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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EVOCAÇÃO DE UM ESPETÁCULO DE PRISIONEIROS DE GUERRA

 

Acaba de chegar às livrarias um interessante estudo histórico da autoria de Maria José Oliveira, intitulado “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia -1917/1918” onde se relata com desenvolvimento e qualidade literária e científica os 100 anos da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, e designadamente a permanência de prisioneiros de guerra portugueses. (ed. Saída de Emergência-2017).

 

Damos notícia desse estudo, pois nele se refere a realização de um espetáculo teatral pelos prisioneiros de guerra portugueses, no campo de Breesen.

 

 

Trata-se de um texto dramático da autoria de Alexandre José Malheiro, denominado “O Amor na Base do CEP” (Corpo Expedicionário Português).  

Tal como refere Maria José Oliveira, «a comédia estreou no campo, a 27 de outubro de 1918, e foi interpretada por 15 prisioneiros, dos quais sete representaram personagens femininas. Foi um divertimento que pretendia sobretudo reabilitar o “moral” dos expedicionários.»

 

 

Ora bem: este espetáculo de prisioneiros de guerra é referido por outro oficial, Bento Esteves Roma, o qual viria a desempenhar funções de Governador–Geral de Angola, e que escreveu um diário e mais recordações da sua participação na Guerra e do período de reclusão nos campos alemães. Designadamente “Os Portugueses nas Trincheiras da Grande Guerra” e “Algumas Passagens do Diário de Bento Roma como Prisioneiro de Guerra”, ambos citados no estudo aqui analisado.

 

E precisamente: na segunda das obras citadas, Bento Esteves Roma recorda então a peça de Alexandre José Malheiro mas engana-se no nome do texto, chamando-lhe “A Guerra na Base do CEP” e não, como efetivamente Alexandre Malheiro a denominou, “O Amor na Base do CEP”.

 

Escreveu então Bento Esteves Roma:

«Foi hoje a inauguração do teatro com a peça “A Guerra na Base do CEP” escrita pelo Tenente Coronel Malheiro e que quer ser uma charge sobre a base do CEP. A ação desenrola-se em torno de uma aventura amorosa havida entre uma artista francesa que se encontra no Tréport a passar a época calmosa e um médico português básico. Combinam passar uma noite em Paris-Plage e ela faz-lhe ver só poder ir invocando, por causa da mãe, uma récita em que tome parte, mas previne-o de que está habituada a ganhar muito. Reúnem-se em Paris Plage e depois da noite passada, quando o médico quer saber quanto tem a despender, ela diz-lhe num último beijo: “não quero nada, direi à minha mãe que foi uma récita de caridade”».

 

Mas o comentário seguinte de Bento Esteves Roma é duro, e revela detalhes sobre a vida no campo de concentração: «A peça não vale nada. Sem movimento, com diálogos enormes, figuras suplementares metidas à força. O desempenho foi horroroso. E gastou-se dinheiro com isto. Foi uma peça que custou 500 e tal marcos. Cada vez provamos mais o nosso pouco juízo. Adiante.”».

 

Referimos aqui este espetáculo pelo ineditismo do local: o “teatro” era um estrado no campo de soldados portugueses do Corpo Expedicionário Português presos na Alemanha em 1918.

 

Mas aí se fez teatro…

 


DUARTE IVO CRUZ

Expressões de tradição e modernidade em Coimbra

Centro de Artes Visuais de Coimbra.jpg

 

A tradição urbana, universitária e cultural de Coimbra abrange a arquitetura de espetáculo e prolonga-se até hoje com expressões de grande valia e modernidade: designadamente mas não só em dois edifícios monumentais e atuais, no sentido mais abrangente de ambos os termos, e isto, sem embargo de um deles ter origem, ainda bem expressa, no século XVI – e referimo-nos, aí, ao antigo Colégio das Artes, onde se iria instalar nada menos do que o Tribunal da Inquisição… mas hoje vemos lá instalado o Centro de Artes Visuais, que enquadrou a companhia teatral denominada “A Escola da Noite”.

 

E muito próximo, em edifício inaugurado em 2006, temos o Teatro da Cerca de São Bernardo - TCSB. Refira-se aliás desde já que A Escola da Noite atuou nos dois edifícios, fixando-se no TCSB desde 2008.

 

Recorde-se entretanto que a tradição teatral de Coimbra é registada pelo menos desde o século XVI, com referências a espetáculos e textos alusivos, por exemplo no breviário do Mosteiro de Santa Cruz ou na chamada “Divisa da Cidade de Coimbra” de Gil Vicente (1527), para culminar na “Castro” de António Ferreira (cerca de 1560).

 

Em 1893 é, entretanto, inaugurado um Teatro Circo Príncipe Real depois chamado Teatro República e depois ainda Teatro Avenida, com camarotes, frisas e balcão, como era próprio da época, e que foi demolido em 1990 para ser substituído por um supermercado… E em 1961, por iniciativa da Universidade, é inaugurado o Teatro Académico Gil Vicente, projeto do arquiteto Alberto José Pessoa, com frescos de João Abel Manta.

 

Vejamos então o Teatro da Cerca de São Bernardo. Trata-se de um projeto do Arquiteto Paulo Ramos: a inovação não colide com a tradição arquitetónica que subsiste próxima aliás tal como ocorre no Centro de Artes Visuais. Isto, insista-se, não obstante a modernidade do edifício do Teatro, marcado por uma fachada quadrangular amarela, sobreposta em cor contratante com o enquadramento retangular.

 

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O interior comporta duas salas de espetáculo unidas para efeitos de circulação por uma série de pequenos “viadutos”. O projeto do edifício é dominado por um paralelepípedo ligado em arco, e integra-se harmoniosamente na área urbana, beneficiando aliás (e vice-versa…) com a proximidade do Centro de Artes Visuais.

 

E referimos então essa proximidade com o Centro de Artes Visuais, independentemente da expressão arquitetónica epocal e da tradição funcional do edifício, que domina também a zona urbana e reforça a sua tradição histórica e artística, pelo menos desde 1548 quando por ali também funcionou, como já vimos, o Colégio das Artes.

 

O contraste arquitetónico, estilístico, funcional destes dois monumentos teatrais, chamemos-lhes assim, marca bem a adequação e a intemporalidade, no que refere também a atividade do espetáculo.

 

 Pois, tal como escreveu Guilherme d’Oliveira Martins, no Prefácio de um nosso estudo:

“Os Teatros são lugares da vida. Foram-no desde sempre. E se o teatro como arte e atividade humana permite, desde a antiguidade, um melhor conhecimento da pessoa humana (ou não fosse a palavra pessoa derivada do grego prosopon, que significa personagem dramática no sentido de máscara teatral) a verdade é que estamos perante um domínio em que a memória e o património, a história e a cultura, o ser e a representação, a liberdade e a necessidade se ligam intimamente. Estes lugares de vida permitem, desse modo, compreender melhor a essência do património cultural e da sua importância fundamental”. (in “Teatros em Portugal - Espaços e Arquitetura”, Ed. Mediatexto e Centro Nacional de Cultura, 2004).

 

DUARTE IVO CRUZ   

 

 

 

BIBLIOGRAFIA BASICA SELECIONADA
"Habitar Portugal - 2003/2005" - ed. Ordem dos Arquitetos - 2006
Revista "Monumentos" ed. DGEM Setembro 2006

A.C. Borges de Figueiredo - "Coimbra Antiga e Moderna" ed. Almedina - 2006
Duarte Ivo Cruz - "Teatros em Portugal - Espaços e Arquitetura" Prefácio de Guilherme d'Oliveira Martins - ed. Mediatexto e Centro Nacional de Cultura, 2008

 

 

 

O Tivoli e outros teatros e espetáculos de Raul Lino, arquiteto e doutrinador

 Teatro Tivolo _ planta.jpg

  

Há cerca de um ano referimos e analisamos o Teatro e Cinema Tivoli numa dupla perspetiva de edifício construído para cineteatro e sala de concertos, mas também no ponto de vista estético e da coerência artística, técnica e doutrinário de Raul Lino, autor do projeto e gestor artístico do Teatro, de 1924 a 1931. Evocamos o próprio arquiteto, num texto coligido por Diogo Lino Pimentel e publicado no ano passado num volume evocativo da Exposição Retrospetiva da Fundação Calouste Gulbenkian (outubro/novembro de 1970).

 

Escreveu então Raul Lino, a propósito do Tivoli:

“Levou mais de quatro anos a construir (…) era grande a vontade de fazer alguma coisa de original na decoração interna e cheguei a propor uma decoração que principalmente consistia em grandes ramalhetes de cerâmica policromada de estilo moderno e cores muito vivas (…) mas não consegui convencer o meu bom amigo (Frederico Lima Mayer): no entanto este pediu-me que me quisesse incumbir de organizar os seus programas, o que fiz durante sete anos” (cfr. “Tivoli - Memórias da Avenida”, coordenação de Duarte de Lima Mayer e João Monteiro Rodrigues, ed. Building Ideas, CM e Arquivo Municipal de Lisboa e Centro Nacional de Cultura - 2016).

 

E no texto aqui publicado referi a valência cultural do Tivoli como cinema, como teatro e como sala de concertos e de ópera, e isto, desde as chamadas Terças Feiras Clássicas, às sucessivas temporadas de espetáculo teatral e musical, que aliás marcaram uma modernidade absolutamente notável em épocas sucessivas.

 

E basta lembrar que no Tivoli, em 1925, António Ferro lançou a companhia denominada Teatro Novo, efetivamente a primeira iniciativa experimental da história moderna do teatro português.

 

Ora, é caso para dizer, no respeitante ao teatro português, o Tivoli marcou uma coerência de modernização, em décadas sucessivas. Vocacionado para a apresentação de espetáculos vindos do exterior torna-se no entanto relevante evocar iniciativas de verdadeira renovação de companhias portuguesas; citamos então o Teatro Experimental de Cascais dirigido por Carlos Avilez, o Circulo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra dirigido por Paulo Quintela, ou o Grupo 4 e mais espetáculos que acertavam este registo de modernização/renovação.

 

Isto, no que se refere a artistas portugueses. Porque, no que respeita a temporadas ou espetáculos vindos de outros meios, pelo palco do Tivoli passaram a Royal Shakespeare Festival Company com Barbara Jeford e Ralph Richardson, ou o Pirakon Theatron de Atenas, este em cooperação com a Fundação Calouste Gulbenkian.

 

E ainda as chamadas Galas Karsenty-Herber e outras companhias vindas de França, que levaram à cena peças de Montherlant, Peter Brook, Anouilh, Noel Simon, Ariano Suassuna ou Abélio Pereira de Almeida.  

 

E no que se refere à musica? Aí, evocamos concertos em que se apresentaram “ao vivo” artistas com a qualidade e projeção de Stavinski, Rubinstein, Menhuin, Kempff, ou dos portugueses Viana da Mota, Freitas Branco, Ivo Cruz, Silva Pereira, Frederico de Freitas, Alvaro Cassuto, Tânia Achot e também tantos mais.

 

No catálogo da Exposição acima referido, enumeram-se os principais espetáculos ou textos dramáticos e bailados em que Raul Lino colaborou como cenógrafo, sendo certo que algumas delas não chegaram a estrear: "Rosas Bravas" de Afonso Lopes Vieira, "Auto de Mofina Mendes", "Fausto" de Júlio Dantas, João de Barros e Manuel Sousa Pinto, "Bailado do Encantamento" de Rui Coelho com coreografia de Almada, "Salomé" de Oscar Wilde, "Milagre" de Veva de Lima, "O Fidalgo Aprendiz", "Orfeu" de Monteverdi, "Pastoral" de Ivo Cruz e Margarida de Abreu - isto quanto a cenários projetados ou executados e para além de largas dezenas de figurinos desenhados para estes e outras espetáculos de ópera e bailado, segundo o Catálogo da Exposição acima referido.

 

E ainda acrescentamos que Raul Lino é autor do projeto do Cineteatro Curvo Semedo de Montemor-o-Novo e de elementos decorativos do Cinema Palácio de Lisboa. Mas esses serão referidos noutra ocasião.

 

 

DUARTE IVO CRUZ     

 

 

 

 

VENTURA TERRA: EVOCAÇÃO DOS TEATROS E MAIS SALAS DE ESPETÁCULO

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Salão de entrada do Teatro de São Carlos

 

Em diversos artigos, tivemos já ensejo de evocar os 150 anos do nascimento do arquiteto Ventura Terra, ocorrido em 1866. Retoma-se hoje o tema, agora em função da exposição patente no Torreão Poente da Praça do Comércio, organizada pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

 

Dá-se especial relevo às intervenções de Ventura Terra diretamente ligadas às artes do espetáculo, como aliás temos aqui referido, mas não só: importa efetivamente enfatizar também algumas das conceções e intervenções de Ventura Terra em projetos, aliás quase todos devidamente construídos, destinados à abordagem de grande público.

 

“Do Util e do Bello” é a epígrafe do catálogo e da própria exposição em si, coordenada por Jorge Ramos de Carvalho. E nela se destaca, no conjunto da obra vasta e variada, o sentido e o objetivo de relacionamento com o público, seja em salas e edifícios de espetáculo propriamente duto, seja em edifícios destinados, não tanto a espetáculo, mas a receber “espetadores” / visitantes: desde logo, seguindo a cronologia da exposição, os dois Pavilhões de Portugal patentes na Exposição Universal de Paris de 1900.

 

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Estas não eram salas de espetáculo, é certo: mas tanto o chamado Pavilhão das Matas, Caça e Pescas como sobretudo o Pavilhão das Colónias Portuguesas constituíram, de acordo com o roteiro do exposição, uma notável criação de espaços públicos que, como tal, deixavam adivinhar o sentido de “espetáculo” que Ventura Terra iria ao longo da vida sucessivamente concretizar.

 

Em sucessivos textos que aqui já publicamos, faz-se referência detalhada ao Teatro Politeama, ao Teatro Clube de Esposende, ao átrio do Teatro de São Carlos (onde se suprimiram os frescos do teto de Cyrilllo Volkmar Machado) e ao Teatrinho do Palácio de Brejoeira (Monção). Mas o catálogo-guia da exposição que agora vimos citando, destaca ainda edifícios que, não sendo evidentemente salas de espetáculo, expressam uma vocação funcional de grande ajuntamento de participantes, e como tal exigem o sentido de “assistência coletiva”, chamemos-lhe assim, que as salas de espetáculo representam.

 

E desde logo o chamado na época Palácio das Cortes, em São Bento, como tal inaugurado em 1833 mas totalmente reformulado por Ventura Terra em 1885/1886, numa modernização epocal que dura até hoje e que incluiu o desenho do mobiliário e do equipamento, então extremamente atual.

 

Em 1902 surge a Sinagoga de Lisboa aliás muito próxima da casa do próprio Ventura Terra, casa que lhe valeu o Prémio Valmor de 1903.

 

O catálogo da exposição documenta também um esplendoroso projeto de Palácio do Congresso do Rio de Janeiro, que não chegou a ser construído.

 

E finalmente, refere os Liceus Camões (1907) e Maria Amália Vaz de Carvalho (1915), o que pode ser relacionado com o carater coletivo das “exibições” dos professores…

 

O catálogo da exposição, para além de estudos diversos, contem uma exaustiva tabela cronológica da vida e obra de Ventura Terra. Aí encontramos as funções político-administrativas que ao longo da vida desempenhou, com destaque para a Câmara Municipal de Lisboa, onde foi vereador por iniciativa de Bernardino Machado, de 1908 a 1913 e novamente em 1917.

 

No quadro dessas funções, remete-se para um documento da CML, datado de 28 de Agosto de 1909 e citado por Rute Figueiredo no seu estudo sobre “Arquitetura e Discurso Crítico em Portugal (1893-1918). – (ed. Colibri e HIA – FCSH da UNL págs. 252-252).

Lê-se no referido documento:

“Tendo a Câmara Municipal de Lisboa na sessão de 12 do corrente, tomado em consideração uma proposta do Ex.mo Sr. Vereador Ventura Terra a fim de melhorar quanto possível os serviços relativos à estética da cidade de Lisboa e o seu conforto sob o ponto de vista artístico, principalmente no que respeita à construção e conclusão de avenidas, praças, jardins, etc., e ao aproveitamento das suas magníficas perspetivas, foi pela mesma Câmara criada Cuma Comissão de Estética Municipal.

Ora, nessas “magníficas perspetivas” se inscrevem os teatros de Ventura Terra, e não só em Lisboa!...

 

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DUARTE IVO CRUZ 

 

 

 

 

 

 

“O MUNDO DERRUBADO” - Referências dramatúrgicas na exposição da Fundação Calouste Gulbenkian

Tudo se desmorona © Arquivo Municipal de Lisboa.j

 

A Fundação Calouste Gulbenkian organizou um relevante ciclo de atividades evocativas da participação de Portugal na guerra de 1914-18, numa perspetiva histórica, cultural e literária que prolonga e completa a importante exposição simbolicamente denominada “Tudo se Desmorona - Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal”. Trata-se de notabilíssima mostra de documentos e textos evocativos da intervenção de Portugal, numa análise historiográfica da sociedade e da politica da época, mas também da expressão cultural subjacente - e tão relevante ela foi e é!..

 

“O Mundo Derrubado” é identificado como o «Jornal da Exposição». Nos textos que o preenchem fazemos aqui referências a aspetos especificamente ligados à dramaturgia e à produção teatral portuguesa no contexto da intervenção de Portugal na Guerra.

 

E desde logo se salienta o que pode parecer algo paradoxal, a saber, a evocação da guerra no teatro de revista. O tema é abordado por Carlos Silveira, na perspetiva da criação artística em si mesma - textos, espetáculos, atores, autores - mas também na temática política, e ainda em variadíssimos aspetos pessoais da intervenção na guerra.

 

Citam-se aí diversas revistas da chamada «Parceria», tríade de autores que, durante anos, dominaram em Portugal o teatro ligeiro, a saber, Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos.

 

Bermudes definiu deste modo a estrutura das revistas:

1º ato - Quadro de Abertura, estruturado em fantasia; quadro de comédia; quadro de rua, com as atualidades; apoteose.

2º ato - Dois quadros de variedades, números com cenários próprios e apoteose…

 

Damos um exemplo extraído da revista «O Novo Mundo» (1916), da Parceria, citado por Luís Francisco Rebello, na sua “História do Teatro de Revista em Portugal” (ed. D.Quixote 1984):

«Meus amigos, esta vida / Pra quem lida / A moirejar cá na roça / É uma grande subida / Que se leva de vencida / Como quem puxa a carroça. / Quando a gente desanima / E a coisa vai parar / Ai ó! / Então adeus ó vindima! / Se não vem chicote acima / Somos uns homens ao mar»  

Na publicação da Fundação Calouste Gulbenkian acima citada, Carlos Silveira refere que os autores da Parceria “intuíram lucidamente os impactos do conflito nas camadas populares. São vários os fados de assunto social que animam estes quadros”. E salienta a temática política na época dominante nos anos seguintes à guerra, especificando os teatros onde as peças foram representadas:

«Em “Adão e Eva” de Jaime Cortesão (Teatro do Ginásio,1921) estreado dois meses depois de “Zilda” (de Alfredo Cortez) o protagonista Marcos é um revolucionário idealista que sacrifica o amor à família pela causa da revolução. (…) Em “A Casaca Encarnada” (Teatro Politeama, 1922) anunciada por um cartaz de Almada Negreiros, Vitoriano Braga reproduz o ambiente de promiscuidade e moralidade duvidosa entre o mundo empresarial e a vida desregrada dos clubes noturnos. (…) Ramada Curto, um dos dramaturgos mais representados no período entre guerras, levou à cena drama de conteúdo semelhante, “O Caso do Dia” (Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro, 1926)».

 

E termina-se esta remissão com a transcrição do comentário que Raul Brandão faz em “Vale de Josafat” (1933), citado na publicação que aqui referimos: «Os teatros transbordam. O dinheiro perdeu o valor (1921-1922). Todos caminhamos com febre - a febre de quem não confia no dia de amanhã»

 

DUARTE IVO CRUZ

 

      

TEATRO ABC

 

O ÚLTIMO TEATRO CONSTRUÍDO NO PARQUE MAYER

 

O Teatro ABC foi a última sala de espetáculos inaugurada no Parque Mayer: e, no que se refere ao espetáculo propriamente teatral, terá sido a primeira a ser encerrada. Vocacionado para a revista, que na prática e salvo eventuais iniciativas esporádicas, foi a expressão dramática lá dominante, o ABC estreou como teatro em janeiro de 1956, e durou até 1997. Desde a origem fazia-se notar o carater algo provisório do edifício, fundado pelo empresário José Miguel e instalado em áreas antes ocupadas por outras expressões de espetáculo e/ou de serviço público: restaurantes, ringue de patinagem, cinema ao ar livre.

 

Em 1955 José Miguel era um nome determinante do espetáculo de revista. Procedeu à adaptação do espaço, privilegiado pela localização, em recinto repetimos, vocacionado para o espetáculo.

 

De acordo com o levantamento exaustivo de Jorge Trigo e Luciano Reis, o Teatro ABC alternou esporadicamente a revista com espetáculos de teatro infanto-juvenil, tal como dizemos hoje: e o carater esporádico dessas iniciativas dispersas não desmerece da qualidade de elencos e da exigência dos autores envolvidos: entre autores e atores, surgem nomes como Eduardo Damas, Rui de Carvalho, Francisco Nicholson, Canto e Castro, Luís Cerqueira, Maria Clara Machado, Curado Ribeiro e até o francês Labiche, traduzido por César de Oliveira… isto, em elencos que no total excedem  centenas de artistas, muitos deles de primeiríssimo plano artístico e profissional.

 

Porque a revista, foi sempre relevante, e o teatro infanto-juvenil,  era-o já também,  na época, e muito o foi nos anos seguintes: basta lembrar o Teatro do Gerifalto de António Manuel Couto Viana.

 

Ora, é de salientar que o Parque Mayer, independentemente da heterogeneidade de expressões cénicas e musicais que lá se produziam, e que temos aqui evocado nesta série de artigos, ainda constituía à época, e aliás não era novidade, o grande centro de produção de revista no país.

 

Só que, como temos aqui visto, os outros teatros do Parque Mayer – Capitólio, Maria Vitória, Variedades -  ao longo de dezenas de anos, iam alternando, é certo que uns mais do que outros, o género de espetáculo dominante:   nesse aspeto, aliás, o mais heterogéneo será o Capitólio, durante dezenas de anos vocacionado quase exclusivamente para o cinema: e mesmo assim, como já tenho recordado, lá se instalou por exemplo a companhia brasileira de Maria Della Costa e Sandro Polónio, que estreou Brecht, ou a Empresa Rey-Colaço – Robles Monteiro na época marcada pelos sucessivos incêndios dos Teatro D. Maria II e do Avenida…

 

Em qualquer caso, o Teatro ABC foi sobretudo um teatro de revista. Fundado e primeiramente dirigido pelo empresário José Miguel, e a partir de 1971 dirigido por Sérgio de Azevedo, produziu, escreveram Jorge Trigo e Luciano Reis, um total de 47 revistas, o que é assinalável, tendo em conta que as revistas ficavam meses em cartaz. (cfr. Jorge Trigo e Luciano Reis “Parque Mayer” vol. 2 ed. Sete Caminhos págs. 127 e segs.)

 

A primeira revista foi “Haja Saúde” da autoria de José Galhardo, Carlos Lopes e Frederico de Brito, com Curado Ribeiro no primeiro papel. Seguiram-se, como já referimos, mais 46 revistas, intercalando com os espetáculos infantis e outros espetáculos diversificados: mas efetivamente, o Teatro ABC foi predominantemente um teatro de revista.

 

Fazemos aqui uma transcrição da “História do Teatro de Revista em Portugal” de Luis Francisco Rebello que evoca valores notáveis das sucessivas temporadas da ABC (vol. 2 – Publicações D. Quixote -  1985):

 

“Num dos primeiros dias de janeiro de 1956 inaugurava-se, ao lado do Maria Vitória, o quarto teatro do Parque Mayer, o ABC – construído no mesmo local onde haviam funcionado o Alhambra e o Pavilhão Português”. Refere que “à semelhança da sala, a companhia era modesta”. Mas refere que foi sobretudo na revelação de novas personalidades que em empresário José Miguel e o seu sucessor Sérgio de Azevedo apostaram”. E cita nomes que realmente hoje fazem parte da história do espetáculo em Portugal: por exemplo Hermínia Silva, Raul Solnado, António Silva, Humberto Medeira, Manuel Santos Carvalho, Ivone Silva irene Cruz, Henriqueta Maia, José Viana, Aida Batista, Camilo de Oliveira, e tantos mais. E mais refere que “1972 foi um ano fausto para a revista portuguesa” e “foi o ABC, uma vez mais, o palco dessa aventura que se iniciou com «É o Fim da Macacada» segunda revista montada pelo novo e ativo empresário do Teatro mais recente do parque Mayer, Sérgio de Azevedo (ob. cit.págs 131 e 142).

 

Ora bem: em 1990, o Teatro ABC arde! Carlos Santos toma conta dos trabalhos de reconstrução, e o ABC reabre em 1993. Mas em 1977 fecha definitivamente.

 

E hoje, nem o edifício resta!

 

DUARTE IVO CRUZ 

UM DRAMATURGO ESQUECIDO E UM TEATRO DEBATIDO

 

Trata-se, aqui, de uma situação no mínimo insólita: um dramaturgo que, pela qualidade e prestígio epocal da sua obra, justificou, na transição dos séculos XIX/XX, a denominação de um teatro que, ao menos no edifício, dura até hoje. E isto, apesar do abandono, seja permitida a expressão, em que o teatro se encontra, não obstante integrar (hoje) o património municipal.

 

Trata-se então do Teatro Salvador Marques de Alhandra. E vale a pena então recordar que Salvador Marques (1838-1907) marcou de forma esteticamente assinalável a transição do teatro romântico para o realismo-naturalismo, movimento consagrado a partir de “Os Velhos” (1893) de D. João da Câmara (1852-1894): assim se iria definir, de certo modo até hoje, a expressão estética e de conteúdos da dramaturgia portuguesa. E vale a pena recordar que D. João da Câmara é hoje, como sempre certamente será, um nome referencial do teatro português.

 

Mas quem se lembra hoje das peças de Salvador Marques, e da relevância na época, e isto, tanto na perspetiva dramatúrgica em si, como na atividade do autor? E no entanto, pelo menos algumas das peças merecem atenção, pela qualidade da escrita, mas também pela conceção de certo modo adiantada para a época, mesmo quando reflete uma influência do romantismo já na altura algo tardio.

 

Estamos a citar “Fome e Honra”, Santa Quitéria”, mas sobretudo “Os Campinos” (1874), peça referencial de Salvador Marques. E aqui, há que salientar a iniciação a uma corrente muito marcada até hoje, que qualificamos já como teatro regional rural.

 

Trata-se de uma evocação de amores clandestinos numa ambientação social que envolve as relações profissionais da época, com bons e maus patrões, fidalgos tradicionalistas mas também o “fidalgo novo” D. Luís que acaba casado com a filha do velho abegão Diogo: e isto era, na época considerado uma expressão de renovação social. Pelo meio, um velho Prior marca também o conteúdo da peça. 

 

E curiosamente, o que sobretudo sobressai é a tendência então modernizante do conflito social e da problemática socio-económica, tudo num enquadramento regional.

 

Ora bem: esta evocação de um dramaturgo hoje completamente esquecido, serve para melhor compreender as razões que levaram um grupo de individualidades de Alhandra a empreender a construção do Teatro Salvador Marques, homenagem marcante ao dramaturgo então ainda em plena atividade.

 

O Teatro Salvador Marques foi inaugurado em 10 de abril de 1905, em espetáculo a cargo da companhia do Teatro Ginásio, com “O Comissário de Polícia” de Gervásio Lobato, o que teve a maior relevância: importa recordar que o Teatro marcou sobremaneira o ambiente cultural mas também patrimonial da região.

 

Salvador Marques salientou-se sobretudo como empresário e dirigente de teatros e iniciativas de espetáculo. Esteve ligado OS Teatros Avenida, Rato, Príncipe Real e Teatro da Rua dos Condes. Em todos eles exerceu também a função de ensaiador, como na época se dizia. 

 

O Teatro Salvador Marques tinha na época 40 camarotes, duas frisas, para cima de 200 lugares de plateia e balcão e mais 90 lugares de geral. Tudo isto marcado no exterior por uma bela fachada. Nos anos 50 do século passado albergou por exemplo espetáculos dos Companheiros da Alegria, de Igrejas Caeiro, à época de enorme sucesso na rádio e em teatros poe esse país fora…

 

Diga-se ainda que o Teatro Salvador Marques funcionou até 1984. Encerrado, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira adquire-o em 2001. Dura até hoje o debate acerca do destino do edifício, debatido designadamente em sessão da Câmara deste mês.

 

Garrett, nas “Cartas de Vale de Lobos” refere-se a “Alhandra a toureira”. E Oliveira Martins, nas “Cartas Peninsulares”, é eloquente: considera Santarém “o coração deste paraíso do mundo” que abrange “as pequenas povoações ribeirinhas do Tejo, Vila Franca e o Carregado, Alhandra, Tancos e a Barquinha, debruçadas sobre a margem alimentadas pelo rio onde se mira e que as criou e fecundou”…

 

Vamos ver o que acontece ao Teatro Salvador Marques!

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DOS TEATROS DE PORTALEGRE

 

A evocação de Portalegre como expressão, inspiração ou localização de uma tradição teatral alargada, envolve necessariamente, e desde logo, a referencia a José Régio e a Amélia Rey Colaço –  por razões obviamente diversas mas em certos casos convergentes.

 

José Régio, como se sabe, foi durante décadas professor do Liceu de Portalegre. Não espanta por isso que grande parte da sua obra tenha sido concebida na cidade. Aí se integra a dramaturgia, com o circunstancialismo de três peças referenciais.

 

Em primeiro lugar, a criação textual e de espetáculo da sua primeira peça conhecida, “Sonho de uma Véspera de Exame”, escrita e representada em 1935 por alunos finalistas do Liceu no Teatro Portalegrense. E é de assinalar que entre esses finalistas-atores estava o futuro grande ator Artur Semedo: aí se terá iniciado uma notável carreira.

 

E por outro lado, no Teatro Portalegrense, Amélia Rey Colaço efetuou a sua ultima aparição em cena, em 1985, no espetáculo único de “El-Rei Sebastião”, de José Régio, evocação-homenagem ao dramaturgo, falecido em 1969.

 

E finalmente: Benilde, protagonista da peça de Régio “Benilde ou a Virgem-Mãe”, publicada em 1947, ouve as suas vozes numa casa “em qualquer solidão do Alto Alentejo”, onde se situa “uma casa sinistra”...

 

Assinale-se então que em 1858 inaugura-se em Portalegre o Teatro Portalegrense, projeto do Arquiteto José de Sousa Larcher: um exemplar notável da geração de teatros que foram sendo construídos no interior do país. Tinha entretanto precedentes: José Martins dos Santos Conde refere pelo menos duas salas, ambas com nome de grandes atrizes da época: Emília das Neves, denominada a “linda Emília” por Brito Camacho, e Beatriz Rente, esta “de olhos grandes e lânguidos” escreveu então Sousa Bastos. 

 

Mas em 29 de setembro de 1953, Amélia e a Companhia Rey-Colaço – Robles Monteiro inaugura em Portalegre o Cine-Teatro Crisfal, projeto do Arquiteto Domingos Alves Dias e do Engenheiro Raul Dias Subtil. E o então já decadente Teatro Portalegrense acentua essa decadência: nos anos 80, um grupo desportivo nivelou o palco e a plateia, e “transformou” o teatro num insólito ringue de patinagem rodeado de frisas e camarotes!

 

Ora bem:  em 2007 abre ao público o Centro de Artes e Espetáculos de Portalegre, segundo projeto dos Arquitetos Manuel Gonçalves e Patrícia Rocha Leite. Trata-se de um edifício de espetáculo, notável pela modernidade e pela dimensão, pois comporta um conjunto de dois auditórios de 500 e de 170 lugares, o que permite uma rentabilização que a proximidade com Espanha de certo modo internacionaliza.

 

É de assinalar aliás um certo contraste ou heterogeneidade arquitetónica nas zonas de espetáculo. E desde logo porque o Centro Cultural comporta como vimos duas áreas distintas. Tal como já escrevi, o auditório maior retoma, de certo modo, e dentro de certos limites, a tradição da sala à italiana, aqui dominada por uma decoração moderna que ainda assim evoca certa linha de continuidade. E no exterior, um conjunto arquitetónico de corpos sobrepostos que confere uma nota de modernidade no conjunto urbanístico em que o Centro de Artes e Espetáculos se edificou.

 

Evoco, como já tenho feito, duas referências, das inúmeras que na sua obra, José Régio faz a Portalegre, cidade onde viveu dezenas de anos.

 

Desde logo, o longo poema intitulado precisamente “Toada de Portalegre”, publicado em “Fado”:

 

“Em Portalegre, cidade/ do Alto Alentejo, cercada/ De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,/ Morei numa casa velha,/ Velha, grande, tosca e bela,/a qual quis como se fora/ Feita para eu morar nela”. E seguem mais 228 versos – “verso musical, de rumores solitários, de angústias a meia voz”, como nos diz Urbano Tavares Rodrigues.

 

E no dia 5 de março de 1965, José Régio escreveu: “De regresso enfim a Portalegre; e que alívio! Retorno a minha solidão tão cheia, depois daquela brilhante balbúrdia tão vazia, exceto quendo, apesar de tudo, a minha solidão nela se insinuava”. 

 

E acrescento que hoje, José Régio não teria já qualquer pretexto para falar da “solidão” de Portalegre, a não ser da sua própria solidão!

 

(obras citadas: Sousa Bastos - “Dicionário do Teatro Português”-1903;  Urbano tavares Rodrigues – “O Alentejo” in” Antologia da Terra Portuguesa ”; José Régio – “Páginas do Diário íntimo” 2ª ed. 2002; José Martins dos Santos Conde - “Teatro em Portalegre”- 1989; Duarte Ivo Cruz - “Teatros de Portugal 2005 e “Teatros em Portugal- Espaços e Arquitetura” 2008; José Régio “Páginas do Diário Íntimo” 2ª ed.  - 2002).

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO LUÍS DE CAMÕES, PRECURSOR DOS TEATROS DE BOLSO

 

O pequeno Teatro Luís de Camões, na Calçada da Ajuda em Lisboa, datado de finais do século XIX e em fase de recuperação, constitui exemplo de certo modo percursor dos chamados Teatros de Bolso que hoje marcam numerosas cidades e vilas por esse país: e é interessante desde já referir o caráter, insista-se, percursor desta iniciativa, que, curiosamente, se ficou a dever a um comerciante local, João Açucar de nome.

 

A inauguração oficial do Teatro Luís de Camões ocorre em 10 de junho de 1880, no quadro das comemorações do tricentenário da morte do poeta. A peça foi “Camões e o Jau” de Casimiro de Abreu. Em qualquer caso, insistimos, surge percursor, dos pequenos teatros (e hoje até cineteatros) que existem um pouco por todo o país. Só que este, particularmente pela reduzida dimensão e lotação, é percursor de o que chamamos hoje, bem ou mal, Teatros de Bolso, não obstante constituir um edifício autónomo.

 

José Augusto França, ao historiar a construção do palácio da Ajuda, esclarece que “nenhuma igreja (só uma capela), nenhum grande teatro estava previsto no plano: o complexo arquitetónico tradicional cedia lugar a uma definição mais civil ou mais cívica, e portanto mais moderna, de residência régia” (cfr. “Arte em Portugal no Século XIX, vol. I Bertrand ed. pág.95 e segs.) 

    

E no entanto, o Teatro Luís de Camões da Ajuda marcou, ao longo destes 137 anos, com os altos e baixos inerentes, uma certa “política” cultural na época fortemente descentralizada, até no ponto de vista administrativo. Belém era na época concelho. E não obstante a relevância óbvia que decorria inclusive da proximidade do Palácio, a construção e exploração de um pequeno Teatro aberto ao público assumiu um significado específico, sendo certo entretanto que o Teatro do Palácio da Ajuda ou Casa da Ópera de Belém foi inaugurado em 4 de novembro de 1737 segundo projeto de Bibiena, que seria autor também do Teatro da Ópera do Tejo, este destruído pelo terramoto de 1755.

 

Muito diferente é desde a origem o Teatro Luís de Camões. A sala reproduzia, na sua dimensão de pequeno teatro, sobretudo pequeno para a época, a estrutura sócio-económica de exploração de espetáculo da época de fundação: plateia, frisas, camarotes, tribuna, num dimensionamento adequado à dimensão percursora, insista-se, de um teatro de bolso, nesse aspeto também percursor.

 

 Em 1899, o Teatro Luís de Camões passa a servir de sede ao Belém Clube. E entretanto, ao longo destes mais de 100 anos, o historial do Teatro assinala uma tradição de iniciativas culturais e de intervenções artísticas dignas de registo histórico.

 

Lá se estreou e lá se despediu do público Adelina Abranches. Lá atuaram nomes históricos do teatro luso/brasileiro, como Rafael Alves, João Villaret. Auzenda de Oliveira, Sales Ribeiro, Mirita Casimiro, Procópio Ferreira, Bibi Ferreira…

 

E lá se estreou o grande cantor e encenador de ópera Tomás Alcaide, evocado, entre outros numa placa inaugurada em 1953.

 

DUARTE IVO CRUZ 

MEMÓRIA DO TEATRO DO SALITRE

 

O programa de visitas organizado pelo Centro Nacional de Cultura no eixo da Avenida da Liberdade justifica esta evocação do setecentista Teatro do Salitre, a certa altura (1858) também chamado Teatro das Variedades, o que desde logo define o seu âmbito de programação, mas também documenta a antecipação urbana e cultural que a sua construção e atividade representa relativamente ao eixo central urbano da Avenida da Liberdade e ao próprio Parque Mayer.

 

É interessante e oportuno por isso referir que o Teatro do Salitre, inaugurado em 27 de novembro de 1782 e demolido em 1879, logo no início das obras de implantação da Avenida, representou durante um século como que a antevisão do que viria a ser, ali mesmo, o Parque Mayer: curiosa antevisão,  insista-se,  de funções urbanas e culturais desta zona da cidade!

 

O Teatro do Salitre foi edificado por iniciativa de um negociante, de nome João Gomes Varela, que encomenda o projeto ao arquiteto Simão Caetano Nunes. Varela terá sido pois o primeiro empresário, diríamos hoje, do Parque Mayer. E para o espetáculo de estreia, é também contratado um equilibrista na altura muito prestigiado, Tersi de seu nome.

 

Mas quem mais marcou o Teatro do Salitre como cena referencial foi o ator António José de Paula que a partir de 1794 explorou o Teatro com um repertório notável para a época: inclusive, estreou em Portugal duas peças adaptadas de textos de Voltaire. E anos mais tarde, lá se instalaria uma companhia dirigida por Emile Doux, nome referencial no seu tempo e de certo modo ainda hoje.

 

Mas em 1840 o Teatro do Salitre estava em fase de decadência. Teófilo Braga, no seu estudo intitulado “Garrett e os Drama Românticos” (1905) transcreve um artigo onde se traça uma visão muito negativa do Teatro nessa época:

 

“O Teatro do Salitre era o único regular de Lisboa, e este mesmo, que mais se assemelhava a uma baiuca do que a um lugar de recreio público, só era frequentado pela classe ínfima da sociedade: ali, as graças mais obscenas eram unicamente aplaudidas, os ditos mais desonestos eram os que melhor soavam aquela plateia”…!

 

E mais adiante, na mesma obra, mas reportado a 1806: “o Teatro da Salitre tornou-se um asilo para os literatos pobres, assalariados para trucidarem a arte e a língua com traduções de dramas franceses”… (pág. 135).

 

A crise vinha pois de trás. E nesse sentido, Ana Isabel de Vasconcelos assinala agora   que “o Teatro do Salitre tem desde sempre sido referido como um parente pobre da arte dramática. (…) Já no fim do século XVIII, quando não havia atores em número suficiente, este teatro é preterido relativamente ao Condes, que se apropria da designação de teatro nacional”.  Mais refere ainda que “o Salitre tinha uma boa lotação – 900 espetadores em plateia, frisas e camarotes” (in “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT  2003 págs 30-31).

 

E é interessante recordar que quando Garrett, em 1836, elabora a sua reforma estrutural do teatro português, as duas salas dominantes de Lisboa – e do país inteiro,  em rigor -  eram precisamente o Teatro do Salitre e o Teatro da Rua dos Condes, sem referir, claro, o Real Teatro de São Carlos, esse inaugurado em 30 de junho de 1793 e vocacionado, como bem sabemos, para a música, para a ópera.

 

O teatro de D. Maria II seria inaugurado em 13 de abril de 1846. Pode referir-se também o pequeno Teatro das Laranjeiras, do Conde de Farrobo, inaugurado em 1825 e restaurado em 1842. O Teatro do Gymnasio data do mesmo ano de 1846. O Teatro da Trindade é de 1867, o Teatro Gil Vicente de Cascais de 1869, o Teatro Taborda de 1870... 

 

Mas recorde-se então que o Teatro São João do Porto é inaugurado em 13 de maio de 1798, e antes dele existiram Teatros em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país: de muitos deles temos falado aqui, e  desses e de outros voltaremos aqui a falar.

 

DUARTE IVO CRUZ