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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Certa amiga minha - Senhora da minha geração, que à advocacia consagrou parte grande da sua vida - no intervalo de outras obras também se entretém, para animar o seu merecido retiro, a comentar atos e factos, ditos e escritos ou seja, a atualidade e as suas circunstâncias. Quando me lê ou escuta - e sou discreto e infrequente - morde-a sempre o alicate da contestação, em sentido próprio, não pejorativo, de resposta dialética. Concorde ou desacorde, fico-lhe sempre grato pela frontalidade, feliz pela gentileza, lisonjeado pelo apreço e contente com a ironia... Bem haja, Maria de Lourdes!

 

   Não engraçou com eu não ter achado graça à laracha do nome Taqui Tali Taculá:  acha que este define ludicamente o dom de ubiquidade do Senhor Presidente da República... Para a sossegar, reconfesso que tal piada não me provocou qualquer saudável hilariedade, quiçá mais por causa do que me parece falta de jeito ou tonta formulação de uma "inspiração", do que pela graça em si. Bem lida a frase onomástica, ficar-lhe-ia melhor graça chinesa do que japonesa: não só porque os nomes sínicos são em regra três, e os nipónicos apenas dois, mas também porque as consoantes líquidas os confundem em sentido foneticamente inverso: o chinês gosta de pronunciar sempre L, o japonês R. Caricaturando, sem malícia: se eu pedir a um chinês que repita laranja, ele dirá lalanja... Se assim desafiar um japonês, ele pronunciará raranja... Não creio que seja motivo de troça, todos os povos têm sotaques, e suas regiões também assim se distinguem, e até conheço muitos "orientais" que pronunciam "corretamente" palavras "ocidentais", tal como muitos europeus que nunca acertam com o u francês nem com o portuguesíssimo ão. Dá graça ao mundo, sobretudo se soubermos gostar das diferenças de pronúncia e devidamente apreciá-las... Embirro com chacota e, por paradoxal que pareça, sou todavia defensor do respeito escrupuloso de transcrições fonéticas com inteligível leitura acordada porque, embora nos deem mais trabalho, nos ajudam a entender e respeitar melhor as falas dos outros. Refiro-me, Princesa de mim, a transcrições fonéticas, não aos chamados acordos ortográficos... São coisas muito diferentes, embora, aliás, tal não pareça ter sido devidamente entendido pelos promotores de certos "acordos"... 


   Mas não te escrevo hoje para te falar disso. Nesta cultura de equívocos em que mergulhamos, é mais preocupante, creio eu, Princesa, a facilidade com que, na chamada "comunicação social", qualquer pessoa bem introduzida nos quiçá misteriosos (ou simpatizantes?) canais de acesso ao público, inclusive gente de espírito pouco culto, ou só ignorante e pretensiosa, ou talvez simplesmente obcecada ou facciosa ganha um espaço de "visibilidade" negado a outros. Há de tudo. Sobretudo muito "marketing" à mistura e também isso a que poderíamos chamar, parafraseando Kundera, a sustentável leveza da fama... Receio que - para além da infeliz ou nefasta divulgação de disparates e mentiras - tal vá paulatinamente minando a credibilidade dos chamados órgãos de comunicação social e, consequentemente, como temos visto, levando à proliferação de "tweeterismos" vários... Por isso também se vêm repetindo, graças a Deus, os apelos à reeducação do espírito crítico e a um renascimento dos "estudos gerais" e "humanidades". Haja bom senso!

 

   Surpreendeu-me o Ípsilon do Público de 2 de junho p.p. com quatro páginas dedicadas à recente edição de uma tradução da Epopeia de Gilgamesh pela Assírio & Alvim, intitulada Épico de Gilgames, por Francisco Luís Parreira. O autor da resenha crítica - para mim tão desconhecido como o tradutor - não poupa elogios à que considera (não sei com que autoridade) a única tradução fidedigna, que se tornará indispensável a todas as traduções ou edições futuras em português... E já antes peremtoriamente nos esclarecia de que: Luxuriantemente anotada e comentada (o corpo do poema ocupa uma centena de páginas, as restantes 150 sendo consagradas à minúcia exegética), valiosa e ostensivamente erudita, a tradução de Francisco Luís Parreira parte do "texto sinóptico transliterado da edição crítica" (trata-se da edição de 2003 do reputado assiriologista Andrew R. George) mas teve em conta "os contributos trazidos pelos achados recentes" (onze fragmentos novos identificados no Museu Britânico e um outro "resgatado, já em 2011, ao saque patrimonial em curso no Iraque e na Síria") e os "estudos assiriológicos posteriores". Presumo, Princesa de mim, que a fidedigna tradução de Parreira - a tal que "parte do texto sinóptico transliterado da edição crítica" - é afinal uma versão portuguesa da tradução para inglês, do original acádio, feita pelo professor Andrew George. Cheirou-me logo pelo título "Épico de Gilgames". Como sabes, Princesa, em língua latina, épico é um adjetivo que quer dizer heroico. Em português, continua a ser adjetivo, mas também, e só, substantivo quando se refere à pessoa ou autor do poema ou da narrativa: temos, assim, um poema épico, uma história épica... ou um épico, muito simplesmente, quando nos referimos a um poeta épico, Camões, por exemplo. A expressão inglesa The Epic of Gilgamesh, em versão portuguesa correta será A Epopeia de Gilgamesh... No texto original, apenas adivinhamos... Além disso, como poderia traduzir tanto texto acádio em escrita cuneiforme, levando pouco mais de um ano, alguém que, como o próprio Parreira reconhece, não tem a assiriologia como "campo académico"? Tenho aqui a edição da versão inglesa de Andrew R. George, publicada em 1999 na Penguin Classics. Ao acaso, abro o livro, detenho-me num passo, busco o mesmo no texto português de Parreira. Vê só, verso a verso: Surpassing all other kings, heroic in stature / supremo entre os reis, soberbo de estatura / brave scion of Ulruk, wild bull on the rampage! / bravo nativo de Ulruk, touro branco enristado! / Going at the fore he was the vanguard, / Marchando na dianteira, era ele o chefe, / going at the rear, on him comrades could trust! / ou, seguindo na retaguarda, arrimo dos camaradas! 

 

   A competência do professor inglês da Universidade de Londres é mundialmente reconhecida, e acho muito bem que, não havendo entre nós quem saiba de acádio ou escrita cuneiforme para se atirar a uma tradução direta do original, se recorra e uma versão inglesa daquela qualidade. Já mais dificilmente aceitarei que o tradutor de inglês para português possa afirmar, como o faz Francisco Luís Parreira na entrevista dada a Mário Santos, o seguinte: Ora, o panorama editorial internacional só registou, até agora, duas traduções integrais do poema que refletem, de raiz, as descobertas e os critérios de George; uma alemã, de Stefen Maul, já com integração de achados posteriores à edição crítica, que ele próprio decifrou, e a minha, que é a primeira a incorporar numa edição "harmónica" o texto do mais importante achado das últimas décadas, o do museu de Suleymaniah, só editado em 2014. É simples a razão da minha reserva: sabemos que a Epopeia de Gilgamesh, tal como muita outra literatura antiga, designadamente aquela que se vai descobrindo por achados arqueológicos, paulatinamente se revela, e ninguém sabe ainda dizer o que encerram textos inscritos no barro, mas ainda não decifrados, muito menos se e quando outras tabuinhas em escrita cuneiforme serão encontradas. Parreira apenas juntou, ao texto que Andrew George "transliterou" do original e ele posteriormente traduziu do inglês, as traduções - presumo que do inglês ainda ou doutra língua europeia - de placas com escrita cuneiforme recentemente descobertas... Daí a reclamar um inexistente protagonismo na tradução "integral" da epopeia arcádia... vai um passo algo exagerado, posto que, incapaz de ler os textos originais na respetiva língua e escrita, nem sequer tem autoridade para afirmar quais deles serão integrais... E ainda se esquece de referir que o professor doutor Manuel Bouzon, padre assiriólogo e biblista, da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro, antes de morrer, quase concluíra, em 2006 a tradução direta do original àquela altura conhecido, como tampouco refere os trabalhos de investigação e tradução do assiriologista francês Jean Bottéro, de que já te falei em cartas anteriores, aliás publicadas no blogue do CNC em 14 e 23 de março e 11 de abril de 2014 (com os títulos de Onde se fala do 7º príncipe de Condé, Como árvores andamos..., Entre cá e lá...).  Todavia, na bibliografia apensa às suas tradução e notas, inclui a menção de obras de Bottéro, incluindo a versão francesa, diretamente do original acádio àquela data já conhecido, de L´Épopée de Gilgames (Gallimard, Paris, 1992), que possuo e li. [A talho de fouce, lembro-me do meu saudoso amigo professor António Sousa Franco, que aconselhava aos seus alunos doutorandos a inclusão, nos anexos às respetivas "teses" ou dissertações, só da bibliografia que eles efetivamente tivessem lido ou consultado].

 

   Nada disso, todavia, retira interesse à publicação de Francisco Luís Parreira, que não deixa de ser uma trabalhosa divulgação de uma narrativa ou epopeia mítica que informou congéneres bíblicas e ainda hoje nos interroga sobre a nossa condição e os nossos anseios, e vai à questão do destino, da vida e da alma humanas. Mesmo que exaustivamente bebida na obra de Andrew George, traz esta edição portuguesa outro contributo ao conhecimento da Epopeia de Gilgamesh e da sua cultura e circunstância, precisamente pela abundância das notas coligidas. Mas não pode, nem deve, retirar mérito a outras obras e seus autores, muito menos diminuí-los. Nem esquecer que poderá haver quem prefira edições menos "eruditas", até por razões tão singelas como gostos de leitura: eu, por exemplo - que não sou nem pretendo ser um perito ou sequer simples estudioso da literatura sumério-babilónica - sinto mais agrado em ler o texto "prosaico" de Pedro Tamen, do que a rebuscada versificação de Parreira. Gostos, Princesa de mim, e desgostos: porque se há-de traduzir wild bull on the rampage! por touro branco enristado!? Também por isso me parecem escusadas e deslocadas, na entrevista conduzida por Mário Santos, e no artigo deste, as referências feitas a Nancy Sandars, Pedro Tamen e, ainda Frederico Lourenço (!). Passarei a explicar-me-te, Princesa de mim. Antes, porém, deixa-me dizer-te que, quando me interrogo sobre qual a autoridade com que fulano ou beltrana se pronunciam sobre dado tema, não procuro qualquer referência necessária a créditos ou títulos escolares,  mas antes me debruço sobre provas de esforçado trabalho ou investigação e, sobretudo, de honestidade intelectual, que mais não é do que essa humildade de que falava Sócrates: Só sei que nada sei... Pretender, como Mário Santos, que em português (de Portugal), e para além de fragmentos traduzidos no âmbito de ensaios ou estudos mais ou menos académicos, circulou nos últimos 40 uma esforçada versão prosaica (sic) feita pelo poeta Pedro Tamen a partir de uma estropiada versão inglesa, para justificar a afirmação de que a presente tradução de Francisco Luís Parreira vem suprir uma lacuna... trata-se, por inerência, de uma edição histórica... e é já um dos melhores "livros do ano"... deveria ser também um acontecimento literário... dispensa qualquer comentário direto. Será que ele quer dizer, com versão prosaica, versão em prosa?Não terá reparado em que Pedro Tamen se limita a traduzir do inglês a versão em prosa de Nancy Sandars, aliás publicada, pelo menos em 1960 e 1972, pela Asian Society e pela Penguin Classics, e elogiada por críticos e letrados assiriólogos? Na verdade, Nancy Sandars, nascida numa família da aristocracia militar britânica, falecida em 2015, aos 101 anos, na mansão familiar onde nascera, foi amplamente recordada, designadamente na imprensa inglesa ( v.g. The Times, The Daily Telegraph, etc.), por universitários e jornalistas, como competente arqueóloga e tradutora, ela que corajosamente tivera de superar uma doença tuberculosa que quase a cegara e por bastante tempo lhe impedira a leitura... Com que fundamento, na entrevista, o próprio Parreira afirma que o trabalho de Pedro Tamen é a tradução de uma prosa inglesa, redigida na década de 1950 por uma divulgadora chamada Nancy Sandars, que se limitou a transvazar materiais babilónicos heterogéneos então conhecidos em forma romanesca. O facto de na capa da edição portuguesa não constar sequer o nome da autora, permitindo a impressão errónea de que se trata do épico babilónio, sugere-me, entre outras, a reflexão de que trabalhos desse género são mais prejudiciais que benéficos. Fui verificar, à edição portuguesa que possuo: na capa apenas surge Gilgamesh; na página 4, em sítio devido, tal como em letras maiores, na página 5, informa-se que se trata da Versão de Pedro Tamen do texto inglês de N. K. Sandars. Na edição do "Épico" (em vez de Epopeia, como seria correto em qualquer língua latina) "de Gilgames", a capa apenas anuncia tradução, introdução e notas de Francisco Luís Parreira e, nas páginas 3, 4 e 5 assinala-se que se trata da versão Babilónia Padrão, a qual mais não é, esclarece-se na página 7, do que a rapsódia do material épico de Gilgames em doze tábuas ou capítulos, composta c. 1200 a. C. por um redator mesobabilónico... sem qualquer indicação da versão inglesa, essa sim, traduzida por Parreira, que não lê acádio nem caracteres cuneiformes. Na verdade, quando ele afirma, na introdução à sua tradução, que a matriz da presente tradução é o texto sinóptico transliterado da edição crítica - que em nota final diz ser a transliteração sinóptica do poema, sucessivamente atualizada por Andrew George - reconhece que o texto por ele vertido para português é a sinopse, em inglês, da transcrição para caracteres latinos da pertinente escrita cuneiforme, trabalho executado por aquele professor inglês. Daí me parecer algo extravagante a pergunta que Mário Santos lhe dirige na entrevista para o Público: Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê? O jornalista talvez não soubesse que as traduções de Frederico Lourenço são feitas diretamente do grego clássico original, não são versões de versões, o que, de per si, as situa num plano de consideração onde ainda não podemos colocar o trabalho de Francisco Luís Parreira. Aliás, as notas "eruditas" também se traduzem mas, falando de Frederico Lourenço, as que ele junta, por exemplo, à sua tradução da Bíblia grega são de sua própria autoria, decorrem do seu próprio labor de entendimento direto do grego clássico.

 

   Aqui tens, Princesa, o que penso. Para concluir que a leitura do Gilgamesh de Pedro Tamen (tradução de The Epic of Gilgamesh de Nancy K. Sandars) é muito agradável, sem complicações rebuscadas, não sendo por isso menos fiel ao encanto da lenda e dos mitos com que a narrativa original e milenária ainda hoje nos leva a pensarsentir a misteriosa aventura humana e a sua circunstância. E para te confessar que a rebuscada versão portuguesa de Francisco Luís Parreira me torna mais pesada a leitura. Todavia, estando esse texto mais de acordo com o do Babilónia Padrão, e incluindo trechos traduzidos de achados arqueológicos mais recentes, servirá certamente melhor aqueles leitores que pretenderem aproximar-se de uma edição crítica mais completa e tenham qualquer dificuldade em dispor ou consultar diretamente as versões inglesas (e não só) das transliterações feitas por esses estudiosos estrangeiros.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Haverá outros, mas eu só conheço dois Hasedera no Japão, ambos na ilha central de Honshu, um na área de Kamakura, outro na de Nara. Ao primeiro se liga, na minha memória, a lembrança de uma visita, em companhia de um jovem casal japonês, muito amigo, que ali guardava o espírito de um filho perdido num desmancho. Na verdade, logo à entrada do recinto, deparei com um jardim acolhedor, donde partia um caminho de pedras até ao templo, ladeado de centenas de jizobosatsu esculpidos em pedraJunto destes budas, santos ou espíritos protetores de viajantes e crianças, os pais de nados mortos ou de crianças falecidas em tenra idade colocaram vistosos cataventos. Este templo budista é famoso por dois dos seus pavilhões, o de Amida ou Buda da Terra Pura, da vida renascida, e o da Kannon ou Buda da Misericórdia, amiúde representado em corpo de mulher, muito raramente com um menino nos braços. Aqui, a estátua de Kannon, que data de 721, é a maior escultura em madeira do Japão. Em tempos idos, falei-te do templo de Biyodo-in, em Uji, Kyoto, magnífico edifício do século XI, com o pavilhão de Amida no centro e duas alas, uma de cada lado, lembrando as asas de uma fénix quando pousa. Símbolo de renascimento, mais surpreendente ainda quando, atentos, esperamos que, in tempore oportuno, um raio de sol entre pela vigia do pavilhão central e faça brilhar o rosto de oiro do Buda Amida, o da Terra Pura Prometida. Símbolo de iluminação. Já a Kannon, qualquer Kannon, me recorda sempre os cristãos clandestinos, os kakure kirishitan, que tinham imagens dela em suas casas, frequentemente com um menino nos braços e uma cruz gravada no pé ou nas costas, disfarçadamente, para que a inquisição shogunal nelas não reconhecesse Nossa Senhora dos cristãos, Mãe de Misericórdia...

 

   O Hasedera em que cantou o Coro Gregoriano de Lisboa, dirigido pela saudosa maestrina Engª Maria Helena Pires de Matos situa-se numa zona montanhosa, perto de Nara. É templo e mosteiro habitado por monges budistas da ordem Shingon. [É mais comum, muita gente o faz, e eu próprio o fiz, referirmo-nos a esta e outras escolas ou tradições budistas, nas línguas ocidentais, como seitas. Mas seita é palavra equívoca, a que facilmente se cola um sentido depreciativo ou pejorativo. Decidi, portanto, designá-las doravante por tradições, escolas, ou ordens, como o faço relativamente às comunidades ou instituições religiosas que, no cristianismo se chamam ordens ou congregações]. Creio, Princesa de mim, que já te contei essa aventura. Passou-se em 2005, depois do terrível terramoto de Kobe. No ano anterior, eu tivera contactos com monges Shingon, que formaram um coro que veio a Lisboa, capital europeia da cultura em 2004, cantar no Coliseu e, face a face com o Coro Gregoriano de Lisboa, na igreja de São Roque. A televisão japonesa (NHK) produziu então e transmitiu um filme de hora e meia sobre o evento e falando de Portugal como destino de viagem para japoneses. A produtora do belíssimo documentário era profissional reconhecida no Japão, a senhora Hiroko Suda, de quem me tornei amigo. Logo a seguir ao desastre de Kobe, ocorreu-me contactá-la e sugerir-lhe que, além dos donativos de bens alimentares e outros, que exportadores portugueses se prontificaram a fazer, poderíamos levar ao Japão o nosso Coro Gregoriano, para que trouxesse às vítimas e aos japoneses em geral um canto fraterno de solidariedade e paz. Conseguidos os necessários patrocínios privados, assim aconteceu. Em Kobe mesmo, celebraram os dois coros, o cristão e o budista, um ofício de meditação e oração numa igreja católica, localizada na área mais devastada pelo tremor de terra e completamente destruída, mas imediatamente reconstruída em cartão reciclado... Acorreu multidão de gente, ninguém ali era estrangeiro. E repetimos o encontro no templo de Hasedera, lá no alto, com ambos os cantos monásticos ecoando por montes e vales... Foi bonito e calou fundo no coração de todos. A senhora Suda, por seu lado, conseguiu ampla cobertura televisiva dos eventos, e ainda a transmissão direta de dois concertos do Coro Gregoriano em Tokyo: um numa famosa sala de concertos, outro na catedral de Santa Maria, onde estiveram mais de três mil pessoas...

 

   Este segundo Hasedera, mosteiro fundado em 686, pouco depois da introdução do budismo no Japão, pertenceu à ordem Hosso até 1588, altura em que passou para a nova congregação Shingon. É famoso por ser o Templo das Flores, e é a oitava paragem dos trinta e três destinos consagrados da peregrinação aos santuários de Kannon no Kansai. As flores ali mais admiradas são as peónias, esplendorosas em abril/maio. E no seu pavilhão central é evidentemente Kannon que se se venera. Permite-me, Princesa de mim, que acrescente ao que acima te disse sobre os bosatsu (tradução japonesa do sânscrito bodhisattva, nome dado aos santos que não querem aceder ainda à plena libertação ou divindade de budas integrais, se assim me posso exprimir, por esperarem levar outros seres humanos a essa plenitude: chamar-lhes-íamos santos, no sentido de nossos intercessores...) que, de todos eles, no Japão, os mais populares são, precisamente a Kannon, principal auxiliadora do Buda Amida, que vela pelos humanos e os ajuda a ascender à Terra Pura; e os jirobosatsu, protetores das crianças (e dos nado mortos)  que, tal como Kannon, também acompanham as mulheres durante a gravidez e o parto... 

 

   Nem imaginarias, Princesa, o porquê da minha lembrança de Hasedera ao começar a escrever-te esta carta. Veio-me da leitura de dois livros (IV e XXII) do Genjimonogatari que contam a seguinte história: jovem ainda, Genji conhecera Yugao, linda e delicada, que morava numa casa rodeada de uma paliçada coberta de flores conhecidas por belas da noite. A jovem dama, vendo o príncipe no jardim vizinho, oferece-lhe um leque branco e perfumado, para nele depor as flores que colhesse. Tocado pela gentileza do gesto, Genji tudo fará para rever a desconhecida, e acabará por tornar-se seu amante. Mas, para a proteger da maldição do espírito ciumento de outra das suas namoradas, levá-la-á um dia para longínquo mosteiro, onde a deixará e ela virá a morrer, dando todavia antes à luz uma menina, filha do seu protetor, o Ministro do Interior. Essa criança será a Tamakazura, de que já te falei e que, embora mais tarde recolhida por Genji, não era sua filha, como muitos pensavam. Mesmo este príncipe apenas soube dela anos mais tarde, através de Ukon, ama de Yugao (Bela da Noite), que depois da morte desta entrara ao seu serviço. Ukon irá em peregrinação à Kannon de Hasedera, e lá encontrará o casal que criara Tamakazura (Precioso Enfeite), e esta menina com eles, já linda moça, que ela levará consigo para o palácio de Genji. São diversos e muito antigos e dispersos pelo mundo os milagres de uma Mãe de Misericórdia.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

      Para melhor sentirmos o ambiente condicionante da produção literária da era Heian, é preciosa ajuda a leitura não só do Genjimonogatari como de diários coevos, donde destaco o da mesma Murasaki Shikibu. Para não me lembrar apenas do tão apreciado papel da poesia, ou de flores primaveris ou folhas outonais, como correio amoroso - numa sociedade em que as damas nobres, quando recolhidas, de homens só podiam ser vistas por seus maridos - e insistindo na liberdade de criação literária que a prática da escrita em hiragana trouxe às mulheres, transcrevo um trecho do diário da Murasaki: Quando meu irmão Nobunori (o que hoje está no Conselho dos Ritos) era rapaz, nosso pai ansiava por torná-lo num bom letrado chinês, e vinha ele mesmo muitas vezes ouvir o Nobunori ler as lições. Nessas ocasiões eu estava sempre presente, e era tão rápida a apanhar a língua, que em breve ajudava o meu irmão quando ele se atrapalhava. Perante isso, meu pai costumava suspirar e dizer-me: "Se ao menos fosses um rapaz, como eu ficaria orgulhoso e feliz!" Mas não se passaria muito tempo sem que eu me arrependesse de assim me ter feito notar. Porque várias pessoas me foram dizendo que mesmo os rapazes se tornavam muito mal vistos quando se descobria que queriam muito aos livros. Claro que, se se tratasse de uma rapariga, seria bem pior! Doravante, fui muito cuidadosa em esconder que sabia escrever caracteres chineses. Por isso ganhei pouca prática de caligrafia, e hoje sou bastante aselha com o pincel. Assim se explica que a escrita da genial Murasaki se fosse fazendo em hiragana, o que, evidentemente, por melhor servir as características da língua japonesa, ajudou o processo de emancipação da sua escrita e o surto de nova literatura.

 

   Tenho diante de mim uma edição francesa do Dit du Genji, em três grossos volumes, profusamente ilustrados por reproduções da pintura tradicional japonesa, que ao longo dos séculos foi sempre acompanhando publicações do romance. Esta é a de Diane de Selliers, Paris, 2008. Os originais das pinturas reproduzidas vêm do século XII ao XVII, a tradução é a de René Sieffert, originalmente editada pelas Publications Orientalistes de France, Paris, 1988. Diz o tradutor: Nem sequer por um só instante tive o sentimento de alheamento, nem no tempo, nem no espaço, mas antes pelo contrário me perseguia a impressão constante de ter entrado numa aventura intelectual ou, melhor, mental, espantosamente moderna. E já muito antes Marguerite Yourcenar dissera "Il ne s´est jamais rien écrit de mieux", quiçá confirmando o assombro do imperador Juntoku (sec. XIII): O Genji Monogatari é uma coisa inexplicável, não pode ser obra de pessoa vulgar. Pessoalmente, já li o que, em português, gosto de intitular Os Contos de Genji, nesta presente versão francesa, na inglesa de Arthur Waley (Charles E. Tuttle Company, Inc., Tokyo, 1970) e até em manga (banda desenhada japonesa), numa adaptação e ilustração de Tsuboi Koh editada pela Shinjibutsu Oraisha, Tokyo, 1989! O romance original compõe-se de 54 livros com múltiplas histórias em que evoluem umas 59 personagens principais e surgem uns 800 waka. Alguns dos livros têm títulos evocativos de poesia: a bela da noite, a flor de que se colhe a ponta, a festa com flores de outono, a estadia em que flores ao vento se dispersam, o vento nos pinhais, essa fina nuvem, a bela da manhã, o ramo de ameixeira, a folhagem da glicínia, o nevoeiro da noite, o príncipe perfumado, o damasqueiro vermelho, a ribeira dos bambus, os sarmentos de vinha virgem, a barca ao sabor das ondas, o efémero, a ponte flutuante dos sonhos... Na verdade, mais do que o acerto e subtileza da descrição de ambientes e cenas, ou dos perfis certeiros das personagens, ou da construção de enredos e intrigas - à sua leitura me prende o encanto lírico e a delicadeza poética do texto... Não vou contar-te, Princesa de mim, nada do que li, apenas te resumo o livro XXV, Os Pirilampos, pela graça inesperada que lhe achei:

 

   Haverá alguns anos, falei-te por carta na princesa Tamakazura, ou Precioso Enfeite, creio mesmo que lhe dediquei um soneto. Tal personagem dos Contos do Genji, e protegida deste, é filha do Ministro do Interior, To no Chujo, e da Bela da Noite, Yugao. Esta, que também fora amante de Genji, já falecera quando decorre este conto. Tamakazura, sua filha, vive no palácio do Genji, na 6ª avenida de Heian, a cinco quarteirões do palácio imperial, onde ocupa, com a Dama da Estadia em que as Flores ao Vento se dispersam (Hana Chiru Sato) os pavilhões de Verão. O seu protetor, com o fito de atrair a sua casa visitas de senhores da melhor linhagem, vai frequentemente vê-la em seus aposentos, incitando-a a recebê-los. Entre os aspirantes, distingue-se Hotaru no miya (príncipe diretor dos assuntos militares), conhecido pelo seu nome de pena: Príncipe dos Pirilampos. Perante a reserva ou aborrecimento de Tamakazura, o Príncipe Brilhante (Hikaru Genji) decide ditar a uma aia daquela (a dama Saisho) uma mensagem encorajadora que, em nome da Precioso Enfeite, será endereçada a Hotaru no Miya... que, aliás, é meio irmão do Genji! Assim consegue que aquele apareça no palácio da 6ª avenida, e do lado de fora do pavilhão espreite para dentro para poder, enfim, ver Tamakazura e contemplar a sua beleza. Esta está à conversa com Genji, escondida de outros olhares, como mandam as regras, por uma cortina. Fingindo ter de dar um toque ao cortinado, o Príncipe Brilhante solta uns pirilampos que, com as suas luzes iluminam a beleza de Precioso Enfeite ao olhar escondido de Hotaru. Fulmina-o assombrosa paixão. Mas, perante o embaraço súbito de Tamakazura, os dois príncipes retiram-se. E só no dia seguinte o Príncipe dos Pirilampos enviará à linda Precioso Enfeite um poema de amor. Para apreciares um pouco melhor o conto, deixo-te tradução de alguns trechos. Mas este livro XXV diz muito mais, nas entrelinhas e pela subtileza. Não te direi o quê, espero que leias os Contos, pois só a leitura nos traz esse inefável gosto das descobertas secretas... Agora, agarro no texto de Murasaki Shikibu, quando o Genji exorta a sua protegida a falar diretamente com o Príncipe Hotaru, ainda que concedendo que ela se mantenha fora da vista deste, escondida por uma cortina de vários estores, num compartimento assim separado do exterior. Precioso Enfeite ali se queda, sem ligar muito ao que o aspirante, do lado de fora, lhe vai dizendo, receosa ainda de que ele ouse entrar na casa. É então que o Genji se aproxima e levanta um dos estores da cortina; nesse instante, como que uma luz se acende. Alguém terá aceso uma candeia? - pensa ela, aterrada. Mas eram os pirilampos que ele tinha, numerosos, encerrado no leve tecido, dobrando-o de forma a ocultar as luzinhas, e que agora soltara, fingindo arrumar a cortina. Confusa por assim se ver subitamente iluminada, ela ocultara o rosto com um leque, oferecendo à luz um perfil de delicada graça. Aproveitando a surpresa da iluminação, o Príncipe também lhe lançara um olhar; ora, todas as suas declarações tinham até então sido feitas confiadamente, pensando que ela fosse filha do Genji; nunca sequer imaginara que ela fosse tão maravilhosamente bela; resumindo: toda aquela maquinação tivera por objetivo lançar a perturbação num espírito prestes a inflamar-se. Mas se ela fosse mesmo filha dele, o Genji certamente a não teria posto em tal embaraço. Que volta dera agora! Tudo feito, saiu sem ruído e voltou para os seus aposentos.

 

   O Príncipe calculara a distância que o separava dela e, vendo-a tão próxima, olhava-a, com o coração aos pulos, pelos interstícios da frágil cortina; o espaço que se lhe abria à vista teria uns dois braços de profundidade, vagamente iluminado por esse inesperado luar que lhe revelava tão agradável espetáculo. Mas desde logo as mulheres diligenciaram restabelecer a escuridão que lho iria esconder. A indistinta claridade, todavia, parecia querer facultar-lhe tema brilhante de conversa. Não se cansava de evocar a beleza daquela forma reclinada, ainda que apenas entrevista. Na verdade, tal como o Genji previra, ficara cativo o seu coração!

 

                                  os fogos deste inseto

                                  demasiado discreto

                                  para à pressa dizer amor

                                  será que dela o pudor

                                  docemente os possa extinguir

                                  sem o seu calor sentir?

 

   - disse ele.

   Se demais refletisse na resposta a dar em tal caso, essa talvez tortuosa saísse, pelo que ela de rompante disse, como  se não lhe desse importância:

 

                                  o pirilampo

                                  que sem erguer a voz

                                  se consume

                                  bem mais do que o palrador

                                  em seu amor acende o lume

 

   E como, isto dito, ela se retirara, ele lamentou a crueldade que assim o mantinha a distância. Insistir parecia-lhe libertino, por isso resolveu não ficar até de madrugada e, encharcado pela chuva que gotejava do beiral e pelas próprias lágrimas do seu desapontamento, pela noite avançada abalou. Algum cuco, como é de regra, terá cantado. Mas sigamos adiante, que não quero aborrecer-vos!

 

   Na edição que tenho nas mãos, este livro XXV publica-se no segundo volume, e vem ilustrado por belíssimas reproduções de pinturas a ouro e tintas de cores sobre papel, feitas na era Edo ou Tokugawa, por volta de 1611-1612, por Tosa Mitsuyoshi, da escola com o mesmo apelido de família (Tosa). E que bem essas imagens nos contam a história, nos revelam os lugares e as suas disposições, nos falam das personagens e dos seus sentimentos! Mas termino esta carta, Princesa de mim, traduzindo o tal poema que o Príncipe dos Pirilampos enviou no dia seguinte e a resposta de Tamakazura. Este waka vinha numa carta que acompanhava um lírio, flor de raiz inusitadamente longa:

 

                                     mesmo neste dia de hoje

                                     porque ninguém trata

                                     de o arrancar

                                     o lírio langoroso mergulha

                                     em águas as suas raízes

 

   Resposta de Precioso Enfeite:

 

                                      à luz do dia

                                      bem curtas à vista

                                      me parecem as raízes

                                      e obscuro o desígnio

                                      dos langores desse lírio

 

                                      Deixe-se de criancices!

 

   Este texto é hoje milenar, foi escrito, na viragem do século X para o XI, por uma jovem mulher. O trecho do capítulo que aqui te deixo diz-me ainda muito sobre uma sociedade cortesã obcecada pela beleza física (feminina e masculina), pela paixão exaltada dos sentidos e, simultaneamente, pelo pudor e a busca poética da sua expressão, pela delicadeza quase silenciosa das suas mensagens, como se eros fosse uma aragem soprando pelos interstícios de portas de correr, biombos, cortinas de pregas e estores laminados... Mas assim também a sua lírica me lembra a das nossas cantigas de amigo, que tanto revelam e tanto escondem, tanto gritam e tanto silenciam, pois tantas vezes, nas voltas dos amores, a nossa natureza é ela e a sua disciplina. 

 

Camilo Maria 

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nos dias em que abro o computador e olho para o correio que este eletronicamente me traz, capricho em logo apagar a maioria das mensagens chegadas, que não leio, conforto-me com recados e lembranças de amigos, surpreendo-me a deitar os olhos, por simples curiosidade, a textos e imagens que poderia deixar despercebidos. Entre estes descubro, o mais das vezes, coisas repetidas, isto é, transmissões do mesmo por diferentes remetentes. Presumo tratar-se de temas de sucesso -  como se diz hoje em dia - frases ou relâmpagos que vão fazendo sensação pelos corredores virtuais da nossa leviana comunicação.

 

   Calhou-me apanhar uma gracinha sobre qual seria o nome do nosso atual Presidente da República em japonês: Taki Tali Taculá. Eis mais um disparate da nossa produção nacional de chalaças. Na verdade, tal nome, se assim escrito for mostrado a um filho do Sol Nascente, será por este lido: Taki Tari Tacurá. O nosso líquido L não existe em japonês. Na transcrição em katakana (caracteres fonéticos japoneses para reprodução de nomes estrangeiros), os dois primeiros nomes do nosso presidente, por exemplo, soariam assim: Maruceru Reberu. E, nos liceus nipónicos, é frequente os professores de inglês contarem aquela laracha: R como em Roma ou R como em Rondon?

 

   Tampouco existe naquela língua o som SI. Diz-se sempre SHI. Cito-te este exemplo, Princesa, porque nem sempre, por cá, entendemos bem a racionalidade e a utilidade do método Hepburn de romanização (transcrição fonética do japonês para romaji ou caracteres latinos) que, todavia, a meu ver, é hoje, não só o menos confuso para falantes de muitas outras línguas, como o mais aceitável universalmente. Uso-o sempre, até por ser, quando devidamente interpretado, aquele que melhor transcreve a tónica das sílabas breves ou longas, indispensável à compreensão do que em japonês é dito. Tokyo não se lê Tóquio, nem Kyoto Quioto, como seríamos tentados à portuguesa... Voltando ao SHI que, em transcrições portuguesas, tantas vezes se confunde com CHI, dou-te uma ilustração: chitai deve ler-se tchitai, significa asneira, disparate, e escreve-se com dois kanji, o segundo dos quais é o mesmo, com igual caligrafia e som, na palavra shitai, que se deve ler shitai, e quer dizer pose, elegância. O kanji tai, em ambos os casos, refere-se a aspeto, aparência. Mas enquanto o chi (lê tchi) evoca tolo, o shi fala só de forma, figura. E muito embora possa verificar que, para muita gente, tolice e elegância signifiquem o mesmo, sei que tal não faz sentido no cotejo destes dois vocábulos nipónicos. Por outro lado, também a leitura tchi de chi é mais universal do que a portuguesa chi ou a italiana ki. Aliás, se abrires um dicionário do castelhano, encontrarás, na ordem alfabética do mesmo, o ch, que se lê tch.

 

   No português corrente, a pronúncia de estrangeirismos e neologismos de origem estrangeira é bastante indisciplinada e, em regra, pouco racional. Vá lá a gente perceber porque é que dizemos uísque (e tal qual o escrevemos à portuguesa), mas chamamos quivi ao fruto e à ave que lhe deu o nome indígena neozelandês, o qual foi transcrito por ingleses para ser lido como por lá se diz: kiwi, isto é, quiúi. E que nos custaria chamar a Hawaii Haùaií e a Tahiti Tahìtí, como eles chamam às suas terras, em vez de Avai (para onde?) e Taiti (parece cócega). E porquê Zamora e não Samora (até temos cá uma Samora Correia) e Zapatero para Sapatero (Sapateiro também é apelido português). Ou, ainda, Paóla e Paólo, em vez de Paula e Paulo, ainda que com os ditongos alongados e musicais? Se lemos Hawai com W à alemã, quando a transcrição é inglesa, porque haveremos de pronunciar à inglesa nomes franceses de futebolistas portugueses, filhos de emigrantes em França, como Adrien e Cédric, ambos devendo ter tónica na última sílaba? Inúmeros exemplos poderiam ser acrescentados a estes poucos, entre os quais os nomes de futebolistas em línguas mais "exóticas", como o holandês: a primeira sílaba de Seegelar ou Seedorf devia ler-se Zê, mas dizem-na por aí à inglesa: Si. Se a pronunciassem lusitanamente ou Cé, não me irritaria, nenhum de nós está obrigado a decifrar pronúncias em todas as outras línguas. Mas o doutoral inglês, que esquecem quando não deviam (em kiwi ou Hawai, por exemplo) arrepia-me. Dever-se-á este fenómeno a qualquer alardeada pretensão ou, antes, a relutância em ordenar e regular? Talvez seja só culpa dos mídia, como hoje tanto por aí se gosta de pronunciar, à inglesa, a palavra latina media, há tanto tempo já acolhida pela língua portuguesa...

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tenho o meu gabinete no rés do chão, abrindo sobre uma fileira de miosporos e a "minha" cerejeira do Japão, antes de um vale de pereiras, em cujos baixos está a charca grande, rodeada de choupos. Diverti-me, esta manhã, a observar um casalinho de melros espertos que, mesmo à beirinha de mim se ia entretendo com o que chamo a sua, deles, saltitante restauração matinal. Apareceu então uma pega, muito senhora de sua voz. Ave bonita, com graças de senhora estouvada, terá fugido do seu salão no Palácio da Vila, em Sintra, ou saiu direitinha de Les Bijoux de la Castafiore, pega tão ladra quanto rossiniana, atraída talvez pelo fascínio de algum brilho esquecido no chão? Mais certo é ter ninho por aí, alto posto num dos grandes plátanos, aqui mesmo diante da casa, ou num dos choupos que avisto lá em baixo. Irei ver: os ninhos de pegas também são depósito de quinquilharia, não é só nas aventuras do Tintin que atua a operática Gazza Ladra. Mas não creio que esta ave que por aí vai voando e pousando seja cleptómana; antes fará tudo, como as suas parentes de Sintra, por bem... Esta pega rabuda, por enquanto, vai saltitando e picando pelas ervas, como os melros; ao vê-la não diria que é omnívora como o homem, ainda que também seja pega de um só pego, ou pego de pega única, coisa que o humano nem sempre é. Encontro-a muitas vezes silenciosa, é ave prudente e ciosa, ainda que seja tida por palradora, quiçá porque, dizem, imita os sons alheios... Mas eu só lhe surpreendi berros de alarme. Surpreso fui eu, logo pela manhãzinha, quando avistei sobranceiramente, de secreta janela do meu quarto, uma poupa planando no ar sereno, ao carinho de uma luz de oiro que lhe afagava as cores inesperadas da cabeça e do pescoço e o branco e negro das asas abertas... Não era um pássaro, era uma "apassarição"! Fez-se de súbito franciscano o meu coração, noutras vezes tão distraído da beleza: há milagres assim. 

 

   Não sei porquê, deu-me então para pensar a beleza como sentido íntimo e último das coisas todas. A contemplação do belo é a descoberta da nossa vida, o encontro final, a fruição dessa essência trina (belo, bom, vero) que hoje apenas temos enquanto saudade, desejo e busca. Somos peregrinos do amor, eis todo o nosso sentido. A Teresa Calem, querida amiga, reencaminhou-me, um dia destes, um vídeo sobre um miúdo de 12 anos, chamado Campbell, que dedica as suas horas de recreio, enquanto irmãos, amigos e colegas juntos brincam ou jogam à bola, a costurar bonecos de pano, para depois os levar e oferecer a crianças doentes. Os bonecos são todos diferentes, cada um com sua personalidade e seu nome. Em comum apenas têm o cuidado com que foram feitos e a secreta beleza que torna cada um deles um ser amável, um amigo para ser querido, uma companhia como testemunho de humanidade. Campbell também fez um para o pai, ao saber que este era vítima de cancro. E o pai, comovido, diz que já sente melhoras e, com o filho, acredita que anda ali poder mágico...

 

   Pensossinto que as evidências íntimas não têm necessariamente de ser aparições, alucinações, visões ou ilusões: não são, não podem ser, projeções dos nossos nós mesmos. São o reconhecimento do nosso encontro com o Outro. Narciso afogou-se por muito se ter debruçado sobre a água que lhe servia de espelho. Mas eu, quando, ainda que em fotografia, sinto sobre mim o olhar de magoada misericórdia de Madre Teresa de Calcutá, ardo de assombro perante a mulher mais linda do mundo.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entre muitos poemas e outros temas, a grande poeta Izumi Shikibu (970-1020?), por cuidar que ia morrer, compôs dois tanka: descobri um deles na antologia Goshuishu, o outro na Shuishu. Esta compilação, que abrange mais poetas, é de 997, anterior à outra, que data de 1086, mas os poemas a que me refiro foram provavelmente escritos na ordem inversa. O mais antigo, por ordem cronológica de publicação, na Shuishu, reza assim:

 

          Kuraki yori

          Kuraki michi ni zo

          Irinubeki

          Haruka ni terase

          Yama no ha no tsuki

 

   Na noite escura / por caminho de negrura / devo agora entrar / alumia-me de longe /  lua da franja do monte! - traduzo eu...

 

   O primeiro, por ordem cronológica de composição, mais tarde inserido na Goshuishu, lamenta-se assim:

 

          Arazaramu

          Kono yo no hoka no

          Omoide ni

          Ima hito tabi no

          Au koto mo gana

 

   Ao cuidar que morro / e me aparto deste mundo / quero levar a lembrança / da derradeira visita / que o meu amor me fizer...

 - será, mais ou menos, isto, no sentimento do ocidental que sou.

 

   Se me perguntasses, não saberia responder-te se, na verdade, me ocorreram estes dois tanka pela ideia da morte ou se pela do amor, pelo rasgão da despedida ou pelo vazio que o nirvana pode ser. Ambos, todavia, me remetem para aquele haiku do Kobayashi Issa, quase nove séculos depois, a falar-nos de tempo de despedida, que te enviei em carta anterior. O mesmo haiku, tê-lo-ia, mais literalmente, traduzido assim: É tempo de orvalho / e o tempo de orvalho corre / corre todavia...E ambas as versões portuguesas me dizem o mesmo...

 

   A era Heian, quando Heiankyo designava ainda a capital que se chamaria Kyoto, será certamente aquela em que as mulheres mais se revelaram como escritoras, talvez por lhes ser censurada a escrita sínica, e ainda, de outro ponto de vista, por lhes ser negada a possibilidade de exercerem cargos políticos ou administrativos, mesmo quando eram herdeiras ricas e os maridos vinham habitar a casa da família delas... É interessante observar como o regime sócio económico da nobreza procurava conservar pelas mulheres a fortuna familiar, mas atribuir exclusivamente aos homens o direito e a obrigação de subir, pela carreira política ou administrativa, na escala social. Assim se completavam ambas as contribuições para um matrimónio bem sucedido... O clã dos Fujiwara, que longamente dominou o governo durante a era Heian, conseguiu ir casando as suas filhas com membros da linhagem imperial, e ir assim assegurando a colocação dos varões da família, parentes próximos de imperatrizes, mulheres e mães de imperadores, em postos chave da administração do estado. Contrariamente a um caso narrado em Os Contos de Genji, que fala dos aposentos de três mulheres na mansão do marido comum, não há qualquer documento histórico que permita afirmar que, com exceção do imperador (esse sim, habitava o seu palácio, com seu harém), tal fosse possível: mais ortodoxamente, era na casa da primeira mulher que o noivo residiria, sem que tal o impedisse de tentar seduzir damas da companhia dela ou suas criadas. Mas também podia acontecer que a mulher cometesse adultério que, aliás, poderia não ser punido ou, quanto muito, ser apenas invocado como razão de divórcio. Na sociedade aristocrática de Heian, era corrente a endogamia, sendo os matrimónios celebrados por acordos entre famílias e servindo os seus interesses económicos, sociais e políticos. As normas de prevenção do incesto definiam-no apenas entre ascendentes e descendentes diretos, ou irmãos e meio irmãos. Perguntar-me-ás, Princesa de mim, o que terá este parêntese "socio familiar" a ver com a poesia de que vimos falando. Para além da influência directa do ambiente, costumes e regras de uma corte sobre a requintada cultura das letras e das artes (inclusive as decorativas), vemos que vai progredindo o desenvolvimento de uma literatura nipónica, que se emancipa da chinesa. É à Kokin waka shu, antologia antiga, publicada como volume 8º do Nihon koten bungaku taikei (compêndio de literatura clássica japonesa), de Saeki Umetomo (Tokyo, Iwanami shoten, 1959) que The Cambridge History of Japan (volume 2, Heian Japan, Cambridge University Press, 1999) vai buscar os elementos de informação do texto que seguidamente dela te traduzo, por me parecer esclarecedor:

 

  O waka começou a reaparecer em público por volta de meados do século IX. O seu regresso surge associado a outros desenvolvimentos, entre os quais a revitalização e aperfeiçoamento de interesses e valores tradicionais; o ressurgir do princípio hereditário, que diminuiu a utilidade de uma educação chinesa; o aperfeiçoamento dos kana; e a propensão crescente das grandes famílias à procura do poder através das suas representantes femininas no harém imperial, cada uma das quais era a potencial mãe de um manipulável infante soberano. Em especial, os edifícios em que as consortes viviam, coletivamente chamados o palácio traseiro (kokyu), iam-se tornando em centros de atividade musical, artística e literária. Parece que foi a partir desses apartamentos luxuosamente mobilados que os biombos decorados com a caligrafia de poemas japoneses se foram espalhando por outras partes do palácio (por volta de 850-900), tal como o gosto dessas senhoras por elegantes compitas (lembras-te, Princesa, dos "jogos florais" da nossa juventude?) que mais contribuiu para o aparecimento dos concursos de poesia, um dos maiores fenómenos culturais da era Heian. Houve vivo incremento da procura de waka formais durante os últimos quinze anos do século IX. Os poemas japoneses em biombos (byobu uta) ganharam exposição e fama, multiplicaram-se os concursos de poesia, e os waka começaram a suplantar os kanshi em banquetes e outras funções oficiais. Poetas quase profissionais, dos quais Tsurayuki terá sido o mais estimado, surgiram das filas da nobreza menor, servindo-se dos seus talentos poéticos para forjarem laços com os grandes, e obrando para elevar o estatuto do verso nativo. Bem cedo, no século X, tal atividade culminou na compilação da primeira antologia de waka, a Kokin [waka] shu, editada por Tsurayuki e mais três poetas, burocratas menores, e submetida ao trono por volta de 905.

 

 

   Esta antologia de poesia japonesa, a primeira compilada por ordem de um imperador, encerra 1111 poemas, quase todos waka, e acabará por ser inspiradora e modelo da lírica nipónica por mil anos... O prefácio, ou apresentação, por Ki no Tsurayuki, começa assim: A poesia japonesa tem por semente o coração humano e cresce por numerosas folhas de palavras. Nesta vida, muitas coisas tocam os homens:  tentam então exprimir os seus sentimentos por imagens desenhadas pelo que veem e ouvem. Que homem não irá compor poesia, ao ouvir o canto do rouxinol entre as flores, ou o grito da rã na água? A poesia é algo que, sem esforço, move o céu e a terra e leva à piedade os invisíveis demónios e deuses; que torna doces os laços entre homens e mulheres; e que pode confortar os corações de briosos guerreiros.  Depois, Tsurayuki tenta esboçar as circunstâncias inspiradoras dos poetas selecionados, muitos deles anónimos : quando olhavam para os rebentos florais espalhados pela manhã primaveril; quando em noite outonal escutavam a queda das folhas; quando suspiravam sobre a neve e as ondas que em cada ano se sucediam; quando mergulhavam em pensamentos sobre a brevidade da vida, ao ver o orvalho na relva do chão ou a espuma na água do mar; quando, se ontem eram altivos e esplêndidos,  hoje caíram da fortuna na solidão; ou quando, depois de ternamente amados, foram esquecidos.  

 

   Estes temas são incessantemente retomados na poesia e na pintura japonesa: têm intrinsecamente a ver com o sentimento e o entendimento da vida e das almas das pessoas pela contemplação das estações do ano, movimento do mundo, da efemeridade da aparência, e de um nirvana que é, paradoxalmente, vazio e esperança. Certas exigências de tal contemplação acentuar-se-ão pela influência Zen, que muitos autores estimam que acelerou a evolução do haikai no renga, que o próprio Basho praticou até nos seus derradeiros anos, para o mais sintético haiku, que aquele mestre ainda chamava simplesmente haikai, do qual dizia: o haikai é apenas o que tenho a frente dos meus olhos... Um instantâneo: naquele caminho / a malva p´lo meu cavalo / foi assim comida. Ou ainda essoutro, famoso: nesta velha charca / a súbita rã mergulha / só um som de água... E aquele que dizem ter composto antes de morrer: viajo doente / e meus sonhos pelos campos / soltos se aventuram...

 

   Basho é alcunha que ao poeta foi posta, desde que decidiu viver, pelos seus 36 anos, num eremitério chamado Basho-na, ou seja, ermida da bananeira. O seu nome era Matsuo Munefusa, sendo estes Matsuo uma família de bushi (guerreiros) e diz-se que Matsuo Yozaemon, pai de Kinsaku (tal era o nome de infância de Munefusa) era um musokunin de Iga. Jiro Taniguchi faz dele uma personagem fugaz do seu romance épico Kaze no Sho (O Livro do Vento), com enredo e texto de Kan Furuyama, que nos conta a história lendária de Yagyu Jubei, grande mestre da esgrima japonesa. O pequeno Kinsaku, então com 7 anos apenas, depois de assistir à morte de seu pai, a caminho de um encontro com Jubei, para lhe transmitir informações secretas, percorre sozinho uns bons quilómetros, sobre a neve fria, e ele mesmo dará a informação ao samurai. Assim se espalhou a lenda de que o livro de Basho, O Caminho Estreito para o Interior, teria sido inspirado por uma missão secreta. O título da obra, em japonês, é Oku no Hosomichi, literalmente "caminho (michi) estreito (hoso) do interior (oku)", sendo que o kanji oku, com doze traços, tanto pode dizer o interior de uma região ou país, como as profundezas, ou o íntimo do nosso coração. O mais provável, todavia, é que a obra se refira a uma viagem do poeta, acompanhado, pelo seu discípulo Sora, a distritos da ilha de Honshu, situados a norte de Tokyo. A edição com o título Oku no Hosomichi será a última de uma obra do autor, em vida deste. Vale a pena deixar-te aqui um trecho desse livro de viagem: Os meses e os dias são os viajantes da eternidade. Os anos que vêm e vão também são viageiros. Aqueles que embarcam suas vidas flutuantes ou criam velhos cavalos que os conduzem estão para sempre em jornada, e as suas casas são onde os levarem as suas viagens. Muitos dos homens de idade morrem pelo caminho, e eu mesmo, em passados anos, fui incitado, pela visão de uma nuvem solitária ao sabor do vento, a incessantes cismas de vagabundagem... Passei o último ano a cismar ao longo da costa marítima. No Outono voltei à minha casinha sobre o rio e limpei as minhas teias de aranha. Devagarinho, o ano chegou ao fim. Quando a Primavera chegou e havia cacimbo no ar, lembrei-me de atravessar a Barreira de Shirakawa, até Oku...- Esta Barreira, situada hoje no Shirakawa Seki no Mori Koen (Parque Natural da Floresta da Barreira de Shirakawa), a noroeste e não muito longe de Tokyo, de fácil acesso pelo comboio Shinkansen, fora fortificação em tempos idos levantada para impedir infiltrações, para sul, de bárbaros do norte da ilha de Honshu. Estas minhas cartas não sendo compêndios de coisa alguma, mas apenas confidências de lazeres ocupados, indolentemente te confesso que a leitura, ontem de manhã, desse passo do Caminho Estreito me trouxe à lembrança a abertura do Florbela Espanca, da Agustina: Os sábios experimentados da ciência da morte sabem que os moribundos têm de ser mantidos despertos e em plena consciência dos sintomas do seu fim. Doutro modo, eles não poderiam reconhecer a Luz Fundamental na sua realidade.  A vida dos poetas assemelha-se a esse estado de confrontação em que o espírito se equilibra como uma agulha sobre um delgado fio; movida pelo sopro dos desejos egoístas e a força do eu, a agulha cai e a vida é arrastada de novo para a sua roda de padecimentos. Bardo significa entre dois estados, quer dizer, situação crepuscular e incerta que oscila entre a morte e o renascimento. Os lamas chamam bardo ao estado imediato à morte; o corpo bárdico começa então a usar as suas faculdades supranormais e pode atingir diversos graus de uma nova existência. O bardo celta, ligado à função sacerdotal, manifestava-se pela poesia lírica ou heroica e provavelmente teve origem na escola búdica, que ensina que tudo o que o homem pode aprender pode crer também. As imagens semeadas no seu pensamento durante a vida são fecundas no espírito que o acompanha na morte. Esta observação, escrita há mais de quarenta anos, traz-me, hoje ainda, insuspeitamente, o brilho da inesperada argúcia de Agustina Bessa-Luís. Pode servir de chave para a leitura de alguns dos poemas nipónicos que tenho vindo a referir-te... Reparo em que nunca mais me calo, parecem infindáveis as minhas cartas: sem o talento nem a graça do Nemésio (se bem me lembro), desfio, melhor, deixo desfilarem em mim memórias, pensandossentindo que, se tudo o que o homem pode aprender pode crer também, também em tudo aquilo de que me posso lembrar me posso encontrar. Como contigo, Princesa, porque te conto. E com todos esses, homens, livros ou poetas, de que falo ou cito, só porque me aparecem sem que eu os tenha mandado vir... Talvez seja isso uma velhice feliz. Com muita companhia.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Terminava a minha última carta, traduzindo-te um haiku do Kobaiyashi Issa, poeta que viveu de 1763 a 1828, bem depois de Basho. Jiro Taniguchi inclui-o no seu Furari, creio que por ser contemporâneo de Ino Tadataka, sob cuja direção se mediu e desenhou o Dai Nihon enkai yochi zenzu (1832), o primeiro mapa completo do território e mar do Grande Japão. Para o efeito, utilizaram-se técnicas europeias que, já no período Edo, antes mesmo da era Meiji, - na qual, erradamente, te disse que Tadataka Ino ainda teria entrado - começavam a "modernizar" o Japão. Terá sido esse cartógrafo, ou um seu colaborador, o inspirador da personagem sem nome do herói de Furari. O poeta Issa que, menino ainda, perdera a mãe e foi malquerido pela madrasta, tinha também hábitos peregrinos e um olhar cheio de ternura pela natureza e pelas pessoas, sobretudo as crianças e os mais fracos. Cedo perdeu os seus quatro filhos, deixando-nos este haiku pela morte do último sobrevivente, comparando a insignificância deste mundo e desta vida com a eternidade no paraíso de Buda:

 

          Tsuyu no yo wa

          Tsuyu no yo nagara

          Sarinagara

 

   É tempo de nada / de despedida de nada / despedida só - traduzo eu, muito livremente. Mas nota bem: neste, como noutros, em português, conto, ao nosso jeito, 5-7-5 sílabas.

 

  (Vou guardando cá por casa os meus achaques, distrai-me e até me alivia este meu entretenimento com letras japonesas) 

 

   E faz como eu: conta também,em cada verso japonês (aqui posto em caracteres latinos ou romaji), as suas 5-7-5 sílabas, somando 17 no haiku inteiro, o verso nipónico sendo sempre um penta ou um heptassílabo. Diferentemente da língua chinesa, que é pobre foneticamente, servindo-se mais de tonalidades do que de diversidade de sons, o japonês tem uma fonética comparável, por exemplo, à do italiano ou do português, sendo cada sílaba formada por uma consoante e uma vogal. Todavia, a poesia nipónica não procura a rima, antes a evita. Por outro lado, é evasiva, o poema japonês é, por regra, inconclusivo, por vezes até só uma impressão da qual o próprio autor se ausenta. Como neste haiku de Basho (1644-94):

 

          kumo no mine

          ikutsu kuzurete

          tsuki no yama

 

que traduzo assim:  cúmulo de nuvens / descompõe-se em muitos flocos / montanha de lua...

 

 Escolhi-o por acaso, mas ocorre-me que o mesmo serviu para o seguinte comentário do professor Donald Keene, da Columbia University (New York), quiçá um dos ocidentais que melhor conhece a literatura nipónica: Um poeta ocidental teria provavelmente acrescentado uma conclusão pessoal, tal como D. H. Lawrence no seu Moonrise, em que diz que aquela visão lhe deu a " certeza de que a beleza é algo para além do túmulo, essa perfeita experiência do brilho nunca cairá no nada". Eis algo que nenhum poeta japonês diria explicitamente: ou o seu poema o sugere, ou então falhou. Os versos de Basho acima citados terão claramente falhado se o leitor acreditar que o poeta ficou impassível perante o espetáculo que descreve. Mesmo para leitores sensíveis às qualidades sugestivas do poema, a natureza da verdade percebida por Basho diante da súbita aparição da montanha iluminada pela lua variará consideravelmente. Na verdade, Basho consideraria falhado o poema se este apenas sugerisse uma experiência de verdade. O que os poetas japoneses mais frequentemente procuram é criar com poucas palavras, o mais das vezes através de algumas imagens insinuantes, o enquadramento de uma obra cujos pormenores devem ser fornecidos pelo leitor, assim como numa pintura japonesa umas poucas pinceladas podem sugerir um mundo inteiro. Eis também porque pensossinto que traduzir poesia japonesa é como tentar captar o etéreo, tanto ela nasce de surpresas íntimas e instantâneas. Cada leitor sentirá a seu modo revelações de um poema surto noutro tempo. A forma poética normaliza comunicações, não comanda conteúdos.

 

   Sendo fraquíssimo conhecedor do idioma nipónico, tenho lido toda a literatura que me chega através de traduções francesas ou inglesas. Mas sempre que se trata de encontrar uma versão portuguesa para algum curto texto, um qualquer conceito que repute importante, ou, sobretudo, um poema, encho-me de brios, deixo de contar o tempo a consumir, e atiro-me à obra. E ora decifro kanji (que me parecem fundamentais para o entendimento de certos conceitos e certamente do significado de nomes de pessoas, épocas e lugares) ou vou em busca de transcrições em romaji, que directamente traduzo, servindo-me rigorosamente do Dicionário Universal Japonês-Português, do padre Jaime Cepeda Coelho, SJ., querido amigo -para cuja edição pela Shogakukan, Tokyo, em 1998, também dei a minha ajuda -, mas sem esquecer A Guide to Reading & Writing Japanese (Charles E. Tuttle Co. Inc., 1959), pelo apoio que me dá ao reconhecimento dos romaji em caracteres sino-nipónicos. Fundamental. Não será obra, mas dá trabalho. Trabalho muito compensador, pois me aproxima mais das origens e espírito dos textos, e me traz um entendimento novo. Já agora, Princesa de mim, deixa-me dizer-te que esse esquecimento das nossas raízes, que me aflige, e de que tanto te tenho falado, essa transformação da memória e da cultura do espírito das nossas sociedades hodiernas em vagos registos efémeros, me recorda com frequência aquela imagem dada pelo Zygmunt Bauman: a dos registos magnéticos, em fitas ou discos, ou no que for, que depressa se apagam e substituem. Já não sabemos quem somos. Tampouco saberemos o que quer dizer muito do que dizemos: a nossa errante levitação audiovisual, acompanhada de novas ortografias e da ignorância geral das raízes da nossa língua, parece-me que nos corta o entendimento... Mas estou mesmo velho. Novo é ainda o professor Toru Maruyama, da Universidade Nanzan, em Nagoya - com quem mantive longas e amigas conversas - que se dedicou à aprendizagem do português só para poder restaurar a fonética da língua japonesa nos séculos XVI//XVII, já que a transcrição da mesma era feita, nesse tempo, pelos jesuítas portugueses ... em romaji ! Com o padre João Rodrigues, o tçuzu (intérprete), à cabeça, inventaram um sistema de transcrição que ainda hoje funciona! E a mim, por exemplo, me ajuda a dizer um haiku. Sem todavia me esquecer de chegar o melhor possível ao original, mesmo não tendo quaisquer pretensões a tradutor de poemas nipónicos, coisa que faço só por gosto, para afinal recitar a minha induzida inspiração. Assim, qualquer "haiku" meu é apenas o que essa palavra quer dizer em dois kanji lidos da direita para a esquerda: verso (ku) por graça ou gosto (hai). Just for fun. Sobretudo quando manhas de saúde não me deixam sair de casa...

 

   Waka é, originalmente, desde o século VI, a designação da poesia japonesa, para a diferenciar do kanshi, ou verso chinês. Na verdade, este, composto em chinês por poetas chineses ou japoneses, não se casava com a poesia oral nativa, a Yamato no uta, ou canto do Japão Antigo (Yamato), pelo que foi este sendo registado em escrita sínica japonizada, obedecendo então a novas formas poéticas. Assim, o poema japonês de 31 sílabas (5-7-5-7-7) ou tanka (canto breve ou poema curto), torna-se a forma dominante do waka, confundindo-se com ele, contrapondo-se ao chosai ou poema longo. Surgem também, pela cultura nova de uma língua japonesa escrita:

 

 1- o renga, poemas encadeados (como uma "desgarrada"!), que se encontra já no Kojiki (registo das coisas antigas, de 712) e é, na sua forma mais simples, um tanka cujos três primeiros versos são escritos por uma pessoa e os dois últimos por outra; lembra-me um pouco a nossa tradição de mote e glosas ou voltas, ao reparar em que, no decurso da era Heian, era passatempo de cortesãos, em que o segundo compositor procurava coroar os três versos do primeiro; mas, na verdade, o renga era muito praticado nos mosteiros budistas e entre poetas populares, e, afinal, podia desencadear-se quase sem fim  --  um dos seus estilos tornando-se conhecido por haikai, no sentido de ligeiro, livre, simultaneamente, de regras restantes das composições chinesas e de temas sempre sérios;

 

 2- o hokku, que é esse terceto inicial, dará origem a outra forma poética, largamente praticada ao longo de séculos, e hoje internacionalmente reconhecida e imitada, ainda que só no XIX lhe seja atribuído o nome de haiku; o primeiro terceto pode pois ser glosado como mote, mas ir-se-á chamando haikai ao que, originalmente, mais não é do que a autonomização do hokku, isto é, a "promoção" do primeiro terceto de um tanka renga a poema independente.  Certo é que se confunde muitas vezes a designação haiku com hokku ou haikai... Mesmo entre poetas e letrados nipónicos surgem, em matéria literária, hesitações e confusões. Para melhor entenderes esse passo de tanka-renga-haikai (haiku), vou buscar ao Shin Kokinshu (Nova Antologia de Poesia Antiga e Moderna, de 1205) um poema de Minamoto no Toshiyori, que traduzo do japonês, com o indispensável auxílio do "meu" dicionário e do "meu" guia de regresso aos pertinentes caracteres sino-japoneses:

 

          furusato wa

          chiru momijiba ni

          uzumorete

          noki no shinobu ni

          akikaze zo fuku

 

   na casa natal / caem as folhas do bordo /  cobrem o chão todo / e vão  prender-se aos beirais / ao sopro do outonal  vento...

 

   Lê, Princesa, os romaji à portuguesa, mas abrindo as vogais todas, e contarás, por esta ordem, versos de 5-7-5-7-7 sílabas. Os três primeiros somam 17 sílabas e, por si, formam aquilo a que se pode chamar um haiku. Os dois últimos, acrescentados por um segundo compositor aos três primeiros, vão formar um renga. Mas se este mesmo poema tivesse sido escrito por idêntico autor seria simplesmente um tanka, com as suas 31 sílabas.

 

    A escrita japonesa faz-se em kanji, ou caracteres chineses, em hiragana, ou caracteres chineses simplificados e cursivos, silábicos e fonéticos, e katakana, isto é, kanji cortados, constituindo um silabário fonético que serve para escrever nomes estrangeiros. Kanbun apelida qualquer texto em chinês clássico, composição literária, mesmo japonesa,  escrita em chinês. É uma prática de escrita, reservada a letrados. De facto, só pelo século VI se começou a escrever no Japão: em letra chinesa, pois do Império do Meio viera a escrita então introduzida no do Sol Nascente. Aliás, os letrados nipónicos começaram por ler e escrever textos chineses, passando depois a utilizar a escrita sínica para redigirem textos em japonês, desde documentação comercial a histórias, lendas e narrativas constantes da tradição oral da cultura japonesa. Progressivamente, foram-se simplificando caracteres chineses, de modo a constituir-se um silabário fonético e a introduzir partículas próprias à sintaxe nipónica. Dos milhares de caracteres chineses, a gramática e a escola japonesas retiveram apenas 1850 - 881 dos quais considerados básicos e obrigatórios - mais uns tantos apenas utilizáveis em alguns nomes ou apelidos pessoais. A talho de fouce, posso acrescentar que também em coreano, que desde o século XVI inventou uma escrita própria, muito diferente da chinesa e das japonesas, os nomes que lemos em cartões de visita, por exemplo, se escrevem em caracteres sínicos...

 

   Como aliás anteriormente te disse, Princesa, cada caracter chinês tem, pelo menos, duas leituras fonéticas possíveis em japonês: a on-yomi (leitura china) e a kun-yomi (nipónica). Mais ainda: um kanji, a compor uma palavra, pode esquecer o seu significado de ideograma, para reter tão só um seu valor fonético. Tal como pode reter ambos: assim, kanbun (nome dos primeiros escritos - em caracteres sínicos, claro, no Japão) - escreve-se com dois kanji, o primeiro (kan) querendo dizer chinês e o segundo (bunescrito (ou composição literária).  As pronúncias são, aqui, sínicas, tal com em kanji, que quer dizer chinesa letra. Bungaku significa literatura, já que bun é o escrito e gaku a ciência, ensino ou aprendizagem da escrita. Ora, nos primórdios da literatura no Japão - ainda no período de Nara - a escrita chinesa e a sua literatura eram apanágio e privilégio dos letrados, apesar de senhoras da corte imperial, já na era Heian, como a célebre Murasaki, autora do Genji Monogatari, terem acesso a elas. Mas, para escreverem (e eram relativamente correntes os diários, cartas, bilhetes e poemas, até porque mandavam as regras de uma corte polígama - onde se insinuavam clandestinas promiscuidades - que só aos maridos as mulheres pudessem mostrar o rosto, pelo que falavam com amigos e amantes, por detrás de um biombo ou outra divisória, e comunicavam, o mais das vezes, através de flores e bilhetes poéticos) recorriam ao silabário hiragana, não só porque esse lhes era autorizado, mas também porque lhes facultava uma expressão mais autêntica, fluente e matizada, do pensarsentir japonês... Aliás, desde muito cedo, os próprios caracteres sínicos foram sendo utilizados para se lerem à japonesa, isto é, sendo ideograma, o mesmo caracter podia ser pronunciado consoante a palavra chinesa correspondente, ou a sua equivalente nipónica, donde as leituras on-yomi e kun-yomi... E logo o idioma japonês se apropriou dos mesmos caracteres para reproduzir sons em textos. Explico: o ideograma chinês shu (mão), poderá ler-se em japonês, com o mesmo significado, mas também como simples sinal fonético na composição de outra palavra. Quando, para tal função, ele é mais simplesmente desenhado ou caligrafado em hiragana ou, mais tarde, em katakana, o fonema serve exclusivamente a língua nipónica escrita, que assim se emancipa do colete da letra chinesa.   

 

   Da primeira antologia escrita da poesia japonesa, a Man´yoshu, já te falei há tempos, ou sobre ela escrevi alhures. Man diz dez mil, yo folha de papel, shu é sufixo para contagem de poemas, posso pois concluir que se fala de dez mil folhas de poemas ou antologia. Na verdade, tal coletânea de poesia japonesa anterior ao ano 759, contém, em 20 livros, 4516 waka, dos quais 4200 tanka (poemas curtos), 265 choka (poemas longos) e mais poucos poemas chineses e notas nesta língua, em também se escreveu o título da compilação. Curiosamente, o caracter usado para folhas (yo) pode, em leitura japonesa, querer dizer, era, reino, geração... Mas de antologias, espírito e inspirações da poesia nipónica te falarei noutra carta. Tal como voltarei ao Genjimonogatari, obra prodigiosa, escrita por uma mulher, e que tanto nos diz da vida da corte imperial e da estética da era Heian, período em que a capital que Kyoto foi, enquanto residência dos imperadores, durante um milénio, acolhia também o governo... O vício do esteticismo e o relaxamento dos costumes da corte fizeram todavia que este acabasse por se instalar noutras partes, começando por Kamakura, onde surgiu o primeiro shogun, Minamoto no Yoritomo em 1192...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tão de ouro era a luz desta manhã, que me quedei na varanda quieta do meu quarto, aberta sobre os campos próximos e alegrada pelo voo de melros, pardais, verdilhões, toutinegras e poupas... São estas as mais raras, gosto de as ver pousar, para lhes admirar a poupinha e as penas zebradas. Senti muito a falta das andorinhas, tem-me feito sofrer a ausência delas, aqui na nossa Várzea da Pedra, nesta Primavera. Creio que, quando cá chegaram, não encontraram ninhos nem os beirais iguais aos que tinham deixado: as obras que tivemos de fazer no exterior da casa, apesar de eu ter pedido que poupassem os nichos das aves, levaram tudo a eito... E tenho saudades de ver valsar as andorinhas, e muitas mais de as ver compor, quais notas de música numa partitura, os fios elétricos e telefónicos que cruzam a vereda aqui defronte...

 

   Mas contava-te que me pus de contemplação na varanda do quarto. Eis que, súbito, surge veloz no céu um peneireiro (falcão vulgar) que se projeta e toca o solo, mesmo na margem do lago ou charca que a quinta tem lá nos baixos do pereiral. Fulminou um rato e banqueteou-se. Lembrei-me então - pois ando em semana de releitura do Taniguchi - do milhafre que, num conto de Furari, se apropria dum peixe que o pescador, num bote, está a retirar das águas do rio Sumida, preso ainda ao anzol da linha da sua cana. O protagonista do conto e do livro todo - cujo título, Furari, se pode traduzir por Ao Sabor do Vento - é um geómetra e cartógrafo japonês do fim do período Edo e início da era Meiji (séc. XIX), que se entretém a percorrer Edo/Tokyo (e outras paragens) contando os passos com que vai medindo as distâncias. Cada passo mede sensivelmente 70cm, isto é, 2 shaku (30,3cm) e 3 sun (3cm), unidades de medição ainda hoje utilizadas para antiguidades. Para ele, a velocidade e golpe certeiro do milhafre é motivo de assombro e de imaginação sobre como se desenhará Tokyo, vista do céu, lá das alturas por onde a ave voa...

 

   Furari é uma obra a que volto com frequência, não só pela sempre notável qualidade do desenho de Taniguchi, e pelo carinho perene e infantil espanto do autor pelas pessoas e o mundo à volta delas, como pela fidedigna descrição da cidade de Edo, das cenas de rua, das paisagens e das estações do ano, das vestimentas, usos e costumes, para não falar do encanto de um espírito científico e empírico sempre em caminhada de descoberta. E temos ainda o gosto das lendas e narrativas tradicionais, como na cena que a seguir para ti evoco.

 

   Os mochi são uns bolos de massa de arroz, uma pasta pegajosa e plástica, que obrigatoriamente se comem pelo Ano Novo, infelizmente vitimando por engasgamento uma ou outra pessoa idosa, todos os anos, por ocasião da festiva refeição. O primeiro dia do ano é também data de se ver o nascer do sol, sinal de novo ano, nova vida. Agosto, por sua vez, é mês de contemplar a lua cheia. Assim como nós amamos o luar de agosto e as desfolhadas. No conto A Lua, de Furari, o nosso herói passeia-se de canoa, com sua mulher, pelo rio Sumida, em plena cidade de Edo (Tokyo). Também fiz essa experiência fluvial e romântica, petiscando, bebendo saké e olhando a lua. Deixam o bote flutuar ao sabor da corrente, vão silenciosamente gozando o momento. Mas Eï, a mulher, fala: Que beleza serena! Mas porque haverá um coelho que faz mochis na lua?  E a conversa entre ambos vai continuando: Desde quando fala o budismo nisso?... Para expiar as faltas de um mundo anterior, um coelho corajoso quis fazer uma boa ação... e ofereceu a própria vida... Então Shakra comoveu-se lá no alto dos céus, e levou-o e instalou-o no reino lunar... Diz-se que é desde então que se vislumbra um coelho na lua... Será que os desenhos que vemos na lua já antes se pareciam com um coelho? ou será que essa lenda é anterior? Não sabemos. Mas seja como for, é facto que a lua é o astro mais próximo da terra... E isso de estar sempre a mudar de forma acentua ainda mais o seu mistério... Mas é um astro magnífico, que nos é familiar... Entretanto, à beira-rio, o poeta Issa escreve um poema: Apanha para mim / a lua / pede a criança chorando...

 

   Mais tarde, tal como dantes, o caminhante Ao Sabor do Vento continuará a contar e a medir os seus passos, mas sempre de olhos no céu.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   No seu texto de apresentação da exposição L´Au-delà dans l´art japonais (Paris, 1963), de que te falava na minha última carta, Seiroku Noma não podia esquecer o monge Mincho (século XIV-XV), pioneiro da utilização da tinta da china na pintura japonesa, e diz: As obras de Mincho e de Josetsu acentuaram o vigor do desenho, como que para mostrar a acuidade da intuição do Zen, e os seus temas foram sobretudo relativos à iluminação. Chama-se Zenki-ga a tal pintura, a palavra Zenki significando qualquer ocasião que provoque a iluminação. A variedade dos assuntos abordados por Shubun, Sesshu e outros artistas mais tardios estendeu-se às paisagens e à representação de flores e pássaros. Essas paisagens não valem apenas pela beleza natural dos sítios, ilustram o que os artistas consideravam ser o quadro puro e calmo conveniente à habitação de um monge Zen. Quando pintavam flores e pássaros, faziam-no para libertar a "budeidade" inerente às plantas e aos animais que, para esses artistas e o seu público, mais não eram do que formas da transmigração das almas. Pela mesma razão vimos surgir, entre esses monges, criadores de jardins...   ... Como o essencial da pintura Zen era surpreender o coração escondido por detrás da complexidade superficial da aparência, ela rejeitou a cor e escolheu o estilo monocromático.

 

   Muito embora também próximo da chamada "linha clara" da banda desenhada europeia, o desenho de Jiro Taniguchi, sobretudo o que ilustra a sua obra intimista, mais espiritual, inspira-se certamente na tradição Zen, quer no que toca a surpreender a alma das plantas, dos animais e das pessoas - e, como ele mesmo confessa, a força dos fenómenos maiores da natureza, incluindo os cataclismos em que ela se revela dura e perigosa -- como na procura da iluminação, isto é, do espírito escondido que anima tudo. Alguém já disse, e creio que muito bem, que Taniguchi tenta desenhar o indizível... Deus cala-se ou, pelo menos, parece calar-se: assim começa um livro do jesuíta Louis Barjon, que consegui desencantar das profundezas da minha biblioteca, a pedido de um velho amigo meu, o frei Eugénio de Paiva Boléo. O título da obra é Le Silence de Dieu dans la Littérature Contemporaine, tenho-o desde os anos 50, quando o comprei em Paris. Pensossinto que poderia, hoje ainda, entender os vários porquês das problemáticas a que o livro acode. Mas com outra distância: a minha convivência local com a cultura dita oriental induziu-me - devo reconhecê-lo - a uma aproximação diferente a questões como a do mal e da culpa, do mundo e do espírito e, sobretudo, da presença de Deus em tudo. Não deixei de ser e pensarsentir-me cristão, mas sê-lo-ei hoje de um modo diferente. O meu pressentimento do Zen japonês, sobretudo pelo que ele me deu de abraço da natureza e do nosso despojamento interior, retornou-me a Mestre Eckhart e a uma mística cristã que desde muito novo me envolve. Os Evangelhos continuam a ser, para mim, as mais comoventes narrativas da literatura mundial, mas quem, como tu, os tem lido e relido, compreenderá melhor o que quero dizer quando afirmo que, depois da minha meditação "oriental", os leio mais simultaneamente à luz de S. João Evangelista e com os olhos e o coração de S. Francisco de Assis.

 

   Todavia analisei muitas arquiteturas teológicas que tentam explicar a boa razão do mal que conhecemos, e até debati a questão, inclusive nas minhas cartas a José Saramago (lembras-te?), tal como escutei o grito angustiado da perplexidade de crentes (o próprio Jesus clamou na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?), assim como a revolta de ateus e agnósticos (pensa no Goetz de Le Diable et le bon Dieu do Jean-Paul Sartre : Est-ce que tu m´écoutes, Dieu sourd?- perante a morte desamparada de Catherine). Mas acabo por me render à evidência do mistério que tudo é para mim. Não entendo, não sei explicar. Faço por me despojar dos meus sentimentos, revoltas e resignações, angústias e euforias. E num silêncio escuro, vácuo, espero o encontro com o indizível, inefável, porque fora do tempo e do espaço das nossas medições. E pensossinto que a minha desinvestidura, despojamento e despedimento de mim, é a porta aberta para a íntima alegria possível: a do acolhimento universal, que é o amor. Até de mim, que em tanto mal tenho comungado e ao bem apenas tenho aspirado. Deus - eis a lição da incarnação, morte e ressurreição de Cristo - está connosco, presente na partogénese da Jerusalém celeste.

 

   Escrevo-te estas linhas ao som das Pièces de Viole, 1701 (Hommage à Mons. de Lully et Mons. de Sainte Colombe) de Marin Marais, excecional compositor de peças para viola da gamba, neste registo tocadas por Jordi Savall. Foi este músico catalão que redescobriu Marais e o seu instrumento antecessor do violoncelo. O mesmo Savall - de quem tantas vezes te falei já - que, há pouco ainda, foi partilhar, com companheiros músicos sérvios, afegãos, africanos, judeus, turcos e outros europeus, sul-americanos, etc., música do mundo, com os refugiados migrantes encerrados na "selva de Calais". O Jordi tem feito diálogo de culturas através da música, e, em Calais mesmo, não tocou só para refugiados em seu ghetto, foi à cidade tocar para os seus habitantes: o objetivo da integração é que cada cultura tenha o seu espaço e fecunde a sociedade pela sua contribuição. A riqueza de um país mede-se pela sua diversidade; as sociedades fechadas tornam-se decadentes, apenas prosperam as que se abrem - disse ele recentemente. E mais adiante: A intensidade dos fluxos migratórios e a falta de uma política de acolhimento eficaz levam os povos a sentirem-se invadidos no seu próprio solo...  ... Por isso toquei também na cidade de Calais, para apresentar aos habitantes aqueles que vivem perto deles. E à pergunta sobre se o Ocidente terá o monopólio da intolerância (a entrevista é atual e francesa), responde: É evidentemente necessário opormo-nos à mentalidade teocrática, à rejeição do incréu que grassa em certos países e é por vezes exportada para os nossos. Mas nós contribuímos, através de intervenções nossas, para a emergência de regimes intolerantes e totalitários, e assim também para a destruição dos países donde vêm esses refugiados. O problema fundamental não é um racismo que fosse exclusivo deste ou daquele povo, mas a incapacidade de muita gente aceitar um autêntico diálogo intercultural, o único que nos permite conhecermo-nos na paz. Ajudando os jovens a apropriarem-se da sua cultura, e a partilhá-la connosco, podemos fazer com que as coisas avancem...   ... É preciso trabalhar naquilo que amamos; se sentirmos que o resultado tem alguma utilidade, tudo muda. É por isso que não toco só nas grandes salas, mas também nos hospitais e nas prisões. Se não levarmos aos jovens a experiência da beleza, dentro de vinte anos estarão vazias as salas de concerto. É preciso trabalhar para o porvir. Sem utopia, não há criação possível.

 

   Antes de assinar esta carta, pensossinto o Papa Francisco (nome profético!) no Egipto, em convívio, sem proteção blindada. O Ernâni que, com o António Luciano, é um dos amigos do coração, com que partilhava afinidades espirituais difíceis de proclamar - e eles eram, noutras coisas, bem diferentes um do outro!  -- acreditava muito na comunhão dos santos. Ambos da minha mesmíssima idade já não precisam de instrumentos de métrica, muito menos de cálculos a prazo. Sabem melhor do que eu o que nos comove no Taniguchi, no Savall, no Francisco, e em todos aqueles que fazem da descoberta e contemplação do mundo e da vida, não pretexto de revolta, medo, culpa, angústia ou depressão, mas razão de amor ativo.

 

Camilo Maria 

P.S.- Esta noite, quebrou-se a seca persistente, choveu como Deus dá. Saí de manhã cedo, extasiei-me à vista da alegria dos campos: toda a vegetação, agradecida, cantava verdura e vida. E lembrei-me do Taniguchi, que tão bem desenhava a graça anímica dos bosques...

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Por cá, o toque de alvorada é dado pelos melros, quando a luz que vejo lá fora, estremunhada e pálida, ainda nem põe cores nos campos mas apenas vai rompendo a escuridão da noite que foge, distinguindo contornos e tons. A noite que fundira num campo só seu todos os campos que eu via (lembrando Pessoa) deixa agora a alba abrir as sombras... E os melros cantam acolhendo o dia e reconhecendo-se nele. E eu quedo-me a sentir a luz da manhã que cresce e não comando. E então vou descobrindo como é alto o céu, e ocorre-me aquele desabafo do Hiroshi Nakahara, protagonista de Harukana Machi-E, de Jiro Taniguchi: O céu é tão alto... e, todavia, temos a impressão de que bastaria estendermos a mão para tocar nas nuvens... O céu é tão misterioso, como se fosse imutável para lá dos homens e do tempo... E se a eternidade fosse isso, um simples céu... Nunca ninguém se torna verdadeiramente adulto... A criança que fomos está aí, bem viva no muito fundo de nós... É como o céu... Com o tempo, julgamos que crescemos, mas a maturidade não passa de engano, mais não é do que um entrave à nossa alma livre de crianças... Reli esta noite essa maravilhosa narrativa do regresso sonhado de um homem maduro aos seus catorze anos, para compreender que não se muda a vida que nos construiu. Tal como não se reinventa o passado, e afinal permanecemos na incessante procura do desconhecido que somos. Numa das minhas primeiras cartas (seria ainda uma das muitas que escrevi por um homónimo antes de mim?) já te falava da difícil relação que tenho com o tempo, e tenho-te dito como, ainda hoje, procuro conciliar, na circunstância da intemporalidade, a aparente contradição entre tempo escatológico e tempo circular. Esta manhã, neste momento em que te escrevo, escuto as rolas que começaram a arrulhar lá fora. Já lá vão as seis horas da manhã e calou-se a música dos melros; dão agora as oito, será hora de rolas, mas não sei dizer-te se se deitaram tarde ou são preguiçosas. Também é verdade que te digo horas de hoje, mas, embora melro me pareça mais madrugador que rola, nem todas as aves acordam todos os dias à mesma hora. Quiçá melros e rolas, amanhã ou depois, se anunciem a horas diferentes das minhas, sempre contadas. Penso que o relógio das aves não é como os nossos: tem dois ponteiros, sim, mas um é a claridade da luz, e o outro a temperatura do ar. Ambos medem só o momentâneo, desconhecem a duração. Menos angústia, menos grilhões. 

 

   Noutro livro, Taniguchi adapta e desenha um romance de Hiromi Kawakami, intitulado Sensei no Kaban (literalmente A Pasta do Mestre, que, aliás, na narrativa ilustrada, ele visivelmente traz sempre consigo) - obra que, de certo modo, nos fala também de um passado revisitado e, simultaneamente, longínquo e intrometido na vida presente. Trata-se do reencontro de uma mulher de 37 anos com um seu antigo professor, agora com 67, reformado. Apesar da diferença de idades, de conhecimentos e cultura, entendem-se no gosto por passeios com paragem obrigatória e deliciada em tasquinhas de petiscos japoneses. Eu mesmo fiz, sozinho, essa experiência de comer sentado ao balcão, mandando vir pratinhos conformes ao deambular do meu apetite e sem mais conversa, e muitas vezes volto aos relatos que o Taniguchi faz de variados momentos gastronómicos do Petisqueiro, noutro dos seus livros. Até na diversificação dos pormenores, dos ingredientes, das cores, dos cheiros, dos paladares, a cozinha japonesa tem sempre algo de comunhão telúrica, e pode convidar ao silêncio e à meditação. No caso de Sensei no Kaban é também motivo de encontro e afeto.

 

   A mancha urbana de Tokyo e cidades adjacentes terá mais de 43 milhões de habitantes, mas todavia está semeada de minúsculos jardins e pequenas hortas, de ruas estreitas que são caminhos de aldeia, de recolhimentos, cantos e campos esquecidos... Tudo muito seguro e limpo. Sair das grandes artérias e dos centros de azáfama para se deambular por ali é como viajar-se para muito longe pelo seu próprio pé. Assim, onde mais me senti como que no campo foi nos corações secretos da megalópole de Tokyo. Por aí também me consola o convívio com a obra de Taniguchi. O desenho é limpo e nítido, o pormenor nunca é esquecido, as cenas são enquadradas de modo a descobrirmos o sentimento das coisas e das pessoas - e as belezas escondidas, mesmo quando estas não são aparentes em paisagens urbanas monotonamente arquitetadas, nas ruas cobertas pelo cruzar de cabos elétricos e telefónicos, onde o belo reina pela simples sentida presença do asseio e da paz. Inesperado, súbito, surge um pequeno parque, um templo budista, o cemitério anexo, tudo verde e cinzento e antigo. Tudo calado. Ali se prolonga e instala o repouso da paz interior. A vida e a morte confundem-se na natureza.

 

   Curiosamente - e talvez seja isto o que me ocorreu dizer-te hoje - tenho abertos, em prateleiras da sala cá de casa, dois livros grandes, de ilustrações: um, japonês, reproduz cem pinturas antigas referentes às estações do ano, e abri-o na página que nos mostra uma pintura de cerejeira em flor, do século XVI; o outro, português, é uma edição fac-similada das gravuras do De Aetatibus Mundi, do português Francisco d´Ollanda, e delas mostro a nº 69, alusiva ao tempo e à eternidade. É uma composição intrigante, apresenta-nos um gigante ajoelhado sobre uma mó, apoiado em duas muletas com rodas, assim conduzindo a mó para cima de um esqueleto humano, que uma foice identifica como morte. É velho barbudo, tem asas abertas, parece devorar um corpo de mulher que traz na boca, uma serpente enrosca-se na muleta esquerda e aponta a cabeça à mão desse lado. É, o nome inscrito na mó assim o indica, o Tempo. Por cima da cabeça, uma clepsidra, por detrás um sol radiante donde jorra, de cada lado, um arco íris que toca a terra onde dois veados, símbolos da esperança, pacíficos e alheios, pastam. Acima do sol abre-se um espaço circular e vazio: a Eternidade. Por debaixo da gravura, o rosto do Pretérito olha para trás, o do Futuro para a frente. Entre ambos inscreve-se Agora, e a legenda reza Finis Temporis. No reverso dessa gravura do século XVI, surge representada a Ressurreição de Cristo. Uma vez mais, é o Tempo que morre, e Vida e Morte se confundem.

 

   Pego no catálogo, para mim autografado por um conservador do Museu Nacional de Tokyo, em romaji (caracteres latinos) e kanji (sino-japoneses), Seiroku Noma comissário duma exposição no Petit Palais de Paris, ao tempo de André Malraux, ministro da cultura, que tomara a iniciativa de propor a sua realização. A data da dedicatória é 16 de dezembro de 1963, e  Seiroku Noma escreve a introdução ao catálogo da exposição intitulada L´Au-delà dans l´art japonais. Naquela, ele chama a atenção para a pintura aguada e o espírito do Zen, seita contemplativa do budismo, de afastar todas as preocupações terrenas e procurar uma visão intuitiva para assim surpreender a verdade da vida e do universo...   ... Com vista a atingir o coração da verdade, era necessário eliminar as impurezas devidas aos acontecimentos e à circunstância. Na terminologia Zen, essa eliminação dos entraves e essa aproximação dircta da verdade são chamadas nada, vacuidade. É por uma contemplação esvaziante e por uma disciplina visando atingir o reino do não pensamento que Çakyamuni, o fundador do budismo na Índia, alcançou a iluminação suprema. Fui a este texto, que guardava de uma estadia em Paris, há mais de meio século, porque me ocorreu quando relia o 17º capítulo, A Pasta do Mestre, do romance de Kawakami que Taniguchi verteu para desenho, com o mesmo título em japonês: Sensei no Kaban. Ali se conta que, depois da união do pudor e da paixão poderosa e íntima do professor e da sua ex-aluna, aquele irá morrer. No dia do funeral. o seu filho entrega, em memória grata do pai, um presente à jovem senhora: quando esta, saudosa e só, o abrirá, encontra a pasta que todos os dias ele trazia consigo, e lhe legara em testamento: estava vazia, nada tinha dentro. Lembra-se então de um poema de Seihaku Iraku que o Mestre um dia lhe ensinara: Tanto viajei / que trago a roupa gasta / e o frio a trespassa /  Está claro o céu desta noite / mas dói-me o coração. E olhando o céu calado, dirige-se ao Mestre: Gostava tanto de voltar a vê-lo... E lá do alto, do céu vazio, uma voz lhe diz: Está prometido, um dia será!

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira