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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

Previa-se mais chuva, mas a manhã surpreende-nos com um sol já primaveril. Talvez de pouca dura, mas ofereceu-me uma visita à "minha" cerejeira do Japão, prometedoramente coberta de rebentos anunciadores de sakura em flor, beleza mágica e efémera. Encheu-se-me o coração de memórias do Japão, sobretudo dessa ternura de comunhão com a natureza que nos embala a vida...

 

Lembrei-me dos hanámi, passeios e piqueniques debaixo das cerejeiras em flor (mankai no sakura): fazem-se por toda a parte, no deslumbramento da vida nova, ainda que efémera. Mesmo nos cemitérios: quantas vezes vi, em anos seguidos, centenas de japoneses, sentados em esteiras dispostas sob as árvores das avenidas do cemitério de Aoyama, em Tokyo, petiscando e bebendo saké e cerveja, na alegria da renascença... Pela Primavera, o arquipélago nipónico enfeita-se de muitas e variegadas flores, e campos e jardins alegram-se com elas e com os milhares de japoneses que acorrem a contemplá-las. Mais impressionante do que a tagarelice dos piqueniques, todavia, é precisamente o respeito, a íntima comunhão de todos e tudo nessa contemplação da beleza sempre efémera, renascente, eterna. Ocorre-me agora um poema de Tatsuji Miyoshi (1900-1964), Kiri no Hana, a flor da paulównia, que traduzo para ti:

 

          Subitamente mais fugitivas do que um sonho

          Flores de paulównia deixaram os seus ramos

          E mansamente dançando foram caindo

          Duas três quatro...

          E as felizes levadas pelo vento

          Desceram afagando o teu ombro...

          Que ciúmes tenho

          Dessas flores tão ricas de cor e de perfume

          Que em tardia hora do chão

          Foram recolhidas pela tua mão...

 

   Nem Salomão, disse Jesus, se vestiu com tanta glória.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim: 

 

   Começo esta carta por curta tradução de Matsuo Basho (1604-1654), poeta japonês que bem conheces:

 

               meses e dias são

               perpétuos passageiros

               e viajantes os anos

               que se encadeiam

 

   Somos prisioneiros do tempo. Dessa cadeia que nos amarra e arrasta, num qualquer movimento, seja roda circular ou progressão escatológica. Esta manhã, em visita à minha cerejeira do Japão, que continua a florir em tão lindos dias, murmurei outro haiku do Basho que, se bem me lembro, nos diz algo como "todos os anos, as flores que caem ao chão vão sustentar a cerejeira"... O que hoje penso ser apenas aparente - a contradição entre tempo escatológico e tempo circular - será quiçá tão só a diferença do modo da vivência que qualquer de nós possa ter da circunstância de um momento. Em si própria, a circunstância do tempo é a intemporalidade. O tempo mais não é do que um conceito, categoria mental por que construímos a duração. E esta mais não é do que o que vamos conseguindo apreender, isto é, o que vai preenchendo o nosso alcance. O tempo define-se pela nossa presente limitação. A realidade, como o universo, é o infinito, não tem tempo. Nem espaço. Como Deus. "Criador inefável ! "- assim, todas as manhãs, ao começar as aulas, no colégio, os meus colegas e eu nos dirigíamos, rezando, ao invisível, intocável, inapreensível, pedindo-lhe luz...

 

   Hoje, em Domingo de Ramos, ao ouvir outra prece "Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", lembro-me dessa oração infantil, e pensossinto que todos fomos abandonados ao nosso tempo de cada um, talvez perdidos no infinito que ainda não alcançamos. Mas a Páscoa é um convite a transpor o tempo que nos circunscreve. Além da desolação de tão incompreensível desgraça e mortandade, à nossa volta, talvez a esperança nos dê a coragem de acreditar. O sustento da vida é a infinita renovação. Talvez por isso me lembre tanto do Bolero de Ravel, quando me ocorre o destino do tempo na intemporalidade... O final dessa peça musical é um inesperado apocalipse. Nenhum de nós conhece o dia nem a hora da revelação, cada um, todavia, saberá como entregar-se.

 

   Nesta Páscoa, chamo a nós, Princesa, esse princípio da filosofia africana ubuntu: Existo porque existimos. Evocando uma declaração de Nelson Mandela: Essa ideia tão africana de que só somos humanos graças à humanidade de outrem, contribuiu fortemente para o nosso desejo universal de um mundo melhor. Não sou "eu", sozinho, quem se pode descobrir- "me eu mesmo", mas somente "nós juntos" que poderemos aprender a conhecer e apreciar respeitosamente "os outros" e "nós mesmos". Aqui entre nós, pergunto, quantas vezes pensamossentimos que o convite pascal é um apelo à ressurreição de todos?

 

   Feliz Páscoa!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de que quando fiz os exames do nosso "7º ano do liceu", como então se dizia, para a "média" das classificações das provas escritas também contribuiu a "nota alta" que me foi dada a "História", no liceu Passos Manuel, onde me apresentara a exame, vindo do Colégio de Clenardo, de padres e privado. Recordo a efeméride, porque a minha dissertação escrita incidira e se concentrara sobre a importância histórica da descoberta do caminho marítimo para a Índia, com forte insistência na consideração de objetivos estratégicos (económicos, políticos e religiosos) e no seu confronto real com outros povos e culturas. Era certamente entusiástica e - pelo menos assim sentipensei - talvez bem fundamentada, para me merecer a recompensa. Quarenta anos depois, em 1998, quando acompanhei a visita do príncipe herdeiro do Japão à EXPO de Lisboa, mais, talvez, do que na lembrança de Portugal no pavilhão nipónico, reparei na referência que "nos" fazia, logo à entrada do seu pavilhão, a União Indiana: resumindo, explicava que o eldorado que os europeus procuravam se encontrava na Índia, e o caminho para lá fora descoberto pelos portugueses. O novo mundo de Cristóvão Colombo fora engano. Por muito que tal pudesse festejar o ego tão carente da cultura portuguesa tradicional - que, aliás, neste particular não distingue monárquicos de republicanos, nem "fascistas" de comunistas - a representação oficial da União Indiana procurava aqui, sobretudo e aproveitando uma exposição em Portugal, tornar-se centro de atenções... E agradar aos indígenas (nós, claro!)

 

   O que, francamente, tampouco deixou indiferente o meu próprio "brio patriótico"... Mas também me levou a refletir e me interrogar - era residente no Japão - sobre a perceção corrente (a tal que é comum e quotidiana) que a gente nipónica tem de "nós", comparando-a, ainda, com a versão dela que nos é proposta pelo nosso amor próprio. Falei muitas vezes, em charlas e círculos restritos, da evolução do meu pensarsentir sobre o assunto. Hoje, pela primeira vez, e para ti, escrevo sobre a questão.  É, com os pés no chão, uma lembrança de coisas que li, vi, ouvi e registei in loco. Como sabes, não sou mitómano...

 

   Em todas as escolas japonesas se aprende, logo nas primeiras classes de história, que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, que náufragos portugueses foram os primeiros europeus a arribar ao Japão, onde introduziram o teppo, ou arcabuz, creio, e que Francisco Xavier foi ali o primeiro missionário cristão, chegado seis ou sete anos depois. [Também todos nós, na escola primária, Princesa, ouvimos falar de Viriato...] Hoje, a esmagadora maioria dos japoneses pouco ou nada sabe de Portugal, e os que em nós pensam podem ser classificados em dois grupos: aqueles que, ao acaso de encontros ou por tradição familiar ou outra, são amigos de Portugal, podendo até participar e animar (secundários) departamentos de "português" em universidades locais (pouquíssimas e, aliás, hoje mais orientadas pela relação muito mais estreita com as comunidades nipo-brasileiras (o Brasil foi importante destino da emigração japonesa) ou, ainda, grupos, clubes, associações de amizade, etc.; e os que, quanto mais privam connosco, tanto mais à vontade nos dizem que se sentem por vezes menores   por se apontar como primeira gente curiosa do ocidente por eles um ínfimo e pobríssimo povo europeu... Claro que há outros interesses japoneses em Portugal, e é sobretudo comovente a simpatia dos pequenos núcleos que celebram amizade connosco. Mas somos, naquele oceano, uma gotinha de água - e qualquer português que lá tenha vivido uns anos sabe do que falo. Nas visitas oficiais, o tema do primado da chegada e contactos dos portugueses, claro está, é sempre recordado... quiçá porque nada mais há para invocar. [Já noutro registo, ocorre-me, Princesa, uma crónica publicada na revista Flama, nos anos 50 (cujo título era Lágrimas de Crocodilo...seria?... e o autor Joaquim Silva Pinto, já não me lembro...) que perguntava, com ironia: O que é que os estrangeiros pensarão de nós? Ainda temos o mesmo tique, basta passar os olhos pelos nossos jornais ou um distraído ouvido pelos debates políticos...] Facto é que nem o conhecimento do Portugal atual, nem a curiosidade pelos portugueses de hoje são comparáveis ao maravilhado encanto que, no século XVI, os nanban, ou bárbaros do sul despertaram nas gentes do arquipélago nipónico. Alguns saborosos exemplos dessa atração vêm apontados no capítulo Os Nanban do meu Fomos em busca do Japão... Mesmo os vocábulos de origem portuguesa que, naquele tempo, diziam, na fala japonesa, as coisas que eles antes não conheciam (gibão, capa, botão, vidro, copo, etc.) caíram em desuso e foram substituídos por anglicismos. Ficaram as palavras da doutrina e da liturgia cristã católica (Deus, Maria, missa, etc.), aliás de origem luso-latina: a língua da religião, na altura, era, como sabes, o latim. Dito isto, é sempre com indestrutível carinho e admiração que recordo o século cristão (o "nosso" século) no Japão. Sabendo hoje que também ganharei dele um melhor entendimento, se o considerar como um período importante, a vários títulos, da história dos japoneses, e não sobretudo como saudosa épica glória "nossa"... 

 

   Eu mesmo já inocentemente disse que Silêncio, o livro mais célebre de Shusaku Endo, era um romance histórico. Queria só lembrar que todo esse drama é situado num passado distante, mas tive logo o cuidado de chamar a atenção para o propósito do autor, que poderia ter escolhido outro cenário. Depois de tanto escarcéu à volta do filme com o mesmo título, sinto-me na obrigação de sublinhar que não, não é um romance histórico - muito menos no sentido lusocêntrico de exaltação das nossas primazias e glórias - e já expliquei porquê. E até a personagem principal, o padre Cristóvão Ferreira, eminência parda na tramoia dos factos relatados e inventados, está, afinal, perenemente presente, é ela a metáfora da luta, no coração do homem, entre as opções possíveis da fraqueza humana e a misericórdia de Deus... O romancista, trata-o, aliás, com compassiva simpatia, ao ponto de achar um desfecho, uma "explicação" da apostasia que os documentos históricos não corroboram. Cito o padre Francis Mathy, s.j., da Universidade Sophia, Tokyo, sobre o padre Cristóvão Ferreira (1580-1650): Em 1632 foi feito Provincial do Japão e, portanto superior de todos os jesuítas que ali trabalhavam. O relatório anual do estado da missão foi escrito por ele em 1628, 1629, 1630 e 1631; todos estão ainda conservados nos arquivos romanos. O último é especialmente interessante por dar longa e vívida conta dos mártires em Unzen. Em 1636 foi capturado e submetido à tortura da fossa, tendo subsequentemente apostatado. Foi-lhe dado o nome de um criminoso executado, Sawano Chuan, mais a mulher e o filho deste, e juntou-se aos seus antigos perseguidores na sua inquisição. Em 1636 escreveu o livro "Kengiroku" (Uma Clara Exposição da Falsa Doutrina), um rigoroso ataque cerrado ao Cristianismo. Também traduziu para japonês vários tratados ocidentais de medicina e astronomia. Anos mais tarde, o seu nome aparece em vários julgamentos a que foram levados cristãos. Por exemplo, estava no tribunal de Edo, em 1639, que condenou à morte o padre Kibe, jesuíta japonês. Este, nos seus momentos derradeiros, exortou zelosamente Ferreira a voltar à prática da sua fé.

 

   Mas sem resultado, porque Ferreira parece ter morrido sem arrependimento em 1650. No drama teatral sobre o mesmo tema da apostasia de Cristóvão Ferreira, a peça Ogon no Kuni (O País do Ouro), o padre pisa o fumi-e para poupar, não só a sua vida, mas a de outros cristãos, acreditando que a voz de Cristo assim lhe ordena. Outro apóstata, Inoué, um perseguidor japonês que foi cristão e abjurou por ter concluído que o cristianismo não é adaptável ao Japão, dirá a Ferreira, na última cena da peça: Indo direito ao assunto, não foi por mim que foste vencido, mas por este pântano chamado Japão... Mas a última voz a ouvir-se, antes do cair do pano, será a de Hirata Shunzen, adjunto de Inoué: Quatro padres cristãos acabam de desembarcar em Amami O-shima. Chegaram num barquito remado por chineses e conseguiram desembarcar a coberto da noite. Dizem que, em Silêncio, é vencedor o pântano, enquanto que, em O País do Ouro, esse novo Judas que se chama Cristóvão parece ter feito da sua queda um sacrifício reparador, ele mesmo que confessa já não ser português, nem poder vir a ser japonês, nem cristão, nem opositor de cristãos. Sou um cadáver vivo. As reações de leitores e críticos ao romance de Endo terão encontrado mais simpatizantes no ocidente do que no próprio Japão. Tal pode explicar-se pelas circunstâncias culturais de uns e de outros. Já em 1969, no seu prefácio à primeira versão inglesa de Silêncio, o tradutor, William Jonhston, da Universidade Sophia, afirmava que o problema central que preocupou o Sr. Endo desde os primeiros dias é o conflito entre Oriente e Ocidente, especialmente na sua relação com o cristianismo... Já me referi a isso várias vezes no passado, incluindo em considerações sobre o carácter estrangeiro do cristianismo, no meu Fomos em Busca do Japão. Voltarei ao tema em próxima carta, pois continuo a pensar que, mais do que religioso - mesmo tendo "facilitadores" culturais - o processo de perseguição do cristianismo no Japão foi eminentemente político. Mas hoje quero só citar-te mais um passo do prefácio do jesuíta Francis Mathy à sua versão inglesa do Ogon no Kuni: A ação de "O País do Ouro" centra-se sobre a tensão existente entre o cristianismo e o "pântano", uma tensão que, antes do mais, está no próprio Endo. Na novela "Silêncio" é o pântano que vence. Não acontece assim na peça, escrita pouco depois. A impressão que envolve a peça e mais tempo permanece com o espectador é a da coragem, nobreza e amor dos mártires. Contra essa imagem concreta, a abstrata tese de Inoué é impotente. Todavia, tanto a novela como a peça sublinham com força o trabalho que ainda é necessário fazer para modelar o cristianismo essencial numa forma que vá tocar nas cordas do coração japonês e liberte o seu amor e ação. Um cristianismo que permaneça um credo abstrato ou uma lista de obrigações jurídicas, de faças e não faças, nunca sobreviverá no pântano. Contudo, isto não é basicamente um problema de Oriente e Ocidente, mas de qualquer motivação humana, independentemente das culturas. Concordo inteiramente: já não me lembro de quando e onde escrevi um dia que o pântano de Shusaku Endo é uma metáfora não necessariamente negativa, nem pessimista: apenas quer exprimir a dialética interior própria a qualquer conversão. Por isso a escrita de Endo é sempre desafiante e controversa... É, por outro lado, ridículo e confrangedor alguém pretender que Silêncio é uma tentativa de justificação ou perdão da apostasia. O romance não é apologético, muito menos pretende ser teológico. É, em meu entender, e como já disse e repito, a narração metafórica da luta interior de qualquer de nós contra e pela sua fé... Além disso, também pensossinto - e tal, insisto, é eminentemente subjetivo - que a nossa relação com Deus se tende pela simultaneidade de uma presença com a sua própria distância. Assim, qualquer conversão é um caminho de saudade, um regresso.

 

   Como exemplo de outras reações nipónicas ao romance de Endo, transcrevo a do professor universitário Yanaibara, cristão japonês protestante, que - quiçá não compreendendo essa tensão interior de que falo - curiosamente faz ressaltar outro aspeto negligenciado da japonização do cristianismo, que vai desdramatizar a tal oposição oriente/ocidente e nos leva também a considerar a realidade histórica que foi terem sido muito maioritariamente japoneses as vítimas da perseguição. Facto que, aliás, Endo não escamoteia na sua própria ficção, onde, ao lado de apóstatas, a gente nipónica também surge com mártires seus. Mas escreveu Yanaibara no jornal Asahi Shinbum:

 

   Os mártires ouviram a voz de Cristo, mas para Ferreira e Rodrigues Deus estava silente. Não quer isto dizer que, desde o princípio, esses padres não tinham fé? Por essa razão, o combate de Rodrigues com Deus não é descrito... ...Obviamente, a crença de Inoué e Ferreira em que o Japão é um pântano que não pode absorver o cristianismo não é razão para apostasia. Foi por ter perdido a fé que Ferreira começou a pensar dessa maneira... ... Naquele século cristão, houve muitos japoneses que sinceramente acreditavam em Cristo, e há hoje muitos que também acreditam. Nenhum cristão acreditará que o cristianismo não pode criar raízes no Japão. Se os japoneses não podem compreender o cristianismo, como teria sido possível o Sr. Endo escrever tal romance? -  Este artigo foi publicado no Asahi, em japonês, em 1966, três anos antes da primeira tradução (para inglês) de Chinmoku (Silêncio).

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Com tanto alarido à volta do filme do Scorsese, Silêncio tem havido pouco. Nem tampouco ouço vozes que nos aproximem do drama dos cristãos japoneses, nem sequer de uma compreensão mais próxima do combate obsessivo de Endo Shusaku pelo entendimento da sua própria fé cristã. Este, tanto quanto possamos depreender de passos da sua obra literária, tem muito a ver com sentimentos de divisão e traição (ao pai ou à mãe), com solidão e separação (rasgões que experimentou através da companhia e deserção de animais domésticos) e, já no plano mais propriamente racional, cultural, filosófico e religioso, com o problema do mal, do pecado e da graça, da misericórdia de Deus. Começo por te referir um passo do romance Rio Profundo (Deep River, na versão inglesa, Le Fleuve Sacré, na francesa), em que Otsu, seminarista jesuíta japonês em Lyon, França, desabafa assim: Não posso perceber a diferença entre o que as pessoas de cá chamam o bem e o mal. Penso que no bem se esconde o mal, e vice versa. E aí intervém a magia de Deus. Até pode servir-se dos meus pecados para os transformar em salvação...   ... A Igreja considera-me herético. Corrigiram-me: "Não distingues claramente as coisas, tens de agir com mais discriminação. Deus não é assim". A pobre personagem quererá pensar num cristianismo que se coadune com a mentalidade japonesa. Eis um ponto fulcral para o entendimento, não só de atitudes e comportamentos de católicos japoneses perante os  estrangeiros (lembra-te do que eu já contei da minha experiência com a família católica dos meus senhorios em Tokyo ou das diligências que, enquanto Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, fiz junto da hierarquia da Igreja em Nagoya) mas sobretudo da estranheza - para não dizer dificuldade de aceitação, desconfiança, ou mesmo aversão - que uma pregação rígida da ideia cristã pode causar nos japoneses. Já no século XVI, em debates entre missionários jesuítas e bonzos budistas, os japoneses interrogavam sobre se poderia ser infinitamente misericordioso um Deus omnipotente que, todavia, condena e castiga gente, mesmo até ao inferno eterno. Ou como poderia o mesmo Deus ser justo, ao pretender que há uma só religião verdadeira, quando, afinal, tanta e tanta gente nunca ouviu nem ouvirá a boa nova evangélica, do que não têm culpa. Nesse romance de Endo, Otsu afirma que estou persuadido de que o homem elege o seu Deus em função do seu local de nascimento, da sua cultura, das suas tradições e do seu ambiente. Os europeus escolheram o cristianismo porque assim o haviam feito os seus antepassados, e a cultura cristã era predominante no seu país. Não se pode dizer que os habitantes do Médio Oriente se tornaram muçulmanos, nem a maioria dos indianos hindus, após terem feito rigorosas comparações com outras religiões. Quanto a mim, foi a minha mãe e a sua particular influência que fizeram de mim o que sou. [Este passo é claramente autobiográfico, num romance em que Endo Shusaku se revê, ou descreve, sobretudo noutra personagem, Numada de seu nome]...   ..." Mas nunca pensaste que teres nascido numa certa família foi graças à bênção de Deus e ao seu amor?" - perguntou-me certo dia o meu diretor espiritual. "Sim, mas foi também graças à Sua bênção que aqueles que nasceram noutros lares acreditam noutras religiões... - responde Otsu/Endo.

 

   O tal Numada, como Endo ele-mesmo na vida real, passara a infância em Dalian, na Manchúria, que à época fora colonizada pelos japoneses. Ajudado por um jovem criado chinês - que seu pai mais tarde despediria - recupera da vadiagem das ruas um cão manchu, que criará e a quem chamará Negrão. Quando os pais se divorciam, na sequência do alcoolismo crónico do marido, Numada/Endo parte para o Japão com a mãe. E assim, depois de ter perdido Li, o criado amigo, terá de se separar de Negrão. Mais tarde, o menino já adulto nunca esquecerá o olhar de despedida do seu cão. Foi graças a ele e a Li que aprendeu o significado da palavra separação. Já casado e escritor conhecido, Numada adquire um estranho pássaro tropical, um calau. Este acabará por voar livremente no gabinete do romancista, que com ele conversa e o calau observa enquanto escreve. Quando a ave morre, a mulher de Numada, que muito discutia e protestava contra a sujidade que o bicho lhe fazia em casa, oferecer-lhe á outro pássaro diferente. Percebera que o marido era incapaz de explicar o seu desejo intenso de se religar a todos os seres vivos. A semente nele plantada pelo Negrão, na infância, tinha lentamente frutificado num mundo imaginário que ele só podia descrever através das histórias que contava. Aí, as crianças eram capazes de compreender o murmúrio das flores, as conversas das árvores, e até de ler os sinais trocados pelas abelhas entre elas, ou as formigas. Apenas um cão e um calau tinham compreendido a solidão que, já adulto, ele não conseguira dissipar... 

 

   Essa sentida solidão - em Endo autor e muitas das suas personagens - acaba sempre por ter uma proposta de companhia: a de Jesus. No romance Chinmoku (Silêncio), o padre apóstata ouve em confissão o renegado Kichijiro, que o traíra. Ambos haviam pisado o fumie, a imagem de Cristo. - "Senhor, ressenti o teu silêncio". - "Eu não estava silente. Sofri ao teu lado". Após a confissão secreta, Kichijiro chora mansamente e sai. E o livro termina assim: O padre tinha administrado o sacramento que só um padre pode administrar. Sem dúvida de que os seus colegas padres condenariam o seu ato porque sacrílego; mas mesmo que estivesse a traí-los, ele não traíra o seu Senhor. Amava-o agora de uma maneira diferente de dantes. Tudo o que ocorrera até agora fora necessário para o trazer a este amor. "Agora mesmo sou o último padre nesta terra. Mas Nosso Senhor não estava silencioso. Mesmo que estivesse calado, a minha vida até hoje teria falado dele". William Johnston, jesuíta da Universidade Sophia, em Tokyo, amigo e tradutor de Endo Susaku, escreve, a abrir um prefácio ao romance, algo que traduzo para ti:

 

   Shusaku Endo tem sido apelidado de Graham Greene japonês. Se com isso se quer dizer que ele é um romancista católico, que os seus livros são problemáticos e controversos, que a sua escrita é profundamente psicológica, que ele descreve a angústia da fé e a misericórdia de Deus - então é certamente verdade. Porque o senhor Endo chegou à ribalta do mundo literário japonês escrevendo sobre problemas que, a dado momento, pareciam longe deste país: problemas de fé e Deus, de pecado e traição, de martírio e apostasia.

 

   Sobre o pano de fundo desta história - que é o século cristão do Japão - já escrevi bastante. Mas talvez volte a escrever, em carta só para ti. Por hoje, basta lembrar-te de que, como já te disse, Silêncio não é um romance histórico, muito menos uma análise da missionação dos jesuítas no Japão dos séculos XVI-XVII. É um cenário e uma ficção para questões que o seu autor foi interrogando, sofrendo e meditando.


Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   É sempre com alegria que vejo gente nova a interessar-se e a escrever sobre o Japão. Li um artigo de Maria José Oliveira no Observador e felicito-a pela sua curiosidade e esforço. Vi outros, também, mas confesso que me chocaram um pouco: alguns "clichés" sobre encontros de culturas, insistência na missão histórica de Portugal e dos jesuítas (cujos méritos nem sem querer pretendo diminuir), afinal olhares sobre o próprio de nós e generalizações mais ou menos apologéticas. Falando de um filme saído de um romance escrito por um cristão japonês, Shusaku Endo, acaba este, afinal por ser quase esquecido. Quando, todavia, a circunstância em que ele colocou o drama da fé e da negação, real ou aparente, dela apenas terá sido o pretexto achado para se exprimir, não só enquanto cristão e japonês, mas como crente católico, um dos muitos que a fé conforta e rasga. Não me leves, Princesa, portanto, a mal as considerações que se seguem. Devem estar, creio fora do filme: refiro-me, claro está, a essa hecatombe de comentários a que assistimos.

 

   Aliás, a mais grave observação que posso fazer ao artigo de Maria José Oliveira, por exemplo, é de somenos importância: nem os jesuítas, nem os portugueses da Nau do Trato, passaram a ser, por qualquer motivo de antipatia ou ódio, "bárbaros do sul"! Tal designação surgiu naturalmente, desde a aparição desses estranhos homens, de narizes compridos e diversas cores de pele, olhos e cabelo, exoticamente vestidos e transportando bens desconhecidos e quiçá apetitosos - desembarcando na sulista ilha de Kyushu. Vinham do sul (não do sul da Europa desconhecida dos japoneses, mas do sudeste asiático) e chamaram-lhes algo que traduzimos por bárbaros, mas que, em língua nipónica, como em mandarim, em grego - e sei lá que mais! - não tinha necessariamente sentido pejorativo, mas antes era manifestação de estranheza. Aliás, como tão bem traduzem os biombos nanban, a reação inicial dos japoneses foi a de curiosidade e expectativa, nunca de antagonismo. A questão da perseguição ao cristianismo, tal como a da limitação do comércio externo à "feitoria" de Deshima, em Nagasaki, surgirá mais tarde, por outras e complexas razões.

 

   Não vi, nem tenciono ver, o filme de Scorsese. Não tenho nada contra, é uma opção pessoal que, singularmente, tem a ver com o próprio título da película e do romance de Shuskaku Endo: SILÊNCIO. Desabafo: para mim, o drama ali exposto tem menos a ver com portugueses, jesuítas e coisas passadas, do que com o silêncio de almas humanas perante o silêncio de Deus. É claro que a circunstância histórica em que esse drama (uma luta de Jacó com o anjo?) é colocado tem diretamente a ver com a chegada dos portugueses ao Japão, a missionação jesuíta e o "século cristão". Mas esse é o cenário. Podia ser outro. Já, por várias vezes, em escritos e conferências, citei uma entrevista de Shusaku Endo à revista japonesa Kumo, em que ele afirma: Fui batizado em criança, isto é, o meu catolicismo foi um pronto a vestir. Depois tive de decidir se faria o fato adaptar-se ao meu corpo, ou se o deitaria fora, para vestir outro. Muitas vezes senti que queria desfazer-me do meu catolicismo, mas, finalmente, fui incapaz de o fazer, mas, finalmente, fui incapaz de o fazer. Não foi só não deitá-lo fora, foi sentir-me incapaz de o deitar fora. A razão disto talvez seja ele ter acabado por se tornar parte de mim. O facto de ter penetrado tão profundamente em mim quando jovem era um sinal de que, pelo menos em parte, se tornava numa co-extensão minha. Mesmo assim, não conseguia desembaraçar-me do sentimento de se tratar de algo emprestado, e comecei a perguntar-me o que seria o meu ser-eu-mesmo. Penso que isto é o pântano de lama japonês em mim. Desde que comecei a escrever romances, e até hoje, esta confrontação do meu ser-eu-mesmo católico com o ser-eu-mesmo que lhe está subjacente tem, como um refrão repetido por um idiota, ecoado e voltado a ecoar na minha obra. Senti que tinha de encontrar maneira de reconciliar ambos.


   Este tema está subjacente a um outro romance de Shusaku Endo, Escândalo, a meu ver bastante autopsicográfico, em que a personagem central é um escritor japonês premiado, o católico Suguro, que, na cerimónia de entrega da distinção, além de ouvir, até nos próprios elogios públicos de colegas e críticos, alusões à sua condição de cristão, encontra uma jovem estranha, que não conhece, mas pretende conhecê-lo bem de encontros num bairro boémio e pouco recomendável a homens sisudos e casados como ele. Tal encontro levá-lo-á a visitar o misterioso local... Não vou contar a história, deixo-te apenas uns trechos de dois discursos de homenagem então proferidos por personagens do romance.

 

   O primeiro por um tal Shiba, que assim se referia a Suguro: Algumas partes das suas histórias são...ora bem...você ainda não as agarrou com os dentes... Não há nada de estranho em falar sobre Deus, mas tudo se torna suspeito quando parece que você traz cá para fora algumas ideias ocidentais... Suguro ia retorquir, mas engole as palavras: Nenhum de vós tem qualquer ideia de quanto é difícil para um cristão escrever ficção no Japão. E o romancista Shusku Endo comenta: Ao mesmo tempo, uma parte de si mesmo não podia negar a afirmação de Shiba de que a sua obra era suspeita. Sentiu-se como se sempre tivesse escondido algo num canto recôndito do seu coração.

 

   O segundo discurso pertence a um tal Kano, e terá mais a ver com o tema Endo/Silêncio/Ferreira. Será mais longa a citação: Naqueles dias, Suguro era como uma criança perseguida no nosso grupo. Até chegámos a insistir em que abandonasse o seu cristianismo. Para nós, jovens do pós-guerra, a religião era o que Freud descrevia como uma ampliação da imagem do pai derivada dum complexo de Édipo, ou o ópio da doutrina de Marx, uma superstição irracional. E os cristãos eram uns hipócritas que tinham ido contra as suas origens japonesas - resumindo, não conseguíamos perceber porque é que Suguro não tinha posto de parte o sarilho do Deus estrangeiro. Além disso, ele não se convertera de livre vontade. Fora meramente batizado enquanto criança, por vontade de sua mãe. Assim, a sua fé não nos parecia mais do que uma força de hábito. Como sabeis, Suguro publicou mais tarde várias novelas históricas sobre os primeiros cristãos no Japão, narrando os patéticos crentes que foram forçados à apostasia por oficiais brutamontes. Pensei muitas vezes que Suguro me tinha em mente quando criou esses cruéis oficiais...

 

   ... O carácter único da literatura de Suguro reside na sua descoberta de um novo significado e valor para o que a religião chama pecado. Infelizmente, não sendo eu mesmreligioso, não faço a menor ideia do que seja o pecado...

 

   Eis porque, minha Princesa de mim, prefiro guardar silêncio perante o Silêncio: pensossinto que a única possível descoberta do insondável é a contemplação, como diálogo interior. Respeito muito o que não sei explicar, seja fé ou apostasia. E todavia sigo sendo crente. 

 

   O que não quer dizer que o século cristão japonês, a missionação jesuíta, o comércio nanban, o sincretismo religioso no Japão e a inculturação, sobretudo no caso dos cristãos clandestinos, não sejam questões interessantes. Também já falei delas, designadamente no meu Fomos em busca do Japão, editado pela VERBO/BABEL em dezembro de 2015. Mas tudo o que lá está, e mais algumas coisas, encontrá-las no blog do Centro Nacional de Cultura. E noutras cartas que te escrevi.


Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de janeiro de 2017.

 

O filme «Silêncio» de Martin Scorcese é baseado no enredo concebido por Shusaku Endo (1923-1996) sobre a memória da presença portuguesa e cristã no Japão. O livro foi publicado entre nós pela D. Quixote, com tradução de José David Antunes, e a sua temática insere-se na nossa riquíssima relação com o país do Sol Nascente.

 

CONHECIMENTO MÚTUO
Diz-me a experiência que os nipónicos conhecem melhor Portugal do que nós a eles. Não falo só dos muitos vocábulos portugueses usados no quotidiano (butan, kappa, koppu, pan ou tempura) ou do célebre pão-de-ló (kasutera, palavra que vem das claras em castelo), mas sobretudo de uma empatia muito especial, devida ao facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais a chegarem a este distante arquipélago, habitado por guerreiros, mercadores e pescadores, abertos ao mundo. A arte Namban é um resultado deste encontro, provindo a designação do modo como os japoneses nos conheciam – Namban-jin significa bárbaros do sul… Por toda a parte no Japão, encontramos memórias do encontro com os portugueses – e Venceslau de Morais ou, nos nossos dias, José de Guimarães bem compreenderam esta riquíssima relação. De facto, há uma curiosa relação biunívoca entre os nossos povos. Shusaku Endo foi um grande admirador dos portugueses e amigo do Embaixador Martins Janeira. Nasceu em Tóquio, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência da mãe, com quem viveu, depois desta se separar do pai, em Kobe. Licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon. A sua obra é marcada pela pertença a uma religião minoritária e pela vivência de intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista. E Silêncio é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e o mais significativo, tendo sido distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). Não esqueço o encontro em Quioto com os Padres Adelino Ascenso e José Tolentino Mendonça, para falarmos de Silêncio. O tema crucial era o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, parecia dizer: “Podes pisar-me!”. Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. Para o Padre Ascenso, a distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. E António Alçada gostava de recordar a passagem da Peregrinação, em que Mestre Belchior e o rei do Bongo falavam da conversão deste último – em que ele dizia ser desnecessário qualquer gesto, já que Deus o sabia…

 

INTERPRETAÇÃO SOBRE A VIDA
O filme de Scorcese procura uma interpretação sobre a vida de um missionário no Japão no século XVII, em especial durante a dura perseguição, que durou quase um século. O caso que serve de base ao livro de Endo tem a ver com a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira em 1633 – caso inédito até então. Perante as perseguições, houve necessidade de resistir. Daí que os jesuítas tenham assumido a exigência de algum tipo de acomodação cultural, como no caso dos ritos. No livro, tudo começa por um dado dramático: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus, Cristóvão Ferreira, submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo tornou-se violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos adotados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas. Silêncio trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o que se tinha passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações, que nos levam aos estranhos acontecimentos que conduziram à apostasia do mais proeminente dos missionários no Japão…

 

UM DRAMA HUMANO E RELIGIOSO
Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? “Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes”. Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz”. Afinal: “Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”… O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso.O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz o romancista): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”.

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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