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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de fevereiro de 2017.

 

«O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz» é uma excelente edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros.

 

UM NOVO CONCEITO DE SABER
Fernando Gil tinha grande admiração pela filosofia e pela personalidade de Leibniz. E falava com entusiasmo desse autêntico inventor do conceito moderno de conhecimento e de enciclopédia. Do cálculo infinitesimal à monadologia, passando pela política, pela história e pelo direito, o pensador alemão, quase esquecido no momento da sua morte, pôde abrir pistas novas, que a ciência e o pensamento contemporâneos desenvolveram. Para Fernando Gil, o importante é considerar que se trata de um “filósofo de princípios”, sobretudo preocupado com o trabalho da fundamentação. E é essa perspetiva que permite garantir a perenidade da sua obra e dos desafios que nos lança. Lembrei-me desta genuína admiração ao ler O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz, uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros. Conhecedor da minha predileção pelo filósofo alemão, Adelino Cardoso teve a amabilidade de me enviar o precioso voluminho. Diversos ensaios constituem-no. O fiel ofertante fala-nos do autoquestionamento da modernidade. Marta Mendonça trata das edições da obra. François Duchesneau refere o cientista e o filósofo da ciência. Michel Serfati interroga-se sobre o genial matemático. Wenchao Li fala-nos do projeto de troca de conhecimentos entre a Ásia e a Europa, com especial referência à China. E aqui podemos compreender alguns dos pressupostos que levaram à querela sobre os ritos e à incompreensão relativamente à atitude dos jesuítas no relacionamento com o Império do Meio – e nesse ponto os portugueses são especialmente lembrados. António Braz Teixeira reporta-se, por fim, à recepção do pensamento português relativamente à obra de Leibniz. No conjunto dos temas, o filósofo aparece-nos na riqueza multifacetada da sua obra – sendo impressionante a pertinência e a atualidade deste que é um dos autores mais surpreendentes e ricos da história do pensamento. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), cujo centenário da morte ocorreu há pouco, é “um dos mais influentes instauradores da modernidade (para Adelino Cardoso) e aquele em que algumas linhas orientadoras da racionalidade moderna são submetidas a forte crítica, abrindo novas possibilidades na construção da modernidade”. Muitos dos seus contemporâneos não compreenderam, porém, a sua força inovadora – e daí que tenha prevalecido uma certa leitura caricatural, de que o paradigma é o Dr. Pangloss no Cândido de Voltaire. No entanto, a modernidade veio a demonstrar que a figura não se adequava ao suposto modelo. Mesmo em Portugal, Leibniz começou por ser visto com desconfiança e depois, progressivamente, tornou-se precursor de um pensamento crítico de crescente influência. Leia-se Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-1743), o primeiro autor a referir-se ao pensador alemão entre nós. A sua apreciação é animada pelo espírito do tempo, referindo depreciativamente à monadologia. Também Verney pôs reticências ao filósofo. E só o oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804) procedeu a uma análise detida e informada sobre a obra de Leibniz. Em Recreação Filosófica falou do princípio da razão suficiente e da teoria da harmonia pré-estabelecida – referindo-se, contudo, a esta última como “um sistema muito engenhoso, mas não verdadeiro”.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL
Importa ter presente que, ao longo da obra, fica nítido como a harmonia para Leibniz significa “a diversidade compensada pela identidade”. Não estamos diante de uma identidade homogénea, mas de uma realidade que se desdobra infinitamente. “Sob o fundo de uma harmonia invisível (dizem os coordenadores), o que se apresenta ao olhar de uma inteligência finita é um labirinto imenso com uma infinidade de entradas, quantas as formas diversas que compõem a tessitura do nosso mundo”. E assim a “razão suficiente” leva-nos ao limite da cadeia de razões, já que não se trata de encontrar a razão da harmonia, mas de chegar à complexidade das motivações e dos caminhos. Nesta compreensão, será Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) o primeiro português a tratar a obra de Leibniz de um modo aprofundado – falando de um sistema pluralista de substâncias. Assim, sustentava que para compreender como uma substância atua sobre outra bastaria saber quais as mudanças de cada uma e a respetiva prevalência. Também Amorim Viana (1822-1901), Cunha Seixas (1836-1895) e Antero de Quental (1842-1891) puseram Leibniz em lugar de relevância na sua reflexão. Amorim Viana partiu da harmonia pré-estabelecida, mas não contrapunha os conceitos de fé e razão, considerando a razão ao lado do sentimento moral e dos mistérios, entendidos estes como verdades que excedem a capacidade de entendimento, sem o contrariarem ou a ele se oporem. Cunha Seixas afirmava-se panteísta e concordava com Silvestre e Viana na consideração de que o bem seria a suprema realidade e o mal corresponderia a uma negação. Já Antero de Quental declarava a Jaime Batalha Reis ser a sua filosofia “uma fusão do hegelianismo com a monadologia de Leibniz” (1885), dizendo a Wilhelm Stork que “a monadologia de Leibniz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente à interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista”. E acrescentava: “o espírito é que é o tipo da realidade; a natureza não é mais do que uma longínqua imitação, um vago arremedo, um símbolo obscuro e imperfeito do espírito” (1887). Assim, a monadologia anteriana era de feição pluralista, distinguindo três regiões no mundo real – matéria, vida e espírito – ordenadas hierarquicamente, tendo cada uma por base a anterior.

 

LEIBNIZ E NÓS
E foi o “espírito” que ocupou essencialmente Antero, enquanto força consciente, energia simples, autónoma e espontânea – como modo de explicar “todo o sistema de forças em que consiste a natureza, bem como o sentido da evolução, como ascensão dos seres à liberdade, como criação de uma ordem racional, como desdobramento incessante energia moral, uma ação contínua da vontade impulsionada pelo ideal, a realização final do bem”. Pode dizer-se que Antero de Quental foi, entre nós, dos que melhor compreenderam as virtualidades do pensamento de Leibniz, aplicando-o numa perspetiva dinâmica à evolução das sociedades humanas. Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Basílio Teles sofreram também, mas diversamente, a influência leibniziana. Enquanto o poeta de Os Simples conciliava o criacionismo com a plenitude divina, o mesmo não se passava com os outros dois, para quem não era possível conciliar a ideia de Deus com a dramática realidade do mal. Leonardo Coimbra foi, porém, o nosso pensador que mais intensamente refletiu sobre a lição de Leibniz. O que caracterizava a monadologia era o acréscimo da vida moral e a tradução da liberdade em amor – ou seja, quando uma alma se excede, crescendo em liberdade, adquire maior capacidade de harmonia e beleza. Em suma, o “labirinto imenso” de Leibniz não nos pode ser indiferente.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

JOSÉ LUIS ARANGUREN

El terror engendra terror, presto siempre a convertirse en contraterrorista terror: inacabable dialéctica de la violencia.

 

Aqui nestas páginas já várias vezes mencionei o enormíssimo orgulho em ter sido discípula de Aranguren. Tive o privilégio de escolher a obra deste grande Tratadista aquando de um grupo de conferências nas quais pude trabalhar algumas ideias deste Mestre inigualável.

 

Falar de Aranguren é referir um dos filósofos e ensaístas espanhóis mais importantes do séc. XX. Professor de ética na Universidade Complutense de Madrid, descobrimos com ele um olhar único sobre a importância dos intelectuais nas atuais sociedades mecânicas e consequentemente, desumanizadas e sem qualquer esforço de solidário humanismo. As suas reflexões éticas, políticas e religiosas constituem uma água para a fonte de todas as nossas manhãs. Tal qual para mim o Professor Doutor José Luís Aranguren.

 

Revisitei este domingo um dos meus apontamentos das suas aulas:

A chamada experiência da vida pretende ser sempre um saber, mas um saber que tem em conta o significado e o sentido da vida, ou seja da moral na sua mais ampla aceção. Um saber que deve estar necessariamente ligado à prudência e à sabedoria e que parece afastar-se da ciência e da técnica. Mas, estes últimos são definidores de uma época como a que vivemos, orientada para uma racionalização progressiva e em último limite, clarificadoras e organizadoras dos comportamentos e das ralações sociais.

 

Depois da leitura destas anotações, relicto que a palavra prudência de há muito a esta parte que surge equivoca, como se não tivesse em conta a pretensão sugestiva da sabedoria, como se surgisse em contraste com a vontade pragmática do mundo científico dos dias de hoje. Ora, julgamos que ela pertence a um estado de cultura que sabe questionar o quanto o saber cientifico e técnico, pode não ser o bastante para a ordenação da vida em geral. Em nossa opinião esta palavra “prudência” é uma palavra a ser conquistada pelo conceito filosófico, tal a responsabilidade da sua transmissão a fim de que saibamos ao que nos devemos ater e que defina uma função clara na vida do homem. Nomeadamente uma função que ajude a esclarecer a razão da violência gratuita que se vive.

 

Procurarei continuar este tema no trabalho Crónica Da Cultura. Contudo, aqui e de novo, o alerta à mente brilhante de Aranguren e a necessidade de não descuidar a leitura dos seus livros.

 

Teresa Bracinha Vieira

Eis um regresso. Eis um fio de um quase indizível projeto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUC FERRY

 

Viver sem medos é talvez o princípio da precaução para que possamos proteger o desconhecido por razões desconhecidas.

 

Quando li A Nova Ordem Ecológica do filósofo Luc Ferry julguei ter entendido que Ferry propunha uma realização diferente a todos nós, mas não contida num ideal, antes uma realização numa espécie de domicílio ainda por dizer, mas sugerido já por essas páginas com impacto na vida concreta.

 

Passou Ferry a fazer parte das minhas aulas desde então.

 

Depois com o livro Aprender a Viver (agraciado com o Aujourd’hui 2006) julguei entrar numa proposta instalada mais perto de cada ser, na sua própria vida quotidiana, diria. Vi neste livro o desafio claro do ser humano a uma convicção do quanto a Filosofia harmoniza as diferentes forças da vida ao mesmo tempo que leva o homem a refletir sobre a sua finalidade.

 

Levei aos alunos até onde fui capaz uma história das ideias do fim e do não-fim com um impacto na vida concreta.

 

Disse-lhes e digo-lhes o quanto, um dia, a minha docência no seu clarificar, me tinha sido nata no não confundir profundidade com obscuridade, e o quanto, mal ousamos e desde logo em nós se inicia a revolução. A Filosofia.

 

No caminho das palavras de Luc Ferry temos medo de tudo: dos aquecimentos globais, do sexo, da velhice, dos organismos geneticamente modificados, da mundialização, diria, enfim, de tudo o que compõe o mundo ocidental no que respeita à proliferação dos medos.

 

Por aqui melhor entendi o quanto Platão, Epicuro, Montaigne, Nietzsche e a cada ano, Kundera é relido por Luc.

 

A Filosofia, sabe-se, não deve encorajar o medo, mas ajudar-nos a ultrapassá-lo e a vivermos o nosso presente, acima de tudo impedindo outros tempos de minarem as interpretações de sossegos ou desvarios, mas ainda assim, eles e as suas circunstâncias, poderem ter a liberdade de se exporem e nunca a serem ultrapassados por outros tempos que lhes pertencem nas afinidades e não nos núcleos.

 

Viver sem medos depois desta leitura da Revolução do Amor de Luc Ferry em pleno sec. XXI é, em muito, ensinar o homem a viver bem, a viver com a mão das escolas gregas da Antiguidade: é o amor a dar sentido.

 

Afinal podemos morrer por aqueles que amamos.

 

Afinal teremos nascido para uma nova espiritualidade que já mudou o nosso olhar sobre o mundo e nós sem nos darmos conta?

 

Poderemos dizer que as pátrias mudaram os motivos e os locais no nosso coração?

 

Hoje, século XXI, qual o sentido da vida? Residirá no conforto, no sucesso, em qual? No do prestígio ou no do silêncio? No que olha ou no que nos olha?

 

Luc Ferry, pensador francês, defende um Humanismo Secular, através do qual, bem-estar é realização pessoal. Viver, constitui um harmonizar das diferentes forças da vida e perceber?, bom, perceber é toda uma capacidade criativa. É toda uma obra de vida rara, um inovar do que desejaríamos vivenciar.

 

Coloca Luc Ferry neste seu trabalho, A Revolução do Amor, ao serviço de uma espiritualidade laica, ao serviço de um reaprender a viver renovando-se os discípulos e soltando-se as escolas gregas.

 

Toda esta leitura a sinto também num alertar para o quanto o tédio de consumir não é um medo, enquanto a catástrofe vender melhor do que as boas-novas.

 

O espírito crítico desenvolve-se nas democracias e nas sociedades humanistas, mas acreditando que nenhum perigo existe no questionar: esse lapso interpretativo, um espaço de enorme tragédia para uma só vida. Digo.

 

A imprensa desliza e não desdiz o que com deficiente expressão não restaura, pois que a geometria onde habita, é a dos condenados da terra colonizados e infelizes no formidável paradoxo que estamos longe de resolver: refiro-me ao recolhimento na diferença, na revolução, no amor, mundos de que afinal são prisioneiros e fiéis guardas os arautos das liberdades expressivas.

 

Afinal só os inversos são verdadeiros se ressingularizarmos os modos de vida, se os rediferenciarmos contra todas as uinidimensionalidades do mundo moderno. 

 

De outros jeitos já encontrei no livro de Ferry, A Nova Ordem Ecológica, uma siderante passagem da revolução à contra-revolução, quando o objetivo não era então, chegar a um consenso acerca dos problemas em análise, mas pelo contrário, provocar o aprofundamento das posições particulares dissonantes.

Ponta e mola nesta Revolução do Amor é um elaborar a Odisseia de Homero quando toda a história recomeça no caos e o sentido da viagem é o da harmonia da vida e seu sentido.

 

A guerra, a guerra não é local de ordem cósmica, não é sequer a paz um caminho para chegar a uma imortalidade, já que viver feliz é algo que supera a desassossegada imortalidade.

 

Recordo Heidegger na sua desconstrução da metafísica e sinto Luc a seu lado a soletrar uma energia limpa, tão sugestivamente limpa que nunca aconteça pois Tristão ou Don Juan em todos os verões se relacionarão no sentir de Ferry, como uns apaixonados da razão por conta do compromisso.

 

Ferry é defensor do Humanismo Secular, contrapõe à religião, o uso de uma razão crítica, que leve aos homens uma paz na intrigante violência da morte, ou da felicidade ou do amor incondicional nas condições de cada ser.

 

Afinal A Revolução do Amor é também um alerta: nenhuma vida humana é boa se não aceitarmos a morte.

 

O sábio aceita-a para assim vencer o medo. E todos poderemos na luz de Luc reconciliar a ordem cósmica com o universo harmonioso que nos rodeia num fragmento, muito fragmento de eternidade, e ainda assim numa estética de vida que no seu alfa e ómega a não procure.

 

Afinal o ponto de partida e a finalidade última poderá ser o conhecimento do amor, se a nossa vida for uma pergunta, algo que tenha a medida de uma interrogação que aos olhos de Schopenhauer seja apropriada para vencer medos, seguir caminhos pouco frequentados, reconhecer as limitações profundas da autocritica, e que o sentido absoluto da absurdidade da vida seja um lugar de onde se parta.

 

Afinal e talvez o perigo resida naqueles que se contentam com as tiradas vagas e fáceis, do género, a vida não tem sentido e só nos resta a arte, e afinal são tão terrivelmente curtos os que a reconhecem com a modéstia de conseguir que até os estóicos lhes sorriem.

 

Os conhecidos momentos de champanhe duram um certo período, mas nunca ninguém saltará de alegria pela partida de um amado, o que gera também um medo, mas não é um medo da felicidade, no limite, dizê-lo é uma indecência.

 

Será antes uma insuportável fórmula que nos é companheira por excesso, ou não será a prova do quanto o amor dá o sentido como diz Luc, não às nossas existências, mas nas nossas existências.

 

De fato não é a perseguição cega das realidades conhecidas por interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da entreajuda, do prazer de dar mais do que receber. Estou convencido de que os Europeus começam a compreendê-lo e a converter-se a isso, muito lentamente sem dúvida, mas de forma bem irreversível.

 

Estas as palavras de Luc Ferry no seu livro de que tanto, mas tanto gostei, A Revolução do Amor – Para uma espiritualidade laica.

 

Estas mesmas palavras, as faço minhas, num contributo ao cessar da indiferença. Numa formidável salva de palmas a quem do pensar faz palácio onde habita.

 

21 de setembro, mais um dia de vindimas em Portugal no ano 2011. Rougemont não se recordou. Contudo Albertine não escapa ao Douro sedutor.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

 

De 8 a 14 de agosto de 2016.

 

A terminar as «Tendências Gerais da Filosofia da Segunda metade do Século XIX» (1890), Antero de Quental diz-nos que “a síntese do pensamento moderno, preparada pelos filósofos, tem de ser a obra coletiva da humanidade culta”. É um texto fundamental da história da cultura portuguesa.

 

  


O ESPÍRITO DA HUMANIDADE
Nesse sentido, salientava Antero, não se pode confundir com “um grande e perfeito sistema, uma impecável civilização dialética; mas será mais e melhor do que isso, um alto ideal comum, um princípio universal de inspiração, falando todas as potências da alma humana, e cada uma na sua língua, acessível e fácil ao coração dos simples, como profundo à penetração das altas inteligências, e tão rico de luzes para a ciência como de estímulos para a consciência”. Tratar-se-ia do espírito da humanidade, nas suas diferenças e complementaridades, que se realiza nas instituições, nos costumes e na vida moral. De facto, a importância de Antero na história da cultura portuguesa liga-se a esta procura universalista – que deve ser vista na encruzilhada entre a herança romântica e a proposta simbolista. O poeta, em carta de 1867 a António de Azevedo Castelo Branco, afirmava que “a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como a hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais ligadas, abrindo-as, descolando-as. Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”. Nuno Júdice, num ensaio de grande interesse, que aqui se glosa, publicado na revista “Colóquio-Letras” (número 185, janeiro de 2014) recorda que nesta consideração estamos perante o conflito anteriano entre razão e delírio. A um tempo, sentimos a atração e a demarcação relativamente à influência romântica de um Garrett. E, em carta a José da Cunha Sampaio, de 1868, temos a recordação de influências antigas: “Byron, o batizador da nossa geração, pôs-nos ao lado dois padrinhos da sua mão, o Desejo e a Paixão; mas Proudhon, o batista da geração futura, dá-lhe outros padrinhos mais seguros, Abstinência e Vontade”.

 


LIGAR POESIA E FILOSOFIA
Do que se trata é de ligar Poesia e Filosofia e, neste particular, Antero de Quental vai desenvolver a sua capacidade criadora entre misticismo e lucidez racional, entre imaginação e razão. Como dirá a João Lobo de Moura: “o essencial, hoje, na Península, não é fazer ciência concreta e fria, para quem ignora os elementos das coisas: é introduzir no espírito público o sentimento moderno e a mesma noção de espírito científico e filosófico” (novembro de 1873). Nuno Júdice salienta, aliás, que, nas primeiras cartas de Antero, há maior nitidez na distinção entre racionalismo filosófico e delírio poético. Mas o tempo foi atenuando essa diferença. Numa carta a Joaquim de Araújo, o poeta elogia os brasileiros que não se limitam em poesia a ser literatos, mas preferem ser verdadeiros apaixonados “arrastados por um fluxo íntimo de sentimentos”. Afinal, há neles “uma sinceridade de inspiração, uma verdade e frescura, uma graça natural de expressão que me encantam” (3.11.1880). Os valores da sinceridade e da paixão caracterizam os “verdadeiros poetas”. E ainda no mesmo ano encontramos a confissão a Oliveira Martins de um certo regresso às origens: “É incrível a desarmonia que há entre a minha razão e o meu sentimento, este, por mais que faça, nunca chega a afinar pelo tom grave e claro daquela. Que fazer? É evidente que a poesia sai do sentimento e não da razão. Aceitemo-nos pois tais como nos fez a natureza. Não se pode exigir ao pinheiro que dê laranjas. Os poetas são como as mulheres: há de se tomar tais e quais, como os defeitos e as qualidades que na sua fatal natureza são inseparáveis”. Mas é na filosofia e pelas ideias que a maturidade criadora se afirma. Daí que Antero se confesse atraído pela Filosofia e pelo seu estudo cada vez mais absorvente. Deste modo, a publicação dos “Sonetos”, graças ao labor do seu dileto amigo Oliveira Martins, corresponde ao fecho de um ciclo de vida – “um documento psicológico”, como as “memórias de uma consciência” (como dirá a Tommaso Cannizzaro, em 24.6-1886). E o poeta confidencia ainda a Carolina Michaelis: “Parece que o estado de inquietação e de luta é que me incendiava e avigorava a imaginação, de sorte que, cessando aquele estado, esfriou ela rapidamente e toda a sua violência se escoou num suspiro. Esse suspiro são os últimos 15 ou 20 sonetos do livro; sem eles, creio que nunca teria publicado aquela coleção”. Aqui está (refere acertadamente N. Júdice) a cabal demonstração de que o poeta seguiu de perto a feitura da reunião dos “Sonetos”, designadamente a ordenação dos poemas, que foi, ao longo do tempo, motivo de polémicas várias…

 


«SONETOS» COMO ESTRUTURA NARRATIVA
Nuno Júdice fala, por isso, de uma estrutura narrativa do volume dos “Sonetos”, com acompanhamento das diversas fases da vida de Antero de Quental, desde o satanismo inicial, de influência romântica e baudelairiana até ao misticismo final – sendo o poema “Na Mão de Deus” uma espécie de intencional fecho de abóboda, que culmina um percurso que a organização procura seguir. Desde o prefácio à ordenação sente-se, assim, uma preocupação de fidelidade ao fraternal amigo por parte de Oliveira Martins. Antero fala mesmo a Wilhelm Storck de “notação de um diário íntimo e sem mais preocupações do que a exatidão das notas de um diário” – que acompanha “as fases sucessivas da minha vida intelectual e sentimental”. No fundo, o poeta sabe que, para si, mais do que as grandes explicações da ciência, “um profundo mistério continua a envolver o universo que ela acaba de explicar: o mistério das ideias, que é o mistério do que na consciência está para além da sensibilidade, região obscura onde assentam essas explicações”. E é nas “Tendências Gerais”, por onde começámos, texto fundamental, que essa chave se encontra – sentindo o poeta necessidade de pedir ao filósofo o completamento da explicitação do que o sentimento revela talvez melhor do que qualquer outra expressão. Dir-se-á, assim que “Sonetos” e “Tendências” correspondem a duas faces de uma mesma moeda que Antero de Quental quis que ficasse evidente no seu legado intelectual e espiritual para os vindouros. O sentimento e a razão completam-se e são reveladores da capacidade criadora da humanidade e da busca de um princípio universal, “falando todas as potências da alma humana (…) acessível e fácil ao coração dos simples, como profundo à penetração das altas inteligências, e tão rico de luzes para a ciência como de estímulos para a consciência”. O lugar de Antero de Quental na cultura portuguesa é singular e significativo. O poeta afirma a diversidade, impossível de simplificação, assente na coexistência de elementos paradoxais e complementares – misticismo e lucidez racional, imaginação e razão, lirismo e tragédia, poesia e filosofia. E Antero viveu dramaticamente essa coexistência…

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Jean-Luc Nancy


     Minha Princesa de mim:
 

    Jean-Luc Nancy disse, falando de filosofia e Iluminismo: la raison ne suffit plus, afirmando que, depois do século XVIII, o das Luzes, o pensamento se terá virado essencialmente para o além, para o que está por detrás do existente, ou no fundo deste, e que a razão suficiente não encara. A começar pela morte, que é o grande impensado das Luzes: desde Espinoza, que as inicia, a Kant, que as encerra, a morte está totalmente ausente. Um dos pontos mais desnorteantes do racionalismo é, sem dúvida, ter pendurado a questão da morte. Tal não me parece, a mim, paradoxal. Pelo contrário, creio que é natural sentirmos a insuficiência da nossa razão perante a morte. Claro que não estou a falar da determinação clínica ou médico-legal do não funcionamento irreparável de um organismo, mas da morte como mistério, isto é, enquanto certeza interrogadora. Em si mesma, agora sim, um paradoxo. As Luzes, que para Kant eram a chegada do homem à maioridade, quiseram, como diz Nancy, circunscrever o mundo. E acrescenta: Penso que é preciso infinitizá-lo. Para este pensador da pós-modernidade, impõe-se desencerrar a clausura entre razão e não-razão. E faz, para tal, duas sugestões. Uma reconhece que a religião menos supersticiosa, a menos dogmática possível, pode permitir a alguns aceitar o que nos escapa, projetando confiança, uma redenção que nos salve do nada, do absurdo. A outra via, mais exigente, é a que chamo pensamento da adoração. Estou cada vez mais fascinado pela revolução do pensamento operada pelo cristianismo, que soube, no mundo romano, trazer uma consolação, um sentido, a homens que as religiões antigas já não conseguiam sossegar. Mas também penso, para citar Marcel Gauchet, que o cristianismo é "a religião de saída da religião", que traz nele uma dinâmica de secularização, de negação do mito. Entramos aqui, Princesa, num campo interior que, pelo próprio mistério da sua natureza, se revela, mas não se explica: uma visão da vida e da morte que surge de um encontro amoroso, que não é uma afirmação de princípios, mas, singelamente, uma experiência íntima do ser como alegria infinita. O filósofo de Estrasburgo, que muito deve a Heidegger e a Derrida, não tem a fé cristã, mas pensassente o gesto de Jesus Cristo, diz ele, esse gesto, esse modo de estar no mundo, que eu chamo adoração, isso que o cristianismo nos deixa, depois de apagados todos os seus aspetos religiosos e teológicos. De modo algum emprego esse termo no seu sentido religioso, mas na sua dimensão amorosa; é a adoração que dirigimos a alguma coisa, a alguém, à existência. Não se trata, nem de esperar um êxito, um sentido deste mundo, nem de esperar que outro mundo, depois da morte, nos traga finalmente respostas. Adorar é estar neste mundo, mas segundo um certo espírito, é aprender a aceitar a infinidade do sentido. Podes crer, Princesa de mim, que a minha fé se encontra profundamente com tal intuição da razão de outros. Àquilo a que chamam dinâmica de secularização, eu chamo energia da incarnação, essa presença de Deus no mundo e na vida dos homens, desse Deus que, em Jesus Cristo, abdicou da sua transcendência e se fez nosso igual sofredor, e no Espírito de Pentecostes todos os dias se nos revela e acompanha. Aceitar a infinidade do sentido é encontrar, no íntimo de nós, esse sopro do Espírito que nos diz que a nossa vida é maior do que nós, sobretudo quando a sentimos, na alma, seu paradoxo, como Álvaro de Campos, noite soleníssima e cheia / de uma oculta vontade de soluçar, / talvez porque a alma é grande e a vida pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo, / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar... Sabes bem, Princesa, já te lo disse muitas vezes, como penso e quanto sinto que o grande milagre é esta intimidade de Deus connosco. Por isso não sou devoto de aparições e milagres, e posso ser até avesso a histórias dessas, quando me parecem insistentemente forçadas e pouco respeitadoras da razão humana. Sendo, todavia, leitor assíduo da Legenda Aurea de frei Tiago Voragino, delicio-me com essas maravilhas do imaginário medievo, cheio de ternura respeito a ingenuidade clara desses contos de fé. Nunca abdicarei do espanto.


     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

 

“Cadernos de Filosofia Extravagante”

O primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante intitula-se Universalidades e será lançado em Sesimbra, na Biblioteca Municipal, no próximo dia 21 de Março, sábado, pelas 15 horas.

A apresentação estará a cargo de três colaboradores dos Cadernos: Luís Paixão, Isabel Xavier e Rodrigo Sobral Cunha. No dia seguinte, domingo, haverá nova sessão de apresentação, desta vez em Lisboa, na Galeria Matos Ferreira. Terá início às 18 horas, e contará com a participação de António Telmo, Pedro Martins e Renato Epifânio. (...)

Mais informação aqui

PADRE ANTÓNIO VIEIRA

Padre António Vieira relembrado na Universidade Católica Portuguesa
6 de Fevereiro, às 17 Horas, Campus da Foz

  • Apresentação do livro "O Padre António Vieira e o Mundo de Língua Portuguesa"
  • Conferência “Vieira e a Língua Portuguesa”, pelo Professor Aníbal Pinto Castro

 

Religioso, orador e escritor, o Padre António Vieira foi uma das personalidades mais marcantes do século XVII. No próximo dia 6 de Fevereiro, pelas 17 horas, Campus Foz, dia em que se encerram as comemorações dos 400 anos do seu nascimento (Ano Vieirino), a Universidade Católica Portuguesa, através do Centro Regional do Porto, promove a apresentação do livro “O Padre António Vieira e o Mundo de Língua Portuguesa”, seguida de uma conferência subordinada ao tema “Vieira e a Língua Portuguesa”, pelo Professor Aníbal Pinto Castro.

A obra “O Padre António Vieira e o Mundo de Língua Portuguesa”, coordenada pelos Professores Aníbal Pinto Castro e Artur Teodoro de Matos, conta com textos de João Adolfo Hansen (Universidade de São Paulo-Brasil), Isabel Almeida (Universidade de Lisboa), Pedro Cardim (Universidade Nova de Lisboa), Mário Garcia S.J. (Universidade Católica Portuguesa), Manuel Cândido Pimentel (Universidade Católica Portuguesa) e dos dois coordenadores. A obra foi editada conjuntamente pela EPAL – Empresa Pública das Águas Livres e pelo Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa.

'A Questão de Deus' I-II

     
 

'À primeira vista, o tema de Deus é um assunto fracturante, que divide irreconciliavelmente crentes e ateus. Sê-lo-á, sobretudo se for tratado apenas com o calor das emoções.
Todavia, quando o tema de Deus se converte numa questão filosófica, então a própria questão obriga à análise das possibilidades que se confrontam no seu âmbito: a afirmação teísta ou a negação ateísta; a afirmação monoteísta ou a afirmação politeísta; a afirmação transcendentalista ou a afirmação imanentista; a afirmação personalista ou a afirmação deísta; etc.. Deste modo, a questão de Deus é, fundamentalmente, uma questão comum a pensadores das mais diversas orientações.
Compreende-se assim que a questão de Deus, através da análise das suas múltiplas possibilidades, revele afinal um tema que é estruturante de mundividências e transversal na história da filosofia.
Tal é o que vem comprovar a colaboração de especialistas e investigadores das diversas épocas da história da filosofia, nesta obra, com que culmina a primeira linha de desenvolvimento do projecto de Filosofia FCT / CFUL [PTDC/FIL/64249/2006]:
«A Questão de Deus. História e Crítica»

Informação disponível em: www.aquestaodedeus.blogspot.com

Coordenação: Maria Leonor L. O. Xavier

 

Autores: Afonso, Filipa; Alves, José; Amaral, Margarida; André, José Gomes; Barata, André; Beckert, Cristina; Belo, Catarina; Belo, Fernando; Bezerra, Cícero Cunha; Bolinhas, Maria Inês; Borges, Paulo; Brito Martins, Maria Manuela; Caeiro, António de Castro; Cardoso, Adelino; Carvalho, Magda Costa; Correia, Carlos João; Costa, Marcos Nunes; De Boni, Luís Alberto; Dreher, Luís H.; Duque, João; Epifânio, Renato; Ferreira, Ana Rita; Ferreira, Maria Luísa Ribeiro; Gabriel, Markus; Ganho, Maria de Lourdes Sirgado; Ghisalberti, Alessandro; Kohlenberger, Helmut; Lima, Jivaldo; Lopo, Rui; Macedo, José Costa; Machetta, Jorge Mário; Martines, Paulo; Martins, António Rocha; Mendonça, Marta de; Natário, Celeste; Pacheco, Maria Cândida; Paine, Scott Randall; Pereira, Américo; Pereira, Gonçalo Zagalo; Pereira, Lavínia; Pérez, José Luis; Perine, Marcelo; Pinho Davi, Amon; Pondé, Luiz Felipe; Portugal, Agnaldo; Santiago, Isabel; Santos, Bento Silva; Santos, José Trindade; Serrão, Adriana Veríssimo; Silva, Carlos Henrique do Carmo; Silva, José Filipe; Silva, Paula Oliveira e; Soromenho-Marques, Viriato; Souza, José Antônio de C. R. de; Teixeira, António Braz; Teixeira, Maria Teresa; Valente Pinho, Romana; Van Herck, Walter; Vasconcellos, Manoel; Ventura, Ricardo; Veríssimo, André; Xavier, Maria Leonor.

 

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