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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Com tanto alarido à volta do filme do Scorsese, Silêncio tem havido pouco. Nem tampouco ouço vozes que nos aproximem do drama dos cristãos japoneses, nem sequer de uma compreensão mais próxima do combate obsessivo de Endo Shusaku pelo entendimento da sua própria fé cristã. Este, tanto quanto possamos depreender de passos da sua obra literária, tem muito a ver com sentimentos de divisão e traição (ao pai ou à mãe), com solidão e separação (rasgões que experimentou através da companhia e deserção de animais domésticos) e, já no plano mais propriamente racional, cultural, filosófico e religioso, com o problema do mal, do pecado e da graça, da misericórdia de Deus. Começo por te referir um passo do romance Rio Profundo (Deep River, na versão inglesa, Le Fleuve Sacré, na francesa), em que Otsu, seminarista jesuíta japonês em Lyon, França, desabafa assim: Não posso perceber a diferença entre o que as pessoas de cá chamam o bem e o mal. Penso que no bem se esconde o mal, e vice versa. E aí intervém a magia de Deus. Até pode servir-se dos meus pecados para os transformar em salvação...   ... A Igreja considera-me herético. Corrigiram-me: "Não distingues claramente as coisas, tens de agir com mais discriminação. Deus não é assim". A pobre personagem quererá pensar num cristianismo que se coadune com a mentalidade japonesa. Eis um ponto fulcral para o entendimento, não só de atitudes e comportamentos de católicos japoneses perante os  estrangeiros (lembra-te do que eu já contei da minha experiência com a família católica dos meus senhorios em Tokyo ou das diligências que, enquanto Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, fiz junto da hierarquia da Igreja em Nagoya) mas sobretudo da estranheza - para não dizer dificuldade de aceitação, desconfiança, ou mesmo aversão - que uma pregação rígida da ideia cristã pode causar nos japoneses. Já no século XVI, em debates entre missionários jesuítas e bonzos budistas, os japoneses interrogavam sobre se poderia ser infinitamente misericordioso um Deus omnipotente que, todavia, condena e castiga gente, mesmo até ao inferno eterno. Ou como poderia o mesmo Deus ser justo, ao pretender que há uma só religião verdadeira, quando, afinal, tanta e tanta gente nunca ouviu nem ouvirá a boa nova evangélica, do que não têm culpa. Nesse romance de Endo, Otsu afirma que estou persuadido de que o homem elege o seu Deus em função do seu local de nascimento, da sua cultura, das suas tradições e do seu ambiente. Os europeus escolheram o cristianismo porque assim o haviam feito os seus antepassados, e a cultura cristã era predominante no seu país. Não se pode dizer que os habitantes do Médio Oriente se tornaram muçulmanos, nem a maioria dos indianos hindus, após terem feito rigorosas comparações com outras religiões. Quanto a mim, foi a minha mãe e a sua particular influência que fizeram de mim o que sou. [Este passo é claramente autobiográfico, num romance em que Endo Shusaku se revê, ou descreve, sobretudo noutra personagem, Numada de seu nome]...   ..." Mas nunca pensaste que teres nascido numa certa família foi graças à bênção de Deus e ao seu amor?" - perguntou-me certo dia o meu diretor espiritual. "Sim, mas foi também graças à Sua bênção que aqueles que nasceram noutros lares acreditam noutras religiões... - responde Otsu/Endo.

 

   O tal Numada, como Endo ele-mesmo na vida real, passara a infância em Dalian, na Manchúria, que à época fora colonizada pelos japoneses. Ajudado por um jovem criado chinês - que seu pai mais tarde despediria - recupera da vadiagem das ruas um cão manchu, que criará e a quem chamará Negrão. Quando os pais se divorciam, na sequência do alcoolismo crónico do marido, Numada/Endo parte para o Japão com a mãe. E assim, depois de ter perdido Li, o criado amigo, terá de se separar de Negrão. Mais tarde, o menino já adulto nunca esquecerá o olhar de despedida do seu cão. Foi graças a ele e a Li que aprendeu o significado da palavra separação. Já casado e escritor conhecido, Numada adquire um estranho pássaro tropical, um calau. Este acabará por voar livremente no gabinete do romancista, que com ele conversa e o calau observa enquanto escreve. Quando a ave morre, a mulher de Numada, que muito discutia e protestava contra a sujidade que o bicho lhe fazia em casa, oferecer-lhe á outro pássaro diferente. Percebera que o marido era incapaz de explicar o seu desejo intenso de se religar a todos os seres vivos. A semente nele plantada pelo Negrão, na infância, tinha lentamente frutificado num mundo imaginário que ele só podia descrever através das histórias que contava. Aí, as crianças eram capazes de compreender o murmúrio das flores, as conversas das árvores, e até de ler os sinais trocados pelas abelhas entre elas, ou as formigas. Apenas um cão e um calau tinham compreendido a solidão que, já adulto, ele não conseguira dissipar... 

 

   Essa sentida solidão - em Endo autor e muitas das suas personagens - acaba sempre por ter uma proposta de companhia: a de Jesus. No romance Chinmoku (Silêncio), o padre apóstata ouve em confissão o renegado Kichijiro, que o traíra. Ambos haviam pisado o fumie, a imagem de Cristo. - "Senhor, ressenti o teu silêncio". - "Eu não estava silente. Sofri ao teu lado". Após a confissão secreta, Kichijiro chora mansamente e sai. E o livro termina assim: O padre tinha administrado o sacramento que só um padre pode administrar. Sem dúvida de que os seus colegas padres condenariam o seu ato porque sacrílego; mas mesmo que estivesse a traí-los, ele não traíra o seu Senhor. Amava-o agora de uma maneira diferente de dantes. Tudo o que ocorrera até agora fora necessário para o trazer a este amor. "Agora mesmo sou o último padre nesta terra. Mas Nosso Senhor não estava silencioso. Mesmo que estivesse calado, a minha vida até hoje teria falado dele". William Johnston, jesuíta da Universidade Sophia, em Tokyo, amigo e tradutor de Endo Susaku, escreve, a abrir um prefácio ao romance, algo que traduzo para ti:

 

   Shusaku Endo tem sido apelidado de Graham Greene japonês. Se com isso se quer dizer que ele é um romancista católico, que os seus livros são problemáticos e controversos, que a sua escrita é profundamente psicológica, que ele descreve a angústia da fé e a misericórdia de Deus - então é certamente verdade. Porque o senhor Endo chegou à ribalta do mundo literário japonês escrevendo sobre problemas que, a dado momento, pareciam longe deste país: problemas de fé e Deus, de pecado e traição, de martírio e apostasia.

 

   Sobre o pano de fundo desta história - que é o século cristão do Japão - já escrevi bastante. Mas talvez volte a escrever, em carta só para ti. Por hoje, basta lembrar-te de que, como já te disse, Silêncio não é um romance histórico, muito menos uma análise da missionação dos jesuítas no Japão dos séculos XVI-XVII. É um cenário e uma ficção para questões que o seu autor foi interrogando, sofrendo e meditando.


Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   É sempre com alegria que vejo gente nova a interessar-se e a escrever sobre o Japão. Li um artigo de Maria José Oliveira no Observador e felicito-a pela sua curiosidade e esforço. Vi outros, também, mas confesso que me chocaram um pouco: alguns "clichés" sobre encontros de culturas, insistência na missão histórica de Portugal e dos jesuítas (cujos méritos nem sem querer pretendo diminuir), afinal olhares sobre o próprio de nós e generalizações mais ou menos apologéticas. Falando de um filme saído de um romance escrito por um cristão japonês, Shusaku Endo, acaba este, afinal por ser quase esquecido. Quando, todavia, a circunstância em que ele colocou o drama da fé e da negação, real ou aparente, dela apenas terá sido o pretexto achado para se exprimir, não só enquanto cristão e japonês, mas como crente católico, um dos muitos que a fé conforta e rasga. Não me leves, Princesa, portanto, a mal as considerações que se seguem. Devem estar, creio fora do filme: refiro-me, claro está, a essa hecatombe de comentários a que assistimos.

 

   Aliás, a mais grave observação que posso fazer ao artigo de Maria José Oliveira, por exemplo, é de somenos importância: nem os jesuítas, nem os portugueses da Nau do Trato, passaram a ser, por qualquer motivo de antipatia ou ódio, "bárbaros do sul"! Tal designação surgiu naturalmente, desde a aparição desses estranhos homens, de narizes compridos e diversas cores de pele, olhos e cabelo, exoticamente vestidos e transportando bens desconhecidos e quiçá apetitosos - desembarcando na sulista ilha de Kyushu. Vinham do sul (não do sul da Europa desconhecida dos japoneses, mas do sudeste asiático) e chamaram-lhes algo que traduzimos por bárbaros, mas que, em língua nipónica, como em mandarim, em grego - e sei lá que mais! - não tinha necessariamente sentido pejorativo, mas antes era manifestação de estranheza. Aliás, como tão bem traduzem os biombos nanban, a reação inicial dos japoneses foi a de curiosidade e expectativa, nunca de antagonismo. A questão da perseguição ao cristianismo, tal como a da limitação do comércio externo à "feitoria" de Deshima, em Nagasaki, surgirá mais tarde, por outras e complexas razões.

 

   Não vi, nem tenciono ver, o filme de Scorsese. Não tenho nada contra, é uma opção pessoal que, singularmente, tem a ver com o próprio título da película e do romance de Shuskaku Endo: SILÊNCIO. Desabafo: para mim, o drama ali exposto tem menos a ver com portugueses, jesuítas e coisas passadas, do que com o silêncio de almas humanas perante o silêncio de Deus. É claro que a circunstância histórica em que esse drama (uma luta de Jacó com o anjo?) é colocado tem diretamente a ver com a chegada dos portugueses ao Japão, a missionação jesuíta e o "século cristão". Mas esse é o cenário. Podia ser outro. Já, por várias vezes, em escritos e conferências, citei uma entrevista de Shusaku Endo à revista japonesa Kumo, em que ele afirma: Fui batizado em criança, isto é, o meu catolicismo foi um pronto a vestir. Depois tive de decidir se faria o fato adaptar-se ao meu corpo, ou se o deitaria fora, para vestir outro. Muitas vezes senti que queria desfazer-me do meu catolicismo, mas, finalmente, fui incapaz de o fazer, mas, finalmente, fui incapaz de o fazer. Não foi só não deitá-lo fora, foi sentir-me incapaz de o deitar fora. A razão disto talvez seja ele ter acabado por se tornar parte de mim. O facto de ter penetrado tão profundamente em mim quando jovem era um sinal de que, pelo menos em parte, se tornava numa co-extensão minha. Mesmo assim, não conseguia desembaraçar-me do sentimento de se tratar de algo emprestado, e comecei a perguntar-me o que seria o meu ser-eu-mesmo. Penso que isto é o pântano de lama japonês em mim. Desde que comecei a escrever romances, e até hoje, esta confrontação do meu ser-eu-mesmo católico com o ser-eu-mesmo que lhe está subjacente tem, como um refrão repetido por um idiota, ecoado e voltado a ecoar na minha obra. Senti que tinha de encontrar maneira de reconciliar ambos.


   Este tema está subjacente a um outro romance de Shusaku Endo, Escândalo, a meu ver bastante autopsicográfico, em que a personagem central é um escritor japonês premiado, o católico Suguro, que, na cerimónia de entrega da distinção, além de ouvir, até nos próprios elogios públicos de colegas e críticos, alusões à sua condição de cristão, encontra uma jovem estranha, que não conhece, mas pretende conhecê-lo bem de encontros num bairro boémio e pouco recomendável a homens sisudos e casados como ele. Tal encontro levá-lo-á a visitar o misterioso local... Não vou contar a história, deixo-te apenas uns trechos de dois discursos de homenagem então proferidos por personagens do romance.

 

   O primeiro por um tal Shiba, que assim se referia a Suguro: Algumas partes das suas histórias são...ora bem...você ainda não as agarrou com os dentes... Não há nada de estranho em falar sobre Deus, mas tudo se torna suspeito quando parece que você traz cá para fora algumas ideias ocidentais... Suguro ia retorquir, mas engole as palavras: Nenhum de vós tem qualquer ideia de quanto é difícil para um cristão escrever ficção no Japão. E o romancista Shusku Endo comenta: Ao mesmo tempo, uma parte de si mesmo não podia negar a afirmação de Shiba de que a sua obra era suspeita. Sentiu-se como se sempre tivesse escondido algo num canto recôndito do seu coração.

 

   O segundo discurso pertence a um tal Kano, e terá mais a ver com o tema Endo/Silêncio/Ferreira. Será mais longa a citação: Naqueles dias, Suguro era como uma criança perseguida no nosso grupo. Até chegámos a insistir em que abandonasse o seu cristianismo. Para nós, jovens do pós-guerra, a religião era o que Freud descrevia como uma ampliação da imagem do pai derivada dum complexo de Édipo, ou o ópio da doutrina de Marx, uma superstição irracional. E os cristãos eram uns hipócritas que tinham ido contra as suas origens japonesas - resumindo, não conseguíamos perceber porque é que Suguro não tinha posto de parte o sarilho do Deus estrangeiro. Além disso, ele não se convertera de livre vontade. Fora meramente batizado enquanto criança, por vontade de sua mãe. Assim, a sua fé não nos parecia mais do que uma força de hábito. Como sabeis, Suguro publicou mais tarde várias novelas históricas sobre os primeiros cristãos no Japão, narrando os patéticos crentes que foram forçados à apostasia por oficiais brutamontes. Pensei muitas vezes que Suguro me tinha em mente quando criou esses cruéis oficiais...

 

   ... O carácter único da literatura de Suguro reside na sua descoberta de um novo significado e valor para o que a religião chama pecado. Infelizmente, não sendo eu mesmreligioso, não faço a menor ideia do que seja o pecado...

 

   Eis porque, minha Princesa de mim, prefiro guardar silêncio perante o Silêncio: pensossinto que a única possível descoberta do insondável é a contemplação, como diálogo interior. Respeito muito o que não sei explicar, seja fé ou apostasia. E todavia sigo sendo crente. 

 

   O que não quer dizer que o século cristão japonês, a missionação jesuíta, o comércio nanban, o sincretismo religioso no Japão e a inculturação, sobretudo no caso dos cristãos clandestinos, não sejam questões interessantes. Também já falei delas, designadamente no meu Fomos em busca do Japão, editado pela VERBO/BABEL em dezembro de 2015. Mas tudo o que lá está, e mais algumas coisas, encontrá-las no blog do Centro Nacional de Cultura. E noutras cartas que te escrevi.


Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Morreu, neste último 16 de janeiro, a poeta suíça francófona Anne Perrier. Perfaria, a 16 de junho próximo, 95 anos. Filha de mãe alsaciana e pai suíço valdez, ela católica, ele calvinista, ambos não praticantes, Anne Perrier converter-se-ia à confissão católica aos 32 anos de idade. Recebeu vários prémios literários, dos quais quero destacar, não o Grand Prix de Poésie, o mais importante, mas o Rambert, pois lhe foi atribuído pelos poemas reunidos em Lettres Perdues, um ciclo dedicado àquele que ela chamava seu irmão de cristal, o poeta português Cristovam Pavia, da geração e amizade de Pedro Tamen, M. S. Lourenço, João Bénard da Costa, Nuno Cardoso Peres (hoje o dominicano frei Mateus), que se suicidara. Em homenagem a esse encontro de poetas, e a todos os que procuram caminhos de Deus no canto e meditação das palavras, deixo-te aqui a minha tradução dos primeiros daqueles poemas. A série das Lettres Perdues é uma sucessão de composições sem título, nem pontuação, com maiúsculas apenas a marcar versos ou ritmos. A poeta, cujo pai, arquiteto nascido em Viena, gostava de levar com ele a concertos de música clássica, chegou a hesitar entre a entrega às letras ou à música. Creio que acertou na opção, pois as palavras que nos deixou dizem-nos lindamente a limpidez do seu olhar espiritual.

 

                              Pelas frinchas da eternidade

                              Falaremos juntos

                              Procurando os nossos sopros

                              Pouco a pouco deixando as nossas vozes

                              Reacordarem-se

                              Tu céu eu terra

                              Falaremos muito tempo muito

                              Até que o verão

                              Nos cubra de flores campainha

 

                              À minha volta as grandes flores

                              Amordaçadas pelo dia

                              Meu coração como o mar

                              Se retira

                              É meio dia

                              Meia noite?

                              A hora prenhe de folhas mortas

                              Dobra-se

                              Meu irmão entre a salva e a sombra

                              Repousa

                              Que o dia sobre o dia

                              Cruze as suas trepadeiras

                              Vês

                              A morte cheira a erva e a orvalho

                              O teu coração está cheio de grilos 

                              Repousa

                              Meu irmão entre a menta e a sombra

                              Para ti

                              O tempo seca num ervário

                              Eu à beira da terra

                              Ainda espreito

                              A próxima partida dos pássaros

                        

Por florestas e fetos Por mil nascentes Pelas águas do abismo Pela neve inacessível Meu irmão te chamo

                              Como queres que durma?

                              De uma a outra chuva

                              Tanta pimenta nos olhos

                              Oh! no vento de outono

                              Este nunca mais

                              Como janela que bate

                              Esse infinito bater de asas!

                              Se buscasse frutos flores

                              Nada acharia

                              Altíssimo no céu

                              As nossas almas se cruzavam

                              Como cotovias

                              O espaço foi o nosso reino

 

   Convido-te, Princesa, a entrares comigo nesta comunhão de dois grandes poetas, transcrevendo aqui dois poemas de Cristovam Pavia, pensandossentindo que ele e Anna Perrier estão a falar juntos, procurando o acordo das suas vozes no eterno reino do infinito espaço. 

 

                            Estamos juntos quando nos vencemos e nos purificamos dia a dia,

                            e quando rezamos a Deus, e pedimos mais purificação...

                            E quando um descanso grato e humilde é a recompensa.

 

                            Estamos juntos, quando a Poesia nos toca

                            e entramos como reis no Reino do Silêncio...

                            Quando sentimos que tempo e risos e lágrimas e tudo

                            em nós amadurece...

 

                            Estamos juntos, quando a noite é fria e o calor custa a suportar,

                            quando a solidão é mais solidão

                            e vemos como na boca de tantos a palavra Amor é profanada...

                            Oh! Ainda que nos separem Oceanos,

                            estamos juntos, bem juntos, bem o sabes, numa profunda
                            companhia!
         

 

                           Na noite da minha morte

                           Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...

                           E os campos libertos enfim da sua mágoa

                           Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

 

                           Na noite da minha morte

                           Ninguém sentirá o encanto antigo

                           que voltou e anda no ar como um perfume...

                           Há-de haver velas pela casa

                           E xailes negros e um silêncio que eu

                           Poderia entender.

 

                          Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar

                          Vejam subitamente...

                          Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,

                          E mesmo que tu não saibas de onde vem nem porque vem

                          Talvez só tu o não esqueças. 

 

   Não resisto, Princesa - por achá-la tão clara de verdade e beleza - a transcrever ainda a Epígrafe de Cristovam Pavia:

 

                          Um barco sem velas

                          E sem rumo

                          Singrando um mar de fumo,

                          Mas descobrindo estrelas...

                          Nisto me resumo.

 

   E vai, no seu francês original, a resposta que, imagino eu, Anne Perrier lhe teria dado, quando escreveu:

 

   Je pense, ou je rêve à une manière de "posséder comme ne possédant pas", de prendre en acceptant de perdre aussitôt, je rêve à des gestes désappropriés, à une sorte de possession aux mains ouvertes où le chant passerait comme l´eau entre les doigts. Fala aqui a mesma poeta que confessou (agora traduzo):

 

                            Paro por vezes debaixo de uma palavra

                            Precário abrigo da minha voz que treme

                            E luta contra a areia

                            Mas onde está a minha morada

                            Ó aldeias de vento

                            Assim de palavra em palavra passo

                            Ao eterno silêncio

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os amigos que te referi, na carta anterior, é que me apontaram todos esses dogmas de que falo, bem como o da infabilidade papal. Para mim, este é um decreto datado, claramente decorrente de algum pânico clerical perante a crescente subversão do poder das autoridades eclesiásticas sobre as consciências, devida ao desenvolvimento do livre pensamento e do espírito crítico laico. De pouco ou nada serviu, e até eminentes teólogos e santos bispos se sentiram inconfortáveis com ele. 

 

   Quando recito o Credo de Niceia, confesso que Jesus Cristo nosso Senhor foi concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Tal conceição virginal não consta da tradição joanina, nem dos textos paulinos, nem do evangelho de Marcos, o mais antigo escrito evangélico, redigido em grego para a instrução de pagãos sem conhecimentos de cultura judaica. Consta, todavia, dos chamados "evangelhos da infância", os de Mateus e Lucas. O primeiro, feito para judeus e para lhes demonstrar que Jesus Cristo é, na verdade, o Messias prometido pelas Escrituras, começa, aliás, pela genealogia de Jesus, desde Abraão a David, deste ao exílio em Babilónia, e daqui até José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo...   ... O nascimento de Jesus Cristo ocorreu deste modo. Estando sua mãe Maria desposada com José - e antes que eles tivessem consumado o casamento - ela foi descoberta como tendo [concebido] no ventre a partir de um espírito santo...   ... Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi afirmado pelo Senhor através do profeta, ao dizer: eis que a virgem terá no ventre um filho e o parturirá; e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, o que significa Deus connosco. (Mateus,1, 18 e seguintes, na tradução de Frederico Lourenço. Em grosso, Isaías, 7, 14). Neste evangelho, se virmos bem, a anunciação surge feita pelo anjo a José. Só em Lucas (1, 26 e seguintes) aparece o relato da Anunciação a Maria, com a virgindade desta assim atestada (Lc. 1, 34-35, trad. de FL): Disse Maria ao anjo: «Como será isto, uma vez que não conheço homem?». E o anjo, respondendo, disse-lhe: «Um espírito santo virá sobre ti e o poder do altíssimo te sombreará. Por isso, o concebido é santo e chamar-se-á filho de Deus». E logo a seguir Gabriel lhe diz que Isabel, sua parente, estéril e já idosa, está grávida de seis meses e dará à luz João Baptista. A comparação de ambos os "milagres" ajuda-nos a melhor entender o significado da Virgem Mãe na fé profunda e na devoção cristãs. Já São Paulo (Romanos I, 3-4) nos aponta o "mistério": surto da linhagem de David segundo a carne e estabelecido Filho de Deus com poderio segundo o Espírito de santidade pela ressurreição dos mortos... Se a Ressurreição de Jesus Cristo o afirma como Filho de Deus, a sua Conceição terá de estar em linha com essa afirmação: será pois concebido pelo poder de Deus, por uma virgem. É inesperadamente novo, o Deus feito homem. Os relatos de Mateus e Lucas devem, portanto, compreender-se de uma perspetiva mais cristológica do que mariana. Na tradição judaica, os heróis de Israel são dados por Deus ao seu povo, quase sempre pelo milagre do parto de uma mulher estéril ou idosa que, todavia, terá tido, para o efeito, relação sexual com seu marido: Isaac, Jacó e Esaú, José e Benjamim, Sansão, Samuel... O mesmo sucederá com João Baptista. Mas que eu saiba, apenas o exemplo de Melquisedeque, contado no Livro dos Segredos de Enoque - que não é bíblico - será exceção: nesse caso, aliás, não deparamos, nem com uma conceição milagrosa (a mulher estéril que concebe um filho após uma relação sexual determinada), nem com uma virgem, mas com uma estéril não virgem, sem relação procriadora apontada. Diz o texto do Livro dos Segredos: Sofonim, a mulher de Nir, estéril e que não lhe tinha dado filhos, estava já na velhice e às portas da morte, e concebeu em seu ventre; ora Nir, o sacerdote, não tinha dormido com ela desde o dia em que o Senhor o tinha posto à cabeça do seu povo. A conclusão de Nir e de seu irmão Noé foi: Isto é obra do Senhor, meu irmão!

 

   O profeta Isaías (7, 14) dirá: Por isso o Senhor vos deixa um sinal: eis que a jovem [almah, em hebraico] está grávida e conceberá um filho e lhe dará o nome de Emanuel. Em Mateus e na tradução de Isaías na Bíblia dos Setenta, o hebraico almah será, em grego, parthénos, isto é, virgem. Há aí, claramente, uma afirmação teológica que se exprime pela imagem forte da conceição por uma virgem: a Incarnação de Deus é o início do triunfo da vontade divina sobre o mal, triunfo que se consumará gloriosamente na Ressurreição. Jesus não é um herói, um super-homem que o Senhor oferece ao seu povo. É o Emanuel, o próprio Deus connosco. Não esqueças, Princesa, que, no Credo, professas que crês em Deus Pai todo poderoso...   ...e em Jesus Cristo seu Filho unigénito, nascido do Pai antes de todos os séculos...   ...Deus de Deus...   ...gerado não criado, consubstancial ao Pai...   ...que por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus e incarnou, pelo Espírito Santo, no seio de Maria Virgem. Fez-se homem como nós, Ele que era antes de nós. Se a mulher em que tomou forma humana fora isenta do pecado original (e não será este uma parábola de explicação do mal?) parece-me questão de somenos importância, antes serão desvelos de devoção mariana ou especiosidades teológicas. Aliás, repensando, não poderia o Salvador ter sido concebido no seio de uma mortal ainda sujeita ao pecado original (se este tiver mesmo substância), não terá o resgate começado pela incarnação de Deus? Durante toda esta quadra, que hoje se encerra com a festa da Epifania, todos os dias tenho contemplado o mistério do Natal de Deus entre os homens. E tal mistério desafia qualquer ciência. Resta-nos contemplá-lo, até ao apocalipse, dia da revelação final. Intuindo, como Frederico Lourenço, que nos cabe, a nós, seres humanos, sermos a refração da luz de Jesus.

 

   Essa luz é, simplesmente, a do mandamento novo: amai-vos uns aos outros. E tu, Princesa de mim, que há tantos anos me conheces, sabes bem como pensossinto que o mundo já nos torna as vidas tão complicadas... que será certamente de Deus a graça de um sorriso que nos anime.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:
 

   Já te falei na tradução, para português, diretamente do original grego, da Bíblia Grega que, além de grande parte da chamada Bíblia dos Setenta - textos vertidos para a língua helénica, na judeo-helenística Alexandria, por sábios judeus, a partir de originais hebraicos - inclui ainda outros livros da Bíblia Hebraica acolhidos pelo cânone católico, mas que foram originalmente redigidos em grego, tal como todos os vinte e sete do Novo Testamento.  Tradução portuguesa esta empreendida pelo conceituado professor catedrático de Coimbra, especialista em cultura clássica, Frederico Lourenço. A publicação desta Bíblia em versão direta do grego para o português inicia-se pelos quatro evangelhos. Adquiri e li um exemplar desse primeiro volume da obra. Nada digo, nem me pronunciarei, sobre a qualidade da tradução: o Professor Frederico Lourenço conhece infinitamente melhor o grego clássico do que eu. Como e calo. Ponto final. Por outro lado, devo dizer-te que concordo com uma observação de Paulo Mendes Pinto, da Universidade Lusófona, publicada na edição do Jornal de Letras de 23 de dezembro de 2016: Com o trabalho de Frederico Lourenço, passamos a ter mais que uma nova edição da Bíblia, passamos a ter uma edição descomprometida de uma visão religiosa. Não que para a História da Bíblia toda e qualquer ligação religiosa não seja importante, mas hoje, mais que nunca, urge perceber que ela é um património que não se esgota no campo da crença e das afirmações de fé.

   E, já agora, deixa-me acrescentar que, tratando-se de uma tradução literária criteriosa, exercitada através de uma colocação dos textos na cultura em que foram produzidos e na gramática da língua em que foram escritos, o trabalho científico do seu autor não impede o mesmo, nem o leitor, de, no seu próprio foro interior, despertar para qualquer sentimento religioso. Aliás, testemunho claríssimo disso é o que Frederico Lourenço diz em página de Diário, editada no mesmo número do Jornal de Letras. E fá-lo com uma franqueza honesta, apetece-me dizer que é very candid, como os ingleses se referem a alguém muito franco e verdadeiro. Irei todavia respigar três passos desse texto, que o autor intitulou Até ao fim da rua.  Por perspetivas diversas, qualquer deles toca em questões que, volta e meia, me ocorrem e te tenho confiado. Mas vamos aos textos de Frederico Lourenço, pois falam por si e revelam o seu próprio enquadramento:

 

   1. Existe, por exemplo, toda uma bibliografia curiosíssima que procura demonstrar que Jesus nunca existiu. Os modernos paladinos dessa teoria - só vale a pena nomear os menos irrazoáveis, como Robert Price ou Richard Carrier - são no fundo herdeiros de ideias que já vêm desde o Iluminismo francês, quando Charles Dupuis começou a publicar a sua "Origine de Tous les Cultes ou Réligion Universelle em 1793. No entanto, os padrões pagãos nos quais esses autores procuram encaixar Jesus são tão forçados! E quem diz Jesus, diz outras figuras que o Novo Testamento nos dá a conhecer: desde logo, Paulo. Para alguém que, como eu, conhece bem a Cultura Grega clássica, não é imediatamente óbvio o paralelismo Perseu / Jesus, Adónis / Jesus, ou Penteu / Paulo que estes autores querem "provar", explicando assim as narrativas do Novo Testamento como invenções baseadas em mitos pagãos. Quando um autor como Price afirma que Paulo na estrada de Damasco é uma recriação imaginativa da tragédia grega "Bacantes", alguém que conhece bem a referida tragédia na língua original dificilmente se pode deixar convencer.

   2. Há um poema do Fernando Assis Pacheco que diz: "Um homem tem que viver [...] / Tem que viver / cheio de luz". Sempre fui apologista da luz e inimigo do obscurantismo. No Evangelho de Mateus (5:14), Jesus dirige à raça humana uma frase para mim enigmática: "vós sois a luz do mundo". Em nenhum outro evangelho é atribuída esta frase a Jesus. No Evangelho de João (8:12), são-lhe atribuídas palavras aparentemente contraditórias relativamente à frase de Mateus: "eu sou a luz do mundo". Mas não há contradição, a meu ver. Cabe-nos a nós, seres humanos, sermos a refração da " luz de Jesus" - do mesmo modo que nos cabe passar a distribuir o amor que, segundo a 1ª Carta de João, Deus é. Olharmos para o mundo e ver em cada noticiário a refutação da frase "Deus é amor" (o que se passa na Síria, meu Deus!) não é mais do que a medida do falhanço humano. Cabe às pessoas humanas fazer esse trabalho de Deus, criar a corrente de amor, a corrente de luz. É por questões assim que continuo sempre a achar que a mensagem de Jesus é tão válida para crentes, como para pessoas de outras religiões, como para ateus. É uma mensagem para o mundo inteiro. Acho que precisamos de Jesus.

   3. Ao motivo do feriado de hoje [8 de dezembro de 2016] já falta o universalismo em que pensei ontem. Só um católico muito devoto poderá encontrar sentido na ideia da Imaculada Conceição de Maria. Muitas igrejas herdeiras da Reforma luterana viram, com desânimo, a oficialização deste dogma no século XIX como algo que veio acentuar ainda mais a divisão entre católicos e protestantes. Ainda me lembro como fiquei espantado, da primeira vez que li o Novo Testamento de fio a pavio, de não encontrar qualquer sustentação bíblica para realidades teológicas que eu achava que estariam na Bíblia (entre elas o motivo do feriado de hoje).
 

   Curiosamente, por esses dias, almoçava eu com velhos amigos, todos filhos de famílias da velha nobreza portuguesa, católicos devotos, também homens do nosso tempo, atentos a formulações e interrogações. Subitamente, um deles, jurista de formação e gestor financeiro, perguntou-me o que eu pensava da enunciação de certos dogmas, hoje em dia, pela Igreja Católica. Referia-se a homilias e artigos recentes que, precisamente, lhe pareciam corroborar afirmações que talvez já não devessem ser interpretadas como se tivessem existência intemporal, nem, muito menos ainda, como se não pudessem ser datadas e lidas no seu contexto cultural e histórico.

   Remeti-me, primeiro, para considerações de ordem geral: a proclamação de dogmas surge muito em função de clarificar uma fé comum, isto é, de manter uma unidade comunitária, ou união eclesial: exemplo paradigmático disso é o Credo, o Símbolo dos Apóstolos, o do Concílio de Niceia que, aliás, com o imperador Constantino, em 325, proclamou,sobre todas as igrejas locais, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Católica em sentido contrário a sectária, antes porque universal. Por isso estava em sínodo ou concílio, isto é, se reunia. A minha fé católica professa-se aí, nada lhe retiro nem acrescento. Outros dogmas foram depois proclamados pela "autoridade" eclesial, sobretudo quando esta pareceu poder romper-se por desacordos de partidos acerca do que, em muitos casos, mais não eram do que devoções que ganhavam força em certos sectores da Igreja.

   Exemplos disso são dogmas como os da Imaculada Conceição de Maria - aliás frequentemente confundida com a sua virginal conceição de Jesus. Doutores da Igreja, como São Tomás de Aquino, recusavam a conclusão teológica da Imaculada Conceição. Claro que se, séculos mais tarde, quando o dogma foi declarado, o bom teólogo ainda fosse vivo, aceitá-lo-ia... tal como eu o aceito, ou seja, não fazendo dele condição necessária da minha confissão católica. [Mas, provavelmente, tampouco aceitaria que a confissão da fé cristã, ou de qualquer dogma católico, pudesse ser imposta em nome de uma Igreja que Jesus Cristo não fundou como instituto jurídico, mas convocou, eucaristicamente, como corpo de amor fraterno e ressurreição]. Tal dogma, dizia, não está no Credo, tal como ausentes estão a Assunção de Nossa Senhora - que também não tem relato bíblico canónico, mas nasce de uma devoção popular e seu imaginário, e de especulação "teológica" - nem sequer a Transubstanciação, resultado de um processo mais complexo que, aliás, no século XVI, as querelas entre Reforma e Contra Reforma levaram a polémicas escolásticas hoje difíceis de entender. Resumindo o que pensossinto, dir-te-ei que a consagração do pão eucarístico não é um ato de magia ou ilusionismo, o pão não deixa de ser materialmente pão, o Corpo de Cristo é um Corpo Místico, a Comunhão dos fiéis que, partilhando o pão de cada e todos os dias, continuam a tornar presente e eficaz a vontade de reconciliação que Jesus Cristo trouxe e que o levou ao sacrifício da própria vida. Pessoalmente, não sou adepto das chamadas "exposições e adorações do Santíssimo", por me parecerem - para o meu gosto, repito - mais  práticas idolátricas (no sentido de pretenderem consubstanciar numa materialidade um ser espiritual) do que atos de comunhão fraterna e reconciliação universal, com Deus e os homens, com Cristo, por Cristo e em Cristo. Formulando assim o meu credo e a minha devoção, não quero, nem devo, fechar o coração aos que de outro modo melhor possam sentir o Mistério Pascal. Cada um de nós tem as suas devoções, penso que a única exigência comum a todas é que, antes de rezarmos, devemos reconciliar-nos com os nossos irmãos, pois qualquer oração cristã é um ato de comunhão. Na minha próxima carta continuarei a conversa encetada há dias com aqueles amigos meus.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim: 

 

  Voltando aos místicos carmelitas espanhóis, deixo-te um poema de Santa Teresa de Ávila, que também com livre cumplicidade traduzi. Compô-lo a madre carmelita - boa prosadora, mas menos lírica, mais linear, sem a intuição poética de João da Cruz, por aí se diz, mas pensossinto eu, arrebatadora nestas três sextilhas sobre uma glosa que rezava assim:

 

                                                             Vivo sem viver em mim,

                                                             e com tal pressa espero,

                                                             que morro por não morrer.

                      

 

                    Vivo bem fora de mim,

                    desde que vivo de amor,

                    porque vivo no Senhor,

                    que para si me quis assim:

                    dei-lhe o coração inteiro,

                    nele posto este letreiro:

                    ai que morro por não morrer!

 

                    Esta divina prisão

                    do amor com que me vivo

                    fez de Deus o meu cativo,

                    e livre o meu coração.

                    E causa-me tal paixão

                    ver Deus na minha prisão...

                    que morro por não morrer!

 

                    Ai que longa é esta vida!

                    Que duros estes desterros,

                    este cárcere, estes ferros,

                    em que a alma está metida!

                    Só de esperar pela saída

                    me vem uma dor tão ferida...

                    que morro por não morrer!

                                                                                        

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Está, creio que de passagem, como tudo, um dia de inverno e céu azul, cheio de sol e respirando um ar quieto, silencioso. Cedo de manhã, os campos à minha vista estavam brancos, como se tivesse nevado. Era a geada, a humidade humilde da terra dada ao frio da noite. Fiquei a ver o sol acordar e a levantar do chão, envolvendo as vides tolhidas e as árvores nuas, pelo ar pálido, um só manto de névoa etérea e fina. E deixei-me levar também, como se me aquecesse uma calada lembrança de Deus...

 

   Ao recordar agora esse momento telúrico de grande paz, ocorre-me um passo da carta do poeta Christian Bobin ao monge beneditino François Cassingena-Trévedy, a agradecer-lhe ter escrito um livro, que a Desclée de Brouwer recentemente publicou: Cantique de l´Infinistère, relato de um percurso místico pela natureza do Auvergne, simultaneamente caminhada física de longo curso. Escreveu Bobin: Gosto desse passeio a seu lado e do seu modo de fazer estalar a língua francesa, como neve azulada, sob a raridade de algumas palavras precisas, nunca preciosistas. Leva o leitor ao deserto, para que ele aí encontre anjos, anjos bons. Há duas noites que adormeço na neve, enamorado de uma vida tão elementar que acaba por ser a profundidade absoluta. Amar a vida é amar Deus sem o conhecer, e eis toda a ciência que podemos ter no coração. Para melhor entenderes, Princesa de mim, o que o poeta disse da escrita do monge, transcrevo, no francês original (terá de ser!), um trecho do livro que, em português, poderia ter o lindo título de Cântico de Infinisterra:

 

   La marche de longue haleine esseule, elle dessaoule de ce grand étourdissement, de cette distraction entretenue, de ce sacrilège continuel qu´est la vie courante (et pourtant si sédentaire). Elle exonere, elle débarasse l´homme, dans l´oubli de tout arriéré, et l´assortit au bleu, au vert, au brun, là-bas, vers lequel il pérégrine. Mais pour autant, c´est peu dire, c´est mal dire qu´elle spiritualise l´homme: elle l´incarne plutôt et l´enracine, elle l´installe solidement dans l´entier naturel de l´univers...

 

   Saboreado o francês do monge beneditino, sirvo-te também esta minha versão portuguesa: «A caminhada de fundo isola, desinebria dessa grande tontura, dessa distracção cultivada, desse contínuo sacrilégio que é a vida corrente (e contudo tão sedentária). Exonera, desembaraça o homem, em esquecimento de qualquer passado, e combina-o com o azul, o verde, o castanho, no além, para o qual peregrina. Mas todavia direi pouco, direi mal, se disser que ela espiritualiza o homem: antes o incarna e enraíza, instala-o solidamente na inteireza natural do universo».

 

   Esta manhã, bem cedinho, ainda estremunhado e medricas de frio, criei raízes na terra, sob a geada branca, fui descobrindo com o sol - que, afinal e sempre, se ergue para todos - fui descobrindo as cores da vida, e subi com elas, nessa névoa véu que voa... Assim envelheço, Princesa, como um rebento que espera a primavera. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Aqui tens o prometido texto, tirado de Um Beijo Dado Mais Tarde que, escreve João Barrento, arrasta consigo o estigma de um diferimento afetivo, de um atraso no tempo, de uma tensão dilemática com a memória. Ou, poderíamos também dizer já, pensando neste não romance de Maria Gabriela Llansol, um desfasamento entre a língua que nos é dada e a voz própria que um dia assumimos -  ou não. Por mim, encontro nele, também, quiçá sobretudo, a saída de um espaço-tempo real, mensurável, que eu próprio muitas vezes experimento, como já te disse, Princesa, ainda que sem o devaneio onírico de Maria Gabriela. Dou-lhe, a ela, a palavra:

 

   Bach canta pela voz de Anna Magdalena, é aquele que ocupa o centro do toucador, junto do espelho.

 

   Será uma profanação fazer diligência por encontrar a arte nos restos humanos? Será errado encontrar-me com o sagrado neste quarto, a olhar a forma sentimental destas figuras acompanhantes, e destes móveis? O que é meu não é meu, estou na parte do templo destinada aos que vivem envoltos em mistério. Assafora jacente é o fim de que nasce um ser, e faço-lhe uma festa tímida na testa, ou à silhueta de navio do seu ir-se embora; que toda a obscuridade seja móvel, e deslize para fora do quarto, mesmo a minha, pois não sei exprimir a ideia que me provoca aquele ser finito, com substância infinita. Será realmente infinita, ou engano-me nas palavras, manchando o canto com que entrei?

 

   A música já não é minha, percorre o corredor do espaço até à sala de jantar onde, numa certa cena, construí a minha infância. Que grande terror terem-me mandado até aqui, já não como filha da casa, mas como neblina muito densa de onde se espera a luz; ao fixar uma salva, tenho um sonho de prata desenhado a lápis no meu pulso; dos lagos, no seio das águas do mar   com um golpe de navalha; a partir do que nele leio, reconstituo a minha visão, que gostaria que fosse ouvida pela minha tia doente: estou na grande sala onde habitualmente vivo, e somos, no máximo, três; de modo natural, é noite lá fora, onde há um jardim com árvores soltas, cantadas por alguém que conhece o espaço; fitas douradas, lianas capazes de doçura, pendem dos ramos fixando nossos olhos; a noite ressai até dentro de nós e reparo na cómoda onde essas mulheres guardam os nomes que dão às coisas da sua conveniência; na primeira gaveta entreaberta, chove. Vou busca-la, e vejo que algumas palavras estão negras, enquanto que outras são azuis e douradas. - Também há tristeza no paraíso - diz-me Bach, que se liga a outra mão para a segurar. 

 

   Respiro. Fazem permutar as palavras. Inebriada por esse álcool, encontro-me na rua, também eu munida de desejo e de poder. Vou a uma loja que tem a porta quase coberta por um monte de palavras. Alguém, deitado no chão, procura penetrar o monte e eu baixo-me para impedir que as palavras se espalhem na rua; surge então, em lugar inferior às sílabas / letras e acentos, um ninho de gatos brancos que reconheci serem aves do paraíso. - Também há alegria sobre a terra - diz-me Bach.

 

   Gosto muito desta escrita. Não lhe faço comentários "técnicos", pois para tanto me faltam conhecimentos, competência e jeito. Creio que este texto não foi redigido no exílio belga da autora, mas já depois, talvez em Colares ou Sintra. Não sei. Mas tenho-o, para mim, que ele traz a marca indelével de um exílio interior, é mesmo sinal de uma vocação de exílio. Recordo um passo de carta que Maria Gabriela escreveu em 1980, em Herbais, Bélgica, lembrando a partida: Em dezembro de 1965 abandono Portugal. À falta de alguém ou de um animal para acompanhar-me na viagem aérea, levo nas mãos os "Salmos" de David; está presente a ideia do Êxodo. O Êxodo é uma aventura interior, não necessariamente uma viagem no espaço. Vivi mais de metade da minha vida fora do meu país, e trinta desses muitos anos de exílio passei-os entre gente que não falava a minha língua. Tudo isso aconteceu por opção minha, sem outras pressões além de uma vocação de desprendimento. Maria Gabriela Llansol emigrou para estar com seu marido, refratário à guerra de África. Mas assumiu o exílio como decisão sua, precisou de interiorizar uma presença fiel na ausência, a essência da saudade. Aí me encontro profundamente com ela, que nunca conheci. Não só pela vivência de um rasgão, mas pelo modo como se compensa: amor à língua materna, carinhosamente tratada e educada, e ainda a perceção de que, como Gabriela tão bem diz, para mim, o exílio faz parte da escrita, e não quero perdê-los; dá-me o afastamento de pressões, a distância para poder ver sem entraves e imaginar...   ... O exílio. A língua portuguesa já não a ouço quotidianamente à minha volta; nem a falo; os livros dos escritores portugueses são-me enviados e eu principio a criar as representações da língua ausente... E sobre o extremo ocidental do Brabante, onde se refugiou, escreve: Reconheço que sempre vivi nesse país sem tentar mergulhar nele, e torna-lo meu; mas como poderia ser diferente, se eu própria me afastava daquele em que tinha nascido e, pouco a pouco, não possuía do passado senão uma língua de que nada, nem ninguém, conseguiriam separar-me.

 

   E será acerca do seu primeiro livro, inteiramente escrito na Bélgica, que ela confessará, no esboço de uma carta dirigida à Moraes Editora, em 1977, publicado, mais tarde, no Livro de Horas II - Um Arco Singular (Lisboa, Assírio e Alvim, 2010) que momento tão importante como o da aprendizagem da escrita foi o da escolha do exílio. Exílio corporal, não presença, mas também a lenta aquisição do espírito da distância, onde "O Livro das Comunidades" nasceu e se vai apagando a cartilha das referências, hierarquias que estratificam a posse e o uso do poder, e a categorização espontânea do tempo; os livros que se seguem (como dizer?) continuam a luta contra a minha cultura. Sempre penseissenti o amor como fator de transformação, posto que não pode, não deve quedar-se; antes vive precisamente por ser atuante. No entendimento dos casais, como na educação dos filhos ou discípulos, o labor amoroso também sabe remar contra a maré. Assim nós, portugueses, devemos amar a língua portuguesa, a nossa Pátria, diria Pessoa, cultivando-a. E qualquer cultura implica uma forma de amorosa violência... A ousadia é o princípio do amor, a transformação renovadora o seu pão de cada dia. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Escrevi-te evocando Maria Gabriela Llansol, escreves-me a perguntar se ela é portuguesa, e quem é, e que fazia na vida... Imagina que pouco dela sei, quando me calhou lê-la aconteceu-me o que noutra carta te contei, deixei-me levar pelo encanto natural de uma escrita que me envolveu... Mais não sei explicar, só posso dizer-te que, para mim, Maria Gabriela Llansol é essa escrita, essa é que é a Maria Gabriela que conheço. À parte isso, li ou ouvi algures que era licenciada em direito - pela Clássica de Lisboa - mas nunca trabalhou como jurista; que se exilou na Bélgica, por razões que presumo terem sido de índole político-sentimental, situação em que também encontrei, nos meus anos de Bruxelas, antes e depois do 25 de Abril, várias outras pessoas e casais; que, como se depreende de várias das suas confidências escritas, ensinou português, tratou de hortas e jardins, cozinhava, bordava e cosia, também fazia pão - tudo isso com amor místico e tarefeiro, com a inocência natural de quem nasce todos os dias. Passou por altos e baixos, teve em Augusto Joaquim o amor de marido e cúmplice consentâneo...

   Decidi, esta manhã - enquanto olhava para os campos cobertos de geada, sobre os quais se ia erguendo um sol que, ao derrete-la, levantava fios de névoa ténue, espalhando véus de noiva pelas terras - decidi então recorrer a João Barrento para te descobrir melhor a Gabriela adormecida sob a geada da minha ignorância. Na verdade, é ele o responsável pelo espólio literário da escritora, é também o organizador das Jornadas Llansolianas de Sintra. A sétima realizou-se a 24 e 25 de outubro de 2015, sobre o tema Llansol: a vocação do exílio. As intervenções dos participantes foram editadas em livro pela Mariposa Azul em 2016, aonde irei respigar sentimentos e informações. Antes, porém, recorro a outra obra do mesmo João Barrento, que a Bertrand editou em setembro deste ano, com o título de A Chama e as Cinzas - Um quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000), em especial ao capítulo III -  A nova desordem narrativa: escrita feminina -  que começa assim: No Feminino? Numa das suas primeiras obras, Maria Gabriela Llansol coloca a questão que neste capítulo se irá tratar, a da relação entre a escrita e o sexo (e entre escrita e «género»/gender) nos seguintes termos: «Plantin me disse que, embora eu fosse mulher, podia escrever numa sala próxima das oficinas, pois para ele, mais vale o livro que o sexo e que o livro torna o sexo invisível». (Maria Gabriela Llansol, em Na Casa de julho e agosto, Relógio de Água, Lisboa, 2003). Como já te disse em carta anterior, sinto na escrita de Maria Gabriela o seu vivo sentimento da condição feminina, mas será sobretudo uma impressão difícil de identificar, até porque, sentindo-a, todavia não me reconheço nela. João Barrento, no texto de que te falo, refere-se a Isabel Allegro de Magalhães - que conheço e estimo - e ao seu O Sexo dos Textos (Editorial Caminho, 1995), reproduzindo assim as conclusões desta professora: 1. De uma maneira geral, verificamos no nosso país a não existência de uma "escrita feminista". 2. Ao falar de valores femininos e de aspetos próprios da criação literária das mulheres, não o faço na perspetiva de identificar uma "especificidade" restrita ao grupo das mulheres [...] É claro que estas não possuem em exclusivo esses elementos: muitos homens comungam deles também. 3. Isto quererá dizer que não é possível separar águas com clareza; que não existem dois polos distintos definidos pelo sexo de quem escreve. Poderemos é eventualmente falar de um "sexo dos textos", ou seja, falar de tendências predominantes da escrita. Quanto a mim, o que quis dizer tem precisamente a ver com essa afirmação de Isabel Allegro: não é possível separar águas com clareza...

   Perdoar-me-ás citações algo longas, mas quero sair da minha subjetividade e deixar que outros mais desprendidamente explanem questões atinentes ao fenómeno literário da Maria Gabriela Llansol (imagina que quando falei dela, um amigo meu me perguntou se ela não seria invenção minha...) Retomo trechos de A Chama e as Cinzas, de João Barrento: A sugestão de uma aproximação à questão da escrita no feminino por via mais literária do que culturalista deixa, no entanto, ainda no ar a pergunta: é isso possível quando se escreve em e para "contextos culturais" bem definidos (por exemplo: Portugal antes e depois da revolução de 1974; ou um tempo de consciência histórica agudíssima, como foi a época pós-revolucionária e um momento pós-histórico como o atual), numa "língua" determinada e adentro duma "tradição"? A leitura de uma autora como Maria Gabriela Llansol veio dizer-me, em reposta a essa tripla pergunta: precisamente porque se escreve em contextos culturais, numa língua e numa tradição específicos, é que a escrita tem sempre de se afirmar "contra" uma cultura, uma língua e uma tradição. No seu próprio caso, contra um contexto cultural em que o que domina é um fantasma chamado "literatura", qualquer coisa que, na maior parte dos casos, não tem existência (escritural) porque é um "déjà-lu"; contra uma "língua" que é a língua da "impostura" (no duplo sentido, ético e estético, do termo); contra uma "tradição", a do romance realista (de fundo e sentido patriarcais, mesmo quando escrito por mulheres: veja-se o caso de Agustina), da literatura da representação, a que se opõe o texto "orgânico" e a escrita do fulgor. Em grande parte, é por esta tripla via que o texto de Llansol (que aqui nos serve de referência maior) faz passar a sua originalidade - mas à margem de qualquer ligação explícita entre sexo, género e escrita.

   Para João Barrento, sintetizam-se em quatro pontos fundamentais os momentos mais importantes da renovação do romance português a partir de meados da década de sessenta, no que diz respeito às técnicas narrativas e às estratégias discursivas. Vejamos, Princesa de mim, como os elenca: 1. A "polifonia narrativa", ou seja, o recurso a uma multiplicidade de vozes, e o fim da monoperspetiva narrativa...   ...2. As formas da "temporalidade no romance", nomeadamente a superação da temporalidade linear, a importância da recordação ou de formas da memória coletiva opostas à História, «a força mágica da manipulação temporal», chamou-lhe Isabel Allegro...   ...3. A "textualização" em primeiro plano ou, por outras palavras, a tendência para a auto-referencialidade e a subjetivação no tratamento da matéria narrativa...   ...4. A "contaminação", ou mesmo "promiscuidade" (também se poderia dizer a amplificação) da forma do romance pela presença de outros géneros mais ou menos estranhos àquela forma: diário, ensaio, autobiografia, conto, poema em prosa, fragmento carta e toda a espécie de formas de expressão poética (exemplo paradigmático: toda a Obra de Maria Gabriela Llansol).  Assim também eu penso, com ela, Gabriela. O resto, o que outros dizem, é demasiado técnico para a minha capacidade. Em próxima carta contigo falarei sobre A Vocação do Exílio, quiçá aquilo que mais me aproxima de Maria Gabriela. Talvez, uma vez ainda, muito à minha maneira. Por hoje, sem largar o João Barrento, dir-te-ei algo acerca dessa "textualização" e da tal "contaminação" atrás referidas, por me parecerem, na autora que estamos conhecendo, pistas interessantes de entendimento. Começo todavia pela epígrafe de Medeia Vozes, romance da alemã Christa Wolf, citada por Barrento: Acronia não significa estarem as épocas indiferentemente umas ao lado das outras, segundo o modelo do tripé, como estruturas em fuga que rejuvenescem. Podemos abri-las como um harmónio, e então é muito grande a distância de um extremo ao outro, mas também podemos metê-las umas dentro das outras, como as bonecas russas, e então as paredes do tempo ficam muito perto umas das outras... E o próprio Barrento acrescentará: o melhor exemplo para este movimento de sístole e diástole no tratamento do tempo - que torna oscilante e quase irreal o perfil histórico dos sujeitos da narrativa - é sem dúvida o de Maria Gabriela Llansol. Comigo não é bem assim: pensossinto no tempo e nos tempos, mas vivo muito no não-tempo. 

   Se bem lembro, Princesa de mim, dizia-te eu, numa das minhas cartas,já bem passadas, que sempre tenho tido uma relação anódina com isso a que chamamos tempo. Simplificando, confesso que vivo em dois tempos simultaneamente: naquele que rigorosamente cumpro em função de horários e outros deveres (sou conhecido por ser um "nórdico" maníaco da pontualidade e do "despacho"); e no "meu" tempo interior, onde contemplo, rezo e pensossinto sem qualquer sincronia com a minha própria circunstância. Vagueio, vogo, voo, vibro, ando fora e quedo-me dentro, um qualquer não-tempo se confunde com um espaço inexperimentado... Certo dia, um senhor padre, jovem, inteligente e bem intencionado, até me disse - referia-se a algo que eu tinha escrito - nunca ter pensado na eternidade no jeito em que eu a encarava: um nenhures fora do tempo, isto é, uma essência (existência não, pois não estamos nem situamos, ou seja, não medimos). Ele nunca tinha pensado na viúva noiva de sete irmãos, na ratoeira dos saduceus...menos ainda na lição de Jesus. Tal como quem hoje pensa na ressurreição dos mortos - Dom Pedro e Dona Inês levantando-se dos túmulos postos cara a cara, para um paradisíaco, eterno abraço - a desejar, afinal, que tudo fique na mesma, a nosso gosto, sem perceber que nada sabemos de Deus nem da sua vontade, a não ser  --  e nisso creio  --  que ela será feita. A morte, Princesa, essa despedida do eu-mim que conheço, ou julgo conhecer, é o regresso do filho pródigo à casa de seu pai. Não sei, não adivinho nem quero suspeitar o que está além do muro que, já etéreo fantasma, irei atravessar. Atenho-me à única esperança essencial da fé: a misericórdia de Deus, porque só o amor não acaba nunca.

   Quanto à "textualização", João Barrento, referindo-se ao que chama metaficcionalidade -  a reflexão do romance sobre os seus próprios meios e processos e sobre a sua matéria -  apresenta vários exemplos (Carlos de Oliveira, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, Herberto Hélder...) e afirma que a mais coerente e radical expressão deste trabalho do texto e da quase obsessão da textualidade e da auto-referencialidade da escrita encontra-se na Obra de Maria Gabriela Llansol; aí o romance transforma-se numa "paisagem textual" totalmente livre, fragmentária, labiríntica e poetizada. O exemplo de Llansol servirá, melhor do que qualquer outro, para documentar os processos de "descentramento da escrita" (em relação à "realidade") e de "instabilização do sujeito" (nomeadamente do sujeito-leitor)...   ...Isso acontece, em primeiro lugar, pelo desaparecimento da perspetiva narrativa tradicional e pela emergência da figura do texto auto-centrado (que vai ao ponto de se transformar ele mesmo em "figura") sob a forma de uma prosa dita "obscura" ou "hermética", de grande intensidade poética, que em Llansol dá pelo nome de "fulgorização da escrita": o ato de escrita é visto por esta autora como uma espécie de flecha de luz, «porque o texto cresce quando pode enunciar, sem obstáculo,  as fulgurâncias que cabem na frase, fulgurância e linguagem, uma na outra, numa só flecha» (M. G. Llansol, Lisboaleipzig, Assírio e Alvim, Lisboa, 2014). E, no discurso de aceitação do Grande Prémio de Romance, 1991, a escritora dirá: Os meus textos supõem um pacto de inconforto... --- escrevo para que o romance não morra. Escrevo para que continue, mesmo se, para tal, tiver de mudar de forma, mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele, mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos, mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis de nomear... Afinal, pensossinto, Princesa, o que ela assim quer dizer é, simplesmente, que tudo o que pode, sabe e quer escrever levará certamente a marca da contaminação dos géneros, posto que o inconforto com a limitação de qualquer deles surge então como convocação à partilha de todos. Na minha próxima carta reproduzirei um trecho de Um Beijo Dado Mais Tarde, de Maria Gabriela Llansol, que ilustra bem a "contaminação".

 

 Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

Muitas vezes terás visto uma qualquer cópia ou reprodução do famoso Cristo de São João da Cruz, ou o quadro de Salvador Dali representando Cristo crucificado. Pôs-lhe o pintor surrealista esse nome, porque, na verdade, ele inspira-se indubitavelmente - basta olhar para um e para outro - naquele desenhado pelo místico carmelita. Reparei em ambos - no quadro de Dali e no desenho de frei João da Cruz - ao folhear mais um dos livros que vou arrumando. E logo me ocorreu que te tinha prometido o envio duma tradução (livre) de um poema do santo. Aqui vai:

 

                   Noite Escura da Alma

 

                    Numa noite escura,

                    por ânsias de amor inflamada

                   - Ó ditosa ventura! -

                    saí sem ser notada,

                    da casa já sossegada.

 

                    Às escuras e segura,

                    por escada secreta, disfarçada

                    - Ó ditosa ventura! -

                    às escuras, pela calada,

                    da casa já sossegada.

                  

                    Na noite ditosa,

                    em segredo. Ninguém me via,

                    nem eu nada apercebia,

                    sem outra luz, outro guia,

                    além do coração que ardia.

 

                    E essa luz me guiava,

                    melhor do que o meio-dia,

                    até onde me esperava

                    quem certamente estaria

                    onde mais ninguém surgia.

 

                    Ó noite que me guiaste!

                    Ó noite mais amável que a alvorada,

                    ó noite que juntaste

                    o amado com a amada,

                    amada no Amado transformada! 

 

                    No meu peito florido,

                    que todo p´ra Ele guardava,

                    aí ficou adormecido,

                    e aí eu o mimava.

                    Com leque de cedro o refrescava...

 

                    O ar da madrugada,

                    quando o cabelo lhe sentia,

                    com sua mão de fada,

                    o meu colo já feria,

                    e meus sentidos suspendia.

 

                    Quedei-me e olvidei-me.

                    Reclinei o rosto sobre o amado,

                    declinei o meu cuidado,

                    às açucenas abandonado.

 

Em São João da Cruz, a experiência mística é uma criança que se abandona à confiança, a sua voz é poética, tem o lirismo intuitivo da inocência.

 

Camilo Maria    

 

Camilo Martins de Oliveira