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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

3. SOBREVIVENDO E GERINDO DEPENDÊNCIAS - III

 

A imagem de Portugal como centro, dada pela sua posição pioneira via Descobrimentos, correspondeu à época em que eram sobretudo os portugueses que representavam a Europa à escala global, que vinha então até nós, desejosa de um diálogo igualitário.


Com o decorrer do tempo, Portugal deixou de ser rosto e vanguarda da Europa, convertendo-se em sua periferia e retaguarda, não sendo o seu império tido como uma continuidade e braço essencial para a sua expansão económica, financeira, política e social, mas sim o seu refúgio essencial de sobrevivência, em termos reais e simbólicos.

Até 1974/75, Portugal viveu, estrategicamente, fechado à Europa e aberto sobre o Atlântico e o império colonial. Orientou-se, externamente, a nível diplomático e militar, para o Atlântico, privilegiando a aliança com a potência marítima, tradicionalmente a Aliança Inglesa, os Estados Unidos após 1945, a NATO a partir de 1949. Quando integrou a EFTA, na Europa, continuou marítimo, atlântico e não continental, diversificando as alianças externas em relação a Espanha, sem esquecer os sucessivos impérios, desde o oriental, o brasileiro e o africano.

Perdido o império ultramarino, após a descolonização, fecha-se o ciclo imperial. Há necessidade de repensar o futuro de Portugal, em função da análise do seu passado, alterando o seu modelo de inserção internacional, o relacionamento peninsular e a reformulação do interesse nacional. Optou-se, como prioridade, pela adesão à Comunidade Económica Europeia, atual União Europeia e, dentro desta, à Zona Euro.

Apesar da opção atlântica ser tida, desde sempre, como historicamente vital para Portugal, não se esgota em si, impondo-se também a europeia, desde logo porque parte integrante da Europa, apesar da sua especificidade, do lado de cá dos Pirenéus, além do carater insular da Península Ibérica, qual ilha, tipo Jangada de Pedra, de Saramago, onde coexiste uma forte componente marítima portuguesa, por contraste com a continentalidade de Espanha.

Integrando a Europa, a Lusofonia e a CPLP, Portugal afirma-se, por um lado, como país democrático europeu e, por outro, como de vocação atlântica, que pela língua comum se identifica com outros povos que a adotaram e que outrora colonizou, havendo que compatibilizar e harmonizar estas opções.

Também a manutenção e reforço da relação transatlântica é imprescindível, por ser insuficiente, para a Europa, ser uma potência económica e fraca em termos de defesa, segurança, investigação científica, tecnológica e espacial, porque irremediavelmente ultrapassada por um dos seus filhos, os Estados Unidos da América, a que acresce a defesa e segurança do nosso país como parte da Europa, da UE e como estado europeu individualmente considerado, se confrontado com a emergência de um Diretório Europeu assente numa hegemonia franco-alemã, ou outra. Sendo a Comunidade Transatlântica uma realidade europeia na sua génese cultural, a lógica antagónica do binómio Europa/Atlântico faz cada vez menos sentido, perante desafios globais como o terrorismo, ameaças ambientais, doenças facilmente propagáveis, problemas de defesa ou segurança coletiva, ou decorrentes da globalização económica.

Portugal tem interesse em compatibilizar e harmonizar estas opções, agregando-as a marcas e sinais que deixou pelo mundo e que o tempo não apaga, atualizando-as e corrigindo-as, anos ou séculos após o afastamento da presença de domínio ou cooperação, da Índia, ao Brasil, a África, passando por Malaca, Aden e o Mar Vermelho, Ceilão, Insulíndia, antigo Reino de Sião, Tibete, China, Japão. O que decorre das nossas responsabilidades históricas, da nossa presença e cultura no mundo, de cuja disseminação e diáspora resulta ser a língua portuguesa o terceiro idioma europeu mais falado mundialmente.

Se não queremos ser excluídos da Europa a que pertencemos por direito próprio, ao mesmo tempo que não devemos abdicar da presença da cultura portuguesa e lusófona deslocalizada por vários continentes, nem da relação transatlântica, há que compatibilizar e reforçar desenvolvimento com segurança na diversificação das dependências, gerindo estas para efeitos de sobrevivência com responsabilidade e em respeitabilidade. Maximizando a nossa posição geográfica, potencial marítimo, relações e demais recursos a nível global, invertendo a periferia europeia pelo centralismo mundial.

 

14.02.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

2. SOBREVIVENDO E GERINDO DEPENDÊNCIAS - II

 

1. Ultrapassado o trauma da perda do Império Oriental, o da independência e síndrome de amputação do Brasil e confinado, por um lado, com a decadência nacional de que falava a Geração de 1870 e, por outro, com a doutrina jusinternacionalista da ocupação e partilha efetiva da Conferência de Berlim, Portugal tenta superar as suas debilidades forjando um novo sonho imperial que unisse em rosa cor Angola a Moçambique, o mapa cor-de-rosa. Assinaram-se tratados, com a Alemanha e França, que visavam assegurar a nossa soberania sobre tais territórios. Eis que surge, em 1890, um novo trauma, revelador da traumática relação Portugal-África, um Ultimato inglês declarando o não reconhecimento de tais direitos, exigindo a nossa retirada e reclamando a posse da região, com a cedência portuguesa, fazendo tábua rasa de direitos históricos adquiridos. Esse novo ideário levou a conflitos bélicos com povos africanos do interior, subjugados e vencidos. 

 

Consolidada a ocupação plena, repensou-se o imaginário imperial com a fusão da Metrópole e as oficializadas províncias ultramarinas (teoria integracionista), o que foi inviabilizado pelo eclodir da guerra colonial iniciada pelos movimentos independentistas africanos, na década de sessenta do século XX, forçando Portugal a ceder. Enquanto no âmbito dos conflitos coloniais europeus, Portugal teve de sujeitar-se ao Ultimato, sob coação do seu mais antigo aliado, foi também coagido a aceitar, na segunda metade do século XX, uma nova amputação, a da independência das suas colónias, especialmente africanas, na sequência da luta emancipadora e ganhadora dos povos colonizados e da nova ordem bipolar internacional fixada entre os Estados Unidos e a União Soviética.

 

A perda do Império Ultramarino, em 1975, cuja subsistência Oliveira Martins pensara ser a única saída para Portugal após a perda do Oriental e do Brasileiro, parecia cumprir o fatal destino por ele pressentido. Com a perda da guerra colonial e a independência das colónias africanas, emergia um novo trauma, um novo momento, um quarto momento de pagar, pensar e reconsiderar Portugal como país, regressado agora, de uma vez por todas, ao fim de vários séculos, às suas fronteiras europeias. Após a diáspora, ausências e deslocalizações, faltava cumprir Portugal, nas palavras de Manuel Alegre. Fechado o ciclo imperial, torna-se premente, mais uma vez, Portugal repensar o seu futuro, tentando ultrapassar esse novo momento traumático, de que estudos de então são esclarecedores.

 

2. É dessa época um livro de Joaquim Barradas de Carvalho, “Rumo de Portugal. A Europa ou o Atlântico?”, cujo título traduz a inquietude da opção a fazer:

 

“Para além de profundas reformas na sua estrutura económica, social e política, Portugal terá, e a breve prazo, de escolher entre duas opções que dizem respeito à sua história, a mais profunda. Portugal terá de escolher entre a Europa e o Atlântico. Se rumar para a Europa - esta Europa tão do agrado dos tecnocratas - Portugal perderá a independência de novo, chegará a mais curto ou a mais longo prazo à situação de 1580. Na Europa do Mercado Comum, e numa futura, hipotética, Europa política, a economia dos grandes espaços forjará uma Península Ibérica unificada, e seguramente com a capital económica em Madrid, que de capital económica se transformará, a mais curto ou a mais longo prazo, em capital política. Ora este seria um resultado contra natureza, na medida em que nunca existiu, nem existe, uma unidade de civilização na Península Ibérica

 

E acrescenta: 


“Assim, perante a encruzilhada, a Europa ou o Atlântico, pronunciamo-nos pelo Atlântico, como única condição para que Portugal reencontre a sua individualidade, a sua especificidade, a sua genuinidade, medieva e renascentista. Ora esta opção passa forçosamente pela formação de uma autêntica Comunidade Luso-Brasileira, uma Comunidade Luso-Brasileira que não seja apenas aquela “comunidade sentimental, ortográfica, … (…), e, se possível, uma Comunidade Luso-Afro-Brasileira. Nela todas as partes se reencontrariam na mais genuína individualidade linguística e civilizacional.

 

É esta a condição para que Portugal volte a ser ele próprio”. 

 

Tem-na como uma escolha prioritária, de vocação-destino, não excluindo as possibilidades de cooperação com a Europa. Opina que o Brasil representa mais genuinamente Portugal, exemplifica-o literariamente com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa ou Jorge Amado, observando que grande parte de escritores portugueses têm demasiada influência europeia, nomeadamente francesa, pelo que o melhor meio de nos conhecermos é ir para o Brasil e o inverso.

 

Justifica-se, num esclarecimento final:

 

“É que na história, existem uma curta, uma média e uma longa durações. Isto é: os regimes políticos, e até os sociais, passam. A Língua e a Civilização ficam”.

 

No que toca à interrogação decisiva de Barradas de Carvalho, a Europa ou o seu Atlantismo, deu-lhe resposta a nossa vivência recente e atual, tendo a entrada na Europa Comunitária compensado e superado, para muitos, o défice e o trauma derivado da perda do império ultramarino. Opção de fundo que nos trouxe, no curto e médio prazo, uma saída para a nossa viabilidade democrática e económica, um eventual quarto momento, cujos efeitos finais, por agora, desconhecemos.

 

De novo, confrontado com a sua imagem real, Portugal não aceita a sua pequenez ou mediania geográfica, ampliando-a e projetando-a num novo mapa, a atual União Europeia.

 

Ter-se-á reincidido num novo recurso “anormal “ou “tábua de salvação” de que Portugal se socorreu para adiar, por algum tempo, a resposta ao “problema português”, segundo a lógica proposta por Oliveira Martins?      

 

07.02.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA


O ESQUECIMENTO NÃO TEM LUGAR

Na paleta das cores o anoitecer não acontece. Existe uma espessura para quem entende a luz que impede que se possa perder a vista das razões; e dentro desta, é fabuloso o grande cérebro que nunca entenderá os cérebros das diminutas melgas que se tormentam para deixar rasto.

 

Julgo existir um alívio absurdo em quem deita fora o tempo da própria vida numa total indecifração do mundo e de si. Para eles a cor imensa da paleta das cores, nunca foi uma coragem para pensar sem restrição. É um sonso regímen aquele que se auto impõem ou um xadrez inepto? Não sei, ou talvez o entenda como um grande silêncio inculto onde e aonde tudo começa e acaba.

E disse ao soldado

Não o esperava a meditar nas fotografias não tiradas

Pois eu também não, mas os negativos de tudo o que os meus olhos viram, estão aqui algures dentro de mim. Penso muito nisto e quando penso, não sei explicar. Mas está cá.

Pois é, nunca sabemos tudo e muito menos explicar tudo ou olhar as coisas como se fossem uma paisagem à nossa frente, ali, clara, óbvia e dizê-la. Por exemplo, o âmbar engole insetos e mostra-os depois, muitíssimos tempos depois e sempre com o mesmo aspeto. É um lado estético, inquietante, e intriga-nos, soldado pensador. Aqui o rio Nilo nunca se desvia. E agora sou eu que não sei dizer as coisas de outro modo. Mas disseram-me que gosta de pintar, é certo?

Sim, agora ando a pintar a Europa.

A Europa? E como o faz?

Olhe, perguntando-me como chegou ela a este estado? É tão incompreensível. E para mim soldado nascido na aldeia escondida atrás da serra que às escondidas brincava comigo, ainda menos entendo hoje como se fala da cultura ou dessas coisas complicadas, sendo fácil de entender que tudo está cortado ao meio como se nada estivesse a acontecer. Olhe, a este facto dei duas cores: o amarelo e o amarelo-vivo.

Curioso. Tonalidade e uma cor.

Deixe- que lhe diga, soldado, continue a pintar o coração dos tornados e encontrará muitos países sorvedouros dos engenhos das ideias, e, talvez por aí, a paleta das cores mais exatas à Europa de hoje e que procura dizer nos seus quadros. Mas olhe, eu conheço pessoas da Europa do ontem e do hoje que até intuem o tanger das águas no meio das barulhentas multidões; eu sempre as soube nem presas da caça nem das guerras, mas lutadoras como soldados que provam harmonias, e recordam com coragem o que nos foi subtraído, e de um tal lidar com o mundo, delas a paleta das cores será sempre a audácia que só pertence a quem, o esquecimento nunca ocupará lugar.

Assim Mário Soares. Assim a História que tem sempre um lado de restituição: um átomo que conhece a hora certa do esbanjar de vida numa alegria, quando todos estão exaustos.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2017

LONDON LETTERS

 

Andrew Sacks, 1930-2016

 

Morre o grande Manuel de Barcelona, o Manuel ‘knows nothing’, eterno contraponto de Basil em Fawlty Towers (BBC, 1975). Com Mr Andrews Sachs, nascido Herr Andreas Siegfried Sachs na Berlin de 1930,

fenece aos 86 anos uma estrela da British Comedy.  — Chérie! À chacun selon ses oeuvres. Hoje é o dia 1 do Brexit verdict no Supreme Court. HM Government desafia sentença adversa ao uso do Royal Prerrogative Power. O suspense acompanha uma brava vitória dos Liberal Democrats na by-election em Richmond Park, transformada em euroconsulta local. Com a perda de mais um MP na maioria Tory, o cenário de sufrágio geral sobe nas probabilidades. Já RH Boris Johnson enuncia quatro pontos centrais nas negociações com Brussels. — Well! Trees that bear leaves but not fruit have usually no pith. A power play permanece acesa também na Europe. France avança agora com as primárias à esquerda, rumo às eleições presidenciais, com Monsieur François Hollande a recusar a recandidatura ao Palais de l'Élysée. O Premier Manuel Vals é hipótese em ponderação, mas a tela está ainda indefinida. Este Sunday, Austria e Itália fazem o teste populista numa European Union alheada dos ventos reformistas. Viena prefere o moderado Herr Alexander Van der Bellen como presidente ao candidato nacionalista. Mas Rome vê cair o PM Matteo Renzi após a sua derrota no referendo à Nuova Costituzione. Nos US, in a changing world, as recontagens nos batlleground states obscurecem as críticas nomeações do President-elected Donald J Trump para a White House.

 

 

It is freeze out there. A London dezembrina tem renovados encantos. Em contraste com a favila das ruas gélidas e das gentes apressadas de urbe cosmopolita, a luz cromática das colunas brancas de St James’s Church parece revestir-se de mais forte aura e a visão converge inelutavelmente para aquela cross-shaped window. A sort of may-be aplicável às promessas de boa vontade epocal. Sinto a partida do good old Manuel e revisito por momentos a cândida personagem de Fawlty Towers em comédia intemporal. Também a cena política aquece o termómetro em Westminster District. Aqui ao lado, mesmo a par das Houses of Parliament, no edifício de Middlesex Guildhall, aquém do famosíssimo pórtico construído em 1805 por Mr Samuel Pepys Cockerell, debatem-se os primeiros argumentos do Brexit Case. HM Government apela da sentença do High Court que remete para os MPs o poder de acionar o Article 50 do Lisbon Treaty, decisão que simplesmente revoga o resultado do referendo de 23rd June e motiva furore com manchetes como a do Daily Mail: “The Enemies of The People” aposto sobre as fotografias dos seus três juízes. O processo tem desde o início marca de água e promete contemporâneo rebalanceamento entre os poderes do parlamento e da coroa através do governo. Onze juízes, os mais altos sábios das leis do reino, ouvem a exposição das teses do Executivo na abertura pelo Attorney General RH Jeremy Wright. Na bissetriz da Sky, o procurador sinaliza que “the powers invoked by the Government to begin divorce procedures from the European Union are not an out–of-date ‘ancient relic’ but a pillar of the British constitution.”

 

O novo episódio do Brexit legal challenge ocorre em vésperas de ida a votos em Lincolnshire e na esteira de os eurófilos Liberal Democrats arrecadarem uma saborosa vitória eleitoral a fechar semana difícil para o May Government. Em todas as situações, a linha de fronteira lá continua; todos britanicamente europeus, uns a favor e outros contra a European Union. Ora, após campanha partidária que cobre de pródigo amarelo o verdíssimo Richmond Park, a única hoste partidária proudly europeísta encurta a maioria conservadora para dez deputados na House of Commons e anula um Tory grandee: nenhum outro senão RH Zac Goldsmith, o blue name na corrida de 2016 a Mayor de London. O evento tem estória de exceção. O Brexiteer é quem provoca desnecessária eleição, ao demitir-se em protesto contra o n.º 10 por causa da expansão do Heathrow Airport, cumprindo, como honest man que é, o compromisso ambientalista. Perde para Mrs Sarah Olney, ironicamente casada com um construtor da controversa infraestrutura. Já acima dos contornos locais, logo o resultado é hasteado por dita aliança progressista de Lib-Dems e Blairites como a Brexit backlash. Conclusão que se afigura deveras excessiva, porque o triunfo reflete tendência continental existente numa afluente circunscrição historicamente liberal - além de berço do real parque criado por Charles I, elo que não deixa de soar a divina mofa.

 

Na ambiência política assim gerada desaparece mais uma vez o Labour Party de RH Jez Corbyn, mas surge o Brexiteer mor a realinhar a agenda mediática, igualmente polvilhada por revezes como a fuga de um Memo dando Mrs Theresa May a ditar o afastamento do seu Cabinet de quem faça escapar qualquer elemento sobre as negociações da Brexit. Apenas, porém, um incidente em série de percalços declarativos das fontes de Whitehall, abundantemente espalhados por jornais, rádios e televisões. A alta sensibilidade na gestão da informação em torno do Brexit Plan revela-se quando a Prime Minister prepara uma visita oficial ao Bahrain para se tornar “the first woman to attend the annual meeting of leaders from the Gulf Co-operation Council.” Contra a perceção de desnorte no leme do Brexiting reaparece The Honourable Bojo, também ele alvejado com notícias atribuindo-lhe algo que nega. Mas mesmo RH Boris Johnson só no Weekend recentra as atenções públicas por entre a fanfarra jornalística com o que diz ser “the four-point blueprint the Government wants to achieve when it negotiates the UK's exit from the EU.” O Foreign Secretary aponta que London quer assegurar com Brussels o controlo das fronteiras, dinheiros e leis mais a liberdade para acordar tratados comerciais. Estas linhas genéricas denotam sobretudo que a procissão ainda continua no adro.

 

Fecho com Manuel e o seu refrão, naturalmente, na partida de um recatado excelente ator. Mr John Cleese descreve o comparsa de Fawlty Towers como "a beautiful soul."  Traça um doce epitáfio de Mr Andrew Sachs (1930-2016): “A very sweet gentle and kind man and a truly great farceur.” Filho de um judeu e de mãe católica, o senhor vem com os pais fugidos da Nazi Germany. Ficam em London. Estreia-se na rádio e faz vida no teatro durante sete décadas. O Python vê-o no Habeas Corpus em 1973: “I could not have found a better Manuel. Inspired.” Entre palcos e tvs, marca o celuloide com o célebre empregado de mesa catalão. Entre as dificuldades com a segunda linguagem e as iras do patrão, o well-meaning but inept Spanish waiter capta a imaginação popular na série de 1975. Desconheço como é que a personagem concebida como alemão emerge como um simpático de Barcelona, mas certo é o cândido marcar as aventuras hoteleiras dos Fawlty e sobreviver à prescrição do tempo. Com mérito figura nos clássicos da Britcom. A sua catchphrase surge no episódio “Communication Problems.” É um perplexo criado às voltas com as apostas de Basil e uma infuriating conversation que o reconfigura como Manuel Knows Nothing. Sempre depois resiste ele ao conteúdo de tal ideia: “You always say Mr Fawlty, but I learn. I learn. I learn. I get better.” Uma bem-humorada jornada, Mr Sachs. Thank you for all the good moments. - Er. Allow for what Master Will notes down on the value of eloquence in the exchanges: - Conversation should be pleasant without scurrility, witty without affectation, free…

 

 

St James, 5th December 2016
Very sincerely yours,
V.

 

A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de dezembro de 2016.

 

«União Europeia – Reforma ou Declínio» com Coordenação e Introdução de Eduardo Paz Ferreira (Vega, 2016) reúne um conjunto de reflexões de grande atualidade sobre o presente e o futuro do projeto europeu e sobre a própria democracia no velho continente e no mundo.

 

 

QUE FUTURO?
Ninguém sabe qual o desfecho dos atuais acontecimentos no futuro da União Europeia, mas importa não cometer o erro crasso da indiferença ou da ilusão. Quando os britânicos fizerem, com o rigor a que nos habituaram, o cálculo dos custos e benefícios sobre o Brexit, a decisão que tomaram de abrir a Caixa de Pandora, só então poderemos vislumbrar o que irá passar-se. Até lá é prematuro tirar conclusões e não haverá adivinhos para revelarem o que lhes dizem as bolas de cristal. Uma coisa é certa – com ou sem Reino Unido, a União Europeia está muito frágil e sem soluções. A saída britânica desequilibra a frente atlântica e pode enfraquecer a componente ibérica. No entanto, será um erro muito grave continuar a discutir-se quem dos elos mais fracos vai ser apontado como mal-comportado da classe, quando o que está realmente em causa é melhorar a prestação de toda a turma que está longe de corresponder ao que dela se exige! Ouve-se no discurso político comum, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais se projetam nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá o ramerrame da economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, no «Quantitative Easing», continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.

 

O CUSTO DA NÃO-EUROPA
Percebe-se que o custo de não ter Europa ou de ter menos Europa é insustentável. Mas não se pense que falamos de um Superestado, uma superestrutura ou de uma burocracia desumanizada, falamos, sim, de uma coordenação fundamental, que seja capaz de ligar moeda, crédito, concorrência, competitividade, coesão, convergência e desenvolvimento. Tudo isto obriga a uma partilha de encargos e responsabilidades. Não se trata de harmonizar ou homogeneizar sociedades e pessoas, mas de favorecer a criatividade das diferenças. Precisamos de transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em inovação. Não se deve esquecer o que um dia disse o grande cientista Ilya Prigogine da Europa: temos de compreender que a nossa melhor riqueza é o conhecimento e a capacidade inventiva e criadora. Se repararmos bem, a maior influência de grupos populistas deve-se não ao fenómeno europeu, mas à necessidade de criar uma explicação exterior, mesmo que ilusória, para justificar a incapacidade das instituições nacionais a fim de assegurarem a integração social e a estabilidade. Sabemos que não teríamos a paz e a prosperidade de que beneficiamos se não houvesse instituições europeias. A democracia supranacional europeia tem de ser um ponto de encontro de todos – e tem de envolver a participação efetiva dos cidadãos. Esse é um ponto crítico. Não podemos continuar a pensar numa União Europeia sem uma legitimação clara de Estados e cidadãos. O tema dos refugiados obriga a soluções justas e duradouras. O crescimento e o desenvolvimento humano têm de ser objetivos comuns. O potencial económico e a capacidade para fazer frente a choques assimétricos tem de corresponder à ideia de convergência económica e social. A mobilidade dos estudantes e a prioridade da educação e da formação, da ciência e da cultura são fundamentais. Dir-se-ia que estamos apenas a reviver problemas passados e conhecidos. Todavia, hoje a sua persistência e a emergência dos egoísmos nacionais poderá ter efeitos mais dramáticos que nunca. Se o desespero destruir a frágil democracia europeia não haverá uma segunda oportunidade para salvaguardar a paz e a dignidade… A frente atlântica europeia não pode ser enfraquecida. Se Londres tem tido um papel crucial no mercado financeiro europeu e numa política europeia de segurança comum, a verdade é que tal apenas pode ser preservado se prevalecer um reformismo interno solidário, em lugar de se optar por atirar ao chão o tabuleiro de xadrez. Setenta anos de paz na Europa só foram possíveis mercê da prevalência da coesão sobre a fragmentação, e da razão sobre o medo. A estagnação económica europeia e o fechamento alemão fomentaram a fragmentação. O surgimento de tensões ditadas pela crise dos refugiados e pela difusão de um medo persistente do desemprego favoreceu as forças nacionalistas e incentivou o populismo – pano de fundo que abriu uma lógica antieuropeia e fragmentária. Nestes termos, a crise do Euro não tem a ver com a falta de credibilidade da moeda europeia, mas com a ausência de perspetivas imediatas de crescimento económico na Europa, por ausência de uma política ativa de investimento. Trata-se de uma moeda forte, que limita o espaço de manobra das economias com maior grau de dependência externa.

 

TIRAR LIÇÕES PARA O FUTURO
Eduardo Lourenço tem repetido, com a lucidez que lhe conhecemos, que «a Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa (nós, portugueses) temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. O perigo da não-Europa espreita como o risco da não-democracia. A crise europeia deve-se à ausência de um ideal mobilizador e à falta e de uma coordenação política capaz de romper com a estagnação e de assegurar uma convergência social que permita aos cidadãos europeus sentirem-se não só participantes mas também incluídos, num desenvolvimento humano justo, baseado na qualidade de vida e no bem-estar – mas essencialmente no respeito da dignidade humana. E quem acredita na importância do projeto europeu, menos como utopia, e mais como um meio de garantir a paz e a cooperação, tem de fazer do compromisso político, cívico, social, cultural e económico, algo de concreto, com resultados.

 


Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

  

 

  

   Minha Princesa de mim:

 

   Continuando o que te dizia na minha carta anterior, pergunto-me, mais sisudamente, porque haverá tanta gente a indignar-se com o vestuário de mulheres de outras culturas e modas, que mais não fazem do que andarem como bem lhes parece, seja por tradição de costumes ou étnica, por convicção ou acomodação religiosa e social, ou por simples gosto e opção pessoal?

 

   Ainda por cima, muita dessa indignação é obsessiva, discriminatória e persecutória: acha-se muita graça, por exemplo, à epidemia febril de tatuagens dos futebolistas e às suas fantasias de cortes e cromatismos capilares, quotidianamente expostos pelas televisões, ou às bizarrias vestimentares de estudantes em auditórios universitários, mas aponta-se o dedo, a reclamar coação e punição, ou a alardear troça, à modesta senhora muçulmana ou freira católica, que silenciosamente passa por aí, envergando vestido ou hábito de sua escolha, este já considerado símbolo religioso ou labéu da escravização da mulher e, como tal, desrespeito pela laica e soberana república e suas leis.

 

   Em francês, pergunto: à quoi bon?  Sim, para quê? Além de mesquinhez e arrogância, não haverá aqui também abuso de poder ou posição de força, violação dos princípios fundadores da República, digo, liberté, égalité, fraternité?

 

   Até já ouvi dizer-se que o porte de véu pelas mulheres, além de inadmissível afirmação pública de um repudiável estatuto de inferioridade, era um desafio às nossas leis e instituições, uma tentativa de subversão da nossa ordem social e política! E o conhecido homem público que assim se indignava, acrescentava lembrar-se bem de um imã egípcio, entretanto expulso de França, dizer que "por causa das vossas leis democráticas, ainda havemos de vos conquistar!". O ilustre causídico interpretara tal afirmação como insinuando que a debilitação das nossas penalizações e castigos iria sustentando a destruição da nossa sociedade e civilização pelos mouros... Esquecia-se de que a fortaleza, indispensável virtude, não se confunde com a dureza, pois resistir a ameaças e superar o mal é uma conversão interior à esperança do bem, não é combater cegamente o mal pelo uso de mal maior...

 

   Já em tempos te escrevi como pensossinto que o cristianismo - que é fé na encarnação, paixão e ressurreição de Deus - tem vocação para se laicizar, isto é, para entrar na vida dos homens, como o fermento no pão ou o sal na comida. A nossa cultura, este conjunto de referências que nos guiam, é feita de valores cristãos laicizados, ou seja, tirados do cadinho em que correriam o risco de cristalizar, de perder liberdade e força atuante, tornando-se meras peças de um relicário sectário, em vez de serem sopros do Espírito no mundo. O Iluminismo deu-nos essa ajuda. Mas, por outro lado, continua a sofrer a tentação de, em progresso dialético, se encerrar num sectarismo laico e exclusivo. Tal me parece pouco recomendável, quiçá reprovável, em tempos de encontros e osmoses de povos e culturas.

 

   Finalmente, deixo-te, para ilustração e reflexão, algumas confissões de mulheres sobre o véu que trazem ou não. Porque pensossinto, mesmo, mesmo, que às próprias mulheres deve ser dada, cada vez mais e mais, a pronúncia sobre o que, ao fim e ao cabo, lhes cabe a elas, a elas sim, finalmente decidir. No islão ou na cristandade, quem discute a indumentária dos homens? Pelo menos com tão obcecada frequência...

 

   Ouvi e li, de feministas e outras, muçulmanas e não, depoimentos por e contra o porte do véu. Creio que, hoje, quiçá mais do que antes, nos calha a responsabilidade de sermos prudentes, isto é, de sermos capazes de amor sagaz. Em vez de, preconceituosamente, pretendermos intervir em tudo, deixemos as pessoas face a si mesmas e aos seus diferentes, pensarem, experimentarem e decidirem. A imposição não convence ninguém. O que cada um pode e deve impor-se a si mesmo - o que todos devemos pretender de todos - é que tudo se faça e passe em paz. Não há outra receita. Nem de outro modo a liberdade faria sentido. Os exemplos que te prometi ficam para a próxima carta. Vão desde testemunhos de freiras católicas aos de muçulmanas laicas e feministas...

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Creio que é em Tintin au Pays de l´Or Noir que o nosso herói e o seu inseparável Capitaine Haddock escaqueiram as existências, em armazém, das bilhas de barro que o amigo Oliveira da Figueira ia vendendo às mulheres do sítio, para irem buscar água ao poço. Tal razia não se deveu a qualquer ataque de fúria ou mesquinha vindicta contra o simpático português que, aliás, prestável como sempre, apenas pusera as bilhas ao dispor dos dois amigos, para que, durante a noite, se fossem treinando a levá-las à cabeça... Na verdade, perseguidos pela polícia local, apenas poderiam deixar a cidade que os prendia, partindo de um poço nos limites dela, onde os aguardaria auxílio e transporte. Mas para tanto, teriam de lá chegar incógnitos, vestidos de niqab, uma espécie de burka negra, em que só os olhos se desvendam, levando à cabeça as tais bilhas com que as mulheres iam ao poço abastecer-se. Já o arguto Hergé, nos anos 50, percebia que niqab e burka podem muito bem servir de excelentes disfarces. Por isso mesmo compreendo e concordo que o porte de tal indumentária seja proibido, por exemplo, na União Europeia. Por razões de segurança, não por fobias outras, muito menos por excesso de zelo laicizante.

 

    Quanto ao chamado burkini, neologismo derivado de burka e bikini, é termo inventado pelo ocidental comércio para promover um novo artigo, novidade achada para um potencial mercado que "marketingadamente" os tais comerciantes vão criando. O efeito maior que isso me faz é dar-me riso, não vejo aí qualquer desafio civilizacional - menos ainda um choque -nem manifestação propriamente religiosa. Que umas senhoras queiram banhar-se, em cálidas águas de Verão, envergando calças justas compridas, camisa de manga até aos punhos, xaile e véu longo, parece-me, quanto muito, uma bizarra noção de conforto corporal… mas o desejo é delas, não me diz respeito! Todos nós também já vimos fotos dos nossos pais e avós, gozando as carícias do mar em elegantes estâncias de veraneio europeias, vestidos da cabeça aos pés. Eu mesmo ainda me recordo de que, já em tempos da minha mocidade, o cabo de mar verificava, nas nossas praias, se os próprios homens traziam o peito coberto, e também a extensão do pudor dos fatos de banho femininos. Na própria Câmara Corporativa, uma espécie de câmara alta da Assembleia Nacional do Estado Novo, se discutiram medidas ideais para o vestuário dos banhistas!

 

   Se, desde essa altura, nem o rigor das leis, nem alguma censura social - e religiosa! (lembras-te, Princesa, dos "guardas" que, às portas das igrejas de Lisboa, vigiavam e corrigiam a abertura dos decotes e o comprimento das mangas dos vestidos das senhoras, no Verão, à entrada da missa?) - impediram que, a médio e longo prazo, os veraneantes se fossem progressivamente despindo, quem me garante que, hoje em dia, as banhistas em burkini, muçulmanas ou não, não façam como as meninas finas do Chiado que, invejosas do penteado da violeteira, foram deixando crescer tranças pretas? No caso atualmente presente, digo, deixando decrescer tecidos e vestes?

 

   Mas talvez eu esteja enganado, quiçá venha a acontecer o inverso: antes teremos a visão aterradora de praias europeias pejadas de mulheres veraneantes vestidas, da cabeça aos pés, com pudicos trajes de banho expressamente desenhados pelos nossos "diores" e quejandos... Imagino então uma autoridade política francesa, por exemplo, um governante sóbrio e de austeros costumes, o qual, vendo-as assim, sucintas, tão pouco nuas, vai suspirando, à beira mar, como o nosso queirosiano conde de Steinbroken: C´est très grave, c´est excessivement grave!  E nas cortes hodiernas, um deputado bem republicano, radical e laico, parafraseará, sem conscientemente o saber, outra talentosa personagem do Eça (...os que, nas escolas, com mão ímpia, querem substituir a cruz pelo trapézio!...) exclamando: "Ai daqueles que, com mão ímpia, querem substituir o topless pelo burkini!". Terá razão: é que não se admite mesmo, Princesa de mim, tão insidioso ataque aos pilares morais da democrática república!

 

   Bem sei que a questão deve ser tratada de modo mais severo do que o jeito jocoso desta feita. E procurarei fazê-lo na minha próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

LONDON LETTERS

 

Victoria (1837-1901), 2016

 

Aleluia é a melodia recorrente que acompanha as imagens, explorando a filigrana das emoções. Vemos a adolescente Drina no Palace of Kensington, ainda às voltas com a Doll 123 e o jogo de influências que marca o início da aprendizagem de reinar. São as vésperas da coroação da segunda geração de princesas

Saxe-Coburg-Saafeld no trono britânico, o qual corrige o uso do alemão na linguagem diária e rejeita a Salic Law que coíbe a linhagem feminina na sucessão da Deutsch Haus Hanover. A 28 June 1838, na Westminster Abbey, é coroada Alexandrina como Her Majesty The Queen Victoria. — Chérie! C'est trop d'un ennemi et pas assez de cent amis! A série da ITV arranca e logo conquista 5,4 milhões de espectadores. Visa a legião de fãs de Dowton Abbey. Projeta a estória filmada da grande rainha imperatriz. — Well! Historical accuracy is considered at every point. A batalha pela alma do Labour Party segue com fervor e… paso doble. Nas primárias da direita ao Élysée, Monsieur Nicolas Sarkozy quer renegociar a fronteira de Calais enquanto a república gere a novela mediterrânica dos burkinis. O Brazil ouve a defesa política da Senhora Dilma Roussef no processo senatorial de impedimento. Já na campanha norteamericana pontua RH Nigel P Farage MEP. O ukipper surge em comício de Mr Donald Trump como “Mr Brexit” e atrai a hostilidade de Mrs Hillary R Clinton a três meses do dia das eleições para o Oval Office. Proxima Centauri b é o novo e potencialmente habitável exoplaneta descoberto nas cercanias do sistema solar.

 

Sunny and warm days at Central London. As ruas em volta estão mais preenchidas que o habitual, com o Notting Hill Carnival a sitiar os residentes com paradas musicais, pina-coladas and that smell of barbecues in the air. Muitos divertem-se, mas outros nem tanto com a big street party numa área já inundada de milhentos turistas ocasionais. Da proximidade vem ainda o mega achamento astral do Professor Guillem Anglada-Escudé, da Queen Mary University, e do seu Pale Red Dot Team. Segundo o grupo da School of Physics and Astronomy, com base nos dados recolhidos no European Southern Observatory entre 2000 e 2014, Proxima b é “an Earth-like planet orbiting a red dwarf star at a range where conditions might be right for water, and maybe, just maybe, life.” A revelação agita a comunidade científica e contém as certezas do corpo celeste ter o tamanho terreal e estar a alcançáveis 4 anos-luz. Desse cruzamento quase mágico do conhecimento, da imaginação e da fé sai também o novo drama televisivo em torno de Victoria, a jovem rainha que se tornará Empress of India e Grandmother of Europe, dominando o prodigioso 19th British Century e legando as linhas políticas da modernidade global de que todos somos tributários. 

 

A série de oito episódios abre em 1837, com veado imperial em twilight e a cavalo de mensageiro, sob o título de a monarchy in crisis. Filha de seu pai e neta de rei, o Prince Edward of Kent and Strathearn e King George III, Alexandrina cedo recusa assumir-se como Elizabeth II e luta contra as sombras de ensaiada regência. Ms Jenna Coleman é uma imperiosa Victoria… in the making, fixa sucessivos enredos. A um tempo circula na vida política, inicialmente marcada pela relação com o Viscount Melbourne. Mr Rufus Sewell é o friendly Whig Prime Minister, apoio seguro e alvo instrumental nas tentativas de enclaustrar a jovem rainha por ambiciosos inside and outside. A outro tempo roda nas intrigas da corte, upstairs and downstairs. Não por acaso avultam ainda hoje os Victorians no imaginário nacional. A unir os planos está a arte de governar que sempre V. avoluma nos 63 anos de reinado. Uma das linhas a fixar é que o cetro pode aconselhar, mesmo encorajar, mas lhe está vedado insistir em políticas públicas. No mais ‒ better the devil you know. A primiére foi este Sunday e a segunda parte passou há pouco nas telas. So, I say no much more. Em breve chegará Mr Tom Hughes como Prince Albert. O script de Mrs Daisy Goodwin baseia-se nos diários reais e serve à mestria da inicial direção por Mr Tom Vaughan, com co-produção executiva da Masterpice e Mammoth Screen. A música Aleluia da coroação seduz na dramaturgia, com piano de Mr Martin Phipps e coral das Mediaeval Beabes. Seguem o elenco e os locais de filmagem de fina gramagem, entre os refeitos Kensington Palace e a então House of Buckingham até ao verídico Harewood Estate em Yorkshire (Eng). À presente vaga novecentista não faltam até os rumores, agora sobre a estreita amizade da protagonista e do Prince Harry of Wales.

 

Se no écran se recriam as lutas políticas entre Whigs e Tories sob o entendimento de laço sagrado entre The Crown and The Parliament, na vida real decorrem dramáticos episódios no regresso às Houses of Parliament. A Brexit está no topo da agenda e os insatisfeitos Remainers reagrupam. Aproveitam a estrutura

 e os apoios do Stronger In em refrescada campanha eurófila, ora sob nova designação. Dizem ao que vêm: "Open Britain will help tackle the many unanswered questions about our future relationship with the EU, whether over funding, trade, immigration, security, the environment or workers’ rights. We will also, we hope, play a part in the now necessary debate about how we make our economy fairer – arguably the most pressing issue after June 23rd.". No segredo dos deuses está o plano negocial do Number 10 para Brussells, mas a Prime Minister RH Theresa May emitiu ordens claras para o conjunto administrativo de Whitehall e sedeia já o quartel general dos Brexitters no… Number 9. Ainda sem rumo está a Her Majesty Most Loyal Opposition, entre comícios a abarrotar no aplauso a RH Jeremy Corbyn e a artilharia mediática no apoio a RH Owen Smith. A semana nada trouxe. O primeiro envolve-se em bizarra polémica com a companhia ferroviária Virgin e o segundo abunda em promessas eleitorais do tipo unicórnio. Não bastara este duo e eis que surge terceiro personagem em campo. Ocupado nas voltas do Strictly Come Dancing, o concurso da BBC 1 dedicado às danças de salão, o ex Shadow Chancellor Mr Ed Balls serializa as memórias no Times e descreve o programa corbynista em letra de jornal como “a leftist utopian fantasy”. Sobre as eleições de 2015, onde perde o lugar de MP por Morley and Outwood para os Tories, é também incisivo: "We [o Labour Party] weren't ready - and didn't deserve - to return to government."

 

O débil estado das oposições é o que é, pois a história esquecida obriga-se a recorrente repetição. O Labourism arrisca não apenas a divisão, como a própria extinção entre as desirmanadas fações. A memória cede, porém, ao bad blood. No século vitoriano também as transformações políticas abrem espaço a novas forças partidárias e apagam de Westminster os liberais Whigs, apesar dos seus veneráveis pergaminhos recuarem à Glorious Revolution de 1688. Das ideias recordo ainda o legado final da “Conscience Whig” para denotar a final marcha abolicionista contra a escravatura, mas hesito a futurizar o legado que restará dos atuais trabalhistas. — Well! Remember the works of Master Will on love and death in Romeo and Juliet: O true apothecary! / Thy drugs are quick. Thus with a kiss I die.

 

 

St James, 29th August 2016
Very sincerely yours,
V.

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

   

   

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A inesperada carreira da equipa de futebol do País de Gales no campeonato europeu, em tempos de surto de "Brexit", trouxe-me à lembrança um livro notável, publicado em 1998 pela Sutton, intitulado The English Nation - the great myth. É seu autor um galês católico, o doutor Edwin Jones, dedicado à investigação historiográfica, e que trabalhou na Universidade de Cambridge. Lá o fui tirar do sono da minha biblioteca, e vou-me deliciando. Sem cerimónia, logo no prefácio que ele mesmo escreveu para a primeira edição desta obra, chama a nossa atenção para o facto de todos sermos grandemente afetados pela nossa história, que pode ser vista como a única memória de um indivíduo ou como a coletiva memória de uma nação. Eis o que nos dá um sentido de identidade em relação a uma comunidade. E aponta então para a fabricação quinhentista (Thomas Cromwell e Henrique VIII) de uma falsa visão do passado inglês como raiz da singularidade com que o povo inglês se irá identificar. Só muito recentemente nos mostraram em pormenor como uma nova teologia política e nacional, com a obediência ao rei - representando a "palavra de Deus" - no seu centro, foi utilizada com propósitos políticos e, depois, por Thomas Cromwell, para propaganda governamental. De modo semelhante, uma nova visão de todo o passado inglês, baseada nessa mesma teologia política, foi criada como propaganda pelo governo henriquino, a fim de justificar a revolução a que chamamos Reforma.

E é por causa desta deliberada incompreensão da sua história que os ingleses se iriam esquecer de que são europeus [e cita V. Bogdanor em Remembering and Forgeting: "England once lay in the mainstream of European development and after the sixteenth century it became an eccentric tributary"...]. Iriam tornar-se crescentemente nacionalistas e insulares na apresentação, com o peso da aquisição de um grande império ultramarino. Desenvolveram outras qualidades inspiradas pela sua própria visão do passado, incluindo um sentido de "especifidade", auto suficiência, superioridade e separação de todos os outros povos do mundo. Esta falsa memória influenciou a sua psicologia e o seu olhar para o mundo. Isto a longo prazo explica as particulares dificuldades que encontraram, quando a Inglaterra finalmente perdeu o seu império e teve de lutar para encontrar um novo papel no mundo, e quando as forças da mudança política e económica lhe impuseram ser outra vez parte da Europa. Em meados do século XX, poucas vozes apoiaram tal perspetiva, e ainda há muita gente, no fim deste século, que muito dificilmente a aceita.

 

   Escritas em 1998, estas palavras de Edwin Jones ganham hoje mais força e repercussão. A Reforma que origina a Igreja Anglicana não é fundamentalmente religiosa, ainda hoje a doutrina e o culto anglicanos - tal como acontece nas suas descendentes episcopalianas - se aproximam muito dos da Igreja Católica Romana, sobretudo se os compararmos com os de outras Igrejas Reformadas, como a Luterana ou a Calvinista. A Reforma Anglicana tem uma motivação política que foi em busca de uma raiz teológica, para justificar a obediência nacionalista ao rei - logo tornado chefe da Igreja de Inglaterra - acima de qualquer outra.

 

   Outros reinos europeus, continentais, também adotariam, com os seus respetivos soberanos, a Reforma de Lutero ou Calvino, como a Dinamarca, a Suécia, a Holanda, mas manter-se-iam no concerto europeu, no qual, aliás, também ficaram, protestantes ou católicos - de acordo com o princípio ejus regio cujus religio - os vários estados germânicos. Os italianos, o Império Austríaco, como o dos Habsburgos de Espanha, e os reinos de Portugal e de França permaneceram católicos. E foi esta Europa católica que, na tradição da Cristandade de antanho, se opôs à progressão do Império Otomano, finalmente derrotado na batalha de Lepanto. Terá sido o canto do cisne da Europa como Cristandade. Porque mesmo as nações católicas iriam enveredar por uma crescente independência do papado e afirmação do poder régio como diretamente proveniente de Deus. O nacionalismo triunfa.

  

   A insularidade como natureza ou o isolacionismo inglês e, por extensão, britânico afirma-se, pois, apenas no século XVI, pela emancipação henriquina da tutela papal, símbolo da sua secessão da Europa católica. Antes disso - e ainda no século XV - a Inglaterra, não só comungava na cultura europeia e latina, como participava intensamente e intervinha nos movimentos, afrontamentos e conflitos continentais. Aliás, o próprio casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão ("a woman of most gentleness, of most humility, and buxomness" [amabilidade], dizia dela o rei seu marido) é sinal dessa atualidade. Mas dali em diante, ainda que desenvolvendo relações comerciais com o continente, a Inglaterra concentra-se no seu império ultramarino, e os próprios conflitos com outras nações europeias acontecem além-mar. Só já no século XIX, com as guerras napoleónicas e o bloqueio continental, o Reino Unido voltará a entrar na Europa e no jogo político europeu.

 

   Na segunda metade desse século, desenha-se outro mosaico de nações e potências europeias, quer em função da unificação da Alemanha e do Risorgimento italiano, como em virtude da ocupação das terras africanas - que irá ditar os acordos e tratados da Conferência de Berlim - e do enfraquecimento e desmembramento do Império Otomano, que colocará o norte de África e o Médio Oriente sob tutela, sobretudo, da França e do Reino Unido, tal como permitirá a independência da Grécia.

 

   A época vitoriana (a rainha Vitória era de sangue alemão), não só coincidirá com a colocação de príncipes da família Saxe-Coburgo em tronos europeus (Grécia, Bélgica, Bulgária e, por via do casamento de Fernando, primo de Alberto, consorte de Vitória, com a rainha Maria da Glória, em Portugal), como reforçará a ingerência dos britânicos na política europeia, iniciada pelas guerras napoleónicas, ainda que pragmaticamente definindo os seus limites: estar com a Europa, sem ser europeu. É interessante observarmos, Princesa, como se repetiram as origens alemãs da realeza britânica: depois dos Hanover, os Saxe-Coburgo: o serem protestantes ajudava, o serem alemães era um aviso à tentação expansionista da França. Mas a 1ª Grande Guerra levaria os Coburgo de Inglaterra a anglicizarem o nome para Windsor, traduzindo igualmente, à letra, o dos seus próximos Battenberg para Mountbatten.

  

   Tal "naturalização" de nomes e famílias significa também o fim de uma afinidade anglo-alemã, e o princípio de nova aproximação à França, apesar de diferendos e rivalidades, quiçá mais fora do que dentro da Europa. Os impérios germânicos (alemão e austríaco) saem derrotados da guerra, tal como o otomano, que Mustafá Kemal (Ataturk) transformará numa república laica. A Áustria fica diminuta, sem peso estratégico. Só a Alemanha, na sua inteireza, e com o seu ressentimento, se virá a afirmar como ameaça, sobretudo a partir do advento do nacional-socialismo. Contra ela, na Europa e não só, o Reino Unido só pode contar com um aliado natural, porque na linha da frente: a França. Na verdade, os EUA reiteram a sua opção isolacionista. Ou então, se isso for ainda possível, poderá apostar na aproximação pacífica da Alemanha e da França. Será essa a "doutrina" de Churchill, logo em 1930, num conhecido artigo publicado no Saturday Evening Post, a 15 de Fevereiro, em que defende a ideia de uns Estados Unidos da Europa, mas com os ingleses de fora: É uma ideia justa. Todas as iniciativas nesse sentido são boas, podem acalmar ódios do passado e recordações de tiranias. Fomentam trocas de bens e serviços, levam os povos a desistirem de se armarem, o que será bom para eles e para todos... [fica aqui bem clara a preocupação de Churchill: nada tinha a opor, antes pelo contrário, à prosperidade económica da Alemanha, só não a queria armada]... Nós estamos com a Europa, mas não fazemos parte dela. Embora tendo interesses em comum, não queremos ser integrados.

Já no pós 2ª Guerra, entregar-se-á à sua cruzada europeia - assim lhe chama François Bédarida no seu Churchill (Paris, Fayard, 1999) – em que se destacam uma conferência na Universidade de Zurique, a 19 de Setembro de 1946 e, sobretudo, o discurso de 7 de Maio de 1948 no Congresso Europeu da Haia.

 

   Descobri, entre as fotografias muitas que ilustram o Churchill - a Life de Martin Gilbert (na edição de Londres, Random House, 2000), uma comovente: com 73 anos, sentado à tribuna donde falou para a oito centenas de participantes, Winston Churchill enxuga as lágrimas abundantes que lhe provocou o aplauso unânime e caloroso ao seu discurso. Rodeiam-no, batendo palmas, o Dr. Kerstens (Holanda), Paul Ramadier (França), o Dr. Retinger (Secretário Geral do Congresso), e Denis de Rougemont (um dos fundadores do Movimento Europeu).

 

   Já em Zurique Churchill havia proposto uns Estados Unidos da Europa, que, por espantoso que fosse, deveriam começar assim: The first step in the re-creation of the European family must be a partnership between France and Germany, não sendo qualquer renascença europeia possível without a spiritually great France and a spiritually great Germany. Na Haia, reitera o apelo à unidade, mesmo que tal implique renúncias a atributos de soberania nacional e, pensando certamente na potência soviética, também promove a NATO e a OCDE. A referência a essas duas organizações não é despicienda: na verdade, ambas pressupõem parceria com os EUA, quer para a defesa comum (o facto de os americanos possuírem bomba atómica é importante), quer para a recuperação económica da Europa (pensa no plano Marshall). Mas significa algo mais: na altura, senhor ainda de um império ultramarino (que, aliás, Churchill zelosamente amava), o Reino Unido fazia deste a sua prioridade; depois, vinha os EUA, esteio importante do mundo anglófono e da cultura anglo-saxónica; só em terceiro lugar surgia a Europa, parceiro comercial que se poderia formar e se desejava próspero, aliado que se queria forte, pois geograficamente encostado ao bloco do Pacto de Varsóvia.

 

   Tal doutrina será exposta ao Congresso do Partido Conservador, ainda em 1948, por um Churchill que, apesar de tudo, era, ao tempo, além de ferrenho defensor do British Empire (e, consequentemente, seria do Commonwealth), se tornara já também oponente do bloco soviético, fervente pró americano (filho de americana, seria também feito primeiro cidadão honorário dos EUA), e defensor da "sua" união europeia. Esta última opção, todavia, não era popular nos círculos políticos britânicos. Por isso, aliás, se constituiria a EFTA, em Maio de 1960, o grupo ou associação dos outer seven (Áustria, Dinamarca, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça) contraposto à CEE dos inner six (Alemanha Federal, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos). Esta era já uma união aduaneira, enquanto a EFTA era apenas uma zona de livre-câmbio, agremiação mais pragmática e menos vinculativa. Quando, finalmente, e apesar da oposição de De Gaulle, virá a integrar, em 1973, a CEE, fá-lo também por razões pragmáticas: sentia os prejuízos advenientes da perda do império, não podia ficar de fora de um novo bloco económico e financeiro em construção.

 

   Por tudo isso, Princesa de mim, já escrevi que o BREXIT não me surpreende, nem me apavora. Nem estranho o "apoio" que lhe deu Donald Trump. Vejo sobretudo o regresso a uma situação conhecida, sem grandes sustos nem novidades. Mais preocupante, para mim, é verificar o progresso de alguma cegueira para o mundo novo que se desenha, bem como o egoísmo reacionário motivador de várias outras insistências em "exits" que por aí vão surgindo: o receio xenófobo da necessária convivência num mundo em que tudo e todos somos, seremos, cada vez mais ubíquos. Sobre isso, Princesa, temos o dever moral de nos interrogarmos. Tal como, por outro lado, perguntar como reorganizar, democrática e eticamente, uma unidade europeia de nações e regiões, de culturas e povos... Temos de reaprender a olhar para nós e para o mundo, tentar perceber o muito que ideias feitas nos esconde. Quando acima te falo do Henrique VIII ou do Churchill, não procuro identificar causalidades, apenas aponto circunstâncias e exemplos.

 

   Ainda esta manhã me lembrava da nomenclatura das civilizações do Huntington - de que discordo, como já te disse - de como ele separa a cultura ibero-américa da civilização ocidental, esta abrangendo apenas a Europa Ocidental, a América anglófona e a anglófona Oceânia. Isto é: para Samuel Huntington e muitos outros, o mundo anglo-saxónico é outro universo (será quiçá, a "Europa" seu vassalo?). Assim como ao jeito daquela brincadeira entre o Michael Bloomberg e o Boris Johnson a falarem de trocarem entre ambos New York e London... O Michel Rocard, francês e huguenote, lá sabia porque é que apontava brexit aos britânicos: só porque estes vivem noutro mundo, não se acomodam com europas... E tal não é ficção, apenas realidade, sem que mal algum venha por isso ao mundo.

 

   Aliás, todo esse alarido em redor do BREXIT mais parece conversa de comentadores de futebol do que análise serena de uma situação que, afinal, não é muito diferente do que já sabíamos e, até à data, incomodou sobretudo aqueles especuladores financeiros, a quem, erradamente, por aí se chama "investidores"... Há pouco, dei comigo a perguntar se o Tony Blair - que tão obedientemente seguiu George W. Bush no disparate dramático da guerra do Iraque, cujas consequências continuamos a sofrer - terá sentido muito o BREXIT, ou simplesmente achado nova oportunidade de "brilhar", como o Durão Barroso, vazio e vaidoso, a aconselhar outro qualquer Goldman Sachs... Não terei esquecido tão cedo aquelas imagens dos Açores, com os chefes dos governos ibéricos a juntarem-se aos anglo-americanos da guerra no Iraque. Ainda ontem, as associei, instintivamente às imagens chocantes do atentado em Nice.

 

   Afinal, bem vistas as coisas, a Europa sofre mais pelos "políticos" que tem, e por oportunismos, demagogias, ganâncias e preconceitos, do que pela riqueza que possui na diversidade das suas identidades culturais... O projeto europeu foi, e terá de ser, um pacto de convivência na paz, na abertura aos outros. Sejamos pragmáticos e fraternos, deixemo-nos de voluntarismos constitucionalistas "à la Delors" ou rigorismos financeiros "à la Schäuble". Vale bem mais a pena sabermos viver uns com os outros, para o bem maior de todos, do que estafarmo-nos em intermináveis reuniões com o propósito de definir e impor regras que, mais do que governar-nos, nos incomodam, quando também não injustiçam muita gente. Não nos faltam leis nem regulamentos, falta-nos essa ética elementar que se chama amor do próximo. Quiçá seja mais acertado dizer-te o tanto quanto sinto a falta de um espaço espiritual de liberdade, nesta Europa circunscrita por receitas económicas e financeiras, minada por vaidades consumistas e apetites de dinheiro, deformada por desequilíbrios, desigualdades, esquecimentos.

 

   Devo estar a envelhecer. Definitivamente. Mas mentiria se escondesse que acho loucura esse estafado "sonho europeu" (?) de construção de uma nova grande potência. Posso estar gagá, mas não sou, nem quero ser, russo "à la Poutine" ou chinês com pretensões hegemónicas. Quero estar onde se abram portas e janelas de convivência e criatividade.

 

      Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

A VIDA DOS LIVROS

A VIDA DOS LIVROS por Guilherme d'Oliveira Martins

    De 11 a 17 de julho de 2016

 

Eduardo Lourenço acaba de ser galardoado com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, ex aequo com Plantu, cartunista de «Le Monde» - e recordamos, num momento de muitas incertezas, a sua reflexão sobre a Europa em «Nós e a Europa ou as duas razões» (INCM, 1990).

 

 

 

A EUROPA DAS DUAS RAZÕES

Num célebre ensaio de 1988 sobre a nossa relação com a Europa, considerando a Península Ibérica, e «as duas razões» que dominaram, ao longo dos séculos, esse complexo diálogo, Eduardo Lourenço afirmava: «… é bom que nós, Portugueses e Espanhóis, que estivemos séculos dentro e fora do espaço onde se jogava ou se cria jogar a própria ideia de universalidade, como se a ela se devesse sacrificar a de particularidade, nos lembremos do que foi vivido pelos espíritos mais brilhantes das nossas culturas como uma espécie de travessia do deserto. A “nossa identidade” dentro da Europa não pode prescindir dessa experiência. Faz parte da nossa memória e nós dela» (Nós e a Europa ou as duas razões, p. 65). Hoje, essa consideração ganha especial pertinência, sobretudo quando, um pouco por toda a parte, se sente que a referência europeia está, ela mesma, em profunda crise, pela evolução recente dos acontecimentos globais. O texto citado seguia-se à chegada dos dois países ibéricos à Comunidade Europeia e antecedia em um ano os acontecimentos que levariam ao fim da guerra fria e à «queda do muro de Berlim». Depois de 1989, houve uma espécie de súbita euforia, que conduziu à simplificação hegeliana de Fukuyama sobre um suposto fim da História, à semelhança do que a revolução francesa e o sonho napoleónico teriam suscitado. Depressa se percebeu que se tratava de uma mera ilusão, e as antigas democracias populares tentaram libertar-se da herança da guerra, dos acordos entre os aliados e da esfera de influência soviética, numa lógica nacionalista, ao contrário do que ocorrera no ocidente europeu, em que prevaleceu, no pós-guerra, a lógica de abertura e de partilha de soberanias. Dir-se-ia, pois, que a mudança de circunstâncias de 1989 e depois o fim do Pacto de Varsóvia determinaram, por parte dos novos países que chegavam à democracia, um movimento centrífugo, enquanto na Europa ocidental tivéramos um movimento centrípeto. A sociedade de consumo era mais importante do que a mudança política. E se houve quem desejasse que os alargamentos da Comunidade se fizessem rapidamente, a verdade é que o resultado foi o da diluição e enfraquecimento da realidade europeia, pondo em causa o próprio Estado de direito e o equilíbrio entre interesses e valores…

 

A DUPLA LEGITIMIDADE EUROPEIA

O risco do fantasma do «federalismo» foi sendo acenado, mas o perigo maior era o da fragilidade política das instituições europeias e da sua legitimidade. A melhor forma de não ter um Super-Estado seria a criação de instituições políticas fortes e representativas em lugar da persistência da lógica intergovernamental, que apenas reforça os egoísmos e a fragmentação… A única forma de evitar a lógica cega do centralismo burocrático dos funcionários, seria o reforço da legitimidade política – das duas legitimidades, a dos Estados e a dos cidadãos. Quase ninguém quis, contudo, perceber que um Senado Europeu com participação igualitária de todos os Estados (num Parlamento bicamaral, ao lado de uma Câmara de Representantes proporcional) permitiria dar estabilidade política à União Europeia – como fator de paz e segurança, de desenvolvimento sustentável e de diversidade cultural. Chegámos onde chegámos porque prevaleceu a lógica da gestão imediata dos pequenos poderes ou o alargamento imprudente de áreas de ação em detrimento de um núcleo fundamental dos interesses vitais comuns. E o que temos? Uma grave doença generalizada – política, económica e social. O episódio do referendo britânico é apenas um sintoma de algo mais fundo e grave. A procissão pode ainda estar no adro. Urge prevenir a tentação da fuga para diante. As guerras civis europeias quase caíram no esquecimento e vai-se brincando com o fogo – com cada qual a reclamar o salve-se quem puder, na linha dos nacionalismos, dos regionalismos e dos tribalismos descontrolados… E os populismos são os piores inimigos da democracia, porque jogam com as tiranias da indiferença, do imediato e das conjunturas. O Estado de Direito é posto em causa pela reclamação da perigosa lógica referendária (em que raramente se decide sobre o essencial, mas sim condicionados pela preocupação mais imediata ou pelos fantasmas acenados pelos irresponsáveis aprendizes de feiticeiros, que por aí abundam). A ditadura de Napoleão III baseou-se, aliás, na lógica plebiscitária. Não podemos esquecer que Montesquieu e Tocqueville, mas também Péricles e Cícero, nos ensinaram que a prudência obriga à conciliação dos diversos poderes e à proteção relativamente ao simplismo perigoso dos demagogos. Só o poder limita o poder – daí a necessidade do primado da lei e da legitimidade do exercício.

 

A EUROPA COMO CULTURA

Ainda Eduardo Lourenço, disse que «a Europa como cultura só merecerá esse nome se se converter no espaço de intercomunicação que reativa em permanência o que houve e o que há de mais exigente, enigmático, inventivo e grandioso na cultura europeia concebida como cultura das diferenças ao longo da sua História e vivendo da busca do conhecimento de qualquer coisa que possa chamar-se “sabedoria”. Em suma, da invenção de um caminho e de uma saída que ninguém nos deu nem pode descobrir em vez de nós» (Ib., p. 164). Ora, é a comunicação que importa salvaguardar como base da legitimidade política, para que os cidadãos se sintam envolvidos, participantes e responsáveis pelo destino comum. E a doença europeia atual deve-se ao facto de os cidadãos se sentirem desligados da sociedade política que integram e que se afirma não apenas no Estado-nação, mas nas comunidades locais e nas instituições supranacionais. A intervenção dos parlamentos nacionais em matéria europeia deve ser mais efetiva, a subsidiariedade deve ser respeitada para que o que pode ser resolvido próximo das pessoas o seja… Do mesmo modo, há problemas para os quais os Estados não dispõem dos instrumentos adequados para a sua resolução. Quando alguém disse no debate britânico, por exemplo, que iria utilizar a contribuição para a União Europeia para reforçar o orçamento do Serviço Nacional de Saúde mentiu, até porque não disse que o apoio dos fundos comunitários ao desenvolvimento iria desaparecer… Que Europa? Se os sinais são de cansaço e decadência, se o eurocentrismo perdeu sentido, se o êxito do Papa Francisco se deve ao facto de ver de fora e de compreender melhor as fraquezas do velho continente – o certo é que importa compreender as diferentes componentes da realidade europeia. A dimensão continental tem de ser temperada pelas vertentes atlântica e mediterrânica e por um modus vivendi com a Rússia. A fragmentação enfraquecerá e poderá destruir o potencial de valor europeu. Como vimos nos últimos dias, os discursos salvadores e apocalípticos conduziram ao mesmo resultado: o medo, o desespero, a divisão, o empobrecimento… Longe das soluções aparentemente simplificadoras, precisamos de um sereno pragmatismo que não esqueça que o futuro do mundo global também depende do que os europeus conseguirem fazer.  

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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