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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 10 a 16 de abril de 2017.

 

«Occasionalia – Homens e Ideias de Ontem e de Hoje» da autoria do Padre Manuel Antunes, S.J. (Multinova, 1980) é uma reunião de textos sobre figuras e ideias marcantes do século XX, onde a personalidade muito rica do académico e grande mestre da cultura se manifesta em toda a sua plenitude.


 

A FORÇA DA CULTURA
A cultura para o nosso autor é, entre muitas outras coisas, tradição, diálogo, especialização e interdisciplinaridade. Sem tradição, há o risco de se cair no infantilismo e no primarismo; sem diálogo, pode cair-se «na sofística mais labiríntica e/ou obsessiva, no hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação»; sem especialização pode ficar-se em generalidades inócuas ou em afirmações sem fundamento; e sem interdisciplinaridade falta a perspetiva de conjunto e as árvores impedem a visão da floresta… A sociedade contemporânea tem de compreender que a capacidade criadora depende do conhecimento, da visão de conjunto e do entendimento da complexidade. O Padre Manuel Antunes foi um dos professores da Faculdade de Letras de Lisboa mais respeitado, pelo conhecimento, pela sabedoria, pela abertura de espírito e sobretudo pela extraordinária capacidade de tornar próxima a cultura clássica. Nas Memórias, há pouco dadas à estampa, de José Medeiros Ferreira está bem expressa a grande admiração que o intelectual devotava ao grande mestre. No Centro Nacional de Cultura recordamos também a sua influência e o seu magistério, determinantes na compreensão das mudanças necessárias na sociedade portuguesa no sentido da democracia, do pluralismo, em nome da dignidade da pessoa humana. A sua ligação a Sophia de Mello Breyner, aos poetas e escritores que se situavam na esfera de influência de «O Tempo e o Modo» foi muito significativa. O cidadão e o professor de Cultura Clássica complementavam-se, assim, naturalmente – em nome de um humanismo centrado na ideia de aperfeiçoamento constante da pessoa humana e da centralidade da consciência histórica. Como Werner Jaeger, que tanto admirava, pode dizer-se que Manuel Antunes também habitou três pátrias – considerando, além da própria, a Antiguidade e o Cristianismo. E o elo que as une é a filologia, a história e a filosofia. Para o português, talvez mais a literatura. E é assim que lembra a afirmação do mestre alemão: «Todo o humanismo antigo é orientado para a imitação de um modelo. O cristianismo tinha aceitado desde o começo este pensamento, mas referia-o a Cristo. (…) O processo de formação do homem tornou-se o processo de formação de Cristo nos cristãos»… Por ocasião da morte de Gabriel Marcel, em 1973, o pensador afirmava que o filósofo foi dos que melhor soube compreender o perigo da substituição progressiva e total do sagrado pelo profano, bem como das técnicas manipuladoras ou de lavagem aos cérebros de milhões e milhões de seres humanos. E o autor salienta como doía a Marcel a vontade reducionista que via «nos princípios, nos métodos e nas estruturas das ideologias do seu tempo». Hoje, sentimos os efeitos dessa tendência. Eis o que está em causa: o vazio ético e espiritual gera a tentação do fanatismo – em lugar de favorecer o respeito mútuo, o pluralismo e a salvaguarda da liberdade de consciência. Notícias inquietantes enchem os periódicos.

 

ENTRE A ARBITRARIEDADE E A INTOLERÂNCIA
A indiferença gera a arbitrariedade, a simplificação abre caminho à intolerância. E lembra o jesuíta a emergência não do espírito de verdade, mas do mero espírito de verificação - «espírito não do primado dos fins mas da soberania absoluta dos meios; espírito não de contemplação mas de ação e manipulação das pessoas e das coisas; espírito principalmente hábil, organizativo e tecnocrático que a racionalização conduz e a eficiência inspira». Não que a experiência e o sentido crítico devam ser desvalorizados, mas urge que não se caia na tentação do abstrato. «A abstração, isolando e desvinculando seres e realidades, ergue, vai erguendo, sistemas fechados, que surgindo com a pretensão de encerrarem a totalidade, a mutilam e a deformam»… E qual o resultado? A demonstração de que a indiferença e o fundamentalismo são faces de uma mesma moeda… «O fanatismo, a despersonalização e a massificação, eis os resultados». Gabriel Marcel falava, por isso, dos homens contra o humano. E assim «os extremos do racionalismo e do irracionalismo tocam-se na mesma abolição das diferenças, na mesma promoção do uniforme e do homogéneo, na mesma negação do humano». A desordem que oprime e a ordem que reprime são expressões da mesma violência. E o que presenciamos hoje nesta tremenda escalada do ressentimento e da irracionalidade representa, no fundo, que «violência da paixão e violência da razão são as duas faces da mesma realidade histórica do ideologismo». E nessa palavra se resume a intolerância dos que julgam possuir o exclusivo da verdade e da razão. O Padre Manuel Antunes recorda, a propósito, o seu encontro com Gabriel Marcel: «estou a vê-lo na sua infinita curiosidade por tudo quanto é humano, nobremente humano, de preferência, e se revela através de uma superior forma de cultura: poema, quadro, drama, romance, música, pensamento filosófico e reflexão teológica, principalmente». Como «homo viator» buscava a unidade e a coerência, na «disponibilidade de serviço em prol do humano, na sua busca permanente de mais justiça, de mais verdade e de maior amor entre os homens».

 

DIVERSOS REGISTOS E SENTIDO CRÍTICO
Os textos que compõem «Occasionalia» homenageiam figuras como, e damos apenas alguns exemplos: Blondel, Guardini, Maritain, Eliot, Graham Greene, Waugh, mas também Tomás More, Pascal e Claudel, Raul Brandão, António Sérgio, José Régio e Vitorino Nemésio; analisam Kafka, Malraux, Gorki, Steinbeck, Gide, Chateaubriand, Toynbee ou Bloch, Heidegger e Marcuse; interrogam Croce, Hegel, Marx, Lenine e Mao. Estamos, afinal, perante a extraordinariamente fecunda produção publicada nas páginas da «Brotéria», onde o autor se desmultiplicou em pseudónimos, reveladores da sua grande versatilidade e de uma singular capacidade para compreender o mundo moderno. E podemos, a propósito do que o autor diz de Pascal, apontar uma síntese, aplicável ao nosso cicerone: «ele continua vivo (…).Partindo da meditação sobre a condição humana, a sua reflexão projetou-se além, muito além de esquemas e de formalismos, de sistemas e de conteúdos que costumam limitar o pensamento de tantos filósofos e cientistas dos tempos modernos. A nós, nesta hora incerta e conturbada, neste momento crucial da história humana – e nossa, principalmente – compete recolher a lição».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA


O ESQUECIMENTO NÃO TEM LUGAR

Na paleta das cores o anoitecer não acontece. Existe uma espessura para quem entende a luz que impede que se possa perder a vista das razões; e dentro desta, é fabuloso o grande cérebro que nunca entenderá os cérebros das diminutas melgas que se tormentam para deixar rasto.

 

Julgo existir um alívio absurdo em quem deita fora o tempo da própria vida numa total indecifração do mundo e de si. Para eles a cor imensa da paleta das cores, nunca foi uma coragem para pensar sem restrição. É um sonso regímen aquele que se auto impõem ou um xadrez inepto? Não sei, ou talvez o entenda como um grande silêncio inculto onde e aonde tudo começa e acaba.

E disse ao soldado

Não o esperava a meditar nas fotografias não tiradas

Pois eu também não, mas os negativos de tudo o que os meus olhos viram, estão aqui algures dentro de mim. Penso muito nisto e quando penso, não sei explicar. Mas está cá.

Pois é, nunca sabemos tudo e muito menos explicar tudo ou olhar as coisas como se fossem uma paisagem à nossa frente, ali, clara, óbvia e dizê-la. Por exemplo, o âmbar engole insetos e mostra-os depois, muitíssimos tempos depois e sempre com o mesmo aspeto. É um lado estético, inquietante, e intriga-nos, soldado pensador. Aqui o rio Nilo nunca se desvia. E agora sou eu que não sei dizer as coisas de outro modo. Mas disseram-me que gosta de pintar, é certo?

Sim, agora ando a pintar a Europa.

A Europa? E como o faz?

Olhe, perguntando-me como chegou ela a este estado? É tão incompreensível. E para mim soldado nascido na aldeia escondida atrás da serra que às escondidas brincava comigo, ainda menos entendo hoje como se fala da cultura ou dessas coisas complicadas, sendo fácil de entender que tudo está cortado ao meio como se nada estivesse a acontecer. Olhe, a este facto dei duas cores: o amarelo e o amarelo-vivo.

Curioso. Tonalidade e uma cor.

Deixe- que lhe diga, soldado, continue a pintar o coração dos tornados e encontrará muitos países sorvedouros dos engenhos das ideias, e, talvez por aí, a paleta das cores mais exatas à Europa de hoje e que procura dizer nos seus quadros. Mas olhe, eu conheço pessoas da Europa do ontem e do hoje que até intuem o tanger das águas no meio das barulhentas multidões; eu sempre as soube nem presas da caça nem das guerras, mas lutadoras como soldados que provam harmonias, e recordam com coragem o que nos foi subtraído, e de um tal lidar com o mundo, delas a paleta das cores será sempre a audácia que só pertence a quem, o esquecimento nunca ocupará lugar.

Assim Mário Soares. Assim a História que tem sempre um lado de restituição: um átomo que conhece a hora certa do esbanjar de vida numa alegria, quando todos estão exaustos.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2017

PARA UMA NOÇÃO DE CULTURA

 

1. Aquilo a que chamamos cultura é inviável positivá-lo, em termos deterministas, atenta a sua elasticidade e plasticidade. Se inexequível a obtenção categórica de uma noção de cultura, isso não invalida que, por razões funcionais de natureza pragmática, se proceda a uma tentativa de delimitação do seu conteúdo.

Carateriza-se por tudo o que é humano e pode ser transmitido, por tudo aquilo que o ser humano faz, por tudo o que está relacionado com a criação humana, como um sinal de criatividade e humanismo, integrando todas as coisas ou operações que a natureza não produz e que lhe são adicionadas pelo espírito.

Em sentido restrito, numa definição mínima, traduz a herança canonizada e solenizada pelas instâncias clássicas de legitimação, o património artístico, erudito e intelectual de feição humanista, legado pelas artes, saberes e certas tradições, condicente com o universo das belas artes e das belas letras, uma cultura de eleição, superior, mais abonada de assunto e de forma, cujas manifestações, quanto mais criativas e vanguardistas à época, mais se aproximam do mundo ideal e se afastam do que é tido como regra da ordem real.

Numa interpretação intermédia, além de conter a criação e a fruição mais culta, convive com a ciência, a tecnologia, o ensino, a formação, a religião, onde a esfera estadual e do pensamento convivem de modo especial.  

Numa aceção mais ampla, engloba uma realidade complexa, agregando elementos de natureza antropológica, filosófica, histórica, sociológica, incluindo raízes, memória, herança e história, com a aceitação de uma noção aberta e policêntrica, atuando na vida corrente a vários níveis, desde a cultura erudita à popular, aglutinando criatividade, inovação, tradição, pluralismo. Esta culturalização global e indiferenciada coloca no mesmo regime a arte, a ciência, a religião, a tecnologia, o desporto, o luxo, a literatura, a poesia, a gastronomia, os monumentos, o património natural. Não surpreende que a região vinhateira do Alto Douro, a paisagem da vinha da Ilha do Pico, a floresta laurissilva da Madeira e a dieta mediterrânica integrem a lista do património mundial da Unesco, ao lado do centro histórico de Guimarães, de Évora, do Porto, de Angra do Heroísmo, do Convento de Cristo em Tomar, do Mosteiro da Batalha, de Alcobaça, dos Jerónimos e da Torre de Belém. Nem que a lista do património cultural e imaterial da humanidade integre o fado e o cante alentejano, a que acresce, desde dezembro de 2016, a arte da falcoaria em Portugal. Ou que em termos de património cultural e imaterial da humanidade se apele para a necessidade de salvaguarda urgente da manufatura de chocalhos em Portugal ou da olaria preta de Bisalhães. Sem esquecer o património cultural subaquático, entre outros.

2. Recriando-se continuamente, é incerto prever em concreto o futuro da cultura, levando a que se defenda uma mudança de paradigma: 

“A nova imagem da cultura não é apenas a cultura erudita de recorte humanista (as artes e as letras), nem a cultura de tipo antropológico (tudo o que não é natureza é cultura), nem a cultura de massas no sentido tradicional do termo. É algo que a atravessa, acolhe, mas designa já outra coisa. A cultura é hoje uma dimensão dominante em que está em jogo o que o sujeito faz de si mesmo, sem que se definam intermediários conscientes e explícitos que tutelem o sujeito”. (Eduardo Prado Coelho, “O Futuro da Cultura (1)”, “O Fio do Horizonte”, “Público”, 14.09.05).

A par de uma subjetivização da cultura, com tendência para a sua privatização, em que as novas tecnologias nos permitem ver e ouvir em casa cinema, música, ópera, há o seu reverso, em que o indivíduo mergulha numa realidade envolvente, criando-se um sentimento eufórico do grupo, de que a música entre os jovens e o desporto entre adultos são seu exemplo. A que acresce a globalização da cultura, com uma estetização do quotidiano, desde motivos no calçado, vestuário, latas de conserva, invólucros de sabonetes, revestimentos de prendas, design e capas de livros, música fracionada e de ambiente que se ouve enquanto se corre, espera, estuda ou opera. Onde também emerge o culto e a materialidade do corpo, tomando-o como objeto de arte (esculturas humanas  firmes, pintadas de dourado, prateado, num cromatismo chamativo), ou no suporte de várias tendências da arte contemporânea (moda, piercings, tatuagens).

“Verificamos (…) uma alteração das experiências do tempo e do espaço: existe uma compressão do tempo (Giddens) e uma diversificação dos espaços (…). Derivado do espaço temos o culto da velocidade ou os chamados “efeitos especiais”.

(…) implica uma redistribuição das instâncias culturais: de um lado, a cultura erudita, cada vez mais impregnada da cultura de massas; do outro, a cultura de massas, cada vez mais em ser reconhecida pela cultura erudita. Certas práticas artísticas marginais ganham particular relevo: a fotografia, a arquitetura, o vídeo, a banda desenhada, os jogos no computador, etc. No fundo (…) temos a consciência ecológica e a relação cada vez mais intensa entre cultura literária e cultura científica.

É neste contexto que a cultura terá de desenhar o seu futuro”
(Ibidem, “O Futuro da Cultura (2)”, “Público”, 15.09.05). 

Também a cultura humanista, que coloca o ser humano no centro de tudo, está em transformação, para alguns em decadência, dada a emergência de um novo agente transformador: a máquina, com consequências no ver, falar, ouvir, ler e escrever.  

 

Nesta sequência, a cultura é um universo permanentemente questionado, o mesmo sucedendo com o seu refazer permanente.

 

03.01.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

O Teatro Pax Julia de Beja


REVIVALISMO MOURISCO EM TEATROS DO ALENTEJO

Não se pretende neste artigo referir exaustivamente o conjunto de Teatros e Cineteatros do Alentejo, mas salientar, numa primeira abordagem que depois se irá especificando, a evocação de um chamado “estilo mourisco” em sucessivas salas de espetáculo da região, construídas a partir de finais do século XIX e em muitos casos ainda hoje em plena atividade. De tal forma que, repita-se, a algumas delas voltaremos com mais detalhe.

 

O mais significativo dessa linha arquitetónica será o Teatro Garcia de Resende, de Évora, já estudado nesta série: projeto do Arquiteto Silva Monteiro, datado de 1887, constituiu até hoje um dos grandes centros de cultura teatral da região. Mas também oportunamente referiremos por exemplo o Teatro Marques Duque de Mértola ou o Cine-Teatro Sousa Teles de Ourique, entre outros mais.

 

Hoje falaremos do Teatro Pax Julia de Beja, já pelo edifício em si, já pela própria trajetória funcional, cultural e arquitetónica e da relevância que sempre assumiu, em funções diferenciadas (e não pouco!...) mas sempre muito relevantes.

 

Com efeito, estamos neste caso perante a adaptação do antigo Hospício de Santo António, contíguo ao Convento da Conceição, ao qual pertencia quando foi contruído nos anos 20 do século passado. E é caso para dizer que o processo de intenções, no sentido de dotar Beja de um Teatro, vinha pelo menos de 1866, ano em que se começou a falar da necessidade de um teatro…

 

O edifício atual foi inaugurado em 1928. Em 1949 sofre obras profundas de atualização e reforça a atividade de exploração cinematográfica. Por essa altura, introduz-se um segundo balcão e procede-se à demolição das frisas e camarotes originais. Não é caso único por esse país fora: e em qualquer caso, funcionou como cinema até ao início dos anos 90.

 

Em 1994 a Câmara Municipal de Beja adquire o Cinema Pax Julia e um edifício vizinho, para reformulação da sala de espetáculos. Beneficiando de apoios do Ministério da Cultura, a Câmara procede então a uma vasto programa de obras de restauro, conduzidas segundo projeto da Arquiteta Maria Francisca Romão. E desde logo, no edifício contíguo, é instalada uma sala-estúdio que reforçou e de certo modo diversificou a atividade de espetáculos.

 

E talvez devido a esse prolongamento de vizinhança, o velho Teatro Pax Julia beneficia também de profundas alteações estruturais.

 

Desde logo, um segundo balcão, acrescentado nas obras de 1949, é suprimido, adequando melhor a sala, precisamente, a espetáculos de teatro e não de cinema. Ganha-se espaço para equipamentos técnicos e áreas de apoio ao espetáculo. E também a própria plateia é reduzida para maior conforto dos espetadores.

 

Desse modo, a lotação do Teatro reduz-se a 650 lugares: mas o termo “reduz-se”, num teatro, é força de expressão!

 

E fazemos ainda referência a dois Teatros que, na proximidade geográfica e cultural, assumem também, como o Pax Julia, evocação do estilo arquitetónico “mourisco”, digamos assim mesmo.

 

Desde logo, o Teatro Marques Duque, de Mértola, sala de pequenas dimensões, construída em 1913, restaurada pelos Arquitetos M. Andrade e Manuel Transmontano, hoje com menos de 170 lugares. E o Cine-Teatro Sousa Teles, de Ourique, este praticamente abandonado no princípio do século mas agora recuperado pelas Arquitetas Céu Oliveira Pinto e Luisa Biscaia, lotação de 183 lugares, com uma área e uma função museológica relevante.

 

Mas desses dois teatros falaremos em outra crónica.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

Evocação histórica dos dois Teatros de Faro (II) - O Teatro das Figuras

 

 

O TEATRO MUNICIPAL - TEATRO DAS FIGURAS

 

Vimos, em crónica anterior, o historial e a atividade do Teatro Lethes de Faro. Na sequência, referiremos hoje o Teatro Municipal de Faro, inaugurado em 2005 mas também conhecido por Teatro das Figuras, evocação de uma tradição urbana que vem do século XVIII: aliás, recorde-se que o Teatro Lethes surge em 1843, na adaptação de um edifício monástico que esse, começou a ser construído em 1599.

 

A expressão “Teatro das Figuras” decorre pois de uma construção de 1740, junto ao Solar da Horta do Ourives, cuja capela data daquele ano. O edifício ou o que dele resta denominava-se A Casa das Figuras pela decoração com figuras híbridas de pessoas e animais, numa alegoria insólita. Na mesma zona da cidade, assinala-se ainda o Solar de Veríssimo de Mendonça Manuel, também classificado.

 

 Mas vejamos A Casa das Figuras. Tânia Pereira descreve “os seres meio humanos e meio animalescos, quase antropomórficos, meio diabos e meio figuras jocosas, típicas do teatro barroco, uma feminina e outra masculina (que) marca no centro da imagem. O ser que encima a empena é um homem ou uma entidade, mas sem pernas. É ele o ser mais humano (…) Os outros são uma mistura de alegoria com zoologia. Entende-se uma ponta de ironia no conjunto que também olha para quem passa”. (in “A Horta do Ourives” - revista “Monumentos”, ed. DGMN, Março 2006, pág. 119).

 

Este conjunto arquitetónico (Teatro e Casa das Figuras) valoriza e caracteriza a zona central da cidade que para ali se prolongou. Com efeito, a traça setecentista do Solar harmoniza-se com a força arquitetónica e com a modernidade do Teatro, projeto final do arquiteto Gonçalo Byrne, numa implantação em H, alternando fachadas com zonas de janelões e contraste na implantação de paredes revestidas de pedra de tom amarelo, também notáveis na conciliação com a modernidade do conjunto do edifício e da área urbana.

 

A sala principal comporta 800 espectadores, com um fosso de orquestra para 70 executantes e uma estrutura cénica designadamente no palco, que permite, como tem sucedido ao longo da década, concertos de grande orquestra e ópera.

 

Esta proximidade e simultaneidade do Lethes e do Teatro Municipal devem ser devidamente realçadas. Tal como tive já ocasião de escrever, “a diferença de dimensões e lotação (do Teatro Municipal) relativamente ao Teatro Lethes, parece marcar uma certa vocação para cada uma destas salas, na medida em que o concerto sinfónico e a ópera, em geral exigem maior espaço e chamam mais público, até porque os espetáculos são em menor número para cada programa. Isto, com as exceções para ambos os lados, que bem se conhecem!” (in “Teatros em Portugal - Espaços e Arquitetura”, ed. Midiatexto, 2008, pág. 98).

 

 

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

Evocação histórica dos dois Teatros de Faro (I) - O Teatro Lethes

 

Tem interesse cotejar, no ponto de vista histórico e arquitetónico, as duas principais salas de espetáculo teatral de Faro, tanto pelos edifícios em si e na sua funcionalidade artística, como na perspetiva do que representa esse cotejo na própria evolução urbana, económica e cultural da cidade e do país.

 

E isto porque a existência e o historial de um teatro reflete diretamente e reciprocamente, as mudanças que entretanto vão decorrendo: neste caso através do cotejo e das implicações significativas dos dois Teatros de Faro, o Teatro Lethes e o Teatro Municipal, também chamado Teatro das Figuras.


O primeiro ocupa um edifício do século XVII, transformado em teatro no século XIX. O segundo foi inaugurado em 2005. Vejamos hoje o primeiro, e em próxima crónica o segundo.

 

O edifício do Teatro Lethes remonta pois ao século XVII e corresponde, com poucas alterações no exterior, ao antigo Colégio dos Jesuítas que se instalam na cidade em 1599. Lá se mantêm até 1769: e exatos 10 anos decorridos, o edifício retomou a sua vocação religiosa, abrigando a Ordem dos Carmelitas, até 1834. Ficou a tradição de um impressionante conjunto de talha entretanto desaparecida. E o exterior mantem fortes vestígios da traça original.

 

Mas em 1843 o edifício é adquirido por um médico italiano, Dr. Lázaro Doglioni, nascido em Veneza em 1778. Quis o destino que em 1804, embarcado a caminho de Inglaterra, Lázaro tenha naufragado ao largo do Cabo se São Vicente. Sobreviveu e fixou-se no Algarve. E nesse ano de 1843 adquire o Convento devoluto e inicia trabalhos de transformação/adaptação a Teatro. Para isso, contou com o apoio de um sobrinho também médico, Justino Comano, chegado a Faro em 1840.

 

O mais extraordinário é que o Teatro Lethes fica na família até 1951, tendo começado a funcionar também como cinema no início do século. Naquele ano, entretanto, é vendido à Cruz Vermelha. E manteve, não obstante o ciclo de transformações, o caráter arquitetónico exterior do Convento e a estrutura interior de sala de espetáculos dos séculos XVIII/ XIX, com a rede de camarotes adequada à dimensão da sala.

 

José Carlos Vilhena de Mesquita descreve as adaptações da antiga Igreja e Convento a sala de espetáculos. “No lugar do altar-mor ficava a Sala Verde do teatro e no coro da Igreja que se situava junto à frontaria, erigiu-se o respetivo palco” (in “O Teatro Lhetes”, 1988, pág. 24).

 

No início do século passado fazem-se novas adaptações, com intervenção de José Filipe Porfírio. Mas, tal como refere Paulo de Almeida Fernandes no “Portugal Património” que temos aqui citado, “o teto é a parcela mais importante do sistema decorativo: sob um cenário celestial exibem-se quatro figuras mitológicas (duas masculinas e duas femininas) a tocar flauta, clarinete, harpa e violoncelo, sob o regozijo de uma superior figura alada, que lhes lança coroas de louro em sinal de glória a aplauso”… (ed. Círculo de Leitores, vol. IX, 2008, pág. 322).

 

E assim perdura até hoje o Teatro Lethes: como noutro lado escrevi, “o aspeto continua a ser algo insólito, com a velha e poderosa fachada jesuíta encimada pela divisa Monet Obletanto e com a sala de traça romântica, frisa, três ordens de camarotes e uma belíssima alegoria à música no teto e na boca de cena” (in “Teatros de Portugal”, ed. Inapa, 2005, pág. 73).

 

Em próximo texto evocaremos o moderno Teatro Municipal de Faro, também conhecido por Teatro das Figuras.



DUARTE IVO CRUZ

 

 

A VIDA DOS LIVROS


   De 22 a 28 de agosto de 2016

  

 

«Uma Excursão à Serra do Algarve» de Manuel Viegas Guerreiro (C.M. Loulé, 2ª edição, 1991) é uma descrição saborosa e utilíssima de um investigador notável da cultura portuguesa e das repercussões desta no mundo…

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ALGARVE, RICO CULTURALMENTE…
Nestes dias de Agosto apercebo-me de que muitos dos que demandam o Algarve pouco se apercebem da extraordinária riqueza de uma região com virtualidades culturais ainda pouco conhecidas. É magnífico o mar. É rica a terra, mesmo com a secura, sobretudo pela força mediterrânica… Como disse António Ramos Rosa: «No silêncio da terra. Onde ser é estar. / A sombra se inclina. / Habito / dentro da grande pedra de água e sol». É essa grande pedra de água e sol que tem de ser mais valorizada e protegida. Serra, barrocal, costa marítima – tudo se complementa pela extraordinária mata e pelos largos campos do fecundo regadio com o acolhedor odor tão especial dos pomares de citrinos e das vetustas oliveiras milenares. A alfarrobeira é talvez a mais generosa das árvores, que tudo dá, e tanto tempo foi esquecida. «A alfarrobeira, volumosa, possante e muito verde infiltra-se pelos corregos, anunciando a presença do Algarve típico em terras de montanha» (M.V. Guerreiro). As figueiras têm tal diversidade que nos levam sempre ao prazer redobrado de ter frutos deliciosos de junho a setembro – e depois ao usufruto divinal dos figos secos, invejáveis. Minha avó Ana tinha mãos mágicas para garantir que houvesse sempre figos sobre a mesa durante três meses. As amendoeiras, essas são tanto mais belas e capazes de produzir deliciosas amêndoas doces quanto mais frágeis. E não há uvas de prato mais doces do que as do Al-Gharb do Al-Andalus…Tudo é doce, como cantaram os poetas de Silves, quando o Arade era navegável e ali estava a Bagdad do ocidente – romãs, albricoques, damascos, ameixas, melões e melancias, tudo…

 

TERRA DE LENDAS E ENCANTOS
«Minha terra embalada pelas ondas, / Onde o amor tece lendas e onde as fadas / Em castelos de lua dançam rondas…». É Cândido Guerreiro, que já não conheci, mas de que me falava o avô Mateus, quem elogia esse país de mouras encantadas, com amendoeiras em flor, em fevereiro, que mimam a brancura da neve e revelam os mistérios inesgotáveis da história moçárabe ou da cooperação entre judeus, cristãos e muçulmanos – de que me fala, com conhecimento de causa e entusiasmo (mas preocupação), Adel Sidarus. Aqui o Mediterrâneo tornava-se Atlântico, os fenícios cruzavam-se com os normandos. E os povos misteriosos do Sul, do Sol e do Sal ainda se estão por descobrir, entre vilas romanas e colónias gregas, entre cónios e tartéssios e uma escrita de poetas e comerciantes ainda por desvendar. Há quase tudo por descobrir, o Algarve é finisterra de finisterra, culminando no promontório sagrado, por isso o Infante D. Henrique veio em busca dos descendentes dos marinhos, que não tinham medo das águas e acolheram Ulisses, vindo de Troia em busca de Ítaca. Aqui se plantou a cana-de-açúcar, aqui se capturou o atum, como nas arenas do sacrifício do mar Egeu, aqui se repetiram pescarias milagrosas da sardinha e se desenvolveu a indústria conserveira… Em Querença, homenageou-se a Literatura, sob o espírito protetor do Professor Manuel Viegas Guerreiro e da sua Fundação. O Festival Literário de Querença (FLIQ) enalteceu a Palavra «em todas as suas formas – dita, lembrada, escrita, cantada, subvertida, dançada, repetida, encenada, discutida… e os seus protagonistas» - no dizer de Luís Guerreiro, que está de parabéns e merece um especial aceno em nome da arte, da educação e da cultura… E pudemos ouvir Casimiro Brito em «Arte da Representação»: «Amar é aspirar as forças generosas que me rodeiam, o sol e os lumes, as fontes ubérrimas que vêm do fundo e do alto, água e ar, e derramá-las no corpo irmão, no cadinho que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equilíbrio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas». E não esqueço ainda a homenagem recente do Município de Loulé a Lídia Jorge, com a presença do Presidente da República, que constitui mais do que um reconhecimento pessoal – é o elogio da cultura, da educação e das humanidades, num sentido amplo, a que a autora de «O Dia dos Prodígios» tem dedicado a vida inteira.

 

UM ETNÓGRAFO DE EXCEÇÃO
Manuel Viegas Guerreiro, com quem tive o gosto de falar longamente, como mestre dos mestres, discreto, sábio, memória viva da Etnografia, discípulo dileto de José Leite de Vasconcelos e de Orlando Ribeiro, deve ter aqui uma referência especial, sobretudo para quem deseja que o Algarve Cultural entre mais na ordem do dia. Lembro-o como se fosse hoje e nunca o esquecerei. «A cultura é só uma, tudo o que aprendemos do nascer ao morrer, da nossa invenção ou alheia, sentados nos bancos da escola ou da vida». Recordo, por isso, a sua descrição colorida de uma peregrinação científica a Monchique. E poderíamos também lembrar o extraordinário «Uma Excursão à Serra do Algarve» (C.M. Loulé, 2ª edição, 1991), onde invoca o sobreiral das umbrias que «não move uma folha. Nem homens, nem aves, nenhum indício de vida animal. Um silêncio absoluto de sonho e mistério. Quase me parece sacrilégio misturar palavras ao divino sossego da Natureza»… Mas ouçamo-lo então, no Livro de Homenagem a Orlando Ribeiro (volume I, 1984): «Alugados na vila dois burros e um guia, abalámos para a Foia. Os burros e o moço ora atrás ora adiante de nós a pé, o mestre (Orlando) fazendo matéria de tudo quanto via, dos acidentes do terreno aos modos de vida e formas de povoamento. Do cimo da Foia pelo Barranco dos Pisões até à estrada principal. E de casa em casa, de moinho em moinho, nos foram enchendo de viático e sobretudo de aguardente, da sua aguardente sempre a melhor, ritualmente obrigatória, que nos ia tomando o corpo. E os burros adiante e os burros atrás, e nós sempre a pé até Monchique. Alongavam-se as sombras da tarde e mesmo assim, o corpo cansado, nos metemos a caminho das Caldas, por trilhos e corta-mato, da Picota à pensão do Fernando, onde chegámos à meia-noite, depois de penosas horas de marcha, em que até nos perdemos, mais mortos que vivos, mas não tanto que nos não regalássemos com uma soberba refeição. Trabalho de campo e trabalhos de campo foi o que nesse dia tivemos». Estou a ver o quadro todo: os burros e as cangalhas, quantas correrias neles fiz…, o moço distraído do cansaço dos mestres, a subida íngreme da serra, os caminhos e os trilhos irregulares, e depois a soberba canja de galinha pica no chão e o arroz de cabidela e, por fim, os lençóis de linho gelados e uma manta de papa para aquecer… Era assim a Etnografia e a Geografia na prática. E era assim essa relação de Viegas Guerreiro e de Orlando Ribeiro à cata do Algarve profundo. E, quanto a Orlando, «era um regalo vê-lo conviver com o povo, com o “bonito modo” que este tanto aprecia. Aonde quer que se demorava, deixava saborosa lembrança. Fomos um dia ao mar, à pesca da sardinha, ao largo de Portimão, e foi o bastante para nunca mais ser esquecido pelo mestre José Estêvão, que levou anos a perguntar-me pelo Doutor Orlando».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

CULTURA COMO VIDA

À memória de Raul Solnado.

 

Há algumas semanas, quando tive a alegria de saber que a Cidade Velha na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, tinha sido integrada na lista do património mundial da UNESCO, lembrei-me imediatamente de que, se estivesse connosco, o António Alçada Baptista teria sentido um enorme júbilo, não tanto pela decisão formal, mas pela homenagem a um povo extraordinário e pelo reconhecimento de um símbolo fundamental da identidade cabo-verdiana. A lista da UNESCO é longa, mas a Ribeira Grande é irrepetível, e ali ainda estão vivos os ecos dos sermões do Padre Vieira, mas também sentimos a memória de livres e escravos e a ligação fecunda entre as várias culturas do Atlântico. E falar de Cabo Verde é referir-nos a uma cultura de afectos (e a palavra não pode banalizar-se, apela à economia das trocas e dos dons), à “cultura da morabeza” (palavra doce e misteriosa que significa apenas “amabilidade”), encruzilhada riquíssima de uma lembrança histórica comum feita de encontros e desencontros, mas sobretudo de disponibilidade, de emancipação, da capacidade de encontrar a dignidade das pessoas. E recordamo-nos do “Chiquinho” de Baltazar Lopes da Silva, protagonista maior do movimento “Claridade”, símbolo das diversas dúvidas e esperanças que se desenham nas idiossincrasias das vidas e das personagens do romance… E quem cita o grupo dos “claridosos” (e a sua vontade de autonomia e de diferenciação) tem de chegar a uma longa e rica história de emancipação, que chega à moderna literatura de Germano de Almeida, de Corsino Fortes ou de Arménio Vieira.

 

Mas, se é verdade que poderia continuar a falar das letras cabo-verdianas, partindo para o luso-tropicalismo moderno da Bahia ou de Pernambuco, o certo é que comecei a escrever a pensar nas “peregrinações interiores” do António Alçada e no facto delas conduzirem invariavelmente às amizades, aos longos passeios, ás conversas intermináveis. Éramos chamados a reviver a epopeia de Quincas Berro d’Água, de Jorge Amado.

 

A vida tem sempre muito que se lhe diga, e é preciso dispor-nos a vivê-la, com sentido de humanidade. E penso no Raul Solnado e no culto da amizade. “Façam favor de ser felizes!”. Esperávamos tudo dele. E estava sempre disponível para nos dar o melhor de si, da sua sabedoria, do seu gosto pela vida. Era um conversador incansável. Gostava do convívio e de contar histórias. Era um deleite a sua companhia. Disse-se por estes dias muito (e muito justamente) sobre o extraordinário humorista e actor. Foi muito mais do que isso. Recordo a sua inteligência e o seu elevadíssimo sentido da responsabilidade e do civismo. Não nos deixavam indiferentes os seus retratos humorísticos sobre os diversos tipos inesquecíveis, que poderíamos encontrar a cada passo no nosso dia-a-dia (desde a celebérrima Guerra de 1908 ao Zip-Zip, até muitas e muitas intervenções geniais no teatro e na via cívica, como “O Valente Soldado Schweick”, de Hasek, no Maria Matos). A ironia e o humor são sempre o melhor antídoto contra a desesperança e o fatalismo. E nunca esqueço a história, que me contou, sobre o modo como salvou perante a censura o seu número sobre a “ida à guerra” de Miguel Gila. Lembrou-se de fazer uma leitura muito rápida, inexpressiva, pouco perceptível. Cumpriu-o escrupulosamente e isso valeu-lhe um comentário compungido do coronel censor de serviço, prognosticando um tremendo fiasco para aquele número (e era pena para um actor que tanto prometia). Imagine-se o que não terá pensado o coronel depois do sucesso do Raul perante centenas de plateias entusiasmadas.

 

Raul Solnado foi, com o seu humor inteligente e moderno, além do mais, um benemérito da língua portuguesa e das culturas da língua portuguesa. Mais do que um actor popular (que sempre soube ser) foi um homem de cultura, no melhor sentido da palavra.

 

Que mais dizer?... Raul, António, Portugal, Cabo Verde, Bahia – que saudades do futuro.

 

Até à vista!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

 

FUNDAÇÃO ANTÓNIO QUADROS

 

A Fundação António Quadros é apresentada hoje  às 18.30, no Círculo Eça de Queiroz. No evento, estarão presentes os sócios do Círculo, os titulares dos Órgãos Sociais da Fundação, a família de António Quadros, a Comunicação Social e os que, de algum modo, apoiaram o projecto. Reunidos numa partilha de ideias e conhecimentos, serão recordadas as três personalidades que deram origem à Fundação: António Quadros, Fernanda de Castro e António Ferro.

www.fundacaoantonioquadros.pt