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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS TEATROS DE LISBOA EM 1875 - II

 

O TEATRO DE D. MARIA II

 

Na semana passada, referimos o livro de Júlio César Machado intitulado “Os Teatros de Lisboa”, publicado em 1875 com ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro. Tal como na altura escrevemos, o livro contém uma evocação histórica, mas sobretudo acentua a relevância e atividade do Teatro na época e a abrangência das atividades artísticas e culturais, numa perspetiva ajustada à sociedade portuguesa centrada em Lisboa e, mesmo assim, limitada no livro ao Teatro de S. Carlos, ao Teatro D. Maria e ao Teatro da Trindade. Evocámos então, nesse texto da semana passada, os principais teatros que na época funcionavam em Lisboa e que não são citados: Recreios Wittone, Salão do Conservatório, Teatro da Rua dos Condes, Teatro D. Augusto, Teatro Ginásio, Teatro Taborda, Teatro das Laranjeiras.

 

Deles não fala pois o livro de Júlio César Machado e Rafael Bordalo Pinheiros: mas isso não obsta obviamente a que não mereça ser evocado, desde logo pelos autores, mas ainda pela linguagem, pela informação epocal, pelas descrições, pelas as análises culturais e sociais, digamos assim mesmo, e também pela atualidade, até porque os três Teatros detalhadamente analisados felizmente mantêm plena atividade.

 

E isto porque certo tom crítico epocal, com as alterações profundas entretanto decorridas, mantém ajustamento aos dias de hoje. Não se trata pois, insistimos, antes pelo contrário, de uma estudo puramente histórico...

 

Vejamos então agora o Teatro D. Maria II, tal como o analisa Júlio César Machado.  Desde logo a referência inicial:

 

“Mal fadado. Abriu para fechar. Primeira ratice!” assim mesmo, o que documenta a irónica linguagem utilizada. Mas também documenta o ajustamento histórico-crítico. Há que recordar, o Teatro Nacional de Dona Maria II, nos mais de 166 anos de existência, tantas e tantas vezes esteve fechado: e sobretudo, podemos hoje aqui evocar, na sequência do incêndio que quase o destruiu em 1964. Só reabriu em 1987.

 

Obviamente, o livro de Júlio Cesar Machado não o podia antever: mas assinala as sucessivas interrupções de exploração que na época também o atingiu.

 

Ora bem: em qualquer caso, o que sobretudo valoriza a perspetiva histórica e crítica do livro é o levantamento dos elencos, as referências críticas aos atores e atrizes que marcaram os primeiros anos do Teatro de D. Maria II.  Nomes que chegam até hoje pela qualidade artística: Tallassi, Teodorico, Tasso, Epiphanio, Josefa Soller, João Anastácio Rosa, Emília das Neves, Marcolino, Sargedas, António Pedro, Bárbara, Amélia Vieira, Virgínia, Catarina Falco, Cesar de Lacerda, Emília Adelaide...

 

Estes nomes são  referidas também em obras posteriores que evocam e analisam o teatro no Portugal post-garretteano: o próprio Garrett é aliás evocado como “modernizador” da dramaturgia e da cena portuguesa.  

 

Mas o mais relevante no livro de Júlio César Machado é a análise crítica à atuação dos artistas, devidamente “justificada” ou enquadrada por fatores psicossociais que não eram correntes na época e representam, como tal uma valorização do texto: pois tenha-se presente a relevância que na época tinha o meio teatral em Portugal.

 

E tudo isto é devidamente analisado e valorizado por Júlio César Machado e por Rafael Bordalo Pinheiro, este tanto no que respeita à figura dos artistas como a cenas dos espetáculos evocados e analisados.

 

DUARTE IVO CRUZ  

OS TEATROS DE LISBOA EM 1875 - I


O TEATRO DE SÃO CARLOS

 

Evocamos hoje um livro publicado em Portugal em 1875, e programaticamente intitulado “Os Theatros de Lisboa”. É seu autor nada menos do que Júlio César Machado, figura marcante na época e ainda hoje. E mais: a edição é valorizada com cerca de 250 ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro. Está tudo dito quanto à relevância cultural e editorial.

 

O livro contém uma evocação histórica mas sobretudo desenvolve sobretudo a época em que foi escrito e publicado, aí como na flagrante atualidade e na abrangência cultural e documental, não obstante a seletividade das salas e dos artistas referidos.   E isto porque Júlio César Machado concentra sua evocação no Teatro de São Carlos, no Teatro de D. Maria II e no Teatro da Trindade.

 

São ainda hoje, como bem sabemos, e eram na época, grandes referências da arquitetura e da arte do espetáculo em Lisboa e no país inteiro. Mas não eram, longe disso, os únicos “teatros de Lisboa”.  

 

Efetivamente, pela mesma época, mais ano menos ano, funcionaram em Lisboa muitos outros teatros: por exemplo, o chamado Recreios Wittone, o Salão do Conservatório, o Teatro da Rua dos Condes, o Teatro D. Augusto, o Teatro do Ginásio, o Teatro Taborda, o Teatro Avenida, o Teatro das Laranjeiras e mais salas de maior ou menor relevância e durabilidade.  

 

Mas muito embora: os três teatros analisados no livro de Júlio César Machado eram na época os mais relevantes. E em muitos aspetos, na cidade de Lisboa e não só, ainda hoje o são.

 

E acresce que as 250 ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro que aliás consagra na capa do livro a grafia da época (Raphael) obviamente valorizam, e de que maneira, a edição. E isto porque as ilustrações são extremamente variadas, englobam autores, atores, salas e até público, constituindo no seu conjunto uma ampla documentação do teatro da época.

 

No conjunto da escrita e das gravuras, o livro mostra-nos o que era o Teatro em Lisboa na sua perspetiva global e abrangente, mas com um distanciamento irónico. Vemos lá cenas de peças, mas também inúmeras evocações do público, dos autores, dos encenadores, dos atores.

 

E tudo isto com um distanciamento descritivo e gráfico e uma visão digamos irónica, mas sem de modo algum ignorar ou menosprezar, em crítica direta ou implícita, as virtudes e as qualidades, as lacunas e os defeitos do meio teatral, cultural, profissional e mesmo social da vida de Lisboa, representada e concentrada nos três principais teatros.

 

E isto com rigor mas com uma ironia distanciadora!

 

No que respeita aos Teatros, o livro tem em vista sobretudo as programações mas também um sentido crítico da respetiva função cultural respetiva.

 

Vejamos hoje o Teatro de São Carlos. Não haverá exemplo mais flagrante no tom crítico, da época e não só, do que a primeira frase, que abre a longa referência a ao público, aos artistas e ao próprio Teatro.

 

Diz com efeito, logo no início, Júlio César Machado:

«Serve só de inverno, como os capotes. E em se espalhando por todos os lados a melancolia do inverno aí abre ele! (...) soberbo, magnífico e ao mesmo tempo sem cerimónia. (...)

É o teatro da corte, mas pode, quem quiser, ir para ali como para o quintal.

Bom edifício. Sala magnífica.

Nos camarotes, na plateia, tudo gente conhecida»...

 

E segue-se uma descrição detalhada e irónica da atividade operística do Teatro de São Carlos ilustrada com cerca de 45 gravuras de cena, de público e de artistas, de elementos de apoio, desde maestros a compositores, cantores, mas também filas de espetadores entusiasmados - ou nitidamente maçados!...

 

Iremos ver, em próximos artigos, as referências de Júlio César Machado e de Rafael Bordalo Pinheiro ao Teatro D. Maria II e ao Teatro da Trindade.

 

DUARTE IVO CRUZ