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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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BREVE NOTA SOBRE O TEATRO MARIA MATOS DE LISBOA

 

Há cerca de um ano referimos aqui o Teatro Maria Matos e a grande artista que em boa hora é evocada na denominação da sala de espetáculos, destacando a expressão de modernidade artística do Teatro, dado o historial da sala em si mas também o historial da grande atriz que em boa hora se consagra. 

 

Recorde-se que o Teatro Maria Matos foi inaugurado no final de 1969 e municipalizado em 1982. Integra-se na linha de construção/renovação de edifícios culturais e de espetáculo, que não sejam só cinemas, em zonas urbanas mais recentes por esse país fora, e que adotaram a funcionalidade do espetáculo a nível dos rés-do-chão de edifícios de vocação comercial e /ou habitacional: teatros “de bolso”.

 

Tal como temos então aqui visto, tratava-se na época -se de uma certa inovação, mas sobretudo, de uma rentabilização de investimento, muito positiva em si mesma: como bem se sabe, são muito numerosos os teatros, construídos no seculo XIX ou mesmo os cineteatros, estes a partir dos anos 20 do seculo passado, que pela sua implantação em zonas centrais de vilas e cidades, foram progressivamente demolidos para dar lugar a construções mais rentáveis no ponto de vista de investimento, e quantas vezes menos adequadas à implantação em centros históricos e à arquitetura correspondente. De alguns, temos aqui dado noticia, aliás sem pôr em causa a qualidade arquitetónica de muitos deles.

 

E quando os chamados teatros “de bolso” independentemente da respetiva estrutura interna e lotação, se implantam em zonas mais modernas das cidades, então só há que elogiar a iniciativa e procurar garantir a viabilidade económica e a qualidade artística, o que nem sempre é possível, como bem sabemos.

 

Recorde-se que o Teatro Maria Matos foi inaugurada num projeto complexo urbano. Tinha no início uma lotação de mais de 500 lugares em plateia e balcão, e uma sala de ensaios. E desde logo se notabilizou pela qualidade da sala e também pelas máscaras de Martins Correia e pelo painel de Maria Helena Madureira.

 

Maria Matos (1890-1952) foi na sua época e ainda é hoje um grande nome de qualidade e prestígio no meio teatral português. Era professora de Arte de Representar e Encenação no Conservatório Nacional.

 

Dada pois a sua carreira, é meritória e adequada a designação do Teatro Maria Matos, inicialmente concebido pelo arquiteto Fernando Ramalho. O projeto sofreu porém alterações já em fase de construção e o edifício, tal com foi inaugurado, deve-se aos arquitetos Aníbal Barros de Fonseca e Adriano Simões Tiago.

 

Na origem, o Teatro foi dirigido por Igrejas Caeiro, a quem cabe esse mérito indiscutível da iniciativa. E estreou com um texto de Aquilino Ribeiro, a partir de “O Tombo no Inferno”. O Teatro funcionou durante anos como desdobramento de companhias ligadas à RTP, sob a direção de Artur Ramos.

 

Estreou então numerosos textos portugueses importantes.  No meu estudo sobre “Teatros de Portugal” (ed. INAPA 2005) bem como  no texto que aqui publiquei em 2017, acima citado,  remete-se para parte desse repertório, referido  num estudo abrangente e de grande qualidade e documentação, da autoria de Maria do Céu Ricardo, precisamente denominado “Teatro Maria Matos (1969-2001) – Um Teatro com História”(ed. CML).

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÕES DO TEATRO DO PRÍNCIPE REAL – APOLO

 

Em 1866, é inaugurado no centro de Lisboa o então chamado Teatro do Príncipe Real, homenagem talvez inesperada a D. Carlos, então de facto Príncipe Real com 3 anos de idade.

 

 A mudança de designação ocorre obviamente a partir de 1910. Passou a chamar-se Teatro Apolo. Mas não durou muito: encerrou definitivamente e foi demolido em 1957.     

 

 O Teatro data pois de 1866, mas herdou uma tradição urbana de espetáculo vinda de décadas atrás – ou mais ainda, se pensarmos nos Teatros anteriores ao Teatro de D. Maria II, esse inaugurado em1846.

 

Segundo José Carlos Alvarez, o Príncipe Real - Apolo seria «o teatro mais popular e mais republicano, se é que faz algum sentido esta afirmação... nessa época. Situado entre a então novíssima Rua da Palma, a antiga carreirinha do Socorro e o Largo de Martim Moniz, bem longe do chic, moderno e elitista Chiado e dos seus teatros mais burgueses (Trindade, São Luiz) ou aristocráticos e italianos (São Carlos)»...

 

E mais acrescenta José Carlos Alvarez que foi no já então teatro Apolo que se estreou a primeira revista levada à cena depois da implantação de República, denominada “Agulha em Palheiro”, E mais refere Alvarez que, ao ser demolido, se perdeu também  grande parte do arquivo respetivo, o que evidentemente prejudica o historial dos nossos teatros na globalidade de textos, elencos e expressão cultural e sociológica dos respetivos públicos. (cfr. José Carlos Alvarez “A República foi ao Teatro”ed. Museu Nacional do Teatro – 2010, págs.11 e segs.)

 

Por seu lado, Luciano Reis refere que a tradição de espetáculo vinha de trás. Em 1885, um tal Francisco Viana Ruas, «num terreno desocupado que que havia depois da abertura da nova Rua da Palma, à esquina da Carreirinha do Socorro, edificou um salão, a que deu o nome de Vauxhall, e realizou ali bailes de máscaras que pouco resultado deram. Mudou-lhe então o nome para Salão Meyerbeer, em que realizou alguns concertos ainda com pior resultado. Inaugurou-se com as comédias imitadas por Aristides Abranches e Rangel de Lima, “Dois Pobres a Uma Porta”, em 3 atos, e “Muito Padece quem Ama, em 1 ato”». (cfr. Luciano Reis “Teatros Portugueses” ed. Sete Caminhos 2005 págs. 46 e segs.)

 

 Mas ainda recuamos nas citações e desta vez a partir do sempre referido “Diccionario do Teatro Português” (1908) de Sousa Bastos, o qual mais se adequa porque é contemporâneo do Teatro.

 

Denomina-o “Theatro do Príncipe Real (Lisboa)” e ilustra-o com uma fotografia. Atribui a iniciativa a Francisco Viana Ruas, «avô dos atuais empresários deste teatro», esclarece. Descreve o edifício, que qualifica como «uma bonita casa de espetáculos (que) tem tido épocas brilhantíssimas, principalmente a do ator Santos, a de Rossi, a de Paladini, a de Preciozi e Maria Deus e muitas outras» (ob. cit. pág. 355).  

 

Era pois, na época, um teatro internacional. 

 

DUARTE IVO CRUZ

O Teatro Gil Vicente de Barcelos, exemplo de sobrevivência e recuperação

Teatro-Gil-Vicente.jpg

 

 

Temos visto nesta série de artigos a relevância que a arquitetura teatral e de espetáculo assumiu ao longo dos séculos XIX/XX: e é de louvar as politicas, recentes, a nível nacional e local, de recuperação de edifícios que, pelo dimensionamento e pela implantação em zonas urbanas centrais, antes menos conservadas do que hoje, representam uma fortíssima capacidade de investimento, na transformação e modernização de tantas cidades.

 

Hoje, efetivamente verifica-se um muito maior sentido de conservação e restauro de edifícios e áreas urbanas centrais. E nesse sentido, como aqui temos visto, há que elogiar as autarquias que conservam, muitas vezes adquirem e recuperam esse património urbano e imobiliário de edifícios de espetáculo, sem o deteriorar ou destruir. E aí incluem-se teatros e cineteatros. No caso que hoje nos ocupa, a construção e sobrevivência do Teatro Gil Vicente de Barcelos é um belo exemplo.

 

No final dos anos 90 do século XIX, um grupo de cidadãos regressados do Brasil lança a iniciativa de construção de um teatro. Não foi fácil: a iniciativa ganha expressão e consagração empresarial em agosto de 1893, mas o Teatro Gil Vicente, que apesar de sucessivas paralisações e transformações, dura até hoje, só foi inaugurado em 1902, com uma revista local, precisamente intitulada “Barcelos por Dentro”.

 

E é meritório que este espetáculo inaugural tenha sido escrito e executado por amadores locais, da mesma forma que o próprio processo de construção do teatro tenha surgido por iniciativa de empresários e individualidades ligadas ao Conselho de Barcelos. Mas é de assinalar que a cidade tem certa tradição teatral: são numerosos os tais grupos de amadores que, a partir de finais do século XIX a de certo modo até hoje, marcaram a atividade.

 

O que não obstou a que o Teatro Gil Vicente tivesse travessado períodos mais ou menos longos de paralisação e de negociações no sentido da sua demolição para investimento imobiliário. Nada que não seja habitual, mesmo depois das sucessivas transformações e adaptações do edifício, que aliás exibiu atividade cinematográfica quase desde a inauguração.

 

É pois interessante registar que o Teatro Gil Vicente tenha beneficiado desde sempre de apoio dos poderes locais, acabando a Câmara por o municipalizar em 1994, e o renovar, em sucessivas intervenções no exterior e no interior.

 

Mas mantém-se o estilo clássico, num modelo muito praticado na época de inauguração: o projeto inicial deve-se a um Engenheiro Civil local, António José de Lima. E acabou por prevalecer esta “obra neoclássica revivalista” tal como a caracterizou Carlos Alberto Ferreira de Almeida num estudo editado pela Câmara Municipal.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

EVOCAÇÃO DO TEATRO AVENIDA

 

Em 1888 abre ao público em Lisboa o teatro Avenida, situado na então ainda relativamente recente Avenida da Liberdade. Foi mandado construir por Miguel Angelo Lambertini, figura destacada nos meios culturais e empresariais. Inaugurou em 11 de fevereiro daquele ano: é de assinalar a iniciativa, num contexto urbano que, apesar do incremento decorrente da Avenida, não representava ainda o eixo cultural que viria mais tarde a alcançar.

 

Luciano Reis refere que o Teatro Avenida «registou o seu primeiro grande êxito com a opereta “O Burro do Senhor Alcaide” de D. João da Câmara, Gervásio Lobato e Ciríaco de Cardoso», autores de grande projeção na época e ainda hoje, sendo certo que a peça referida marcou uma época e confirmou a notável ainda hoje abrangência estilística e o sentido de espetáculo dos autores. (cfr. “Teatros Portugueses”, Ed. Sete Caminhos).

 

 E Glória Bastos e Ana Isabel Vasconcelos evocam o Teatro Avenida, reproduzindo a descrição feita na época por João Paulo Freire:

“Teatro acanhado, sem segurança para o público, em caso de incêndio, embora lhe tornassem obrigatória uma saída pela porta lateral. Entalado entre prédios de diminutas dimensões, o corredor que serve o bufete é de tal forma acanhado que em noites de enchente quase se não dá um passo. Exteriormente não tem recomendação possível. Internamente, à parte os defeitos já apontados, é simples mas gracioso”.

 

Acrescentam as duas autoras citadas que o Avenida foi explorado por sucessivos empresários de prestígio na época: Luis Galhardo, Luísa Satanela e Estêvão Amarante, Maria Matos e Mendonça de Carvalho e, anos depois, pela Nova Companhia do Teatro de Sempre, dirigida por Gino Saviotti, o qual marcou uma presença de grande qualidade no meio teatral português como diretor de companhia, como crítico e doutrinador e como professor no Conservatório Nacional. (cfr. “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República”, Ed. MNT 2004, pág. 50).

 

E assinala-se que a última empresa citada muito contribuiu para a atualização, digamos assim, dos repertórios tal como nesses anos 50/60 do século passado eram explorados em Portugal.

 

Mas voltando à época da fundação do Teatro Avenida, encontramos num autor francês já aqui citado, Henry Lionnet, uma descrição no mínimo desconfiada para mais não dizer, da exploração artística do Teatro Avenida.

 

Lionnet escreve em 1898. Começa por elencar os teatros - edifícios em Lisboa e no Porto e classifica-os basicamente a partir dos repertórios habituais, atribuindo ao Teatro Avenida uma como que vocação “para a opereta popular e para a revista”, o que significa de certo modo uma desqualificação relativamente a outros teatros em Lisboa e no Porto.

 

E afinal, ao longo do século passado, repita-se, o Teatro Avenida não poucas vezes marcou a cultura cénico-dramatúrgica da época!

 

Enfim: em 13 de dezembro de 1967, o Teatro Avenida, dirigido então por Amélia Rey Colaço na sequência do incêndio do Teatro Dona Maria II ocorrido em 1964, arde também!

 

Lá estive no dia seguinte. E escrevi então estes comentários que aqui reproduzo:

“O Avenida era um teatro feio, incómodo, anacrónico; muito embora - era um teatro. E hoje é um monte de ruínas que necessariamente nos fez lembrar, quando as visitamos na manhã do desastre, as ruínas do palco do Variedades, as ruínas do D. Maria II, as ruínas do Ginásio”.

É que todos estes teatros arderam!

 

DUARTE IVO CRUZ 

 

 

UM EXEMPLO DA TRANSIÇÃO DOS SÉCULOS – O TEATRO SOUSA TELLES DE OURIQUE

 

Abordamos hoje um exemplo de sobrevivência de sala de espetáculos, primeiro como teatro, depois como cine-teatro, que vem do século XIX e hoje perdura em plena atividade, conciliando a modernização funcional e cultural com a tradição dos teatros do interior do país: e tenha-se presente que o então Theatro Sousa Telles de Ourique, pois dele aqui se trata, é inaugurado em 1899, depois de menos de um ano de edificação, num meio urbano que, à época, não era propriamente centro de produção de espetáculos.

 

Foi pois inaugurado em 1899 por amadores, com um dramalhão ultra-romântico, intitulado “A Mãe dos Escravos” escrito ou adaptado por um tal Aristides Abranches (1832-1892), verdadeiro “profissional” da adaptação de textos mais ou menos originais sobretudo levados à cena em Teatros como o Ginásio ou o Trindade, e depois em salas numerosas por este país fora, e muitas havia naquele tempo. Hoje o nome de Aristides Abranches nada nos diz: mas dele se registam algo como 60 peças!

 

Era uma época de grande pujança na produção teatral, e por essa razão, muitos teatros foram então construídos em pequenos meios urbanos. Este Theatro Sousa Telles, à data da inauguração, pertencia a uma Sociedade Ouriquense que mantinha e dinamizava grupos de amadores. A sala, quando inaugurada, teria uma lotação de algo como 200 lugares, com uma galeria de 50 lugares reservada a espetadoras desacompanhadas, o que não era caso único na época em teatros do interior do país e não só...

 

A partir de meados do século passado ocorre uma renovação na infraestrutura de espetáculos de Ourique, e passa a falar-se de um Cine-Teatro Sousa Telles com lotação de 183 lugares mas mantendo o palco tradicional. Só que esse Cine-Teatro sofreu as consequências do impacto do espetáculo televisivo, e do incremento das comunicações: estes fatores convergentes estão de facto na origem da mudança à época da rede de salas de espetáculos em todo o país.

 

Mas em boa hora manteve-se uma estrutura de espetáculo, mesmo em edifício arruinado. E em boa hora também, a Câmara Municipal de Ourique celebrou em 2003 com o Ministério da Cultura um contrato-programa de recuperação a partir de projeto das Arquitetas Céu Oliveira Pinto e Luísa Biscaia.

 

E adaptou-se o Cine-Teatro a uma pluralidade complementar de funções culturais que marcam hoje mais do que antes a cidade.

 

Desde logo, a sala de espetáculos é modernizada, revestida de madeira, com plateia e balcão. E o edifício ganhou uma polivalência social e patrimonial: para além da sala de espetáculos em si, instalou-se o Museu do Trabalho e um denominado Clube Museu Ouriquense. 

 

 Mas em boa hora o projeto de modernização manteve a fachada original, em arco que abre para uma parede cega com telhado em plano recuado e uma torre lateral.
 

  

 

DUARTE IVO CRUZ

DOIS LIVROS SOBRE OS 150 ANOS DO TEATRO DA TRINDADE

 

Os 150 anos do Teatro da Trindade, efeméride que já aqui referimos, foram agora assinalados com o lançamento de dois livros e por uma sessão evocativa: e apesar da permanência em atividade de outros Teatros em Lisboa, como designadamente o São Carlos ou o D. Maria II, há que realçar o evento.

 

Até porque o Teatro da Trindade, como aliás aqui temos escrito, constitui um referencial de criação artística de espetáculo, cobrindo o teatro declamado, o teatro musicado, a ópera, o bailado, o cinema e em geral, a atividade cultural mesmo quando não diretamente ligada ao espetáculo.

 

E nesse sentido, começamos por assinalar a exposição evocativa da efeméride, “uma ideia de José Carlos Barros”, diz o catálogo. E lá se transcreve com a linguagem da época e com a grafia aqui atualizada, uma notícia da inauguração do Teatro da Trindade, em 1 de dezembro de 1867:

 

“Os fastos do teatro português registam mais um acontecimento memorável. É a inauguração do Teatro da Trindade, novo templo erguido ao culto da arte de instruir e civilizar as turbas por meio da representação ao vivo dos factos da vida social e familiar e da luta das paixões que agitam a humanidade, ou sejam viciosas e ridículas ou sejam virtuosas e sublimes. Muito deve o país a todos aqueles que dedicam seus esforços e capitais a obras de tanta magnitude, e o município de Lisboa deve felicitar-se por ver sair de um montão de ruinas tão belo edifício, que é um novo título de glória para o novo arquiteto o sr. Miguel Evaristo”.

 

E a notícia segue com elogios do espetáculo de estreia, “com o novo drama A Mãe dos Pobres do distinto escritor o sr. Ernesto Biester”, assim mesmo, na presença da “família real e considerável numero de cortesãos e titulares (que) abrilhantavam o numeroso concurso (sic) que enchiam o teatro”... (cit. Diário de Notícias 3 de dezembro de 1867 in “O Nosso Teatro...”ed.TeatroTrindade.INATEL.PT 2017).

 

Mas o que aqui quero assinalar é a publicação de dois livros, largamente documentados e ilustrados, sobre os 150 anos do Trindade, a saber, «Teatro da Trindade 150 anos - O Palco da Diversidade» da autoria de Paula Gomes Magalhães, e «Francisco Ribeiro “Ribeirinho” – O Instinto do Teatro» da autoria de Ana Sofia Patrão (ambos ed. INATEL e Guerra e Paz 2017).

 

Profusamente ilustrados, ambos os livros marcam a celebração dos 150 anos do teatro realçando, o primeiro, a poderosa intervenção cultural feita através do Trindade, nos domínios do teatro mas também da ópera, da opereta, do cinema, da revista, do bailado.

 

E parece também adequado o realce dado ao Ribeirinho e designadamente ao Teatro Nacional Popular – TNP que marcou profundamente, no Teatro da Trindade, a modernização da cultura teatral portuguesa com a estreia de “À Espera de Godot” de Samuel Beckett em 1959: repita-se, marcou profundamente um movimento de modernidade na cena portuguesa, aliás inesperada dada a época e as condições de exploração da atividade teatral...

 

Nesse aspeto (mas não só) o livro de Ana Sofia Patrão é extremamente elucidativo dos contrastes, paradoxos e contradições inesperadas que marcavam a atividade teatral na época, mesmo para quem não levantava problemas de ordem politica imediata.

 

E o livro de Paula Gomes de Magalhães, ao historiar os 150 anos do Trindade, realça a relevância que o Teatro alcançou e conseguiu manter, numa feliz sequencia de sucessivas iniciativas e gestões artísticas, de que salientamos as seis companhias analisadas no capítulo intitulado “A Era de Renovação” – Comediantes de Lisboa, Teatro d’Arte de Lisboa, Teatro Nacional Popular, Companhia Nacional de Teatro e Teatro do Gerifalto – da Companhia Portuguesa de Ópera, e da Companhia de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro a partir de 1970.

 

Em 1974, com a extinção da censura, regista-se no Trindade um movimento global de estreias e apresentação de companhias e peças, muitas delas antes proibidas, a começar por Bertold Brecht pelo Teatro da Cornucópia em outubro daquele ano, a que se seguiriam outras peças do mesmo autor a cargo da Companhia de Comediantes Rafael de Oliveira, e ainda variadíssimos espetáculos de grupos e de autores diversos, portugueses e estrangeiros.

 

O Teatro da Trindade passou então a ser uma casa referencial de acolhimento de companhias diversas e dispersas. Recordemos designadamente, e acordo com o livro de Paula Gomes de Magalhães, espetáculos do Teatro de Campolide, do Teatro da Cornucópia, da Barraca, do Cendrev, do Teatro Experimental de Cascais, do Teatro de Animação de Setúbal, e novamente espetáculos de ópera, numa sucessão de iniciativas e de autores  de que destaco para terminar alguns autores portugueses: Jaime Salazar Sampaio ,Norberto Ávila, Diogo Freitas do Amaral, Filomena Oliveira e Miguel Real, Luis Francisco Rebello, António Torrado, e outros mais...

 

DUARTE IVO CRUZ

SALAS DE ESPETÁCULO DE VILA REAL DE TRÁS-OS-MONTES

 

Como já uma vez vimos a cultura e a arquitetura ligada aos espetáculos tem em Vila Real inesperadas e extremamente interessantes referências a nível da atividade artística propriamente dita, mas sobretudo hoje na expressão cultural inerente. E mais: não obstante a necessária descentralização, em tempos imposta pela distância relativamente a grandes centros de espetáculo, nunca deixou de se verificar e registar uma atividade de produção artística adequada, à expressão urbana e arquitetónica.

 

Referimos o Conservatório Regional de Música, o Teatro Municipal e ainda, como memória, o antigo Teatro-Circo. Assim, temos para já o Conservatório Regional de Musica, projeto do Arquiteto Belém Lima, inaugurado em 2004. E, como adiante se refere, é o próprio autor do projeto que nos esclarece acerca dessa tradição modernizada, a qual hoje tanto valoriza a cidade.

 

Estamos no quadro de uma tradição urbano-arquitetónica que remonta ao antigo Convento São Domingos, com vestígios plausivelmente originários dos séculos XVI/XVII. E há uma heterogeneidade significativa na localização urbana e no que ainda sobressai, e não é pouco, do edifício em si mesmo.

 

Citamos então o próprio arquiteto: “Em quinhentos e oitenta anos, o chão conturbado do Convento de São Domingos foi também hospital, quartel, estalagem, cine-teatro”. (cfr. “O Novo Hóspede” in “Conservatório de Música de Vila Real”, 2005, texto reproduzido em “Habitar Portugal 2003/2005 - ed. Ordem dos Arquitetos 2006).

 

E insistimos, foi também, em épocas passadas, teatro, pois lá terá eventualmente estreado em 1846 a primeira peça de Camilo Castelo Branco, “Agostinho de Ceuta”.  E a propósito dessa estreia, transcrevo o que escrevi sobre o então Theatro de Vila Real:

 

“Com a peça, estreou também um Teatro com ar de Igreja, e se calhar fora-o antes, singelamente denominado Theatro de Vila Real. Era pertença de João Pinto da Cunha, tio do escritor. Seguiram-se algumas salas até ao Teatro Avenida, depois Cine-Teatro Real, de 1930. ( in “Teatros de Portugal” ed. INAPA 2005).

 

Sobre o Conservatório Regional de Música, e tal como tivemos já ocasião de referir, o que mais impressiona é a conciliação do atual projeto arquitetónico com a funcionalidade de uma casa destinada ao ensino, sem trair nem a tradição nem a modernidade. Salienta-se designadamente a harmonização da arquitetura contemporânea com o romano-gótico da Sé e com a envolvente urbana, num edifício de vocação ampla e realizada na docência e no espetáculo artístico inerente.

 

Ora bem: Sousa Bastos cita, em 1908, um Teatro Circo de Vila Real, construído a partir de 1879 e inaugurado “em 1 de janeiro de 1892 com o drama D. António de Portugal desempenhado pelo grupo de amadores dos Bombeiros Voluntários de Vila Real e pela atriz Carlota Veloso. Tem 26 camarotes numa só ordem, 4 frizas, 208 cadeiras, 170 lugares de superior e 300 de galeria”!... (in “Diccionario do Theatro Português” ed. 1908 pág. 326).  

 

DUARTE IVO CRUZ

A MOAGEM, TEATRO E SALA DE CONCERTOS NO FUNDÃO


Assinala-se aqui a atividade de uma sala de espetáculos no Fundão, e a coerência da designação respetiva, tendo em vista o histórico do edifício. É que se trata da “transformação” de uma antiga fábrica num centro de cultura e de espetáculos: e não é habitual, como bem sabemos, este género de mudanças, no sentido em que aqui se processou: pelo contrário, o mais habitual, pelo menos em certas fases da evolução recente dos meios urbanos, seria precisamente o contrário: rentabilizar um velho teatro situado no centro das cidades em, não digo uma fábrica, mas pelo menos um centro de produção económica.

 

Ora neste caso do Fundão, o que ocorreu foi precisamente o contrário. Uma antiga empresa de moagem, fundada nos anos 20 do século passado, é transformado, insista--se no termo, em Centro de espetáculo e de cultura: e precisamente, para não haver dúvidas, adota a designação de Moagem – Cidade do Engenho e das Artes.

 

Trata-se de um projeto do Arquiteto Miguel Correia, inaugurado em 2007, por iniciativa da Camara Municipal que adquiriu a velha fábrica em 2002. Como já escrevemos, comporta duas salas de espetáculo, com 165 e 50 lugares, hoje amplamente utilizadas em iniciativas de âmbito cultural.

 

Com um aspeto que merece destaque: o edifício conciliou, de forma interessante, a recuperação dos velhos edifícios fabris com a modernidade do corpo central vocacionado para a atividade cultural e de espetáculos: e em boa hora essa atividade perdura.

 

Manuel Freches, no estudo que dedicou a este Teatro, assinala que “engenho significa a capacidade de criar, de realizar e de produzir com arte”. (in “A Moagem – Cidade do Engenho e Arte “ ed. CMF 2007 pág. 7). Ora, acrescente-se agora, a expressão em si mesma assume, quando aplicada a uma iniciativa de caracter cultural, um eco quase camoniano...

 

O Fundão é referido no século XVII por Frei Francisco de Santiago que assinala-o entre os “lugares (...) que estão situados por todo o espaço que vulgarmente se chama Cova da Beira”.  E três séculos depois, na peça “Entre Giestas (1916), Carlos Selvagem situa em “uma aldeia da Charneca “ o drama amoroso da “Clara Jornaleira” e do António, filho do “Ti Jacinto Cravo, lavrador abastado”. E a descrição da cena inicial documenta a visão realista que, na época, o ambiente urbano local impunha.

 

Inclusive, cerca de um século decorrido sobre a estreia desta peça, os Paços do Conselho estava instalado num belo edifício da antiga Real Fábrica de Lanifícios. (cfr. “Teatros de Portugal – Espaços e Arquitetura” – ed. Mediatexto e Centro Nacional de Cultura – 2008).

 

DUARTE IVO CRUZ

O COLISEU DOS RECREIOS VISTO NO FINAL DO SÉCULO XIX

 

Já nos ocupámos aqui do estudo de Henry Lionnet sobre os teatros portugueses, escrito, recordo, em francês e publicado, em Paris no ano de 1898: “Le Théâtre au Portugal”, (2ª edição, Paul Ollendorf ed. 28 bis Rue de Richelieu). Recordo ainda que as cerca de 300 páginas do volume, adquirido num alfarrabista, contêm 45 imagens e fotografias de teatros, autores e atores. Como então escrevemos, trata-se efetivamente de uma raridade, quanto mais não seja pela importância que é aqui atribuída ao teatro escrito e representado sobretudo em Lisboa e no Porto, com referências por vezes detalhadas e devidamente ilustradas aos teatros portugueses mais relevantes na época.

 

Como vimos no artigo anterior sobre o tema, trata-se de um   levantamento analítico do teatro e dos teatros, dos dramaturgos e dos artistas que na época atuavam sobretudo em Lisboa e no Porto, com gravuras de edifícios, salas, cartazes, programas e atores e atrizes, e com destaque, no que se refere às gravuras de edifícios, plantas de interior, cartazes e programas, para o D. Maria II, Ginásio, Trindade e Coliseu dos Recreios em Lisboa e para o D. Afonso e Príncipe Real, no Porto.

 

Isto, no que se refere, como como foi dito, aos teatros propriamente ditos. Porque as restantes gravuras são como vimos de atrizes e atores em cena, num variedade de peças devidamente identificadas e muitas vezes analisadas ao longo do texto. Os atores e atrizes evocados são da ordem das centenas. E farei aqui um destaque, pois se trata de uma então muito jovem atriz que, dezenas de anos depois, ainda vi tantas vezes representar como decana do Teatro Nacional -  Palmira Bastos, já qualificada no livro de Henry Lyonnet como “primeira atriz do Teatro da Trindade” e isto, insista-se, em 1898!

 

E recordo designadamente o último grande sucesso de Palmira, “As Árvores Morrem de Pé”, de Alexandre Casona, no D. Maria II, mais de 60 anos decorridos!

 

 Mas voltando aos teatros, o livro refere designadamente os seguintes, com os comentários e apreciações aqui transcritas no artigo anterior:

 

«O Teatro D. Maria II para a alta comédia e o drama. O Teatro do Ginásio para a comédia e o vaudeville. O Teatro da Trindade para a opereta, e momentaneamente para a comédia e o drama. O Teatro da Rua dos Condes para a opereta e a revista. O Teatro do Príncipe Real para o drama e a revista popular.

 

O Teatro da Avenida para a opereta popular e a revista. O Teatro São Carlos (Ópera) não está aberto senão algumas semanas no inverno, para uma companhia de ópera italiana e o Teatro Dona Amélia para as companhias de passagem, ópera italiana e zarzuela espanhola.

 

No Porto:

O Teatro do Príncipe Real, reservado à comédia, ao drama, à opereta. O Teatro D. Afonso à opereta e à revista. O novo Teatro Carlos Alberto estreia-se com uma opereta. O Teatro da Trindade – quando está aberto – apresenta peças populares. O Teatro S. João alberga a ópera italiana». (fim de citação)

 

Estas apreciações são desenvolvidas ao longo do livro. Mas, tal como escrevi no artigo anterior, justifica-se ainda uma referência ao livro de Henry Lyonnet, designadamente no que respeita ao Coliseu dos Recreios, que lhe merece aliás um capitulo autónomo. E ao contrário das restantes, a referência ao Coliseu, em si mesma interessante, surge “prejudicada” pela confusão do espetáculo em si, mas sobretudo pelas dificuldades em confirmar o acesso à sala, numa récita de apoio a viúvas e órfãos organizada pela então relevante Associação de Imprensa.

 

A organização terá sido caótica. E a descrição da sala que aqui resumimos, é no mínimo ambígua:

 

 «A sala, muito vasta, construída sobretudo tendo em vista o circo, surge-nos simultaneamente enorme e elegante. Cobre-a uma cúpula metálica.  Quando à cena, mal se distingue, impercetível, num canto, fazendo face à tribuna real, imensa, desproporcionada, enquanto 102 camarotes distribuídos em duas filas, espalham-se em redor. Por cima destes camarotes, um vasto “promenoir” onde a multidão se acumula, de pé. Por baixo (...), um imenso anfiteatro onde se acumulam três mil espetadores. Estas últimos lugares chama-se a geral. E tudo isto, eta noite, está cheio a transbordar. A geral, em particular oferece uma imagem extraordinária; os espetadores, apertados, comprimidos uns sobre os outros, não podem mesmo sentar-se e mantêm-se de pé. Deste ajuntamento inaudito, ouvem-se cada momento gritos, imprecações, palavras ordinárias - sempre as mesmas - insistindo até à obsessão. Tudo isto a dois passos de senhores de fato escuro e damas de elegantes toiletes de noite!»

 

Assim seria o Coliseu no final do século XIX!

DUARTE IVO CRUZ

DOIS TEATROS EM MONÇÃO

 

Já aqui invoquei o chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira, em Monção: destacando a sala de teatro que valorizou o, já em si mesmo notável Palácio. Recordei então a relevância deste acrescento dedicado às artes do espetáculo, o que, na altura o referi, não é muito habitual, no histórico da arquitetura e da sociedade portuguesa.

 

Recordei também que começou a ser construído em 1806 e dado como concluído em 1834 segundo projeto inicial de um arquiteto com projeção na época, de seu nome Carlos Amarante. E referi que se processou como que uma conciliação estilística do tardo-barroco comum na época com uma expressão romântica, valorizada no jardim e nas evocações históricas que em conjunto, desde o lago a uma torre gótica e ao recurso ao estilo inglês.

 

Evoquei nesse texto a intervenção de Ventura Terra, a quem se deve o Teatrinho, mas também não poucos teatros (e não teatrinhos...) por esse país fora: deste logo o Teatro de Esposende, o Salão Nobre do Teatro de São Carlos, o Teatro e Cinema Politeama, que é referido com encómios por José Augusto França, que aliás ao Arquiteto dedica extenso estudo:

 

“O Politeama, em Lisboa, construído em 1912-13, com o seu amplo espaço interior e a fantasia decorativa do janelão do 1º andar foi a melhor obra do género neste período, bem inscrita dos trabalhos de Ventura Terra” (cfr. “A Arte em Portugal no Século XIX” volume II 1966 pág.78).

 

E José Augusto França refere também o Palácio de Brejoeira com expressões de encómio: “o último grande solar fidalgo português (…) curiosa construção de carater híbrido” salientando “a importância do seu portal setecentista, a vastidão das suas fachadas em L, já viradas para Oitocentos”. Cita designadamente “o pequeno e elegante teatro” instalado em meados do século passado. (ob. cit. volume I pág. 182).

 

O Teatrinho, com cerca de 50 lugares em suave declive, além de mostrar os interesses culturais dos proprietários, revela uma harmonia e uma ambiência que se concilia com a funcionalidade do palco, não obstante as reduzidas dimensões da sala.”

 

Tudo isto foi escrito e aqui publicado na perspetiva do património de teatro e de espetáculo pelo país fora... E justamente, no que se refere ao Monção, é agora oportuno evocar o Cine-Teatro João Verde.

 

Trata-se agora de um exemplar característico da geração dos cineteatros de meados do século passado. Projetado pelo arquiteto José Esteves, foi construído e inaugurado em 1949, numa fase de atividade descentralizadora, digamos assim, das atividades de espetáculo por todo o país. Com uma lotação inicial de cerca de 300 lugares, marcou pela estrutura interna, aliás comum na época, mas aqui com indiscutível qualidade: e desde logo, pela fachada, que prefigura como uma torre, o que de certo modo concilia a modernidade com a tradição urbana regional.

 

E a sala propriamente dita segue também esse conceito de modernidade epocal com a capacidade de exploração, conciliando o moderno com o tradicional. O projeto é dominado por uma torre e comporta uma estrutura interna de plateia, balcão e até alguns camarotes.

 

Só que, no inicio dos anos 80, os proprietários resolvem demoli-lo. Valeu então a Câmara Municipal de Monção, que adquire o Cine-Teatro que em boa hora se mantém em atividade.

 

DUARTE IVO CRUZ