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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA


Diria que saber pensar é o vocativo, a circunstância vital que dá contexto à nossa existência. A insuficiência do esforço é o que nos torna arrogantes na aproximação ao saber pensar. Julgo que teremos de nos ensinar a ler a partir de um nível humilde para avançarmos passo a passo e evitarmos cometer os erros das grandes passadas na vida, que não são mais do que grandes golpadas à vida que se diz não querer viver. Queria dizer que muitas vezes senti que só o ensino é a transmissão de uma fruição, só o poema em qualquer realidade que se manifeste, é superior à falsidade, até aquela que, na súmula, entende ter ganho em todos os tabuleiros do bel canto, ou essa outra que uiva mais alto do que os lobos, e atraiçoa a amiga ou cativa o estranho com fantasias de rapto, afinal, vulgar, pois a solidão escapou-se a ser entendida por falta de uma cultura articulada, por não repudiar inequivocamente uma mesquinhez à qual se justificou ser por amore e con amore.

Quelle effrayante responsabilité, pour nous!

Em resumo, digo que proponho um conjunto de pensares sobre o pensar do pensar. Proponho o pólo oposto até hoje não alcançado, e, façamos sim, tudo de novo, entre a inocência e nós próprios. Tentem-se as novas formas de literacia humanística, e atente-se que são musicais e não textuais ao raciocínio. Então talvez o discurso nos seja incapacitado pelas mentiras da moral que afinal tanto deixámos que nos enfeitasse, tanto quanto o ato de julgar quem menos merecia e que afirmámos, enfim, não fazer a ninguém a partir da consciência do nosso próprio processo de crescimento. Saibamos também desembaraçar as metamorfoses dos valores depois de despidos das análises das suas causas.

Na primeira chuva que vier, uma cerimónia evocará outro contrato cultural, outro recurso que nos será acessível, se para tanto: nós!

Exclamação à nossa sorte! a penetrar a grande profundidade e talvez não inteiramente má.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

CINTILAÇÕES

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande. Ele sabia do seu posto de vigia que mundos eu espreitava e que ele unira como uma tribo que em comum afinal possuía a religiosidade.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e senti o quanto ele se separou dos seres intermédios na busca do significado armilar dos mundos com vocação de abraço.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e entendi um especial significado sagrado e simbólico de matar para entreabrir portas como quem oferece o beijo quente do êxtase inaugural de um conhecer.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e toquei no início dos caminhos dos grandes sistemas que explicam o que se prescreve e se permite e o quanto a história nos fala também num tom piedoso e repreensivo como quem nos diz que afinal, um dia, não se pode evitar fazer de outra maneira e só na caça cumprimos os vestígios do nascimento do homem, sempre que o homem não mate apenas para obter a presa.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e ciumei o seu perceptor Aristóteles e a sua Macedónia e o seu ímpeto de unir impérios e fundar Alexandria onde hoje procuro uma vez mais o Livro.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande aquele que expandiu o helenismo também rumo ao Oriente, aquele que erigiu Bucéfala no atual Paquistão, em memória do seu fidelíssimo cavalo que se assustava com a própria sombra e se deixou domar contra o Sol: cintilações.

 

Um dia espreitei e escutei Alexandre o Grande através do Somewhere in Time, disco da banda inglesa Iron Maiden e creio ter intuído o Helesponto, a atual Dardanelos, estreito na vida de cada um com o grande passo por dar.

 

Um dia, eu quero espreitar cada um a desembainhar a espada com a qual cortará o nó górdio que impede a revelação das múltiplas verdades, esse que impede a alma do ofício do entendimento, e sem nunca revelar o mistério completo, eu quero espreitar a grande nobreza a prometer-se de novo no Ano que chega, a despedir-se do ano que finda e a cumprir-se na notícia do tempo que todos os seres vivos têm para a mudança.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e soube disso na caça das palavras evocativas do… Que sabias realmente?

 

Teresa Bracinha Vieira

Obs Publicado em 27.12.09 no blogue de José Adelino Maltez “TEMPOQUEPASSA”

CRÓNICA DA CULTURA


No Éden, uma vez, era de noite e ainda assim a salvação dos náufragos se vazia com regularidade e leveza. A grande arte do entendimento era visível nestas noites iluminadas pela luz noturna da felicidade. As faias esbeltas e os frondosos ulmeiros do jardim deste local sabiam que dali as andorinhas nunca partiam, e o Éden, sereno de não-poderes, conservava-se inocente e romântico.

 

A ele chegaram durante o resto da noite boreal, muitos violentados, como se não fossem humanos, e, no entanto, eram seres viventes vindos dos subsolos suspensos na sobrevivência. De surpresos, perguntavam-se entre si, se deveriam aguardar um eclipse fatal ao que lhes estava a acontecer - por belo demais ser - ou, por bem conhecerem a sua própria condição, assim aceite, sem luta.

 

Pela manhã o Éden expôs a sua cartografia interior e nela se podiam ler todas as aparências, todas as seduções insinuadas, todas as chaves que se urdiam para a decifração, e, fio a fio, os seres desvendavam os segredos de um outro ser concreto.

 

Confundidos entre os destroços de uma esperança e um desejo de reerguer o mundo, voltou a adensar-se um voo estranho, um voo quieto, sem trégua nem termo, e os náufragos, de muito longe, então, sentiram chegar outro Éden, outro jardim, e nele, uma crença de eventual passagem para a teia do saber primeiro.

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

José: o seu imenso o seu silêncio

 

Imenso também foi o tempo da violentação como o viveu. E só agora me atrevo a escrever sobre José, cinquenta anos depois da sua morte. E ainda não sei se o mereci entender.

 

Conheci o José tinha eu 4 anos e no seu colo senti o colo para onde se quer fugir sempre, num dorme infância minha, minha total confiança doirada! Nos seus olhos uma pergunta tão nítida tal como a sinto hoje: a pergunta que o amor faz ao amor

 

Tu amas-me? Tu nunca me deixarás? Sentirás saudade quando eu partir? Como irás compreender o bosque escondido onde vivo?

 

O José era homossexual ouviste? Nunca te disseram pois não? Pois é. Era sim, e nós ainda pagámos o colchão para lhe atenuar as dores das feridas que nos foi pedido lá do lar dos pobres onde estava. Sim que ele foi lá parar, gastou tudo, e a família não quis saber. Não tinha visitas de ninguém, tinha feridas. Tinha sofrimento e como dizes, sofria seguramente da doença do esquecimento profundo, enfim, depois de tudo ser culpa dele. E gostava muito de ti. Isso era certo.

 

Disse-me a Laura de jeito agressivo, quando eu já tinha 35 anos e lhe falei nele.

 

Mas o José era presidente de… Mas o José era muito culto e conhecia música clássica como ninguém. O José foi combatente na grande guerra e com muita honra arriscou a vida. O José era um homem lindo, cheio de classe, e era de uma ternura envergonhada e sempre imobilizada contra o chão, e eu não percebia o porquê. E se era homossexual, o colchão que lhe pagaram no seu leito de morte, fez de vós melhores pessoas no entendimento áspero da vida dele?

 

Pois digo-vos

 

A casa de seus pais era um sonho de filme e era o dia do seu regresso da guerra. A mãe – de quem herdara a beleza – acabara de sair da cama e penteava os seus longos cabelos quando ouviu as filhas a gritarem, é o José, é o José, chegou da guerra! E por muito improvável que fosse o conteúdo das palavras, a mãe do José desceu a longa escadaria a correr, segurando para não cair, na sua comprida camisa de noite branca, os cabelos até às ancas, esvoaçantes por entre as rendas do penteador, e, de repente, o seu filho fardado, ali mesmo a um ou dois metros e ela caída aos seus pés num choro convulsivo exterior aos limites do seu ser. Senhora do céu em vénia longa e sagrada, e José ajoelhou-se tentando levantá-la

Mãe!

 

Um dia fui ver o quarto onde vivia. Teria eu talvez 11 anos. Vi uns móveis antigos muito requintados, a sua espada e o seu relógio que me olha agora de frente para o meu eu e mundo e futuro e passado tudo nos domínios vedados da vida e da morte.

 

Uma mulher horrível mostrava o quarto vigiando para que nada dele saísse. Era tudo seu, dizia

 

Sabe? Rendas atrasadas devido ao vício luxuoso e repelente que o atormentava, mas ao qual não dizia não. De resto até poucos lhe arrendariam quarto. Eu foi por pena, e por ele ter sido quem foi.

 

Mas vim com um relógio, este que tenho à minha frente, de madeira (um AEG) de horas estranhas a espreitarem numa janela pequenina, enquanto os minutos são a grande varanda do tempo que marca, e também veio comigo um quadro de Acácio Lino, “As amendoeiras em flor” que já não possuo a não ser no fundo dos meus olhos.

 

Tudo do José é do fundo de mim que o procuro, que o velo pois velar sobre ele é ele poder vir ao sonho que estou a sonhar. Escuto cínicos risos ocultos, é certo, mas escuto Puccini. Soube dos gumes no seu peito no dia da agonia amordaçada ainda que nunca de mim esquecida aquando da notícia, mesmo que na altura ela fosse apenas um embaciamento triste e vago.

 

José!

 

Podemos ter a audácia de nada esquecer, nem mesmo esquecer as juras sem motivo. Tudo nos está prometido quando chegamos à vida até a não liberdade da origem. É tão importante saber que agora não tens frio: abraço-te com algodão e estou contigo no meio dos sorrisos dos simples gestos que tivemos, hoje cúmplices e frescos de esperança sobretudo porque em ti

tu que nunca morrerás.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

De cogitar em cogitar enche a ufana galinha o seu papo: tel quel

 

Um dia acordou uma inteligência toda empertigada e mal dormida e resolveu bradar de rompedura qual aristocracia tocada a gota:

 

Não há pachorra! Não aguento ter de aturar as vaidades ocas e possidónias de certos ambientes. Como é sabido estão todos em dívida para comigo ainda que não o digam, ou, ainda que seja eu a pedir-lhes que me escutem, pois é para o bem deles. Só por isso. É para o bem deles. Eles não sabem o grau de indecifração de pensar que têm e eu quero ajudar. De nada preciso. É só para ajudar que faço isto do meu cogitar: ou seja, produzo inteligência, o que é o mesmo que dizer que o meu saber sempre viajou em primeira classe e eis agora a qualidade! É gente inculta e ufana esta que me rodeia hoje, é gente que se vende já que uma mão limpa a outra.

 

Agora eu? Eu? A minha inteligência é rara em grau e dimensão e nem se fala mais nisso. Não me restam dúvidas. Ora. Ora, então o gajo diz-me xxxxxx e ainda me cita sem autorização e fazendo dele o que é do saber da minha inteligência? Eu tenho a minha identidade muito clara e impoluta e se já fiz algumas foi dentro do necessário e sem deixar impressão digital. Agora o que me cerca? Valha-me Deus, posso viver em milhares de lugares melhores e renová-los por competência própria. Não há pachorra para tanta vírgula desencontrada, nem para o alívio das reticências. Num ponto de exclamação não se toca nunca! desde que lá esteja posto por mim, obedecendo às melhores e assépticas regras gramaticais. Mas os meus pobres olhos, até já fazem a correta pontuação onde a não vejo ou a minha inteligência não lesse muito e não fosse dona do livre-trânsito da condescendência de fazer borlas à correção do mal que possa ler. E ainda acham que me estão a dar uma oportunidade à minha inteligência? Isto disse-me o amigo xxxx, à boca fechada, aquele que me chama de excecional e me envia e-mails quase a desconvidar-me: a mim e comigo à minha inteligência, ao meu saber que sabe que há milhares de lugares melhores!

 

Cambada de monocromáticos!

 

Que tempo sem caridade este que não partilha como eu uma sessão de condecorações, uma talhada de presunto do tempo do défice, uma missa cantada à hora de dormir. E mais digo, se a minha inteligência é sarcástica, é tao somente por ter uma teoria muito minha sobre todos e que nunca revelei, nem revelarei.

 

Mas que há milhares de lugares melhores, ai há sim senhora! O que por lá comi foi cozinhado com tédio, é certo, mas com uma exigência….tel quel! Tel quel!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Que me dizes? Já passou o futuro? Então e a gente já não o vai viver? E passou em que tempo e em que rua? Quem te disse?

 

- Pois disse-me o desejo do futuro.

 

- Qual desejo? O teu desejo ou o desejo de todos? Ou o teu desejo do Pedro?

 

- Olha, estou confusa com as tuas perguntas. Não pensei que reagisses tão alarmada. Não vês que o futuro é o presente, e nele o futuro é uma espécie de vida suspensa, e quem o topa, vai, e vive-o. Pronto é isso o que sei.

 

- Mas isso é uma crueldade. Não vês que estou com gripe e a febre não me deixa ir a lado nenhum. Vieste visitar-me para me dizer isso? Ó Rita tem dó, há muitas maneiras de desperdiçar o tempo e dentro dele o tal tempo de futuro que se apanha numa porção especial do presente, mas dizeres-me assim essas coisas sabendo como eu estou? Até já nem sei quando me começou a febre, e se o tal pedaço de presente que é futuro, não tem em consideração uma espécie de suspensão para ser vivido mais tarde, se acaso a culpa não for nossa? Se não tiver em conta a nossa ausência de culpa, então sim, é que estou tramada: perdi imenso com a gripe.

 

- Alexandra tem calma ou a febre sobe-te. Disse-me o Pedro que estes dias em que a gente não topa o futuro, têm mais de 24h e é nesse acima 24 h que está o futuro que, às vezes, pode ser 1h, 10h, ou 1 segundo a mais das 24h. Ninguém sabe mais nada. Acontece.

 

- O quê pode ser um segundo? Pode ser só um segundo para se viver o futuro daquele dia? Ai! que já me sinto muito pior. Vou chamar o médico.

 

- Não! Não chames ninguém. A porção desse segundo foi o melhor beijo que o Pedro me deu. Foi uma porção de segundo imensa! E nada digas a ninguém. Isto é um segredo enorme, pois imagina tu se naquele dia, a porção fossem 10h?

 

- 10h? Que tarefa! Achas que o Luís pode saber disto e nada me ter contado até que chegue o tempo máximo das 10h?

 

- Não sei. Ele olha-te muito, mas enfim, a preparação rouba muito tempo à porção, e entretanto ele gasta-a pondo-te à prova.

 

- E a prova real será eu provar-lhe que aceito viver com ele no futuro? Deus! Não me quero de adivinha, mas pressinto que a sucessão do tempo, se não a acalmarmos, faz o futuro ser agora, e já ter passado, e tudo ao mesmo tempo. Que embrulhada me trazes, Ritinha!

 

- Alexandra, eu é que vou daqui confusa e a pensar que eu e o Pedro fomos mesmo muito parvos.

 

- Porquê?

 

- Ora porque se tu estás certa, e nós que só vivemos aquele futuro num segundo, devíamos era ter esperado mais. Ter esperado que o segundo fossem horas. Estou mesmo a ver que tu aproveitas a gripe e te preparas para as 10h, e ao tempo, dás ainda, na altura certa, um Lexotan à penúltima das horas, ou seja, às 9h. Estou mesmo a ver que primeiro que cheguem as 10h, tens um futuro imenso pela frente!

 

- Bom, a ideia tem pernas ó Rita, mas eu estou doente. Saberás tu quanto tempo dura isso do futuro ser presente? E sabes se se gasta? O meu maior receio, digo-te, nem é bem esse do futuro se gastar, mas o do desejo de o viver se tornar escasso, se acaso não depender só de nós.

 

- Agora é que me afundei. Viraste o tempo contra nós, contra o futuro, contra a tal porção que te falava no início, e tudo isto por conta do desejo estar só em nós. O futuro do qual falamos - cuida-te-, que mal uma pessoa se distrai e as 10h já eram… mas se o desejo for nosso e de alguém, então é que o futuro não é de ninguém e dura para além das 24h, sem que se intua o tempo que estará no para além das 24h.

 

- Talvez não seja como eu penso. Acalma-te! Afinal se esta gripe que me apanhou for a das aves – não te rias - eu contagio-te já, e até podemos voar para além das 10h.

Como sabes, os voos são sempre aproximações aos momentos e estes são bem maiores que os segundos, e até maiores que as horas, aliás estas até se espantam por não saberem quanto tempo a mais das 24h, têm os momentos. Foste uma querida em vir visitar-me. Foste uma querida por me trazeres um algo muito especial e ambas a podermos ir em direção a ele. Já viste? Livrámo-nos da vontade dos outros de nos tornarem distraídas face aos nossos desejos. Aos nossos desejos das porções de tempo de futuro que estão contidos em todos os nossos presentes. E la grande question est de décider ce que l’on sacrifiera: il faut savoir qui, qui, sera mangé, como dizia Valéry.

 

- Nós ou o tempo do futuro?

 

Teresa Bracinha Vieira

30 novembro

CRÓNICA DA CULTURA

 

A MORTALHA DA INDIFERENÇA: a separação dos destinos num único


Um vídeo divulgado pela agência Reuters mostra um bote ocupado por refugiados chegando à Playa de los Alemanes, em Andaluzia, na Espanha, (…) depois de cruzar o Estreito de Gibraltar. O bote com pelo menos 50 refugiados africanos chocou os banhistas da praia. Assim que a embarcação se aproximou da areia, os imigrantes saltaram e fugiram correndo. (10.08.17)

 

Escravos do nosso tempo, gente sem defesa, exposta à violência de todas as partes, alvejados pela indiferença dos banhistas que tanto incomodaram nas praias dos nossos dias.

 

Não sabem eles, nem o amortalhado mundo a que chegam, que, por aqui também o rasgão no diafragma da alma laqueou as artérias da compaixão e sob o calor, na praia, só o bronzeado é pista de vida. Os moribundos de roupas andrajosas fogem, arrastam-se fixa e silenciosamente da morte da partida e da morte da chegada.

 

Não existem médicos, nem medicamentos que atenuem a dor dos que sem clemência, debruçados no chão, vão suportando o olhar inquiridor que até exprime desdém ou ódio ou pasmo ou simplesmente lhe perscrutam a morte pois que com ela se iria embora um problema.

 

Não sabem as gentes que ao aceitarem diariamente a oferta em saldo, de imagens de horror, passam a agonizar em pasmo, sem qualquer surpresa, de que o próprio caminho seja o do abismo. Contudo quando lhes toca algo de mau, em vão tentam traduzir por palavras o seu silêncio: «Porquê eu? Porquê isto? E para onde agora?»

 

Não sei se se deram conta estes sortudos do lado de cá que só têm escolhido profundos ferimentos a seu cargo e semeado as terras de sementes hostis à abundância da fome. Agonizam pois numa viagem que celebram com champanhe. Então, imóveis, os abutres aguardam por óbvias razões que os festins lhes caiam aos pés como espectros de mortos ainda insepultos. Talvez a hora do que deveras deveriam ter feito se chame indiferença hipotecada a preço de sol roxo.

 

Um jornalista ainda pergunta aos persistentes banhistas: quanto tempo vai ficar assim? E por cá? E quando volta? Conte-nos de si dos seus desejos. Acha que politicamente partimos para um futuro sólido?

 

Com justa e impiedosa clareza o amor treme de frio. A indiferença traça a separação dos destinos num único. A revelação dramática da solidão usa protetor solar mascarando o lado atroz da guerra que o mundo enfrenta, sem vergonha de si, como se fosse brutalmente insuspeito.

 

Depois a velhice, a doença, a falta de afeto, as incompreensões, os abandonos, enfim todos os males, são culpa alheia. Fantástica cocaína!

 

Teresa Bracinha Vieira
11.08.17

CRÓNICA DA CULTURA


Existe sim uma tristeza nas gentes daquilo que possa acontecer. E é estranho que este sentir que intuo no ar e nos olhos, dorme ao lado da felicidade. Na fusão da noite dos sentimentos, o medo não enfraquece, antes mina e deixa-nos a temer todas as realidades como modo de ocupação permanente, desde a hora em que o despertador nos acorda até à hora da sonolência cansada nos levar ao sono, e este ao sonho que abarca também a possibilidade de nele perdermos alguém que amamos, como se esse perder nos levasse o amor que por esse alguém sentimos.

 

Dá a sensação de que os passos das gentes assentam em coisas demasiado transitórias e insustentáveis. Em compromissos estranhos de entendimentos, em pactos de silêncio e de sofrimentos.

 

Será tudo isto afetação própria da época em que se nasceu? Não será tudo isto mais conjeturado do que propriamente verdadeiro? Não haverá aqui algo de nonsense pelo nonsense? tal como o princípio que decreta a arte pela arte?, ou a congruência de tudo o que é incongruente? A aptidão da inaptidão? Pergunto-me se os matemáticos estão a fazer férias demasiado grandes deixando espaço a inversões descomprometidas por parte do lógico? E só de o pensar, dá-me calafrios.

 

O que seja a biblioteca de cada um, não lhes passa pela cabeça retirá-la da estante. Contudo vejo bolhas de sabão. Muitas. E, enquanto mundo e nele gentes, em intervalos lúcidos de insanidade, vendo-se a braços com as bolhas de sabão, desnorteiam com sentido, e eu só consigo desejar-lhes casa, desejando-me e desejando-lhes também sítio de mundo para onde queiram sempre voltar no encalço das razões dos livros clássicos.

 

E pergunto-me se os poetas se conseguem erguer tendo no céu e no chão tantas nuvens por determinar, quer no crepúsculo do nascer ou do pôr-do-sol.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Fiz a terceira classe numa escola de aldeia por precisar que bons ares me recuperassem de tremendas alergias. Eu e a avó e a criada ficámos numa das casas de férias de meus pais, que me inscreveram nessa escola para que não perdesse o ano. Enfim, não só não o perdi, como foi o ano em que numa escola primária mais aprendi acerca de tudo e fui muito, muito feliz. Exclui-se desta felicidade que a professora da dita escola, a mim, fingisse que me dava reguadas - eu era a menina fina – e às colegas as ditas reguadas lhes deixassem as mãos marcadas e inchadas. O meu único contributo à correção desta injustiça, passou a ser o de eu começar a chorar muito alto, desde que as reguadas às minhas colegas começassem, e mal a professora as interrompesse e me chamasse para indagar de tão forte choro, eu respondia

 

Dá trauma professora! O meu pai diz que do trauma faz-se queixa à polícia.

 

E pronto, as reguadas terminavam logo ali, e eu sem saber o que era trauma e por óbvio o meu pai nunca dissera aquilo que eu ali afirmara.

 

Assim passei a heroína naquela escola e as minhas colegas, até as da quarta classe - pois estudávamos todas na mesma sala da 1ª à 4ª classe -, davam-me em troca a possibilidade de lhes conhecer os esconderijos das histórias dos beijinhos, em relação às quais eu nada perguntava por não perceber o interesse, mas quanto aos esconderijos, achava-os maravilhosos, cheios de fantasia e fantasmas bons e, foi para um deles que corri quando o Tim-Tim caiu e magoou-se num local onde não era provável que o salvassem. Ali, descobri, naquele dia, o interesse dos beijinhos e enviei muitos ao Tim-Tim dando-lhe força para não ter medo.

 

Desde então, desde esta escola, descobri a maravilha dos caminhos de vinda para casa, coisa inexistente em Lisboa. Cantávamos a tabuada toda durante o percurso 2x1 =2 e 3x4=12/3 e prova dos 9 e prova real e tudo o mais que fosse e sobretudo se calhasse em verso, nós o dizíamos a cantar pelo meio dos campos. Também comíamos umas florinhas amarelas cujo caule era adocicado, e que metíamos dentro do pão, feito na casa de forno de lenha de alguma colega. Alguma delas nos disse que se comêssemos estas florinhas, a falecida costureira de uma velha casa ali perto, nunca nos faria ouvir o dar ao pé no pedal da máquina, envolvendo esse ouvir alguma carga de coisas más que aconteceriam. Por esta razão quis comer também umas bolinhas vermelhas de umas plantas que ali vira e, foi uma menina da 2ª classe que me gritou logo

 

Essas não, minha parva, essas são rebenta bois!

Rebenta bois? Perguntei.

Sim, se rebentam bois o que farão a ti?

 

Enfim, não pedi mais explicações e só chamei a atenção em casa para a minha avó ter cuidado com elas, mas a avó disse-me que as que usava ou eram de piripiri ou de pimenta.

 

Meu Deus! as coisas semelhantes e diferentes afinal e que eu desconhecia! Como era possível em Lisboa encontrar rebenta bois, se bois não eram visíveis, ao menos no bairro onde morava.

 

Por troca de ideias de brincadeiras boas, aferidas por mim como tal, eu fazia às minhas colegas a caligrafia – a umas 7 colegas - dentro dos cadernos de duas linhas, e confesso que nunca achei trabalho tonto, ainda hoje acho um triunfo gráfico que implica beleza e legibilidade.

 

Depois vinha o dia do pão por Deus e lá íamos todas bater à porta de casa de cada um a pedir pão por Deus – fosse lá o que isto fosse, era tradição e pronto - e receber laranjas e uns tostões pelo pedido que logo entregávamos ao pároco. Noutros dias, vinha a Sagrada Família passar uns dias à aldeia, tocando o sino da capela próxima, excitadamente. Esta Família, às vezes, pernoitava em casa de ricos com o consentimento do padre que a conduzia até às respetivas moradas. Escusado será dizer que perguntei logo à avó se éramos ricas para eu poder examinar o que lá ia por dentro da redoma onde vivia a Sagrada Família. Em rigor, uma colega minha chegou a dizer-me que em casa da Sagrada até havia bonecas com longas tranças e que as bonecas as faziam sozinhas! Ora, descoberta esta, fazia-me logo contar algo à altura, e também lhes expliquei, muito baixinho, às minhas amigas e colegas, que não havia milagres pois 2x3 eram 6 e pronto, alguma que desmentisse! Mas, um dia, uma delas contou à minha avó este segredo e lá levei com duas rezas de terços antes de dormir.

 

Não havia net, por óbvio, havia musgo que se arrancava com os dedos para levar para o que fosse o presépio de cada um. Também nos perguntavam sempre na escola, a que dinastia pertencia D. Afonso Henriques. E bem recordo que, aquando de uma destas perguntas, a minha colega de carteira me disse a rir e com a cabeça encoberta pelos braços

 

Este sei sempre. É o que bateu muito na mãe dele para a gente hoje morar aqui.

Ao que acresci

E se te perguntarem que rios conheces na Guiné, deves dizer: todos!

 

E por esta e por outras lá voltei a chorar alto para que a professora não lhe batesse mais pois era trauma de que o meu pai apresentava queixa à polícia.

 

Uma maravilha esta minha 3ª classe! Uma bênção aquelas minhas alergias.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

O que somos na memória dos outros é a casa da nossa descendência.

 

Faça-se a nossa vida de histórias de sismos que vamos gerindo, ou, de vulcões de amores que amámos, ao abrigo de um especial movimento, a relação com a tal nossa circunstância transmite-se a quem marcará tempo e modo de nos recordar com a abertura ímpar do saber e do afeto, abertura que envolverá curiosidade, desconfiança de gestos e a saudade que lhes apraz em companhia, e lhes leva a paz e a inquietação, unidas à sua identidade cheia de contradições.

 

E eis-nos lá, no futuro deles, onde já seremos algo diferente e contudo nós.

 

Diria que até faremos parte de uma família rara: a de um processo que se não impõe, pois, na qualidade de operários diferenciados, voluntários sempre, e chamados como antepassados essenciais a uma paz que lhe doámos válida e consistente e sem que nada se aguarde em troca, como muito acode à herança do afeto familiar. O que somos na memória de quem aí nos deseja é local-casa de um imenso e atento ouvido, nunca diluído nos limbos do esquecimento, antes horizontes que são filtros de ajuda a quem nos chama.

 

Somos assim descendência reconhecida na tessitura de uma torre de Babel que nos vai descodificando por geométricos percursos do sentir e do compreender e do amar e do sofrer. E não será esta torre à nossa descendência, um triunfo da vaidade humana, mas uma palavra provisória, precária mesmo, mas forte no fez-se mundo: «vêem por um espelho e obscuramente», nas palavras de Augustinus.

 

Enfim a casa da nossa descendência vai revelando prodígios e paradoxos com os quais obtivemos raciocínios, até aquele que nos fez esperar a morte para que esta desse sentido à vida, qual zero que atribuiu operacionalidade ao olhar de onde e para onde.

 

E neste acreditar que seremos parte da memória dos outros, e sua e nossa casa, não existe gregaridade, ao invés, tal como nas primeiras causas, soltos seremos em tudo quanto nos suceda no tempo de uma eternidade que acede enfim a quem nos visitará.

 

Porventura na dimensão do mistério do vértice ardente da labareda, ali mesmo onde se oculta decerto uma ideia de casa, uma ideia de Deus, a de Deus em nós, ou a de Deus neles, ou no todo; ou imunes a um contágio, assim, se outro ângulo for aquele por onde se entendem as razões de sermos a memória do nós na descendência, será afinal esta, fenómeno natural,  provocação mesmo que se sustém por si e tão só!

 

Teresa Bracinha Vieira