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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

O PODER DA MEDINA

 

Foi quando, movida pela irracionalidade, avancei a correr atrás do homem que vendia punhais. Em segundos olhei para todos os lados e vi todos e ninguém. A pesada porta do silêncio perdido avançava para mim e nem tentei uma entrada precária pela blindada fresta luzidia dos pregos de metal. Fatalmente o poder da Medina seduzia-me e apavorava-me e encarcerava-me. Estava perdida à porta de uma porta. Num instante sorvera o discorrer para dentro do senso das especiarias; voava num tapete até ao sensual local dos banhos de rosas argalistas. Desconhecia porventura o destino do jogo que jogava impotente, entregue ou não, não sabia. O tempo não existia, mas antes um poder sábio, hierárquico, precedente à noção.

 

O que vivia em segundos era um movimento não isento de passividade, nem de agressividade, era algo que se revelava numa explosão de sons e cheiros e movimentos do mundo da morte e do mundo da vida.

 

Os dentes enormes do homem do punhal sorriram-me num excesso, assediando-me com preços obstinados, perguntando-me, impacientemente, quanto ofereceria eu por dois deles. Então, naquilo que senti como sendo a penumbra de um hemiciclo, fez-se luz, de súbito. A multidão abrira espaço, era uma possibilidade-limite e o teu olhar ali tão perto dos meus olhos agora, e já a memória em mim dispunha daquela liberdade separada que me envolvera no perder-me no poder da Medina.

 

Local sem corpo, local informe e todo ele torneado. Local pensante de uma inteligência infalível. Local sem escolhas livres e no entanto frémito, emoção, afeto todo ele muito além da simples vontade de o pensar.

 

O poder da Medina prende-nos às essências dos mundos e a trança que nele nos enrola e nos perde é um antigo comportamento em nós.

 

Sob um calor que nos desencaminha, o vai-vem de uma passagem recomendava que uma distância prudente fosse preservada. No entanto, os números e símbolos e cheiros, destinados a permanecerem vedados, permanecerão sempre em densos mistérios que não nos serão dados a conhecer. E no entanto, também ali, nós e o nosso princípio, como se pedra e pássaro e beijo e caos e incitação num balanço de opostas forças nos segurasse numa estranha mistura de tempos do sentir.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 24.6.2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Perdeu-se a leveza da inocência?

 

Germinaram milhares de anos feitos jardineiros em muitos raciocínios e sem qualquer remédio para responsabilizar a inocência que se entregou ao conflito de um influxo vindo de muitos Eu.

 

Combina-se de nós para nós alcançar a cada passo um contorno de mundo onde as árvores não abdiquem da vida e, sem que entendamos que neles, nesses contornos de mundo, a possibilidade da inocência ter partido seja real e longínqua a sua leveza.

 

Empenham-se os homens na previsão profunda dos seus destinos e esforçam-se por ver nas carapaças das tartarugas as fissuras que lhes confirmem que ainda possuem em si a tão ansiada leveza da inocência. Aquela que lhes apagará o donde são oriundos tantas vezes.

 

Abre-se então uma carta e cai-se num sono fundo para acordarmos perplexos e jubilosos. O que era ingénuo e leve superou a frágil ligação à hora da aceitação da condição humana.

 

Volta-se à natureza. Espiamo-nos e perguntamo-nos qual teria sido o caminho tomado. Evitamo-lo. E é inútil que o façamos.

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

E escreveste-me:


Agora as mãos tremem-me em qualquer momento do dia ou da noite. E sabes a razão Isadora? É que as palavras que conhecem a verdade pendem-me da boca e preciso de uma cadeirinha para as descansar e de um pouco de sol que saiba a sol no coração. Ajuda-me. Tenho as dores da alma tatuadas no meu corpo inteiro. Naquele corpo despido que ele tanto amou e banhou em cascatas solares e que agora só lhe convoca a desatenção.

 

Estou só, no entanto, essa circunstância não me dói. Acima de tudo o que me é feroz é a completamente desentendida em mim, realidade; é a capacidade dele para ter a certeza absoluta que me magoa. Essa obstinação errática que alguém fez entrar nele e ele aceitou, e o faz mentiroso como um rato; ingrato como um animal a quem dei mel e me devolve, à minha fome, grãos de pedra.

 

Sabes amiga, é estranho, mas não me sinto destronada sequer como muito se lê nos livros. Bailo num punhal e estou consciente disso, enquanto vejo num espelhinho de jade, os meus seios rosa a friccionarem-se num vestido sem espinhos e nada mais. Soltos.

 

Isa, se o meu sofrer e nele se as minhas palavras te ensinarem nesta carta o quanto deves - se por inferno similar situação viveres – semear-te entre os fuzilados e ganhar tempo para arder e chegar a ti a decisão de não morrer em lábios alguns, antes recordares não incauta o que quererás esquecer, depois lavares no tempo certo a sábia ferida, então toma, toma que por minhas mãos te dou o meu colar de lágrimas inteiro, tratado interpretativo dos dias da agonia, razão da minha maior tristeza ainda hoje, se a penso, e abre a porta e que ele saia de ti. Que vá.

 

Aprenderás que os dias ficam exaustos de não terminarem de se contarem a si mesmos quando o jogo mudou de camisa como uma cobra e tu, ainda limpa, lá no centro. Verás Isadora, que de novo um semearás e um cento colherás, enquanto te aguardas do outro lado da vida. Refiro-me ao lado indizível, também aquele que nunca se escreve ou descreve, aquele que passará enfim, a ser a tua gruta, lugar onde e aonde soletras as letras de teu destino e que tem uma agua vinda da fonte da humidade que também é só tua, tal como o teu olhar tão diferente, agora que acima de tudo te tens a ti completamente.

 

O resto é gente que não cintila e se acaso pirilampo algum dia, foi a tua sombra generosa e que o saibas. Lança-te amiga e não consintas. Guarda que nesta carta dei a volta ao movimento e a minha pulsação é!

 

Irei amá-lo de olhos de mágoa acumulada? Irei amá-lo num angulo de porta proibida? Não sei. O vento levantou-se e perguntou por nós.

 

Sabes? Existem caules invisíveis de uma única brancura que só o bosque da tua alma entende.

 

Como compreender que certas pessoas que, por essência, nos são alheias, venham prender-se à nossa vida? De imediato entendemos quem são, contudo escapa-nos o paradoxo do devir, o próprio duvidar. Quem és? E a mim como chegaste? O que sabes da morte das árvores? Por acaso tens nome ou és amor?

 

Eu? Arquitetura.

 

Dulce 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Constitui a consciência uma instância de apelo quando as certezas se inquietam?

 

Ainda que assim seja este apelo parece frágil se o confrontarmos com a evocação da Lei como sendo a melhor saída em sede de Moral.

 

Creio ser de nos debruçarmos sobre uma polémica que no séc. XVII opôs Pascal e os jansenitas – que tão só conheço como movimento teológico distinto dentro da Igreja Católica e que surgiu postumamente do holandês Cornelius Jansen - a um enorme número de católicos.

 

Não esqueço que na Igreja católica a Lei infalivelmente transmitida será e foi sempre a que levou à estrada da vida moral autêntica.

 

Contudo, parece poder-se afirmar que o que visa uma moral recta, num regime de uma sociedade, é o que leva ao recurso da instância da consciência, sem se poder admitir que não existem flutuações afetadas pelo relativismo pois que o recurso à fé não é o único pelo qual se optou, e, nem mesmo a fé, é sempre vivida como montanha de infraestruturas inabaláveis.

 

Gostava de chegar a tratar este tema com a profundidade que merece. Inquieta-me não saber ainda explicar com segurança e clareza o quanto sinto que as tradições não constituem já base de decisão, mas sim, devemos procurar dentro da articulação tão difícil da Ética e da Moral o compromisso que nos acuda, assente em consciências, que, afinal são em si, situações culturais e por onde cada um pode encontrar carreiro sensato.

 

Herdámos uma coexistência de sistemas morais. Cabe-nos fazer deles uma força e entendê-los nos seus paradoxos e nas nossas fraquezas.

 

Que todos nos saibamos submeter à prova de expor sem medo as regras da cidade de cada um, o que supõe um trabalho de discernimento de valores e seus opostos que irão ditar a nossa decisão face ao nosso projeto de vida, decidindo ou não recorrer à consciência como instância.

 

Permitam que assim deixe uma proposta.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Julgamos poder dizer que a ciência da política é uma ciência que pretende conhecer a realidade do político por dentro, no mínimo, com anterioridade à sua aparência formal e mesmo institucional. Talvez por esta razão sempre foi necessário ter um olhar acutilante, analisando a política como facto real e não se afastar dessa objetividade.

 

Caminhávamos pelo Jardim da Estrela, como era hábito, depois de sairmos da Capela do Rato, e, dizia-me o padre Jesuíno:

 

Gosto muito, quando venho a Portugal de ir ver os meus amigos daqueles tempos. Os que entenderam a razão do meu casamento que muito tem a ver com a política, e os outros também, os que só me apontaram. E muito gosto de recordar as tuas “palestras” sobre o político e a política, acima de qualquer curiosidade, porque tinhas 13 anos e tentavas comunicar com os teus amigos, temas que não eram do seu agrado, nem do teu saber, mas a sensibilidade…o teu irrequieto…, mas sim, a ciência política, como dizes agora, deve devotar-se ao político por dentro, ao que ele tem e que ainda não é sabido mas é manipulado.

 

Padre, - vou chamar-lhe sempre assim, como sabe tropeço no Jesuíno sozinho – vamos tomar um café?

 

Olhei-o muito compenetrada no que lhe queria dizer e Aristóteles foi o primeiro pensador que se ateve ao Estado “possível”, sendo este o que tem mais segurança e estabilidade, e tomou como ponto de partida não a ideia de Estado perfeito, mas a ideia de Estado composto pelos diferentes povos e suas consequências em função deste corpo assim diferentemente constituído. Se este pensamento realista desapareceu? Sim desapareceu. Recordo-me da leitura de Julián Marías, La Etica nicomaquea, e só surge de novo este pensamento realista na época moderna com Maquiavel, Hobbes, Locke, Marx, Montesquieu entre outros.

 

É certo, diz-me Jesuíno, mas nem todos eram “realistas” no mesmo sentido. Basta pensarmos que muitos não se interessaram particularmente pelas mudanças do corpo do Estado, mas muito o afetaram, muito o condicionaram, o modificaram. Estou a pensar em Hobbes e também Marx, encarnações diabólicas para outros pensadores. Não achas?

 

Acho padre Jesuíno, sobretudo aqui sentada neste jardim, acho que as pessoas não gostam que se destrua o confortável idealismo quando não, porque esse facto dá a cada um, uma ideia muito satisfatória de si mesmo, proporcionando igualmente um contentamento pela comunidade a que cada qual pertence. Contudo o realismo deixa de ser descritivo e passa a dinâmico com uma direção histórica precisa. Julgo que continuarei a dizer que a ciência da politica tem por objeto o estudo da sua estrutura e do seu funcionamento. É uma ciência descritiva, objetiva, pelo menos inicialmente, assim penso. Hoje, é indiscutível a mudança, bem como a força sociológica e jurídica em toda esta análise, considerando o respeito pelo Direito, a real força da legitimidade.

 

Avançam corpulentas estas árvores deste jardim, Padre. Crescem vaporosas na Antropologia cultural de um mundo, silenciosas e regadas de uma moral e de um direito, verdadeiras armas da luta política, e porque não da luta das suas folhas pelo sol. Há que não esquecer que a personalidade fanática ou democrática é tão-somente a representação de uma realidade mais ampla e da qual depende. O poder e o seu funcionamento constituem a realidade política. E poder, pode ser «Estado» ou «Governo.» Pode ser árvore.

 

Gostaria de me candidatar a um cargo político, disse Jesuíno.

 

Teresa Bracinha Vieira
Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

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Ao que poderíamos chamar a grande arte ou a grande poesia, exigem memória precisa, clareza de interpretação e finura na concentração. O que é erudito tem sempre um faro escondido atrás da mão da alma, e só assim descortina o que existe por baixo da profundidade. Chega-me à memória um vedor que visitava com regularidade a quinta de meu pai. A mim parecia-me que ao rodarem os pauzinhos que o vedor tinha entre as mãos, escreviam eles no ar, a palavra silêncio, ou não estivéssemos perante a indicação de um pormenor da ínfima luz que se mostra claríssima, na pujança da erudição maior, tão logo a água jorrasse intérprete da primeira grandeza.

 

Desta água ao tecido que o poema expõe surge a voz escrita do estilo do intérprete que vai cartografando realidades alquímicas que reiteram sem dificuldade a força do que está em causa.

 

Inevitavelmente recordo a erudição tamanha de Gershom Scholem, as suas explicações de textos cabalísticos (mística judia) de influência fantástica sobre a teoria literária em geral, sobre o modo de ler a poesia de críticos e investigadores não judeus e plenamente agnósticos. Sabe-se que fechados em revistas escritas em hebraico se encontram algumas das obras de Sholem não obstante títulos publicados pela Princeton University Press que se dirigem inequivocamente a um público instruído.

 

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A Life In Letters (1914-1982) de Gershom Scholem que tive a oportunidade de ler em plena convivência com um admirador e conhecido de Scholem, deixou-me a necessidade de conhecer aquele que fosse o grande poema, a grande arte como tributo a este enorme servidor da inteligência.

 

Scholem é aquilo a que eu chamaria um homem do pensamento formado na erudição. Do pouco conhecimento que dele tenho e sempre terei, intuo dele uma mestria grávida de uma realidade nunca herdada. Sinto-lhe um anarquismo necessário à desconfiança pelas convenções, um misticismo religioso com origem no cético. E mais não ouso. Era e foi sempre ele um dos grandes vedores que conheci ou imaginei nas mil quintas do mundo. Dele tenho obtido muitas ajudas para a minha iniciativa de lhe reler as páginas que possuo. Ajuda-me a compreender o passado como o faria um profeta da luz sobre o futuro.

 

E não serão os escritores da profundidade estes profetas da luz? Scholem também sempre voltou a Kafka sobretudo quando a tensão se instalava de si para si.

 

E Scholem pedia que lhe perguntassem

O que entende por «o nada da revelação»

Ou a revelação não fosse o processo que está para aparecer, com ou sem validade, com ou sem significação.

 

E se entretanto o só, nele está Celine, Borges, Canetti, Duras, Aristóteles, a Geografia, o Desenho, as Línguas, a Ciência, a Economia Política, a Astrofísica, a Paleontologia, a Poesia enfim a recompensa extraordinária que em nós só a universidade é e pode.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

   Um gosto extremo pela verdade.

 

Um legado do meu tio-avô que em seus velhos anos sentia, no saber, satisfazer-se com o que tinha. 

 

Não sei até onde se contentou este meu tio em viver uma vida que ele chamava tão-somente desculpável e que não pesasse para ninguém. E eis esta outra consciência de que nesta verdade teria de se encontrar. Nesta verdade que queria dizer vida em total soberania, na qual, nem a lealdade dos filhos que não tinha, deixava de ser guardada num lenço de nariz amarrotado e que chegava aos olhos numa vigilância clara de quem faz contas às certezas.

 

E o desconhecido meu tio? como era?

 

Em silêncio, presumiu os vícios depois de os ter, mais ou menos estragados pelo exemplo de os repetir. Mais ou menos diferentes quando em si se acarinhavam. Também sentia este meu tio, como uma desgarrada de mentiras, quando alguém o acusava de furto, de uma espécie de furto por poder duvidar de que os outros é que estariam certos. Imprudência seria o que sobrava aos outros para causar boa impressão à mercê de a todo o tempo ser aprovada. Assim pensava e dizia, baixinho, enquanto rolava na cama que o sustinha em dor, em muita dor. E lá chegava a memória do livro que seguiria para Lisboa com os vinte escudos apertados entre a página 32 e 33.

 

Nunca fora avaro. A verdade ensinara-lhe que o dinheiro era coisa transitória e mundana, papelada poeirenta, a das contas. Ou, o que é pior, a do negócio. Toda a vida procurara desleixar e relaxar sem obrigações ou servidões ao dinheiro. Por temperamento e por sua condição coube-lhe pertencer segundo a sua vontade, à fotografia de si e das pessoas em si, e assim, tudo fluiu e fluiria até à sobrinha-neta, eu, que julgo ter entendido dele que o que nos imprime a condição de viver da comparação com outros, faz-nos sempre muito mais mal do que bem, pois atira lama ao gosto extremo pela verdade, no sentido de nos privarmos daquilo que queremos para atender às opiniões dos outros.

 

Com ele, com este meu tio-avô, ficou-me a possibilidade de me auto incentivar às viagens, ou elas não fossem em mim um desacordo com os costumes daquilo com que me querem e quiseram conformar. E a essa corrupção, eu digo e disse não, mesmo que na fotografia em seu dia esteja eu submetida a quem não tenha um gosto extremo pela verdade do entendimento, tal como este meu tio-avô, meu padrinho de batismo de vida, aristocrata de guerra aberta a quem lhe fedia, amante de ópera obstinado. Digno.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Caro padre Jesuíno;

 

Respondo-lhe mesmo antes de ler o livro que tão gentilmente me enviou.

 

Creio, padre Jesuíno que se sabe muito bem o que está por fazer, porque quase tudo está por fazer.

 

Observo que nos encontramos tão distantes do que entendemos por prosperidade de uma nação, por bem-estar generalizado que, durante muito tempo, não cairemos no risco de vivermos num país desenvolvido. Talvez por estas razões entre outras, a frustração dessa falta de comodidade mínima de vida, pode-se definir não como tendo na base uma acesa causa económica, mas antes por falta de uma enorme sova moral, não distribuída ou não auto atribuída ao esforço de todos e de cada um, como efeito de agulha no plano da ética pessoal e social que gerasse o início do trabalho que conduzisse à felicidade possível.

 

Só através de um caminho pessoal e institucional se conduz as pessoas individualmente consideradas a não se sentirem impotentes face ao Leviatã, tão difícil de descortinar atualmente, quando os próprios Estados e os grupos de pressão, em vivência de globalização de comunhão adquirida, aderiram a um pacto de sujeição morno quanto baste, e que impede a luta contra o conformismo e contra o marasmo, o que conduz a um sentido bem expresso da necessidade da atividade dos intelectuais.

 

Padre Jesuíno, quando nas anteriores cartas lhe referi o quanto receava a moral e a ética reféns das instituições da política contribuindo para a dificuldade do estudo da ciência da política nos dias de hoje, era exatamente a este ponto que queria chegar: o consumidor, o consumidor de tudo, dos bens materiais, do amor, da religião, da juventude, da criação, da saúde, da solidariedade e a consequente perda de mira de todos os olhares, constituem o mais conseguido Leviatã que Hobbes pensaria poder gerir.

 

Deito mão de um papel que encontrei (tenho tantas destas anotações!) por entre as páginas de um livro meu, onde uma frase escrita por alguém que me despertou interesse, sem que o livro me pertencesse, e eu, deste modo guardava memória, e que, infelizmente neste caso concreto não anotei o nome, tão só sei tratar-se de um jornalista espanhol que escreveu:

 

«no tiene condiciones para ser verdadeiramente dichoso un país en que los infelices son tan ricos de alma que prefieren cuatro horas de sol a cuatro pesetas de jornal.»

 

E afinal hoje nem se poderá ser tão livre assim?…

 

Saudades a Paris

Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há que provar de tudo à mesa. Há que não se dizer não gosto disto ou daquilo, um dia, prometo-vos, irão comer os vossos próprios erros e entenderem que de todos se não safam sem prejuízo. Que muitos serão mesmo piores que os peixinhos da horta que agora vos causam repulsa.

 

E o olhar da Dulce tornava-se vago quando escutava estas palavras secas do pai, o mesmo pai que também a mimava.

 

Sabem, continuava o pai da Dulce, os madamos e as madamas ricas podem mudar de ideias, os e as pobres, é que não. Mesmo assim a estes de nada adiantava mudarem, por cima ficavam sempre os outros. Vá comam a sopa toda. Os ricos puxam as colchas até ao queixo para encobrirem os fios de ouro. Comam a sopa a toda! Mesmo que fossemos surdos podíamos ouvi-los, aos ricos, com o olhar a guardarem a caixa do dinheiro.

 

E vá comam a fruta que faz bem. Para uma certa maioria que visse essas maçãs, haveriam de ver como os olhos deles eram duas velas a derreter-se por elas.

 

Um dia saberão que nunca se deve beber água por nada de metal. Deve ser bebida por uma cabaça. Oram vejam, nós já usamos copos de vidro e os ricos usam de ouro! Limpem a boca e vá, vão brincar.

 

Depois destes almoços, ficávamos, nós crianças, todos tão velhos e tão desentendidos que a brincadeira era como uma professora boa que em tempos fugira da escola para não aprender de cor 7x8.

 

Olhávamos para as bicicletas como se pedalar nada fosse. Sentávamo-nos no chão ao lado delas e de calcanhares fincados, sorrateiramente, como se alguém nos espreitasse, deitávamos fora os peixinhos da horta que tanto detestávamos e que tínhamos enrolado nos lenços de assoar aquando da hora do almoço.

 

Tá quase dizia-me a Dulce. Tá quase e podemos brincar em paz. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

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Ontem escutei e vi num canal de televisão a explicação dos tornados, a razão de seu nascimento, da sua aparência e frequência e morte. A dada altura, confesso, julguei começar a ver no núcleo enlouquecido de um deles, todos nós a debatermo-nos num torvo para respirar e mergulhar de novo naquela força tão desigual à nossa. E pensei-nos a tirar proveito daquela natureza brutal, ganhando tempo para nos familiarizarmos com os elementos e respondermos. Pensei na raiz humana da crise.

 

Não sei quem hoje se aproxima mais do entendimento das mudanças no mundo. Não sei até que ponto se vive um desafio intelectual face às novas realidades ou se lhe sobrepõe um estado de angústia no procurar ver as coisas com bom senso, o que torna tudo bastante arriscado, e exige coragem, quando a exigência é a de um começar. O exorcismo do medo e da desconfiança que existe não carece apenas do encontro dos grupos que, quantas vezes apenas cultivam as suas distâncias. Atuar isoladamente ainda que de aparência grupal é muitas vezes o mesmo que atuar desconfiadamente, e deste facto surge o não avanço contra aquilo que é a raiz mais profunda da loucura do tornado quando deixa de ser fenómeno local e apanha o mundo numa mutação global. Então tudo é suscetível de ser confundido: recebe-se a liberdade e foge-se como prisioneiro.

 

A ameaça entrou no nosso raciocínio como um acontecimento em relação ao qual o poder político ficou de fora, há muito, e sem capacidade de nos tranquilizar.

 

E pergunto-me se toda esta convulsividade não favorece o ato criativo do pensar? ou serão os acontecimentos, mais acontecimentos do que modificações? Tenho para mim que se viveu uma aglutinação, um adormecimento que impediram muitas clarificações, e que de um referver de receios mais claros, se poderia colher aproximações às realidades que pressentíamos poderem surgir de há muito. E quase todos, mais ou menos, modestamente estamos por dentro de similares processos. E quase poucos foram os que sentiram que as interrogações não eram mais do que certezas que já tinham.

 

Diria que a força e a capacidade de pensar e de se exprimir e de refletir vivem numa coragem específica de quem aguardou a decantação no tempo para adquirir uma repulsa à carência do que não seja vida. Então o núcleo louco do tornado, em nós, deixa de ser uma procura de sair dele, mas uma experiência ativa de que a nossa interrogação é um silêncio de quase insuperável dificuldade, como referiu Paul Thibaud, ou o «sem fundo» de Castoriadis ou ainda a circunstância que enfim nos despertou para a importância da ação estética no quotidiano do homem comum. Afinal, cabe aqui dizer que a democracia será sempre um futuro ou não relevasse da incerteza, e julgo que nela nos interessa mais a sua dinâmica do que o seu longínquo ideal de sociedade quase perfeita.

 

A homogeneização é a negação da diferença dos valores dos tornados das sociedades. A título de exemplo a sociedade francesa de hoje conhece uma crise tremenda que sobretudo resulta de uma desagregação entre a sociedade e as instituições, se pensarmos nomeadamente que a grandeza da sociedade democrática reside na sua divisão intrínseca, tanto quanto uma sociedade justa é uma sociedade em que a justiça é de facto uma realidade sempre em aberto ao permitir que a dissimulação se torne visível e o seu combate um garante do Estado que aguardamos, afinal.

 

Como não recordar Marcel Gauchet

A tomada autêntica do poder pela sua verdade pode prevenir os totalitarismos. Atente-se.

 

E acrescento como um dia li: «se não descuidarmos que os partidos políticos agem hoje como se fossem um para além da sociedade.»

 

E ontem escutei e vi num canal de televisão a explicação dos tornados, e nada me pareceu apatia, obediência, conformismo naquele estreito funil e ainda assim.

 

Nós.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017