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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Jovem amigo - o Lourenço Correia de Matos, historiador meticuloso - chamou-me, com justeza e justiça, a atenção para o facto de me ter referido a Francisco Borja como escudeiro mor da imperatriz Isabel de Portugal, cargo que nunca existiu, quando ele, efetivamente, era seu estribeiro mor. Na verdade, ao traduzir do castelhano (Caballerizo Mayor) confundi-me no português e escrevi escudeiro, em vez de estribeiro... Já, dias antes, em consulta médica, me queixei de, sem causa próxima aparente, eu andar a "esternuar" muito. Aconteceu misturar-me em francês - foi a língua que falei até aos meus cinco anos - , mas o clínico ficou surpreendido e, quiçá por não saber a que dicionário recorrer, nem ter tido muitos pacientes emigrantes em França, não se lembrou de "éternuer". Disse-me: "Desculpe, mas não percebo o que quer dizer"... E logo me lembrei e disse: "Espirrar, senhor doutor". Erro meu, bem pesado de consequências: continuo espirrando sem saber porquê...

 

   Creio que foi Gregório Marañon que escreveu, no segundo capítulo das suas Meditações sobre o Tejo, com o título Suspiros em Lisboa, esta frase acerca da imperatriz de que te venho falando: Outra princesa lusitana, a pálida e divina Isabel, foi o único amor do Titã da Europa, Carlos Quinto. Ao lê-la, tal como vem citada no Charles Quint do Pierre Chaunu e da Michèle Escamilla, espirrei outra vez. Não pelo assim dito, nem pelo seu contexto, mas por logo me terem ocorrido os efeitos da seca sobre o caudal e a qualidade da água do rio Tejo, que também é português, mais agravados ainda pelo desvio de águas suas para as regas espanholas em Múrcia, por quase 300km de canal. Nem Toledo escapa, e foi aí que Marañon meditou sobre o rio Tejo, capítulo apenas do seu Elogio e Nostalgia de Toledo... Mas volto a Isabel de Portugal, segunda dos sete filhos de El-Rei Dom Manuel, o Venturoso, e da rainha sua esposa, Maria, filha dos Reis Católicos. A autêntica política matrimonial seguida por ambos os reinos ibéricos (Portugal e a recente Espanha surta da união de Aragão e Castela) ambicionava uma união peninsular. A decisão de Carlos V casar com Isabel foi, na origem, uma opção política. Cito o historiador espanhol Manuel Fernandez Alvarez: Não haja dúvida alguma de que Carlos V aceitou essas núpcias depois de aturado cálculo mental, que combinava interesses económicos e internacionais [...] O facto de Carlos V e Isabel se terem tornado mais tarde um casal simbólico e exemplar, visceralmente unido por um amor crescente, e que as ausências forçadas do Imperador idealizaram, constitui um dos mais belos capítulos da vida de Carlos V... Muitas adolescentes sonharam com destinos bebidos em histórias de principescos casamentos, cheios de felicidades e filhos. Mas a História desfia sucessos menos radiosos de enlaces politica e diplomaticamente determinados, muitas vezes - e talvez sobretudo para as mulheres - duros sacrifícios de liberdades e consciências humanas a razões dinásticas ou estratégicas. E não te esqueças, Princesa de mim, de que, em muitos casos, houve que disfarçar falhanços, insucessos, ódios até, repúdios, traições... e sei lá mais quê! Menos terão sidos os matrimónios reais autenticamente felizes, poucas as satisfações além do dever cumprido. Por isso mesmo se inventaram tantas histórias de amores lindos, mais próximas de contos de fadas do que de realidades quotidianas...

 

   O matrimónio de Carlos V e Isabel de Portugal é uma exceção brilhante e bem lembrada, pese embora a tragédia da morte precoce da imperatriz, que ensombreceu o mundo de então, entristeceu uma corte, fez do primeiro dos criados da Senhora, o Duque de Gandia, maior companheiro e confidente do imperador, um religiosos jesuíta - logo depois de ter enviuvado também  -  e de Carlos V o soberano cansado que se retiraria, quinze anos mais tarde, para o mosteiro jerónimo de São Justo (Yuste). Mas cito-te vários testemunhos coevos da forte impressão de Isabel no seu tempo e sua gente. Antes, todavia, deixa-me lembrar que Isabel e Carlos eram primos direitos, já que as respetivas mães eram ambas filhas dos Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. A montante da comum árvore genealógica surge ainda outra Isabel, filha de Dom João I de Portugal, casada com Filipe o Bom, duque de Borgonha, mãe de Carlos o Temerário, bisavô do imperador: El-Rei de Boa Memória era, pois, quinto avô deste, pela casa de Borgonha e, também, tetravô dele e da imperatriz, pela linhagem luso-espanhola.

 

   A esta chamou frei Luís de Léon, biblicamente, perfecta casada, e o cronista espanhol Francisco Lopez de Gómara mujer propria para casada. E o sevilhano Pedro Mexia, testemunha do casamento, escreveu que a Imperatriz pareceu a todos ser a mais bela princesa que alguma vez houve no mundo, o que era bem verdade, mas igualmente dotada de uma alma bela e boa... O que frei Prudêncio de Sandoval, autor, meio século depois da morte do imperador, da Genealogia de Carlos V maximo, fortissimo rey d´España, confirma assim: Si era hermosa en el cuerpo, mucho mas lo fue en el alma. Seguindo o itinerário de Michèle Escamilla (no seu Charles Quint, escrito com Pierre Chaunu), respigo um texto de Alonso de Santa Cruz, filho do alcaide de Sevilha, que assistiu ao casamento: A Imperatriz tinha a tez muito clara e o olhar cândido, falava pouco e a sua voz era grave e doce; tinha olhos grandes, boca pequena, nariz aquilino, peito miúdo, lindas mãos, garganta alta e bela; era muito reservada, talvez demais: «era de su condición mansa e retraída, más de lo que era menester». Honesta, silenciosa, cheia de gravidade, de devoção, de retraimento e de discrição, a tal ponto que lhe repugnava pedir ao Imperador fosse o que fosse, mesmo para ela própria, e mais ainda solicitar-lhe favores para terceiros; de sorte que se pode dizer que o Imperador tinha encontrado uma mulher à sua altura e convindo ao seu carácter.

 

   Até parece que Alonso de Santa Cruz, quase uma década depois da morte da imperatriz, ditou a Ticiano o retrato de Isabel (datado de 1548) que Carlos levou consigo para Yuste, e hoje está no Prado, em Madrid. Reprodução do mesmo retrato ilustra a capa do disco do Brabant Ensemble que, dirigido por Stephen Rice tem gravada a missa Mort m´a privé de Thomas Crecquillon, de que te falava em carta anterior. Em próxima, voltarei à abdicação e retiro final de Carlos V, h deixo-te agora com um sentido elogio do beneditino Prudêncio de Sandoval à virtuosa imperatriz, feito sobre documentos coevos da grande senhora, que o monge comentou décadas depois da morte daquela: Estando a Imperatriz em sofrimentos de parto que com muita dor prolongavam o grande padecimento em que se encontrava e a iam esgotando, disse-lhe a parteira : «Sereníssima Senhora, não vos castigueis a reter os vossos gemidos, mas soltai um grande grito que vos aliviará». Ao que a Imperatriz respondeu, em português: «Não me faleis tal, minha comadre, que eu morrerei, mas não gritarei».

 

   Cena donde reputados historiadores franceses do nosso tempo (Chaunu e Escamilla) acharam bem concluir: Sim, Carlos V encontrara, muito além de toda a esperança, uma mulher à sua altura, cujo domínio de si igualava o seu: uma verdadeira imperatriz.

 

   A missa Mort m´a privé começa com uma canção, como que em jeito de Introitus, que traduzo para terminar esta carta:

 

             Oeil esgaré, mon coeur de toi faict plaincte, 
             Car il rechoit par ton regard l´ataincte,  
             Qui te detient en cruelle pryson;   
             Et qui plus est, ne sçay quant et comment   
             Le tireray de ce mal et tourment.     

 

            Olho perdido, de ti se lamenta meu coração,
            De queixar-se tem justa razão,
            Pois pelo teu olhar recebe a ferida,
           Que te retém em cruel prisão;
          Tampouco sei, nem quando nem como, é soída
          A hora de o tirar de tormenta tão sofrida                        

 

   Quando te falar na abdicação de Carlos V, todos estes sentimentos também lhe trarão sentido.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   No 1º de maio de 1539, morria Isabel de Portugal, imperatriz, mulher de Carlos V, mãe de Filipe, o 2º de Espanha, 1º de Portugal. Muito para além do que as alianças dinásticas, e respetivos objetivos e consequências políticas, determinaram na vida desta mulher, sobressai o acontecimento raro, menos esperado do que inesperado no seu tempo, de a filha do rei Dom Manuel I de Portugal ter amado e admirado, e sido reciprocamente amada e admirada, pelo soberano mais poderoso da Europa. Mais ainda : de ter granjeado a confiança e a fidelidade dos seus súbditos, como vassalagem de liberdade amorosa, só comparável - se possível - à que lhe prestava o imperador seu marido. Correndo o risco de ser repetitivo, pois tantas vezes te falei de tudo isso, volto ao tema, que até a mim mesmo inspirou um soneto. Hoje, ater-me-ei ao clima que rodeou a morte da imperatriz e, além de outras referências voltarei a transcrever-te um poema da Sophia, que reincidentemente te recitei, por sabê-lo de cor. Esta tarde achei, arrumando discos de música, a missa Mort m´a privé, composta, em 1540, por Thomas Crecquillon, um franco flamengo, mestre de capela de Carlos V que, ao que parece, a teria feito executar no seu retiro no mosteiro dos jerónimos de São Justo, ou Yuste, local para onde levara também os retratos e quadros alusivos a Isabel de Portugal que encomendara a Ticiano. Mas noutra carta te falarei do imperador e sua abdicação. O título da missa vem de um moteto cantado, primeiro a cinco, depois a quaro vozes (respetivamente evocando Carlos e Isabel), canções que se seguem ao "ordinário"  (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Agnus Dei), poema quiçá inspirado numa carta de Carlos V a seu irmão Fernando, refletindo um sentimento muito íntimo sobre a morte de Isabel. Reza assim: 

 

          Mort m´a privé par sa cruelle envye

          D´ung medecin congoinassant ma nature;

          Et m´a remis en si grand frenesye

          Qu´en peu de temps j´ay bien changé pasture.

          Rien ne m´y vault ma grand progeniture:

          Vertu me couvre armée de patience;

          Divin voloir passe humaine science.

 

   Em francês quinhentista, claro está, que tentarei traduzir assim:

 

          Por cruel ciúme me privou a morte

          De um médico ciente da minha natureza;

          E me atirou para tão grande desnorte

          Que logo tive de mudar o pasto da minha mesa.

          De nada me serviu minha antiga nobreza:

          Abriga-me virtude armada de paciência,

          Que a divina vontade supera a humana ciência.

 

   Calha-me assim falar do clima da morte da imperatriz, muito embora haja muito mais para te contar em próxima carta.  Agora, só para enquadrar o que a seguir te digo ou transcrevo, recorro à belíssima biografia da Carlos V, da autoria de Pierre Chaunu e Michèle Escamilla (Charles V, Paris, Fayard, 2000), mais precisamente ao trecho em que se fala de Francisco Borja, duque de Gandia, amigo íntimo do imperador, por ocasião da morte de Isabel de Portugal, da qual ele era escudeiro mor, aliás casado com uma dama da nobreza portuguesa, Leonor de Castro, aia da imperatriz. Traduzo-te o texto, de que um dos autores é, precisamente, um huguenote francês, grande historiador protestante, discípulo do famoso Fernand Braudel, admirador do último imperador da latina cristandade. 

 

   Ele [Francisco Borja] partilhou as alegrias e desgostos do imperador, e entre estes o maior de todos: o luto que àquele roubou, no 1º de Maio de 1539, a que simultaneamente fora uma sua colaboradora preciosa e um ente muito querido. A morte, em trabalhos de parto, que aos trinta e seis anos levou Isabel de Portugal, tão atraente para todos quantos a rodeavam pela sua inteligência e bondade, como pela beleza (imortalizada por Ticiano), perturbou Francisco Borja até ao fundo da alma, tanto, pode dizer-se, quanto ao próprio imperador.

 

   Tanto mais ainda que lhe foi confiada, por privilégio raro, e conforme voto da defunta, a missão de acompanhar, com quatro prelados e o marquês de Vilhena, o despojo imperial até ao panteão de Granada: por isso teve de «reconhecer» - antes da sepultura, a 17 de maio - aquela que ele tinha servido com devoção durante dez anos, num cadáver já com duas semanas, em tal estado (a cristianíssima Isabel recusara ser embalsamada) que estava irreconhecível, impossível de identificar. 

 

   Terrível ilustração do Vanitas vanitatum do Eclesiastes, em que se julgou descobrir  a origem da futura renúncia do marquês de Lombay [outro título do duque de Gandia]. O seu biógrafo atribuiu-lhe esta exclamação, diante do caixão aberto e nauseabundo : «Nunca más, nunca más servir a señor que se me pueda morir». Por isso Francisco Borja se tornaria no jesuíta São Francisco de Borja...

 

   Desde há muitos anos que, quando se fala ou, comigo só, pensossinto em Isabel de Portugal, o que sempre me ocorre e recito é a Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que sei de cor e aqui te deixo, esperando que a minha memória não atraiçoe o poema lindíssimo:

 

          Nunca mais

          A tua face será pura limpa e viva

          Nem o teu andar como onda fugitiva

          Se poderá nos passos do tempo tecer.

          E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

          Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

          A luz da tarde mostra-me os destroços

          Do teu ser. Em breve a podridão

          Beberá os teus olhos e os teus ossos

          Tomando a tua mão na sua mão.

 

          Nunca mais amarei quem não possa viver

          Sempre,

          Porque eu amei como se fossem eternos

          A glória, a luz e o brilho do teu ser,

          Amei-te em verdade e transparência

          E nem sequer me resta a tua ausência,

          És um rosto de nojo e negação

          E eu fecho os olhos para não te ver.

 

          Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 

   Estes versos encerram toda a mágoa da humana condição, incluindo a da sofrida esperança num encontro com Senhor que não possa morrer.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Contemplo mistérios nesta hora da manhã nascente, quando o irmão sol se levanta e enche o ar de uma luz de ouro amigo, que envolve os campos, e as coisas todas suas, numa carícia de deslumbre. Vislumbro ao longe, nas barreiras do lado de lá do vale, o fumo de uma queimada... Creio que ainda não estarão autorizadas, mas cada cabeça terá sua sentença... Pouca gente entende que a beleza ou bondade das coisas também nos alertam para a sua e nossa fragilidade e imperfeição. E uma vez mais me ocorre esse conceito augustiniano e tomista de que a prudência é amor sagaz...

 

   Assinei hoje uma petição relativa à necessidade de maior consciência e responsabilidade na prevenção e controlo de fogos que destroem vidas e fazendas. Tê-la-ia certamente redigido de outro modo, não concordarei com todo o seu fraseado, mas entendi que devia subscrevê-la, pela simples razão de que, não culpabilizando ninguém em particular, responsabiliza-nos todos; é um grito de justa indignação - mesmo que abstrata - com que me solidarizo, e é, sobretudo, uma confissão de perplexidade, em que comungo. Fácil será sempre apontar culpas a outros, difícil é mesmo interrogarmo-nos sobre a responsabilidade, isto é, sobre as respostas a dar. A perplexidade, o não saber explicar cabalmente, é o primeiro humilde reconhecimento de que a correção do mal exige também o nosso voluntariado.

 

   O mal é inexplicável, como essa ausência ou silêncio de Deus, que todos já sentimos. Sabes, Princesa de mim, que, por isso mesmo, acredito que a presença de Deus se refaz em nós pelo amor que formos capazes de entregar aos outros. O bom samaritano, esse homem que generosamente socorre a vítima de salteadores, um desgraçado moribundo - que todavia é filho de um povo que ostraciza os samaritanos - ensina-nos que o nosso próximo tanto é o socorrido como o socorrente. Qualquer tragédia não acontece para mutuamente nos afrontarmos, antes talvez suceda para nos levar a pensarsentir que se antes houvesse amor atento, não seria necessária a desgraça : daí concluímos que o caminho fraterno quiçá nos evite novas calamidades...


   O sentimento de culpa ajuda pouco: veja-se o caso de Judas ou, em contraponto, o engano que pode ser o alívio certo preconizado pelos defensores de qualquer secreta confissão auricular. O Deus dos vivos, esse que nos anima, não marca presença no castigo, amanhece no horizonte da nossa vida quando nos chama e pede resposta. A responsabilidade é precisamente essa intenção, inteligência e vontade nossas, de aderir e cooperar no projeto de um mundo melhor. Desde o mais pequenino dos gestos fraternos às grandes construções comunitárias. Na Idade Média, sobretudo a partir do século XIII, quando uma sociedade nova ia emergindo do defeso feudal, a festa do Natal era mais calorosamente celebrada do que a da Páscoa: o mistério da encarnação do Verbo era, logo a partir das semanas do Advento, que o anunciavam, celebrado como o acolhimento do Deus connosco, o Emanuel. O tempo terrestre e humano tornava-se assim sagrado e urgia no apelo à edificação de um mundo novo...

 

   O chamamento à responsabilidade pessoal e coletiva é um convite à alegria partilhada com Deus, que devemos amar acima de tudo, e todos os humanos que amaremos como a nós mesmos... Traduzo-te agora um trecho de Les Mots, do Jean-Paul Sartre, uma narrativa autobiográfica da sua infância: Durante alguns anos mais, cultivei relações públicas com o Todo Poderoso; em privado, deixei de o frequentar. Só por uma vez tive o sentimento de que Ele existia. Tinha brincado com fósforos, e queimado um pequeno tapete; estava a disfarçar o meu disparate quando repentinamente Deus me viu e eu senti o Seu olhar no interior da minha cabeça e sobre as minhas mãos; andei à roda na casa de banho, horrivelmente visível, um alvo vivo. Salvou-me a indignação: fiquei furioso com uma tão grosseira indiscrição, blasfemei, murmurei como o meu avô: «Santo nome de Deus de nome de Deus de nome de Deus!». Ele nunca mais olhou para mim. As palavras a negro são as que, numa edição francesa da Folio, a minha filha Teresa, aos dezassete anos, aluna da Columbia University (New York), sublinhara no texto. E que me recordaram uma estrofe do poema La Conscience, na Légende des Siècles, do Victor Hugo. Traduzo:

 

               Ele disse então: «Quero morar debaixo do chão

               Como homem solitário num sepulcro;

               Nada jamais me verá, nunca verei nada mais.»

               Cavou-se por isso um fosso, e Caim disse: «Ficou bem!» 

               E logo desceu sozinho para debaixo de tão sombria abóbada.

               E quando se sentou na sua cadeira às escuras

               E sobre a sua fronte se fechou o subterrâneo,

               O olho estava no túmulo e olhava para Caim.

 

   Seria o olho do Deus bíblico, quiçá o mesmo que o jovem Sartre expulsou? Esse olhar ferozmente vigilante de Quem está sempre à procura de castigar, como no relato do livro do Génese, em que Deus expulsa do paraíso o primeiro casal humano, o tal que comeu o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal: Depois, Yahvé Deus disse: «Eis que o homem se tornou como um de nós, para conhecer o bem e o mal! Que doravante não estenda mais a mão, não colha também o fruto da árvore da vida, nem o coma, nem viva para sempre!». E Caim, filho de Adão e Eva, concebido já fora do Éden, matará seu irmão Abel. A humana condição inicia assim uma caminhada de perdição. Tiago Voragino, de quem tanto te tenho falado, começa deste modo o prólogo da sua Legenda Aurea: A totalidade do tempo da vida terrestre divide-se em quatro: o tempo da perdição, o da renovação ou do chamamento, o da reconciliação e o da peregrinação. Noutra carta voltarei a esta ideia, a que Jacques Le Goff chamou La Recherche du Temps Sacré. Agora, quero apenas dizer-te que, nessa organização medieva do tempo terrestre pelo ano litúrgico que o sacraliza, a era da renovação culmina com o nascimento de Jesus, esse momento em que Deus vem habitar a nossa condição e toca a reunir todos para obra comum.

 

   Termina aí o tempo da perdição e o temor do Deus castigador. A todos, Cristo diz que sigam o seu caminho e não tornem a pecar. Li hoje, nos jornais, o acórdão do tribunal da relação do Porto que confirma a suspensão da pena dada aos agressores por violência e outros crimes contra uma mulher adúltera, justificando tal decisão, entre outros fundamentos, no seguinte: Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. [sic]. A memória que guardo da mulher adúltera na narrativa evangélica é a de Jesus surgir entre os que iam apedrejá-la e dizer-lhes: «Quem não pecou que lhe lance a primeira pedra». E, depois de todos se terem retirado, envergonhados e silentes, apenas disse à mulher que fosse em paz e não voltasse a pecar. Não há renovação possível sem limpeza prévia do nosso olhar sobre nós mesmos e os outros.

 

   O exercício da justiça é certamente indispensável ao bom funcionamento de qualquer sociedade. Mas sempre pensossinto, Princesa de mim, que a primeira condição prévia à justeza da justiça a fazer é a limpeza do olhar do juiz, a inexistência de preconceito. A segunda será a benevolência, no sentido de querer bem, isto é, de criar condições para que, ao tempo da perdição suceda o da renovação e da reconciliação. Para todos nos encontrarmos construtivamente cooperantes no tempo da peregrinação, que é, afinal, o da vida terrestre da nossa condição humana. Quiçá Yahvé/Deus nos tenha impedido de conhecer logo a diferença entre o bem e o mal, talvez por isso mesmo sejamos livres. Mas quando Deus se arrependeu da nossa liberdade, entregou-nos o seu filho único, para que essa liberdade fosse ainda maior: porque só o amor, que é querer bem, pode vencer a injustiça, que é querer mal. Pela nossa condição humana, somos sempre cúmplices, quer no bem, quer no mal. Por isso, qualquer sanção necessária a evitar males maiores nunca pode ser uma condenação definitiva (como a pena de morte), mas sim, seja qual for o castigo imposto, uma provação que leve o infrator a encontrar a sua responsabilidade. Não tenho, Princesa, muitas ilusões sobre sistemas prisionais que entregam a defesa dos réus a juristas ainda principiantes, sem mais apoios - por ser "mais barato" ou simples estágio - nem disponibilizam o acompanhamento clínico exigido em casos de reincidência ou simplesmente desadaptação ou desafio social. Num tempo em que tantos infelizes fatores impelem muitas pessoas a assumirem atitudes e comportamentos exibicionistas, agressivos, por mimetismo do que lhes é dado ouvir e ver... 

 

... e entusiasmos facciosos, clubistas ou partidários, as levam a gritar indignações e pedir vindictas... o exercício da justiça social deve ser, cada vez mais o da prudência no juízo - o tal amor sagaz - e o da inteligência que desvenda a repetição banalizadora de acusações, a promoção de bodes expiatórios, a indignação epidérmica, como sinais certos dos demónios disfarçados que nos espreitam. 

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

EM MEMÓRIA DE ROGÉRIO MARTINS



Minha Princesa de mim:

 

     No decurso - talvez já longo, para mim todavia ainda vago - da minha vida são inesquecíveis os momentos de usufruto de partilhas de experiências, ideias e sentidos em   jantares e almoços reunindo, com gosto de todos, amigos, conhecidos, desconhecidos. No íntimo de mim, são como celebrações eucarísticas, ações de graças por sermos vivos e estarmos juntos... Objetivamente são sempre atos diferentes, cada qual único: tanto reúnem amigos em tertúlias onde até quase calados nos entendemos, como simpatizantes que se divertem a passear, por sentidos vários, muitas opiniões e alvitres sem propósito apontado; ou, ainda, gente que mal ou nada se conhecia e mutuamente se depara em estado de surpresa... Nesta última circunstância, importante mesmo será conseguir espevitar as confrontações, com especial atenção à temperatura do caldo, para que não verta... O prémio final aos convivas será o gosto comum de se ter dito o que se pensava e sentia, tendo-o saboreado melhor ainda, pelo paladar acrescido das discordâncias e interrogações. Questionando os outros, questionamo-nos. E ganhamos direito a mais um copito, porque já ganhámos mais lucidez...

 

   Tive hoje, Princesa de mim, o privilégio de participar num inesperado almoço de amigos muito diferentes, alguns que terei visto apenas três vezes na vida, outros com que lido há mais de meio século, sempre em circunstâncias diversas e partidas por força das minhas ausências pelo mundo. A imprevisibilidade do encontro, creio, rejuvenesceu-nos a todos. A mim, lê-me bem, Princesa, fez-me feliz. Sobretudo por me ter dado a oportunidade de trazer comigo para a mesa e a conversa um grande amigo  -  meu e de alguns dos presentes - morto há poucos dias: Rogério Martins que, entre outros trabalhos da vida - como docente universitário, empresário e gestor  - , foi Secretário de Estado da Indústria no primeiro governo do professor Marcello Caetano : Estive no Terreiro do Paço quarenta meses, desde a primavera promissora de 1969 até ao verão encalmado de 1972; por mim sempre achei que o Governo não existe para a manutenção do «status quo», mas para a dinamização da sociedade, de modo a torna-la mais justa, mais aberta, mais progressiva, mais racional, mais confiante.     

               

   Foi então que o conheci, através do saudoso Dr. José Guilherme de Mello e Castro, que assisti, como jovem apoiante à "Ala Liberal" da Assembleia Nacional, logo no início da imperfeita "Primavera Marcelista". Eu regressara da Guiné, depois de ali cumprir uma comissão de serviço militar como alferes miliciano. A razão de, acabadinho de chegar, ter logo entrado a trabalhar com pessoas que procuravam uma mudança, ou progresso evolutivo do regime estabelecido, deve-se à convivência mantida, desde os tempos de faculdade e de JUC, com movimentos e tertúlias de inspiração católica que, sozinhos ou com outros sectores religiosos e laicos (lembre-se a experiência de O Tempo e o Modo, conduzida por António Alçada Baptista, aliás outro homem da Covilhã, como Mello e Castro) desejavam, como Rogério Martins acima diz, "a dinamização da sociedade portuguesa, de modo a torna-la mais justa, mais aberta, mais progressiva, mais racional, mais confiante". Fui, com muitos amigos, desde monárquicos a socialistas, um dos subscritores, em 1964, da célebre declaração "dos 101", assim conhecida pelo número de católicos que a assinaram. Com Rogério Martins trabalhei três anos, dos meus 27 aos 29, na qualidade de assessor para as relações internacionais, que me dava, por inerência, um lugar de vogal na Comissão Interministerial de Cooperação Económica Externa (presidida pelo embaixador Ruy Teixeira Guerra), nas missões ministeriais à EFTA (conduzidas pelo Secretário de Estado do Comércio Valentim Xavier Pintado) e, ainda, o de delegado de Portugal ao Comité de Indústria da OCDE. Refiro agora tudo isso, porque, quase meio século mais tarde, e depois de tanto ter percorrido os continentes do mundo, é nesse período que encontro as raízes mais fundas da minha consciência política atual. Era ainda muito novo, tive a graça de me ter encontrado entre gente de bem, e altamente competente nas respetivas áreas profissionais, de uma geração anterior à minha, brilhante, até com grande prestígio internacional - como na altura pude verificar - que hoje já poucos conhecem. Será bom recordá-los, porque também profeticamente os seus desígnios e exemplos continuam atuais em nossos dias. Por isso trago aqui alguns testemunhos do próprio Rogério Martins.

 

   Ao seu primeiro livro de discursos e outras intervenções públicas deu Rogério Martins o título Caminho de País Novo. Os textos ali recolhidos vão de março de 1969 a junho de 1970, e refletem bem a consciência das reformas necessárias ao tão ambicionado desenvolvimento do país, e das dificuldades e obstáculos que encontrariam, bem como a esperança de as realizar:  Penso que Portugal neste meado de 1970 se encontra na exata situação de o desafio a que está submetido ser tão imperioso e tão grave, que é profundamente estimulante, sem vir a tombar no extremo de ser excessivo; apela para toda a nossa energia, imaginação, imaginação, entusiasmo e capacidade de organização e realização nacionais, mas não é paralisante nem por isso fatal; tem de ser tomado tremendamente a sério ,mas é respondível.

 

   A resposta é caminho de país novo.

 

   Há coisa de dez anos atrás, isto é, quarenta depois de escritas estas palavras, o Rogério, saudoso ainda, dizia-me: «Meu caro Camilo, apesar de tudo, ou talvez por isso tudo, naquele tempo tínhamos esperança!»

 

   Infelizmente, aqueles tempos de transição naufragaram, semeámos ventos e colhemos tempestades... Profeticamente, em edição de autor, Rogério Martins publicava, em 1973, o seu Tempo Imperfeito, dedicado expressamente a todos os que comigo quiseram trilhar caminho de país novo. Acrescentou-lhe, no exemplar que me ofereceu, uma extensa dedicatória manuscrita, que hoje ainda profundamente me comove. A família política a que pertencíamos tinha ainda raízes bem profundas no universalismo cristão. A Tempo Imperfeito vou buscar trechos do discurso que o Rogério proferira, em 4 de dezembro de 1964, na inauguração da "Motra", unidade industrial da Siemens no Sabugo, na presença do Presidente da República, dos Ministros da Economia e das Corporações, do Embaixador da República Federal Alemã e do próprio Peter von Siemens:

 

   Cada empresa nova, porque o é, tem assim um papel muito importante a desempenhar, ao forçar as outras a renovarem-se; que aquelas a quem esta nossa atitude possa ter parecido muito dura me desculpem pessoalmente - mas se lembrem de que só sobrevive quem tem a dureza de se preparar para isso.

 

   E afinal, a sobrevivência das empresas no agitado mar de competição moderna é talvez a primeira condição para que desempenhem a sua função social. Uma empresa é, no plano humano, uma comunidade; as leis da justiça inerentes à vida comunitária bem ordenada têm de viver nela; isso só acontece se se institucionalizarem, e se os colaboradores na obra comum sentirem a segurança da continuidade. Este deverá ser o verdadeiro objetivo económico do empresário : conseguir lucro para que por ele assegure o permanente rejuvenescer da empresa, e desse modo a sua permanência para além das vicissitudes económicas ou sociais; conseguir lucro para que a equipa que com ele trabalha possa manter-se, na livre adesão a um esforço comum progressivamente melhor organizado; e progressivamente melhor recompensado não só no plano das retribuições materiais, mas também, senão sobretudo, no das oportunidade concedidas ao desenvolvimento da personalidade, ao ascender a graus crescentes de realização pessoal, de aperfeiçoamento pessoal e humano. [E o bom Rogério, engenheiro e gestor então ao serviço da Siemens, grande empresa alemã  -  cujo idioma ele dominava, tal como mais outros sete, incluindo o catalão, além do português - ali bem visivelmente homo oeconomicus, diante das personalidades presentes, recorre ao papa João XXIII, o do Concílio]: «Uma conceção humana da empresa tem de salvaguardar, é certo, a autoridade e a necessária eficácia própria da unidade de direção; mas não pode legitimamente reduzir os seus colaboradores de todos os dias aos papel de simples executores silenciosos, sem nenhuma possibilidade de fazer valer a sua experiência, inteiramente passivos quanto às decisões que dirigem a sua atividade». Nesta casa faz-se o possível por que esta sábia reclamativa do bom Papa João seja a norma corrente do trabalho de todos. 

 

   Rogério Martins era um liberal, no sentido de defensor da liberdade de iniciativa económica, da desburocratização do Estado, da alegria de inovar e de propor andamentos novos. Como tal, incarnou bem o desejo de espaços e ares mais limpos, de mais confiança na inspiração apoiada na prudência segura, na competência técnica, ponto em que muito insistia. Lembro um passo do discurso que proferiu em 7 de abril de 1970, em Madrid, num almoço oferecido pelo ministro espanhol da indústria, Lopez de Letona: Já o Evangelho condena os que constroem na areia, e a nós, homens calejados na indústria, mais do que a ninguém repugna ignorá-lo.  Tampouco esqueçamos que foi ele quem acabou com a legislação e a política do corporativo colete do condicionamento industrial, corajosamente enfrentando poderes e interesses estabelecidos. Mas também recordo o que ele disse no Colóquio sobre Política Industrial, realizado em Lisboa, em Fevereiro de 1970, acerca das condicionantes positivas do desenvolvimento económico português e as nossas vantagens competitivas, negando qualquer prioridade à opção por um baixo teor dos salários: Este é um ponto particularmente importante, que se inscreve aliás entre os objetivos formal e solenemente reconhecidos pela Nação como prioritários nos planos de fomento: a melhor redistribuição do rendimento. O que isto significa é que o aumento dos salários deve não só acompanhar o aumento de produtividade mas tenderá normalmente a ultrapassá-lo, vindo correspondentemente o lucro empresarial, por unidade produzida, a diminuir; para manter o valor global de lucro; e para o aumentar, o empresário terá de aumentar o número de unidades produzidas; a pressão exercida por este fator social vai assim convergir com as de origem técnica, obrigando a aumentar a dimensão produtiva que exigirá escoamento em mercados maiores. Assim, ao mesmo tempo que a fração do rendimento nacional imputável à remuneração do trabalho tende a crescer para níveis próximos dos centro-europeus, concomitantemente se virá a assistir à diminuição da parcela de custo unitário que remunera o capital empresário.

 

   Em vez de vender cem ganhando por unidade dez, o industrial terá de vender mil, ganhando por unidade um: assim se traduz na forma simplificada de «slogan» este fator poderoso para a modernização industrial.

 

   Isto foi afirmado publicamente, num congresso de empresários industriais, há quase meio século, por um Secretário de Estado da Indústria do governo de Marcello Caetano. A recordação de grandes figuras do nosso passado deve servir-nos, como a lembrança dos santos do Céu, para ajudar a pensar na vida. Rogério Martins não precisa de que eu lhe escreva estas linhas. Nós é que precisamos de pensar com ele no caminho de país novo que queremos percorrer.

 

   Reflexão que, todavia, ainda que conservando e renovando o sentido profundo de um humanismo ou personalismo cristão, não deve quedar-se pelo mimetismo ou pela reprodução académica de conceitos do passado. Posso manter, e sustento, que não há real crescimento económico sem desenvolvimento social, nem este se entende sem participação comunitária e justiça distributiva. Mas já não sei bem como se fará, ou poderá conseguir, em plena globalização, que todas as empresas venham a produzir mais, de modo a venderem mil para ganhar um, em vez de cem para ganharem dez. Nem como a robotização e, mais ainda, a concessão crescente de atividades do exercício mental a meios de "inteligência artificial" virá a influenciar a evolução do emprego, quantitativa e qualitativamente, bem como a ocupação de tempos livres - a que ainda chamamos folgas -, ou seja, tudo o que, numa perspetiva evolucionista teilhardiana, poderíamos considerar transição para a noosfera... Precisamos certamente de melhor educação, para melhor nos cultivarmos. Mas voltarei, Princesa de mim, a estas questões, sobretudo para melhor as interrogar contigo. Nesta - e porque tanto te falei de Rogério Martins - sigo o último conselho que, recorrendo a Toynbee (A Study on History), ele nos oferece ao terminar o seu Caminho de País Novo:

 

   Guie-nos Toynbee na perscrutação da história: « Depois de termos descoberto, pelos nossos métodos empíricos, em diversos exemplos e variações do movimento Desafio-e-Resposta parecia ser uma "lei" funcional a seguinte: "quanto maior o desafio tanto maior a resposta", tentámos em seguida descobrir se esta "lei" que tínhamos encontrado por indução era válida de modo absoluto, ou se era sujeita, como tantas outras leis particulares, à lei geral dos "rendimentos decrescentes". O inquérito que acabamos de concluir indica que a "lei dos rendimentos decrescentes" é válida nesta perspetiva... Há desafios de uma severidade salutar que estimula o ser humano sujeito à sua inclemência a uma resposta criadora; mas há também desafios de uma severidade excessiva à qual sucumbe o ser humano sua vítima. Em terminologia científica, "o desafio mais estimulante encontra-se a meio termo entre uma falta e um excesso de severidade".» 

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta a António, Simone Weil, a filósofa judia e cristã, por seu pesar e sua graça, escreveu: Os filósofos gregos que se chamavam estoicos diziam que se deve ter amor ao destino; que se deve amar tudo o que o destino traz, mesmo quando traz a infelicidade. Neste sentido, o nosso frei Gaspar da Cruz foi um estoico. O autor do Tratado das Cousas da China, impresso em Évora em 1569-70, primeiro livro europeu sobre o Celeste Império, é sucintamente biografado por Charles Boxer, no South China in the Sixteenth Century, editado em Londres, em 1953, pela Hakluyt Society. Conta-nos o famoso Camões Professor of Portuguese, University of London, King´s College, que aquele dominicano português – traduzo - Gaspar da Cruz nasceu em Évora, mas nem o nome de seus pais, nem a data do nascimento são registadas pelos seus biógrafos. Foi admitido na Ordem de São Domingos no convento de Azeitão, mas o ano em que se fez Frade Pregador é igualmente desconhecido. A primeira data registada da sua vida é o ano de 1548, quando singrou para Goa, como um dos dominicanos de um grupo liderado pelo seu vigário geral, frei Diogo Bermudes. Outros poucos frades dominicanos tinham ido para a Índia antes disso, mas como capelães em serviço entre portugueses: a chegada de frei Diogo Bermudes e seus companheiros marca o início oficial das missões da Ordem na Ásia.

 

   Boxer conta então os trabalhos de frei Gaspar nas missões da Índia e de Malaca, até à sua tentativa de fundação de uma missão no Camboja, em 1555-56, que fracassou por manobras de monges budistas locais e desinteresse do rei. Por isso mesmo o fado empurrará o bom frade até à China (Cantão), onde pouco êxito terá também, apesar de aturado e rigoroso esforço de entendimento da cultura e gentes da terra. Salienta o professor do King´s College que frei Gaspar da Cruz, apesar de poucos meses ter passado na China, conseguiu recolher e tratar informação suficiente para redigir o seu Tratado das Cousas da China, obra inédita e logo famosa e útil na Europa do seu tempo... Mais tarde, descobrimo-lo em Ormuz, onde chegou a exercer funções de tradutor e intérprete, como testemunha a sua Relação da Crónica dos Reis d´Ormuz e da Fundação da Cidade d´Ormuz, tirada duma Crónica que compôs um Rei do mesmo Reino, chamado Pachaturunxa [Padinsha Turan Sha (1347-1378)]Trata-se, pois, de uma tradução do arábico, feita antes do retorno a Portugal, em 1569. No total, portanto, frei Gaspar fez vinte anos de Oriente.

 

   Na sua utilíssima Introdução, modernização do texto e notas à edição do Tratado, que preparou para a BI, o Dr. Rui Manuel Loureiro assinala a colaboração, prestada, em Lisboa, por frei Gaspar da Cruz na luta contra a violenta peste que em 1569 assolava a capital. Uma vez debelada a enfermidade nesta cidade, o nosso dominicano passou a Setúbal, onde o "pestífero mal" recrudescera; porém, contraindo ele próprio a doença, veio aí a falecer em "5 de fevereiro de 1570". Frei Luís de Sousa fala dessa epidemia na sua História de São Domingos, frei João dos Santos, na sua Ethiopia Oriental e várias histórias de cousas notáveis do Oriente, conta assim o episódio de que te falo: ... Este padre, tornando da Índia para Portugal, se ofereceu no tempo da peste grande de Lisboa, que foi no ano de 1569, para confessar e curar os enfermos que havia na grande cidade, juntamente com o padre frei Isidoro Altamirano e o padre frei Belchior de Monsanto, da mesma Ordem, e cada um deles trazia por seu companheiro um irmão leigo, que os ajudava a visitar os enfermos, com doces consolações e remédios, assim espirituais como corporais, divididos pelos bairros de Lisboa, que cada um tinha à sua conta, e neste ministério andaram enquanto a peste durou, exercitando esta obra de caridade: e acabada a peste, de Lisboa se foi o padre frei Gaspar a Setúbal para o mesmo efeito, onde esteve até se acabar a peste, e no fim dela adoeceu do mesmo mal, e morreu, como ele mesmo tinha certificado em sua vida, dizendo que também ele se feriria e morreria da mesma peste, e que depois da sua morte nenhuma pessoa mais adoeceria deste mal, como aconteceu: de modo que ele foi o derradeiro que adoeceu, e morreu do mal da peste em Setúbal, e dali o levaram a enterrar ao Convento de São Domingos de Azeitão, donde era filho. E nesta obra e serviço de Deus tão heroico acabou seus dias e trabalhos... Este texto também vem transcrito no livro Het China van Gaspar, da escritora e sinóloga flamenga Magda van den Akker, da Universidade de Lovaina (Leuven) que, numa escala em Bruxelas, em 1990, para visitar a minha filha Teresa (ia eu de Tokyo para Lisboa), comprei para ler no avião. Já tem hoje, Princesa de mim, versão em português, publicada pela Caminho. A autora, agnóstica e admiradora do Zeca Afonso, compôs a sua narrativa romanceada a duas vozes: uma, a de Fernão Mendes Pinto, a cuja Peregrinação vai buscar inspiração e indícios de factos que lhe permitam situar encontros do aventureiro com frei Gaspar; outra, a relatos mais ou menos imaginários da peregrinação que foi a vida do frade. Tudo isto intervalado de transcrições de documentos históricos, o conjunto justificando a atribuição, em 1990, o Prémio da Flandres para a melhor primeira obra.

 

   Alegrou-me encontrar uma desconhecida flamenga que saboreou, com gosto tão animado quanto o meu, a leitura deliciosa da Peregrinação e do Tratado das Cousas da China. Este último é devedor de informação ao relatório de Galeote Pereira, dos Pereira de Gege, senhores de Castro d´Aire, terceiro filho de Henrique Pereira, alcaide de Arraiolos. Curiosamente, uma vez mais, o primeiro texto que achei do relatório de Galeote Pereira foi uma versão em língua inglesa: Certain reports on China, learned through the Portugals there imprisoned, and chiefly by the relation of Galeote Pereira, a gentleman of  good credit, that lay prisoner in that country many years. Done out of Italian into English by Richard Willis. Pelos vistos, o relatório de Galeote Pereira circulava já no seu tempo, até em traduções como esta, em língua inglesa, a partir do italiano (não sei precisar de que parte de Itália, península onde eram várias as expressões itálicas). O texto original conserva-se no Arquivo Jesuíta de Roma, em manuscrito, provavelmente, de um aluno da Companhia de Jesus em escola de Goa, no século XVI: Jesus Maria. Algumas cousas sabidas da China por purtugueses que estiverão lá catiuos e tudo na verdade que se tirou de um tratado que fez Galiote Pereira homem fidalgo que lá esteve catiuo alguns anos e vio tudo isto passar na verdade o qual he de muito crédito. Ao tempo da redação do Tratado de frei Gaspar, além de Galeote Pereira, também cronistas como Fernão Lopes de Castanheda, Leitão de Barros e Damião de Goes haviam já escrito sobre a China. Mas, como bem observa Charles Boxer, nem esses, nem os relatórios anuais das missões jesuítas, constituíam livros sobre a China, pois eram apenas trechos de obras que incidentalmente falavam da China. Nove décimos do Tratado de Cruz se reportam diretamente à China, e é claro, logo no prefácio, que ele queria que o livro fosse inteiramente consagrado àquele país...   ... A este humilde frade dominicano, portanto, deve ser atribuída a honra (se for esta a palavra certa) de ter escrito o primeiro livro sobre a China publicado na Europa. Mais humilde ainda, pobre frade, no seu tempo, se considerarmos a hipótese - que alguns autores já consideraram verosímil -  de frei Gaspar da Cruz ter sido acolhido e criado um orfanato eborense, sem nome de família, fruto talvez de uma bastardia, ou de origem judia ou moura, como tantas outras crianças naquela época. Boxer não se pronuncia, concentra-se no elogio da obra: o Tratado de Gaspar da Cruz tem outra reivindicação do interesse do leitor. O grande editor de Marco Polo com razão observou que "em nada é o seu livro [de Marco Polo] tão deficiente como no tocante às maneiras e peculiaridades chinesas. A Grande Muralha nunca é mencionada...   ... O uso do chá nunca é mencionado...   ... a compressão dos pés das mulheres... a impressão de livros, além do registo de artes e costumes notáveis, que deveriam ter-lhe ficado na memória, nunca são evocados. Nem nunca fala das grandes características da escrita chinesa...

 

   O conhecimento do texto de Gaspar da Cruz mostrará que tais críticas não podem ser feitas ao seu Tratado. Todas as omissões de Marco Polo são ali preenchidas, e o nosso frade tem muitas observações que antecipam as dos vindouros escritores jesuítas que são normalmente creditados com a primeira revelação da China à Europa...

 

   O missionário dominicano, logo no prólogo do seu Tratado, enumera as muitas missões e obras de jesuítas, franciscanos e dominicanos no sul e sudeste asiático e em todo o Extremo Oriente, com igual estima por todos esses esforços e empresas de propagação da sua fé. É certamente um homem consciente da causa que a tão distantes paragens o levou, e o seu alegre entusiasmo pelas cristandades que encontra e quer continuar a expandir anima o seu esforço e alimenta a sua consciência - de católico quinhentista - da superioridade universal da sua fé. Mas tal não o impede de reconhecer virtudes alheias e, como Duarte Pacheco Pereira, e tantos outros, chega àquela sabedoria em que a experiência é madre de todas as cousas. Não resisto, Princesa de mim, a transcrever-te um dos trechos finais do prólogo que te referi:

 

   E porque entre estas gentes de que fiz menção, os chinas a todos excedem em multidão de gente, em excelência de polícia e de governo, e em abundância de possessões e riquezas - nem em coisas preciosas como é ouro e pedras preciosas, senão nas riquezas, disposições e fazendas que principalmente servem a necessidade humana -, e porque estas gentes têm cousas muito dignas de memória, me movi a dar notícia geral de suas cousas conforme a minha possibilidade, assim do que vi como do que li num compêndio que fez um homem fidalgo [Galeote Pereira] que cativo andou pela terra dentro, como do que ouvi a pessoas dignas de fé.

 

Camilo Maria     


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Conta frei Luís de Sousa como o papa mandou chamar o arcebispo e das honras que lhe fez, e de algumas particularidades que teve com ele, e da facilidade e amor com que o tratava [o itálico reproduz o título do capítulo XXII do Livro II da Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires]. Deste respigo o trecho seguinte:

 

   Levou-o um dia consigo passeando até o jardim famoso dos papas, que chamam Belveder; e, mostrando-lhe as obras que se iam fazendo, disse-lhe, sorrindo-se, como quem lhe sabia já o humor, porque não fazia lá na sua Braga uns paços como aqueles? -  Santíssimo Padre -  respondeu o arcebispo - não é de minha condição ocupar-me de edifícios que o tempo gasta.  Não ignorava o papa que havia de ser esta a resposta, e, contudo, tornou a instar e disse: - Pois que vos parece destas minhas obras?  Então, com maior energia, respondeu:

 

   - O que me parece, Santíssimo Padre, é que não devia curar Vossa Santidade de fábricas que, cedo ou tarde, hão de acabar e cair. E o que digo delas é que, de tudo isto, pouco e muito pouco e nada, e do edifício temporal das igrejas seja mais do que se faz; mas no espiritual, aí sim, que é razão ponha Vossa Santidade toda a força e meta o cabedal de seus poderes.

 

   Lembro-me bem de te ter já contado esta história, em carta remota. Repito-a agora, não só como testemunho da minha contínua fidelidade à leitura e memória dos nossos escritores antigos, mas por me dar o ensejo de pegar, de outro modo, no fio da nossa divagante conversa acerca de história, língua e "identidade" nacional. Esta, enquanto ser, é a comunhão de todos num ideal de solidariedade, ou seja, de união possível, com justiça e paz. Todos temos na vida altos e baixos, melhores e piores momentos, bem feito e mal feito, e omissões, mais ou menos conscientes, quer de um,quer de outro. Lamentar ou vangloriarmo-nos do nosso passado nacional, de pouco, muito pouco ou nada serve: o que nos transforma é um novo olhar sobre a vida e os outros, um olhar mais lúcido e a querer bem. Agora já, neste nosso momento de vida. Não te esqueças, Princesa, de que actualis, em latim, quer dizer ativo. Sabes com que gosto visito e revejo monumentos e obras outras de arte que nos testemunham o engenho criador de tantos que, antes de nós, por cá andaram e procuraram vencer a imperfeição... Livro-me sempre de condenar, ou sequer censurar, a despesa que terão custado, nem me parece que a remuneração do meritório esforço de um artista possa ser, só por si, motivo de escândalo, se não esquecer que é tão justo remunerar o mérito do esforço e do trabalho, como atender a que a distinção não seja razão de injustiça. E também compreendo os modos de tempos idos, em que o preço dos materiais utilizados era como que intrínseco ao valor da obra humana, e traduzia a grandeza do sentimento ou da homenagem prestada.  Mas igualmente tenho de entender que populações que se iam civilmente organizando em espaços e obediências diferentes, se recusassem a pagar obras de sumptuosa arte, em troco da promessa de menos uns anitos no purgatório, fantasia teológica inventada em tempos de pretensiosa clerical mentalidade. A compreensão dessa reação não me inibe de admirar as que recheiam o Vaticano, ainda que possa interrogar a sua pertinência evangélica. Mas não tenho de julgar, esquecer, nem apagar o passado: pensossinto que devo só procurar entendê-lo, e sua circunstância. Sabes bem, Princesa de mim, quanto tanto dou graças a Deus por pensarsentir que a interrogação e a demanda são parte integrante da minha, nossa, condição de imperfeito... Eu que, como tu, no que toca à "produção artística", fui crescendo numa época em que a pobreza dos meios disponíveis e a própria mínima  valorização dos materiais utilizados nos levavam a mais calorosamente apreciar a obra dos  artistas... Ao ponto de termos até caído na tentação de sobrepor a paixão pelo efémero à da tentativa de gerar eternidade... Ilusões ou utopias, que importa? São sinais das nossas contradições, da nossa imperfeição incompreendida, esse ponto íntimo em que começamos o caminho da nossa demanda...

 

   Para mim, o problema da escrita destas cartas que te envio, é deixar-me sempre perdido no percurso dos fios em que pego e hesito tecer. Não ensino nem quero ensinar seja o que for que se entenda como orientação de outros, contento-me com abrir as minhas janelas e deixar adivinhar paisagens que avisto. Convivo muito com o passado, é certo, procuro entender como outros se entendiam noutras circunstâncias, ganho alma para a minha vida ao visitá-los, como se essa comunhão me sustentasse só por deixar ver que a condição humana é este movermo-nos entre um ser e um estar, e as suas divergências, e os seus contrários... Um olhar inocente, isto é, sem convicções prévias, ou preconceitos, quiçá nos revele muito da realidade das coisas. Sempre assim penseissenti o convite de Jesus a sermos como crianças.

 

   Hoje, falamos de um arcebispo português, frade dominicano, padre conciliar em Trento, que o papa respeitava e carinhosamente tratava por "Bracarense", teólogo e pastor admirado que, todavia, numa cristandade latina em plena agitação da Reforma e Contra Reforma, não se coibia de lembrar ao "Santíssimo Padre" a necessidade de a Igreja se dedicar às obras do espírito e da solidariedade fraterna, como também  -  ao discutir-se em Concílio o celibato dos padres  -  quis lembrar os seus párocos perdidos nas serranias de Portugal, que talvez se aliviassem pela dispensa de tal disciplina... [Permite-me este parêntese: lembrei-me disto, da primazia de olhar o real sobre os desideranda de qualquer imaginada doutrina, quando, há pouco ainda, deparei com a atitude do episcopado português relativamente à questão do reconhecimento da paternidade de filhos espúrios de senhores padres... Será que o Deus de que se reclamam não é capaz de enfrentar umas realidades das suas criaturas? Ou será, mesmo, o sacerdócio católico uma espécie de promoção de baptizado=soldado raso a padre=capitão, com mais privilégios e isenções, ou dispensa do cumprimento de obrigações morais juridicamente imputáveis, que, mais, são naturalmente decorrentes da responsabilidade e do afecto dum progenitor? E será mesmo ainda irrevogável ou tão somente inderrogável a determinação canónica - cujo fundamento é, quiçá, mais de ordem cultural do que propriamente teológica - de se reservar aquele ministério pastoral apenas a solteiros (ou viúvos, ou divorciados de anteriores matrimónios civis) de sexo masculino? Digo isto com muita sofrida amizade por tantos padres que vivem a missão  que aceitaram e assumiram... Eles sabem bem que são, como todos nós, pobres muitas vezes fracos. E muito bem entendem como a conversão é uma tentativa de resposta ao apelo do melhor, não é negar o que fizemos, nem achar razão maior para não suportarmos as consequências. Qualquer filho de um padre católico celibatário não é "filho do pecado", não pode nem poderá sê-lo, pela simples razão de que todo o ser humano é sempre filho de Deus. Sobretudo se for um falso-órfão, num modo absurdo de ser abandonado. A primazia dos pobres e mais fracos é regra básica da mensagem evangélica. A tal ponto que até há quem diga que Deus é pobre. E, com muitas ou poucas inquisições, nunca ninguém foi, é, ou poderá ser, pela Mãe-Igreja, condenado por confessar que Deus é pobre. Sei bem, Princesa de mim, que isto que ora digo pode não ser fácil de entender. Mas quem ler atentamente o Novo Testamento talvez conclua que Jesus Cristo é o Deus autodespojado, para incarnar a condição humana. Assim não o entendem os fariseus, quando Ele lhes diz que se destruírem este templo, ele o reconstruirá em três dias: não se referia ao templo de Jerusalém, mas ao seu próprio corpo. O ser humano tem um valor espiritual que nenhum monumento nem regra jurídica ou social poderá atingir. Pensando assim talvez entendamos a misericórdia. Tenho tido esta carta, já há tempo escrita para ti, guardada, nem sei porquê. Sei hoje que lhe acrescento a grata memória do bispo Manuel Martins, nortenho, português de todos os costados, que foi o padre dos pobres na sua diocese de Setúbal. Era amigo de frei Bento Domingues, mas foi Francisco de Sá Carneiro, querido lembrado amigo, o primeiro a falar-me dele... Em tempos, Princesa de mim, de tão incompleta transição política... Mas não há incompletude que apague a memória e o testemunho de frei Bartolomeu e do padre Manuel Martins, nem imperfeição que empalideça a esperança ou enfraqueça a demanda da justiça.

 

Camilo Maria    


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Traduzo para ti um trecho do Vasco de Gama (Paris, Fayard, 1997) de Geneviève Bouchon, só porque, tendo sido escrito por uma historiadora francesa, traz outro sabor a uma história que todos conhecemos... Diz assim:

 

   A escala de Melinde permaneceria na memória coletiva portuguesa como momento privilegiado da história das descobertas. O acolhimento reservado aos portugueses pelo sultão foi logo atribuído à «vontade de Deus» que o inspirara. No dia de Páscoa, era a esperança reencontrada depois de tantas desventuras. Durante os nove dias de duração da escala, os homens da tripulação puderam regalar-se com laranjas doces, refastelar-se com carnes e legumes deliciosos, que os jardins da vizinhança, regados por noras, profusamente dispensavam. Comparavam a cidade à vila portuguesa de Alcochete, com as suas muralhas, as suas casas altas brancas de cal, sobre um fundo de palmeirais despenteados pelos primeiros ventos da monção nascente.

 

   Tudo lhes falava da Índia: as especiarias, os têxteis e os homens. Pela primeira vez descobriam a rede tecida à volta dela, de que Melinde era uma das extremidades. A maioria dos seus habitantes era bantu mas, quando a cidade se animava ao cair da noite, no porto se cruzavam também com árabes de turbante que andavam em tronco nu, com a parte baixa do corpo envolta num longo pano de algodão ou de seda. Encontravam também mercadores da Índia, esses chamados gujarates, nome que em breve se tornaria familiar aos ouvidos portugueses, pois em todo o lado os encontrariam. Vinham a Melinde buscar ouro, âmbar e marfim, que trocavam pelos seus algodões, cobre e mercúrio. Quatro navios estavam ancorados no porto, por conta de cristãos do Malabar. Os portugueses não queriam acreditar nesse novo signo da Providência, depois das falsas alegrias de Moçambique e dos dececionantes encontros de Mombaça. Mas parecia mesmo tratar-se aqui de verdadeiros cristãos, membros da Igreja de São Tomé Apóstolo. Eles próprios tinham vindo saudar os portugueses, que se maravilharam ao ver homens de pele escura que não eram africanos. Eram mais pequenos e mais magros, e traziam grandes barbas e longos cabelos atados nas costas nuas. Exprimiam-se numa língua com acentos metálicos, que os intérpretes dos portugueses não entendiam. Recusavam comer carne de vaca, mas prosternaram-se diante de uma imagem de Nossa Senhora que o capitão-mor lhes apresentou para verificar a sua fé. Alguns sabiam algumas palavras de árabe e deixaram entender que não vinham de Calecute, mas de Cranganor, onde de facto existia uma importante comunidade cristã. Também souberam pôr o capitão-mor de sobreaviso contra a "malícia" das gentes de Melinde.

 

   O guião de Geneviève Bouchon é o nosso cronista quinhentista Fernão Lopes de Castanheda (História dos descobrimentos e conquista da Índia pelos Portugueses, 9 volumes, Coimbra, 1924-1933).  Facilmente compreenderás com que pena, agora, eu não possa ter o texto aqui à mão. Já te disse que não sou historiador, nem tenho outras pretensões do que trazer-te comigo a umas voltas que nos façam pensar... Antes de te convidar para um passeio por este relato - que tem que se lhe diga - deixo-te a narrativa - que Camões canta, depois de trazer ao episódio Mercúrio, por Vénus enviado a avisar o Gama -  quando a armada zarpara de Moçambique para Mombaça: Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece, /  Dizendo: fuge, fuge, Lusitano, / Da cilada que o Rei malvado tece, /  Por te trazer ao fim e extremo dano. / Fuge, que o vento e o Céu te favorece;/ Sereno o tempo tens e o Oceano, / E outro Rei mais amigo, noutra parte, / Onde podes seguro agasalhar-te... ///... Vai-te ao longo da costa discorrendo / E outra terra acharás de mais verdade / Lá quase junto donde o Sol, ardendo, / Iguala o dia e noite em quantidade; / Ali tua frota alegre recebendo / Um Rei, com muitas obras de amizade, / Gasalhado seguro te daria / E, para a Índia, certa e sábia guia... ///... E como o Gama muito desejasse / Piloto para a Índia, que buscava, / Cuidou que entre estes Mouros o tomasse; [os de Mombaça, donde foge] / Mas não lhe sucedeu como cuidava, / Que nenhum deles há que lhe ensinasse / a que parte dos céus a Índia estava; / Porém dizem-lhe todos que tem perto / Melinde, onde acharão piloto certo.  // Louvam do Rei os Mouros a bondade, / Condição liberal, sincero peito, / Magnificência grande e humanidade, / Com partes de grandíssimo respeito / O Capitão o assela por verdade, / Porque já lho dissera deste jeito / O Cileneu em sonhos, e partia / Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia... ///... Quando chegava a frota àquela parte / Onde o Reino Melinde já se via / De toldos adornada e leda de arte / Que bem mostra estimar o Santo dia. [o Domingo de Páscoa] / Treme a bandeira, voa o estandarte, / A cor purpúrea ao longe aparecia; / Soam os atambores e pandeiros; / E assim entravam ledos e guerreiros. // Enche-se toda a praia Melindana / Da gente que vem ver a leda armada, / Gente mais verdadeira e mais humana / Que toda a doutra terra atrás deixada. / Surge diante a frota Lusitana, / Pega no fundo a âncora pesada. / Mandam fora um dos Mouros que tomaram, / Por quem sua vinda ao Rei manifestaram. Continuaria, sem qualquer cansaço, mas tão só com alegria, a ler-te, Princesa de mim, muitos mais trechos de rimas do nosso Camões. Acontece-me, com alguma frequência, sentindo-me em estado de abandono, agarrar-me à escrita tão bonita de Luís de Camões ou de Frei Luís de Sousa. Deste, leio e releio passos da Vida do Arcebispo Dom Frei Bartolomeu dos Mártires. Do poeta, as líricas e Os Lusíadas. Nunca percebi como foi já possível achar-se maçadora, dura de roer, aquela crónica e a epopeia, cuja leitura sempre me proporcionou momentos de intenso prazer, esse gosto inefável oferecido pela plasticidade da língua portuguesa. As oitavas que acima transcrevi relatam um acontecimento, mas de modo a que o leitor possa saboreá-lo, como se o visse e ouvisse, e ainda entendê-lo "por dentro", inserindo-o na circunstância e na sua história próxima, deixando adivinhar expectativas, apreensões, receios e alegrias. E eu leio essas estrofes a cantarem- me na alma, foram compostas e escritas há 450 anos numa língua que, hoje ainda, eu festejo como muito minha... Meu também, isto é, como se para mim fora escrito, sinto este passo do capítulo XX (Do cuidado com que acudia aos pobres e dos hospitais que ordenou na cidade...) do Livro I da Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires -  escrita por aquele que em pleno século XIX, Almeida Garrett considerou o mais perfeito prosador da língua, em discurso ao Conservatório Real:

 

   Parecerá por ventura, a quem ler com cuidado o que vamos escrevendo deste prelado, que a quem andava tão ocupado nas cousas espirituais não lhe poderia ficar tempo, nem ainda memória pera o governo das temporais, e é engano, porque não se prezava de menos diligente e cuidadoso em acudir às necessidades corporais dos pobres, do que o era em remediar as espirituais de todos. Atrás fica dito como, tirado o pouco que despendia em sua casa e o que montavam os salários dos oficiais de justiça, tudo o mais se entesourava nas mãos dos pobres, que era o mesmo que passa-lo ao Céu por elas, como dizia a Daciano o glorioso mártir S. Lourenço, em cujo dia vamos escrevendo. Agora é lugar de dizermos a ordem com que o fazia. E frei Luís de Sousa (que, "no mundo" fora D. Manuel de Sousa Coutinho) conta-nos então o cuidado, o rigor, a ordem assente na atenção prestada a cada pessoa, com que o arcebispo (que, tal como o seu biógrafo, também era frade dominicano) ia acudindo aos mais necessitados, que até em sua casa acolhia: Costumava dizer o arcebispo que em sua casa só ele era o estranho e os pobres eram os verdadeiros e naturais senhores dela. Saboreia, Princesa de mim, esta palavra, dita por quem - vimo-lo acima - entesourava nas mãos dos pobres a riqueza que recebesse, o mesmo Bartolomeu que, menininho ainda,  em casa de seus pais, na freguesia dos Mártires, em Lisboa, acolheu um pobre que lhes batera à porta: Encarou no pobre todo risonho, todo alegre, debatendo-se pera ele, e festejando-o com as mãozinhas, boca e olhos, como se fora um dos mais conhecidos de casa; e enquanto o pobre se não despediu, não desviou os olhos dele, nem deixou de o estar agasalhando com aquelas inocentes mostras... A língua portuguesa tem maneiras, ora profundas, ora bonitas, de dizer. Estas que para aqui trouxe, fui busca-las ao século XVI e primórdios do XVII. Guardei-as como sussurra António Nobre : Teu coração dentro do meu descansa / Teu coração desde que lá entrou / E tem tão bom dormir essa criança / Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

 

    E quiçá seja o coração também a pátria da nossa pátria, residência de um intimíssimo pensarsentir a pertença ou a comunhão com coisas e pessoas, passadas, presentes e desconhecidamente futuras. Afinal, a identidade nacional por ventura existirá apenas nessa comunhão de cada um no sonho ou na realidade de algo que todos sentem em uníssono (como quando cantamos o hino ou gritamos "Viva!") mas cada qual representa a seu jeito. Só nesse presente ela existe, sempre a fazer-se, sempre proposta. Nos textos que acima dou ao teu sentido, encontro propostas para a nossa nação de cada dia: aprender a olhar os outros pelos frutos, e não pelo preconceito, pela descoberta do que as diferenças podem fazer umas pelas outras; ganhar o espírito inato da justiça, não vendo nos indigentes encargos, fardos pesados, mas irmãos amáveis e libertadores, e, dando a cada um o seu direito (Ulpiano: Justitia est jus suum cuique tribuendi), entesourar riquezas espirituais. Muitas vezes me recordo ensinamentos cristãos da nossa tradição, que ainda hoje animam tantos gestos de solidariedade espontânea do povo português... Identidade nacional como mística fraterna, que qualquer português-novo é chamado a abraçar. Nunca como gloríola mitológica. Disso, sim, teremos de falar, Princesa. E talvez tenha de dizer-te de mim, português antigo e meio-português por nascimento, a caminho dos oitenta, com mais de metade da vida passada lá fora, e todavia querendo ser, nos dias de hoje, um português de agora...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sanjay Subrahmanyam explica bem a circunstância da cuidada distinção que os Portugueses começaram a fazer entre os mouros da terra e os mouros de meca (ou seja, do Médio Oriente: viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia porém resultado de árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental. Álvaro Velho, que escrevia um diário de bordo da São Rafael, uma das naus da armada, declara de modo enfático: «Esta cidade de Calecute é de cristãos, os quais são homens baços. E andam eles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiadas». Nem se desengana de tais ideias no apêndice do "Roteiro": aí se encontram listados, como reinos cristãos da Ásia, Cranganor, Coulão, Kayal (que aparentemente tem um rei mouro mas súbditos cristãos), Coromandel, Ceilão, Samatra, Sião, Tenasserim, Malaca e Pegu; apenas o Bengala, que possuía «muitos mouros e poucos cristãos, e o rei é um mouro», e Calecute, ficam fora da lista. É significativo que o termo gentio (mais tarde usado para designar hindus e budistas) não se encontre uma única vez no texto.

 

   Sabes bem, Princesa, que os pioneiros portugueses acreditavam -  como muita gente na Europa de então -  na existência de povos e reinos cristãos no Oriente, e com ansiedade procuravam encontra-los, pois eles estariam nas costas do Islão que, naquele tempo, cercava, ao Sul e no Médio Oriente, a Europa cristã. O desejo dessa descoberta era tão forte que explica, não só as afirmações, acima, de Álvaro Velho, como a confusão dos primeiros templos hindus visitados com igrejas cristãs, até porque tinham inúmeras estátuas e imagens, como se locais de culto cristão pudessem ser. Logo que desfeita tal baralhação -  pela experiência madre -  a designação de gentios distingue-os dos cristãos e, simultaneamente, dos muçulmanos, apelidados de infiéis, cujas mesquitas, aliás, não dispunham de representações ou imagens santas, abolidas pela lei islâmica. A classificação de infiel -  aliás recíproca entre cristãos e muçulmanos - denuncia as raízes comuns das três religiões monoteístas, ditas do Livro: judaísmo, cristianismo e islamismo, e ajuda-nos também a perceber as animosidades e os ódios atiçados pelo preconceito de que o outro, o infiel, é um traidor, e nunca podemos confiar em quem nos atraiçoa. Judeu, cristão ou mouro, cada um deles reza ao mesmo Deus único, clemente e misericordioso. Mas, ao longo da História, a própria fé os separa e põe em afrontamento. Talvez um melhor conhecimento mútuo pudesse ajudar a que a fé fosse mais verdadeira, isto é, mais próxima da comunhão fraterna com a clemência e misericórdia de Deus... Ainda por cima, Princesa, muitas histórias sagradas, lendas e mitos, pessoas santas e ensinamentos, são comuns a essas religiões. Há poucos dias atrás, em jantar de amigos, com gente instruída e interessada, houve quem duvidasse de um dito meu sobre a crença muçulmana na maternidade virginal de Maria, na sua veneração de Jesus, esta ao ponto de, no Corão, se negar a sua crucifixão, pois tal santo não pode morrer. E, todavia, olha o que Alcorão diz:

 

   Sura IV, versículos 155 e 156 - Não acreditaram em Jesus. Inventaram contra Maria uma mentira atroz. Dizem: «Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o apóstolo de Deus». Não, não o mataram, não o crucificaram; foi substituído por outro indivíduo parecido com ele, e mesmo os que debatiam acerca dele tiveram dúvidas. Não tinham qualquer conhecimento preciso, apenas suposições. Na realidade não o mataram. Deus elevou-o até Ele, e Deus é poderoso e sábio.

 

   Sura III, versículos 37 e segs. - Os anjos disseram a Maria: Deus escolheu-te, fez-te isenta de qualquer mácula, elegeu-te entre todas as mulheres do universo. Os anjos disseram a Maria: Deus anuncia-te o seu Verbo. Chamar-se-á o Messias, Jesus filho de Maria, venerado neste mundo e no outro, e um dos confidentes de Deus. Senhor, respondeu Maria, como terei um filho? Nenhum homem se aproximou de mim. É assim, retorquiu o anjo, que Deus cria o que quer. Diz: Seja! E é.

 

   O desconhecimento mútuo das diferentes leituras das três religiões "do Livro", nega oportunidades de se descobrirem familiaridades, o facto da cristandade (bizantina e latina) e do islão (árabe e otomano) invocarem a proteção divina para as suas campanhas de expansão e conquista, alimenta a desconfiança e o ódio "religioso". Tal não impediu, todavia, que, na própria bacia mediterrânica, ocasionalmente se estabelecessem alianças entre cristãos e muçulmanos em guerras contra outros cristãos ou muçulmanos, os interesses políticos e ambições territoriais não coincidindo sempre com as confissões religiosas das potências envolvidas. No Índico, os portugueses não fugirão à regra do pragmatismo militar, político ou comercial, e desde logo começam por diferenciar os mouros da terra dos mouros de Meca, e ambos dos gentios. Estes, não sendo infiéis, inimigos sempre suspeitos de traição, são considerados aliados mais prováveis, além de "searas" para obra do Senhor Deus. Por muito estranhos que sejam os seus cultos e imagens, depois de desfeita a confusão com cristãos do Oriente. Luís de Camões (in Os Lusíadas, canto VII, oitava 47 e segs.) diz bem essa surpresa e, quiçá, desgosto que, talvez, o próprio Gama terá sentido, em visita a templos hindus:

 

          Aí estão das Deidades as figuras,

          esculpidas em pau e pedra fria,

          Vários de gestos, vários de pinturas,

          A segundo o Demónio lhe fingia.

          Vem-se as abomináveis esculturas,

          Qual a Quimera em membros se varia

          Os cristãos olhos a ver Deus usados

          Em forma humana, estão maravilhados.

 

          Um na cabeça cornos esculpidos,

          Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

          Outro num corpo rostos tinha unidos,

          Bem como o antigo Jano se pintava;

          Outro, com muitos braços divididos,

          A Briareu parece que imitava;

          Outro fonte canina tem de fora,

          Qual Anúbis Menfítico se adora.

 

          Aqui feita do bárbaro Gentio

          A supersticiosa adoração...  

 

   Mas regressemos a Subrahmanyam e ao nosso jornalista quinhentista Álvaro Velho, para, como escreve o primeiro, nos debruçarmos sobre o contexto em que o nosso observador ingénuo se encontra em Calecute, na costa do Malabar. Subrahmanyam alude a duas debatidas questões acerca dessa primeira viagem de Vasco da Gama à Índia: uma refere-se à escolha do mesmo para o comando da armada, já que o Gama era de pequena nobreza e quase desconhecido; outra interroga o relativamente longo prazo de nove anos entre a dobragem do Cabo das Tormentas/Boa Esperança, por Bartolomeu Dias e a partida da expedição de Vasco. Finalmente, debruça-se sobre a questão de que te falo a seguir, e que tem a ver com a demora, ou atraso da chegada dos portugueses à costa ocidental indiana:

 

   A armada de Vasco da Gama deixou efetivamente o estuário do Tejo a 8 de julho de 1497, e chegou ao Cabo da Boa Esperança a 19 de novembro, mas só atingiu Calecute, o seu verdadeiro destino, a 20/21 de maio de 1498. As razões deste longo atraso, que contabilizava o total da viagem Lisboa-Calecute em 316 dias, foi a paragem de quatro meses na costa oriental africana. Os historiadores descuraram atá hoje esta parte da viagem, centrando-se na chegada a Calecute; de facto, parte do que ocorreu em Calecute só pode ser compreendido tendo em vista a experiência do Gama na África Oriental. Parece-me acertada, Princesa de mim, esta observação: aliás, os factos apontados por Subrahmanyam, na Ilha de Moçambique, em Mombaça e Melinde (donde a armada largou para o Malabar) encontram-se também narrados em Os Lusíadas, e Camões nem esquece a personagem de Fernão Martins que havia sido cativo no Norte de África e sabia falar árabe. O relato de Álvaro Velho contém uma súmula das suas observações. Eis o modo como viram Moçambique, no seu primeiro encontro com o sistema de comércio do Índico:

 

   «Os homens desta terra são ruivos e de bons corpos e da seita de Mafamede e falam como mouros; e as suas vestiduras são de panos de linho e algodão, muito delgados e de muitas cores de listras, e são ricos e lavrados; e todos trazem toucas nas cabeças, com vivos de seda lavrados com fio de ouro; e são mercadores e tratam com mouros brancos, dos quais estavam aqui, em este lugar, quatro navios deles que traziam ouro, prata e pano e cravo e pimenta e gengibre...»

 

   Após esta citação de Álvaro Velho, Subramahnyam continua: Há dois reparos a fazer: a rápida identificação do lugar como muçulmano, mas ao mesmo tempo o desejo de distinguir os muçulmanos "nativos" dos do Médio Oriente. De facto, quando as relações com o rei local azedaram, como ocorreu a breve prazo, há novamente uma clara tentativa de apontar a culpa do sucedido aos mouros brancos.

 

 

   Fosse qual fosse o motivo do desentendimento e algumas escaramuças, ainda hoje debatido, o certo é que a armada zarpou para Quíloa e Mombaça, onde se deram novos confrontos, tendo alguns muçulmanos, que haviam sido feitos prisioneiros, confessado que o rei de Mombaça urdiria uma conspiração contra os portugueses... Seguiram estes, então, até Melinde. O episódio da sua paragem aí merece umas estrofes de Os Lusíadas - como adiante te citarei - mas deixo-te, primeiro, o relato de Subrahmanyam, que segue o "diário" de Álvaro Velho:

 

   A breve estadia na África Oriental é essencial para definir a conduta dos Portugueses no Malabar. Salientemos a extrema desconfiança da atitude do Gama em Calecute: ele espera por navios de terra para se aproximarem das suas naus, em vez de tomar a iniciativa do contacto, após o que manda a terra um membro dispensável da sua frota - um degredado chamado João Nunes - em vez de alguém com autoridade. Nunes, ao encontrar dois mercadores tunisinos no porto, é o verdadeiro protagonista da célebre cena seguinte.

 

[Assim chego à prometida transcrição de um trecho do "Diário" de Álvaro Velho]:

   «E aqueles com que ele ia levaram-no aonde estavam dois mouros de Tunes, que sabiam falar castelhano e genovês. E a primeira salva que lhe deram foi esta que se ao diante segue:

 

   - Ao diabo que te dou: quem te trouxe cá?

   E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe, e ele respondeu:

   - Vimos buscar cristãos e especiaria.

   Eles lhe disseram:

   - Porque não manda cá el-rei de Castela e el-rei de França e a senhoria de Veneza?

   E ele respondeu que el-rei de Portugal não queria consentir que eles cá mandassem. E eles disseram que fazia bem».

 

   Em próxima carta voltarei a Camões e ao rei de Melinde. E também para ti guardo uns passeios à volta das cousas da China, com frei Gaspar da Cruz.

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:

 

Alertas-me para um prolongado silêncio meu, como se as minhas cartas falassem e eu te faltasse com a minha conversa fiel. Esqueces que, neste voluntário retiro, além dos milhares de livros que vou arrumando ou dispondo - em benefício, espero, de quem os possa apreciar - cozinho os petiscos quotidianos... Primum manducare, deinde philosophare, diriam os antigos, e eu, pobrecito, nem à filosofia chego, só procuro tratar de mim... Também recolho, escolho e dou abrigo mais seguro a muitos documentos da vida passada da nossa família, e da minha própria, não tanto por gosto de colecionar memórias, como pela serenidade de uma comunhão intemporal. E é bem verdade que o intemporal talvez nos tire muito tempo...

 

Dou comigo, muitas vezes, a entrelaçar lembranças e descobertas várias, tantas delas insuspeitas de qualquer relação entre si...ou comigo! No fundo, talvez dê por mim a dizer, com o Alberto Caeiro, que a espantosa realidade das coisas / é a minha descoberta de todos os dias. Aliás, dei novamente com estes versos hoje mesmo, evocados por José Mattoso no seu prefácio, de 13 de abril de 1985, à Identificação de um País, que começa assim: Este livro nasce de uma insatisfação: a de não encontrar na historiografia portuguesa atual respostas para muitas interrogações que a moderna ciência histórica não pode deixar de colocar. Tentei dar as minhas e coordená-las num conjunto que constituísse uma visão global da História de Portugal durante os seus dois primeiros séculos. A minha curiosidade orientou-se especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar [...] o que mais me atrai no passado medieval é a mentalidade: como é que os homens viam o mundo e se organizavam para tentarem dominar a realidade, nessa época tão diferente da nossa?

 

Tu também sabes, Princesa, como eu sempre pensossinto a constante mudança das coisas: a vida, o mundo, tudo é movimento, e quando olho para pessoas ou para povos, pela perspetiva do que chamamos História, melhor me apercebo de quão dinâmica, afinal, dialética mesmo, é a ideia ortegana de sermos e sermos a nossa circunstância. Assim, o conceito hegeliano de que die Weltgeschichte ist das Weltgericht deve ser só tomado no sentido de que os efeitos apurados dos factos produzidos são os únicos juízes destes, a História não podendo ser tribunal como se se pudesse julgar o passado por critérios presentes e retroativos... E sabemos quanto atos, factos e seus efeitos vão padecendo de mui diversas interpretações.

 

A História, como um dia disse João Ameal, é a nossa vida antes de nós, sim, mas tal não tem de tornar esta necessariamente gloriosa, nem vergonhosa: as lições da História não são gabanços nem pedidos de desculpa, podem, quando muito, e devem ser ensinamentos da escola da vida.

 

Qualquer povo tem uma história passada - a dos seus seniores - mas, essa mesma, não são os hodiernos que a fazem, é, tão simplesmente, um da sein que herdaram. É dele, de dantes, mas está aí, já feita. E dou aqui, mentalmente, o salto até uma resposta, há pouco lida, de Onésimo Almeida à revista LER, que lhe perguntava se, afinal, o carácter nacional não existe: Não, e deveríamos acabar com conceitos desse género. Não é possível, para qualquer povo, generalizar seja o que for. Nem nunca, em nenhuma época, toda a gente pensa e age da mesma forma, nem nunca, através dos tempos, uma nação se comporta da mesma maneira. Quer dizer que não se pode generalizar, nem diacrónica nem sincronicamente.

 

Ocorreu-me então algo que vou pensandossentindo acerca do modo como eu mesmo e muitos dos meus amigos fomos cultivados no ambiente de "uma certa História do Grande Portugal", algo que tanto me foi remoendo pelo convívio que tive, durante a minha longa estadia no Japão, com versões claramente míticas - para um estrangeiro que eu era - da História nipónica, sobretudo das origens do povo e da estirpe divina da linhagem imperial.

 

Não te esqueças de que até Wenceslau de Moraes escreveu um Dai Nippon (Grande Japão)... Como sabes, já amiúde falei sobre isso. Mas nunca me "psicanalisei" disciplinadamente no tocante ao meu entranhado sentimento de português enquanto filho de uma nação gloriosa, única, diferente de todas as outras. Pensossinto "Portugal", e vibro! Mas a leitura de obras hodiernas, de historiadores estrangeiros e portugueses, dos tais cuja curiosidade - repetindo o dito de José Mattoso acima citado - se orienta especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar, ao ponto de os levar a procurar e consultar outras fontes - até agora esquecidas ou ignoradas, quer por razões políticas ou ideológicas, quer por tradicional desconhecimento de estranhas línguas e culturas - para acharem novas perspetivas e, acima de todas elas, uma visão mais global, muda-me o sentir da História, das nossas vidas antes de nós, com as suas circunstâncias. Não já só "nós", os Portugueses, como pioneiros e condutores, mas todo um vasto mundo, povoado por outros, com que sucessivos lusos foram interagindo.

 

Dias atrás, falava com alguns amigos sobre um livro que há já uns anos me encantou, ao ponto, aliás, de dele ter adquirido vários exemplares para oferecer - incluindo alguns na sua bela edição francesa - a conhecidos, amigos e, - vieillesse oblige - aos inescapáveis netos. Trata-se de A Aventura das Plantas, do Prof. Eng.º Mendes Ferrão, famoso catedrático do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, reconhecido internacionalmente. Tive o grande gosto de o conhecer em 2004/5, quando recorri à sua sapiência para melhor me informar sobre a globalização das plantas que surgiu com a aventura da descoberta de caminhos marítimos entre todos os continentes, tema que decidira abordar em exposições e sessões públicas a realizar no pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão), de que eu era Comissário Geral. Um dos meus convivas referiu então um artigo recente de Guilherme d´Oliveira Martins que diz: "As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos" de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.
Os "negritos" são meus - já perceberás porquê. Antes, todavia, deixa-me dizer-te que, com muito gosto lusíada contei a aventura das plantas aos meus netos, por ela ser um dos mais antigos e persistentes sinais do que afinal a globalização é ou pode ser na vida quotidiana e comezinha das pessoas. Mas quantas vezes lembramos, ou quantos de nós sabem, que não se cultivavam nem comiam batatas, feijões ou tomates na Europa, antes das grandes viagens?

 

História fascinante, tetra secular, elucidativa, divertida, consoladora de humanidade... Quem mudava, então, as plantações de legumes e frutos no mundo de todos, era essa mancha de gente de muitas paragens, muito ou pouco ou nada sábia, a mor das vezes sem mais pertença do que qualquer obediência consciente ou instintivamente devida, que andava embarcada. E não eram só portugueses...

 

Já a razão dos meus "negritos" tem a mesma raiz dos que mostro de seguida, por mim postos num anúncio da Fundação e Museu do Oriente: Os Portugueses na Ásia na Segunda Metade do Século XVII  -  curso administrado por João Paulo Oliveira e Costa  -  dá a conhecer o panorama político, económico e sociocultural da Ásia sob a influência portuguesa.

 

No mesmo ou em dia próximo daquele em que recebi esta notícia, lera eu no Público uma entrevista a Eduardo Lourenço, em que este, a dado passo, afirmava: Portugal não é uma ilha, mas vive como se fosse. Talvez por uma determinação de quase autodefesa. O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos a viver um Ronaldo coletivo, um "nós somos o melhor do mundo"... E, mais adiante: Fomos os primeiros que largámos da Europa para ir para um sítio mítico, só conhecido através de novelas, como as de Marco Polo. De repente, deslocamo-nos do ocidente europeu e demos a volta a África - demos..., deram eles, os navegadores, porque eu não tenho um pé marítimo propriamente dito - para chegar à Índia. E foi como chegar a outro mundo, descobrir outro planeta, e durante dois séculos a nossa capital era mais fora de nós do que dentro de nós. E sempre nos habituámos a que essa imagem que adquirimos num lá fora hípermítico fosse tão universal que ninguém podia não saber que nós lá tínhamos chegado... Há aqui, nesta análise de um nonagenário, muita cândida lucidez. Que, quanto a mim, me levou sobretudo à intuição de que as mitomanias nos podem conduzir a algo que eu definiria como "narcisismo nacional"...

 

          Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira