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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PORTUGAL EM ORLANDO RIBEIRO

 

Portugal é uma terra de contrastes, onde pontificam o Atlântico e o Mediterrâneo. Mas é difícil de definir, pela complexidade e pela diversidade de elementos que caracterizam o país. Orlando Ribeiro escreveu em 1943 um livro notabilíssimo, pelo rigor da investigação e pela leveza da escrita, que constitui um vade mecum indispensável para quem queira conhecer a geografia de Portugal e, através dela, a nossa identidade. Falo-vos de Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (Sá da Costa, 4ª ed., 1986). (…)

 

"Disposto de través na zona mediterrânica, bem engastado numa península que é como a miniatura de um continente, o território português abre-se para o mundo por uma vasta fachada oceânica" (p.131). O traçado de viés é acompanhado de alternâncias climáticas e da coexistência do clima oceânico e da secura quente. E é a "vigorosa oposição das terras altas e montanhosas, cortadas de vales profundamente incisos ", as repercussões no revestimento vegetal define uma terra de contrastes. Norte e Sul - o primeiro é atlântico, verdejante, húmido, com "gente densa"; o segundo mediterrâneo, com longos estios e escassamente povoado. Litoral e Interior - o país vai desde a verdura espessa, "banhada na luz doce e húmida" do noroeste até à aridez das terras de além Marão; desde a variegada aptidão rural do Vouga ao Sado ou do sul algarvio até aos monótonos descampados alentejanos… Terras altas e baixas, Serra e Ribeira, Campo e Monte, Montanha e Vale, Terra Alta e Terra Chã - assim define o povo a complexidade e as oposições, bem evidentes na economia e no povoamento. Desde a montanha húmida do norte e da economia agro-pastoril tradicional até aos relevos menos acentuados, secos e descarnados do sul, "onde o gado miúdo e as queimadas degradaram a floresta primitiva", temos os traços de uma complementaridade e de uma coerência meridional. E, deste modo, a unidade de Portugal é em grande parte obra humana - que há mais de sete séculos define uma entidade política antiga e estável.

 

Orlando Ribeiro não se limita a interrogar a terra. Olha sempre as gentes e a sua vontade, procurando as "raízes antigas" da identidade. No fim do neolítico fala de três áreas de civilização - a do levante, a dos planaltos centrais e a da faixa oeste. E no Oeste peninsular recorda a "civilização megalítica ocidental", ligada igualmente à Bretanha, ao País de Gales e à Irlanda. Aí estão os redutos célticos da Galiza e de Portugal. E a sul temos as influências dos povos mediterrânicos - fenícios, gregos, cartagineses e a "brilhante civilização indígena" dos Tartessos no Guadalquivir. Os tempos vão revelando as diferenças e as ligações, as continuidades e as descontinuidades. Os conventi romanos, a organização administrativa dos suevos e dos visigodos, as desinteligências da monarquia goda, a invasão moura, a influência árabe, a reconquista, a coexistência das zonas estabilizadas dos reinos cristãos a norte e dos reinos taifas no meio dia com uma zona intermédia de incerteza e de alternância de influências - tudo nos vai revelando uma multiplicidade de elementos, num curioso melting pot, que vai gerando a autonomia ocidental peninsular. José Mattoso encarregar-se-á, aliás, mais tarde, de lançar nova luz sobre essa encruzilhada de circunstâncias.

 

Portucale ou Portugale, junto à foz do Douro, vai ser matriz do corpo político donde sairá o Estado português - um Estado que precede a Nação. (…). O nome Portugal leva-nos à influência indo-europeia (o elemento per significa em sânscrito entrada. E Gal é a referência ao povo céltico – que encontramos na Capadócia (Galácia, Gálatas), em Istambul (Galatasaray), na Galicia (Cracóvia), na Gália, no País de Gales e na Galiza)…

 

São os contrastes naturais que determinam ainda a deslocação de populações. As vindimas do Douro, as ceifas da Terra Quente, a apanha da azeitona na Beira Baixa, as ceifas no Alentejo, a tirada da cortiça obrigavam a que houvesse movimentos internos, sazonais, de gentes. Nos arrozais são exímios os caramelos do Mondego e do Vouga, bem como os gaibéus do norte do Ribatejo ou os avieiros da foz do Liz… Ao Ribatejo e ao Alentejo chegam os minhotos e pica-milhos, os beirões e os ratinhos. E em Lisboa e na Caparica encontramos as varinas e varinos de Ovar, como é bem de ver, ao lado dos pescadores de Ílhavo. E em Azeitão, Orlando Ribeiro descobre a curiosíssima distinção entre os caramelos de estar e os caramelos de ir e vir, ou seja, os colonos permanentes e os migrantes periódicos. É este o entrecruzar de influências que reforça, aliás, o melting pot e a identidade portuguesa complexa e diversa.

 

E a divisão regional? (…) O Norte Atlântico é o "tronco antigo e robusto" da nação, dominado pela abundância de chuvas, pela riqueza da terra e pela vitalidade das populações. É uma região de intensa diversidade e de policultura. O Porto velho é o polo histórico indiscutível da região, mas Braga pontua como sede do velho arcebispado. A diversidade urbana coexiste com a intensidade rural. As montanhas do Minho, as serras do Douro e do Vouga assemelham-se, mas o povoamento dá-lhes múltiplas facetas na atividade e nas tradições. O Noroeste é, desta forma, uma "unidade natural definida pelo predomínio dos caracteres atlânticos, unidade histórica mantida através de uma população antiga e densa que, pelo seu número e homogeneidade, veio a constituir o elemento aglutinante do Estado português" (p.148). Nesta síntese feliz, O. Ribeiro dá-nos o sinal das diferenças, que se unem e se completam, e dos elementos comuns. Sentimos a História a fazer sentido - e os reinos cristãos a espraiarem-se naturalmente para a Beira Alta, em direção ao Mondego e à Cordilheira Central, passando pelo Dão vinícola e por Viseu e indo até à Estrela, "enorme reservatório de águas límpidas e de grandes desníveis" (p.149).

 

No Norte Transmontano "a paisagem carrega-se de tons severos, cinzentos, acastanhados. A luz torna-se mais crua, a terra mais dura e a gente mais retraída". Para cá do Marão, mandam os que cá estão! O arvoredo rareia. Desapareceram os castanheiros, a batata cultiva-se no planalto. A Terra Fria e a Terra Quente marcam uma paisagem de extremos. Nas vertentes do Douro, os matagais deram lugar no séc. XVII aos formosos vinhedos do "vinho fino", nos terrenos de xisto. A Régua é o epicentro e dali sai o vinho, Douro abaixo, para se tornar do Porto, sob os auspícios da colónia britânica. A praga da filoxera do séc. XX dizimou as vinhas. Algumas foram substituídas por amendoeiras e oliveiras. Mas o vinho continuou a ser o grande símbolo da região, que ainda se lembra a memória do Barão de Forrester, morto no Douro, quando a Ferreirinha, D. Antónia, se salvou…

 

No Sul, o Alentejo singulariza-se pela monotonia da planície. Mas as terras meridionais são complexas e heterogéneas, começando na zona de transição do sopé da Cordilheira Central, a sul do Fundão, na Portela de Alpedrinha, onde a cova da Beira anuncia as planuras de além Tejo, indo, para oeste, através da planície aluvial do Mondego e da cidade de Coimbra até ao grande maciço florestal de Leiria. Depois, há o polimorfismo da Estremadura, os maciços calcários, os barros basálticos dos arredores de Lisboa, o microclima da romântica Sintra, a área de influência de grande metrópole mediterrânea e a península de Setúbal, o santuário natural da Arrábida e a sua floresta mediterrânea. Para leste, estão o Ribatejo, a lezíria, Santarém e o vale celebrado por Garrett em "As Viagens na Minha Terra", que abre para sul na "imensidão de terra lisa ou apenas quebrada em frouxas ondulações…" Aí está Évora, "a cidade mais bela de Portugal", no dizer do mestre, repositório vivo da história portuguesa. E vêm depois o Baixo Alentejo, com Beja como centro, e os dois Algarves - a serra e a orla marítima, lugar de encanto e amenidades - "nenhuma outra região portuguesa possui uma rede urbana tão antiga, tão densa e tão importante", com uma profunda organização romana e muçulmana, tendo esta passado quase intacta ao domínio português…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 De 19 a 25 de fevereiro de 2018.

 

«Vidas numa Vida» de Maria Germana Tânger (Manufactura, 2016) é um livro de memórias onde encontramos as andanças de uma mulher apaixonada pela arte e pela poesia. 

 

O LARGO DE S. CARLOS

Não esqueço as belas tardes passadas na acolhedora casa do Largo de S. Carlos, onde pairavam os mais puros espíritos poéticos. A primeira vez que lá entrei, deparei-me com a mais enigmática das frases de Almada Negreiros – escrita e autografada com a letra inconfundível do mestre e com o belíssimo d com a singular haste que nos levava aos mais ambiciosos sonhos. “Chegar a cada instante pela primeira vez”. Nunca mais perdi essa referência fantástica. Conheci pessoalmente Maria Germana Tânger no final dos anos sessenta, graças à amizade de seu filho António. E quantas vezes não lembrámos, aí mesmo, a presença forte de José de Almada Negreiros, iconoclasta, modernista, inconformista, poeta d’Orpheu, futurista e tudo. O certo é que fora ele a levar a jovem para a leitura de poesia – com o célebre “Corvo” de Edgar A. Poe, na tradução de Pessoa… O grande mestre morreu por essa altura, e não deixámos mais de o considerar na ara das nossas afinidades eletivas. E aqui o plural não é majestático, mas literalmente referido a quantos ali aprendemos a cultivar os mistérios da Arte. Maria Germana gostava da presença dos jovens, entre os alunos do Conservatório Nacional de Garrett e os muitos amigos que passavam por sua casa. Era uma pedagoga inata, que amava a arte como ponto de encontro do espírito. Esse era um tempo em que as mudanças se anunciavam, mas naquela casa, com toda a serenidade, vivíamos a geração de “Orpheu” como se ela se mantivesse viva. E não estaria? Ainda hoje quando todos os dias passo em frente do painel “Começar” na Gulbenkian, feito nesse ano em que comecei a visitar assiduamente a adorável casa do Largo de S. Carlos, recordo essa memória bem presente.

 

SEMPRE ALMADA NEGREIROS
“Chegar a cada instante pela primeira vez” é todo um programa de vida que jamais pode ser esquecido. Que desafio mais obrigatório que o de sermos os “primitivos” das novas gerações? E que é a capacidade criadora senão a fantástica virtude de possuirmos o olhar limpo para podermos descobrir o mundo, numa verdadeira “invenção do dia claro”? E, de facto, ouvíamos em silêncio completo: “Mãe vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! (…) Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade”. E era ali que tudo se passava, em frente do lugar em que Fernando Pessoa tinha nascido, com todos os seus heterónimos. E assim ouvíamos com júbilo o sino da sua aldeia (na torre da igreja dos Mártires). Ali sonhámos as primeiras viagens que tínhamos a descobrir. E se refiro a casa de S. Carlos não esqueço a de Queluz, onde a hospitalidade também era uma constante… A lembrança mais antiga que tenho de Maria Germana Tânger? A vê-la e a admirá-la na “Ronda Poética”, nos primeiros tempos da televisão. Então aquela voz pausada, ligeiramente rouca, a dizer na perfeição a língua portuguesa tornou-se-me familiar. Devo ainda lembrar Manuel Tânger Correia, seu marido, que iniciou Maria Germana nas andanças teatrais da velha Faculdade de Letras no Convento de Jesus. A qualidade de pensamento e de reflexão que tinha está bem evidenciada no ensaio “Em Busca de uma Estética Literária”, que dele recebi e guardo religiosamente. “O que não oferece dúvida é o personalismo que caracteriza o génio. O transpersonalismo é determinista. O homem tentará sempre. A estética do futuro será mais humana”…

 

OLHO E CONTENTA-ME VER
Em diversos momentos de sua vida, ouvi Maria Germana dizer de cor a “Ode Marítima” de Álvaro de Campos. A sensação que tínhamos era difícil de explicar. Esse exercício nela parecia natural, como se tratasse de uma conversa longa e compassada. Era assim que na Antiguidade os Aedos transmitiam de geração em geração os poemas heroicos. A última vez foi no Teatro da Trindade, com o seu aluno João Grosso, em 1999. E posso dizer que mesmo então a sua memória continuava fielmente segura. Olhando para o seu interlocutor ia dizendo mentalmente as partes que lhe estavam destinadas. O mano-a-mano dessa noite de justíssima homenagem serviu apenas para confirmar tudo – a mestria, o talento, a sabedoria, o amor, a capacidade de dizer comunicando, o entusiasmo, a alegria. “Sozinho no cais deserto a esta manhã de Verão, / Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido, / Olho e contenta-me ver, / Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. / Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. / Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo”… Nesse longo poema estava não apenas Álvaro de Campos, mas o fundo poético da nossa língua – levando-nos até Cesário Verde, a Antero de Quental e a Camilo Pessanha… Sim, todos lá estavam – nesse “giro lento do guindaste” que traçava “um semicírculo de não sei que emoção / no silêncio comovido da minh’alma”… Da janela da casa do Largo de S. Carlos adivinhava-se uma nesga de mar ao fundo da rua – e a nossa imaginação associava o lugar do nascimento de Fernando Pessoa (inesquecível ortónimo), a sua memória distante, às andanças escandalosas de Almada Negreiros, a proclamar pelo Chiado os manifestos futuristas. Tudo se ligava e fazia sentido – o teatro, a poesia, a música, a dança, o desenho, a pintura: Pessoa, Almada, Mário de Sá Carneiro, Amadeo de Sousa-Cardoso.

 

POETA DE POETAS
Em Vidas numa Vida (Manufactura, 2016) encontramos as andanças de uma mulher apaixonada pela arte e pela poesia. Cecília Meireles, Fernanda de Castro, Sarah Afonso, Natália Correia fizeram parte do seu círculo de amizade e de culto da Arte. Mário Cesariny chamou-lhe poeta de poetas… O método que usava era simples, mas permitia compreender a diferença entre o declamar (que não praticava) e o dizer, que foi o seu trabalho de sempre. Começava pela descontração, e continuava pela respiração, pela articulação, pelo conhecimento do corpo e pela máscara. Os seus alunos e os amigos (e os primeiros rapidamente entravam para o grupo dos segundos) sabiam-no bem por experiência e entusiasmo. O fundamental era saber dizer, o que pressupunha compreender e transmitir o que o poeta escreveu e o que o leitor sentia. Em quase cem anos de vida, Maria Germana Tânger viveu intensamente, resumindo esse caminho deste modo: “tanta surpresa, tanta dedicação, tanto amor, tanta amizade, tanta desilusão, tanta força, tanta alegria, tanta esperança, tanta rebeldia, tanto desgosto, tanta saudade”… Ah! como sentimos, mais intensamente em cada dia que passa, o que Fernando Pessoa disse: “No tempo em festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos, era uma tradição de há séculos, / E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer…”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 12 a 18 de fevereiro de 2018.

 

"O Clube dos Anjos" de Luís Fernando Veríssimo (D. Quixote, 2000) é um livro, onde se conta como o desejo levado ao extremo se torna destruidor. Trata-se de um tema clássico, aqui tratado com ironia, sem esquecer a dimensão trágica da vida…

 

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VIRAR A VIDA DO AVESSO

«Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas». Luís Fernando Veríssimo tem o método de virar as coisas do avesso para as compreender melhor. É ele quem afirma o que acabamos de ler – e é significativo que o diga num tempo de incertezas, no qual melhor compreendemos a necessidade de estarmos atentos à alteração de circunstâncias. Num tempo de movimento uniformemente acelerado a necessidade de cultivar o paradoxo torna-se óbvia. As “Correntes d’Escritas” da Póvoa de Varzim deste ano homenageiam-no e inserem na sua revista um dossiê dedicado ao autor, e tal merece destaque, uma vez que se trata de uma justa invocação. Luís Fernando Veríssimo faz parte de uma importante tradição da literatura brasileira, onde está Millôr Fernandes e tantos outros, e que se ocupa em dizer as coisas mais sérias do mundo de um modo a um tempo difícil e desarmante, próximo mas inteligente. Do que se trata é de mostrar ao comum dos mortais como a realidade que nos cerca tem sempre o seu quê de incerto e de imprevisível. Onde menos se espera, aparece-nos na história alguma coisa que, não fazendo aparentemente parte dela, permite encontrar uma chave que julgávamos perdida. Afinal não procuramos o que perdemos junto da luz, mas devemos fazer chegar a lâmpada até junto do local em que está a coisa perdida ou desaparecida… Um dia perguntaram-lhe por que razão a raça humana não tem conseguido aperfeiçoar-se, como desejaríamos, e Veríssimo respondeu de imediato – porque usa e abusa das reuniões… Millôr diria que um camelo é um cavalo desenhado por um grupo de trabalho… Outra vez, invetivou um amigo: «não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino, acredite em si próprio. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando – porque, embora quem quase morra esteja vivo, quem quase vive já morreu». Aqui se encontra um verdadeiro programa de vida, de quem quer que não se morra de véspera… Quase viver não existe, por isso o escritor procura pegar nos acontecimentos como se fossem sempre únicos e irrepetíveis. Nesse ponto, encontramos a humanidade como referência universalista. É assim Luís Fernando Veríssimo, bem longe (ou demasiado perto) de seu pai Érico Veríssimo, o célebre autor de «Olhai os Lírios do Campo», mas com semelhante dose de talento – que nos leva a entender que o ADN de ambos é de qualidade humana muito especial. «Se o facto de ter um pai escritor o inibiu?». E a resposta numa entrevista foi a seguinte: «Conscientemente, não. Inconscientemente, talvez. Às vezes fico tentado a inventar algum drama edipiano entre meu pai e eu para satisfazer a expectativa das pessoas, mas nunca houve isso»… Compreende-se bem isto mesmo. Luís Fernando é ele mesmo, empenhado em cultivar a alegria do paradoxo e em exercitar a atenção desperta para tudo o que possa valer a pena. Mas esse gozo não esquece que felicidade é sempre uma acomodação – e o escritor negou-se sempre a acomodar-se, preferindo o desassossego. Só isso parece valer a pena, mas é mais trabalhoso.

 

O MÉTODO AFORÍSTICO.

Os aforismos, que encontramos nos seus diversos textos, são um meio de nos pôr a pensar. A principal matéria-prima para uma crónica são as relações humanas. Só assim é possível superar a angústia do papel branco. Este é o ponto essencial em que o escritor insiste. Nada do que é humano nos pode ser estranho, por isso a dimensão humorística apenas serve para demonstrar que não nos levamos demasiado a sério. O nosso Alexandre O’Neill com a força da sua ironia pensava da mesma maneira e por isso foi grande. E como dar importância às relações humanas se nos limitarmos a olhar o curto prazo e o superficial? Então, não é possível ir além do comezinho e do rasteiro… É por isso mesmo que Veríssimo procura a humanidade olhando para o avesso do tapete, a fim de perceber a razão de ser da beleza dos desenhos vistos do direito. A metáfora do tapete leva-nos a entender que a pessoa humana precisa de liberdade para cumprir as responsabilidades e para realizar o serviço que a vida sempre exige. E o serviço é o dom, a gratuitidade, sabendo-se que a troca estreitamente económica suscita debates e invejas. A alegria do paradoxo é o melhor modo de entender a vida como realização suprema da literatura. Luís Fernando Veríssimo demonstra-o com elementar clareza.

 

À VOLTA DA MESA.

«O Clube dos Anjos» conta a história de dez homens que se reúnem há vinte e um anos à volta de uma mesa para celebrarem a sua amizade. No início há as reuniões diárias no «Bar do Alberi», cujo prato principal é o picadinho de banana. Depois passa a haver jantares semanais em bons restaurantes, em que o prazer da comida requintada se torna um hábito e uma exigência. E, por fim, reúnem-se em jantares mensais nas residências dos membros do clube. É Daniel que conta a história dos dez amigos, a qual vai exigindo cada vez mais no requinte da gula, que parece não ter limites. E conhecem Lucídio, um rapaz misterioso que é exímio na arte da culinária. A procura do prazer é insaciável. Mas o caminho torna-se uma desenfreada corrida para a morte. E tudo se precipita quando Ramos parte… É a vida vivida, contraditória, irónica e trágica que aqui se manifesta. Tantas metáforas, tantas contradições…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 5 a 11 de fevereiro de 2018

 

«Obra Política – Escritos do Vintismo (1820-1823)» de Almeida Garrett (Estampa, 1985) permite-nos compreender os alvores do constitucionalismo, seus claros e escuros, segundo o mais inovador dos nossos românticos.

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LIVRES E IGUAIS…

Almeida Garrett, ao escrever em 1821, sobre os princípios da nossa primeira revolução liberal, a do Porto de 24 de agosto de 1820, disse que “os homens são iguais, porque são livres, e são livres porque são iguais; eis aqui um círculo vicioso à primeira vista, mas uma demonstração verdadeira; e exata, para quem a quiser aprofundar. (…) Somos livres; porque os direitos, que temos à existência, à boa existência, a prover aos meios dela, a aperfeiçoá-la, são comuns a todos (…). Somos iguais; porque não podendo nenhum homem ser impedido por outro no exercício dos seus direitos, sendo estes os mesmos para uns, que para outros, e portanto livres, este estado forma o que se diz, e o que é a igualdade”… E não deve esquecer-se a fraternidade, já que é “o homem dotado de uma sociabilidade, ou necessidade de viver com os outros homens, que é clara e patente a todas as luzes”. Nesta referência atualíssima, encontramos o fundamento do constitucionalismo moderno – assente nas ideias do primado da lei, de legitimidade cidadã e de diversidade. E se hoje a reflexão sobre a democracia, a representação e a participação estão na ordem do dia, a verdade é que a ligação entre liberdade e igualdade, igualdade e diferença, legitimidade e mediação devem ser consideradas. Nos duzentos anos do constitucionalismo português, importa ter presentes os antecedentes desse momento fundador. Realizado o Congresso de Viena, em que uma nova ordem europeia foi consagrada, depois da derrota de Napoleão, um paradoxo foi lançado, simétrico ao da expansão de Bonaparte. Se os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade entravam em choque com a lógica expansionista do Império, o certo é que no domínio dos princípios não podiam ser esquecidos – e no caso português, se a aliança luso-britânica nos salvara da perda da independência, com a inteligente solução de transferir a capital para o Rio da Janeiro, o certo é que a ausência do rei e os efeitos económicos da subalternização do Portugal europeu resultaram na nossa redução à condição de colónia. Não podemos esquecer a existência de uma importante corrente liberal (dita afrancesada) nos meios cultos portugueses, que não desapareceu durante as invasões francesas e a guerra de libertação nacional. E era paradoxal combater um invasor, que representava ideais de liberdade e de progresso… A figura de Gomes Freire de Andrade é representativa dessa tensão de ideias contraditórias – a da independência nacional, incompatível com a invasão napoleónica, e a de um constitucionalismo baseado na liberdade e na emancipação assente numa cidadania ativa, representada nos princípios originais da revolução francesa.

 

O PORTO COMO PONTO DE PARTIDA

A revolução constitucional do Porto de 1820 foi o corolário de uma tomada de consciência sobre a necessidade de encontrar um regime constitucional moderno, assente numa legitimidade cidadã. Daí termos de falar da tentativa de 1817 de Gomes Freire, barbaramente reprimida pela condenação ilegal e ilegítima dos mártires da Pátria – o que foi justamente associado às celebrações da abolição da pena de morte (1867) e deve ser continuado pela invocação agora dos duzentos anos da criação do Sinédrio, na cidade do Porto – verdadeiro embrião do movimento liberal-democrático que aboliria o absolutismo e implantaria a soberania popular. O Sinédrio foi criado no Porto a 22 de janeiro de 1818 por Manuel Fernandes Tomás, desembargador Tribunal da Relação, a ele aderindo doze figuras marcantes: João Ferreira Viana, comerciante; José Ferreira Borges, advogado e secretário da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro; José da Silva Carvalho, juiz dos órfãos e futuro ministro de D. Pedro; Duarte Lessa, grande amigo de Garrett; José Maria Lopes Carneiro; José Gonçalo Santos e Silva; José Pereira Meneses; Dr. Francisco Gomes da Silva, médico militar; João da Cunha Sotomaior, desembargador; José de Melo e Castro e Abreu, coronel das milícias do Porto; José Maria Xavier de Araújo; e coronel Bernardo Correia da Costa e Sepúlveda, comandante do regimento de Infantaria 18… O fim da agremiação era “observar a opinião pública e a marcha dos acontecimentos, vigiar as notícias da vizinha Espanha, reunir-se no dia 22 de cada mês em um jantar na Foz, onde se daria parte dos sucessos acontecidos no mês passado, e do que conviria fazer no próximo, guardar a maior lealdade uns para com os outros e o mais inviolável segredo para com os estranhos…”. A designação foi escolhida pelo próprio Fernandes Tomás e havia a ideia determinada de libertar o país do vexame de ser praticamente um feudo do procônsul Beresford. Em 1818 e 1819 houve uma atividade persistente, mas discreta, reforçada pelos movimentos na Galiza no sentido da proclamação da Constituição de Cádis. E o Sinédrio foi reforçado pela entrada de António da Silveira Pinto da Fonseca, irmão do Conde de Amarante, figura de grande prestígio em Trás-os-Montes, que trouxe o coronel Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, comandante da Artilharia do Porto. De índole conservadora, os novos membros deram um impulso significativo ao movimento – com importantes adesões de altas patentes, o que levaria o Sinédrio a contar com todos os regimentos do Porto e de Trás-os-Montes. Faltavam apenas as forças do Minho – tendo, no entanto, o coronel António Lobo Teixeira de Barros assegurado a Xavier Araújo que poderiam contar plenamente com ele, o que dava aos conspiradores acentuada confiança. As boas comunicações com a Galiza e os apoios prometidos, com a retaguarda segura pelo controlo da praça-forte de Valença, levaram ao começo da preparação do golpe.

 

A REVOLUÇÃO REGENERADORA DE 1820

Foi fixada a data de 29 de junho, que teve de ser adiada, pois o coronel Teixeira de Barros deu o dito por não dito – uma vez que as condições tinham mudado. Esperava-se a todo o momento a chegada de Beresford, vindo do Rio, tendo ele, coronel, dado a palavra de honra ao governador militar da província, general Wilson, de que não concorreria para a revolução na sua ausência – afinal, na revolta da Galiza tudo apontava para que seria sufocada. Araújo parte para as Taipas onde comunica a Fernandes Tomás a nova situação. No entanto, o embaixador de Espanha em Lisboa, José Maria de Pando, entra em contacto com o Sinédrio, com vista a uma solução iberista, na linha do que defendia José Liberato Freire de Carvalho. O encontro do emissário tem lugar em um jardim na rua de Cedofeita. Mas Fernandes Tomás recusa essa solução: “Perdermos a nossa nacionalidade, nunca”. Entretanto, notícias da contrainformação levam o coronel Cabreira e o brigadeiro Silveira a querer avançar imediatamente. Mas faltam condições para o sucesso o que leva a diversas diligências, com êxito, designadamente de Cunha Sotomaior, para refrear os ânimos. Fernandes Tomás acerta em Lisboa os últimos pormenores e o movimento ganha um apoio de peso – o futuro Cardeal Saraiva, o beneditino D. Francisco de S. Luís. Fixa-se a data para 24 de agosto, mas Fernandes Tomás ainda se vê em sérias dificuldades para convencer o brigadeiro Silveira a aprovar uma declaração civilista e de sentido liberal e progressista. Manifestavam-se já as diferenças que levariam ao retrocesso de 1823, às guerras civis e às contradições que enfraqueceriam o constitucionalismo.     

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 29 de janeiro a 4 de fevereiro de 2018.

 

«Meu Dito, Meu Escrito» de Maria de Sousa (Gradiva, 2014) é um fascinante conjunto de textos de uma cientista em busca da humanidade e da compreensão do diálogo entre saberes e valores éticos.

 

 

DO CONHECIMENTO À SABEDORIA
Maria de Sousa é uma cientista, médica e bióloga, com créditos firmados no mundo, em virtude do seu conhecimento, da sua discrição e persistência. Exerceu atividade científica em Inglaterra, na Escócia e nos Estados Unidos. Como imunologista abriu caminhos novos, que hoje estão a produzir extraordinários resultados no campo da medicina. Foi investigadora e catedrática no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC). Maria de Sousa é bem um exemplo para os dias de hoje e para todos quantos acreditam que T. S. Eliot tinha razão quando dizia: “Onde a vida que perdemos no viver? Onde a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde o conhecimento que perdemos na informação?” Estamos aqui no cerne da atitude humanista e da compreensão de um sentido amplo de humanidades, ligando ciência e artes, inovação e criatividade, conhecimento e compreensão. Encontrei sempre em Maria de Sousa o genuíno entusiasmo de quem procura em cada momento o modo de chegar à dignidade humana, pela vida das ideias, pelo entendimento da complexidade, pela compreensão de que a descoberta corresponde ao sentido crítico e ao permanente inconformismo. Daí dar tanta importância ao desassossego, que nos leva ao exemplo, à aprendizagem e à experiência… E não podemos esquecer como Agostinho da Silva foi uma referência para a cientista – uma vez que usava do paradoxo por contraponto às ortodoxias fechadas ou rígidas. Em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Maria de Sousa disse-nos quem a influenciou, no sentido de desarrumar o seu pensamento, abrindo-o para a inovação e referiu Jorge da Silva Horta, o professor de Anatomia Patológica e o modo como ele ensinava. «Fazíamos leitura de relatórios de autópsia, e, ao mesmo tempo, sabíamos a opinião que os clínicos tinham desses pacientes em vida. Grandes e famosos clínicos. Viam o doente, achavam que o doente tinha uma coisa, depois fazia-se a autópsia e não era nada daquilo. Os resultados da autópsia eram uma forma extraordinária de aprender que, de facto, não se sabe. O que me vai impressionar sempre é o que não se sabe. Foi a primeira desarrumação. Depois, quem desarrumou mesmo, foi (…) David Ferreira, que era de um grupo que ia constituir o IGC (Instituto Gulbenkian Ciência). Recrutaram alunos de Medicina para fazer investigação, muito cedo». E cita Garcia de Orta na sua extraordinária afirmação: «O que sabemos é a mais pequena parte do que ignoramos». Sim, esta é a atitude fundamental correspondente ao modo do ser do cientista, capaz de compreender a ciência como cultura. Afinal, o filósofo e o cientista, o artífice engenhoso e o pintor, o escultor e o músico todos participam da maravilhosa capacidade criadora. E o processo assemelha-se em todos os casos – que articulam educação, ciência e cultura, sempre – tornando a aprendizagem base essencial do desenvolvimento humano. Duarte Pacheco Pereira falava, por isso, do «saber de experiências feito» e Camões pôs essas qualidades no grande incompreendido de «Os Lusíadas» que é o Velho do Restelo. Não se esquece que essa personagem central não diz a Vasco da Gama para não partir, mas antes alerta-o para os perigos do imediatismo (que viriam a ser os famigerados fumos da Índia) e da «glória de mandar» e da «vã cobiça».

 

A IMPORTÂNCIA DAS HUMANIDADES
Maria de Sousa, ao longo da complexa investigação que desenvolveu no campo da imunologia, soube sempre manter um diálogo muito fecundo e necessário com outras áreas do conhecimento, de modo a garantir que a ligação Educação, Ciência e Cultura permita uma melhor compreensão da humanidade e da dignidade humana. «Inúmeras são do mundo as maravilhas, mas nenhuma que ao homem se compare É o seu dos recursos infindáveis…». As Humanidades têm de colocar as pessoas no centro da vida e do mundo – sem a tentação de repetir o que recebemos nem de considerar o novo como um absoluto. Mas surge a pergunta perturbadora: sobreviveremos como civilização? George Steiner não está certo de qual a resposta. O nacionalismo e o protecionismo são poderosos venenos do nosso tempo. O chauvinismo torna o outro e o diferente como inimigos. Despreza as pessoas com nacionalidade diferente. A absolutização da identidade torna-se um fator de fechamento. Uma civilização autista tende a decair e a desaparecer por incapacidade de responder aos novos desafios, limitando-se a repetir tiques exteriores. O que nos caracteriza e nos distingue uns dos outros deve ser considerado como elemento de enriquecimento mútuo – não como de separação, de indiferença ou de ignorância. Os fundamentalismos e os protecionismos têm a mesma raiz. Hoje o tema dos refugiados não pode, pois, ser visto de modo simplista, como se correspondesse apenas a uma ordem de razões. Impõe-se articular a compreensão do outro, considerar a mobilidade das populações nos dias de hoje como algo de natural e tantas vezes necessário – bem como a cooperação para o desenvolvimento realizada nos países de origem… Os que se limitam a pensar na questão da segurança, bem como os que se atêm exclusivamente ao acolhimento de refugiados como tema humanitário estão equivocados – uma vez que há que equacionar a complexidade de temas, entendendo-se não só a resposta ao agravamento das desigualdades e à ocorrência dos fenómenos de exclusão, mas também a motivação social e humana e a emancipação cultural. A diversidade linguística e a comparação das diferentes literaturas colocam-nos no cerne da cultura como criação – e George Steiner, como Edgar Morin, permitem-nos compreender a complexidade de fatores humanos que devemos considerar. E porventura estaremos hoje a atravessar um período muito semelhante ao que ocorreu no Renascimento. E urge que tal se compreenda. Daí a multiplicidade de pistas abertas e a necessidade de um diálogo entre saberes. Maria de Sousa ensina-nos que a resposta humana aos diferentes desafios vai depender de diferentes caminhos, a que a humanidade tenderá a corresponder de um modo múltiplo… Eis o que podemos ganhar com a estimulante leitura dos ensaios da cientista e mulher de cultura.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de janeiro de 2018.

 

O ensaio de Jaime Cortesão “Os Fatores Democráticos na Formação de Portugal”, para servir de introdução à História do Regimen Republicano em Portugal, dirigido por Luís de Montalvor (1930), constitui ainda hoje uma peça referencial para a compreensão das mais importantes continuidades numa história antiga e complexa.

 

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ANALISTA CRITERIOSO

Jaime Cortesão foi um analista criterioso e atento das raízes de Portugal. Sobre a obra referida pode dizer-se que a sua perenidade se mantém viva – uma vez que, seguindo os passos de Herculano, mas superando-os em nome da crítica histórica, encontramos elementos que merecem atenção, até para que se constituam em incentivo ao aperfeiçoamento das instituições. De facto, a ideia moderna de mediação institucional encontra nas considerações de Cortesão uma base sólida à luz da qual podemos ver o constitucionalismo nos dias de hoje, no sentido do seu aperfeiçoamento. Releia-se o historiador: “Em Portugal é do próprio movimento das comunas que vai nascer o conceito supremo da Nação; e apenas desaparecidas as causas que entravam aqui, mais ainda do que no resto da Europa, o desenvolvimento político das classes populares, os princípios democráticos vão retomar a sua marcha até o advento da República. Os mesmos centros urbanos, que em 1383 elegeram o mestre da Avis e tão poderosamente contribuíram para assegurar a independência nacional, vão afirmar de novo a sua consciência política e capacidade nas lutas pela liberdade durante o período liberal e republicano”. Compreenda-se a importância da estratégia afonsina de mobilizar os municípios moçárabes, bem como o impulso audacioso do período dionisíaco na delimitação das fronteiras, na definição da língua e no reforço da aliança entre o poder real e os concelhos… E o modo como as Cortes de Coimbra (1385) com João das Regras definiram a nova legitimidade portuguesa torna evidente que aquilo que Cortesão designa como “fatores democráticos” constitui o pressuposto fundamental da independência portuguesa e da sua persistência multissecular – nas quais se aliam de modo indelével a vontade dos portugueses e a longa e omnipresente costa marítima, que se contrapõe à continentalidade da restante Península Ibérica. E Jaime Cortesão fala-nos de tendências universalistas, da afirmação da liberdade dos povos no sentido da boa organização e da satisfação justa das suas necessidades, que, “desenvolvidas durante a nossa Idade Média”, “eclodiram e triunfaram durante a revolução que levou ao trono o Mestre de Avis, determinando a formação social predominante, a missão histórica e o carácter ideal da Nação”… E, ao estudar o Brasil, o historiador pôde projetar globalmente a diversidade do mundo da língua portuguesa – num reforço inequívoco de uma identidade multímoda, caracterizadora do humanismo universalista. Sem idealização, e com a preocupação de reunir argumentos suficientemente claros e sólidos, Cortesão coloca-nos perante a necessidade de irmos, com uma vocação europeia e uma projeção global, aperfeiçoando pela experiência e pelo tempo as instituições, a representação democrática e a participação cívica.

 

UMA LIGAÇÃO NECESSÁRIA.

A invocação de Jaime Cortesão faz sentido quando se assinala o primeiro aniversário do falecimento de Mário Soares e quando se desenvolvem iniciativas ligadas ao bicentenário do constitucionalismo português, dentro de dias na cidade do Porto, para assinalarmos os duzentos anos do Sinédrio, e há bem pouco na invocação da pioneira abolição da pena de morte em Portugal e da condenação ilegal e ilegítima de Gomes Freire de Andrade e dos Mártires da Pátria - acontecimento justamente lembrado na representação na Assembleia da República da peça de Luís Sttau Monteiro Felizmente Há Luar. Tudo isto na perspetiva da celebração da Revolução de 1820 e da Constituição de 1822 – e do que se lhe seguiu em termos de consagração do Estado de direito, do primado da lei e das legitimidades do título ou da origem e do exercício. E se falo dos “fatores democráticos” e invoco a memória amiga e próxima de Mário Soares é para dar ênfase à continuidade e permanência da ideia democrática em Portugal – sobretudo num tempo em que somos chamados a aperfeiçoar e a reforçar as instituições baseadas na liberdade, na igualdade, no pluralismo e na cidadania livre e responsável. Mário Soares é um exemplo que tem de ser lembrado. O constitucionalismo moderno foi por si assumido como desafio e responsabilidade – a partir de um compromisso dinâmico de integração e de inclusão. Quantas vezes falámos dos desafios e da reflexão de Jaime Cortesão ou do grupo da “Seara Nova”, com António Sérgio, Raul Proença, Raul Brandão ou Rodrigues Migueis, como sinais de exigência? Quantas vezes invocámos a importância do respeito mútuo e da laicidade – num espaço público de respeito mútuo, de diversidade, de coesão social e de autêntica liberdade?

 

INCONFORMISMO E LIBERDADE.

Não esqueço o que o meu querido amigo António Alçada Baptista tanto gostava de lembrar – o inconformismo de Soares permitia que ele estivesse sempre do lado da liberdade, custasse o que custasse… Era uma garantia para todos, uma vez que as águas mornas podem tornar-se perigosas. Em nome desse magistério cívico, vem à lembrança a ideia necessária de “República Moderna”, como aquela por que Sérgio pugnou e que está bem evidenciada em textos do pós-guerra e na audaciosa apresentação da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Essa dimensão histórica, assente, na herança da primeira geração romântica, com Garrett e Herculano e continuada pela grande geração das Conferências Democráticas, com a intervenção fundamental de Antero de Quental sobre as Causas da Decadência, e com a tentativa (de grande alcance) de implantar uma “Vida Nova”, que serviu para demonstrar que a sementeira de ideias podia ter consequências de larguíssimo prazo, desde que baseada no espírito crítico e na necessária superação do pessimismo e da decadência. Eça de Queirós e Oliveira Martins tornaram, assim, o sentido de ironia e a força da análise como tomada de consciência de que só a autocrítica e a desconstrução dos mitos poderiam ajudar à mobilização de energias contra o atraso como destino. E a cultura portuguesa do último século reforçou essa mesma ideia, designadamente com Eduardo Lourenço na sua psicanálise mítica do destino português. Hoje, no momento em que no horizonte há nuvens perturbadoras, em que a ideia da democracia como sinónimo de liberdade é posta em causa, em que se fala de pós-verdade, quando julgávamos que essa ideia estava sepultada na obra Orwell, ou quando os sinais de fragmentação europeia se constituem em ameaças a uma cultura de paz e de desenvolvimento – devemos lembrar a persistente voz determinada e crítica de Mário Soares, um intransigente defensor da liberdade da linhagem de Jaime Cortesão.  

      

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de janeiro de 2018.

 

«Lisboa Antiga» de Júlio de Castilho é uma preciosidade da olissipografia. Aí podemos encontrar dois núcleos fundamentais – Bairro Alto (4 volumes) e Bairros Orientais (12 volumes), além do volume dedicado à Ribeira de Lisboa.


A FUNDAÇÃO DA OLISSIPOGRAFIA
Júlio de Castilho (1840-1919) era filho de António Feliciano de Castilho, sendo diplomado com o Curso Superior de Letras. Recebeu de seu pai o título de visconde de Castilho, tendo tido, ao longo da vida, uma intensa atividade de memorialista, historiador, jornalista e bibliografo. Exerceu fugazmente funções políticas como governador civil do distrito da Horta (1877-78) e foi primeiro-oficial da Biblioteca Nacional. A vasta obra sobre a história da cidade de Lisboa é, ainda hoje, de significativa valia, tendo sido reeditada e enriquecida pela intervenção de olissipógrafos do século XX, como Gustavo de Matos Sequeira, Augusto Vieira da Silva e Pastor de Macedo. Se Norberto de Araújo foi um excecional divulgador da história de Lisboa, Castilho foi indubitavelmente não só o verdadeiro fundador da olissipografia, mas também um dos seus mais fecundos estudiosos e cultores. No dizer de Fernando Castelo Branco as três obras fundamentais de Castilho sobre Lisboa constituem “livros com notáveis méritos historiográficos e também literários, e dessa feliz conjugação resultam os quadros de evocação e de recriação que Fernandes Costa assinalou como um dos atributos mais relevantes de Júlio de Castilho… (…). Mas, muito principalmente, há a considerar que tendo sido um pioneiro, J.C. traçou uma obra que continua válida na sua maior parte, dando-nos múltiplos informes sobre a história de Lisboa, os seus edifícios, gentes e instituições. Escrita há já tão dilatadas décadas, continua a ser útil ao investigador, continua a ser uma leitura não apenas agradável, mas positivamente instrutiva para os curiosos do passado”. Discípulo de Herculano, nota-se na obra a influência da nova historiografia iniciada pelo mestre, tendo Júlio de Castilho iniciado as suas investigações e estudos em 1878. E a dado passo lemos na descrição do cerco de 1147, nos Bairros Orientais: “tenho a certeza de que o grande Herculano, se pudesse ouvir-me não levaria a mal, antes aplaudiria a liberdade que tomei; sinto que é mais um preito no seu indiscutível merecimento. De mais a mais: isto não é em mim pelejar com um morto. Herculano não morreu; para a admiração está vivo em todos os cultores de letras; para a veneração está vivo em todos os portugueses”.

 

O EXEMPLO DE SANTA CATARINA
Em complemento do que na última crónica falámos sobre as igrejas das portas de Santa Catarina damos hoje algumas referências de Júlio de Castilho sobre as igrejas do Loreto e da Encarnação, o que certamente constituirá uma ilustração das qualidades e do valor da obra de Júlio de Castilho, mas também um enriquecimento sobre o conhecimento dessa Lisboa em que continuamos a peregrinar. Falando da igreja do Loreto, refira-se que a mesma foi destruída pelo grande terramoto, descrevendo-a um viajante estrangeiro deste modo: “a feitoria italiana possui em Lisboa uma formosa igreja, há pouco acabada de reconstruir; é da invocação de Nossa Senhora do Loreto. Serve de paróquia. Ali celebram-se pomposamente os ofícios divinos. Este templo é dos mais concorridos pelos elegantes e pelas elegantes da capital”. Na frontaria, os dois querubins que seguram as Armas Pontifícias eram atribuídos a Canova, segundo teria sido comunicado ao Conde Raczynski, grande estudioso da nossa história da arte. Acontece, porém, que o próprio Raczynski refere outro testemunho, transmitido a Machado de Castro, que os anjos seriam obra de Bernini. Mas, para adensar o mistério, ainda é aventada a hipótese de essas figuras serem de Borromino… Numa palavra, há informações contraditórias e não existem provas seguras da verdadeira autoria… A igreja do Loreto não foi totalmente destruída, por isso Júlio de Castilho diz que, tendo Bernini morrido em 1680, poderiam os anjos estar lá anteriormente – tendo havido importantes melhoramentos no século XVII. Aliás, as mais recentes investigações revelam a hipótese de ter havido telas de Ticiano em Lisboa, no Loreto, o que confirma a qualidade das obras de arte do templo. Quanto a Canova, mesmo muito jovem, não há provas. As estátuas de S. Pedro e S. Paulo atribui-as Cirilo Wolkmar Machado a Fancé, um escultor francês. Lembre-se que a comunidade italiana adquiriu a antiga ermida de Santo António em 1518, alterando o orago para Nossa Senhora do Loreto, invocando um milagre do século XIII, segundo o qual a casa da Virgem Maria em Nazaré teria aparecido na Dalmácia e depois em Itália (Ancona) na propriedade de uma senhora de nome Laureta, onde hoje se encontra uma imponente catedral… O autor conta a história e refere ainda a singular representação de Nossa Senhora do Loreto que se encontra no cimo da fachada – “escondendo os braços e envolta num revestimento adornado de joias, pouco artístico e sensabor”…

 

E A ENCARNAÇÃO?
Depois do Loreto, atravessemos o largo e cheguemos à Encarnação, filha da primeira, e tardiamente instalada, mas graças ao legado de D. Elvira Maria de Vilhena (1627-1718), Condessa de Pontével, dama da corte de D. Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra. A Condessa decidiu edificar uma sede condigna da paróquia da Encarnação, “em chão que aí possuía na vizinhança junto ao muro da Cidade”. E “requereu à Câmara licença para se demolir a torre e parte do muro da Cidade, em baixo, junto à ermida de Nossa Senhora do Alecrim, para alargamento do chão em que se edificava a igreja da Encarnação”. Não foi fácil a concretização. A colossal porta de Santa Catarina demorou a derrubar. Só em 1708 o novo templo foi sagrado. O terramoto não destruiria a igreja, mas o fogo causou-lhe algum estrago que foi lentamente reparado sob a coordenação do arquiteto Manuel Caetano de Sousa. Só 29 anos depois do terramoto voltou o culto na igreja. A frontaria ficou, porém, dezenas de anos por acabar. Só em 1867 viria a ser aprovado o plano de conclusão, que corresponde ao que hoje conhecemos… E Júlio de Castilho elogia especialmente, pelo seu equilíbrio e beleza, o conjunto da autoria de Machado de Castro representando no altar-mor Nossa Senhora da Encarnação. Em suma Castilho cultiva bem a memória e diz, a propósito da demolição dos casebres do Loreto, atrás do palácio Marialva: “Na ordem moral, esquecer é arrasar lanços inteiros da existência. Há entes infelizes, para quem viver é esquecer. Não os invejo, não! Recordar é reviver”… Eis o que não esquece…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 
De 8 a 14 de janeiro de 2018.

 

«Peregrinações em Lisboa» de Norberto de Araújo são um clássico que ainda hoje deve ser consultado, para melhor conhecermos a cidade de Lisboa e os seus extraordinários segredos históricos. Invocamo-lo a propósito do recente programa «Visita Guiada» (RTP2) de Paula Moura Pinheiro sobre as igrejas do Chiado…

 

 

PEREGRINAÇÃO INESGOTÁVEL
No caso da “Visita Guiada” há sempre um ambicioso guião e do muito que há para falar fica sempre muito por dizer. Eis por que razão, devemos agir como fizeram peregrinadores da cidade como Júlio de Castilho ou Norberto de Araújo – dando pistas para que o “dileto viajante” possa por si não só fazer a caminhada necessária, mas também descobrir o fio da meada numa extensão sempre incerta e inesperada. Quando a Paula Moura Pinheiro me desafiou a fazer o percurso das igrejas do Chiado para a RTP2, acertámos que esse seria o pretexto para podermos tentar entender o que foi acontecendo no mítico lugar das Portas de Santa Catarina, muralha fernandina abaixo (da rua da Misericórdia ao Alecrim) ao longo do tempo, e sobretudo sob o efeito do Terramoto de 1755, que arrasou o Carmo e a Trindade e tudo que os circundava. Um programa de televisão, com tempo limitado, exige um enorme esforço – que os telespectadores podem sempre achar excessivo ou minguado, mas que corresponde ao que a grelha exige. Porquê uma concentração tão grande de templos naquele local? Eis uma pergunta que apenas pode ser respondida se percebermos que estamos no que era a fronteira da cidade de Lisboa na segunda metade do século XIV. A muralha protegia e levava a uma grande concentração populacional intramuros. Só mais tarde a cidade se abriria, para além do postigo de S. Roque, para o Bairro Alto, na Vila Nova de Andrade, lembrando os ecos do grande sismo de 1531 e a antiga herança de Mestre Guedelha, proprietário da herdade de Santa Catarina… E se as recentes obras do Largo de Camões trouxeram à luz do dia as fundações e os baixos do Palácio dos Marqueses de Marialva, a verdade é que essa era já uma edificação do século XVII… A porta de Santa Catarina situava-se onde hoje é o Largo das Duas Igrejas, tendo frente-a-frente o Loreto e a Encarnação – sendo o termo da Rua Larga, que hoje toma o justo nome de Garrett, e vinha da Pedreira (hoje Armazéns do Chiado), onde Frei Bartolomeu de Quental fundaria o Convento Oratoriano do Espírito Santo. E, para abreviar razões, lembre-se que em 1384 aqui assentou arraiais D. Juan de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, ainda criança, no cerco de Lisboa, levantado quando a jovem apresentou sinais de peste… Nesse tempo, havia, fora de portas, campo de cultivo também usado pela pastorícia.

 

ENCOMENDA PRODIGIOSA
Mas voltemos um pouco atrás, ao início da “visita guiada”, a S. Roque, no “adro da peste”, onde se ergueu uma pequena ermida em 1506, por ocasião de uma epidemia, pedindo graças ao santo protetor da enfermidade. A Irmandade que persiste com a missão de realizar as obras de misericórdia materiais e espirituais reúne hoje três antigas Irmandades – a da Misericórdia (fundada por D. Leonor em 1498), a de S. Roque e a dos Carpinteiros de Machado. Aí se instalaria a casa professa da Companhia de Jesus, começando a erguer-se o templo em 1555. Em 1573, as paredes estavam de pé, mas a cobertura suscitou dificuldades, sendo a complexa solução em madeira da Prússia encontrada por Filipo Terzi, já depois de 1580. O templo é ricamente adornado com excelentes obras de arte e objeto de generosidades régias, em especial de D. João V, merecendo destaque a magnífica Capela de S. João Batista – uma autêntica preciosidade encomendada em 1742 aos artistas italianos Nicola Salvi, e Luigi Vanvitelli. Jörg Garms é claríssimo sobre a obra: “forse… la capella piú rica mais construita… Un scrigno di straordinaria eleganza e unita”. A mais rica jamais construída. É a “encomenda prodigiosa”, na riqueza, na escala, na harmonia do programa (como disse António Filipe Pimentel). E não podemos esquecer a coordenação de João Frederico Ludovice, o ourives-arquiteto alemão que marcou decisivamente a rica coerência joanina. A obra foi organizada em Roma como um autêntico puzzle, sagrada em Santo António dos Portugueses (1744) e inaugurada quando D. João V já tinha morrido (1751). Sousa Viterbo refere esta joia inesquecível como um “gozo inefável para os sentidos”. “Monumento que anuncia já o neoclassicismo” – dirá o Professor J.A. França. Foi necessário procurar em toda a Itália os minerais e o esmalte aqui presentes, os medalhões são de mármore de Carrara, as oito colunas de estilo coríntio de lápis-lazuli, e encontramos ainda alabastro, jaspe, ametistas e tudo o mais. As obras de arte fundamentais são três preciosos quadros em mosaico, com pedrinhas de mil tonalidades – Batismo de Cristo, Anunciação e Pentecostes (de Moretti sobre cartões de Massuci). Não fora a riqueza artística, quase com ironia, Norberto de Araújo falava de um autêntico museu de geologia e mineralogia...       

 

DE S. ROQUE A SANTA CATARINA
S. Roque tem quinze capelas construídas em épocas diferentes, todas a merecer visita cuidada. No altar-mor alternam sete quadros conforme as épocas litúricas e encontramos imagens de santos da Companhia: Santo Inácio, S. Francisco de Borja, S. Luís de Gonzaga. E não podemos, sem uma ponta de emoção, deixar de recordar o belo poema de Sophia de Mello Breyner, “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”: “Nunca mais amarei quem não possa viver / Sempre…”. Lembrança indelével de S. Francisco de Borja. No corredor para a sacristia está a sepultura de Simão Rodrigues de Azevedo, que introduziu a Companhia em Portugal, e na sacristia deparamo-nos com imagens da vida de S. Francisco Xavier, da autoria provável de André Reinoso. E não podemos esquecer que, entre mil relíquias, aqui se encontra sepultado Francisco Suárez (1648-1717), o pensador célebre, com influência decisiva na renovação do pensamento político, filosófico e jurídico. O terramoto de 1755 atingiu o templo de S. Roque, sobretudo a fachada, mas não comprometeu o essencial do seu recheio. Por isso podemos usufruir de todo este esplendor…

Nas portas de Santa Catarina recordámos a necessidade de abrir a cerca fernandina para permitir a passagem do sumptuoso cortejo do casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria (1708). E lembramos José-Augusto França a dizer que se a capital de Portugal é Lisboa, o Chiado é a capital de Lisboa. A crónica lisboeta não dispensava os janotas da Havanesa, do Marrare, do Grémio Literário. Luísa encontra o Conselheiro Acácio e escapa-se para a igreja dos Mártires. Garrett, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro (seu irmão) todos por aqui passam. Um dia chamaram azul a Cesário Verde, que devolveu o piropo, chamando troca-tintas ao triste jocoso. A cidade cosmopolita leva a rica comunidade italiana a adquirir o Loreto, mudando o orago de Santo António para Nossa Senhora. E a Encarnação tornou-se filha do Loreto, num longo processo que exigiu a demolição de parte da velha muralha. Mas foi o terramoto com efeito violento nesta área, que obrigou a alterações significativas. A Basílica dos Mártires, a recordar os cristãos caídos na reconquista, cujo sino é o da aldeia de Fernando Pessoa, é um esmerado resultado do projeto de Reinaldo Manuel, com a célebre invocação de D. Afonso Henriques de Pedro Alexandrino de Carvalho. E a Igreja do Santíssimo Sacramento, em terrenos dos condes de Valadares, também com traçado de Reinaldo Manuel e pinturas do mesmo Pedro Alexandrino, é uma bela surpresa, equilibrada, recolhida, rica de espiritualidade… Peregrinar pelo Chiado é, de facto, visitar a face aberta da nossa cultura!

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 1 a 7 de janeiro de 2018.

 

«A Revolução Russa» de Sheila Fitzpatrick (Tinta da China), 2017, é uma síntese, dir-se-á pedagógica, sobre os acontecimentos que há um século marcaram a história mundial, com profundas e heterogéneas consequências que ainda hoje marcam o mundo.

 

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AS OUTRAS REVOLUÇÕES

Os cem anos da Revolução Russa levam-nos a ligar esse acontecimento aos três outros que marcaram a História europeia e mundial nos últimos três séculos – a saber, as revoluções inglesa (1688-89), americana (1776) e francesa (1789). Salvaguardadas as diferenças, estamos perante movimentos que visaram alterações sistémicas e estruturais das sociedades em que tiveram lugar. No caso britânico, tratou-se da implantação de um sistema parlamentar, assente na divisão de poderes, em que os comerciantes das cidades tomaram o lugar dos grandes proprietários das terras. No caso norte-americano, estamos perante uma emancipação colonial e a consagração de um sistema federalista, também baseado na divisão de poderes – que apenas se consolidou depois da guerra civil (1861-65) e do reforço gradual da legitimidade do Congresso por contraponto aos poderes dos Estados. A situação francesa vai conhecer uma evolução complexa, que põe em xeque o Antigo Regime, sendo primeiro influenciada pela ideia de «vontade geral» de Jean-Jacques Rousseau e depois gradualmente conduzirá à separação de poderes – mediada pelo império napoleónico, pela monarquia de Julho e pelo republicanismo liberal. A revolução russa de 1917 começou por ter a influência da matriz inicial da revolução francesa. De fevereiro a outubro de 1917 a tentativa gradualista e plural falhou e foi o governo de Assembleia de Rousseau que prevaleceu, contendo a óbvia fragilidade da inexistência de uma limitação de poderes. Em todos os casos referidos (Inglaterra, Estados Unidos e França) a noção de constitucionalismo vai-se afirmando com limitações e fragilidades, sobretudo devido à dificuldade na afirmação de instituições mediadoras estáveis e fortes, aceites livremente pelos cidadãos. O caso russo é especial, uma vez que estamos numa sociedade essencialmente rural, com reminiscências feudais – em contraste com as sociedade industriais que Karl Marx considerava estarem em condições para evoluir segundo o determinismo do materialismo dialético estudado pelo pensador alemão. Quando lemos uma síntese como a de Sheila Fitzpatrick, percebemos bem que uma orientação centralista férrea foi o modo prático para superar a dificuldade teórica de base – considerando que Karl Marx estava muito longe de pensar que a sua teoria evolutiva pudesse querer aplicar-se ao pós-feudalismo russo. Daí a necessidade do centralismo que, no entanto, pôs em causa o primado da lei e conduziu ao Gulag. E, tal como encontrámos na revolução francesa inicialmente, também aqui temos um período de terror, mais longo e sistemático, para compensar a ausência de uma legitimidade cívica alargada.

 

ESLAVÓFILOS E OCIDENTALISTAS

Não se esqueça que a sociedade russa do século XIX conheceu um intenso debate entre eslavófilos e ocidentalistas – envolvendo liberais e socialistas, e entre estes em múltiplos grupos que se foram formando. Esta tensão ainda hoje persiste e a ela se devem muitas incompreensões e equívocos – já que a cultura russa é poliédrica e só desse modo pode ser entendida. Tolstoi ou Dostoievski são exemplos dessa riqueza. Nas vésperas de 1917 não podemos esquecer a influência decisiva da participação russa na guerra mundial (1914-18) como aliada das potências ocidentais. O apoio alemão a Lenine teve, assim, objetivos claríssimos, no sentido de enfraquecer os aliados. O reinado do czar Nicolau II revelou-se extremamente frágil, pleno de erros e vicissitudes, avultando as repercussões da guerra russo-japonesa (1904-05), o esmagamento do golpe de 1905, e a participação na grande guerra. A renúncia do último czar determina a passagem do poder para o Governo Provisório (Lvov e Kerenski). A fase dita liberal da revolução vai ser minada pelo espontaneísmo, que num primeiro momento não favorece o partido de Lenine. Ainda que momentaneamente influentes os outros partidos não se vão entender – e o caso de Alexandre Kerenski é paradigmático, uma vez que será incapaz de impor uma orientação pluralista. O certo é que havia uma incapacidade geral para responder construtivamente à agenda do momento. Previu-se, entretanto, que uma Assembleia Constituinte decidiria sobre as questões essenciais – como o regime político, o estatuto da terra, a questão operária e o futuro da participação da Rússia na guerra. A Assembleia chegou a ser eleita em 1918, mas imediatamente foi dissolvida por pressão dos bolcheviques, postos em minoria na eleição. Contudo, o novo poder desvalorizou as capacidades dos bolcheviques (o chamado partido alemão) e de Lenine – e os sovietes surgiram como uma espécie de poder popular, cuja influência reforçou os bolcheviques. Assim, os sovietes, conselhos de operários e soldados, uma vez burocratizados tornaram-se meros apêndices do partido de Lenine – e isto mudou o curso dos acontecimentos.

 

DO DOMÍNIO BOLCHEVIQUE AO GULAG

A chamada ditadura do proletariado tornou-se o domínio do partido bolchevique. Assim, vai ocorrer a destruição de toda a oposição, desde os chamados partidos burgueses aos restantes partidos da esquerda e finalmente a purga entre os bolcheviques. Lenine proibiria, assim, qualquer grupo ou fação no interior do seu partido – orientação que Estaline prosseguiria sistematicamente em continuidade com o seu antecessor. Com este pano de fundo de crescente centralização e purificação desenvolvem-se o Comunismo de Guerra, a NEP – Nova Política Económica (com um início de algum modo gradualista) e os Planos Quinquenais numa lógica progressiva de centralismo burocrático. A chamada Revolução Cultural foi lançada pelos apoiantes de Estaline em 1928 e representou uma nítida contradição relativamente aos objetivos iniciais do movimento, uma vez que impôs uma única corrente de criação artística: o realismo socialista. O afastamento progressivo de Trotski, figura central do soviete de Petrogrado, culminaria na expulsão do partido em 1929. Acresce que se verificou, nesta linha, um endurecimento em relação à noção de moral revolucionária, agora mais fechada e rígida. Entretanto, o luxo do poder implantou-se e o extremismo foi duramente perseguido – culminando no grande terror de 1937-38. E ainda que a autora tenha sobretudo ficado nesse ponto, não pode esquecer-se que as perseguições que permaneceram até 1953, data da morte de Estaline, e que vemos nos relatos de Soljenitsine. A título de curiosidade, devemos recordar a publicação dos relatórios diplomáticos de Jaime Batalha Reis sobre a sua saída da Rússia em 1918 - «Dos Romanov a Lenine» (Abysmo, 2017). É muito interessante termos um relato desapaixonado de um velho socialista português baseado nos factos concretos sobre a revolução russa. Aí lemos: “A anarquia era integral; não havia nem polícia, nem tribunais nem leis”, tudo decorrendo no meio de uma população “densa e esfomeada”.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 de dezembro de 2017 a 1 de janeiro de 2018.

 

António José Saraiva, cujo centenário ocorre a 31 de dezembro, é uma referência fundamental na história da cultura portuguesa – sobre a qual refletiu intensamente, sempre com inteligência e sentido crítico.

 

António José Saraiva

 

O ESPÍRITO DO TEMPO…

António José Saraiva sofreu influências do espírito do tempo, mas teve a grande argúcia de compreender a complexidade na evolução da sociedade e da cultura. O intelectual foi evoluindo, sendo um caso especial na procura de novas respostas aos problemas essenciais que foi encontrando. Foi sempre inconformista – mesmo nos momentos mais marcados. Não é possível, assim, compreender a cultura portuguesa, numa visão panorâmica, sem ler e estudar a sua obra, rica e polifacetada. Como afirmou em 1946, “desde o século XVI sucede-se uma série de tentativas para enraizar entre nós uma cultura que se malogram umas atrás de outras. A história da cultura em Portugal não apresenta um desenvolvimento seguido e consequente, mas estratifica-se em secções independentes: é uma série de irrupções descontínuas, não tem uma linha diretriz interna” (Para a História da Cultura em Portugal, volume I). Esta tendência não significa que não haja bons exemplos, no entanto há ausência de regularidade, o que leva amiúde à repetição e ao decaimento, que obrigam, tantas vezes, a recomeçar quase tudo de novo, com perda de energias. Faltou elite universitária. Houve um baixo nível da massa e as condições técnico-económicas desta foram frágeis… Deste modo, no caso português, os géneros literários ressentiram-se dessas circunstâncias – no longo prazo, o teatro, o romance não têm a pujança permanente que o lirismo individual apresenta. Há atrofia dos géneros que dependem de um público largo, que falta, e existe hipertrofia dos géneros compreende-se a seguir a Bernardim, ao Cancioneiro Geral e ao lirismo trovadoresco. Fernão Lopes é um génio singularíssimo. Gil Vicente representa a tensão entre o espírito tradicionalista e as transformações externas que se impunham. E importa ainda lembrar que há uma cultura dos letrados e das cortes portuguesas nesse tempo profundamente hispânica e peninsular… A literatura dos Descobrimentos e dos séculos seguintes será outra coisa. Se AJS dedicou uma parte importante do seu labor científico à literatura, a verdade é que procurou sempre ir mais além. “A literatura é a primeira tentativa de definição de problemas que a ciência determina com mais exatidão”. E essa preocupação levará o nosso autor a evoluir nas suas ideias de uma aproximação nítida ao materialismo histórico até uma perspetiva centrada num pensamento crítico liberal-social.

 

INTERROGAR SEMPRE A CULTURA

Nos últimos anos de vida, o mestre vai estar empenhado numa revisão do que escrevera. Para definir as épocas da cultura portuguesa sugeria quatro critérios: a perspetiva mítica; a relação entre topo e base, considerando os aspetos económicos e políticos; a pertença ao sistema cultural europeu-ocidental (depois da citada prevalência do peninsular); e o valor de cada época no signo linguístico e no discurso. Nesta lógica, é muito interessante a leitura dos diversos textos publicados em 1980, sob o título Filhos de Saturno – Escritos sobre o tempo que passa. São, de facto, fruto do tempo estas reflexões que correspondem ao tratamento dos temas e problemas que preocupavam o intelectual. Os textos de 1974 (desde “Cravo de Maio flor da liberdade”) e 1975 são muito marcados pela esperança e pela crítica (de quem tinha autoridade para a fazer) sobre os caminhos e os perigos da democracia nascente. E a cada passo, lemos, uma simbiose entre o espírito sistemático, a necessidade de cultivar a liberdade crítica e o apelo ao despertar das consciências para uma cidadania ativa. O artigo do “Diário de Notícias” intitulado “O 25 de Abril e a História” (de janeiro de 1979) sobre a descolonização suscitaria polémica acesa e foi ponto de partida para um debate apaixonado no Centro Nacional de Cultura, que serviu de base a um dossiê fundamental da revista “Raiz e Utopia” – aliás fundada por AJS e prosseguida por Helena Vaz da Silva. Hoje, ressalvadas as distâncias, mas conhecendo os dramas da história das últimas décadas, compreendemos a posição assumida – e temos de saudar a coragem e a hombridade de quem considerava, na linha dos homens de A Tertúlia Ocidental, que só com ideias e com a audácia de as exprimir poderemos avançar.

 

IRONIA PERFURANTE

Interrogador da identidade portuguesa, considerava que nos habita um espírito de ilhéu, “oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda, vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar”. O português inferiorizar-se-ia, “refugiando-se numa autoironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir…”. Trata-se da ciclotimia de Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade – bem enfatizada por Ernesto Rodrigues na introdução a Filhos de Saturno. É o humor de Rafael Bordalo Pinheiro com Zé Povinho entre a chacota e a autoironia, que leva ao sarcástico “Panegírico do oportunista”, sobre os perigos do conformista e do competente talentoso que singram pela adaptação às circunstâncias. Mas há ainda a “dificuldade de ser” do português, a misteriosa coita (“gosto de ser triste”), talvez agravada pela subalternidade da Corte na Aldeia nos sessenta anos filipinos, e presente na dualidade entre “desafio triunfante e dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo” (E. Lourenço), já visível na crítica de Gil Vicente. Leia-se o ensaio perscrutante sobre o sebastianismo (“Loucura e História”) e compreenda-se como AJS admirou a Geração de 1870 como exemplo de uma crítica consequente baseada nas ideias, não derrotista ou niilista, não caída na tentação do fatalismo. Pensa, assim, como Sophia, “que a nossa crise é antes de mais uma crise moral. É essa que está na raiz de todas”. E em carta a Óscar Lopes é claríssimo: “A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado (…); o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem”. E dirá ainda: “a ‘idade da abundância’ é, na realidade, a mercantilização total da vida, a destruição de todos os valores que não se transformem em moeda”. Quando conheci pessoalmente AJS estava embrenhado em A Tertúlia Ocidental (Gradiva, 1990). Tendo estudado Antero, Oliveira Martins e Eça de Queirós, procurou neles uma síntese desafiante para hoje. E admirando Oliveira Martins, dizia: “considerava os seus livros como preparatórios eficazes de uma ação política em que apostou a sua vida. Ele não distinguia os dois planos: o da narração e o da ação, o dos símbolos e o da prática. Procedia como se o passado não fosse um cortejo de máscaras com o seu compasso próprio mas sim como se o passado fosse o antes do presente marchando ao mesmo passo e como se o presente fosse a continuação do passado, estando a diferença entre ambos unicamente na distância a que se encontram do observador”. Eis a síntese do que procurou! 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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