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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nos dias em que abro o computador e olho para o correio que este eletronicamente me traz, capricho em logo apagar a maioria das mensagens chegadas, que não leio, conforto-me com recados e lembranças de amigos, surpreendo-me a deitar os olhos, por simples curiosidade, a textos e imagens que poderia deixar despercebidos. Entre estes descubro, o mais das vezes, coisas repetidas, isto é, transmissões do mesmo por diferentes remetentes. Presumo tratar-se de temas de sucesso -  como se diz hoje em dia - frases ou relâmpagos que vão fazendo sensação pelos corredores virtuais da nossa leviana comunicação.

 

   Calhou-me apanhar uma gracinha sobre qual seria o nome do nosso atual Presidente da República em japonês: Taki Tali Taculá. Eis mais um disparate da nossa produção nacional de chalaças. Na verdade, tal nome, se assim escrito for mostrado a um filho do Sol Nascente, será por este lido: Taki Tari Tacurá. O nosso líquido L não existe em japonês. Na transcrição em katakana (caracteres fonéticos japoneses para reprodução de nomes estrangeiros), os dois primeiros nomes do nosso presidente, por exemplo, soariam assim: Maruceru Reberu. E, nos liceus nipónicos, é frequente os professores de inglês contarem aquela laracha: R como em Roma ou R como em Rondon?

 

   Tampouco existe naquela língua o som SI. Diz-se sempre SHI. Cito-te este exemplo, Princesa, porque nem sempre, por cá, entendemos bem a racionalidade e a utilidade do método Hepburn de romanização (transcrição fonética do japonês para romaji ou caracteres latinos) que, todavia, a meu ver, é hoje, não só o menos confuso para falantes de muitas outras línguas, como o mais aceitável universalmente. Uso-o sempre, até por ser, quando devidamente interpretado, aquele que melhor transcreve a tónica das sílabas breves ou longas, indispensável à compreensão do que em japonês é dito. Tokyo não se lê Tóquio, nem Kyoto Quioto, como seríamos tentados à portuguesa... Voltando ao SHI que, em transcrições portuguesas, tantas vezes se confunde com CHI, dou-te uma ilustração: chitai deve ler-se tchitai, significa asneira, disparate, e escreve-se com dois kanji, o segundo dos quais é o mesmo, com igual caligrafia e som, na palavra shitai, que se deve ler shitai, e quer dizer pose, elegância. O kanji tai, em ambos os casos, refere-se a aspeto, aparência. Mas enquanto o chi (lê tchi) evoca tolo, o shi fala só de forma, figura. E muito embora possa verificar que, para muita gente, tolice e elegância signifiquem o mesmo, sei que tal não faz sentido no cotejo destes dois vocábulos nipónicos. Por outro lado, também a leitura tchi de chi é mais universal do que a portuguesa chi ou a italiana ki. Aliás, se abrires um dicionário do castelhano, encontrarás, na ordem alfabética do mesmo, o ch, que se lê tch.

 

   No português corrente, a pronúncia de estrangeirismos e neologismos de origem estrangeira é bastante indisciplinada e, em regra, pouco racional. Vá lá a gente perceber porque é que dizemos uísque (e tal qual o escrevemos à portuguesa), mas chamamos quivi ao fruto e à ave que lhe deu o nome indígena neozelandês, o qual foi transcrito por ingleses para ser lido como por lá se diz: kiwi, isto é, quiúi. E que nos custaria chamar a Hawaii Haùaií e a Tahiti Tahìtí, como eles chamam às suas terras, em vez de Avai (para onde?) e Taiti (parece cócega). E porquê Zamora e não Samora (até temos cá uma Samora Correia) e Zapatero para Sapatero (Sapateiro também é apelido português). Ou, ainda, Paóla e Paólo, em vez de Paula e Paulo, ainda que com os ditongos alongados e musicais? Se lemos Hawai com W à alemã, quando a transcrição é inglesa, porque haveremos de pronunciar à inglesa nomes franceses de futebolistas portugueses, filhos de emigrantes em França, como Adrien e Cédric, ambos devendo ter tónica na última sílaba? Inúmeros exemplos poderiam ser acrescentados a estes poucos, entre os quais os nomes de futebolistas em línguas mais "exóticas", como o holandês: a primeira sílaba de Seegelar ou Seedorf devia ler-se Zê, mas dizem-na por aí à inglesa: Si. Se a pronunciassem lusitanamente ou Cé, não me irritaria, nenhum de nós está obrigado a decifrar pronúncias em todas as outras línguas. Mas o doutoral inglês, que esquecem quando não deviam (em kiwi ou Hawai, por exemplo) arrepia-me. Dever-se-á este fenómeno a qualquer alardeada pretensão ou, antes, a relutância em ordenar e regular? Talvez seja só culpa dos mídia, como hoje tanto por aí se gosta de pronunciar, à inglesa, a palavra latina media, há tanto tempo já acolhida pela língua portuguesa...

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tenho o meu gabinete no rés do chão, abrindo sobre uma fileira de miosporos e a "minha" cerejeira do Japão, antes de um vale de pereiras, em cujos baixos está a charca grande, rodeada de choupos. Diverti-me, esta manhã, a observar um casalinho de melros espertos que, mesmo à beirinha de mim se ia entretendo com o que chamo a sua, deles, saltitante restauração matinal. Apareceu então uma pega, muito senhora de sua voz. Ave bonita, com graças de senhora estouvada, terá fugido do seu salão no Palácio da Vila, em Sintra, ou saiu direitinha de Les Bijoux de la Castafiore, pega tão ladra quanto rossiniana, atraída talvez pelo fascínio de algum brilho esquecido no chão? Mais certo é ter ninho por aí, alto posto num dos grandes plátanos, aqui mesmo diante da casa, ou num dos choupos que avisto lá em baixo. Irei ver: os ninhos de pegas também são depósito de quinquilharia, não é só nas aventuras do Tintin que atua a operática Gazza Ladra. Mas não creio que esta ave que por aí vai voando e pousando seja cleptómana; antes fará tudo, como as suas parentes de Sintra, por bem... Esta pega rabuda, por enquanto, vai saltitando e picando pelas ervas, como os melros; ao vê-la não diria que é omnívora como o homem, ainda que também seja pega de um só pego, ou pego de pega única, coisa que o humano nem sempre é. Encontro-a muitas vezes silenciosa, é ave prudente e ciosa, ainda que seja tida por palradora, quiçá porque, dizem, imita os sons alheios... Mas eu só lhe surpreendi berros de alarme. Surpreso fui eu, logo pela manhãzinha, quando avistei sobranceiramente, de secreta janela do meu quarto, uma poupa planando no ar sereno, ao carinho de uma luz de oiro que lhe afagava as cores inesperadas da cabeça e do pescoço e o branco e negro das asas abertas... Não era um pássaro, era uma "apassarição"! Fez-se de súbito franciscano o meu coração, noutras vezes tão distraído da beleza: há milagres assim. 

 

   Não sei porquê, deu-me então para pensar a beleza como sentido íntimo e último das coisas todas. A contemplação do belo é a descoberta da nossa vida, o encontro final, a fruição dessa essência trina (belo, bom, vero) que hoje apenas temos enquanto saudade, desejo e busca. Somos peregrinos do amor, eis todo o nosso sentido. A Teresa Calem, querida amiga, reencaminhou-me, um dia destes, um vídeo sobre um miúdo de 12 anos, chamado Campbell, que dedica as suas horas de recreio, enquanto irmãos, amigos e colegas juntos brincam ou jogam à bola, a costurar bonecos de pano, para depois os levar e oferecer a crianças doentes. Os bonecos são todos diferentes, cada um com sua personalidade e seu nome. Em comum apenas têm o cuidado com que foram feitos e a secreta beleza que torna cada um deles um ser amável, um amigo para ser querido, uma companhia como testemunho de humanidade. Campbell também fez um para o pai, ao saber que este era vítima de cancro. E o pai, comovido, diz que já sente melhoras e, com o filho, acredita que anda ali poder mágico...

 

   Pensossinto que as evidências íntimas não têm necessariamente de ser aparições, alucinações, visões ou ilusões: não são, não podem ser, projeções dos nossos nós mesmos. São o reconhecimento do nosso encontro com o Outro. Narciso afogou-se por muito se ter debruçado sobre a água que lhe servia de espelho. Mas eu, quando, ainda que em fotografia, sinto sobre mim o olhar de magoada misericórdia de Madre Teresa de Calcutá, ardo de assombro perante a mulher mais linda do mundo.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entre muitos poemas e outros temas, a grande poeta Izumi Shikibu (970-1020?), por cuidar que ia morrer, compôs dois tanka: descobri um deles na antologia Goshuishu, o outro na Shuishu. Esta compilação, que abrange mais poetas, é de 997, anterior à outra, que data de 1086, mas os poemas a que me refiro foram provavelmente escritos na ordem inversa. O mais antigo, por ordem cronológica de publicação, na Shuishu, reza assim:

 

          Kuraki yori

          Kuraki michi ni zo

          Irinubeki

          Haruka ni terase

          Yama no ha no tsuki

 

   Na noite escura / por caminho de negrura / devo agora entrar / alumia-me de longe /  lua da franja do monte! - traduzo eu...

 

   O primeiro, por ordem cronológica de composição, mais tarde inserido na Goshuishu, lamenta-se assim:

 

          Arazaramu

          Kono yo no hoka no

          Omoide ni

          Ima hito tabi no

          Au koto mo gana

 

   Ao cuidar que morro / e me aparto deste mundo / quero levar a lembrança / da derradeira visita / que o meu amor me fizer...

 - será, mais ou menos, isto, no sentimento do ocidental que sou.

 

   Se me perguntasses, não saberia responder-te se, na verdade, me ocorreram estes dois tanka pela ideia da morte ou se pela do amor, pelo rasgão da despedida ou pelo vazio que o nirvana pode ser. Ambos, todavia, me remetem para aquele haiku do Kobayashi Issa, quase nove séculos depois, a falar-nos de tempo de despedida, que te enviei em carta anterior. O mesmo haiku, tê-lo-ia, mais literalmente, traduzido assim: É tempo de orvalho / e o tempo de orvalho corre / corre todavia...E ambas as versões portuguesas me dizem o mesmo...

 

   A era Heian, quando Heiankyo designava ainda a capital que se chamaria Kyoto, será certamente aquela em que as mulheres mais se revelaram como escritoras, talvez por lhes ser censurada a escrita sínica, e ainda, de outro ponto de vista, por lhes ser negada a possibilidade de exercerem cargos políticos ou administrativos, mesmo quando eram herdeiras ricas e os maridos vinham habitar a casa da família delas... É interessante observar como o regime sócio económico da nobreza procurava conservar pelas mulheres a fortuna familiar, mas atribuir exclusivamente aos homens o direito e a obrigação de subir, pela carreira política ou administrativa, na escala social. Assim se completavam ambas as contribuições para um matrimónio bem sucedido... O clã dos Fujiwara, que longamente dominou o governo durante a era Heian, conseguiu ir casando as suas filhas com membros da linhagem imperial, e ir assim assegurando a colocação dos varões da família, parentes próximos de imperatrizes, mulheres e mães de imperadores, em postos chave da administração do estado. Contrariamente a um caso narrado em Os Contos de Genji, que fala dos aposentos de três mulheres na mansão do marido comum, não há qualquer documento histórico que permita afirmar que, com exceção do imperador (esse sim, habitava o seu palácio, com seu harém), tal fosse possível: mais ortodoxamente, era na casa da primeira mulher que o noivo residiria, sem que tal o impedisse de tentar seduzir damas da companhia dela ou suas criadas. Mas também podia acontecer que a mulher cometesse adultério que, aliás, poderia não ser punido ou, quanto muito, ser apenas invocado como razão de divórcio. Na sociedade aristocrática de Heian, era corrente a endogamia, sendo os matrimónios celebrados por acordos entre famílias e servindo os seus interesses económicos, sociais e políticos. As normas de prevenção do incesto definiam-no apenas entre ascendentes e descendentes diretos, ou irmãos e meio irmãos. Perguntar-me-ás, Princesa de mim, o que terá este parêntese "socio familiar" a ver com a poesia de que vimos falando. Para além da influência directa do ambiente, costumes e regras de uma corte sobre a requintada cultura das letras e das artes (inclusive as decorativas), vemos que vai progredindo o desenvolvimento de uma literatura nipónica, que se emancipa da chinesa. É à Kokin waka shu, antologia antiga, publicada como volume 8º do Nihon koten bungaku taikei (compêndio de literatura clássica japonesa), de Saeki Umetomo (Tokyo, Iwanami shoten, 1959) que The Cambridge History of Japan (volume 2, Heian Japan, Cambridge University Press, 1999) vai buscar os elementos de informação do texto que seguidamente dela te traduzo, por me parecer esclarecedor:

 

  O waka começou a reaparecer em público por volta de meados do século IX. O seu regresso surge associado a outros desenvolvimentos, entre os quais a revitalização e aperfeiçoamento de interesses e valores tradicionais; o ressurgir do princípio hereditário, que diminuiu a utilidade de uma educação chinesa; o aperfeiçoamento dos kana; e a propensão crescente das grandes famílias à procura do poder através das suas representantes femininas no harém imperial, cada uma das quais era a potencial mãe de um manipulável infante soberano. Em especial, os edifícios em que as consortes viviam, coletivamente chamados o palácio traseiro (kokyu), iam-se tornando em centros de atividade musical, artística e literária. Parece que foi a partir desses apartamentos luxuosamente mobilados que os biombos decorados com a caligrafia de poemas japoneses se foram espalhando por outras partes do palácio (por volta de 850-900), tal como o gosto dessas senhoras por elegantes compitas (lembras-te, Princesa, dos "jogos florais" da nossa juventude?) que mais contribuiu para o aparecimento dos concursos de poesia, um dos maiores fenómenos culturais da era Heian. Houve vivo incremento da procura de waka formais durante os últimos quinze anos do século IX. Os poemas japoneses em biombos (byobu uta) ganharam exposição e fama, multiplicaram-se os concursos de poesia, e os waka começaram a suplantar os kanshi em banquetes e outras funções oficiais. Poetas quase profissionais, dos quais Tsurayuki terá sido o mais estimado, surgiram das filas da nobreza menor, servindo-se dos seus talentos poéticos para forjarem laços com os grandes, e obrando para elevar o estatuto do verso nativo. Bem cedo, no século X, tal atividade culminou na compilação da primeira antologia de waka, a Kokin [waka] shu, editada por Tsurayuki e mais três poetas, burocratas menores, e submetida ao trono por volta de 905.

 

 

   Esta antologia de poesia japonesa, a primeira compilada por ordem de um imperador, encerra 1111 poemas, quase todos waka, e acabará por ser inspiradora e modelo da lírica nipónica por mil anos... O prefácio, ou apresentação, por Ki no Tsurayuki, começa assim: A poesia japonesa tem por semente o coração humano e cresce por numerosas folhas de palavras. Nesta vida, muitas coisas tocam os homens:  tentam então exprimir os seus sentimentos por imagens desenhadas pelo que veem e ouvem. Que homem não irá compor poesia, ao ouvir o canto do rouxinol entre as flores, ou o grito da rã na água? A poesia é algo que, sem esforço, move o céu e a terra e leva à piedade os invisíveis demónios e deuses; que torna doces os laços entre homens e mulheres; e que pode confortar os corações de briosos guerreiros.  Depois, Tsurayuki tenta esboçar as circunstâncias inspiradoras dos poetas selecionados, muitos deles anónimos : quando olhavam para os rebentos florais espalhados pela manhã primaveril; quando em noite outonal escutavam a queda das folhas; quando suspiravam sobre a neve e as ondas que em cada ano se sucediam; quando mergulhavam em pensamentos sobre a brevidade da vida, ao ver o orvalho na relva do chão ou a espuma na água do mar; quando, se ontem eram altivos e esplêndidos,  hoje caíram da fortuna na solidão; ou quando, depois de ternamente amados, foram esquecidos.  

 

   Estes temas são incessantemente retomados na poesia e na pintura japonesa: têm intrinsecamente a ver com o sentimento e o entendimento da vida e das almas das pessoas pela contemplação das estações do ano, movimento do mundo, da efemeridade da aparência, e de um nirvana que é, paradoxalmente, vazio e esperança. Certas exigências de tal contemplação acentuar-se-ão pela influência Zen, que muitos autores estimam que acelerou a evolução do haikai no renga, que o próprio Basho praticou até nos seus derradeiros anos, para o mais sintético haiku, que aquele mestre ainda chamava simplesmente haikai, do qual dizia: o haikai é apenas o que tenho a frente dos meus olhos... Um instantâneo: naquele caminho / a malva p´lo meu cavalo / foi assim comida. Ou ainda essoutro, famoso: nesta velha charca / a súbita rã mergulha / só um som de água... E aquele que dizem ter composto antes de morrer: viajo doente / e meus sonhos pelos campos / soltos se aventuram...

 

   Basho é alcunha que ao poeta foi posta, desde que decidiu viver, pelos seus 36 anos, num eremitério chamado Basho-na, ou seja, ermida da bananeira. O seu nome era Matsuo Munefusa, sendo estes Matsuo uma família de bushi (guerreiros) e diz-se que Matsuo Yozaemon, pai de Kinsaku (tal era o nome de infância de Munefusa) era um musokunin de Iga. Jiro Taniguchi faz dele uma personagem fugaz do seu romance épico Kaze no Sho (O Livro do Vento), com enredo e texto de Kan Furuyama, que nos conta a história lendária de Yagyu Jubei, grande mestre da esgrima japonesa. O pequeno Kinsaku, então com 7 anos apenas, depois de assistir à morte de seu pai, a caminho de um encontro com Jubei, para lhe transmitir informações secretas, percorre sozinho uns bons quilómetros, sobre a neve fria, e ele mesmo dará a informação ao samurai. Assim se espalhou a lenda de que o livro de Basho, O Caminho Estreito para o Interior, teria sido inspirado por uma missão secreta. O título da obra, em japonês, é Oku no Hosomichi, literalmente "caminho (michi) estreito (hoso) do interior (oku)", sendo que o kanji oku, com doze traços, tanto pode dizer o interior de uma região ou país, como as profundezas, ou o íntimo do nosso coração. O mais provável, todavia, é que a obra se refira a uma viagem do poeta, acompanhado, pelo seu discípulo Sora, a distritos da ilha de Honshu, situados a norte de Tokyo. A edição com o título Oku no Hosomichi será a última de uma obra do autor, em vida deste. Vale a pena deixar-te aqui um trecho desse livro de viagem: Os meses e os dias são os viajantes da eternidade. Os anos que vêm e vão também são viageiros. Aqueles que embarcam suas vidas flutuantes ou criam velhos cavalos que os conduzem estão para sempre em jornada, e as suas casas são onde os levarem as suas viagens. Muitos dos homens de idade morrem pelo caminho, e eu mesmo, em passados anos, fui incitado, pela visão de uma nuvem solitária ao sabor do vento, a incessantes cismas de vagabundagem... Passei o último ano a cismar ao longo da costa marítima. No Outono voltei à minha casinha sobre o rio e limpei as minhas teias de aranha. Devagarinho, o ano chegou ao fim. Quando a Primavera chegou e havia cacimbo no ar, lembrei-me de atravessar a Barreira de Shirakawa, até Oku...- Esta Barreira, situada hoje no Shirakawa Seki no Mori Koen (Parque Natural da Floresta da Barreira de Shirakawa), a noroeste e não muito longe de Tokyo, de fácil acesso pelo comboio Shinkansen, fora fortificação em tempos idos levantada para impedir infiltrações, para sul, de bárbaros do norte da ilha de Honshu. Estas minhas cartas não sendo compêndios de coisa alguma, mas apenas confidências de lazeres ocupados, indolentemente te confesso que a leitura, ontem de manhã, desse passo do Caminho Estreito me trouxe à lembrança a abertura do Florbela Espanca, da Agustina: Os sábios experimentados da ciência da morte sabem que os moribundos têm de ser mantidos despertos e em plena consciência dos sintomas do seu fim. Doutro modo, eles não poderiam reconhecer a Luz Fundamental na sua realidade.  A vida dos poetas assemelha-se a esse estado de confrontação em que o espírito se equilibra como uma agulha sobre um delgado fio; movida pelo sopro dos desejos egoístas e a força do eu, a agulha cai e a vida é arrastada de novo para a sua roda de padecimentos. Bardo significa entre dois estados, quer dizer, situação crepuscular e incerta que oscila entre a morte e o renascimento. Os lamas chamam bardo ao estado imediato à morte; o corpo bárdico começa então a usar as suas faculdades supranormais e pode atingir diversos graus de uma nova existência. O bardo celta, ligado à função sacerdotal, manifestava-se pela poesia lírica ou heroica e provavelmente teve origem na escola búdica, que ensina que tudo o que o homem pode aprender pode crer também. As imagens semeadas no seu pensamento durante a vida são fecundas no espírito que o acompanha na morte. Esta observação, escrita há mais de quarenta anos, traz-me, hoje ainda, insuspeitamente, o brilho da inesperada argúcia de Agustina Bessa-Luís. Pode servir de chave para a leitura de alguns dos poemas nipónicos que tenho vindo a referir-te... Reparo em que nunca mais me calo, parecem infindáveis as minhas cartas: sem o talento nem a graça do Nemésio (se bem me lembro), desfio, melhor, deixo desfilarem em mim memórias, pensandossentindo que, se tudo o que o homem pode aprender pode crer também, também em tudo aquilo de que me posso lembrar me posso encontrar. Como contigo, Princesa, porque te conto. E com todos esses, homens, livros ou poetas, de que falo ou cito, só porque me aparecem sem que eu os tenha mandado vir... Talvez seja isso uma velhice feliz. Com muita companhia.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Terminava a minha última carta, traduzindo-te um haiku do Kobaiyashi Issa, poeta que viveu de 1763 a 1828, bem depois de Basho. Jiro Taniguchi inclui-o no seu Furari, creio que por ser contemporâneo de Ino Tadataka, sob cuja direção se mediu e desenhou o Dai Nihon enkai yochi zenzu (1832), o primeiro mapa completo do território e mar do Grande Japão. Para o efeito, utilizaram-se técnicas europeias que, já no período Edo, antes mesmo da era Meiji, - na qual, erradamente, te disse que Tadataka Ino ainda teria entrado - começavam a "modernizar" o Japão. Terá sido esse cartógrafo, ou um seu colaborador, o inspirador da personagem sem nome do herói de Furari. O poeta Issa que, menino ainda, perdera a mãe e foi malquerido pela madrasta, tinha também hábitos peregrinos e um olhar cheio de ternura pela natureza e pelas pessoas, sobretudo as crianças e os mais fracos. Cedo perdeu os seus quatro filhos, deixando-nos este haiku pela morte do último sobrevivente, comparando a insignificância deste mundo e desta vida com a eternidade no paraíso de Buda:

 

          Tsuyu no yo wa

          Tsuyu no yo nagara

          Sarinagara

 

   É tempo de nada / de despedida de nada / despedida só - traduzo eu, muito livremente. Mas nota bem: neste, como noutros, em português, conto, ao nosso jeito, 5-7-5 sílabas.

 

  (Vou guardando cá por casa os meus achaques, distrai-me e até me alivia este meu entretenimento com letras japonesas) 

 

   E faz como eu: conta também,em cada verso japonês (aqui posto em caracteres latinos ou romaji), as suas 5-7-5 sílabas, somando 17 no haiku inteiro, o verso nipónico sendo sempre um penta ou um heptassílabo. Diferentemente da língua chinesa, que é pobre foneticamente, servindo-se mais de tonalidades do que de diversidade de sons, o japonês tem uma fonética comparável, por exemplo, à do italiano ou do português, sendo cada sílaba formada por uma consoante e uma vogal. Todavia, a poesia nipónica não procura a rima, antes a evita. Por outro lado, é evasiva, o poema japonês é, por regra, inconclusivo, por vezes até só uma impressão da qual o próprio autor se ausenta. Como neste haiku de Basho (1644-94):

 

          kumo no mine

          ikutsu kuzurete

          tsuki no yama

 

que traduzo assim:  cúmulo de nuvens / descompõe-se em muitos flocos / montanha de lua...

 

 Escolhi-o por acaso, mas ocorre-me que o mesmo serviu para o seguinte comentário do professor Donald Keene, da Columbia University (New York), quiçá um dos ocidentais que melhor conhece a literatura nipónica: Um poeta ocidental teria provavelmente acrescentado uma conclusão pessoal, tal como D. H. Lawrence no seu Moonrise, em que diz que aquela visão lhe deu a " certeza de que a beleza é algo para além do túmulo, essa perfeita experiência do brilho nunca cairá no nada". Eis algo que nenhum poeta japonês diria explicitamente: ou o seu poema o sugere, ou então falhou. Os versos de Basho acima citados terão claramente falhado se o leitor acreditar que o poeta ficou impassível perante o espetáculo que descreve. Mesmo para leitores sensíveis às qualidades sugestivas do poema, a natureza da verdade percebida por Basho diante da súbita aparição da montanha iluminada pela lua variará consideravelmente. Na verdade, Basho consideraria falhado o poema se este apenas sugerisse uma experiência de verdade. O que os poetas japoneses mais frequentemente procuram é criar com poucas palavras, o mais das vezes através de algumas imagens insinuantes, o enquadramento de uma obra cujos pormenores devem ser fornecidos pelo leitor, assim como numa pintura japonesa umas poucas pinceladas podem sugerir um mundo inteiro. Eis também porque pensossinto que traduzir poesia japonesa é como tentar captar o etéreo, tanto ela nasce de surpresas íntimas e instantâneas. Cada leitor sentirá a seu modo revelações de um poema surto noutro tempo. A forma poética normaliza comunicações, não comanda conteúdos.

 

   Sendo fraquíssimo conhecedor do idioma nipónico, tenho lido toda a literatura que me chega através de traduções francesas ou inglesas. Mas sempre que se trata de encontrar uma versão portuguesa para algum curto texto, um qualquer conceito que repute importante, ou, sobretudo, um poema, encho-me de brios, deixo de contar o tempo a consumir, e atiro-me à obra. E ora decifro kanji (que me parecem fundamentais para o entendimento de certos conceitos e certamente do significado de nomes de pessoas, épocas e lugares) ou vou em busca de transcrições em romaji, que directamente traduzo, servindo-me rigorosamente do Dicionário Universal Japonês-Português, do padre Jaime Cepeda Coelho, SJ., querido amigo -para cuja edição pela Shogakukan, Tokyo, em 1998, também dei a minha ajuda -, mas sem esquecer A Guide to Reading & Writing Japanese (Charles E. Tuttle Co. Inc., 1959), pelo apoio que me dá ao reconhecimento dos romaji em caracteres sino-nipónicos. Fundamental. Não será obra, mas dá trabalho. Trabalho muito compensador, pois me aproxima mais das origens e espírito dos textos, e me traz um entendimento novo. Já agora, Princesa de mim, deixa-me dizer-te que esse esquecimento das nossas raízes, que me aflige, e de que tanto te tenho falado, essa transformação da memória e da cultura do espírito das nossas sociedades hodiernas em vagos registos efémeros, me recorda com frequência aquela imagem dada pelo Zygmunt Bauman: a dos registos magnéticos, em fitas ou discos, ou no que for, que depressa se apagam e substituem. Já não sabemos quem somos. Tampouco saberemos o que quer dizer muito do que dizemos: a nossa errante levitação audiovisual, acompanhada de novas ortografias e da ignorância geral das raízes da nossa língua, parece-me que nos corta o entendimento... Mas estou mesmo velho. Novo é ainda o professor Toru Maruyama, da Universidade Nanzan, em Nagoya - com quem mantive longas e amigas conversas - que se dedicou à aprendizagem do português só para poder restaurar a fonética da língua japonesa nos séculos XVI//XVII, já que a transcrição da mesma era feita, nesse tempo, pelos jesuítas portugueses ... em romaji ! Com o padre João Rodrigues, o tçuzu (intérprete), à cabeça, inventaram um sistema de transcrição que ainda hoje funciona! E a mim, por exemplo, me ajuda a dizer um haiku. Sem todavia me esquecer de chegar o melhor possível ao original, mesmo não tendo quaisquer pretensões a tradutor de poemas nipónicos, coisa que faço só por gosto, para afinal recitar a minha induzida inspiração. Assim, qualquer "haiku" meu é apenas o que essa palavra quer dizer em dois kanji lidos da direita para a esquerda: verso (ku) por graça ou gosto (hai). Just for fun. Sobretudo quando manhas de saúde não me deixam sair de casa...

 

   Waka é, originalmente, desde o século VI, a designação da poesia japonesa, para a diferenciar do kanshi, ou verso chinês. Na verdade, este, composto em chinês por poetas chineses ou japoneses, não se casava com a poesia oral nativa, a Yamato no uta, ou canto do Japão Antigo (Yamato), pelo que foi este sendo registado em escrita sínica japonizada, obedecendo então a novas formas poéticas. Assim, o poema japonês de 31 sílabas (5-7-5-7-7) ou tanka (canto breve ou poema curto), torna-se a forma dominante do waka, confundindo-se com ele, contrapondo-se ao chosai ou poema longo. Surgem também, pela cultura nova de uma língua japonesa escrita:

 

 1- o renga, poemas encadeados (como uma "desgarrada"!), que se encontra já no Kojiki (registo das coisas antigas, de 712) e é, na sua forma mais simples, um tanka cujos três primeiros versos são escritos por uma pessoa e os dois últimos por outra; lembra-me um pouco a nossa tradição de mote e glosas ou voltas, ao reparar em que, no decurso da era Heian, era passatempo de cortesãos, em que o segundo compositor procurava coroar os três versos do primeiro; mas, na verdade, o renga era muito praticado nos mosteiros budistas e entre poetas populares, e, afinal, podia desencadear-se quase sem fim  --  um dos seus estilos tornando-se conhecido por haikai, no sentido de ligeiro, livre, simultaneamente, de regras restantes das composições chinesas e de temas sempre sérios;

 

 2- o hokku, que é esse terceto inicial, dará origem a outra forma poética, largamente praticada ao longo de séculos, e hoje internacionalmente reconhecida e imitada, ainda que só no XIX lhe seja atribuído o nome de haiku; o primeiro terceto pode pois ser glosado como mote, mas ir-se-á chamando haikai ao que, originalmente, mais não é do que a autonomização do hokku, isto é, a "promoção" do primeiro terceto de um tanka renga a poema independente.  Certo é que se confunde muitas vezes a designação haiku com hokku ou haikai... Mesmo entre poetas e letrados nipónicos surgem, em matéria literária, hesitações e confusões. Para melhor entenderes esse passo de tanka-renga-haikai (haiku), vou buscar ao Shin Kokinshu (Nova Antologia de Poesia Antiga e Moderna, de 1205) um poema de Minamoto no Toshiyori, que traduzo do japonês, com o indispensável auxílio do "meu" dicionário e do "meu" guia de regresso aos pertinentes caracteres sino-japoneses:

 

          furusato wa

          chiru momijiba ni

          uzumorete

          noki no shinobu ni

          akikaze zo fuku

 

   na casa natal / caem as folhas do bordo /  cobrem o chão todo / e vão  prender-se aos beirais / ao sopro do outonal  vento...

 

   Lê, Princesa, os romaji à portuguesa, mas abrindo as vogais todas, e contarás, por esta ordem, versos de 5-7-5-7-7 sílabas. Os três primeiros somam 17 sílabas e, por si, formam aquilo a que se pode chamar um haiku. Os dois últimos, acrescentados por um segundo compositor aos três primeiros, vão formar um renga. Mas se este mesmo poema tivesse sido escrito por idêntico autor seria simplesmente um tanka, com as suas 31 sílabas.

 

    A escrita japonesa faz-se em kanji, ou caracteres chineses, em hiragana, ou caracteres chineses simplificados e cursivos, silábicos e fonéticos, e katakana, isto é, kanji cortados, constituindo um silabário fonético que serve para escrever nomes estrangeiros. Kanbun apelida qualquer texto em chinês clássico, composição literária, mesmo japonesa,  escrita em chinês. É uma prática de escrita, reservada a letrados. De facto, só pelo século VI se começou a escrever no Japão: em letra chinesa, pois do Império do Meio viera a escrita então introduzida no do Sol Nascente. Aliás, os letrados nipónicos começaram por ler e escrever textos chineses, passando depois a utilizar a escrita sínica para redigirem textos em japonês, desde documentação comercial a histórias, lendas e narrativas constantes da tradição oral da cultura japonesa. Progressivamente, foram-se simplificando caracteres chineses, de modo a constituir-se um silabário fonético e a introduzir partículas próprias à sintaxe nipónica. Dos milhares de caracteres chineses, a gramática e a escola japonesas retiveram apenas 1850 - 881 dos quais considerados básicos e obrigatórios - mais uns tantos apenas utilizáveis em alguns nomes ou apelidos pessoais. A talho de fouce, posso acrescentar que também em coreano, que desde o século XVI inventou uma escrita própria, muito diferente da chinesa e das japonesas, os nomes que lemos em cartões de visita, por exemplo, se escrevem em caracteres sínicos...

 

   Como aliás anteriormente te disse, Princesa, cada caracter chinês tem, pelo menos, duas leituras fonéticas possíveis em japonês: a on-yomi (leitura china) e a kun-yomi (nipónica). Mais ainda: um kanji, a compor uma palavra, pode esquecer o seu significado de ideograma, para reter tão só um seu valor fonético. Tal como pode reter ambos: assim, kanbun (nome dos primeiros escritos - em caracteres sínicos, claro, no Japão) - escreve-se com dois kanji, o primeiro (kan) querendo dizer chinês e o segundo (bunescrito (ou composição literária).  As pronúncias são, aqui, sínicas, tal com em kanji, que quer dizer chinesa letra. Bungaku significa literatura, já que bun é o escrito e gaku a ciência, ensino ou aprendizagem da escrita. Ora, nos primórdios da literatura no Japão - ainda no período de Nara - a escrita chinesa e a sua literatura eram apanágio e privilégio dos letrados, apesar de senhoras da corte imperial, já na era Heian, como a célebre Murasaki, autora do Genji Monogatari, terem acesso a elas. Mas, para escreverem (e eram relativamente correntes os diários, cartas, bilhetes e poemas, até porque mandavam as regras de uma corte polígama - onde se insinuavam clandestinas promiscuidades - que só aos maridos as mulheres pudessem mostrar o rosto, pelo que falavam com amigos e amantes, por detrás de um biombo ou outra divisória, e comunicavam, o mais das vezes, através de flores e bilhetes poéticos) recorriam ao silabário hiragana, não só porque esse lhes era autorizado, mas também porque lhes facultava uma expressão mais autêntica, fluente e matizada, do pensarsentir japonês... Aliás, desde muito cedo, os próprios caracteres sínicos foram sendo utilizados para se lerem à japonesa, isto é, sendo ideograma, o mesmo caracter podia ser pronunciado consoante a palavra chinesa correspondente, ou a sua equivalente nipónica, donde as leituras on-yomi e kun-yomi... E logo o idioma japonês se apropriou dos mesmos caracteres para reproduzir sons em textos. Explico: o ideograma chinês shu (mão), poderá ler-se em japonês, com o mesmo significado, mas também como simples sinal fonético na composição de outra palavra. Quando, para tal função, ele é mais simplesmente desenhado ou caligrafado em hiragana ou, mais tarde, em katakana, o fonema serve exclusivamente a língua nipónica escrita, que assim se emancipa do colete da letra chinesa.   

 

   Da primeira antologia escrita da poesia japonesa, a Man´yoshu, já te falei há tempos, ou sobre ela escrevi alhures. Man diz dez mil, yo folha de papel, shu é sufixo para contagem de poemas, posso pois concluir que se fala de dez mil folhas de poemas ou antologia. Na verdade, tal coletânea de poesia japonesa anterior ao ano 759, contém, em 20 livros, 4516 waka, dos quais 4200 tanka (poemas curtos), 265 choka (poemas longos) e mais poucos poemas chineses e notas nesta língua, em também se escreveu o título da compilação. Curiosamente, o caracter usado para folhas (yo) pode, em leitura japonesa, querer dizer, era, reino, geração... Mas de antologias, espírito e inspirações da poesia nipónica te falarei noutra carta. Tal como voltarei ao Genjimonogatari, obra prodigiosa, escrita por uma mulher, e que tanto nos diz da vida da corte imperial e da estética da era Heian, período em que a capital que Kyoto foi, enquanto residência dos imperadores, durante um milénio, acolhia também o governo... O vício do esteticismo e o relaxamento dos costumes da corte fizeram todavia que este acabasse por se instalar noutras partes, começando por Kamakura, onde surgiu o primeiro shogun, Minamoto no Yoritomo em 1192...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tão de ouro era a luz desta manhã, que me quedei na varanda quieta do meu quarto, aberta sobre os campos próximos e alegrada pelo voo de melros, pardais, verdilhões, toutinegras e poupas... São estas as mais raras, gosto de as ver pousar, para lhes admirar a poupinha e as penas zebradas. Senti muito a falta das andorinhas, tem-me feito sofrer a ausência delas, aqui na nossa Várzea da Pedra, nesta Primavera. Creio que, quando cá chegaram, não encontraram ninhos nem os beirais iguais aos que tinham deixado: as obras que tivemos de fazer no exterior da casa, apesar de eu ter pedido que poupassem os nichos das aves, levaram tudo a eito... E tenho saudades de ver valsar as andorinhas, e muitas mais de as ver compor, quais notas de música numa partitura, os fios elétricos e telefónicos que cruzam a vereda aqui defronte...

 

   Mas contava-te que me pus de contemplação na varanda do quarto. Eis que, súbito, surge veloz no céu um peneireiro (falcão vulgar) que se projeta e toca o solo, mesmo na margem do lago ou charca que a quinta tem lá nos baixos do pereiral. Fulminou um rato e banqueteou-se. Lembrei-me então - pois ando em semana de releitura do Taniguchi - do milhafre que, num conto de Furari, se apropria dum peixe que o pescador, num bote, está a retirar das águas do rio Sumida, preso ainda ao anzol da linha da sua cana. O protagonista do conto e do livro todo - cujo título, Furari, se pode traduzir por Ao Sabor do Vento - é um geómetra e cartógrafo japonês do fim do período Edo e início da era Meiji (séc. XIX), que se entretém a percorrer Edo/Tokyo (e outras paragens) contando os passos com que vai medindo as distâncias. Cada passo mede sensivelmente 70cm, isto é, 2 shaku (30,3cm) e 3 sun (3cm), unidades de medição ainda hoje utilizadas para antiguidades. Para ele, a velocidade e golpe certeiro do milhafre é motivo de assombro e de imaginação sobre como se desenhará Tokyo, vista do céu, lá das alturas por onde a ave voa...

 

   Furari é uma obra a que volto com frequência, não só pela sempre notável qualidade do desenho de Taniguchi, e pelo carinho perene e infantil espanto do autor pelas pessoas e o mundo à volta delas, como pela fidedigna descrição da cidade de Edo, das cenas de rua, das paisagens e das estações do ano, das vestimentas, usos e costumes, para não falar do encanto de um espírito científico e empírico sempre em caminhada de descoberta. E temos ainda o gosto das lendas e narrativas tradicionais, como na cena que a seguir para ti evoco.

 

   Os mochi são uns bolos de massa de arroz, uma pasta pegajosa e plástica, que obrigatoriamente se comem pelo Ano Novo, infelizmente vitimando por engasgamento uma ou outra pessoa idosa, todos os anos, por ocasião da festiva refeição. O primeiro dia do ano é também data de se ver o nascer do sol, sinal de novo ano, nova vida. Agosto, por sua vez, é mês de contemplar a lua cheia. Assim como nós amamos o luar de agosto e as desfolhadas. No conto A Lua, de Furari, o nosso herói passeia-se de canoa, com sua mulher, pelo rio Sumida, em plena cidade de Edo (Tokyo). Também fiz essa experiência fluvial e romântica, petiscando, bebendo saké e olhando a lua. Deixam o bote flutuar ao sabor da corrente, vão silenciosamente gozando o momento. Mas Eï, a mulher, fala: Que beleza serena! Mas porque haverá um coelho que faz mochis na lua?  E a conversa entre ambos vai continuando: Desde quando fala o budismo nisso?... Para expiar as faltas de um mundo anterior, um coelho corajoso quis fazer uma boa ação... e ofereceu a própria vida... Então Shakra comoveu-se lá no alto dos céus, e levou-o e instalou-o no reino lunar... Diz-se que é desde então que se vislumbra um coelho na lua... Será que os desenhos que vemos na lua já antes se pareciam com um coelho? ou será que essa lenda é anterior? Não sabemos. Mas seja como for, é facto que a lua é o astro mais próximo da terra... E isso de estar sempre a mudar de forma acentua ainda mais o seu mistério... Mas é um astro magnífico, que nos é familiar... Entretanto, à beira-rio, o poeta Issa escreve um poema: Apanha para mim / a lua / pede a criança chorando...

 

   Mais tarde, tal como dantes, o caminhante Ao Sabor do Vento continuará a contar e a medir os seus passos, mas sempre de olhos no céu.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   No seu texto de apresentação da exposição L´Au-delà dans l´art japonais (Paris, 1963), de que te falava na minha última carta, Seiroku Noma não podia esquecer o monge Mincho (século XIV-XV), pioneiro da utilização da tinta da china na pintura japonesa, e diz: As obras de Mincho e de Josetsu acentuaram o vigor do desenho, como que para mostrar a acuidade da intuição do Zen, e os seus temas foram sobretudo relativos à iluminação. Chama-se Zenki-ga a tal pintura, a palavra Zenki significando qualquer ocasião que provoque a iluminação. A variedade dos assuntos abordados por Shubun, Sesshu e outros artistas mais tardios estendeu-se às paisagens e à representação de flores e pássaros. Essas paisagens não valem apenas pela beleza natural dos sítios, ilustram o que os artistas consideravam ser o quadro puro e calmo conveniente à habitação de um monge Zen. Quando pintavam flores e pássaros, faziam-no para libertar a "budeidade" inerente às plantas e aos animais que, para esses artistas e o seu público, mais não eram do que formas da transmigração das almas. Pela mesma razão vimos surgir, entre esses monges, criadores de jardins...   ... Como o essencial da pintura Zen era surpreender o coração escondido por detrás da complexidade superficial da aparência, ela rejeitou a cor e escolheu o estilo monocromático.

 

   Muito embora também próximo da chamada "linha clara" da banda desenhada europeia, o desenho de Jiro Taniguchi, sobretudo o que ilustra a sua obra intimista, mais espiritual, inspira-se certamente na tradição Zen, quer no que toca a surpreender a alma das plantas, dos animais e das pessoas - e, como ele mesmo confessa, a força dos fenómenos maiores da natureza, incluindo os cataclismos em que ela se revela dura e perigosa -- como na procura da iluminação, isto é, do espírito escondido que anima tudo. Alguém já disse, e creio que muito bem, que Taniguchi tenta desenhar o indizível... Deus cala-se ou, pelo menos, parece calar-se: assim começa um livro do jesuíta Louis Barjon, que consegui desencantar das profundezas da minha biblioteca, a pedido de um velho amigo meu, o frei Eugénio de Paiva Boléo. O título da obra é Le Silence de Dieu dans la Littérature Contemporaine, tenho-o desde os anos 50, quando o comprei em Paris. Pensossinto que poderia, hoje ainda, entender os vários porquês das problemáticas a que o livro acode. Mas com outra distância: a minha convivência local com a cultura dita oriental induziu-me - devo reconhecê-lo - a uma aproximação diferente a questões como a do mal e da culpa, do mundo e do espírito e, sobretudo, da presença de Deus em tudo. Não deixei de ser e pensarsentir-me cristão, mas sê-lo-ei hoje de um modo diferente. O meu pressentimento do Zen japonês, sobretudo pelo que ele me deu de abraço da natureza e do nosso despojamento interior, retornou-me a Mestre Eckhart e a uma mística cristã que desde muito novo me envolve. Os Evangelhos continuam a ser, para mim, as mais comoventes narrativas da literatura mundial, mas quem, como tu, os tem lido e relido, compreenderá melhor o que quero dizer quando afirmo que, depois da minha meditação "oriental", os leio mais simultaneamente à luz de S. João Evangelista e com os olhos e o coração de S. Francisco de Assis.

 

   Todavia analisei muitas arquiteturas teológicas que tentam explicar a boa razão do mal que conhecemos, e até debati a questão, inclusive nas minhas cartas a José Saramago (lembras-te?), tal como escutei o grito angustiado da perplexidade de crentes (o próprio Jesus clamou na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?), assim como a revolta de ateus e agnósticos (pensa no Goetz de Le Diable et le bon Dieu do Jean-Paul Sartre : Est-ce que tu m´écoutes, Dieu sourd?- perante a morte desamparada de Catherine). Mas acabo por me render à evidência do mistério que tudo é para mim. Não entendo, não sei explicar. Faço por me despojar dos meus sentimentos, revoltas e resignações, angústias e euforias. E num silêncio escuro, vácuo, espero o encontro com o indizível, inefável, porque fora do tempo e do espaço das nossas medições. E pensossinto que a minha desinvestidura, despojamento e despedimento de mim, é a porta aberta para a íntima alegria possível: a do acolhimento universal, que é o amor. Até de mim, que em tanto mal tenho comungado e ao bem apenas tenho aspirado. Deus - eis a lição da incarnação, morte e ressurreição de Cristo - está connosco, presente na partogénese da Jerusalém celeste.

 

   Escrevo-te estas linhas ao som das Pièces de Viole, 1701 (Hommage à Mons. de Lully et Mons. de Sainte Colombe) de Marin Marais, excecional compositor de peças para viola da gamba, neste registo tocadas por Jordi Savall. Foi este músico catalão que redescobriu Marais e o seu instrumento antecessor do violoncelo. O mesmo Savall - de quem tantas vezes te falei já - que, há pouco ainda, foi partilhar, com companheiros músicos sérvios, afegãos, africanos, judeus, turcos e outros europeus, sul-americanos, etc., música do mundo, com os refugiados migrantes encerrados na "selva de Calais". O Jordi tem feito diálogo de culturas através da música, e, em Calais mesmo, não tocou só para refugiados em seu ghetto, foi à cidade tocar para os seus habitantes: o objetivo da integração é que cada cultura tenha o seu espaço e fecunde a sociedade pela sua contribuição. A riqueza de um país mede-se pela sua diversidade; as sociedades fechadas tornam-se decadentes, apenas prosperam as que se abrem - disse ele recentemente. E mais adiante: A intensidade dos fluxos migratórios e a falta de uma política de acolhimento eficaz levam os povos a sentirem-se invadidos no seu próprio solo...  ... Por isso toquei também na cidade de Calais, para apresentar aos habitantes aqueles que vivem perto deles. E à pergunta sobre se o Ocidente terá o monopólio da intolerância (a entrevista é atual e francesa), responde: É evidentemente necessário opormo-nos à mentalidade teocrática, à rejeição do incréu que grassa em certos países e é por vezes exportada para os nossos. Mas nós contribuímos, através de intervenções nossas, para a emergência de regimes intolerantes e totalitários, e assim também para a destruição dos países donde vêm esses refugiados. O problema fundamental não é um racismo que fosse exclusivo deste ou daquele povo, mas a incapacidade de muita gente aceitar um autêntico diálogo intercultural, o único que nos permite conhecermo-nos na paz. Ajudando os jovens a apropriarem-se da sua cultura, e a partilhá-la connosco, podemos fazer com que as coisas avancem...   ... É preciso trabalhar naquilo que amamos; se sentirmos que o resultado tem alguma utilidade, tudo muda. É por isso que não toco só nas grandes salas, mas também nos hospitais e nas prisões. Se não levarmos aos jovens a experiência da beleza, dentro de vinte anos estarão vazias as salas de concerto. É preciso trabalhar para o porvir. Sem utopia, não há criação possível.

 

   Antes de assinar esta carta, pensossinto o Papa Francisco (nome profético!) no Egipto, em convívio, sem proteção blindada. O Ernâni que, com o António Luciano, é um dos amigos do coração, com que partilhava afinidades espirituais difíceis de proclamar - e eles eram, noutras coisas, bem diferentes um do outro!  -- acreditava muito na comunhão dos santos. Ambos da minha mesmíssima idade já não precisam de instrumentos de métrica, muito menos de cálculos a prazo. Sabem melhor do que eu o que nos comove no Taniguchi, no Savall, no Francisco, e em todos aqueles que fazem da descoberta e contemplação do mundo e da vida, não pretexto de revolta, medo, culpa, angústia ou depressão, mas razão de amor ativo.

 

Camilo Maria 

P.S.- Esta noite, quebrou-se a seca persistente, choveu como Deus dá. Saí de manhã cedo, extasiei-me à vista da alegria dos campos: toda a vegetação, agradecida, cantava verdura e vida. E lembrei-me do Taniguchi, que tão bem desenhava a graça anímica dos bosques...

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Por cá, o toque de alvorada é dado pelos melros, quando a luz que vejo lá fora, estremunhada e pálida, ainda nem põe cores nos campos mas apenas vai rompendo a escuridão da noite que foge, distinguindo contornos e tons. A noite que fundira num campo só seu todos os campos que eu via (lembrando Pessoa) deixa agora a alba abrir as sombras... E os melros cantam acolhendo o dia e reconhecendo-se nele. E eu quedo-me a sentir a luz da manhã que cresce e não comando. E então vou descobrindo como é alto o céu, e ocorre-me aquele desabafo do Hiroshi Nakahara, protagonista de Harukana Machi-E, de Jiro Taniguchi: O céu é tão alto... e, todavia, temos a impressão de que bastaria estendermos a mão para tocar nas nuvens... O céu é tão misterioso, como se fosse imutável para lá dos homens e do tempo... E se a eternidade fosse isso, um simples céu... Nunca ninguém se torna verdadeiramente adulto... A criança que fomos está aí, bem viva no muito fundo de nós... É como o céu... Com o tempo, julgamos que crescemos, mas a maturidade não passa de engano, mais não é do que um entrave à nossa alma livre de crianças... Reli esta noite essa maravilhosa narrativa do regresso sonhado de um homem maduro aos seus catorze anos, para compreender que não se muda a vida que nos construiu. Tal como não se reinventa o passado, e afinal permanecemos na incessante procura do desconhecido que somos. Numa das minhas primeiras cartas (seria ainda uma das muitas que escrevi por um homónimo antes de mim?) já te falava da difícil relação que tenho com o tempo, e tenho-te dito como, ainda hoje, procuro conciliar, na circunstância da intemporalidade, a aparente contradição entre tempo escatológico e tempo circular. Esta manhã, neste momento em que te escrevo, escuto as rolas que começaram a arrulhar lá fora. Já lá vão as seis horas da manhã e calou-se a música dos melros; dão agora as oito, será hora de rolas, mas não sei dizer-te se se deitaram tarde ou são preguiçosas. Também é verdade que te digo horas de hoje, mas, embora melro me pareça mais madrugador que rola, nem todas as aves acordam todos os dias à mesma hora. Quiçá melros e rolas, amanhã ou depois, se anunciem a horas diferentes das minhas, sempre contadas. Penso que o relógio das aves não é como os nossos: tem dois ponteiros, sim, mas um é a claridade da luz, e o outro a temperatura do ar. Ambos medem só o momentâneo, desconhecem a duração. Menos angústia, menos grilhões. 

 

   Noutro livro, Taniguchi adapta e desenha um romance de Hiromi Kawakami, intitulado Sensei no Kaban (literalmente A Pasta do Mestre, que, aliás, na narrativa ilustrada, ele visivelmente traz sempre consigo) - obra que, de certo modo, nos fala também de um passado revisitado e, simultaneamente, longínquo e intrometido na vida presente. Trata-se do reencontro de uma mulher de 37 anos com um seu antigo professor, agora com 67, reformado. Apesar da diferença de idades, de conhecimentos e cultura, entendem-se no gosto por passeios com paragem obrigatória e deliciada em tasquinhas de petiscos japoneses. Eu mesmo fiz, sozinho, essa experiência de comer sentado ao balcão, mandando vir pratinhos conformes ao deambular do meu apetite e sem mais conversa, e muitas vezes volto aos relatos que o Taniguchi faz de variados momentos gastronómicos do Petisqueiro, noutro dos seus livros. Até na diversificação dos pormenores, dos ingredientes, das cores, dos cheiros, dos paladares, a cozinha japonesa tem sempre algo de comunhão telúrica, e pode convidar ao silêncio e à meditação. No caso de Sensei no Kaban é também motivo de encontro e afeto.

 

   A mancha urbana de Tokyo e cidades adjacentes terá mais de 43 milhões de habitantes, mas todavia está semeada de minúsculos jardins e pequenas hortas, de ruas estreitas que são caminhos de aldeia, de recolhimentos, cantos e campos esquecidos... Tudo muito seguro e limpo. Sair das grandes artérias e dos centros de azáfama para se deambular por ali é como viajar-se para muito longe pelo seu próprio pé. Assim, onde mais me senti como que no campo foi nos corações secretos da megalópole de Tokyo. Por aí também me consola o convívio com a obra de Taniguchi. O desenho é limpo e nítido, o pormenor nunca é esquecido, as cenas são enquadradas de modo a descobrirmos o sentimento das coisas e das pessoas - e as belezas escondidas, mesmo quando estas não são aparentes em paisagens urbanas monotonamente arquitetadas, nas ruas cobertas pelo cruzar de cabos elétricos e telefónicos, onde o belo reina pela simples sentida presença do asseio e da paz. Inesperado, súbito, surge um pequeno parque, um templo budista, o cemitério anexo, tudo verde e cinzento e antigo. Tudo calado. Ali se prolonga e instala o repouso da paz interior. A vida e a morte confundem-se na natureza.

 

   Curiosamente - e talvez seja isto o que me ocorreu dizer-te hoje - tenho abertos, em prateleiras da sala cá de casa, dois livros grandes, de ilustrações: um, japonês, reproduz cem pinturas antigas referentes às estações do ano, e abri-o na página que nos mostra uma pintura de cerejeira em flor, do século XVI; o outro, português, é uma edição fac-similada das gravuras do De Aetatibus Mundi, do português Francisco d´Ollanda, e delas mostro a nº 69, alusiva ao tempo e à eternidade. É uma composição intrigante, apresenta-nos um gigante ajoelhado sobre uma mó, apoiado em duas muletas com rodas, assim conduzindo a mó para cima de um esqueleto humano, que uma foice identifica como morte. É velho barbudo, tem asas abertas, parece devorar um corpo de mulher que traz na boca, uma serpente enrosca-se na muleta esquerda e aponta a cabeça à mão desse lado. É, o nome inscrito na mó assim o indica, o Tempo. Por cima da cabeça, uma clepsidra, por detrás um sol radiante donde jorra, de cada lado, um arco íris que toca a terra onde dois veados, símbolos da esperança, pacíficos e alheios, pastam. Acima do sol abre-se um espaço circular e vazio: a Eternidade. Por debaixo da gravura, o rosto do Pretérito olha para trás, o do Futuro para a frente. Entre ambos inscreve-se Agora, e a legenda reza Finis Temporis. No reverso dessa gravura do século XVI, surge representada a Ressurreição de Cristo. Uma vez mais, é o Tempo que morre, e Vida e Morte se confundem.

 

   Pego no catálogo, para mim autografado por um conservador do Museu Nacional de Tokyo, em romaji (caracteres latinos) e kanji (sino-japoneses), Seiroku Noma comissário duma exposição no Petit Palais de Paris, ao tempo de André Malraux, ministro da cultura, que tomara a iniciativa de propor a sua realização. A data da dedicatória é 16 de dezembro de 1963, e  Seiroku Noma escreve a introdução ao catálogo da exposição intitulada L´Au-delà dans l´art japonais. Naquela, ele chama a atenção para a pintura aguada e o espírito do Zen, seita contemplativa do budismo, de afastar todas as preocupações terrenas e procurar uma visão intuitiva para assim surpreender a verdade da vida e do universo...   ... Com vista a atingir o coração da verdade, era necessário eliminar as impurezas devidas aos acontecimentos e à circunstância. Na terminologia Zen, essa eliminação dos entraves e essa aproximação dircta da verdade são chamadas nada, vacuidade. É por uma contemplação esvaziante e por uma disciplina visando atingir o reino do não pensamento que Çakyamuni, o fundador do budismo na Índia, alcançou a iluminação suprema. Fui a este texto, que guardava de uma estadia em Paris, há mais de meio século, porque me ocorreu quando relia o 17º capítulo, A Pasta do Mestre, do romance de Kawakami que Taniguchi verteu para desenho, com o mesmo título em japonês: Sensei no Kaban. Ali se conta que, depois da união do pudor e da paixão poderosa e íntima do professor e da sua ex-aluna, aquele irá morrer. No dia do funeral. o seu filho entrega, em memória grata do pai, um presente à jovem senhora: quando esta, saudosa e só, o abrirá, encontra a pasta que todos os dias ele trazia consigo, e lhe legara em testamento: estava vazia, nada tinha dentro. Lembra-se então de um poema de Seihaku Iraku que o Mestre um dia lhe ensinara: Tanto viajei / que trago a roupa gasta / e o frio a trespassa /  Está claro o céu desta noite / mas dói-me o coração. E olhando o céu calado, dirige-se ao Mestre: Gostava tanto de voltar a vê-lo... E lá do alto, do céu vazio, uma voz lhe diz: Está prometido, um dia será!

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Passei tempos sozinho em todos os lados por onde fui vivendo, e ia mobilando os meus fins de semana conforme o gosto, a curiosidade, a meteorologia e a disposição. Tudo quase lembrado, e resumidas as lembranças, posso hoje dizer que procurei constantemente caminhar, exercitando o corpo, deambulando o espírito. Talvez por isso me sejam ainda tão familiares grandes metrópoles como New York ou Tokyo, tal como cidades muito conhecidas desde a infância, como Paris ou Bruxelas. E tantos, tantos, cantinhos de Lisboa... Por muitos atalhos regresso agora a passeios longínquos, e volto a perder os passos para me encontrar, até comigo, em novas-velhas circunstâncias.

 

   Escrevo-te tudo isto, Princesa, para te falar dum companheiro antigo, que reencontro: Jiro Taniguchi. Morreu há semanas, resolvi-me a reler as magníficas e tão profundamente originais bandas desenhadas que escreveu e desenhou. Tem obras que contemplam o homem na natureza, o desafio espiritual das altitudes, das paisagens amplas e desertas, e também uma das mais interessantes sobre as tensões do pensarsentir das elites políticas, militares, literárias e artísticas japonesas no decurso da era Meiji (1867-1912), em que se "ocidentalizava" o Japão... Mas deu-nos sobretudo histórias de amor simples, aventuras interiores da ternura, das ilusões e desilusões de todos os dias de todos nós, da tessitura das almas comuns, dos desafios da vida em família, e da grandeza desta. Entre várias narrativas, contam-se as que nos falam das deambulações das nossas solidões, todavia despidas de angústias postiças e muito cheias do inefável gosto da procura. O próprio Taniguchi busca encontrar-se na circunstância da sua cidade e no contacto dos outros. Sem alarde, em contos que são peregrinações onde se revelam silêncios interiores e o seu diálogo íntimo não se traduz, mesmo quando escrito, em proposições verbais. Entre elas, as pessoas adivinham-se, intuem-se entre si. Talvez seja esse o segredo da ternura, o sentido da mão que se estende. Como é, por outro lado, estranho dizer-se que é uma qualquer forma de egoísmo o gosto particular de nos passearmos sozinhos... O encontro, mesmo que silencioso, com o outro, o desconhecido, pode dar-se como auto-reconhecimento recíproco, cada um fazendo de espelho... Deves "ler", Princesa de mim, esse pequeno conto inserido no "antológico" O Homem que Caminha, e se intitula O Caminho Comprido, historieta sem palavras, só desenhos, em que o nosso caminhante em passeio passa por outro, mais idoso, de bengala mas andar vigoroso. Consoante as distrações do percurso e o estugar do passo, vão-se alternadamente ultrapassando. Até que, quando uma cancela se encerra e passa um comboio, o idoso já atravessara a linha férrea, deixando para trás o nosso caminhante. Todavia, ao não se ver seguido, parou e esperou. Com um sorriso apenas, sem palavra alguma, ambos prosseguem então, lado a lado, a caminhada. Pensossinto que a profundidade de ser quem sou pode ser modo de dádiva de mim. Afinal, serei sempre com os outros o que me encontro. Ser-me é dar-me. Reparo, Princesa de mim, que do meu mim te falo mais do que do Jiro Taniguchi. Volto a ele. Sem deixar de te dizer, desde já, como tanto me reconheço no seu apego às origens: em várias das suas histórias, regressa a Tottori, cidade onde nasceu, à infância, à família, a lembranças de apego a entes queridos, mesmo quando tremem e doem ainda antigas perdas, separações, incompreensões e ruturas. Tudo contado com um pudor quase silencioso, em que se respeita a solidão como retiro mas também como disponibilidade. Poucas vezes nos ocorre, Princesa, o quanto pode um solitário dar-se ou esperar por nós...

 

   As personagens de Taniguchi sentem-se frequentemente a viver fora do tempo, impressão que eu mesmo também tenho, e de que já te falei. Transportam-se as pessoas para além da duração, não por desejo de prolongamento, mas por saudade da permanência. A eternidade não tem qualquer dimensão, quiçá por isso se possa sentir a medida de qualquer espaço ou tempo como simples ilusão. Todos nós sempre fugimos da circunstância próxima, porque nos prende e encerra, e se nos impõe como limitação. De modo muito japonês, os heróis de Taniguchi estão sempre à procura de uma saída que, afinal, é outra entrada: quanto mais alguém mergulha em si, melhor compreende os outros; quanto mais reconhece os outros, melhor se percebe a si. Os títulos dos seus livros são significativos: O Bairro Longínquo, O Petisqueiro da Solidão, Céu Radioso, O Diário do Meu Pai, O Homem que Caminhava, O Passeante, etc... Chichi no Koyomi (O Diário - ou calendário - do Meu Paizinho) é a descoberta, por um homem adulto, na noite do velório do pai morto, e que ele já não via há vinte anos, do amor atento que este toda a vida lhe votara e ele ignorara. É nessa altura só - quando o pai já habita fora do tempo - que o filho o encontra, escutando os muitos testemunhos de familiares que lhe revelam essa figura tutelar: a criança que tanto sofrera com o divórcio dos pais e passara a vida toda carregando o peso dessa dor percebe então, quando o tempo morreu para dar lugar à misericórdia, que afinal nunca o amor a abandonara. E é comovente ver como Taniguchi nos conta uma história tensa sem sequer uma mínima censura a qualquer personagem. Apenas nos ensina que o amor é o nosso único verdadeiro segredo, e pode não ser fácil descobri-lo.


   A amor é sempre transcendência, só ele constrói e habita a eternidade. A novela Um Céu Radioso conta-nos a coabitação - no corpo de um jovem motar de 17 anos, que sobrevive, amnésico, a um acidente de viação -  do regresso dele à consciência de si e do espírito do pai de família que morreu no mesmo acidente, e reincarna para ter a última oportunidade de se despedir da sua família. Subjacente a interrogações como a da reincarnação, da ressurreição e da saudade, está uma fé, substância das coisas que devemos esperar, desejo e esperança de eternidade, que só o amor pode criar e infinitamente sustentar... Escreve Taniguchi: Imaginei um homem que vai morrer e que, antes de paulatinamente se ir embora, consegue apanhar tudo o que o seu coração insatisfeito ia deixar num estado de incompletude. Desejei escrever o arrepio do coração de alguém que acompanha um próximo querido no momento da sua morte, e o renascimento da alma...   ... "Um Céu Radioso" é, assim também, a narrativa de uma família que decide ultrapassar uma morte impensável. E apesar da história ser um tanto estranha, quis representar, com os meios da banda desenhada, os conflitos e os rasgões do coração, a aflição que é aceitar a morte de um ser, e o que é preciso fazer para partir sem deixar atrás de si qualquer conflito interior não resolvido. 

 

   O título do livro, na versão francesa da Casterman (2006) é Un Ciel Radieux. Mas o título japonês Hareyuku Sora também se pode traduzir por Um Céu Limpo. Ou um céu claro. Diz-me muito.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Há poucas semanas, fui surpreendido pela reação de uma assistente de caixa da FNAC. Comprara um livro, ela perguntou-me se eu tinha cartão FNAC, ao puxar por este arrastei um da Bertrand que lhe caiu em frente. Diz, com maus modos: "Isto não é cartão FNAC, é da Bâârtrende!" Pedi desculpa, explicando que caíra por vir colado ao outro, que logo apresentei. E, com um sorriso, perguntei: "Porque é que diz Bâârtrende, à inglesa, um nome de origem francesa, que em francês se diz Berrtrrãnd e nós por cá vamos pronunciando Bertrã?" Resposta gritada: "Eu digo como quiser, você não tem nada a ver com isso!" Paciente reação minha: "Olhe que nenhum de nós pode dizer as palavras como quer, temos de dizê-las para serem entendidas..." Seguiu-se um disparate de berros, com afirmações tão substanciais como "Nem ao meu marido eu admito que me corrija, ouviu?"

 

   Esqueci o episódio, nem pedi livro de reclamações. Mas fui moendo o sentido da ignorância teimosa, pensando quão facilmente se ouve, hoje em dia, dizer, repetir, reproduzir, divulgar os mais diversos disparates, sem qualquer motivação de instrução, verificação, correção ou simples procura de entendimento. "Aí vai disto Eu é que sei!" parece ser o grito cultural na moda... Há poucos dias, três conhecidas e reconhecidas personalidades televisivas batiam o papo acerca de cinema:

 

 "Lembram-se desse grande filme, Casablanca, com o Humphrey Bogart e aquela estrela maravilhosa..." E todos em uníssono: "A Lóren Beiquel!", assim mal pronunciando o nome da Lauren Bacall, ainda por cima mal dado à parceira do Bogart naquela fita, que era, simplesmente, a Ingrid Bergman. Pouco depois - estava num dos raríssimos dias em que vejo alguma televisão - reparo que uma legenda em português traduzia hand writing por ortografia... E por aí fora, até aos sisudos e "responsáveis" jornais económicos que vão traduzindo ingenuity (= engenho, coisa de génio) por ingenuidade. Et j´en passe, para não ter de te falar da ignorância propriamente dita, seja qual for a língua utilizada para a transmitir.

 

   Vêm-me estas rabugices de velho relho, por ter lido na cama, na passada noite, um artigo de José Pacheco Pereira, no Público de 3-4-2017, intitulado Nó Górdio, e outro do professor Tom Nichols, na revista Foreign Affairs (Março-Abril-2017) com o longo título de How America Lost Faith in Expertise - And Why That´s a Giant Problem. Consolou-me sentir que, afinal, encontro vária e pensante companhia para as minhas - tuas tão conhecidas  --  cogitações sobre cultura, comunicação, confiança, memória, rigor e humildade (ou a falta crescente e esquecimento de tudo isso) nas nossas sociedades hodiernas. Não vou remeter-te para cartas minhas, nem mesmo transcrever-te textos delas. Fico-me pelos autores que me acompanham   a solidão nestes meus achaques quotidianos de algum desgosto pela multiplicação das asneiras, sem que lhes acuda espírito crítico nem capaz preocupação com o sentido do que se vai atirando por aí... 

 

   Pacheco Pereira encabeça o seu artigo pela afirmação de que o problema atual da ignorância é que ela nunca teve tão boa imprensa, tão bons defensores. E prossegue: Dedicado à memória de José Medeiros Ferreira, que uma vez, numa entrevista, falou do "nó górdio" a uma jornalista que lhe disse que não sabia o que era e recebeu como resposta: "Se não sabe, devia saber". E, mais adiante, diagnostica: Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação, -  já para não falar das chamadas "redes sociais" - e a política dá hoje às humanidades e estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da filosofia. Por mim - como já repetidamente fui escrevendo, inclusive em cartas para ti - acredito que o saber não ocupa lugar, sobretudo se considerarmos que ele não é essencialmente erudição mas a sementeira que produz as raízes do nosso espírito, donde brotarão ramos de conhecimento, e, antes deles, o tronco que é a faculdade de ajuizar, algo muito marcado pela cultura que nos deram, isto é pelo nosso modo de laborar a inteligência. Em vez de terra lavrada, adubada e semeada, a nossa cabeça é cada vez mais um oco vaso de vidro onde todos os dias se põem flores colhidas em "sites" que por aí abundam, sem origem nem rega conhecidas. Quando murcham, por aí se apanham outras... O que quero dizer é que a "cultura" não é mais do que o cultivo que cada um de nós faz do seu espírito. 

 

   O artigo do professor Nichols, Princesa de mim, traz-me outras preocupações que, afinal, me reconduzem à efeméride com que te abria esta carta, tornando o simplesmente ridículo ou despiciendo em algo talvez considerável. Começa assim (traduzo): Em 2014, depois da invasão russa da Crimeia, o Washington Post publicou os resultados de uma sondagem que perguntava aos americanos se os Estados Unidos deveriam intervir militarmente na Ucrânia. Só um em seis inquiridos conseguiu localizar a Ucrânia num mapa; a média das respostas errava por mais ou menos 2500 quilómetros. Mas esta falta de conhecimento não impediu as pessoas de expressarem pontos de vista. Na verdade, os respondentes favoreciam a intervenção na proporção direta da sua ignorância. Dito de outro modo, as pessoas que pensavam que a Ucrânia estava situada na América Latina ou na Austrália foram as mais entusiastas a favor do uso, lá, de força militar.

 

   No ano seguinte, o Public Policy Polling perguntou a uma ampla amostragem de eleitores democratas e republicanos se apoiariam o bombardeamento de Agrabah. Cerca de um terço dos republicanos respondeu que sim, contra 13% que se opunham à ideia. As preferências democratas foram "grosso modo" inversas: 36% opunham-se, 19% eram a favor. Agrabah não existe. É um país de ficção no filme de 1992, da Disney, Aladino. Os liberais berraram que a sondagem revelara as tendências agressivas dos republicanos. Os conservadores retorquiram que ela mostrara o reflexo pacifista dos democratas. Peritos em segurança nacional não deixaram de observar que 45% dos republicanos e 55% dos democratas interrogados tinham uma visão real e definida do bombardeamento de um lugar num desenho animado.

 

   Cada vez mais, incidentes como este são mais norma do que exceção. Não é só porque as pessoas não sabem muito de ciência, política ou geografia. Claro que não sabem, mas esse problema tem barbas. Maior problema, hoje em dia, é que os americanos chegaram a um ponto em que a ignorância - pelo menos no tocante ao que geralmente se considera saber adquirido em matéria de coisa pública - é considerada realmente uma virtude. Rejeitar o parecer de peritos é afirmar autonomia, caminho para os americanos demonstrarem a sua independência de nefastas elites - e isolarem os seus crescentemente frágeis "egos" de qualquer possibilidade de lhes dizerem que estão enganados. 

 

   Tal triunfo da ignorância não é só atributo dos americanos em geral ou da senhora da FNAC em particular. Pior ainda, em Portugal, por exemplo, é o "reino" das capelinhas que se presumem muito sábias e, como os gatos, vão marcando o seu território profissional, "influencial" e mediático... Todos os dias desligo rádios e tv´s, fecho jornais e revistas vários, só para evitar o contacto pernicioso de uns quantos selecionados para nos falarem de tudo... O triunfo da ignorância também começa com o monopólio de uns gurus sobre os comentários destinados à opinião pública. Falam do que não sabem, muito do que pouco ou nunca viram e apenas vislumbraram noutros livros consultados à pressa, aparentemente convictos, sombriamente cautelosos em afastar possíveis intervenções de quem sabe, até escamoteando ou omitindo nomes e citações... Muitas vezes me lembro daquela cena de O Primo Basílio em que entra o Conselheiro Acácio:

 

   - Já esteve no Alentejo, Conselheiro? - Perguntou-lhe Luísa.

   - Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.

   Tomou uma pitada duma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:

   - De resto, país de grande riqueza suína! 

 

   O mais triste, nisto tudo, talvez até nem seja a vaidade ridícula dos títeres da "cultura", o seu receio de menos consideração, nem sequer a respetiva "dor de cotovelo"... Nem, só por si, essa presunção de brilhar, fechando portas e janelas, apagando outras luzes...  É a auto glorificação de supostas "elites" num panorama de ignorância generalizada. Porque - fixa bem, Princesa, - se vai dividindo a comunidade possível entre o que poderia ser partilha e entendimento e, afinal, é o pensarsentir-se em privilégio e superioridade... Saber é sempre ato humilde, uma aprendizagem que é escuta e diálogo. Gosto do verbo francês apprendre, pois tanto diz aprender como ensinar. E é bem verdade que ambos são partilha. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Esta manhã, cedinho ainda, pareceram-me mais silenciosos os melros que me alegram o despertar. Fui à varanda do quarto e avistei um gato que manhosamente rondava o espaço onde os pássaros soem saltitar, a bicarem minhocas, sementes e uns pedacinhos de pão que, todos os fins de tarde, ali deixamos para o dejejum de suas excelências. Como gato não voa, melro esperto pousa mais alto, depois de piar alarme geral e, caladinho, aguarda. Andam por aí, soltos, uns gatos poderosos, que servem a desratização de terrenos da quinta com elevado e eficaz profissionalismo. Um deles, de lindo pelo preto, simpatizou comigo e, uma vez por outra, vem bater-me à porta para, ao cair da tarde, eu lhe levar uma malga de leite. Não lhe conheço calendário litúrgico, mas deve ser em datas festivas, ou simplesmente dia de jantar fora.

 

   Saí de casa há pouco. Assim que me viram, logo os melros acorreram e voltaram ao saltitar da sua restauração. E os gatos lá foram, pachorrentos, para longe da minha vista, enrolar-se em qualquer cantinho acolhedor, ao calor do abençoado sol da manhã amiga. Os pássaros já se habituaram à minha companhia, vou-me passeando, chego junto da "minha" cerejeira do Japão. Os botões, e muitas folhas, começaram a rebentar, três deles já desabrocharam em tímidas flores brancas, a árvore começa a cantar. Anuncia o "meu" hanami bombarralense. Recordo os piqueniques nipónicos, a fraterna alegria de festejar a primavera, com a mãe natureza, os irmãos humanos, os deuses todos, essa ação de graças pelo efémero da flor, tão belo como o da vida, pois morre depressa mas certamente voltará a nascer...

 

   Sabias tu, Princesa, que as flores que os japoneses mais admiram e amam são precisamente as que mais cedo murcham ou os ventos mais depressa levam? Já te tenho falado do despojamento, da assimetria, do silêncio, como valores estéticos na cultura do Império do Sol Nascente. Talvez possa dizer-te que todos têm uma essência de humildade, como assim também a contemplação do efémero - pois a efemeridade embeleza a beleza, esta é irmã do passarinho que Murasaki solta no Conto do Genji: a posse encerra, a liberdade voa - ou a visão agradecida do sol que, pela manhã, acolhemos. A tradição dos hanami (hana=flor, mi=visão, hanami=ver as flores) vem do início do século IX, da corte do imperador Saga em Heiankyo (Kyoto), que, pela primavera, juntava os cortesãos debaixo das cerejeiras em flor (sakura).

 

   O amor da beleza que passa, e as graças que a Deus damos pela vida que morre e vive sempre, são marca indelével da espiritualidade japonesa. Por paradoxal que pareça, a duração do belo não se encontra na visão imediata, descobre-se na contemplação do que é invisível para os olhos. Tal como não podemos circunscrever - nem sequer o vemos - o espaço do espírito: ele é infinito, como a tamanha liberdade que Deus connosco partilha. Deixo-te com a minha versão portuguesa de um haiku de Matsuo Basho (1644-94): 

              
               os visitantes recolhidos no templo

               não veem

               que as cerejeiras deram flor

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira