Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

crónica.jpg

 

Na Véspera

 

Na véspera houve sempre esperança. Referimo-nos à esperança que ri dos fracassos da vida apoiando-se neles para os superar. Falamos da esperança que se opõe ao nada, aquela que é uma predisposição do espirito a realizar o que se deseja. Essa existiu sempre, ao menos na véspera, queremos crer. E na véspera a esperança quando existe é um mais, e só diminui com o tempo nos anos somados que os dias dão, ou seja com a idade, com os sofrimentos e as desilusões. Mas eis que ao diminuir pelas razões que referimos, ela ascende ao grau de virtude.

 

Assim, na véspera, numa véspera de agarrar de novo a vida, aprendemos a cultivar a esperança, aquela que segundo C. Péguy é uma pequena esperança que não tem ar de nada, nem de sperare ou de espera. Surge então e de véspera também, a necessidade de advertir, sobretudo os jovens, contra a ilusão e a euforia para que a esperança não condicione o êxito do espirito. E de novo na véspera de uma realidade desejada a esperança é, pois, um sonho acordado que se opõe à entropia.

 

A esperança, na véspera temporal de que uma lotaria será ganha, não é virtude, já que para nós a esperança semeia e vai ao fundo da tristeza colher as sementes que transforma. E é a partir daqui que a véspera tem um conteúdo diferente, como impulsionadora da uma esperança que se expõe nas dificuldades, no ser feliz agora, na essência do presente.

 

Contudo, recorde-se, na véspera de Hiroxima, a esperança mudou de natureza, perdeu a espera. De repente todos fomos feitos para uma outra coisa. De repente começamos a desfrutar da incerteza que semeia uma esperança. Lembramo-nos das palavras de Malraux: «o século vinte e um será religioso ou não o será?», acode entre outros G. Bernanos, A liberdade para quê? Sartre e a sua escolha recaída no nada.

 

E de novo, na véspera.

 

Regressados.

 

Cultivar a mola da resistência, do tesouro da precisão, da justiça e da fidelidade, e sobretudo antes ou depois da véspera, chegar à hora precisa e prevista para que não sinta o coração aquele vago mal-estar que tudo mina.

 

E quem sabe, quem sente que no último instante da véspera vai vencer a liberdade? Aquela que faz da esperança não uma realidade dormente, mas uma luz que vai abrir porta à penumbra deste mundo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


 

ANDAMOS ESQUECIDOS DO NOSSO ESQUECIMENTO

 

Tenho para mim que será sempre mais simples sabermos onde estamos do que sabermos quem somos. Por vezes até descortinamos com mais facilidade uma atmosfera sobrenatural em objectos simples e familiares da perceção, e, descuidamos que a razão é o lado mais singelo do homem que mais perto o aproxima de si. E entre o misterioso e o vigilante há um tempo enigma no estar vivo que nos faz esquecer o sentido fundamental do nosso esquecimento. No entanto a intranquilidade permanece nesse estado atorreado sob uma hipotética linha de horizonte.

 

Anteontem um moderno artista da pintura com quem aprecio dialogar, dizia-me que os eruditos, sempre discutiram a hipótese de a arte abolir a moralidade já que esta se trata de mera convenção. Acrescentava mesmo, ser desígnio da arte abolir as convenções. Concluía que o nosso esquecimento atingira o hora a hora que impedia a reflexão de realidades como esta, e que isso muito o intrigava, era mesmo como se as gentes se movessem por entre sonos acordados ou vidas sonolentas, e tudo isto se abatia mesmo sobre os ditos pensadores.

 

Escutei, anui e disse-lhe

Não há que esquecer no que dizes, que as artes modernas, a que nos estamos a referir, têm tantas vezes abolido moralidades sem abolir a convenção. E refiro me mesmo a convenções inofensivas, tímidas que persistem com imensa autoridade. Nos romances modernos, existem vários géneros de mulheres, mas se a primeira coisa que se repara numa mulher descrita no romance for algo do seu aspeto físico, leva, normalmente a uma conclusão diferente do tipo de ser do qual se quer falar, esquecido o escritor do tal esquecimento esquecido, já que, se sempre assim referir uma personagem mulher, leva o leitor a demitir-se de outro caminho de entendimento, mesmo que esse não fosse o objetivo do escritor.

 

A questão fulcral é que um pormenor demasiado grande como o de andarmos esquecidos do nosso esquecimento acaba por proteger as vivas convenções que se mantêm fortes ainda que muitas vezes dissimuladas. E isto acontece na escrita moderna que se considera afastada das convenções, enquanto faz questão de que uma falta de pudor a não incomoda.

 

Uma escritora bem conceituada na nossa praça, um dia concordou que, seria mais fácil que as heroínas tivessem olhos azuis e não negros, pois esta era uma velha convenção que se sedimentou e incorporou o esquecimento de assim não poder ser.

 

Helena de Troia assoma às muralhas depois de se fazer um súbito e majestoso silêncio. Poderia ela usar um chapéu de palha e tentar gritar no meio dos estrondosos resmungos dos troianos?

 

No andar esquecidos do nosso esquecimento, mora um périplo por fazer. Quem perde o entendimento da vida, a ela não regressa mais, se não souber viajar para longe. Melhor dormir de janela aberta para que escutemos a ave-flauta. Partamos então que a saga passada não explica nunca o embarque.

 

Andamos esquecidos do nosso esquecimento também aqui neste tema de reflexão. Mas em tudo há que evitar que a navegação cesse; há que definir a estratégia de navegações futuras por onde a vida não perigue.

 

E continuámos a falar, sem nos resignarmos à renúncia

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA



As linguagens secretas da amizade absorvem intensidades e fidelidades inamovíveis enquanto marcas da adolescência, quando as palavras-passe assentam chãos de rituais de confiança. A puberdade, pelas razões de todos conhecida, é conivente numa sigilosa partilha de segredos que se não estendem à família mais próxima. Entendemos, que na idade adulta, se torna mais insondável o consolidar de uma amizade. Mas, a verdade, é que não somos sonâmbulos se temos um amigo, ainda que a amizade possa trazer a dor mais duradoura, se essa amizade for traída.

 

O coração não se gasta na amizade pois através dela a solidariedade enfrenta processos de batalha que sempre vence. A amizade autêntica exulta por um amigo e por tudo o que ele conquiste. Quando mais antigas as amizades, elas suportam como nenhum sentir a enfermidade que a vida nos pode aportar, os desgostos de perdas irrecuperáveis e tanto, mas tanto nos ajudam a entender os perfumes da morte.

 

Aqui surgem os jardins que olho. Os traços dos corpos sentados nos bancos dos jardins públicos e que por breves gestos expõem a pressão dos vazios. Pergunto-me se terão de falar consigo mesmos se forem, dos dois amigos, aquele que sobrevive aos encontros no jardim. No ocaso o enigma que contém o sentir da amizade é a dádiva que nos intima a confiar no amor da amizade.

 

Começou há muito, o tempo da linguagem secreta da amizade. A idade torna-se agora irrelevante e frutuosamente filosófica. Vai surgir uma liberdade de descoberta que aporta energia ao envelhecer, rivalizando com o tempo das palavras-passe e das cumplicidades tidas por força e por doses de bruteza. Assim vai surgir amadurecida a compreensão desinteressada, ou antes aquilo que nos torna enfim inteligentes na generosidade que só o coração tem, quando lhe não foi necessário o rosário das reconciliações que impediram de um modo ou de outro a tranquilidade dos dias.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Portugal e a Primavera

 

Se alguma casa se inicia pelo teto é a das estações do ano, agora, a da primavera. Chega um céu azul de oiro e as árvores e as flores e os cheiros ganham uma urgência própria. É o princípio da realidade com outras verdades, chegam e fazem de todos nós, portugueses e estrangeiros, alunos de primeira vez.

 

Portugal cobiçado por estas rotas que abre porta ao verão, faz-se país de destino fingidamente surpreendido pelas múltiplas explanadas que despontaram no tempo certo e onde o sol, ele mesmo, é sempre uma alegria que se junta à conversa. Às vezes a primavera não chega a horas. Dá-se por distraída a perscrutar o mistério do tempo. Portugal, então, oferece-lhe um relógio com corda de filósofo e não é que felicidade e liberdade deixam de se sonhar? É no fundo um momento fantasista em que os poetas daqui se impulsionam, não obstante não perderem a claridade de todos os sentires.

 

Escrevem então que Portugal também gosta de se fazer chegar atrasado, várias vezes, que mais não seja, cinco minutos, apenas para o miradouro do seu espaço geográfico lhe dizer: oh! eu! Não estarei já na eternidade?

 

Portugal responde-lhe: sinto do lado do coração um atraso e uma pressa, uma espécie de vontade de ser adiantário por perceção que tenho do tempo, e retardatário para que em soma de esforços ofereça o melhor.

 

Um dia a avó disse-me que Portugal acordava de noite por bem conhecer todo o tempo decorrido desde que nascera e precisar dos pedaços da noite para melhor representar o futuro pelas manhãs.

 

Portugal trabalha tanto quanto a primavera, perguntei? E também se rega Portugal?, acresci.

 

Neta minha, se todos o regarem como fazes com o teu vaso, ele ousa tornar-se o que é e a resistência e o jogo das estações, tudo junto com a incerteza, semearão a esperança! Sim, sei que já dormes, por isso posso acrescentar que desse modo a ciência vai juntar-se à metafisica e tudo se passa como se fossemos feitos para outra coisa.

 

A primavera essa permanecerá um mistério absoluto. Portugal, um arrepio de amendoeira em flor, do lado das coisas melhores

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da inevitabilidade

 

Olhei para os bancos da cozinha todos juntinhos debaixo da mesa que os acolhia num abraço de sossego. Cada um estava pintado da sua cor: azul, verde, vermelho, rosa forte, amarelo-canário e branco. Nos topos da mesa as cadeiras dos pais e ao lado direito destas as dos avós. Aquela imagem surgia-me como a de um mundo melhor, um mundo no qual os espantos se trocavam à hora de almoço e se sufruíam em simultâneo no auge da vida fosse qual fosse a idade. Constatavam os mais velhos e diziam-no, que haveria sempre um quase morto que agradecia a Deus a criação da vida naquele momento, e nós, em franca alegria trocávamos as terrinas da sopa e as travessas da apetitosa comida da Julieta, e, atrevidos, olhando-nos uns para ou outros, lançávamos no ar naquele dia.

 

Então mas o quase morto não poderá antes dizer qualquer coisa do querer ir e do modo de ir ou da vontade de ficar? Não tem alternativa?

 

E continuávamos a falar inconscientes da pergunta. Também o éramos em relação ao tornarmo-nos adultos. Para nós, os dos bancos, a zona estimulante, propicia, romântica e realista era o facto de cada um de nós ter um banco com sua cor. Era o mesmo que nos sabermos pertencidos a algo pelo medo da possibilidade de se perder esse algo: o banco e a cor.

 

Naquele dia, que tão bem vejo daqui, a Maria levantou a lousa onde escrevera a giz azul.

 

Quem daqui sabe escrever sobre coisa nenhuma?

 

Respondeu o Zé, o mais velho de nós todos

 

Vocês sabem o que é a inevitabilidade? De certeza que não. Eu também não sei, escutei ontem a palavra ao tio Jorge, mas vou dissertar no meu caderno sobre ela e isso é escrever sobre coisa nenhuma.

 

Grita a Luísa

 

Olha, olha, isso é que não é, isso é porque és parvo e não sabes das coisas

A Alice, olhando para a mãe acrescentou

 

Mas eu não sei nadar e ontem, na praia, furei ondas e posso sim, escrever sobre o como é estar ali. E não sou parva.

 

Troquem de bancos!, disse a avó, a mais ríspida das duas que amávamos. Tenham juízo, não se insultem se fazem o favor!

 

Ó avó, hoje não, isto estava tão giro, lamuriou o Pedro. Pronto, inevitabilidade é como o que acontece às rodas das bicicletas quando pisam um prego e pronto, temos logo um furo. Mas mudar de bancos é o mesmo que aprender aos saltos sem proteínas e oxigénio. Ó avó, eu até leio Sócrates de novo, mas nestas férias prometeram-nos que cada um estaria no seu banco, sempre.

 

Não percebemos nem bem nem mal o que disse o Pedro, mas era o único que ia entrar para a universidade, e nós aspirávamos ao domínio do banco de cada um.

 

Dali, do ângulo onde estava, voltei a ver e a ouvir tudo muito nítido. Tão nítido que até parecia que por mim não tinha passado uma visão do mundo. Não tinham passado 40 ou 50 anos. Que os bancos não tinham desbotado na sua cor e que a inevitabilidade não me tinha feito perder o Pedro e a Alice, isto só para referir os por entre nós, os dos bancos.

 

Sentei-me a um canto da cozinha e procurei-me num caminho difícil mas possível para a liberdade. Um caminho que passa por muitos embaraços e revoluções de sofrimento e de sinceros esclarecimentos; um caminho que nos recorda que nenhuma palavra foi nossa em relação ao nosso nascimento e que face à inevitabilidade, devemos poder reivindicar autonomias de humanidade essencial que constatem o quanto a cor do banco de cozinha, fora uma escolha e um querer estar nela, em autonomia e dignidade, e sem perfume e luz e musica e tranquilidade não queremos ser.

 

A ajuda a uma hipotética reciclagem é uma devastação inumana que supostamente nos mantém vivos em coisa nenhuma. Vivos e sem bancos de cor. Vivos e sem a prodigalidade mensageira que nos diz que se pode passar a um sono ainda por vir, mas convidado certo à mesa dos bancos de cor que já então eram rumos pioneiros, danações, alquimia e elixir.

 

Teresa Bracinha Vieira

Março 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Tentaremos dar seguimento ao que escrevemos sobre as aulas de Jose Luis Aranguren. Referíamos, na penúltima Crónica da Cultura, que, antes mesmo de sabermos se o saber científico e técnico são o suficiente para a ordenação total da vida, a que estado deveria chegar o nosso raciocínio para provar a insuficiência desta afirmação e descobrir o quanto o conceito daquilo que se entende por «experiência de vida», deverá conquistar-se através dos conceitos filosóficos de prudência e sabedoria, de modo a que só no momento pleno em que saibamos o que é experiência de vida, e que relação ela estabelece com a moral, então poderíamos sim, preguntarmo-nos pelo modo de a adquirir e inclusive pela possibilidade ou não de a conseguirmos transmitir.

 

Entendemos estas questões como sendo do maior interesse para indagarmos qual o cerne que nos espreita da própria experiência de vida e assim determinarmos o seu posto e a sua função na nossa vida, na vida do homem.

 

Na realidade, muitos são os que entendem que a totalidade da vida se organiza a partir da ciência e segundo a ciência, e que mesmo a felicidade pode surgir por uma espécie de human engineering, e mesmo sendo as relações humanas muito complexas, a ciência pode reduzi-las ao princípio mais simples. Ainda que assim fosse, perguntaríamos onde ou como a verdadeira justificação científica pode surgir, se pensarmos em saberes costumeiros de uma vontade que muitas vezes, nem claramente foi identificada? Então estaríamos perante uma utópica ciência, se esta pretende formular uma pretensão de domínio do uso científico da razão sem que se chegue à realidade enquanto tal.

 

Julgamos que se pode responder às perguntas com a ciência, não sabemos, contudo, se neste caso não haverá um abuso da própria ciência?, na verdade é indeterminado e imprevisível o futuro da história ou o futuro pessoal. Não existe um cálculo da história como um cálculo matemático e a razão científica não o é em plena profundidade se o seu raciocínio se fizer desconhecendo os passos de uma experiencia a viver, ou mesmo da experiência vivida em diferentes realidades.

 

Como afirma Xavier Zubiri, a ciência é dirigida para a confirmação das suas hipóteses e a experiência é «algo adquirido en el transcurso real y efectivo de la vida, el haber que el espírito cobra en su comercio efectivo com las coas», em suma no lugar natural da realidade.

 

Enfim, se experiência da vida não é o mesmo que ciência, também não é o mesmo que filosofia, por mais perto que esteja desta, já que a filosofia assenta numa pretensão de um sistema, de um método, ambos afastados da experiência da vida, e a filosofia ainda que possa ser também «uma filosofia da vida», nem sempre o foi, nem tem que o ser primariamente.

 

Veremos se a prudência de que falamos não carece de vários graus de entendimento para ajustarmos as realidades, e tão bem que elas nos são propostas por Aranguren.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Reflexão à verdade

 

A ciência começa com a observação, ou começa quando se não verificam as expectativas que aguardávamos? Como todos sabem, existem variadíssimas opiniões sobre este assunto. Ainda assim se pode dizer que uma teoria que se depara com dificuldades, essa teoria frusta expectativas e levanta problemas para os quais tentamos soluções. Estas soluções, por muito certas que sejam darão azo a novos problemas, a críticas mais engenhosas que as colocarão em causa. Acreditamos que desta forma o nosso conhecimento aumenta à medida que as nossas expectativas são refutadas, à medida que enfrentamos problemas.

 

E que fazer ao que até nós entrou pelos sentidos? Que fazer à nossa tábua rasa preenchida por estes? E que fazer ao que nos chega através de hipóteses ou seja pelo conhecimento hipotético? E como não ter em conta que existe conhecimento inato à partida? Certo é que correções e modificações do conhecimento anterior conduzem ao aumento do conhecimento, tendo por base as expectativas e hipóteses. Todavia, para observarmos temos de ter uma questão concreta em mente que seja resolvida pela própria observação, e aqui, recordo Darwin e o pouco que sei do seu conhecimento imenso, mas lembro que ele escreveu “Como é estranho que alguém não veja que toda a observação deve ser a favor ou contra uma opinião qualquer…”. Assim será que a observação vem depois da expectativa ou da hipótese e os problemas da perceção deveremos remete-los à filosofia ou, mais precisamente à epistemologia?

 

Colocando aqui ainda a base que virá de um problema teórico ou prático, temos sempre de nos familiarizar com ele, fazê-lo suportar soluções inadequadas para as criticarmos, trabalharmos o problema, sabermos das suas ramificações e as suas relações com outros problemas, aprender determinando os erros cometidos.

 

Diga-se que tudo o que tentei dizer esteve ligado ao abordar da verdade, pensamento com o qual iniciei este texto. Ora, bem creio que a poesia não aborda a verdade, mas bem creio que chega mais próximo da verdade que outra qualquer forma de literatura, e esta realidade que afirmo não é desprovida de significado, se porventura não nos esquecermos de a tentar melhorar com o rigor e a exigência da palavra que exprime o sentir que mais corresponda a uma aproximação da verdade.

 

A poesia tem em si uma metodologia sólida que não deve colocar em causa o modelo da transmissão do sentir da realidade apreendida e sempre posta em análise, e só assim pela reflexão de algo anterior que nos surge, chega o aproximar do real conhecimento do poeta em busca do princípio sagrado do dizer.

 

Teresa Bracinha Vieira
 

(1) (v. More Letters of Charles Darwin, organizado por Francis Darwine A. C. Seward Appleton, Nova Iorque, 1903, volume I, p, 195)
(2) (Cf. G. Polya, How to Solve it, Princeton University Press, Princeton, NJ, 1948.

CRÓNICA DA CULTURA

 

A sóbria partilha

 

Aristóteles respondeu:

 

«A coragem proporciona os riscos corridos para o fim procurado. Ela mantém-se no meio justo entre estes dois excessos que são a cobardia e a temeridade» 1.

 

De fato se a temeridade muitas das vezes anda por inúteis riscos, a coragem já deve ter assento numa inteligente reflexão. Estudámos que o herói grego é a coragem liberta do medo da morte e despojada de interesse pessoal. Referimo-nos a uma virtude de fundo guerreiro e de onde a violência que abarca é purificada pelo próprio dom que envolve o sacrifício da coragem. Então a coragem nunca será reflexão pois não se trata de pensar, mas de agir. Diríamos que a reflexão do próprio pensamento pode inibir a coragem já que lhe mostra os perigos. Vamos um passo mais e saltamos ao conceito de heroísmo, e é este, e não a coragem, que implica o desinteresse da vida, já que o herói será aquele que se expõe quando podia abrigar-se.

 

Curiosamente também poderíamos concluir que o herói não é «razoável» já que se esquece do seu instinto mais vital. Então justificamos que há razões de viver que afinal valem mais do que a vida.

 

E há aqui doçura. Há a música nos campos de batalha dos filmes. Há aqui algo mesmo de misticismo, mas que só se revela em extremo mobilizado por uma engrenagem interna que faz despoletar uma espécie de conversão.

 

Contudo, existe heroísmo quando alguém se lança à água para salvar a vida de um desconhecido, e ainda assim, o heroísmo mais puro é o de todos os dias, o de toda uma vida de situações difíceis oferecidas como leves para se não tornarem pesadas aos que nos rodeiam.

 

Abrigamos dentro deste exemplo o recomeço depois do fracasso. É ele o grande segredo da coragem, o grande segredo do desprendimento do verdadeiro herói que sem querer ter perdido ainda exige de si dar lugar a valores superiores; afinal, valores superiores àqueles a que todos nos queremos, de um modo ou de outro, vermo-nos destinados, e por não sermos capazes de ir do tudo ao nada, nunca nos é oferecido esse caminho.

 

E se tudo isto tiver fios à alegria, chegada está a eternidade que nos muda: a sóbria partilha, como vocação.

 

Teresa Bracinha Vieira

1.Aristóteles, Ética a Nicómaco, Garnier , 1965

CRÓNICA DA CULTURA

 

Finitude

 

Ouvi-te dizer

 

Falta-me a força. Leio as missas do meu tempo e assim quisera hoje desafinar dos seus cantares e das suas teias antes que me salte a última fagulha sem me clarificar. Ao longo da minha vida sempre senti o tempo como meu predador insaciável. Ainda assim não o temi devidamente e agora sinto-me numa finitude inquieta e sedentária num idílio que ainda procuro. Não nego.

 

Com ou sem bagagem quero ir e levar-me comigo. Queria deixar claro que não sou um fugitivo, malgrado muitos «continua no próximo episódio do dia». Sei que tudo me sobreviverá e a ampulheta foi contratada para adivinhar a tolerância à última palavra que me dá ou que me recusa.

 

E caio na finitude que tem um “pré”. Esse “pré” é o que me ouve e ele a mim. Esse “pré” sou eu; que desaprova, ri, propõe, inventaria, quase tudo ama e tolera numa compreensão da condição humana que lhe risca as certezas da lista infinda da razão pela qual estou triste. Como outras tantas vezes depois de.

 

E juro-te pela enésima vez, no que respeita à minha finitude, estamos de acordo. Sei, sem equívoco que a mobília se desmobila e arrasta a sempre-viva questão: como será aproximar-me com rigor? Afinal sou eu que me não dou descanso nesta finitude e neste “pré” ou não é que há já anos que este transito dura?

 

Infinitamente, eu sou eu e a minha testemunha que no secreto compartimento me ajuda à voz e te grito

 

Amo-te.

 

Amo-te também nesta atração pela queda ingénua a fim de reconhecer a diversidade e assim me solto, embora ainda não sopre o vento e a finitude se coloque como pergunta penosa.

 

Enfim, um definitivo resumido este. Um ser livre quando um cansaço, uma finitude quase dorme, na renovada folha das horas igual a tudo. Mungido o sonho nesta minha combativa vitalidade, marco passo só para tomar balanço. Afinal.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Lion: cresceu no seio do amor maior e
dele fez caminho até ao deslumbramento

  

Saroo com as duas mães

 


Só as crianças adotadas são felizes … para sorte delas, a maioria é adotada pelos pais biológicos”.   

Laborinho Lúcio

 

E a receita começa assim:

 

1º Engravide-se do coração incondicionalmente.

 

Gostávamos de ver este filme “Lion” na perspetiva da comunicação do amor, do amor de pais e filhos para sempre. Do amor que não resulta de um processo biológico de conceção em que amar é o natural desejo, mas sim, como um dia li que uma nordestina citou

 

“tu coube tão direitinho dentro do meu coração, que talvez tu não tenha formato de gente, mas de amor.”

 

Adotar implica também adotar um passado da criança, uma história e o seu sofrimento sem que dela tenhamos feito parte. Implica oferecer o velejar do que connosco se passou, quantas vezes, rumo a ilhas inexistentes. Implica o mistério do nunca abandono.

 

Os filhos adotados têm de se sentir inequivocamente solares para quem os ama.

 

 

Estes meninos supostamente de ninguém são o nosso tudo e devem dele ter consciência para que a entrega se faça sem medo de se perderem de novo.

 

Todos nós deveríamos ter noção do que significa escolher ser pai ou ser mãe de alguém que muito deseja ser filho. Também por esta razão, a adoção não tem lugar para preencher vazios. Veja-se que neste filme os pais que decidiram adotar podiam ter tido filhos biológicos sem restrições, e a eles renunciaram por um amor maior.

 

Curiosamente, não escapa a frase que menciona, o quanto se apaixonaram um pelo outro, este casal que decidiu não ter filhos biológicos, exatamente porque essa decisão entre eles gerou paixão, sonho aguardado, e fez crescer o amor que souberam transferir na adoção sem nunca se perderem da razão primeira.

 

A adoção não depende da gestação mas da vontade e da disponibilidade para se ser pai e filho e mãe eternamente. Quem ama não desiste. Quem ama, cuida. E filiar é desejar um filho, reconhecendo-o.

 

Uma família é, digo-o, se dentro dela a soubermos pensar, a soubermos fecundar. E nunca bastará a justificação de se tratar de uma família biológica, para assim ser ou não, ou esta não fosse muitas vezes a que tolera o que não deve, e também cria filhos, usando próteses de chantagens camufladas, nunca detetadas por se imputar à natureza dos pais ditos verdadeiros, e tanto basta.

 

E de ver-te meu filho amado entendo-te na minha semelhança. Assim o sinto. Que me seja permitido descobrir o que de mim saí para procurar. E que tu e teu outro que em ti habita persiga o lugar a que te destinas no teu sentido de viver, no teu saber de tão longo caminhar.

 

E encontraram-se as mães, a biológica e a outra. E no meio do abraço de ambas, disputava-lhes o filho a atenção.

 

E tudo sem perguntas fundamentais.

 

Todos os sítios e os indícios, enfim juntos.

 

Aquele contacto extremo era uma toalha liquida de lágrimas tal qual o amor que se estende na mesa e se partilha desvanecido ali no vértice mesmo do Ser. E casa são tijolos e lar são princípios.

 

Lion: cresceu no seio do amor maior e dele fez caminho até ao deslumbramento

 

Teresa Bracinha Vieira