Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA


Lion: cresceu no seio do amor maior e
dele fez caminho até ao deslumbramento

  

Saroo com as duas mães

 


Só as crianças adotadas são felizes … para sorte delas, a maioria é adotada pelos pais biológicos”.   

Laborinho Lúcio

 

E a receita começa assim:

 

1º Engravide-se do coração incondicionalmente.

 

Gostávamos de ver este filme “Lion” na perspetiva da comunicação do amor, do amor de pais e filhos para sempre. Do amor que não resulta de um processo biológico de conceção em que amar é o natural desejo, mas sim, como um dia li que uma nordestina citou

 

“tu coube tão direitinho dentro do meu coração, que talvez tu não tenha formato de gente, mas de amor.”

 

Adotar implica também adotar um passado da criança, uma história e o seu sofrimento sem que dela tenhamos feito parte. Implica oferecer o velejar do que connosco se passou, quantas vezes, rumo a ilhas inexistentes. Implica o mistério do nunca abandono.

 

Os filhos adotados têm de se sentir inequivocamente solares para quem os ama.

 

 

Estes meninos supostamente de ninguém são o nosso tudo e devem dele ter consciência para que a entrega se faça sem medo de se perderem de novo.

 

Todos nós deveríamos ter noção do que significa escolher ser pai ou ser mãe de alguém que muito deseja ser filho. Também por esta razão, a adoção não tem lugar para preencher vazios. Veja-se que neste filme os pais que decidiram adotar podiam ter tido filhos biológicos sem restrições, e a eles renunciaram por um amor maior.

 

Curiosamente, não escapa a frase que menciona, o quanto se apaixonaram um pelo outro, este casal que decidiu não ter filhos biológicos, exatamente porque essa decisão entre eles gerou paixão, sonho aguardado, e fez crescer o amor que souberam transferir na adoção sem nunca se perderem da razão primeira.

 

A adoção não depende da gestação mas da vontade e da disponibilidade para se ser pai e filho e mãe eternamente. Quem ama não desiste. Quem ama, cuida. E filiar é desejar um filho, reconhecendo-o.

 

Uma família é, digo-o, se dentro dela a soubermos pensar, a soubermos fecundar. E nunca bastará a justificação de se tratar de uma família biológica, para assim ser ou não, ou esta não fosse muitas vezes a que tolera o que não deve, e também cria filhos, usando próteses de chantagens camufladas, nunca detetadas por se imputar à natureza dos pais ditos verdadeiros, e tanto basta.

 

E de ver-te meu filho amado entendo-te na minha semelhança. Assim o sinto. Que me seja permitido descobrir o que de mim saí para procurar. E que tu e teu outro que em ti habita persiga o lugar a que te destinas no teu sentido de viver, no teu saber de tão longo caminhar.

 

E encontraram-se as mães, a biológica e a outra. E no meio do abraço de ambas, disputava-lhes o filho a atenção.

 

E tudo sem perguntas fundamentais.

 

Todos os sítios e os indícios, enfim juntos.

 

Aquele contacto extremo era uma toalha liquida de lágrimas tal qual o amor que se estende na mesa e se partilha desvanecido ali no vértice mesmo do Ser. E casa são tijolos e lar são princípios.

 

Lion: cresceu no seio do amor maior e dele fez caminho até ao deslumbramento

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Eram 7h da manhã. A casa iniciava o seu movimento de rotina. Era preciso levantar os meninos da cama, dar-lhes banho, vesti-los, dar-lhes o pequeno-almoço, e entregá-los à empregada que vinha numa carrinha do colégio buscá-los para mais um dia de escola.

 

A cadela, a Laica, movia-se inquieta, bem sabia que era o início de um dia sem brincar. Teria de aguardar por um logo à tarde.

 

Mas antes

Ó mãe chega para lá, deixa-me deitar um bocadinho no teu quentinho.

 

E a mãe movia-se na enorme cama para o lugar onde o pai dos meninos saíra há pouco para se arranjar antes de seguir para o trabalho, e o Pedro saltava para o lugar do tal quentinho que era mundo por inteiro. Chegava por fim ao lugar que fazia sentido. Enrolava-se no próprio corpo e chegava-lhe à memória a ideia de, naquele momento, chamar pelo bosque que lhe metia medo e enfrentá-lo agora. Enfrentar os cardos e os fantasmas, as asas do gavião, os relâmpagos, os precipícios, a terrível casa do velho conde, ou o frio indizível que qualquer medo dava.

 

Pedro, filho, já passaram cinco minutos, vá, vá arranjar-se. Dizia a mãe em voz segura.

 

O Pedro levantava-se a protestar sozinho. Nem dera tempo de enfrentar o bosque com aquela arma fortíssima: o forte berço da mãe nele. Pensava na chuva e na distância até ao colégio. Pensava que não poderia dizer a ninguém o quanto aquele quentinho lhe era indispensável para abafar os medos dos olhos e do coração. Mas não podia dizer. Esperavam dele uma coragem que não explicava nem entendia.

 

Agora sentia o vento dentro de casa. Na sala, no corredor, no quarto. Um vento que o expulsava até ao colégio, lugar onde chegaria, por fim e não era o seu lugar, mas lá iria chegar. Cabia-lhe não mostrar tristeza, esperar que as 16h, tempo de retorno a casa, chegassem depressa. Entretanto a cal da sala de aula, as grandes gretas das casas de banho habitadas por lamentos dos meninos a quem os vigilantes mandavam que se despachassem.

 

E dois vezes três, seis e quatro vezes três doze, três, e a prova real definiria se a conta permanecia nas suas mãos ou se seguiria ao cuidado dos seus pais com um muito bom que nunca deixasse sequer intuir o quanto, se estivesse certa a conta, era porque o resultado chegara veloz, daquele quentinho de cinco minutos quando às sete da manhã, uma inesquecível campainha lhe dava a coragem de crescer num mundo onde até o soluçar de uma pálpebra azul, era saudade daquele amor da manhã, antes da estrada que se infiltrava no seu carrinho de ferro e entrava gemido e saia música.

 

E o Pedro a olhar pelas janelas da carrinha que o levavam de retorno a casa já só pensava na sua irmã pequenina e que no ano seguinte seria transferida de colégio e seguiria com ele na carrinha para a escola. Juntos. Então, com a força de irmão mais velho, ensinar-lhe-ia o truque para não ter medo das manhãs de inverno. Contar-lhe-ia como se conseguia chegar ao local do quentinho e dele sair com as contas de somar concluídas.

 

A avó esperava-o à entrada de casa com o olhar de quem o busca e não o perde.

 

Pedro fechava os olhos e encostava-se ébrio a tanta doçura. Perguntava pela irmã e pela Laica e corria como só correm os ímanes do coração.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A ausência de sentido

 

Afirma-se que o surgimento da palavra pós-verdade foi "alimentada pela ascensão das redes sociais como fonte de informação e a crescente desconfiança face aos factos apresentados pelo poder estabelecido". Os editores dos dicionários explicam mesmo que o prefixo “pós” não é utilizado exclusivamente para que se infira um acontecimento posterior, mas também para salientar a irrelevância de um conceito. Post-truth foi, como se sabe, um termo escolhido como palavra em 2016 e acolhido pelos dicionários de Oxford num contexto de certas realidades politicas como o BREXIT ou a eleição de Trump.

 

Por mim gostaria de o abordar como uma ausência de sentido premeditada ou como uma impureza macabra dos ventos do mundo.

 

Sempre me atemorizou que as redes da ilegalidade se misturassem com as da legalidade numa tal amalgama que a confusão saísse sempre vencedora nata de um qualquer juízo expresso numa pseudo claridade. Curiosamente, um diagnóstico falho na reflexão, e, se não detetado, é boa fonte para medrar uma mentira assente numa ausência de sentido, tão elaborada quanto conseguida, para que se prove o oposto de uma realidade. A aparente legitimidade da verdade impura e absurda, quantas vezes, ganha “sentido” face à credibilidade de quem utiliza essa informação deformada, passando-a, e sabendo que quem a recebe, a ela adere sem a questionar. Eis uma parte do êxito.

 

Num destes dias, li um conto de um escritor conhecido, que adormecera por sete dias seguidos à sombra do próprio livro que lia. Que ausência de sentido! Que absurdo mesmo! Contudo, a explicação surgiu mais adiante e mais explicita: e acrescentou o escritor no conto

«Não pudera eu saber quantos dias foram, nem imaginar qual a dimensão que deveria ter o livro para se prestar a regalar-me a sombra de que necessitava. Ainda assim, o livro diga-se, embotava o pensamento, era um conto mole, aquele que lia, e que me fez ensonar como nos tempos em que adormecer com um livro mau, era sinal de inteligência tal, que, sete dias a não o ler significava claridade na decisão de o repudiar.»

 

Assim fazia sentido o que se passara. Podemos finalmente escolher os impactos do que se escuta ou lê e comparar com a realidade que nos oferecem e sua interpretação do acontecer. Ora todo este manejar da ausência de sentido é aceite pelo fascínio do poder ser, um poder ser premeditado, impureza macabra dos ventos do mundo, tal como já expressei, mas tempos vitoriosos ao terrorismo da vida que também assume funções pela palavra dita, escrita, comentada, transmitida, vilipendiada, sem poder cara-a-cara afirmar o quanto é preciso fazer um longuíssimo percurso a partir de baixo e não queimar etapas para que se não queimem as gerações inteiras.

 

Estaremos já no depois da pós-verdade? Na permissão do antes da ausência de sentido? Em rigor, presenciamos a morte sem nos anularmos nem nos tornarmos filósofos. Preferimos ignorar que com uma morte se perde um universo inteiro, afim do nosso, e esse facto quanto muito nos intriga. Escravos do tempo presente: somos. Expostos à violência de todas as partes: estamos.

 

Avalia-nos um médico para que se decida o que fazer e nunca ouvi falar de um remédio que evitasse o desconjuntamento do horizonte, e o que se desenha não é o fim da guerra.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  Contributo a uma Consciência da Modernidade

 

 

Não se descuida que um dos crimes do quotidiano chegou até onde o ruído fascina os jovens que vivem na algazarra por tão temerosos que são do silêncio.

 

São apenas vozes o que se ouve. São vozes em plena desestabilidade de discurso. Vozeirais de hipocrisia do está tudo bem se me perguntam, e que não teriam chegado a tanto impacto destrutivo de si mesmos e do que os rodeia, se tivéssemos tomado a peito o destino da humanidade que ama a humanidade, e se eles não se tivessem recusado a se aperfeiçoarem, a não serem apenas pedregulhos de um jogo de pseudo ideias batoteiras.

 

Prefiro mesmo dizer que este cataclismo tremendo que continua a ameaçar matar o cerne do mundo que é mundo, não é privativo da maioria dos jovens, mas sim das gentes medíocres no geral, meros espectadores miméticos das televisões, cubatas ambulantes de vírus no sangue das mães que matam os filhos de muitos modos, de pais que se abstêm de educar e que se escondem por detrás de qualquer coisa, seja de um medo que se não explica, ou até de um mando corrupto ou vazio de limitações.

 

E recordemos que os gregos já choravam quando Medeia matava os seus filhos só para desgostar o marido. Este último motivo é sustento bastante à hipócrita decisão de quem se finge de mártir, agindo, utilizando os que manipula em seu proveito para que a vingança se concretize e prostitua as opiniões de quem vê, escuta e atua, sem escrúpulos de praticar uma qualquer reles injustiça dentro do que poderá ser o seu pensar, e o seu eventual direito a julgar.

 

Quem é atento aos telejornais, bem conhece os afetos assassinos tidos por estatisticamente normais e consolidados. Mas as cotações da bolsa continuam como primeira notícia e as prudentes indiscrições do que ataca a alma no nosso dia-a-dia, só chega depois de umas tantas cabeças terem sido decepadas, realidade tão horrível que abafará a importância das tais algazarras de ruídos temerosos do silêncio que são meio de vida das gentes que sustenta a pseudo decisão dos que praticam o julgamento leviano e sujo dos tempos que vivemos.

 

Tudo isto se atrela às ruturas dos caminhos da perceção humana e, como tal, impede as áreas do conhecimento, das proposições filosóficas, das conexões entre palavra e mundo cujas repercussões afetam necessariamente a própria consciência da modernidade.

 

Steiner já muito escreveu sobre o desafio do homem entender que a poesia é o mais rigoroso dos pensamentos, sobretudo por ser um caminho, e um caminho que faz descobrir o poder da literatura que consolida o homem, que o compromete a ouvir e a refletir, muletas que o impediriam do empobrecimento irreparável da capacidade do intelecto.

 

Mas como falar de poesia se a publicidade a um Jaguar tanto desperta o espectador abastado de sentimentos de frustração?

 

Como falar dos eventuais pensamentos do homem-sanduíche que pensa na verdade manipulando os infinitos canais de televisão?

 

O que interessa é a identificação de um produto e a sua consequente aquisição sugestionada pelo personagem feliz que garante o êxito desse mesmo produto e se suicida a seguir por perder um par de botas do seu grupo de futebol. E já nem se creia no público mas antes na testemunha do produto.

 

Conheci alguém que me disse ter ido a uma festa a casa de uma amiga que tinha lá 62 pessoas amigas! Fantástico! Uma verdadeira assembleia de fé! Uma algazarra em êxtase numa cerimónia fundamentalista que admite à experiência anti-darwiniana quem lutar pela sociedade em que o ensino seja um conhecimento banido.

 

Afinal o botox é uma algazarra que muito fascina. O botox é o produto das “ideias” que vivem do muito medo do tempo da vida que passa: relíquia de um vício que aqui e além faz crer quem não crê, tal é a confusão de quem entende qualquer coisa.

Eis. 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O’NEILL: UMA NOSSA TRAVESSIA

 

A beleza e o músculo dos seus poemas sempre me deixaram claro que o importante é viver na padaria da aldeia de cada um. E regar os gladíolos, e vestirmo-nos com traje de humor e em coração, a luta e a colcha que nos cobre os dias.


Ainda hoje leio o grande Alexandre O’Neill com a surpresa que me deixa sempre. A sua prosa, também marcada pelas influências surrealistas - ou não tivesse O’Neill sido um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, José-Augusto França entre outros, tendo tido lugar as primeiras reuniões deste grupo na conhecida pastelaria Mexicana – utilizava um jogo de palavras lúdico e único e também se caracterizava por uma intensa sátira aos portugueses tão clara na expressão "meu remorso, meu remorso de todos nós".

 

O’Neill não conseguindo viver apenas da sua arte, chegou-se até ao campo da publicidade e é da sua autoria o lema

 

«Há mar e mar, há ir e voltar» ou, da campanha desse Verão «Passe um Verão desafogado».


Alçada que tanto admirava Alexandre O’Neill e que sempre foi seu grande amigo, relatou-me que um dia tinha perguntado ao O’Neill, qual seria a razão do bom entendimento deles, ao que Alexandre teria respondido, dizendo de imediato “A gente dá-se bem porque não se leva a sério”.

 

António Alçada considerava-se neste grupo de amigos, um crente entre os ateus e uma vez, num táxi, seguia O’Neill com José Cutileiro e disseram adeus ao António Alçada quando por acaso o avistaram. E o Alexandre terá dito para o José Cutileiro: “O António ficou a pensar: lá vão aqueles para o ateísmo”.

 

Um dia o António escrevia a sua crónica para a revista Máxima quando me disse: “Sabes que o José Cutileiro tinha bons versos? Recordo aquele “De si me sirvo amor como de tudo” e, como o declamou ao lado do Alexandre, este, fez-lhe o reparo

 

Falta aí uma vírgula. De si me sirvo, amor, vírgula, como de tudo.

 

Alexandre O’Neill sempre com humor era um prazer ouvi-lo, uma verdadeira fonte de achados linguísticos, assim me transmitiu o António Alçada num dos múltiplos dias em que do Alexandre me falou.

 

E tendo acordado naquele Domingo com um poema do Alexandre na memória, o António telefonou-me e lá fomos almoçar ao restaurante em Sintra. A verdade, é que a dada altura, subíamos a Serra de Sintra na 4L do António, enquanto eu lia em alta voz um poema do O’Neill que começava

 

Congresso de gaivotas neste céu

Como uma tampa azul cobrindo o Tejo

 

- Ó António!, gritei-lhe, olha que não estamos a subir. O carro não sobe?

- Olha Teresinha senti o mesmo, mas não queria interromper o poema.

- Ó António, não estás a ver que trazemos o caixote do lixo agarrado ao para-choques?

E continuei

Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.

 

E o Alçada olhou-me e comovidamente disse-me:


Ó Teresa ainda bem que não paraste a leitura do poema do O’Neill. Foi a melhor homenagem que lhe fizeste: o caixote do lixo pode perfeitamente querer ouvir o poema de um beijo.

 


Teresa Bracinha Vieira

 

OBS: Há seis anos atrás este maço de palavras foi publicado no Blogue do CNC. Quando o escrevi achei-me num eixo de orações a galope na saudade. Reli-o hoje, e no avesso do ido encontrei o que sempre será.

CRÓNICA DA CULTURA – O INÍCIO…

 

E quase gritava o convidado da conferência a que assisti há alguns (poucos) anos:

Quem não está no Facebook não existe! Definitivamente ainda não começou a ser nada neste novo mundo onde todos nós nos conhecemos para felicidade nossa. Evoluir é isto. O Twitter também faz parte intrínseca e indispensável do nosso percurso.

(e por aí adiante, continuou)

 

Ora bem. Eu não estou no Twitter, nem no Facebook; nem penso que se estivesse em ambos ou num só, estaria ergo sum. Sei que há quem entenda poder julgar-me pelo que acabo de dizer, contudo eu não os julgo, nem mudo nada por assim ser, nem me atormento por esse facto.

 

Vivem-se tempos – fora e dentro do Twitter, do Facebook ou de outras “novidades” similares -  em que a maioria diz uma coisa e seu contrário, e, nem mesmo assim, tudo junto, exprime uma minúscula ideia que seja. Cada vez mais, tudo se consome logo ali, na tagarelice que muito leva a que se vote por opiniões expressas por outro, tendo chegado a este outro por vias de um éter com força de ordem e ADN desconhecido.

 

E esta realidade leva-me a pensar na privacidade; num universo oposto ao Big Brother. Uma privacidade enquanto “local” onde se gera um raciocínio tranquilo, pesando pós e contras, oposto à chamada sociedade liquida sem pontos de referência e na qual o projeto é fazer-se ver.

 

Deixou de existir a ideia -  que entendemos necessária - de que exista uma construção higiénica do pensar. Nela haverá sempre rebelião, transgressão, equilíbrio, inocência primordial, enfim tudo o que caracteriza a circunstância humana e que é meio de gerar uma possibilidade.

 

Li em Zygmunt Bauman, que nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos são cada vez menos frequentes e menos duradouras. O amor é mero acumular de experiências e o sentido da união foi empalado pela insegurança e vai surgindo a «sociedade confessional» como sendo a que que promove a exposição pública dos espiões e dos espiados, conduzindo a que todos se identifiquem por uma soma, que, resultará num número que faz parte do conhecimento inútil, recordando aqui Jean François Revel. Esta a sociedade que afinal o conferencista que ouvi, entendia por quase-perfeita.

 

É assim, a vírgula passou a adenda e o ponto de interrogação perdeu a razão de oxigenar. As acrobacias são miméticas e o meu rio, esse, no seu modo, insiste e vai até ao mar conhecer o seu início.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2017