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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Sim, caminhar pelo nosso pé, sempre será diferente de andar pela mão que suporta os estilos e as ideias dos outros. Caminhar pelo nosso pé não carece de dissertações, mas pode não explicar a magnitude de um trabalho de vida. Em rigor, quem nos cerca, cria uma atmosfera de somenos a fim de desanimar o pé e o facto de ele ser nosso. E se eles conseguirem que o oxigénio faleça devagar, que a brisa da noite se torne enganosa, a procissão do nosso pé ou rasga de imediato a avenida e ali se afirma, ou, o carnaval invade as ruas de um jeito que, das ideias dos outros tudo fica dito e a peça-chave da independência do pensar com autonomia, só sobrevive com ironia, violando as urnas de voto entretanto violadas. E enfim, assim tudo se confunde como a febre das condecorações e suas proximidades nos cargos. Afinal, pede-se a quem caminha pelo seu pé, tudo o que o se não favorece. De louvação, recorde-se, vive um estranho sedentarismo nacional das ideias de fácil digestão no parlatório dos almoços a charge.

 

Também se inicia neste chão pardo, o autoelogio de quem se sente superior por bem do que é capaz, e logo os teatros dominam sobre os demais espetáculos, fazendo questão, os personagens notáveis, de não esquecer a nota de necrologia de quem lhe é igual ou similar, e gerindo o silêncio total à volta de quem sozinho ainda vive e por seu pé se atreve ou atreveu a caminhar.

 

Como nos compunge dizê-lo! mas se nas almas eles possuem os mesmos sentimentos que na atmosfera dos manjares, a ópera cómica só nos mostra o constante e violador procedimento dos bailes de máscaras, enquanto nem um artigo tantos do código o proíbe. Enquanto caminhar pelo nosso pé, foi preocupação do mundo no adivinhar o enigma, e como o sucesso lhes escapasse, pois que a nós tocasse nadar em mar revolto sem cinto de salvação ou queixa.

 

E saber que as violetas tinham mais perfumes e as rosas mais expansões; e que Verdi exclamou cheio de nobre orgulho: - Estais acordados? Venci.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Em setembro podem surgir maios em bouquet de rosas que adocicam o chão onde poisam as folhas caídas que já criam alterações sensíveis nos sentimentos e nos costumes dos olhos.

 

Hoje mesmo, um trovador de Veneza, sentado à margem das árvores que já cumprem os ritos da estação que chegará, puxou de sua lira e dela um hino de louvor de abrigo ao mundo, abriu os braços a quem passava.

 

E por entre quem passava podia-se escutar Steiner a dizer

 

«(…) noventa por cento dos seres humanos não contribuem nada para o avanço do conhecimento, para as conquistas estéticas ou científicas e para o legado das coisas extraordinárias, de que a nossa civilização depende.»

 

E setembro acrescenta

 

«Existe uma espécie de lepra, num mundo que permite a coexistência de crianças esfomeadas mental e fisicamente e de outras de ambientes super protegidos e rodeados de livros e vestimentas da bourgeoisie a fim de que futuramente possam parir um mundo igual em conteúdo de lepras e no eclodir de catástrofes.»

 

Desconheço toda a força do bouquet dos maios, digo, e também a de setembro no enfrentar a insignificante e poderosa escala dos forjadores da infelicidade dos tempos.

 

Os mexericos por eles usados para diagnosticarem se a dose dos seus processos resulta, são o único meio de, como ratos que são, continuarem a viver uma vida de terceira ou 14º ordem que esqueça, inclusive, aqueles que padecem da fragilidade física da doença, da idade ou da ausência de ternura e de amor de desempenho superior.

 

E é setembro! E mais outra vez o mal é a ausência do bem ou a ausência de tudo. Outono e Inverno mesclam-se de mãos para protegerem o bouquet dos maios. O trovador das estações dirige-se ao Verão numa filiação de esperança, mas sabendo que o credo continua a caracterizar a circunstância humana. Sabendo que o credo continua a perguntar-se à beira-mar. E a resposta.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

O credo é sempre o mesmo: a gente pergunta-se a si próprios onde estão os maus? Todos juntos? Ou é só um que se alarga de quando em vez? E os bons? Os bons?, somos nós. Ora, ora. Fomos sufragados por nós e estamos em maioria, e que se registe esse facto uma e outra vez. Não há dúvida, os bons somos nós. E que nenhuma serena, astuta e modorra ideia coloque a dúvida de que eles são os maus.

 

Nós temos uma estatística autorizada. Nós, os bons. É uma estatística mimética que nos confere o direito de nunca entendermos os maus, pois somos tão acima, que, nem em esforço desceríamos tão fundo para lhes salvar alguma verdade. E a ser verdade, a deles seria sempre fingida verdade.

 

Às vezes suamos muito para que eles sejam os maus, é certo, mas vale a pena. Calafetamos dúvidas nesse trabalho e fazemos provisões de mantimentos que nos mantenham a vida. Aos sábados reunimos o bando dos bons e em credo cruxificamos os maus e o mundo fica mais limpo para nós.

 

Desde as praias do Algarve até ao Minho cotejando litoral e interior, os bons e os maus solicitam fronteiras e são contra os estrangeiros. Existem pontos de encontro. Afinal.

 

E que ninguém conte com o dia de amanhã! A tolice é um trabalho sobremaneira triste e por demais sabido de todos. E nós, os bons, numa luminosa inteligência não veremos o dia em que acabaremos por cair todos, mas com a certeza de impedir a tempo que os maus nos prestem homenagem.

 

Disto os noticiários voltaram há pouco a fazer eco.

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

CRÓNICA DA CULTURA


Os ulmeiros frondosos vão-se despedindo aos poucos da estação das alegrias. Habituaram-se que o Verão fosse breve como breve a felicidade, e que o Outono lhes fazia sentir que a queda das folhas exprimia a solidão dos campos, os dolorosos versos do entendimento das separações.

 

No Inverno as arvores perdem os espectadores, perdem-lhes a companhia e a capacidade de a encantar, e é como se vivessem para dentro um tempo desastrosamente melancólico e frio. E cismam, cismam com o prémio da saudade como devaneio doce e não dor.

 

Os ulmeiros, dizem, entram em descrença por deixarem de acreditar numa reabilitação primaveril que já tarda. São pais de família e desconhecem o que dizer aos filhos que lhes não perturbe a profundidade do antever do futuro de afastar a ideia de um abismo ou a perceção das lágrimas no rosto de quem passa.

 

E eis que escutam um chilrear alegre de quem chega de uma viagem. São as andorinhas, são os trovadores portugueses. Começa-se a notar um certo movimento auspicioso como prenúncio de uma lenda que acontece. E os ulmeiros, de qualquer natureza que eles sejam, entendem que a grande arte da vida vai ter enfim, uma outra estação de glória que a precede, e que afinal de nenhuma, a queixa se escreve em cadernos de alma, antes são tempos que também se fazem do interior exclusivo de fenómenos, e, sempre a seu benefício. De todos os ângulos sempre e unicamente Vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da janela do Hotel Borges, a luz Jablochkoff iluminava orgulhosa os passeantes do início da noite. Não se sabe se alguém recordou a ténue claridade do anterior gás que, aceitando o jeito ténue de abat-jour, fora espécie cúmplice aos abraços dos apaixonados e não só. De qualquer modo, diz-se, que esta luz Jablochkoff imprimiu à cidade de Lisboa o cunho de uma cidade europeia. Com esta nova luz, muitos locais tornaram-se pensadores aprazíveis do que aos destinos do mundo respeita, ou, as medalhas e as joias e as plumas e os ares de casacas, se não tivessem tornado feitos extraordinários apenas por maior visibilidade na direção dos poderes.

 

É certo que o russo que inventou esta forma de luz não terá tido em conta que a clareza do poder importuna o próprio poder ou não lhe perguntasse:

 

- Vi-o ontem com o senhor x. Tenho a certeza que era V-Exa. Não estou a supor sequer que não seria. Creio bem que a grã-cruz lhe escapou justamente por essa clara companhia.

 

Aqui chegados todos se lembravam da importância da vela de sebo, verdadeira agente da escuridão, espartana o bastante para não revelar antes de entregue, qual a propina que ao criado caberia naquele dia.

 

O ditado ainda hoje reza:

 

Contente-se, que não vai mal de abat-jour!

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Este ano fui às noites de Santo António procurar o cheiro das terras do meu país. Fui saudar o rosmaninho e a erva-pinheira, os manjericos, os funchos e todos os cheiros explicativos que a memória prendeu. Nada encontrei tão casto, tão idílico quanto a ideia paisagista e bucólica que tinha e que fazia o caminho inocente das tradições que nos amparavam as estações dos anos. O melhor mesmo seria, pensei para mim, que cada pedaço de terra celebrasse naquelas noites e a seu modo, as noites, numa virtude de livre concorrência até que de um justo equilíbrio do que por lá se passa, restasse para nós o imposto do consumo.

 

Afinal, há muito que o iate de recreio de Júlio Verne produziu mais impressão do que as Viagens Maravilhosas escritas pelo talento deste escritor.

 

Todos de um modo ou de outro, na procura – se procura houver - dos cheiros das terras do mundo, sempre entenderão e acreditarão que um ser possua génio, julgando, porém, dificílimo que por esse mesmo génio obtenha um barco que navegue.

 

Este ano fui às noites das aldeias do meu país; ufanei-me com o que pude, passei uma vista de olhos de estrangeira na fachada dos Jerónimos, frequentei o Chiado ladeado pelas casas dos milhões, aquelas mesmas que abrem portas para deixar sair os cinco cães de família de olhar vago e nostálgico como os dos donos. Todos, bichos e bichos homens, já procuraram remédios para a profunda tristeza que os tolhe nestes locais de mundo. Já usaram a erva-pinheira antes e depois das refeições. E nada.

 

Assim num Portugal muito longe do mundo me senti. Um Portugal de agradecimento que lhe não cabe ter me atordoou, ou não se soubesse que seu não é o turbante nem o selim que vão compondo o artefacto com o qual nunca em verdade se vestiu.

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Um imenso ouvido

 

Descia a ruela de terra batida que ia dar ao pinhal dos medos. Normalmente cantarolava durante o percurso, ou não soubesse que assim o medo se confundia pelo descaramento provocativo ou encantatório de um qualquer cantar. Aí chegada, o perfume das pinhas esvaziava-me dos receios todos. Baixava-me, olhando fixamente para o meio das espigas agrupadas aos pares que se soltavam dos pinheiros, a fim de encontrar a pedra adequada ao partir dos pinhões. Depois, sentava-me no chão e ali fazia a refeição que me dava forças para não temer a chegada à saibreira dos cães.

 

Antes desta, eu tinha ainda de fazer um pequeno percurso, a que chamara o ainda-não-mundo. Era terra à semelhança de nada. Terra temida mesmo pelos agricultores locais: terra sem língua própria ou sequer revés.

 

Quase corria a fazer este caminho, mas sempre atenta aos cães da saibreira que me viessem fazer frente como já acontecera diversas vezes. E lá chegava ao local que sempre achei ser só de mim conhecido. E ali contava tudo. Dizia do pai da mãe, da avó, das criadas, das amigas, dos irmãos, do Tim-Tim, de Jesus, da vaca que parira, do formato das foices, dos poderes do pão sozinho face às brasas que o coziam, das cruzes desenhadas nas tampas dos fornos de pedra, dos queijos lá alto em cestos junto ao telhado das adegas, e só depois me atirava a falar da pura salvação ou da pura perda do mundo que entre as minhas mãos tinha uma ideia nítida entre princípios opostos.

 

Surgia-me então ao pensar um imenso ouvido. Devagar, uma realidade aos poucos e poucos revelava-se física e não fragmentada da Coisa que era poder e revelação. Peripécia de lógica que enfim me acalmava e me permitia fazer perguntas ao acesso à liberdade.

 

De olhos fechados prometia voltar a este imenso ouvido, tessitura que nunca me levara ou levaria do zero para o Nada.

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho/Agosto 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Enquanto a partilha de mundo é feita com muito menos caridade do que a feita por Deus segundo a balada de Schiller, alega-se que a humanização atinge glórias no nosso tempo. Falo daquela que por aí veem passar arrastada, a trote ou a galope ou em pose, consoante lhe propõe a selfie (photo you take of yourself com muita alegria e muita joy and others you may know) e desconhecendo a idade do tempo, a impaciência da fome e seus géneros.

 

As notícias negras de tudo o que aconteceu no dia anterior ou no exato momento, chegam-nos com o timbre de uma gutural água furtada, que pinga comoção e objetividade, em dose q.b. para não atrapalhar os poetas e comentadores de serviço e de função. E aí está o exclusivo que se quer oferecer a todos. O exclusivo sem procedência, mas proprietário de uma escola temente aos dias, não vá um dia não acordar igual ao outro e nascer desalmada, uma guerra do tira-olhos que para si não diligencie que os bonitos sempre dono têm na contenda disto tudo.

 

Enfim, no meiinho das mãos, no very deep inside da esmagadora maioria e de certas minorias, cada um de per si, como dizia um colega meu quando nada entendia do que lhe perguntavam, encontra uma petição de mercê e se não puder ser tanto, ao menos uma assinatura devota de gratidões, nesta crise entre a escola velha e a escola nova, quando os conteúdos de ambas se abraçam pelos ermos sucessos que festejam de si, Helas! num desgraciadamente promissor.

 

Aqui chegados, les gens, também conhecidos pelos hi people! continuam a partilhar mundo e nele o triunfo dos porcos, heróis de sentimentais melenas e gestos inspirados – o que não é muito fácil de realizar, cantando.

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

A LINGUAGEM DE UM RIAD

 

Um chamamento provém do que propulsiona de um Riad para nós, para fora de si e para dentro do nosso momento a cada matiz que o vivemos.

 

É estranho, mas ali percebe-se a música do mar, bem como a do deserto envolvente. É um local de enigmas que conhece as estações da vida e sabe pensá-las fundamente. Uma exceção sensual habita ali perguntas fundamentais cujas respostas afinal só conhecíamos de indícios de outros poderosos mundos. O misterioso que se deixa perseguir num Riad protagoniza tudo o que mostra, ou, pelo menos reúne uma fantástica coleção de saberes o que expõe à nossa versão sem receio de se sentir mutilado.

 

Há algo muito forte num Riad e que paira entre nós e a nossa liberdade, ajuizando coisas por abraços convincentes que confidenciamos também por beijos e seios despertos.

 

Invocam-se caprichos da imaginação e o prestígio deste local aumenta-a num desejo nascente. Aqui a mulher é bela e fresca e senta-se no ângulo que melhor a vejam e vai até ao implausível, sobrepõe-se assim às do mundo externo. Os feitiços abalam, mas nunca sem antes se deixarem absorver o bastante.

 

Tudo é muito mudo na viagem de volta.

 

Uns dias mais tarde, uma lua no nosso quarto. Uma lua prateada leve, volteada em estrelas, livros, âncora: a linguagem de um Riad.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

O PODER DA MEDINA

 

Foi quando, movida pela irracionalidade, avancei a correr atrás do homem que vendia punhais. Em segundos olhei para todos os lados e vi todos e ninguém. A pesada porta do silêncio perdido avançava para mim e nem tentei uma entrada precária pela blindada fresta luzidia dos pregos de metal. Fatalmente o poder da Medina seduzia-me e apavorava-me e encarcerava-me. Estava perdida à porta de uma porta. Num instante sorvera o discorrer para dentro do senso das especiarias; voava num tapete até ao sensual local dos banhos de rosas argalistas. Desconhecia porventura o destino do jogo que jogava impotente, entregue ou não, não sabia. O tempo não existia, mas antes um poder sábio, hierárquico, precedente à noção.

 

O que vivia em segundos era um movimento não isento de passividade, nem de agressividade, era algo que se revelava numa explosão de sons e cheiros e movimentos do mundo da morte e do mundo da vida.

 

Os dentes enormes do homem do punhal sorriram-me num excesso, assediando-me com preços obstinados, perguntando-me, impacientemente, quanto ofereceria eu por dois deles. Então, naquilo que senti como sendo a penumbra de um hemiciclo, fez-se luz, de súbito. A multidão abrira espaço, era uma possibilidade-limite e o teu olhar ali tão perto dos meus olhos agora, e já a memória em mim dispunha daquela liberdade separada que me envolvera no perder-me no poder da Medina.

 

Local sem corpo, local informe e todo ele torneado. Local pensante de uma inteligência infalível. Local sem escolhas livres e no entanto frémito, emoção, afeto todo ele muito além da simples vontade de o pensar.

 

O poder da Medina prende-nos às essências dos mundos e a trança que nele nos enrola e nos perde é um antigo comportamento em nós.

 

Sob um calor que nos desencaminha, o vai-vem de uma passagem recomendava que uma distância prudente fosse preservada. No entanto, os números e símbolos e cheiros, destinados a permanecerem vedados, permanecerão sempre em densos mistérios que não nos serão dados a conhecer. E no entanto, também ali, nós e o nosso princípio, como se pedra e pássaro e beijo e caos e incitação num balanço de opostas forças nos segurasse numa estranha mistura de tempos do sentir.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 24.6.2017