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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA


Existe sim uma tristeza nas gentes daquilo que possa acontecer. E é estranho que este sentir que intuo no ar e nos olhos, dorme ao lado da felicidade. Na fusão da noite dos sentimentos, o medo não enfraquece, antes mina e deixa-nos a temer todas as realidades como modo de ocupação permanente, desde a hora em que o despertador nos acorda até à hora da sonolência cansada nos levar ao sono, e este ao sonho que abarca também a possibilidade de nele perdermos alguém que amamos, como se esse perder nos levasse o amor que por esse alguém sentimos.

 

Dá a sensação de que os passos das gentes assentam em coisas demasiado transitórias e insustentáveis. Em compromissos estranhos de entendimentos, em pactos de silêncio e de sofrimentos.

 

Será tudo isto afetação própria da época em que se nasceu? Não será tudo isto mais conjeturado do que propriamente verdadeiro? Não haverá aqui algo de nonsense pelo nonsense? tal como o princípio que decreta a arte pela arte?, ou a congruência de tudo o que é incongruente? A aptidão da inaptidão? Pergunto-me se os matemáticos estão a fazer férias demasiado grandes deixando espaço a inversões descomprometidas por parte do lógico? E só de o pensar, dá-me calafrios.

 

O que seja a biblioteca de cada um, não lhes passa pela cabeça retirá-la da estante. Contudo vejo bolhas de sabão. Muitas. E, enquanto mundo e nele gentes, em intervalos lúcidos de insanidade, vendo-se a braços com as bolhas de sabão, desnorteiam com sentido, e eu só consigo desejar-lhes casa, desejando-me e desejando-lhes também sítio de mundo para onde queiram sempre voltar no encalço das razões dos livros clássicos.

 

E pergunto-me se os poetas se conseguem erguer tendo no céu e no chão tantas nuvens por determinar, quer no crepúsculo do nascer ou do pôr-do-sol.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Fiz a terceira classe numa escola de aldeia por precisar que bons ares me recuperassem de tremendas alergias. Eu e a avó e a criada ficámos numa das casas de férias de meus pais, que me inscreveram nessa escola para que não perdesse o ano. Enfim, não só não o perdi, como foi o ano em que numa escola primária mais aprendi acerca de tudo e fui muito, muito feliz. Exclui-se desta felicidade que a professora da dita escola, a mim, fingisse que me dava reguadas - eu era a menina fina – e às colegas as ditas reguadas lhes deixassem as mãos marcadas e inchadas. O meu único contributo à correção desta injustiça, passou a ser o de eu começar a chorar muito alto, desde que as reguadas às minhas colegas começassem, e mal a professora as interrompesse e me chamasse para indagar de tão forte choro, eu respondia

 

Dá trauma professora! O meu pai diz que do trauma faz-se queixa à polícia.

 

E pronto, as reguadas terminavam logo ali, e eu sem saber o que era trauma e por óbvio o meu pai nunca dissera aquilo que eu ali afirmara.

 

Assim passei a heroína naquela escola e as minhas colegas, até as da quarta classe - pois estudávamos todas na mesma sala da 1ª à 4ª classe -, davam-me em troca a possibilidade de lhes conhecer os esconderijos das histórias dos beijinhos, em relação às quais eu nada perguntava por não perceber o interesse, mas quanto aos esconderijos, achava-os maravilhosos, cheios de fantasia e fantasmas bons e, foi para um deles que corri quando o Tim-Tim caiu e magoou-se num local onde não era provável que o salvassem. Ali, descobri, naquele dia, o interesse dos beijinhos e enviei muitos ao Tim-Tim dando-lhe força para não ter medo.

 

Desde então, desde esta escola, descobri a maravilha dos caminhos de vinda para casa, coisa inexistente em Lisboa. Cantávamos a tabuada toda durante o percurso 2x1 =2 e 3x4=12/3 e prova dos 9 e prova real e tudo o mais que fosse e sobretudo se calhasse em verso, nós o dizíamos a cantar pelo meio dos campos. Também comíamos umas florinhas amarelas cujo caule era adocicado, e que metíamos dentro do pão, feito na casa de forno de lenha de alguma colega. Alguma delas nos disse que se comêssemos estas florinhas, a falecida costureira de uma velha casa ali perto, nunca nos faria ouvir o dar ao pé no pedal da máquina, envolvendo esse ouvir alguma carga de coisas más que aconteceriam. Por esta razão quis comer também umas bolinhas vermelhas de umas plantas que ali vira e, foi uma menina da 2ª classe que me gritou logo

 

Essas não, minha parva, essas são rebenta bois!

Rebenta bois? Perguntei.

Sim, se rebentam bois o que farão a ti?

 

Enfim, não pedi mais explicações e só chamei a atenção em casa para a minha avó ter cuidado com elas, mas a avó disse-me que as que usava ou eram de piripiri ou de pimenta.

 

Meu Deus! as coisas semelhantes e diferentes afinal e que eu desconhecia! Como era possível em Lisboa encontrar rebenta bois, se bois não eram visíveis, ao menos no bairro onde morava.

 

Por troca de ideias de brincadeiras boas, aferidas por mim como tal, eu fazia às minhas colegas a caligrafia – a umas 7 colegas - dentro dos cadernos de duas linhas, e confesso que nunca achei trabalho tonto, ainda hoje acho um triunfo gráfico que implica beleza e legibilidade.

 

Depois vinha o dia do pão por Deus e lá íamos todas bater à porta de casa de cada um a pedir pão por Deus – fosse lá o que isto fosse, era tradição e pronto - e receber laranjas e uns tostões pelo pedido que logo entregávamos ao pároco. Noutros dias, vinha a Sagrada Família passar uns dias à aldeia, tocando o sino da capela próxima, excitadamente. Esta Família, às vezes, pernoitava em casa de ricos com o consentimento do padre que a conduzia até às respetivas moradas. Escusado será dizer que perguntei logo à avó se éramos ricas para eu poder examinar o que lá ia por dentro da redoma onde vivia a Sagrada Família. Em rigor, uma colega minha chegou a dizer-me que em casa da Sagrada até havia bonecas com longas tranças e que as bonecas as faziam sozinhas! Ora, descoberta esta, fazia-me logo contar algo à altura, e também lhes expliquei, muito baixinho, às minhas amigas e colegas, que não havia milagres pois 2x3 eram 6 e pronto, alguma que desmentisse! Mas, um dia, uma delas contou à minha avó este segredo e lá levei com duas rezas de terços antes de dormir.

 

Não havia net, por óbvio, havia musgo que se arrancava com os dedos para levar para o que fosse o presépio de cada um. Também nos perguntavam sempre na escola, a que dinastia pertencia D. Afonso Henriques. E bem recordo que, aquando de uma destas perguntas, a minha colega de carteira me disse a rir e com a cabeça encoberta pelos braços

 

Este sei sempre. É o que bateu muito na mãe dele para a gente hoje morar aqui.

Ao que acresci

E se te perguntarem que rios conheces na Guiné, deves dizer: todos!

 

E por esta e por outras lá voltei a chorar alto para que a professora não lhe batesse mais pois era trauma de que o meu pai apresentava queixa à polícia.

 

Uma maravilha esta minha 3ª classe! Uma bênção aquelas minhas alergias.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

O que somos na memória dos outros é a casa da nossa descendência.

 

Faça-se a nossa vida de histórias de sismos que vamos gerindo, ou, de vulcões de amores que amámos, ao abrigo de um especial movimento, a relação com a tal nossa circunstância transmite-se a quem marcará tempo e modo de nos recordar com a abertura ímpar do saber e do afeto, abertura que envolverá curiosidade, desconfiança de gestos e a saudade que lhes apraz em companhia, e lhes leva a paz e a inquietação, unidas à sua identidade cheia de contradições.

 

E eis-nos lá, no futuro deles, onde já seremos algo diferente e contudo nós.

 

Diria que até faremos parte de uma família rara: a de um processo que se não impõe, pois, na qualidade de operários diferenciados, voluntários sempre, e chamados como antepassados essenciais a uma paz que lhe doámos válida e consistente e sem que nada se aguarde em troca, como muito acode à herança do afeto familiar. O que somos na memória de quem aí nos deseja é local-casa de um imenso e atento ouvido, nunca diluído nos limbos do esquecimento, antes horizontes que são filtros de ajuda a quem nos chama.

 

Somos assim descendência reconhecida na tessitura de uma torre de Babel que nos vai descodificando por geométricos percursos do sentir e do compreender e do amar e do sofrer. E não será esta torre à nossa descendência, um triunfo da vaidade humana, mas uma palavra provisória, precária mesmo, mas forte no fez-se mundo: «vêem por um espelho e obscuramente», nas palavras de Augustinus.

 

Enfim a casa da nossa descendência vai revelando prodígios e paradoxos com os quais obtivemos raciocínios, até aquele que nos fez esperar a morte para que esta desse sentido à vida, qual zero que atribuiu operacionalidade ao olhar de onde e para onde.

 

E neste acreditar que seremos parte da memória dos outros, e sua e nossa casa, não existe gregaridade, ao invés, tal como nas primeiras causas, soltos seremos em tudo quanto nos suceda no tempo de uma eternidade que acede enfim a quem nos visitará.

 

Porventura na dimensão do mistério do vértice ardente da labareda, ali mesmo onde se oculta decerto uma ideia de casa, uma ideia de Deus, a de Deus em nós, ou a de Deus neles, ou no todo; ou imunes a um contágio, assim, se outro ângulo for aquele por onde se entendem as razões de sermos a memória do nós na descendência, será afinal esta, fenómeno natural,  provocação mesmo que se sustém por si e tão só!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há alguns anos, quando o Luís visitava uma exposição de pintura ou outra que lhe agradasse, carecia de ver logo certos filmes, ler ou reler determinados livros e ir a alguns espetáculos. Depois almoçávamos no restaurante do costume e quase em silêncio. Junto ao momento do café, normalmente o Luís respirava fundo e perguntava: vamos conversar?

 

- Pois é, há uns dias a esta parte, olha, desde a nossa visita à exposição x, que vejo que a vida se tem aproximado dos fundamentos daquilo a que chamaria uma cultura tradicional, uma cultura mole, assente na bancarrota da criação. Quase tudo é pouco mais do que uma forma de entretenimento secundário, ideias, ideais e valores e artes tudo numa dimensão comestível e confinada ao público que se diz de elite pensante. Depois, basta que estes digam que sim que o paladar é agradável, e transborda o êxito e a influência para o conjunto da sociedade. Deste modo chega-lhes também um sentido da vida e uma razão que entendem superior, uma razão até de mecenas e que transcende o mero bem-estar material. Pois é! Nunca se esteve tão desconcertado, sobretudo em relação às razões básicas, sem as quais o norte é a mera sobrevivência. Até a responsabilidade é volúvel e as ideias de progresso enganosas. Que fazer?

 

- Pois não sei, respondi. Sempre pensei que a razão última da cultura era dar uma resposta cabal a esse tipo de perguntas. Ainda assim desconheço se a clonagem não se voltou apenas para os grupúsculos vaidosos dos intelectuais de instantâneo.

 

Luís sei que sabes que os enclaves da vergonha feliz, se instalaram na opulência da ignorância e há muito que se sentem lá bem. Talvez por isso as pessoas virem costas à dureza dos tempos e aos hífens do ato de criar. Não sei, mas não é só por aqui que tudo passa. Os paraísos artificiais das vidas de cada um são tidos por boa marijuana que proporcionam boas e constantes férias do dia-a-dia.

 

- Continuando nos pois, pois, amanhã, e aproveitando estarmos aqui, vamos à exposição de Goya e, se estás de acordo, às seis da tarde não perdemos Mahler. Não podes ficar o resto da semana? É tão grande a solidão que tenho sentido. Desculpa ter dito. Não me quero em lamentos, todavia é muito bom conversarmos. Sabes? lembro-me constantemente de duas coisas: do medo e da felicidade. Custa-me dormir. 

 

Teresa Bracinha Vieira
Agosto 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

A única forma que tenho de trabalhar os meus livros, é colocá-los, de quando em vez, arrumados nas minhas estantes, encontrando-lhes fundamento e afeto e cumplicidades nessas arrumações. Desta feita dei comigo a colocar ao lado do Alçada, não só o Alexandre como o grande Borges, bem como a Yourcenar, e encostado às Peregrinações, o Régio, o Ruy Belo e o Manuel Bandeira. Desta vez envolvi-os assim. Pareceu-me que todos falavam bem entre si e que o triunfo sem perda seria o saberem extrapolar princípios e vastidões. Foi uma forma de colocar os crentes destes caminhos a dividirem o destino humano em boa disposição. Estas arrumações fazem-me muito bem, confesso, sobretudo porque lhes reconheço por antecipação a alegria do chão no caos que se seguirá – aquele caos que mal me deixa ver em cima da secretária o teclado onde escrevo. E enfim breve, breve chega afinal o momento dos livros arrumados descerem de novo à secretária e aos sofás e ao chão. Chegam das arribas tocados pela ideia de mundo, querendo-se amar uns aos outros, muito próximos fisicamente e espiritualmente apesar dos riscos.

 

Esta é a melhor gente do mundo, esta gente de desmedidos projetos de procura através de migalhas cósmicas que lhes desencadeiam custos e peripécias de luz…

 

E Mallarmé, onde te coloco? Ao lado de Kafka, Flaubert, Tolstoi, Celan, Torga e Comte-Sponville? Ah e Camões? Deus que isto é um universo inviável e que compromete a unidade! Digo para mim com um sorriso que convoca a ideia de relativismo que forma o meu mise en abyme no discorrer destas tardes de arrumações de livros. Também lhes peço a eles, ajuda em nome de todos os que retendo alguma coisa quando os leem, imaginam logo qualquer coisa saber: perigoso e desapiedado cesto de Pandora!

 

E assim ao fim de uns dias, um azul próprio do céu dos livros deixa-se ver em volta de um ponto invisível que me roda sempre a leitura e releitura dos mesmos. Mesmo quando começo a escrever, espreito esse ponto invisível porque o sei lá onde e aonde imprecisa é a vida e a morte.

 

E acontece-me de novo pegar num livro, sondá-lo, buli-lo, incitá-lo a desafiar-me o namoro e a partir da paixão já sem recato, que ele me permita frui-lo até onde eu o possa levar. Só por lá a fórmula da natureza humana.

 

E não me sinto estranha assim perdida, assim envolvida no trabalho de arrumar os livros entre os sensuais ecos das palavras dos filósofos que, insidiosamente, são sabedores da direcção do engenho por onde ando.
 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Blogue CNC - crónica da cultura.jpg

 

De filho a acessório de moda nos casamentos de hoje: consequências para o cão

 

Uns amigos nossos, no meio de uma conversa sobre muitos jovens casais que não têm filhos estando já numa idade mais avançada do que o “normal”, referem-nos, a propósito, o quanto os estudos estão avançados na análise do comportamento que leva estes casais a adquirirem um cão mal iniciam a sua vida conjunta, ou este não fosse meio de trazer responsabilidade e laços que se podem assemelhar aos de um filho – mesmo que queiram fazer crer que é apenas uma companhia - e logo se cria um pré núcleo de família nos encargos, responsabilidade e amor e, sobretudo ajuda a criar no parceiro/a ideia de que são três a conviver, e não dois, terrífica ideia para quando houver necessidade de substituir conversa ausente pela da preocupação com o cão, evitando-se sempre a coragem de viver a conjugalidade. Terrível jogo, o de transpor ao parceiro ou parceira que agora estão obrigados a cumprir por actos, pensamentos, palavras e obras que assim é a realidade composta, e que suportarão as vicissitudes de um grave divórcio se assim o não entenderam. Leva tempo, mas dizia a nossa amiga que, ficar só, é uma coisa, mas ser-se deixado só com um animal, é crime de lesa-majestade. Investiu-se imenso no determinar quem era a vítima e finalmente descobre-se que é a que fica com o cão, mesmo que lhe acresça a devida pensão de alimentos graças ao desejado encargo.

 

Acresce, diziam-nos, que se provou há muito, que estes casamentos, estão assentes numa espécie de amizade, avassaladoramente jurada acima de qualquer espécie de amor, muito transmitida por tatuagem, ou o amor não se pudesse partir e, se acaso a relação matrimonial terminar, aquele que sempre apelou por bem, à amizade, fica com o justo direito a intrometer-se permanentemente na vida do outro, que, sai da relação atraiçoado se quiser viver a vida em liberdade. Deus! aqui, a vingança de quem é deixado – parece que se diz assim - serve-se gelada pela manipulação eternamente encapotada da vida do outro, que, não compreendera, afinal, o quanto o cão que tinham adquirido era de raça “de bolsa” de grife, e estes mordem sempre a quem preza verdadeiros sentires, tais como as pessoas que não querem ninguém igual a quem tiveram, ou procuram, enfim, alguém que seja alguém. Alguém que saiba viver consigo próprio antes de ser pendura na vida dos outros; alguém que não esteja mal incubado e que só sobreviva com os tais milhares de companhias “amigas”. Os tais que não leram o suficiente para saberem que as amizades se não contam às dúzias.

 

E diziam-nos os nossos amigos:

Agora imaginem se em vez do cão, nesta cena toda, fosse um filho real? Pois é, aqui tem de se ensinar os filhos a mostrarem dentes raivosos, aquando de uma separação, face ao que tomou essa decisão e de preferência muito face àquele ou àquela com quem poderá ser feliz, receita certa para que o vinagre dos cérebros se transformem em pickles e se dirija a quem sabe que a solidão é um amor vivido em companhia de outro amor maior, viva o tempo que viver, mas plenamente e são e belo.

 

E quais as consequências para o cão dos ensinamentos recebidos em todo o tempo de matrimónio ou depois da separação? Perguntámos:

 

Pois bem, o cão ou entrou em pasmo depressivo durante o matrimónio da amizade e faz psicanálise dentro da própria mala L.V, ou aprendeu uma sísmica despedida para agradar a quem com ele/a fica, e, de tempos a tempos, faz crise de epilepsia, durante a qual telefona ao ex dono/a que o/a abandonou, enviando-lhe força, pois que logo que possa se pirará e até lá ele/a aguenta confortável e envia saudades.

 

De facto, não há como ter cão, diríamos! Cão de co-matrimónio, cão acessório de moda. Cão espertalhoco. Cão, que cão saiba ser, e que tal como as pessoas sempre felizes do olá tudo bem? Maravilhosos! não sofra ele/a quase nada.

 

E se non è justo, é bene trovato, esta manha antiga das gentes que vivem a vida assistindo ao próprio funeral, nunca descuidando de tentar matar o tal amor que, se o sentissem, as engravidaria de possibilidades.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Voando sobre um ninho de cucos

Um filme de Milos Forman com Jack Nicholson- 1975. As características de um estar contemporâneo, redescoberto por indivíduos e equipas geniais no exercício do temor. Um filme que se estende a muitas realidades diferentes com consequências tendencialmente inescapáveis.

E UM POUCO COMO McMURPHY. É FÁCIL ENTRAR. O DIFICIL É SAIR.

 

 

Governar pelo medo, governar pelo poder, governar pela capacidade de infligir tristeza, governar pela falta de cognição, pelo ajoelhamento, pela culpa na alma dos outros, governar para que vença quem torna o outro culpado, governar contra a existência digna, governar contra o sono, governar para interromper a pulsação da esperança, governar condenando, governar pela insignificância de governar, pela festa de tudo controlar, governar chamando a figura admoestadora do chicote, governar contra o número dos vivos que dolorosamente tenta ganhar com que viver, governar como quem mata a sede a cativos, governar para ser auditor dos próprios milhões em registo de prece, governar invocando religiosidades de fação, governar com a virtuosidade de impor, governar por analogia da dor, pelo raio laser focado em quem se pergunta, governar humilhando os homens em frente dos homens que os roubam, governar de bandeira seca, governar a cada segundo tornando-o longo, governar sem que se descubra o que se passa, governar para fazer tremer a vontade alheia, governar para nunca confessar o seu erro, governar com os anjos rejeitados pelo céu, governar com ódio, hipocrisia, mentira, governar como intruso em corpo alheio, governar provocando uma solidão rodeada de solidões, governar pelo direito com bolor, governar prometendo mais medo, governar para que o poeta só escreva um verso, governar brutalmente como coveiro dos sorrisos, governar como se o filho pudesse ser mais velho do que a mãe, governar sem compaixão pelos encontros de jardim, governar esquecendo que os nossos pais nos educaram transmitindo-nos que a partir do ano anterior de nós, rejuvenesceria a casa, o tempo velho, as missões impossíveis, e que uma mulher sempre longilínea, sempre bela, ergueria embrulhado num gracioso xaile de recém-nascido, o seu filho, aos olhos de seu pai e de um mundo feliz, e eis o abraço célebre da vida, que, comovida abria o peito, resguardando a criança fora deste estar de desabridos caninos e molares prostitutos com que se governa em jeito de fast-food inimputável, o horror universal.

 

Bem-haja quem pelo seu caminho e arte, aspira a que de si fique uma memória imperecível, e seja ela prova de que governar poderá não ser uma sátira astuta protagonizada por personagens ridículas de sorrisos canalhas face ao destino de uma civilização.

 

E governar justapondo lugares distantes, reflexões brilhantes, estilos de vida superiores?

 

Governar sem utopias para além das necessárias ao impulso das mudanças, governar numa epopeia de se construir o melhor, sabendo a sério o quanto a seriedade é discussão com um louco que deve saber onde é a vida, a identidade, a circunstância.

 

E saudade. Não se governa a saudade.

 

A saudade não tem dimensão e o seu lugar é todo um coração que alberga toda uma emigração seja de que género for. A saudade é catalisadora na nossa viagem de regresso ao país natal, país seja ele como seja, mas feliz onde se focalize e no que se transforme.

 

Saudade é pujante condição humana que não constará nunca dos programas dos atos de governança, e mais, mesmo que seja uma tristeza do pensamento, saudade é livre, é fogo, é luta, ela é um sentimento que vê, ela é um som de sentir isolado que definirá modo e lugar que enfim, existem, sem que governar seja deixar um Big Bang ao nascimento do Ser.

 

Saudade é também acreditar que é difícil sair para uma verificação última da verdade ou do erro. Mas saudade é a que sabe negar o estatuto de um absoluto ou este não tivesse afinal qualquer história. Saudade é um pensamento no decorrer da vida e que abre caminho por ser capaz de chegar a algum lado.

 

Saudade é um saber que também conhece o quanto as tonalidades da mentira são inesgotáveis e que a certeza se desdobra em múltiplas camadas. Mas a saudade de uma paz humana conhece-lhe os complexos filtros para a atingir ou não vivesse nas relações perturbadas entre pensamentos e amor e luta.

 

Teresa Bracinha Vieira
Outubro

CRÓNICA DA CULTURA

 

É altura de partir o calor, o bom calor de julho e o de agosto que dantes esvaziava o Chiado. O calor dos desejos dos sorvetes e dos refrescos, o calor que amolece o cérebro e o asfalto, o calor das toilettes em desalinho e o recordar das histórias imensas do António Alçada.

 

Estávamos ambos sentados no Largo do Camões a registar o que por ali fulgia em agosto e, na sequência de falarmos em publicações de livros com empurrões de quem tem os ditos conhecimentos e os exerce em função de trocas, e o António diz-me - no meio de um «ó que óptimo gelado este

 

Sabes Teresa, um dia aconteceu-me uma fantástica. Não é que o diretor do jornal x, bem conhecido como sabes, escreveu-me uma delicadíssima carta a convidar-me para escrever uma coluna semanal nesse jornal, e depois de me deixar clara a honra que seria para o Jornal se eu aceitasse, acresceu

«E saiba V. Exa que nada terá de pagar por isso.»

 

E entupimos ambos o engolir do gelado e rimos tanto que bamboleámos os gelados no ar de jeito a que os não perdêssemos na totalidade espraiados no chão.

 

E mais calmos continuámos a dialogar sobre o futuro próximo de setembro e das saídas dos livros no Natal fazendo apostas em quem os iria lançar nas respetivas apresentações explicando as razões das pressões nas escolhas. E assim o país das dignidades de todas as ordens e de todas as vacinas, nada pergunta ou perguntava que fizesse ou pudesse fazer estranhar. Concluíamos. Também achávamos que cavaleiros e comendadores ansiavam pelo Inverno, de modo a que usassem os mantos por baixo do pardessus, sobretudo quando atravessavam a Rua dos Retroseiros e uma leva de vento lhes enfunasse as insígnias.

 

E aguardávamos setembro. Já tínhamos ido ao Vau estar com o Mário que enviava carro a Lisboa para levar o Alçada até ao Algarve e este por sua vez, por duas vezes me levou a mim também. E assim sendo setembro aproximava-se com o conselho do António:

 

Teresa, querida Teresa, nunca passes uma camisa a um homem. Dás cabo dele e de ti. Ambos se habituam a uma espécie de filoxera dos sentimentos.

 

Bora que o calor ainda é muito!

Prodígio inaudito pode ser um nariz? Não achas?

Hum!, prefiro sublime, para nariz. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Outubro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Sim, caminhar pelo nosso pé, sempre será diferente de andar pela mão que suporta os estilos e as ideias dos outros. Caminhar pelo nosso pé não carece de dissertações, mas pode não explicar a magnitude de um trabalho de vida. Em rigor, quem nos cerca, cria uma atmosfera de somenos a fim de desanimar o pé e o facto de ele ser nosso. E se eles conseguirem que o oxigénio faleça devagar, que a brisa da noite se torne enganosa, a procissão do nosso pé ou rasga de imediato a avenida e ali se afirma, ou, o carnaval invade as ruas de um jeito que, das ideias dos outros tudo fica dito e a peça-chave da independência do pensar com autonomia, só sobrevive com ironia, violando as urnas de voto entretanto violadas. E enfim, assim tudo se confunde como a febre das condecorações e suas proximidades nos cargos. Afinal, pede-se a quem caminha pelo seu pé, tudo o que o se não favorece. De louvação, recorde-se, vive um estranho sedentarismo nacional das ideias de fácil digestão no parlatório dos almoços a charge.

 

Também se inicia neste chão pardo, o autoelogio de quem se sente superior por bem do que é capaz, e logo os teatros dominam sobre os demais espetáculos, fazendo questão, os personagens notáveis, de não esquecer a nota de necrologia de quem lhe é igual ou similar, e gerindo o silêncio total à volta de quem sozinho ainda vive e por seu pé se atreve ou atreveu a caminhar.

 

Como nos compunge dizê-lo! mas se nas almas eles possuem os mesmos sentimentos que na atmosfera dos manjares, a ópera cómica só nos mostra o constante e violador procedimento dos bailes de máscaras, enquanto nem um artigo tantos do código o proíbe. Enquanto caminhar pelo nosso pé, foi preocupação do mundo no adivinhar o enigma, e como o sucesso lhes escapasse, pois que a nós tocasse nadar em mar revolto sem cinto de salvação ou queixa.

 

E saber que as violetas tinham mais perfumes e as rosas mais expansões; e que Verdi exclamou cheio de nobre orgulho: - Estais acordados? Venci.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Em setembro podem surgir maios em bouquet de rosas que adocicam o chão onde poisam as folhas caídas que já criam alterações sensíveis nos sentimentos e nos costumes dos olhos.

 

Hoje mesmo, um trovador de Veneza, sentado à margem das árvores que já cumprem os ritos da estação que chegará, puxou de sua lira e dela um hino de louvor de abrigo ao mundo, abriu os braços a quem passava.

 

E por entre quem passava podia-se escutar Steiner a dizer

 

«(…) noventa por cento dos seres humanos não contribuem nada para o avanço do conhecimento, para as conquistas estéticas ou científicas e para o legado das coisas extraordinárias, de que a nossa civilização depende.»

 

E setembro acrescenta

 

«Existe uma espécie de lepra, num mundo que permite a coexistência de crianças esfomeadas mental e fisicamente e de outras de ambientes super protegidos e rodeados de livros e vestimentas da bourgeoisie a fim de que futuramente possam parir um mundo igual em conteúdo de lepras e no eclodir de catástrofes.»

 

Desconheço toda a força do bouquet dos maios, digo, e também a de setembro no enfrentar a insignificante e poderosa escala dos forjadores da infelicidade dos tempos.

 

Os mexericos por eles usados para diagnosticarem se a dose dos seus processos resulta, são o único meio de, como ratos que são, continuarem a viver uma vida de terceira ou 14º ordem que esqueça, inclusive, aqueles que padecem da fragilidade física da doença, da idade ou da ausência de ternura e de amor de desempenho superior.

 

E é setembro! E mais outra vez o mal é a ausência do bem ou a ausência de tudo. Outono e Inverno mesclam-se de mãos para protegerem o bouquet dos maios. O trovador das estações dirige-se ao Verão numa filiação de esperança, mas sabendo que o credo continua a caracterizar a circunstância humana. Sabendo que o credo continua a perguntar-se à beira-mar. E a resposta.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2017