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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MANJARES DE DEUSES E LITERATOS…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXIII) - 23 de agosto de 2017

 

Ao falar-se, cada vez mais, de património cultural imaterial, temos de considerar a gastronomia e a culinária como matérias fundamentais.

E a verdade é que só podemos compreender as tradições e os costumes cuidando dos alimentos, sejam eles mais ricos ou mais pobres, consoante as circunstâncias, os territórios, as culturas e as economias locais.

Da sopa da pedra ao gaspacho encontramos tudo – desde a abundância à penúria, mas sempre a capacidade humana de superar as dificuldades e constrangimentos… E há a gastronomia popular e a culinária erudita… Há manjares de deuses e literatos.

Se lermos uma das obras-primas da cultura portuguesa gastronómica, percebemos isso mesmo. Falo-vos de «O Cozinheiro dos Cozinheiros», publicado por Paulo Plantier em 1870. Aí encontramos as mais extraordinárias receitas, as suas variantes e a sua história.

Hoje, a sua celebridade é maior no Brasil do que em Portugal, mas lá encontramos as nossas maiores glórias literárias e artísticas. E lá estão, por exemplo, as receitas de caça de Bulhão Pato, o grande memorialista, autor de «Paquita», braço direito de Herculano. E percebemos por que razão as «Ameijoas ditas à Bulhão Pato» não são uma receita do escritor.

De facto, foi João da Matta, o célebre cozinheiro do Hotel Central (o Hotel de «Os Maias») que, em homenagem a Bulhão Pato lhe dedicou o renomado manjar – que, aliás, o literato nunca cozinhou…

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A RAZÃO DE SER DE PORTUGAL…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXII) - 22 de agosto de 2017

 

Alexandre Herculano é símbolo do século liberal português. A sua vida foi exemplo de retidão.

 

Quando morreu o seu admirado rei D. Pedro V, na flor da idade, o jovem monarca que tudo prometia, Bulhão Pato disse-nos que o Mestre chorou lágrimas verdadeiras.

 

No seu exílio de Vale de Lobos, em Santarém, tornou-se agricultor modelar, a ponto de o seu azeite ser um dos mais premiados internacionalmente.

 

O azeite Herculano era um néctar de uma pureza fantástica, conseguido com muito trabalho, investigação e com o conhecimento do que melhor se fazia na Europa.

 

Foi fundador da moderna historiografia portuguesa, por fidelidade às fontes autênticas.

 

Um dia, perguntaram-lhe por que razão havia Portugal. O velho sábio respondeu pausadamente. Se fizermos uma lista de razões para existir e para não existir, talvez sejam mais os motivos teóricos para não existir do que para existir...

 

Mas nestes debates, a teoria é menos importante do que a experiência e do que a prática. – O facto é que existimos, há muitos séculos. Razão? – Somos porque queremos. Seremos enquanto quisermos!

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

O INJUSTIÇADO BOCAGE…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXI) - 21 de agosto de 2017

 

Se há poeta português que continua a ser desconhecido e injustiçado, apesar do seu talento, ele é Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). É quem mais se aproxima de Camões na sua vida e como símbolo de português com a alma pelo mundo repartida.

 

Partiu para a Índia, ficou algum tempo no Rio de Janeiro, fez escala em Moçambique, cursou estudos regulares de oficial de Marinha em Nova Goa e foi colocado em Damão, donde desertou, indo até Macau. Fez, pois, a rota do Império e com justiça comparou-se ao lírico e épico de «Os Lusíadas»

 

     Camões, grande Camões, quão semelhante
     Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
     Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
     Arrostar co’o sacrílego gigante

 

     Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
     Da penúria cruel no horror me veja;
     Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
     Também carpindo estou, saudoso amante.

 

     Ludíbrio, como tu, da sorte dura
     Meu fim demando ao Céu, pela certeza
     De que só terei paz na sepultura.

 

     Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!...
     Se te imito nos transes da Ventura,
     Não te imito nos dons da Natureza

 

Só 40 anos de vida, um apurado sentido poético, uma sólida cultura clássica… Alexandre O’Neill homenageou-o. E hoje devemos lê-lo, em vez de seguir as historietas que por aí andam…

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS…

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XX) - 20 de agosto de 2017

 

Como foi a primeira grande crise financeira dos tempos modernos?

Oiçamos a história e pasme-se como a humanidade tem memória curta…

 

Em 1593, Carolus Clusius trouxe uns bolbos de túlipa de Constantinopla para Amesterdão, para os aplicar em fins medicinais. Perante a plantação que o botânico fez, os vizinhos, apercebendo-se da raridade e beleza da planta, roubaram diversos bolbos para com eles fazerem negócio… E assim nasceu uma autêntica corrida às túlipas – que, no início do século XVII, se tornaram sinal de estatuto social. Os preços dos bolbos de túlipa subiram e os especuladores perceberam que podiam lucrar com essa moda.

 

Os preços chegaram a valores astronómicos. Num só mês um bolbo passou a valer vinte vezes mais. A certa altura, a venda de um bolbo podia assegurar o sustento da tripulação de um navio durante mais de um mês.

 

Acontece que os bolbos só florescem 7 a 12 meses depois de plantados – e quando a floração acontece dura apenas uma semana na Primavera, aparecendo os bolbos no verão, de junho a setembro. Para obviar a esta dificuldade, os especuladores passaram a vender contratos sobre túlipas. Ao assinar o contrato o comprador assumia a obrigação de comprar uma túlipa no final da temporada – como hoje acontece nos contratos de futuros.

 

Em 1636 as bolsas holandesas negociavam bolbos e tulipas e os lucros eram fabulosos. Com os preços muito inflacionados estava-se perante uma bolha mercantil. Como normalmente acontece nestes casos, há um momento em que se descobre que os valores são absurdos e irreais.

 

No inverno de 1636-37, em Harlém, quando um negociante não honrou o seu contrato gerou-se o pânico e depressa os preços passaram para… um centésimo do que estava a ser praticado. A bolha tinha estourado… A crise das tulipas deu origem a uma depressão económica sem precedente e para evitar a miséria o governo foi obrigado a cobrir pelo menos dez por cento do valor dos contratos…

 

Convém, assim, não esquecer as lições da história. Sem criação de riqueza não pode haver prosperidade - e a ilusão gera a miséria.

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS…

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIX) - 19 de agosto de 2017

 

Esta também foi contada, cheia de pormenores, pelo António Alçada, como ilustração do analfabetismo da tecnocracia.

 

Millor Fernandes dizia que «a economia compreende toda a atividade do mundo. Mas nenhuma atividade do mundo compreende a economia». A este propósito recorda-se o célebre caso da não criação de porcos.

 

Abreviando razões, trata-se de um subsídio por cabeça para a não criação de porcos - e do requerimento para o efeito feito ao Ministro. Basta ler a parte final para entender tudo.

 

«Excelência. Estes porcos que não criaremos teriam comido 10 mil sacas de trigo. Ora, assegurando-nos que o governo indemnizará igualmente os agricultores que não cultivem o trigo. Nesta ordem de ideias, poderemos esperar que nos deem qualquer coisa pelas sacas de trigo que não serão cultivadas para os porcos que não criaremos. Ficar-vos-emos extraordinariamente reconhecidos se nos responder o mais rapidamente possível, porquanto julgamos que esta época do ano será a melhor para a não criação de porcos e, por isso, gostaríamos de começar quanto antes. Queira Vossa Excelência, Senhor Ministro, receber os protestos da maior consideração. P.S. – Excelência. Não obstante o exposto poderemos engordar 10 ou 12 porcos para nós, sem que isso venha a perturbar a nossa não-criação de porcos? Queremos assegurar que esses animais não entrarão no mercado e não significam mais do que a maneira de termos um pouco de toucinho e presunto para o inverno».

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MÁ CONSCIÊNCIA...

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Esta também se passou com o António Alçada Baptista. O problema da má consciência é que funciona muitas vezes como motivo de cegueira e de falta de um mínimo de racionalidade.

 

Uma vez na UNESCO, onde António Alçada estava a convite do saudoso Eduardo Portella, que nos deixou há pouco, um suíço, num discurso inflamado, condenou severamente os espanhóis por terem descoberto a América.

 

Felizmente, estava presente um egípcio que pôs os pontos nos ii: «Quando se fala da história dos nossos povos, parece que depois da chegada dos europeus é que tudo ficou muito mal. Ora, não é possível esquecer que, antes da chegada dos europeus, os nossos povos tinham expressões de escravatura e de exploração, tanto mais graves do que aquelas que os europeus trouxeram. Mas há uma coisa que se esquece (referiu o egípcio, com particular ênfase): é que, se os nossos povos viveram um dia a liberdade, isso é devido aos valores da democracia e dos direitos humanos, que foram trabalhados e divulgados pela Europa, que ela levou para lá e constituem hoje a nossa única esperança…».

 

 

 

  

 

     DIÁRIO DE AGOSTO

     por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PESSOAS DE BEM…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XVII) - 17 de agosto de 2017

 

Henrique de Paiva Couceiro (1861-1944) foi um resistente monárquico persistente e por isso respeitado pelos seus adversários. Em outubro de 1910 foi dos únicos que se bateu em defesa de D. Manuel II, ainda que sem sucesso. Muitas vezes foi preso, sofreu o exílio, foi julgado, condenado, mas manteve sempre a mesma coerência. 


Numa das vezes em que foi detido e estava numa das esquadras de Lisboa, Afonso Lopes Vieira, o grande poeta de S. Pedro de Moel, soube do sucedido e decidiu exprimir a sua solidariedade para com o amigo. 


Fez uma pequena mala, onde colocou um pijama, uma muda de roupa, os utensílios fundamentais de higiene e partiu para a esquadra, suponho que da Praça da Alegria. Chegado, dirigiu-se ao piquete: - Venho para ser preso! O guarda não queria acreditar no que ouvia… E perguntou: - Que deseja o senhor! O poeta respondeu: – Quero exatamente o que já ouviu – ser preso! – Mas cometeu algum crime? – Claro que não… Mas não é aqui que está Paiva Couceiro? Pois bem, aqui prendem pessoas de bem, e por isso aqui estou. O guarda ficou sem resposta e Lopes Vieira sentou-se na sala de espera com a maleta a seus pés…

 

 

 

  

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JOSÉ SESINANDO...

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XVI) - 16 de agosto de 2017

 

José Sesinando Palla e Carmo (1923-1995) foi escritor, ensaista, crítico, tradutor e especialista em literatura anglófona. É inesgotável a lista dos seus jogos de palavras. A sua escrita e as suas obras merecem ser mais e melhor conhecidos... Não resistimos a dar uma breve lista – recordando as suas impagáveis colunas no Jornal de Letras... Ei-los.

 

Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.

 

Os terroristas raciocinam por explosão de partes...

 

O Adágio de Albinoni, depois de muito tocado na rádio, tornou-se um adágio popular.

 

Vá de Metro, Satanás! (este foi em diálogo com Alexandre O’Neill).

 

Os conferencistas ateus não têm Papas na língua.

 

É vidente: mente! Evidentemente.

 

Sabe onde é que o Alberto moravia?

 

Quem não tem Rolls, rói-se.

 

Os tecnocratas estão classificados por ordem analfabética...

 

Tudo leva a crer que os doze pares de França quando visitaram Portugal pernoitaram na Casa dos 24...

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O BARÃO DE ITARARÉ

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XV) - 15 de agosto de 2017

 

O Barão de Itararé (1895-1971) era um cultor do humorismo político. Recriou mil provérbios renovando-lhes o sentido. Eis alguns exemplos de seus provérbios reinterpretados: 

 

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva. 

 

Diz-me com quem andas e eu direi se vou contigo. 

 

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. 

 

Mantenha a cabeça fria se quiser ter ideias frescas. 

 

Quem empresta, adeus... 

 

Viva cada dia como se fosse o último - Um dia você acerta... 

 

Quando o pobre come frango, um dos dois está doente. 

 

A criança diz o que faz, o velho diz o que fez, o idiota diz o que vai fazer...

 

Devo explicar que o Barão de Itararé não era nobre nem nobilitado, esse era apenas seu pseudónimo. Chamava-se Aparício Torelly e celebrizou-se por uma inesgotável coleção de aforismos. 

É um dos grandes humoristas brasileiros e da língua portuguesa...

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ALEXANDRE O´NEILL

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIV) - 14 de agosto de 2017

 

Alexandre O´Neill é um dos grandes poetas portugueses de sempre. A sua obra é inesgotável. Cada palavra é ideia e é festa... Foi um dos grandes amigos de António Alçada e mantiveram sempre esse afeto, por nunca se levarem demasiado a sério.
Hoje escolhemos dois belos e enigmáticos poemas. O primeiro sobre a misteriosa palavra já:

«Já não é hoje? / Não é aquioje? / Já foi ontem? / Será amanhã? / Já quandonde foi? / Quandonde será? / Eu queria um jazinho que fosse / aqui já / tuoje, aqui já...»

O segundo foi imortalizado por Amália – e Adriana Calcanhoto lembra-o! É sobre uma minuciosa formiga! A fábula reinventada!

«Minuciosa formiga / não tem que se lhe diga: / leva a sua palhinha / asinha, asinha. / Assim devera eu ser / e não esta cigarra que se põe a cantar / e me deita a perder / Assim devera eu ser: / de patinha no chão / formiguinha ao trabalho e ao tostão. / Assim devera eu ser / Se não fosse não querer...».

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins