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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

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Ao que poderíamos chamar a grande arte ou a grande poesia, exigem memória precisa, clareza de interpretação e finura na concentração. O que é erudito tem sempre um faro escondido atrás da mão da alma, e só assim descortina o que existe por baixo da profundidade. Chega-me à memória um vedor que visitava com regularidade a quinta de meu pai. A mim parecia-me que ao rodarem os pauzinhos que o vedor tinha entre as mãos, escreviam eles no ar, a palavra silêncio, ou não estivéssemos perante a indicação de um pormenor da ínfima luz que se mostra claríssima, na pujança da erudição maior, tão logo a água jorrasse intérprete da primeira grandeza.

 

Desta água ao tecido que o poema expõe surge a voz escrita do estilo do intérprete que vai cartografando realidades alquímicas que reiteram sem dificuldade a força do que está em causa.

 

Inevitavelmente recordo a erudição tamanha de Gershom Scholem, as suas explicações de textos cabalísticos (mística judia) de influência fantástica sobre a teoria literária em geral, sobre o modo de ler a poesia de críticos e investigadores não judeus e plenamente agnósticos. Sabe-se que fechados em revistas escritas em hebraico se encontram algumas das obras de Sholem não obstante títulos publicados pela Princeton University Press que se dirigem inequivocamente a um público instruído.

 

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A Life In Letters (1914-1982) de Gershom Scholem que tive a oportunidade de ler em plena convivência com um admirador e conhecido de Scholem, deixou-me a necessidade de conhecer aquele que fosse o grande poema, a grande arte como tributo a este enorme servidor da inteligência.

 

Scholem é aquilo a que eu chamaria um homem do pensamento formado na erudição. Do pouco conhecimento que dele tenho e sempre terei, intuo dele uma mestria grávida de uma realidade nunca herdada. Sinto-lhe um anarquismo necessário à desconfiança pelas convenções, um misticismo religioso com origem no cético. E mais não ouso. Era e foi sempre ele um dos grandes vedores que conheci ou imaginei nas mil quintas do mundo. Dele tenho obtido muitas ajudas para a minha iniciativa de lhe reler as páginas que possuo. Ajuda-me a compreender o passado como o faria um profeta da luz sobre o futuro.

 

E não serão os escritores da profundidade estes profetas da luz? Scholem também sempre voltou a Kafka sobretudo quando a tensão se instalava de si para si.

 

E Scholem pedia que lhe perguntassem

O que entende por «o nada da revelação»

Ou a revelação não fosse o processo que está para aparecer, com ou sem validade, com ou sem significação.

 

E se entretanto o só, nele está Celine, Borges, Canetti, Duras, Aristóteles, a Geografia, o Desenho, as Línguas, a Ciência, a Economia Política, a Astrofísica, a Paleontologia, a Poesia enfim a recompensa extraordinária que em nós só a universidade é e pode.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

   Um gosto extremo pela verdade.

 

Um legado do meu tio-avô que em seus velhos anos sentia, no saber, satisfazer-se com o que tinha. 

 

Não sei até onde se contentou este meu tio em viver uma vida que ele chamava tão-somente desculpável e que não pesasse para ninguém. E eis esta outra consciência de que nesta verdade teria de se encontrar. Nesta verdade que queria dizer vida em total soberania, na qual, nem a lealdade dos filhos que não tinha, deixava de ser guardada num lenço de nariz amarrotado e que chegava aos olhos numa vigilância clara de quem faz contas às certezas.

 

E o desconhecido meu tio? como era?

 

Em silêncio, presumiu os vícios depois de os ter, mais ou menos estragados pelo exemplo de os repetir. Mais ou menos diferentes quando em si se acarinhavam. Também sentia este meu tio, como uma desgarrada de mentiras, quando alguém o acusava de furto, de uma espécie de furto por poder duvidar de que os outros é que estariam certos. Imprudência seria o que sobrava aos outros para causar boa impressão à mercê de a todo o tempo ser aprovada. Assim pensava e dizia, baixinho, enquanto rolava na cama que o sustinha em dor, em muita dor. E lá chegava a memória do livro que seguiria para Lisboa com os vinte escudos apertados entre a página 32 e 33.

 

Nunca fora avaro. A verdade ensinara-lhe que o dinheiro era coisa transitória e mundana, papelada poeirenta, a das contas. Ou, o que é pior, a do negócio. Toda a vida procurara desleixar e relaxar sem obrigações ou servidões ao dinheiro. Por temperamento e por sua condição coube-lhe pertencer segundo a sua vontade, à fotografia de si e das pessoas em si, e assim, tudo fluiu e fluiria até à sobrinha-neta, eu, que julgo ter entendido dele que o que nos imprime a condição de viver da comparação com outros, faz-nos sempre muito mais mal do que bem, pois atira lama ao gosto extremo pela verdade, no sentido de nos privarmos daquilo que queremos para atender às opiniões dos outros.

 

Com ele, com este meu tio-avô, ficou-me a possibilidade de me auto incentivar às viagens, ou elas não fossem em mim um desacordo com os costumes daquilo com que me querem e quiseram conformar. E a essa corrupção, eu digo e disse não, mesmo que na fotografia em seu dia esteja eu submetida a quem não tenha um gosto extremo pela verdade do entendimento, tal como este meu tio-avô, meu padrinho de batismo de vida, aristocrata de guerra aberta a quem lhe fedia, amante de ópera obstinado. Digno.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Caro padre Jesuíno;

 

Respondo-lhe mesmo antes de ler o livro que tão gentilmente me enviou.

 

Creio, padre Jesuíno que se sabe muito bem o que está por fazer, porque quase tudo está por fazer.

 

Observo que nos encontramos tão distantes do que entendemos por prosperidade de uma nação, por bem-estar generalizado que, durante muito tempo, não cairemos no risco de vivermos num país desenvolvido. Talvez por estas razões entre outras, a frustração dessa falta de comodidade mínima de vida, pode-se definir não como tendo na base uma acesa causa económica, mas antes por falta de uma enorme sova moral, não distribuída ou não auto atribuída ao esforço de todos e de cada um, como efeito de agulha no plano da ética pessoal e social que gerasse o início do trabalho que conduzisse à felicidade possível.

 

Só através de um caminho pessoal e institucional se conduz as pessoas individualmente consideradas a não se sentirem impotentes face ao Leviatã, tão difícil de descortinar atualmente, quando os próprios Estados e os grupos de pressão, em vivência de globalização de comunhão adquirida, aderiram a um pacto de sujeição morno quanto baste, e que impede a luta contra o conformismo e contra o marasmo, o que conduz a um sentido bem expresso da necessidade da atividade dos intelectuais.

 

Padre Jesuíno, quando nas anteriores cartas lhe referi o quanto receava a moral e a ética reféns das instituições da política contribuindo para a dificuldade do estudo da ciência da política nos dias de hoje, era exatamente a este ponto que queria chegar: o consumidor, o consumidor de tudo, dos bens materiais, do amor, da religião, da juventude, da criação, da saúde, da solidariedade e a consequente perda de mira de todos os olhares, constituem o mais conseguido Leviatã que Hobbes pensaria poder gerir.

 

Deito mão de um papel que encontrei (tenho tantas destas anotações!) por entre as páginas de um livro meu, onde uma frase escrita por alguém que me despertou interesse, sem que o livro me pertencesse, e eu, deste modo guardava memória, e que, infelizmente neste caso concreto não anotei o nome, tão só sei tratar-se de um jornalista espanhol que escreveu:

 

«no tiene condiciones para ser verdadeiramente dichoso un país en que los infelices son tan ricos de alma que prefieren cuatro horas de sol a cuatro pesetas de jornal.»

 

E afinal hoje nem se poderá ser tão livre assim?…

 

Saudades a Paris

Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há que provar de tudo à mesa. Há que não se dizer não gosto disto ou daquilo, um dia, prometo-vos, irão comer os vossos próprios erros e entenderem que de todos se não safam sem prejuízo. Que muitos serão mesmo piores que os peixinhos da horta que agora vos causam repulsa.

 

E o olhar da Dulce tornava-se vago quando escutava estas palavras secas do pai, o mesmo pai que também a mimava.

 

Sabem, continuava o pai da Dulce, os madamos e as madamas ricas podem mudar de ideias, os e as pobres, é que não. Mesmo assim a estes de nada adiantava mudarem, por cima ficavam sempre os outros. Vá comam a sopa toda. Os ricos puxam as colchas até ao queixo para encobrirem os fios de ouro. Comam a sopa a toda! Mesmo que fossemos surdos podíamos ouvi-los, aos ricos, com o olhar a guardarem a caixa do dinheiro.

 

E vá comam a fruta que faz bem. Para uma certa maioria que visse essas maçãs, haveriam de ver como os olhos deles eram duas velas a derreter-se por elas.

 

Um dia saberão que nunca se deve beber água por nada de metal. Deve ser bebida por uma cabaça. Oram vejam, nós já usamos copos de vidro e os ricos usam de ouro! Limpem a boca e vá, vão brincar.

 

Depois destes almoços, ficávamos, nós crianças, todos tão velhos e tão desentendidos que a brincadeira era como uma professora boa que em tempos fugira da escola para não aprender de cor 7x8.

 

Olhávamos para as bicicletas como se pedalar nada fosse. Sentávamo-nos no chão ao lado delas e de calcanhares fincados, sorrateiramente, como se alguém nos espreitasse, deitávamos fora os peixinhos da horta que tanto detestávamos e que tínhamos enrolado nos lenços de assoar aquando da hora do almoço.

 

Tá quase dizia-me a Dulce. Tá quase e podemos brincar em paz. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

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Ontem escutei e vi num canal de televisão a explicação dos tornados, a razão de seu nascimento, da sua aparência e frequência e morte. A dada altura, confesso, julguei começar a ver no núcleo enlouquecido de um deles, todos nós a debatermo-nos num torvo para respirar e mergulhar de novo naquela força tão desigual à nossa. E pensei-nos a tirar proveito daquela natureza brutal, ganhando tempo para nos familiarizarmos com os elementos e respondermos. Pensei na raiz humana da crise.

 

Não sei quem hoje se aproxima mais do entendimento das mudanças no mundo. Não sei até que ponto se vive um desafio intelectual face às novas realidades ou se lhe sobrepõe um estado de angústia no procurar ver as coisas com bom senso, o que torna tudo bastante arriscado, e exige coragem, quando a exigência é a de um começar. O exorcismo do medo e da desconfiança que existe não carece apenas do encontro dos grupos que, quantas vezes apenas cultivam as suas distâncias. Atuar isoladamente ainda que de aparência grupal é muitas vezes o mesmo que atuar desconfiadamente, e deste facto surge o não avanço contra aquilo que é a raiz mais profunda da loucura do tornado quando deixa de ser fenómeno local e apanha o mundo numa mutação global. Então tudo é suscetível de ser confundido: recebe-se a liberdade e foge-se como prisioneiro.

 

A ameaça entrou no nosso raciocínio como um acontecimento em relação ao qual o poder político ficou de fora, há muito, e sem capacidade de nos tranquilizar.

 

E pergunto-me se toda esta convulsividade não favorece o ato criativo do pensar? ou serão os acontecimentos, mais acontecimentos do que modificações? Tenho para mim que se viveu uma aglutinação, um adormecimento que impediram muitas clarificações, e que de um referver de receios mais claros, se poderia colher aproximações às realidades que pressentíamos poderem surgir de há muito. E quase todos, mais ou menos, modestamente estamos por dentro de similares processos. E quase poucos foram os que sentiram que as interrogações não eram mais do que certezas que já tinham.

 

Diria que a força e a capacidade de pensar e de se exprimir e de refletir vivem numa coragem específica de quem aguardou a decantação no tempo para adquirir uma repulsa à carência do que não seja vida. Então o núcleo louco do tornado, em nós, deixa de ser uma procura de sair dele, mas uma experiência ativa de que a nossa interrogação é um silêncio de quase insuperável dificuldade, como referiu Paul Thibaud, ou o «sem fundo» de Castoriadis ou ainda a circunstância que enfim nos despertou para a importância da ação estética no quotidiano do homem comum. Afinal, cabe aqui dizer que a democracia será sempre um futuro ou não relevasse da incerteza, e julgo que nela nos interessa mais a sua dinâmica do que o seu longínquo ideal de sociedade quase perfeita.

 

A homogeneização é a negação da diferença dos valores dos tornados das sociedades. A título de exemplo a sociedade francesa de hoje conhece uma crise tremenda que sobretudo resulta de uma desagregação entre a sociedade e as instituições, se pensarmos nomeadamente que a grandeza da sociedade democrática reside na sua divisão intrínseca, tanto quanto uma sociedade justa é uma sociedade em que a justiça é de facto uma realidade sempre em aberto ao permitir que a dissimulação se torne visível e o seu combate um garante do Estado que aguardamos, afinal.

 

Como não recordar Marcel Gauchet

A tomada autêntica do poder pela sua verdade pode prevenir os totalitarismos. Atente-se.

 

E acrescento como um dia li: «se não descuidarmos que os partidos políticos agem hoje como se fossem um para além da sociedade.»

 

E ontem escutei e vi num canal de televisão a explicação dos tornados, e nada me pareceu apatia, obediência, conformismo naquele estreito funil e ainda assim.

 

Nós.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Não existem dívidas Miguel. O tempo nunca desgastará aquela idade em que se não é pequeno nem grande, talvez majestosamente médios, sem propensões para romances ou peças de teatro. No entanto tudo arrebatador era, foi, em tentações que não macularam espíritos.

 

Não existiam dívidas Miguel. Nem mesmo quando os sobressaltos se avizinhavam e um de entre o nosso grupo nos acudia, ou quando a melancolia se agarrava a nós sem se explicar ao que vinha e depois ver-te, bastava, e saltávamos à corda a um ritmo de almas gémeas afinadas.

 

Não existiam dívidas Miguel. Por muito que não conseguisse imaginar nenhuma tempestade tão paralisante quanto a tua ausência na sala de aula. Sabia que te tinham colocado de castigo atrás de uma porta do fundo corredor da escola, e eu logo esquecia a tabuada toda. Titubeava que três vezes cinco era onde estava o Miguel e lá ia eu, muito ufana de merecer o castigo, e de ele me proporcionar a tua companhia e a do meu querido irmão que também já lá estava há mais tempo do que tu, e eu, sem saber, tinha cantarolado de manhã uma tabuada certa.

 

Não existiam dívidas Miguel. Ou antes o que existiu foi a ausência de se prender o indivíduo que nos recitava rimas que na verdade não rimavam, sendo essa atitude cruel. Era o professor de português que se permitia de quando em vez uma soneca enquanto nos deixava a pensar na razão das palmatórias tanto se afeiçoarem às nossas mãos.

 

Pela parte que me tocava, aquela régua a estalar-me na mão era o diabo à solta, mas enfim, eu tinha feito por isso para poder ir para perto de ti e do meu irmão. Enfrentava o diabo com tolerância, como por vezes hoje aceito má poesia escrita por bons poetas. Depois enquanto ali estávamos os três de castigo de cabeça para o canto da parede, íamos juntando mentalmente os tostões de todos para sabermos se dava para um furo na caixa dos chocolates Regina que faríamos depois do castigo terminar.

 

Sempre um de nós tinha mais uns cinco tostões do que o outro, mas o chocolate que saísse em brinde pela cor da bolinha que se aguardava por detrás do plástico da caixa e que traduzia o que nos tocava em sorte, era sempre dividido por igual, tranquilamente, na hora do recreio. Tentávamos mesmo compensar o meu irmão pelo tempo extra que estivera de castigo, dando-lhe mais chocolate do que a proporção dos tostões que dera.

 

Com muito afinco gabávamos sempre excelsamente o sabor do chocolate ou ele não nos tivesse aguardado até depois do castigo.

 

Não existiam dívidas Miguel.

 

Não existem dívidas.

 

Todos os caminhos vão dar a Roma quando o amor é o que faz girar o mundo.

 

Todos os caminhos vão dar à rima do professor das sonecas, ou não soubéssemos hoje que contra essa rima, deve ser interpretada uma grande parte da nossa vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

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Na Véspera

 

Na véspera houve sempre esperança. Referimo-nos à esperança que ri dos fracassos da vida apoiando-se neles para os superar. Falamos da esperança que se opõe ao nada, aquela que é uma predisposição do espirito a realizar o que se deseja. Essa existiu sempre, ao menos na véspera, queremos crer. E na véspera a esperança quando existe é um mais, e só diminui com o tempo nos anos somados que os dias dão, ou seja com a idade, com os sofrimentos e as desilusões. Mas eis que ao diminuir pelas razões que referimos, ela ascende ao grau de virtude.

 

Assim, na véspera, numa véspera de agarrar de novo a vida, aprendemos a cultivar a esperança, aquela que segundo C. Péguy é uma pequena esperança que não tem ar de nada, nem de sperare ou de espera. Surge então e de véspera também, a necessidade de advertir, sobretudo os jovens, contra a ilusão e a euforia para que a esperança não condicione o êxito do espirito. E de novo na véspera de uma realidade desejada a esperança é, pois, um sonho acordado que se opõe à entropia.

 

A esperança, na véspera temporal de que uma lotaria será ganha, não é virtude, já que para nós a esperança semeia e vai ao fundo da tristeza colher as sementes que transforma. E é a partir daqui que a véspera tem um conteúdo diferente, como impulsionadora da uma esperança que se expõe nas dificuldades, no ser feliz agora, na essência do presente.

 

Contudo, recorde-se, na véspera de Hiroxima, a esperança mudou de natureza, perdeu a espera. De repente todos fomos feitos para uma outra coisa. De repente começamos a desfrutar da incerteza que semeia uma esperança. Lembramo-nos das palavras de Malraux: «o século vinte e um será religioso ou não o será?», acode entre outros G. Bernanos, A liberdade para quê? Sartre e a sua escolha recaída no nada.

 

E de novo, na véspera.

 

Regressados.

 

Cultivar a mola da resistência, do tesouro da precisão, da justiça e da fidelidade, e sobretudo antes ou depois da véspera, chegar à hora precisa e prevista para que não sinta o coração aquele vago mal-estar que tudo mina.

 

E quem sabe, quem sente que no último instante da véspera vai vencer a liberdade? Aquela que faz da esperança não uma realidade dormente, mas uma luz que vai abrir porta à penumbra deste mundo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


 

ANDAMOS ESQUECIDOS DO NOSSO ESQUECIMENTO

 

Tenho para mim que será sempre mais simples sabermos onde estamos do que sabermos quem somos. Por vezes até descortinamos com mais facilidade uma atmosfera sobrenatural em objectos simples e familiares da perceção, e, descuidamos que a razão é o lado mais singelo do homem que mais perto o aproxima de si. E entre o misterioso e o vigilante há um tempo enigma no estar vivo que nos faz esquecer o sentido fundamental do nosso esquecimento. No entanto a intranquilidade permanece nesse estado atorreado sob uma hipotética linha de horizonte.

 

Anteontem um moderno artista da pintura com quem aprecio dialogar, dizia-me que os eruditos, sempre discutiram a hipótese de a arte abolir a moralidade já que esta se trata de mera convenção. Acrescentava mesmo, ser desígnio da arte abolir as convenções. Concluía que o nosso esquecimento atingira o hora a hora que impedia a reflexão de realidades como esta, e que isso muito o intrigava, era mesmo como se as gentes se movessem por entre sonos acordados ou vidas sonolentas, e tudo isto se abatia mesmo sobre os ditos pensadores.

 

Escutei, anui e disse-lhe

Não há que esquecer no que dizes, que as artes modernas, a que nos estamos a referir, têm tantas vezes abolido moralidades sem abolir a convenção. E refiro me mesmo a convenções inofensivas, tímidas que persistem com imensa autoridade. Nos romances modernos, existem vários géneros de mulheres, mas se a primeira coisa que se repara numa mulher descrita no romance for algo do seu aspeto físico, leva, normalmente a uma conclusão diferente do tipo de ser do qual se quer falar, esquecido o escritor do tal esquecimento esquecido, já que, se sempre assim referir uma personagem mulher, leva o leitor a demitir-se de outro caminho de entendimento, mesmo que esse não fosse o objetivo do escritor.

 

A questão fulcral é que um pormenor demasiado grande como o de andarmos esquecidos do nosso esquecimento acaba por proteger as vivas convenções que se mantêm fortes ainda que muitas vezes dissimuladas. E isto acontece na escrita moderna que se considera afastada das convenções, enquanto faz questão de que uma falta de pudor a não incomoda.

 

Uma escritora bem conceituada na nossa praça, um dia concordou que, seria mais fácil que as heroínas tivessem olhos azuis e não negros, pois esta era uma velha convenção que se sedimentou e incorporou o esquecimento de assim não poder ser.

 

Helena de Troia assoma às muralhas depois de se fazer um súbito e majestoso silêncio. Poderia ela usar um chapéu de palha e tentar gritar no meio dos estrondosos resmungos dos troianos?

 

No andar esquecidos do nosso esquecimento, mora um périplo por fazer. Quem perde o entendimento da vida, a ela não regressa mais, se não souber viajar para longe. Melhor dormir de janela aberta para que escutemos a ave-flauta. Partamos então que a saga passada não explica nunca o embarque.

 

Andamos esquecidos do nosso esquecimento também aqui neste tema de reflexão. Mas em tudo há que evitar que a navegação cesse; há que definir a estratégia de navegações futuras por onde a vida não perigue.

 

E continuámos a falar, sem nos resignarmos à renúncia

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA



As linguagens secretas da amizade absorvem intensidades e fidelidades inamovíveis enquanto marcas da adolescência, quando as palavras-passe assentam chãos de rituais de confiança. A puberdade, pelas razões de todos conhecida, é conivente numa sigilosa partilha de segredos que se não estendem à família mais próxima. Entendemos, que na idade adulta, se torna mais insondável o consolidar de uma amizade. Mas, a verdade, é que não somos sonâmbulos se temos um amigo, ainda que a amizade possa trazer a dor mais duradoura, se essa amizade for traída.

 

O coração não se gasta na amizade pois através dela a solidariedade enfrenta processos de batalha que sempre vence. A amizade autêntica exulta por um amigo e por tudo o que ele conquiste. Quando mais antigas as amizades, elas suportam como nenhum sentir a enfermidade que a vida nos pode aportar, os desgostos de perdas irrecuperáveis e tanto, mas tanto nos ajudam a entender os perfumes da morte.

 

Aqui surgem os jardins que olho. Os traços dos corpos sentados nos bancos dos jardins públicos e que por breves gestos expõem a pressão dos vazios. Pergunto-me se terão de falar consigo mesmos se forem, dos dois amigos, aquele que sobrevive aos encontros no jardim. No ocaso o enigma que contém o sentir da amizade é a dádiva que nos intima a confiar no amor da amizade.

 

Começou há muito, o tempo da linguagem secreta da amizade. A idade torna-se agora irrelevante e frutuosamente filosófica. Vai surgir uma liberdade de descoberta que aporta energia ao envelhecer, rivalizando com o tempo das palavras-passe e das cumplicidades tidas por força e por doses de bruteza. Assim vai surgir amadurecida a compreensão desinteressada, ou antes aquilo que nos torna enfim inteligentes na generosidade que só o coração tem, quando lhe não foi necessário o rosário das reconciliações que impediram de um modo ou de outro a tranquilidade dos dias.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Portugal e a Primavera

 

Se alguma casa se inicia pelo teto é a das estações do ano, agora, a da primavera. Chega um céu azul de oiro e as árvores e as flores e os cheiros ganham uma urgência própria. É o princípio da realidade com outras verdades, chegam e fazem de todos nós, portugueses e estrangeiros, alunos de primeira vez.

 

Portugal cobiçado por estas rotas que abre porta ao verão, faz-se país de destino fingidamente surpreendido pelas múltiplas explanadas que despontaram no tempo certo e onde o sol, ele mesmo, é sempre uma alegria que se junta à conversa. Às vezes a primavera não chega a horas. Dá-se por distraída a perscrutar o mistério do tempo. Portugal, então, oferece-lhe um relógio com corda de filósofo e não é que felicidade e liberdade deixam de se sonhar? É no fundo um momento fantasista em que os poetas daqui se impulsionam, não obstante não perderem a claridade de todos os sentires.

 

Escrevem então que Portugal também gosta de se fazer chegar atrasado, várias vezes, que mais não seja, cinco minutos, apenas para o miradouro do seu espaço geográfico lhe dizer: oh! eu! Não estarei já na eternidade?

 

Portugal responde-lhe: sinto do lado do coração um atraso e uma pressa, uma espécie de vontade de ser adiantário por perceção que tenho do tempo, e retardatário para que em soma de esforços ofereça o melhor.

 

Um dia a avó disse-me que Portugal acordava de noite por bem conhecer todo o tempo decorrido desde que nascera e precisar dos pedaços da noite para melhor representar o futuro pelas manhãs.

 

Portugal trabalha tanto quanto a primavera, perguntei? E também se rega Portugal?, acresci.

 

Neta minha, se todos o regarem como fazes com o teu vaso, ele ousa tornar-se o que é e a resistência e o jogo das estações, tudo junto com a incerteza, semearão a esperança! Sim, sei que já dormes, por isso posso acrescentar que desse modo a ciência vai juntar-se à metafisica e tudo se passa como se fossemos feitos para outra coisa.

 

A primavera essa permanecerá um mistério absoluto. Portugal, um arrepio de amendoeira em flor, do lado das coisas melhores

 

Teresa Bracinha Vieira