoso árabe (passa-se isto durante a guerra da Argélia) para que o entregasse à prisão, explica ao árabe as duas opções possíveis - o atalho que o leva diretamente à penitenciária, e o outro, em sentido oposto, que o levará à liberdade, deixando a decisão final nas mãos do prisioneiro. E assim se despedem. Passados uns momentos, Daru olha para trás e avista o árabe a caminho da penitenciária. Por decisão própria. De regresso à escola, Daru lê rabiscado a giz no quadro preto da sala de aulas: «Entregaste o nosso irmão. Hás-de pagar.»

 

   E Marcello conclui assim o seu conto do conto de Camus: Daru está sozinho, vem até cá fora, olha em redor a imensa paisagem à sua volta, dele tão familiar. E Camus termina o conto com esta belíssima imagem: «Dans ce vaste pays qu´il avait tant aimé, il était seul.» 

 

   Estava só - assim se descobria - porque fora silenciosamente capaz desse supremo gesto de amor: deixara ao árabe uma decisão de liberdade, e este livremente escolhera o caminho da prisão. E porque não quisera impor nenhuma lei exterior à que a consciência do próprio revelasse, era agora considerado traidor. Assim também podemos entender a Paixão de Cristo.  

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Era muito ténue a madrugada, mal despontava a alba, quando a passarada desatou sinfonias bem sonoras: surpresa anunciando surpresas? Certo é que a canícula seca destes últimos dias não me deixara prever a súbita libertação de águas celestes que, mal os pássaros se calaram, foi abençoado refresco... Só não sei se tantas aves canoras a pressentiram ou, simplesmente avisadas, celebraram, anunciando-a. Esta manhã, a alegria precedeu o nascer do sol. E logo o peso de outro dia quente me reavivou a memória de imagens tremendas, o choro magoado de tanta gente que o incêndio raivoso de Pedrógão Grande privou de entes queridos e de bens estimados pelo valor do trabalho que os criou. Eis que agora apenas o silêncio dos pássaros me habita, e fecho os olhos: não quero ver a explicação que não encontro. Talvez espere que a contemplação do mistério de tudo me volte a reconciliar. Talvez esse fado da meninice que diz:  É tão bom ser pequenino / ter pai, ter mãe, ter avós, / ter confiança no destino / e ter quem goste de nós... Se possa cantar assim:  É tão bom ser pequenino, / tão fracos, tão pobres, tão sós, / sem sabermos do destino, / querer quem goste de nós! Ninguém sabe como se ressuscita, a fé encontra-se no que devemos esperar.

 

   Aqui há dias, lia no Philosophie Magazine alguns artigos glosando o mote Quel part d´enfance gardons nous? - e encontrei várias citações de autores celebrantes da infância, momento construtor do nosso ser, talvez por ser a idade da esperança, aquela em que um olhar ou um sorriso ainda pode apagar desgosto e tristeza, por vir ao encontro do indestrutível núcleo de qualquer de nós, dessa força vital que é a tal esperança. Recorda-se o sentido evangélico da palavra de Jesus que diz se não fordes como estes pequeninos não entrareis no Reino, ou o ensinamento taoista - que contrariamente ao confucionismo, para o qual a infância é uma situação que deve ser abandonada, por ser o estádio das nossas incapacidades - a considera, não algo para ser deixado para trás, mas um objetivo, um fim a atingir, como nos explica Alexis Lavis, da Universidade de Rouen: Abra-se o livro atribuído a Laozi, o Dao De Jing. Em vários passos, Laozi, "o Velho Mestre", se serve da infância como imagem com valor de modelo. Ali se lê que " o sábio é semelhante ao menino nu. Enquanto os adultos complicam inutilmente a vida, o menino é um símbolo de simplicidade, de despreocupação. Para nos realizarmos, não precisamos de capitalizar saberes nem de entrar no jogo das interações sociais, mas de regressar a essa inocência primeira. Laozi até chega a comparar-se a uma criança de mama. Num trecho espantoso, diz de si mesmo: "ainda mamo na minha mãe"... ...Não se trata, é evidente, de um apelo à regressão, à infantilização absoluta. A "mãe", aqui, remete para o que os taoistas chamam o "Dao", ou Tao, a "Via", que é o fundamento de tudo o que é, o princípio de todo o movimento. O sábio "mama" porque se alimenta nessa fonte da vida - está numa relação de intimidade com o Dao. Em cartas antigas, Princesa de mim, também te falava do Shinto nipónico - essa Via dos Espíritos - tal como te referi o amae, palavra japonesa que resume a doçura do amor, da dependência da mãe, e afinal nos diz essa saudade fundadora da nossa pessoa. Lembro-te ainda duas expressões, uma de Gilles Deleuze, outra de Charles Baudelaire, neste Philosophie Magazine (junho de 2017): Só a infância é capaz de reanimar um adulto como se reanima uma marionete, injectando-lhe conexões vivas... E ...O génio mais não é do que a infância reencontrada à vontade. É, digo eu, essa nossa capacidade de renascer e recriar.

 

   No meu pensarsentir, ser criança é ser ainda capaz de acreditar em que tudo poderá ser melhor, nós e os outros e o universo inteiro, pois que tragédia mesmo é só o inexplicável e há muitas, muitas coisas que só entenderemos quando formos "crescidos". E nenhum de nós sabe quando será nem se nos será então dado o apocalipse. A esperança não é, não pode ser, a pretensão de poder definir e decidir o destino do que se quer que seja, é apenas, autenticamente, a confiança infantil de que o porvir sempre virá por bem. Tal é quase impossivelmente aceitável pela nossa geração, tão convencida ela está de que tudo é controlável, ao ponto de tão facilmente apontar a outros culpas e responsabilidades pelos desastres que nos escapam... Não se prevê, precavê ou investiga, é sempre mais fácil a gente descartar-se.

 

   Dois grandes escritores e pensadores europeus, Stefan Zweig e Georges Bernanos, estiveram exilados no Brasil, onde o segundo, aliás, recebeu a visita do primeiro na sua casa, em Cruz das Almas. Conta Geraldo França de Lima que Bernanos acolheu Zweig com amiga ternura e grande compaixão pelo drama interior que o judeu austríaco atravessava naqueles atribulados anos 40 do século passado. O escritor católico francês admirava nele o espírito europeu, europeísta e pacifista, e ainda a sua marcada defesa dos perseguidos e humilhados. Sentimento com raízes certamente muito profundas no autor do Journal d´un Curé de Campagne, Les Grands Cimetières sous la Lune, ou desse diário que, considero, será a sua mais bela obra: Les Enfants Humiliés. Os humilhados foram também personagens muito afetuosamente queridas por Stefan Zweig, um homem mundano que, todavia, nas suas novelas, se coloca sempre, como que por dever ético, do lado dos humilhados. Jean-Yves Masson, curiosamente, aponta ainda outro aspeto que, no contexto desta carta, gostaria de te mostrar: Um dos textos que mais me tocou foi uma das suas primeiras novelas, O Segredo Ardente. Uma criança é testemunha duma aventura entre a sua mãe e um homem. Mas nada diz, protege sua mãe. Encontramos aí o fascínio de Zweig pelo segredo, pelo que não se deve nem pode dizer. É também um grande texto sobre a infância.

 

   Stefan Zweig suicida-se em Petrópolis (Brasil) no ano de 1942. À pergunta que lhe foi feita por Le Monde, sobre se o escritor austríaco não teria tido forças para recomeçar a sua vida no Brasil, de que tanto gostava, o mesmo professor da Sorbonne, Jean-Yves Masson, responde: ... Esse suicídio é misterioso... porque, afinal ele estava salvo, não estava na miséria. Mas tinha nele mesmo, há muito, um permanente fascínio pelo suicídio. Não como gesto de protesto, mas como gesto de liberdade, um modo de levar em conta o facto de que pertencia a um mundo que já não renasceria. A um mundo perdido, que ele viu acabar-se. Não quis ver o que se seguiria, o renascimento noutro mundo. Seria então um estrangeiro, não por feito do espaço, mas por feito do tempo. O que era verdade.

 

   As pessoas, como as instituições, sejam estas nações, estados ou igrejas, existem enquanto assim podem, mas só são conforme forem capazes de ressurreição que, subjetivamente, é a confiante esperança da infância. Quando, logo após o suicídio de Stefan Zweig, que tantas elegias provocou, Bernanos escreve no brasileiro O Jornal (6 de março de 1942) um texto sobre as Apoogias do suicídio. Diz: Léon Bloy escreveu que devemos a verdade aos mortos. Desse lugar de repouso - locum refrigerii, lucis et pacis - donde doravante lhe é dado observar o mundo que a nossos olhos aparece como a exposição permanente de todas as formas da ignorância ou do ódio, mas de que certamente saberemos um dia que está perdido na imensa piedade de Deus, como um pequeno seixo no mar, o Sr. Stefan Zweig vê a verdade melhor do que nós, e tenho a certeza de que preferiria o silêncio a certos panegíricos sobre o seu acto desesperado... E mais adiante explica: O suicídio do Sr. Stefan Zweig não é, aliás, um drama privado. Mesmo antes e ter sido lançada a última pazada de terra sobre o caixão do célebre escritor, já as agências transmitiam a notícia ao público universal. Milhares e milhares de homens que tinham por mestre o Sr. Zweig, e como tal o honravam, podem ter pensado que esse mestre tinha desesperado da causa dele, e que essa causa estava perdida. A cruel deceção desses homens é um facto ainda muito mais lamentável do que o desaparecimento do Sr. Stefan Zweig, porque a humanidade pode dispensar o Sr. Stefan Zweig ou qualquer escritor, mas não pode ver, sem angústia, reduzir-se o número de homens obscuros, anónimos, que, sem nunca terem conhecido as honras nem os proveitos da glória, se recusam a consentir na injustiça, e vivem do único bem que lhes resta, uma humilde e ardente esperança. Quem toca nesse bem sagrado, quem arrisca a dissipar uma parcela dele, desarma a consciência do mundo e despoja os miseráveis.

 

   Penso e sinto muito, minha Princesa de mim - agora que te escrevo uma carta que não terá continuação tão cedo, já que outros trabalhos proximamente me aguardam - esta minha união a Les Enfants Humiliés do Georges Bernanos, pelo poder da saudade da infância como esperança regeneradora, talvez a força que me faz escrever, bem pior do que ele, como acreditando que, afinal, ainda tudo está ao nosso alcance. Dou-lhe a palavra:

 

   Falar uma linguagem cristã, uma linguagem que toque os corações, ganhe corações - não quero dizer uma linguagem somente ortodoxa, aprovada pelos censores, irrepreensível, mas uma linguagem cristã, Deus meu!... Quantas vezes, desde a vossa infância, ouvistes realmente falar cristão?...   ... Não sei para quem escrevo, mas sei porque escrevo. Escrevo para me justificar. - Aos olhos de quem? -- Já vo-lo disse, mas desafio o ridículo de o redizer. Aos olhos da criança que fui. Que ela tenha deixado de me falar, ou não, que importa, não me acomodarei ao seu silêncio, responder-lhe-ei sempre. Quero mesmo ensiná-la a sofrer, não a desviarei do sofrimento, prefiro vê-la revoltada do que desapontada, pois a revolta, o mais das vezes, mais não é do que um passo, enquanto que a deceção já não pertence a este mundo, está cheia e densa como o inferno.

 

   Por muito que me tivesse doído escrever-te tudo isto, sobretudo pelo receio de não me entenderes, dou graças a Deus e fico com saudade maior do menino que fui.

 

Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Certa amiga minha - Senhora da minha geração, que à advocacia consagrou parte grande da sua vida - no intervalo de outras obras também se entretém, para animar o seu merecido retiro, a comentar atos e factos, ditos e escritos ou seja, a atualidade e as suas circunstâncias. Quando me lê ou escuta - e sou discreto e infrequente - morde-a sempre o alicate da contestação, em sentido próprio, não pejorativo, de resposta dialética. Concorde ou desacorde, fico-lhe sempre grato pela frontalidade, feliz pela gentileza, lisonjeado pelo apreço e contente com a ironia... Bem haja, Maria de Lourdes!

 

   Não engraçou com eu não ter achado graça à laracha do nome Taqui Tali Taculá:  acha que este define ludicamente o dom de ubiquidade do Senhor Presidente da República... Para a sossegar, reconfesso que tal piada não me provocou qualquer saudável hilariedade, quiçá mais por causa do que me parece falta de jeito ou tonta formulação de uma "inspiração", do que pela graça em si. Bem lida a frase onomástica, ficar-lhe-ia melhor graça chinesa do que japonesa: não só porque os nomes sínicos são em regra três, e os nipónicos apenas dois, mas também porque as consoantes líquidas os confundem em sentido foneticamente inverso: o chinês gosta de pronunciar sempre L, o japonês R. Caricaturando, sem malícia: se eu pedir a um chinês que repita laranja, ele dirá lalanja... Se assim desafiar um japonês, ele pronunciará raranja... Não creio que seja motivo de troça, todos os povos têm sotaques, e suas regiões também assim se distinguem, e até conheço muitos "orientais" que pronunciam "corretamente" palavras "ocidentais", tal como muitos europeus que nunca acertam com o u francês nem com o portuguesíssimo ão. Dá graça ao mundo, sobretudo se soubermos gostar das diferenças de pronúncia e devidamente apreciá-las... Embirro com chacota e, por paradoxal que pareça, sou todavia defensor do respeito escrupuloso de transcrições fonéticas com inteligível leitura acordada porque, embora nos deem mais trabalho, nos ajudam a entender e respeitar melhor as falas dos outros. Refiro-me, Princesa de mim, a transcrições fonéticas, não aos chamados acordos ortográficos... São coisas muito diferentes, embora, aliás, tal não pareça ter sido devidamente entendido pelos promotores de certos "acordos"... 


   Mas não te escrevo hoje para te falar disso. Nesta cultura de equívocos em que mergulhamos, é mais preocupante, creio eu, Princesa, a facilidade com que, na chamada "comunicação social", qualquer pessoa bem introduzida nos quiçá misteriosos (ou simpatizantes?) canais de acesso ao público, inclusive gente de espírito pouco culto, ou só ignorante e pretensiosa, ou talvez simplesmente obcecada ou facciosa ganha um espaço de "visibilidade" negado a outros. Há de tudo. Sobretudo muito "marketing" à mistura e também isso a que poderíamos chamar, parafraseando Kundera, a sustentável leveza da fama... Receio que - para além da infeliz ou nefasta divulgação de disparates e mentiras - tal vá paulatinamente minando a credibilidade dos chamados órgãos de comunicação social e, consequentemente, como temos visto, levando à proliferação de "tweeterismos" vários... Por isso também se vêm repetindo, graças a Deus, os apelos à reeducação do espírito crítico e a um renascimento dos "estudos gerais" e "humanidades". Haja bom senso!

 

   Surpreendeu-me o Ípsilon do Público de 2 de junho p.p. com quatro páginas dedicadas à recente edição de uma tradução da Epopeia de Gilgamesh pela Assírio & Alvim, intitulada Épico de Gilgames, por Francisco Luís Parreira. O autor da resenha crítica - para mim tão desconhecido como o tradutor - não poupa elogios à que considera (não sei com que autoridade) a única tradução fidedigna, que se tornará indispensável a todas as traduções ou edições futuras em português... E já antes peremtoriamente nos esclarecia de que: Luxuriantemente anotada e comentada (o corpo do poema ocupa uma centena de páginas, as restantes 150 sendo consagradas à minúcia exegética), valiosa e ostensivamente erudita, a tradução de Francisco Luís Parreira parte do "texto sinóptico transliterado da edição crítica" (trata-se da edição de 2003 do reputado assiriologista Andrew R. George) mas teve em conta "os contributos trazidos pelos achados recentes" (onze fragmentos novos identificados no Museu Britânico e um outro "resgatado, já em 2011, ao saque patrimonial em curso no Iraque e na Síria") e os "estudos assiriológicos posteriores". Presumo, Princesa de mim, que a fidedigna tradução de Parreira - a tal que "parte do texto sinóptico transliterado da edição crítica" - é afinal uma versão portuguesa da tradução para inglês, do original acádio, feita pelo professor Andrew George. Cheirou-me logo pelo título "Épico de Gilgames". Como sabes, Princesa, em língua latina, épico é um adjetivo que quer dizer heroico. Em português, continua a ser adjetivo, mas também, e só, substantivo quando se refere à pessoa ou autor do poema ou da narrativa: temos, assim, um poema épico, uma história épica... ou um épico, muito simplesmente, quando nos referimos a um poeta épico, Camões, por exemplo. A expressão inglesa The Epic of Gilgamesh, em versão portuguesa correta será A Epopeia de Gilgamesh... No texto original, apenas adivinhamos... Além disso, como poderia traduzir tanto texto acádio em escrita cuneiforme, levando pouco mais de um ano, alguém que, como o próprio Parreira reconhece, não tem a assiriologia como "campo académico"? Tenho aqui a edição da versão inglesa de Andrew R. George, publicada em 1999 na Penguin Classics. Ao acaso, abro o livro, detenho-me num passo, busco o mesmo no texto português de Parreira. Vê só, verso a verso: Surpassing all other kings, heroic in stature / supremo entre os reis, soberbo de estatura / brave scion of Ulruk, wild bull on the rampage! / bravo nativo de Ulruk, touro branco enristado! / Going at the fore he was the vanguard, / Marchando na dianteira, era ele o chefe, / going at the rear, on him comrades could trust! / ou, seguindo na retaguarda, arrimo dos camaradas! 

 

   A competência do professor inglês da Universidade de Londres é mundialmente reconhecida, e acho muito bem que, não havendo entre nós quem saiba de acádio ou escrita cuneiforme para se atirar a uma tradução direta do original, se recorra e uma versão inglesa daquela qualidade. Já mais dificilmente aceitarei que o tradutor de inglês para português possa afirmar, como o faz Francisco Luís Parreira na entrevista dada a Mário Santos, o seguinte: Ora, o panorama editorial internacional só registou, até agora, duas traduções integrais do poema que refletem, de raiz, as descobertas e os critérios de George; uma alemã, de Stefen Maul, já com integração de achados posteriores à edição crítica, que ele próprio decifrou, e a minha, que é a primeira a incorporar numa edição "harmónica" o texto do mais importante achado das últimas décadas, o do museu de Suleymaniah, só editado em 2014. É simples a razão da minha reserva: sabemos que a Epopeia de Gilgamesh, tal como muita outra literatura antiga, designadamente aquela que se vai descobrindo por achados arqueológicos, paulatinamente se revela, e ninguém sabe ainda dizer o que encerram textos inscritos no barro, mas ainda não decifrados, muito menos se e quando outras tabuinhas em escrita cuneiforme serão encontradas. Parreira apenas juntou, ao texto que Andrew George "transliterou" do original e ele posteriormente traduziu do inglês, as traduções - presumo que do inglês ainda ou doutra língua europeia - de placas com escrita cuneiforme recentemente descobertas... Daí a reclamar um inexistente protagonismo na tradução "integral" da epopeia arcádia... vai um passo algo exagerado, posto que, incapaz de ler os textos originais na respetiva língua e escrita, nem sequer tem autoridade para afirmar quais deles serão integrais... E ainda se esquece de referir que o professor doutor Manuel Bouzon, padre assiriólogo e biblista, da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro, antes de morrer, quase concluíra, em 2006 a tradução direta do original àquela altura conhecido, como tampouco refere os trabalhos de investigação e tradução do assiriologista francês Jean Bottéro, de que já te falei em cartas anteriores, aliás publicadas no blogue do CNC em 14 e 23 de março e 11 de abril de 2014 (com os títulos de Onde se fala do 7º príncipe de Condé, Como árvores andamos..., Entre cá e lá...).  Todavia, na bibliografia apensa às suas tradução e notas, inclui a menção de obras de Bottéro, incluindo a versão francesa, diretamente do original acádio àquela data já conhecido, de L´Épopée de Gilgames (Gallimard, Paris, 1992), que possuo e li. [A talho de fouce, lembro-me do meu saudoso amigo professor António Sousa Franco, que aconselhava aos seus alunos doutorandos a inclusão, nos anexos às respetivas "teses" ou dissertações, só da bibliografia que eles efetivamente tivessem lido ou consultado].

 

   Nada disso, todavia, retira interesse à publicação de Francisco Luís Parreira, que não deixa de ser uma trabalhosa divulgação de uma narrativa ou epopeia mítica que informou congéneres bíblicas e ainda hoje nos interroga sobre a nossa condição e os nossos anseios, e vai à questão do destino, da vida e da alma humanas. Mesmo que exaustivamente bebida na obra de Andrew George, traz esta edição portuguesa outro contributo ao conhecimento da Epopeia de Gilgamesh e da sua cultura e circunstância, precisamente pela abundância das notas coligidas. Mas não pode, nem deve, retirar mérito a outras obras e seus autores, muito menos diminuí-los. Nem esquecer que poderá haver quem prefira edições menos "eruditas", até por razões tão singelas como gostos de leitura: eu, por exemplo - que não sou nem pretendo ser um perito ou sequer simples estudioso da literatura sumério-babilónica - sinto mais agrado em ler o texto "prosaico" de Pedro Tamen, do que a rebuscada versificação de Parreira. Gostos, Princesa de mim, e desgostos: porque se há-de traduzir wild bull on the rampage! por touro branco enristado!? Também por isso me parecem escusadas e deslocadas, na entrevista conduzida por Mário Santos, e no artigo deste, as referências feitas a Nancy Sandars, Pedro Tamen e, ainda Frederico Lourenço (!). Passarei a explicar-me-te, Princesa de mim. Antes, porém, deixa-me dizer-te que, quando me interrogo sobre qual a autoridade com que fulano ou beltrana se pronunciam sobre dado tema, não procuro qualquer referência necessária a créditos ou títulos escolares,  mas antes me debruço sobre provas de esforçado trabalho ou investigação e, sobretudo, de honestidade intelectual, que mais não é do que essa humildade de que falava Sócrates: Só sei que nada sei... Pretender, como Mário Santos, que em português (de Portugal), e para além de fragmentos traduzidos no âmbito de ensaios ou estudos mais ou menos académicos, circulou nos últimos 40 uma esforçada versão prosaica (sic) feita pelo poeta Pedro Tamen a partir de uma estropiada versão inglesa, para justificar a afirmação de que a presente tradução de Francisco Luís Parreira vem suprir uma lacuna... trata-se, por inerência, de uma edição histórica... e é já um dos melhores "livros do ano"... deveria ser também um acontecimento literário... dispensa qualquer comentário direto. Será que ele quer dizer, com versão prosaica, versão em prosa?Não terá reparado em que Pedro Tamen se limita a traduzir do inglês a versão em prosa de Nancy Sandars, aliás publicada, pelo menos em 1960 e 1972, pela Asian Society e pela Penguin Classics, e elogiada por críticos e letrados assiriólogos? Na verdade, Nancy Sandars, nascida numa família da aristocracia militar britânica, falecida em 2015, aos 101 anos, na mansão familiar onde nascera, foi amplamente recordada, designadamente na imprensa inglesa ( v.g. The Times, The Daily Telegraph, etc.), por universitários e jornalistas, como competente arqueóloga e tradutora, ela que corajosamente tivera de superar uma doença tuberculosa que quase a cegara e por bastante tempo lhe impedira a leitura... Com que fundamento, na entrevista, o próprio Parreira afirma que o trabalho de Pedro Tamen é a tradução de uma prosa inglesa, redigida na década de 1950 por uma divulgadora chamada Nancy Sandars, que se limitou a transvazar materiais babilónicos heterogéneos então conhecidos em forma romanesca. O facto de na capa da edição portuguesa não constar sequer o nome da autora, permitindo a impressão errónea de que se trata do épico babilónio, sugere-me, entre outras, a reflexão de que trabalhos desse género são mais prejudiciais que benéficos. Fui verificar, à edição portuguesa que possuo: na capa apenas surge Gilgamesh; na página 4, em sítio devido, tal como em letras maiores, na página 5, informa-se que se trata da Versão de Pedro Tamen do texto inglês de N. K. Sandars. Na edição do "Épico" (em vez de Epopeia, como seria correto em qualquer língua latina) "de Gilgames", a capa apenas anuncia tradução, introdução e notas de Francisco Luís Parreira e, nas páginas 3, 4 e 5 assinala-se que se trata da versão Babilónia Padrão, a qual mais não é, esclarece-se na página 7, do que a rapsódia do material épico de Gilgames em doze tábuas ou capítulos, composta c. 1200 a. C. por um redator mesobabilónico... sem qualquer indicação da versão inglesa, essa sim, traduzida por Parreira, que não lê acádio nem caracteres cuneiformes. Na verdade, quando ele afirma, na introdução à sua tradução, que a matriz da presente tradução é o texto sinóptico transliterado da edição crítica - que em nota final diz ser a transliteração sinóptica do poema, sucessivamente atualizada por Andrew George - reconhece que o texto por ele vertido para português é a sinopse, em inglês, da transcrição para caracteres latinos da pertinente escrita cuneiforme, trabalho executado por aquele professor inglês. Daí me parecer algo extravagante a pergunta que Mário Santos lhe dirige na entrevista para o Público: Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê? O jornalista talvez não soubesse que as traduções de Frederico Lourenço são feitas diretamente do grego clássico original, não são versões de versões, o que, de per si, as situa num plano de consideração onde ainda não podemos colocar o trabalho de Francisco Luís Parreira. Aliás, as notas "eruditas" também se traduzem mas, falando de Frederico Lourenço, as que ele junta, por exemplo, à sua tradução da Bíblia grega são de sua própria autoria, decorrem do seu próprio labor de entendimento direto do grego clássico.

 

   Aqui tens, Princesa, o que penso. Para concluir que a leitura do Gilgamesh de Pedro Tamen (tradução de The Epic of Gilgamesh de Nancy K. Sandars) é muito agradável, sem complicações rebuscadas, não sendo por isso menos fiel ao encanto da lenda e dos mitos com que a narrativa original e milenária ainda hoje nos leva a pensarsentir a misteriosa aventura humana e a sua circunstância. E para te confessar que a rebuscada versão portuguesa de Francisco Luís Parreira me torna mais pesada a leitura. Todavia, estando esse texto mais de acordo com o do Babilónia Padrão, e incluindo trechos traduzidos de achados arqueológicos mais recentes, servirá certamente melhor aqueles leitores que pretenderem aproximar-se de uma edição crítica mais completa e tenham qualquer dificuldade em dispor ou consultar diretamente as versões inglesas (e não só) das transliterações feitas por esses estudiosos estrangeiros.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Haverá outros, mas eu só conheço dois Hasedera no Japão, ambos na ilha central de Honshu, um na área de Kamakura, outro na de Nara. Ao primeiro se liga, na minha memória, a lembrança de uma visita, em companhia de um jovem casal japonês, muito amigo, que ali guardava o espírito de um filho perdido num desmancho. Na verdade, logo à entrada do recinto, deparei com um jardim acolhedor, donde partia um caminho de pedras até ao templo, ladeado de centenas de jizobosatsu esculpidos em pedraJunto destes budas, santos ou espíritos protetores de viajantes e crianças, os pais de nados mortos ou de crianças falecidas em tenra idade colocaram vistosos cataventos. Este templo budista é famoso por dois dos seus pavilhões, o de Amida ou Buda da Terra Pura, da vida renascida, e o da Kannon ou Buda da Misericórdia, amiúde representado em corpo de mulher, muito raramente com um menino nos braços. Aqui, a estátua de Kannon, que data de 721, é a maior escultura em madeira do Japão. Em tempos idos, falei-te do templo de Biyodo-in, em Uji, Kyoto, magnífico edifício do século XI, com o pavilhão de Amida no centro e duas alas, uma de cada lado, lembrando as asas de uma fénix quando pousa. Símbolo de renascimento, mais surpreendente ainda quando, atentos, esperamos que, in tempore oportuno, um raio de sol entre pela vigia do pavilhão central e faça brilhar o rosto de oiro do Buda Amida, o da Terra Pura Prometida. Símbolo de iluminação. Já a Kannon, qualquer Kannon, me recorda sempre os cristãos clandestinos, os kakure kirishitan, que tinham imagens dela em suas casas, frequentemente com um menino nos braços e uma cruz gravada no pé ou nas costas, disfarçadamente, para que a inquisição shogunal nelas não reconhecesse Nossa Senhora dos cristãos, Mãe de Misericórdia...

 

   O Hasedera em que cantou o Coro Gregoriano de Lisboa, dirigido pela saudosa maestrina Engª Maria Helena Pires de Matos situa-se numa zona montanhosa, perto de Nara. É templo e mosteiro habitado por monges budistas da ordem Shingon. [É mais comum, muita gente o faz, e eu próprio o fiz, referirmo-nos a esta e outras escolas ou tradições budistas, nas línguas ocidentais, como seitas. Mas seita é palavra equívoca, a que facilmente se cola um sentido depreciativo ou pejorativo. Decidi, portanto, designá-las doravante por tradições, escolas, ou ordens, como o faço relativamente às comunidades ou instituições religiosas que, no cristianismo se chamam ordens ou congregações]. Creio, Princesa de mim, que já te contei essa aventura. Passou-se em 2005, depois do terrível terramoto de Kobe. No ano anterior, eu tivera contactos com monges Shingon, que formaram um coro que veio a Lisboa, capital europeia da cultura em 2004, cantar no Coliseu e, face a face com o Coro Gregoriano de Lisboa, na igreja de São Roque. A televisão japonesa (NHK) produziu então e transmitiu um filme de hora e meia sobre o evento e falando de Portugal como destino de viagem para japoneses. A produtora do belíssimo documentário era profissional reconhecida no Japão, a senhora Hiroko Suda, de quem me tornei amigo. Logo a seguir ao desastre de Kobe, ocorreu-me contactá-la e sugerir-lhe que, além dos donativos de bens alimentares e outros, que exportadores portugueses se prontificaram a fazer, poderíamos levar ao Japão o nosso Coro Gregoriano, para que trouxesse às vítimas e aos japoneses em geral um canto fraterno de solidariedade e paz. Conseguidos os necessários patrocínios privados, assim aconteceu. Em Kobe mesmo, celebraram os dois coros, o cristão e o budista, um ofício de meditação e oração numa igreja católica, localizada na área mais devastada pelo tremor de terra e completamente destruída, mas imediatamente reconstruída em cartão reciclado... Acorreu multidão de gente, ninguém ali era estrangeiro. E repetimos o encontro no templo de Hasedera, lá no alto, com ambos os cantos monásticos ecoando por montes e vales... Foi bonito e calou fundo no coração de todos. A senhora Suda, por seu lado, conseguiu ampla cobertura televisiva dos eventos, e ainda a transmissão direta de dois concertos do Coro Gregoriano em Tokyo: um numa famosa sala de concertos, outro na catedral de Santa Maria, onde estiveram mais de três mil pessoas...

 

   Este segundo Hasedera, mosteiro fundado em 686, pouco depois da introdução do budismo no Japão, pertenceu à ordem Hosso até 1588, altura em que passou para a nova congregação Shingon. É famoso por ser o Templo das Flores, e é a oitava paragem dos trinta e três destinos consagrados da peregrinação aos santuários de Kannon no Kansai. As flores ali mais admiradas são as peónias, esplendorosas em abril/maio. E no seu pavilhão central é evidentemente Kannon que se se venera. Permite-me, Princesa de mim, que acrescente ao que acima te disse sobre os bosatsu (tradução japonesa do sânscrito bodhisattva, nome dado aos santos que não querem aceder ainda à plena libertação ou divindade de budas integrais, se assim me posso exprimir, por esperarem levar outros seres humanos a essa plenitude: chamar-lhes-íamos santos, no sentido de nossos intercessores...) que, de todos eles, no Japão, os mais populares são, precisamente a Kannon, principal auxiliadora do Buda Amida, que vela pelos humanos e os ajuda a ascender à Terra Pura; e os jirobosatsu, protetores das crianças (e dos nado mortos)  que, tal como Kannon, também acompanham as mulheres durante a gravidez e o parto... 

 

   Nem imaginarias, Princesa, o porquê da minha lembrança de Hasedera ao começar a escrever-te esta carta. Veio-me da leitura de dois livros (IV e XXII) do Genjimonogatari que contam a seguinte história: jovem ainda, Genji conhecera Yugao, linda e delicada, que morava numa casa rodeada de uma paliçada coberta de flores conhecidas por belas da noite. A jovem dama, vendo o príncipe no jardim vizinho, oferece-lhe um leque branco e perfumado, para nele depor as flores que colhesse. Tocado pela gentileza do gesto, Genji tudo fará para rever a desconhecida, e acabará por tornar-se seu amante. Mas, para a proteger da maldição do espírito ciumento de outra das suas namoradas, levá-la-á um dia para longínquo mosteiro, onde a deixará e ela virá a morrer, dando todavia antes à luz uma menina, filha do seu protetor, o Ministro do Interior. Essa criança será a Tamakazura, de que já te falei e que, embora mais tarde recolhida por Genji, não era sua filha, como muitos pensavam. Mesmo este príncipe apenas soube dela anos mais tarde, através de Ukon, ama de Yugao (Bela da Noite), que depois da morte desta entrara ao seu serviço. Ukon irá em peregrinação à Kannon de Hasedera, e lá encontrará o casal que criara Tamakazura (Precioso Enfeite), e esta menina com eles, já linda moça, que ela levará consigo para o palácio de Genji. São diversos e muito antigos e dispersos pelo mundo os milagres de uma Mãe de Misericórdia.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

      Para melhor sentirmos o ambiente condicionante da produção literária da era Heian, é preciosa ajuda a leitura não só do Genjimonogatari como de diários coevos, donde destaco o da mesma Murasaki Shikibu. Para não me lembrar apenas do tão apreciado papel da poesia, ou de flores primaveris ou folhas outonais, como correio amoroso - numa sociedade em que as damas nobres, quando recolhidas, de homens só podiam ser vistas por seus maridos - e insistindo na liberdade de criação literária que a prática da escrita em hiragana trouxe às mulheres, transcrevo um trecho do diário da Murasaki: Quando meu irmão Nobunori (o que hoje está no Conselho dos Ritos) era rapaz, nosso pai ansiava por torná-lo num bom letrado chinês, e vinha ele mesmo muitas vezes ouvir o Nobunori ler as lições. Nessas ocasiões eu estava sempre presente, e era tão rápida a apanhar a língua, que em breve ajudava o meu irmão quando ele se atrapalhava. Perante isso, meu pai costumava suspirar e dizer-me: "Se ao menos fosses um rapaz, como eu ficaria orgulhoso e feliz!" Mas não se passaria muito tempo sem que eu me arrependesse de assim me ter feito notar. Porque várias pessoas me foram dizendo que mesmo os rapazes se tornavam muito mal vistos quando se descobria que queriam muito aos livros. Claro que, se se tratasse de uma rapariga, seria bem pior! Doravante, fui muito cuidadosa em esconder que sabia escrever caracteres chineses. Por isso ganhei pouca prática de caligrafia, e hoje sou bastante aselha com o pincel. Assim se explica que a escrita da genial Murasaki se fosse fazendo em hiragana, o que, evidentemente, por melhor servir as características da língua japonesa, ajudou o processo de emancipação da sua escrita e o surto de nova literatura.

 

   Tenho diante de mim uma edição francesa do Dit du Genji, em três grossos volumes, profusamente ilustrados por reproduções da pintura tradicional japonesa, que ao longo dos séculos foi sempre acompanhando publicações do romance. Esta é a de Diane de Selliers, Paris, 2008. Os originais das pinturas reproduzidas vêm do século XII ao XVII, a tradução é a de René Sieffert, originalmente editada pelas Publications Orientalistes de France, Paris, 1988. Diz o tradutor: Nem sequer por um só instante tive o sentimento de alheamento, nem no tempo, nem no espaço, mas antes pelo contrário me perseguia a impressão constante de ter entrado numa aventura intelectual ou, melhor, mental, espantosamente moderna. E já muito antes Marguerite Yourcenar dissera "Il ne s´est jamais rien écrit de mieux", quiçá confirmando o assombro do imperador Juntoku (sec. XIII): O Genji Monogatari é uma coisa inexplicável, não pode ser obra de pessoa vulgar. Pessoalmente, já li o que, em português, gosto de intitular Os Contos de Genji, nesta presente versão francesa, na inglesa de Arthur Waley (Charles E. Tuttle Company, Inc., Tokyo, 1970) e até em manga (banda desenhada japonesa), numa adaptação e ilustração de Tsuboi Koh editada pela Shinjibutsu Oraisha, Tokyo, 1989! O romance original compõe-se de 54 livros com múltiplas histórias em que evoluem umas 59 personagens principais e surgem uns 800 waka. Alguns dos livros têm títulos evocativos de poesia: a bela da noite, a flor de que se colhe a ponta, a festa com flores de outono, a estadia em que flores ao vento se dispersam, o vento nos pinhais, essa fina nuvem, a bela da manhã, o ramo de ameixeira, a folhagem da glicínia, o nevoeiro da noite, o príncipe perfumado, o damasqueiro vermelho, a ribeira dos bambus, os sarmentos de vinha virgem, a barca ao sabor das ondas, o efémero, a ponte flutuante dos sonhos... Na verdade, mais do que o acerto e subtileza da descrição de ambientes e cenas, ou dos perfis certeiros das personagens, ou da construção de enredos e intrigas - à sua leitura me prende o encanto lírico e a delicadeza poética do texto... Não vou contar-te, Princesa de mim, nada do que li, apenas te resumo o livro XXV, Os Pirilampos, pela graça inesperada que lhe achei:

 

   Haverá alguns anos, falei-te por carta na princesa Tamakazura, ou Precioso Enfeite, creio mesmo que lhe dediquei um soneto. Tal personagem dos Contos do Genji, e protegida deste, é filha do Ministro do Interior, To no Chujo, e da Bela da Noite, Yugao. Esta, que também fora amante de Genji, já falecera quando decorre este conto. Tamakazura, sua filha, vive no palácio do Genji, na 6ª avenida de Heian, a cinco quarteirões do palácio imperial, onde ocupa, com a Dama da Estadia em que as Flores ao Vento se dispersam (Hana Chiru Sato) os pavilhões de Verão. O seu protetor, com o fito de atrair a sua casa visitas de senhores da melhor linhagem, vai frequentemente vê-la em seus aposentos, incitando-a a recebê-los. Entre os aspirantes, distingue-se Hotaru no miya (príncipe diretor dos assuntos militares), conhecido pelo seu nome de pena: Príncipe dos Pirilampos. Perante a reserva ou aborrecimento de Tamakazura, o Príncipe Brilhante (Hikaru Genji) decide ditar a uma aia daquela (a dama Saisho) uma mensagem encorajadora que, em nome da Precioso Enfeite, será endereçada a Hotaru no Miya... que, aliás, é meio irmão do Genji! Assim consegue que aquele apareça no palácio da 6ª avenida, e do lado de fora do pavilhão espreite para dentro para poder, enfim, ver Tamakazura e contemplar a sua beleza. Esta está à conversa com Genji, escondida de outros olhares, como mandam as regras, por uma cortina. Fingindo ter de dar um toque ao cortinado, o Príncipe Brilhante solta uns pirilampos que, com as suas luzes iluminam a beleza de Precioso Enfeite ao olhar escondido de Hotaru. Fulmina-o assombrosa paixão. Mas, perante o embaraço súbito de Tamakazura, os dois príncipes retiram-se. E só no dia seguinte o Príncipe dos Pirilampos enviará à linda Precioso Enfeite um poema de amor. Para apreciares um pouco melhor o conto, deixo-te tradução de alguns trechos. Mas este livro XXV diz muito mais, nas entrelinhas e pela subtileza. Não te direi o quê, espero que leias os Contos, pois só a leitura nos traz esse inefável gosto das descobertas secretas... Agora, agarro no texto de Murasaki Shikibu, quando o Genji exorta a sua protegida a falar diretamente com o Príncipe Hotaru, ainda que concedendo que ela se mantenha fora da vista deste, escondida por uma cortina de vários estores, num compartimento assim separado do exterior. Precioso Enfeite ali se queda, sem ligar muito ao que o aspirante, do lado de fora, lhe vai dizendo, receosa ainda de que ele ouse entrar na casa. É então que o Genji se aproxima e levanta um dos estores da cortina; nesse instante, como que uma luz se acende. Alguém terá aceso uma candeia? - pensa ela, aterrada. Mas eram os pirilampos que ele tinha, numerosos, encerrado no leve tecido, dobrando-o de forma a ocultar as luzinhas, e que agora soltara, fingindo arrumar a cortina. Confusa por assim se ver subitamente iluminada, ela ocultara o rosto com um leque, oferecendo à luz um perfil de delicada graça. Aproveitando a surpresa da iluminação, o Príncipe também lhe lançara um olhar; ora, todas as suas declarações tinham até então sido feitas confiadamente, pensando que ela fosse filha do Genji; nunca sequer imaginara que ela fosse tão maravilhosamente bela; resumindo: toda aquela maquinação tivera por objetivo lançar a perturbação num espírito prestes a inflamar-se. Mas se ela fosse mesmo filha dele, o Genji certamente a não teria posto em tal embaraço. Que volta dera agora! Tudo feito, saiu sem ruído e voltou para os seus aposentos.

 

   O Príncipe calculara a distância que o separava dela e, vendo-a tão próxima, olhava-a, com o coração aos pulos, pelos interstícios da frágil cortina; o espaço que se lhe abria à vista teria uns dois braços de profundidade, vagamente iluminado por esse inesperado luar que lhe revelava tão agradável espetáculo. Mas desde logo as mulheres diligenciaram restabelecer a escuridão que lho iria esconder. A indistinta claridade, todavia, parecia querer facultar-lhe tema brilhante de conversa. Não se cansava de evocar a beleza daquela forma reclinada, ainda que apenas entrevista. Na verdade, tal como o Genji previra, ficara cativo o seu coração!

 

                                  os fogos deste inseto

                                  demasiado discreto

                                  para à pressa dizer amor

                                  será que dela o pudor

                                  docemente os possa extinguir

                                  sem o seu calor sentir?

 

   - disse ele.

   Se demais refletisse na resposta a dar em tal caso, essa talvez tortuosa saísse, pelo que ela de rompante disse, como  se não lhe desse importância:

 

                                  o pirilampo

                                  que sem erguer a voz

                                  se consume

                                  bem mais do que o palrador

                                  em seu amor acende o lume

 

   E como, isto dito, ela se retirara, ele lamentou a crueldade que assim o mantinha a distância. Insistir parecia-lhe libertino, por isso resolveu não ficar até de madrugada e, encharcado pela chuva que gotejava do beiral e pelas próprias lágrimas do seu desapontamento, pela noite avançada abalou. Algum cuco, como é de regra, terá cantado. Mas sigamos adiante, que não quero aborrecer-vos!

 

   Na edição que tenho nas mãos, este livro XXV publica-se no segundo volume, e vem ilustrado por belíssimas reproduções de pinturas a ouro e tintas de cores sobre papel, feitas na era Edo ou Tokugawa, por volta de 1611-1612, por Tosa Mitsuyoshi, da escola com o mesmo apelido de família (Tosa). E que bem essas imagens nos contam a história, nos revelam os lugares e as suas disposições, nos falam das personagens e dos seus sentimentos! Mas termino esta carta, Princesa de mim, traduzindo o tal poema que o Príncipe dos Pirilampos enviou no dia seguinte e a resposta de Tamakazura. Este waka vinha numa carta que acompanhava um lírio, flor de raiz inusitadamente longa:

 

                                     mesmo neste dia de hoje

                                     porque ninguém trata

                                     de o arrancar

                                     o lírio langoroso mergulha

                                     em águas as suas raízes

 

   Resposta de Precioso Enfeite:

 

                                      à luz do dia

                                      bem curtas à vista

                                      me parecem as raízes

                                      e obscuro o desígnio

                                      dos langores desse lírio

 

                                      Deixe-se de criancices!

 

   Este texto é hoje milenar, foi escrito, na viragem do século X para o XI, por uma jovem mulher. O trecho do capítulo que aqui te deixo diz-me ainda muito sobre uma sociedade cortesã obcecada pela beleza física (feminina e masculina), pela paixão exaltada dos sentidos e, simultaneamente, pelo pudor e a busca poética da sua expressão, pela delicadeza quase silenciosa das suas mensagens, como se eros fosse uma aragem soprando pelos interstícios de portas de correr, biombos, cortinas de pregas e estores laminados... Mas assim também a sua lírica me lembra a das nossas cantigas de amigo, que tanto revelam e tanto escondem, tanto gritam e tanto silenciam, pois tantas vezes, nas voltas dos amores, a nossa natureza é ela e a sua disciplina. 

 

Camilo Maria 

  

Camilo Martins de Oliveira