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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

3. SOBREVIVENDO E GERINDO DEPENDÊNCIAS - III

 

A imagem de Portugal como centro, dada pela sua posição pioneira via Descobrimentos, correspondeu à época em que eram sobretudo os portugueses que representavam a Europa à escala global, que vinha então até nós, desejosa de um diálogo igualitário.


Com o decorrer do tempo, Portugal deixou de ser rosto e vanguarda da Europa, convertendo-se em sua periferia e retaguarda, não sendo o seu império tido como uma continuidade e braço essencial para a sua expansão económica, financeira, política e social, mas sim o seu refúgio essencial de sobrevivência, em termos reais e simbólicos.

Até 1974/75, Portugal viveu, estrategicamente, fechado à Europa e aberto sobre o Atlântico e o império colonial. Orientou-se, externamente, a nível diplomático e militar, para o Atlântico, privilegiando a aliança com a potência marítima, tradicionalmente a Aliança Inglesa, os Estados Unidos após 1945, a NATO a partir de 1949. Quando integrou a EFTA, na Europa, continuou marítimo, atlântico e não continental, diversificando as alianças externas em relação a Espanha, sem esquecer os sucessivos impérios, desde o oriental, o brasileiro e o africano.

Perdido o império ultramarino, após a descolonização, fecha-se o ciclo imperial. Há necessidade de repensar o futuro de Portugal, em função da análise do seu passado, alterando o seu modelo de inserção internacional, o relacionamento peninsular e a reformulação do interesse nacional. Optou-se, como prioridade, pela adesão à Comunidade Económica Europeia, atual União Europeia e, dentro desta, à Zona Euro.

Apesar da opção atlântica ser tida, desde sempre, como historicamente vital para Portugal, não se esgota em si, impondo-se também a europeia, desde logo porque parte integrante da Europa, apesar da sua especificidade, do lado de cá dos Pirenéus, além do carater insular da Península Ibérica, qual ilha, tipo Jangada de Pedra, de Saramago, onde coexiste uma forte componente marítima portuguesa, por contraste com a continentalidade de Espanha.

Integrando a Europa, a Lusofonia e a CPLP, Portugal afirma-se, por um lado, como país democrático europeu e, por outro, como de vocação atlântica, que pela língua comum se identifica com outros povos que a adotaram e que outrora colonizou, havendo que compatibilizar e harmonizar estas opções.

Também a manutenção e reforço da relação transatlântica é imprescindível, por ser insuficiente, para a Europa, ser uma potência económica e fraca em termos de defesa, segurança, investigação científica, tecnológica e espacial, porque irremediavelmente ultrapassada por um dos seus filhos, os Estados Unidos da América, a que acresce a defesa e segurança do nosso país como parte da Europa, da UE e como estado europeu individualmente considerado, se confrontado com a emergência de um Diretório Europeu assente numa hegemonia franco-alemã, ou outra. Sendo a Comunidade Transatlântica uma realidade europeia na sua génese cultural, a lógica antagónica do binómio Europa/Atlântico faz cada vez menos sentido, perante desafios globais como o terrorismo, ameaças ambientais, doenças facilmente propagáveis, problemas de defesa ou segurança coletiva, ou decorrentes da globalização económica.

Portugal tem interesse em compatibilizar e harmonizar estas opções, agregando-as a marcas e sinais que deixou pelo mundo e que o tempo não apaga, atualizando-as e corrigindo-as, anos ou séculos após o afastamento da presença de domínio ou cooperação, da Índia, ao Brasil, a África, passando por Malaca, Aden e o Mar Vermelho, Ceilão, Insulíndia, antigo Reino de Sião, Tibete, China, Japão. O que decorre das nossas responsabilidades históricas, da nossa presença e cultura no mundo, de cuja disseminação e diáspora resulta ser a língua portuguesa o terceiro idioma europeu mais falado mundialmente.

Se não queremos ser excluídos da Europa a que pertencemos por direito próprio, ao mesmo tempo que não devemos abdicar da presença da cultura portuguesa e lusófona deslocalizada por vários continentes, nem da relação transatlântica, há que compatibilizar e reforçar desenvolvimento com segurança na diversificação das dependências, gerindo estas para efeitos de sobrevivência com responsabilidade e em respeitabilidade. Maximizando a nossa posição geográfica, potencial marítimo, relações e demais recursos a nível global, invertendo a periferia europeia pelo centralismo mundial.

 

14.02.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

2. SOBREVIVENDO E GERINDO DEPENDÊNCIAS - II

 

1. Ultrapassado o trauma da perda do Império Oriental, o da independência e síndrome de amputação do Brasil e confinado, por um lado, com a decadência nacional de que falava a Geração de 1870 e, por outro, com a doutrina jusinternacionalista da ocupação e partilha efetiva da Conferência de Berlim, Portugal tenta superar as suas debilidades forjando um novo sonho imperial que unisse em rosa cor Angola a Moçambique, o mapa cor-de-rosa. Assinaram-se tratados, com a Alemanha e França, que visavam assegurar a nossa soberania sobre tais territórios. Eis que surge, em 1890, um novo trauma, revelador da traumática relação Portugal-África, um Ultimato inglês declarando o não reconhecimento de tais direitos, exigindo a nossa retirada e reclamando a posse da região, com a cedência portuguesa, fazendo tábua rasa de direitos históricos adquiridos. Esse novo ideário levou a conflitos bélicos com povos africanos do interior, subjugados e vencidos. 

 

Consolidada a ocupação plena, repensou-se o imaginário imperial com a fusão da Metrópole e as oficializadas províncias ultramarinas (teoria integracionista), o que foi inviabilizado pelo eclodir da guerra colonial iniciada pelos movimentos independentistas africanos, na década de sessenta do século XX, forçando Portugal a ceder. Enquanto no âmbito dos conflitos coloniais europeus, Portugal teve de sujeitar-se ao Ultimato, sob coação do seu mais antigo aliado, foi também coagido a aceitar, na segunda metade do século XX, uma nova amputação, a da independência das suas colónias, especialmente africanas, na sequência da luta emancipadora e ganhadora dos povos colonizados e da nova ordem bipolar internacional fixada entre os Estados Unidos e a União Soviética.

 

A perda do Império Ultramarino, em 1975, cuja subsistência Oliveira Martins pensara ser a única saída para Portugal após a perda do Oriental e do Brasileiro, parecia cumprir o fatal destino por ele pressentido. Com a perda da guerra colonial e a independência das colónias africanas, emergia um novo trauma, um novo momento, um quarto momento de pagar, pensar e reconsiderar Portugal como país, regressado agora, de uma vez por todas, ao fim de vários séculos, às suas fronteiras europeias. Após a diáspora, ausências e deslocalizações, faltava cumprir Portugal, nas palavras de Manuel Alegre. Fechado o ciclo imperial, torna-se premente, mais uma vez, Portugal repensar o seu futuro, tentando ultrapassar esse novo momento traumático, de que estudos de então são esclarecedores.

 

2. É dessa época um livro de Joaquim Barradas de Carvalho, “Rumo de Portugal. A Europa ou o Atlântico?”, cujo título traduz a inquietude da opção a fazer:

 

“Para além de profundas reformas na sua estrutura económica, social e política, Portugal terá, e a breve prazo, de escolher entre duas opções que dizem respeito à sua história, a mais profunda. Portugal terá de escolher entre a Europa e o Atlântico. Se rumar para a Europa - esta Europa tão do agrado dos tecnocratas - Portugal perderá a independência de novo, chegará a mais curto ou a mais longo prazo à situação de 1580. Na Europa do Mercado Comum, e numa futura, hipotética, Europa política, a economia dos grandes espaços forjará uma Península Ibérica unificada, e seguramente com a capital económica em Madrid, que de capital económica se transformará, a mais curto ou a mais longo prazo, em capital política. Ora este seria um resultado contra natureza, na medida em que nunca existiu, nem existe, uma unidade de civilização na Península Ibérica

 

E acrescenta: 


“Assim, perante a encruzilhada, a Europa ou o Atlântico, pronunciamo-nos pelo Atlântico, como única condição para que Portugal reencontre a sua individualidade, a sua especificidade, a sua genuinidade, medieva e renascentista. Ora esta opção passa forçosamente pela formação de uma autêntica Comunidade Luso-Brasileira, uma Comunidade Luso-Brasileira que não seja apenas aquela “comunidade sentimental, ortográfica, … (…), e, se possível, uma Comunidade Luso-Afro-Brasileira. Nela todas as partes se reencontrariam na mais genuína individualidade linguística e civilizacional.

 

É esta a condição para que Portugal volte a ser ele próprio”. 

 

Tem-na como uma escolha prioritária, de vocação-destino, não excluindo as possibilidades de cooperação com a Europa. Opina que o Brasil representa mais genuinamente Portugal, exemplifica-o literariamente com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa ou Jorge Amado, observando que grande parte de escritores portugueses têm demasiada influência europeia, nomeadamente francesa, pelo que o melhor meio de nos conhecermos é ir para o Brasil e o inverso.

 

Justifica-se, num esclarecimento final:

 

“É que na história, existem uma curta, uma média e uma longa durações. Isto é: os regimes políticos, e até os sociais, passam. A Língua e a Civilização ficam”.

 

No que toca à interrogação decisiva de Barradas de Carvalho, a Europa ou o seu Atlantismo, deu-lhe resposta a nossa vivência recente e atual, tendo a entrada na Europa Comunitária compensado e superado, para muitos, o défice e o trauma derivado da perda do império ultramarino. Opção de fundo que nos trouxe, no curto e médio prazo, uma saída para a nossa viabilidade democrática e económica, um eventual quarto momento, cujos efeitos finais, por agora, desconhecemos.

 

De novo, confrontado com a sua imagem real, Portugal não aceita a sua pequenez ou mediania geográfica, ampliando-a e projetando-a num novo mapa, a atual União Europeia.

 

Ter-se-á reincidido num novo recurso “anormal “ou “tábua de salvação” de que Portugal se socorreu para adiar, por algum tempo, a resposta ao “problema português”, segundo a lógica proposta por Oliveira Martins?      

 

07.02.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

1. SOBREVIVENDO E GERINDO DEPENDÊNCIAS - I

 

1. Portugal, durante séculos, sempre superou interrogações vitais geradoras de traumas, sobrevivendo continuamente, ainda que, se necessário, em continuidades adaptadas às circunstâncias, subsistindo através da gestão de dependências.

 

Pertinente é um texto de Oliveira Martins, inserido no prefácio à 3.ª edição do “Portugal Contemporâneo”, de abril de 1894, onde afirma ter surgido, pela terceira vez, o momento da verdade em que Portugal, reincidindo, estava perante uma interrogação vital: havia ou não recursos suficientes, sobretudo económicos e financeiros, para sobreviver como povo e país dentro das suas tradicionais fronteiras em solo europeu? Pela regularidade com que essa pergunta se impunha, presumia que aí se radicava, no essencial, a razão de ser do problema português, assente numa sociedade que há muito vivia de recursos exógenos, alheios e anormais, não vivendo do fruto do seu trabalho e do rendimento de capitais investidos no seu território de origem. Colocava no mesmo patamar de recursos estranhos, por que vindos de fora, a posse dos territórios fora da Europa e os empréstimos das bolsas europeias. Era um Portugal que permanentemente adiava a resposta àquela pergunta, lançando mão de soluções de emergência. Esta incerteza inerente a uma angústia de sobrevivência, obrigava Portugal a repensar-se com periodicidade, a uma reflexão penosa sobre o que fazer, uma vez chegado o momento de nos confrontarmos com a nossa realidade, de nos vermos tais como somos, o momento de pagar, dado ter soado, de novo, o quarto de hora de Rabelais.

 

2. Data de 1640 o primeiro desses momentos, em que Portugal pagou caro a sua Restauração, perdendo o Império Oriental, necessitando do concurso da Europa para assegurar a independência, tendo esta como uma ficção, porque a realidade era o protetorado, salvando-se das garras de Espanha, para cair nas da Inglaterra. Apesar do desempenho e empenho do Padre António Vieira e do marquês de Castelo Melhor, não eram suficientes as forças morais e intelectuais para assegurar, sequer, a autonomia, reduzindo-se as económicas às condições traçadas pelo tratado de Methwen.

 

Que restava? Responde o historiador: “A obra heróica da dinastia de Avis, que nos dera o Oriente, tinha, porém, em reserva, para o futuro do povo português, outras tábuas de salvação. Perdida a Índia, restava o Brasil; e quando Portugal parecia condenado, descobria-se em Minas o Eldorado que séculos antes se buscara com tamanho ardor na terra fantástica do Amazonas. O ouro e os diamantes do Brasil foram como a transfusão de sangue em um organismo anémico”. 

 

A independência do Brasil, em 1825, acelerada pelas invasões napoleónicas e consequente fuga da família real, e agravada pela guerra civil entre absolutistas e liberais, produz um novo trauma e um segundo momento, dado que: “(…) outra vez dobravam para Portugal os sinos de finados, e, pela segunda vez, se inquiria se Portugal, reduzido aos recursos próprios do seu território, tinha ou não recursos para subsistir como Nação independente”.

 

3. Defrontando-se, uma vez mais, com um sentimento de amputação que pretende suprir, Portugal não aceita a sua imagem mutilada, que é também peninsular (como o exemplifica “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental), acabando os empréstimos e subsídios europeus e as remessas dos emigrantes por substituir as Índias e o Brasil, via fontismo e expansão capitalista do século XIX, mantendo-se a aparência de uma fortuna enganadora: “(…) enquanto o cenário do fomento dava a Portugal a aparência dum país rico, o facto é que a balança económica, principalmente expressa pelos algarismos do comércio externo, acusava um deficit sempre crescente e de alcance inverosímil quase”.

 

A ulterior mudança do contexto europeu causou a perda desses recursos, ocorrendo um  terceiro momento, obrigando Portugal a interrogar-se de novo sobre o seu destino, surgindo como mal menor substituir o anterior Império Oriental e Brasileiro pelo Ultramarino, perguntando Oliveira Martins: “Salvar-nos-á, no século XIX, Angola, como nos salvou o Brasil no século XVII ?”.  

 

Resumia, nestas perguntas, o historiador e pensador, o problema português.

 

A história portuguesa do século XX e do nosso século encarregou-se, e tem-se incumbido, de responder, como tentaremos procurar saber.       

 

31.01.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

LIBERDADE CRIATIVA EM LIBERDADE

 

A liberdade é intrinsecamente antiautoritária e autocorrige-se.

 

Questiona a autoridade, erode a superstição, exige que as pessoas sejam livres e façam valer os recursos intelectuais ao seu dispor.

 

Se nos assuntos humanos é inviável alcançar a certeza, sendo os seres humanos inerentemente ignorantes, têm de ser livres para continuarem a aprender, adaptando essa ignorância a probabilidades.

 

Daí que, glosando e adaptando uma conhecida observação de Churchill, a democracia, a ciência, as artes e humanidades em liberdade, sejam os piores sistemas de governação, de criação, de investigação e de liberdade de expressão e de pensamento, à exceção de todos os outros.

 

Onde a nossa ignorância é maior, mais importante a liberdade, atento o incerto, o imperfeito, o impermanente, a dúvida, que nos atrai e estimula a querer saber o que não sabemos, a criar, a inovar e continuar.

 

Nesta sequência, a liberdade criativa em liberdade é uma condição e necessidade de vida, uma sua exaltação e revelação, em que a arte, a literatura, a pintura, a escultura, a música, o teatro, o cinema, a fotografia, a filosofia ou a ciência podem compensar o empobrecimento e a rotina das nossas vidas. É liberdade de criar, de ousar e de imaginar outros mundos e outras vidas. E de transgredir, mesmo em transgressão, superando limites, o que não equivale a anarquia, tendo sempre presente que a liberdade criativa em liberdade não significa independência absoluta, dado que o artista, o criador, o cientista e o inventor, ao movimentar-se no âmbito da sua autonomia privada e criatividade pessoal, não o faz ignorando o contexto em que se insere.

 

Sendo um bálsamo, uma compensação, um consolo e prazer do conhecimento, é também um grito de infinito em busca do infinito, um processo criativo de porquês formulador e produtor de outros porquês, que tanto enriquece espiritualmente o indivíduo que cria, como o que goza, usufrui e recebe a criação para si.

 

Literatura, pintura, escultura, música, as belas artes em geral, a ciência, por exemplo, são formas de liberdade, de criação em liberdade, em que há liberdade, criatividade e imaginação total, criando e inventando em liberdade, ao invés da notícia e do jornalismo, que não se podem inventar.

 

Uma parte significativa dessa liberdade criativa, que alimenta e provoca mais conhecimento, saber, sentido dos sentidos, a desconformidade, o desacordo e o conflito é tida, para alguns, como parasita, acima de tudo por não dar dinheiro numa lógica de pura eficácia e rentabilidade, às vezes por desadequada e incompreendida na sua época, mas que tantas vezes resiste ao passar dos anos, tornando-se intemporal, chegando o dia em que o Tempo a imortalizou.  

 

Em qualquer caso, o que artistas e criadores rejeitam é a estagnação, o determinismo e a rotina, baseados na censura e na repressão, sendo por essência potencialmente livres na sua liberdade criativa, dado que, como no poema “Livre”, cantado e musicado por Manuel Freire, com versos de Carlos Oliveira: “Não há machado que corte/ a raiz ao pensamento, (…) Nada apaga a luz que vive/num amor num pensamento/porque é livre como o vento/porque é livre”.

 

E sem razão seria a vida, sem razão…

 

24.01.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

GLOBALIZAÇÃO E NACIONALISMO NO FUTEBOL

 

Sendo o futebol um desporto globalizado, o seu mercado internacionalizou-se, o que levou a que os melhores treinadores e jogadores nacionais, de vários países, como José Mourinho e Cristiano Ronaldo, entre nós, fossem contratados por clubes estrangeiros mais ricos. Constitui um fenómeno crescentemente global, que uma percentagem significativa ou maioritária de jogadores de uma seleção nacional de futebol sejam jogadores estrangeiros, naturalizados nacionais, ou jogadores nacionais que jogam em clubes estrangeiros. O que não impede os adeptos nativos de sentirem como nacionais as vitórias da seleção nacional. Mesmo quando para esse sucesso desportivo é reconhecidamente decisivo o desempenho de jogadores não brancos, nomeadamente na Europa. Igualando ricos e pobres, etnias e raças, num unanimismo emocional e coletivo desejável e desejado, o futebol igualiza em imagens idílicas de celebrações triunfalistas, rumo a uma globalização pacífica e ausente de conflito, ansiada e opinada por muitos.

 

Só que, analisando melhor, o fenómeno da globalização, tão patente e potente na economia e finanças, não aparenta ter penetrado no futebol, onde se indicia, cada vez mais, uma ligação nacionalista e clubística. Seja como disputa entre nações, como competição de autoafirmação nacional, como altar ou salvação da pátria, a que os próprios políticos e governantes prestam honras e vassalagem, o mundo futebolístico, com o seu ícone da bola salvífica, não resiste à ideia de divergência e diversidade, o que pode ser exemplificado com o campeonato europeu de futebol.

 

Integravam tal competição, em 2016, 24 seleções nacionais. Entre elas a de Portugal, que foi campeão europeu. Há 28 anos eram oito, passando para 16, em 2012.

 

Na União das Associações de Futebol Europeu (UEFA), há seleções que não correspondem a países, tendo como exemplo mais antigo o Reino Unido, com quatro equipas: Inglaterra, País De Gales, Escócia e Irlanda do Norte, a que se juntou, muito mais tarde, Gibraltar. Com o colapso da União Soviética, além da Rússia, há mais dez países associados: Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorússia, Ucrânia, Moldávia, incluindo os euroasiáticos Azerbaijão, Geórgia, Arménia e o asiático Cazaquistão. A divisão da Checoslováquia originou dois países: República Checa e Eslováquia. A da Jugoslávia, seis: Eslovénia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedónia. Sem esquecer a Turquia, minoritariamente europeia, bem como o asiático Israel. Além das seleções de Andorra, San Marino, Liechtenstein, Malta, Chipre, Ilhas Faroé e, recentemente admitido, o Kosovo. Estando pendente a candidatura da Catalunha.  E por que não, no futuro, o País Basco, a Flandres, a Valónia e a Lombardia?

 

Esta diversidade e pluralidade de seleções, com tendência a aumentar, com a exibição  de bandeiras e exposição de outros símbolos nacionais, galvaniza sentimentos clubísticos e nacionais, mesmo que cada vez mais as seleções integrem jogadores de várias origens. Mas se a naturalização de jogadores é determinante para que possam ser parte de uma seleção, conclui-se que a nacionalidade e nacionalismo no futebol globalizado, ultrapassam e desatualizam as fronteiras territoriais e o princípio da territorialidade inerente aos Estados e sua soberania. Ao mesmo tempo, autonomizam, autodeterminam e dão visibilidade democrática a povos e nações que rompem a unicidade e peculiaridades da globalização.    

 

17.01.2016

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

OS HUMANOS E OS ANIMAIS

 

II - PERSPETIVAS HIERARQUIZANTES E IGUALITARISMO CÓSMICO

 

1. Aristóteles não nega que o ser humano é um animal, embora racional. Todavia, a partilha de uma natureza animal comum, é insuficiente para que seres humanos e animais tenham igual consideração. Ao defender que o ser humano que era escravo era inferior ao que era livre, também era defensável o direito dos seres humanos dominarem os animais. A própria natureza é na sua essência uma hierarquia em que os que têm menor capacidade de raciocínio existem para servir os que a têm em maior grau. As plantas estão para os animais e estes para o ser humano. Se a natureza nada faz incompleto e em vão, é necessário admitir que tenha criado tudo para o ser humano. Se o imperfeito existe para servir o perfeito, o irracional para servir o racional, o ser humano, como animal racional, pode usar e dispor do que lhe é inferior para seu benefício, passando tal convicção para a civilização e tradição ocidental.

Porém, o apelo de que o humanitarismo inclui o respeito por todos os seres que são parte integrante do mundo natural, foi-se acentuando. Chegando a incluir um sentimento mais amplo de unidade e de amor universal com toda a natureza. Exemplifica-o São Francisco de Assis, que tinha como irmãos e irmãs o sol, a lua, a água, o fogo, o vento, os rios, as colinas, os campos, as rochas, as flores, as árvores, as aves, as cotovias, as borboletas, os coelhos, os patos, as ovelhas, os cavalos, os bois, os burros. No filme de  Franco Zeffirelli, São Francisco de Assis, (Brother Sun, Sister Moon, no original), são patentes sentimentos de amor universal, cantando-se o irmão sol e a irmã lua, as brisas suaves e reparadoras que sopram, as flores que deleitam o nosso olhar, o querer viver-se  como as aves no céu, sendo o seu protagonista tido, para muitos, como louco, por cantar como as aves, seguir as borboletas e olhar as flores.         Sobressaiem cada vez mais, nos nossos dias, preocupações ecológicas, segundo as quais o ser humano não tem (nem lhe foi conferido) um poder absoluto ou uma liberdade para usar e abusar dos seres não humanos, dado que nas relações com a natureza estamos sujeitos a leis biológicas e outras.

 

2. Independentemente de uma defesa sadia de todos os seres indefesos (humanos e não humanos) e haver pessoas que gostam mais de animais que de humanos temos, por um lado, os defensores de que o especismo é o grande adversário a abater, para bem da evolução e progresso civilizacional, ao lado dos que entendem que embora tal perspetiva igualitarista esteja na moda, não têm como exaltante tal igualitarismo, optando pelas perspetivas hierarquizantes, tendo a vida de um animal como um valor relativo e a humana como um valor absoluto. Se bem que aliciante e sedutor, o igualitarismo cósmico e o sofrimento igualitário, no seguimento de pensadores como Peter Singer e Tom Regan, é muito contestada a tese da igualdade de valor das vidas humana e não-humana, desde logo por se entender que quem dá mais valor à vida de um cavalo, de um cão ou de um gato do que à humana, é porque o dono lhe dá esse valor, e não por valer mais que a humana. Enquanto cada humano é um ser único da sua espécie, com um valor intrínseco e irrepetível, um animal é só mais um caso da sua espécie, que nunca sabe que errou, nem porquê, que pode ser abatido por poder ser uma ameaça ou um risco para os humanos e segurança pública (especialmente se de raças perigosas), não o devendo ser por vingança ou por ter culpa. Além de que se é necessário serem os humanos a defender os animais, por estes não terem capacidade de defender os seus direitos, isto parece negar a tese de que a vida humana e animal têm igual valor.

 

3. Como se justifica, então, que na hipótese de haver dois seres em perigo de vida, um humano desconhecido e o nosso cão, haja pessoas que salvem o seu animal, se só viável salvar um? Como explicar este maior afeto e simpatia pelo animal?
É usualmente dada como justificação a crise civilizacional que vivemos, onde primam ideias que duvidam das potencialidades humanas, tendo a nossa raça como malévola, perversa e sem redenção, o humano como um episódio gratuito da evolução, uma filosofia do absurdo, pondo o humanismo em causa, sem que as humanidades nos salvem. Só que, se o ser humano não tem capacidade para o bem que nele existe, como se compreende a contradição entre essa alegada ausência e a capacidade de bem que esses mesmos humanos têm ao defender os animais, dado que são estes que não têm essa capacidade para se defenderem? E se a fome e as guerras mostram o mal que há em nós, por oposição a um alegado pacifismo dos animais, como se justifica que a violência também exista em tantos animais que lutam e se matam entre si, quando não contra e em relação aos humanos? Ou há que distinguir entre animais domésticos de bom caráter e pacíficos e os selvagens de mau caráter e violentos, em paralelismo com os humanos bons, pacíficos e santos e os assassinos, psicopatas e de maus instintos? 

 

4. Aqui chegados, ideologias e sectarismos à parte, parece que o bom senso terá de prevalecer. Não sendo uma causa de direita ou de esquerda, é compreensível que sejamos pelos direitos dos animais, no sentido de serem estimados, não abandonados ou mal tratados, que se sancionem ou criminalizem os seus maus-tratos, o seu uso abusivo e infundado por malvadez, como bodes expiatórios e puro egoísmo humano. Mas respeitá-los e tratá-los bem, não implica abdicarmos de uma hierarquização de valores, entre o que é humano e os outros seres, se e quando na medida do suficiente e necessário. Tendo sempre presente que a dignidade humana é uma espécie de reserva e salvaguarda em qualquer sociedade, protegendo todos os humanos de quaisquer despotismos, dada a inalienabilidade e indisponibilidade de certos direitos, mesmo em relação aos bebés, deficientes ou incapazes, quando confrontados com animais adultos tidos, para alguns, como mais racionais e sensíveis. E se a capacidade de sofrer e sentir pode ser uma razão para ter direitos iguais aos humanos, desde logo, por extensão aos animais, por que não o é, perguntam outros, na mesma extensão e em igualdade de circunstâncias, para os animais terem deveres iguais, a começar pelo dever de pagar impostos? Mesmo quando incidem sobre animais de que são donos, são impostos sempre pagos por humanos, de tendência crescente nas sociedades urbanas e mais desenvolvidas onde, por vezes, a solidão humana é compensada e suprida pela posse de animais. Posse essa que, quando arrebatadora e obsessiva, também pode ser censurável, por manifestar uma atitude de arrogância e superioridade ao priorizar os animais, se em conflito com humanos, tendo-os como coisa sua, em termos absolutos.

 

10.01.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

PARA UMA NOÇÃO DE CULTURA

 

1. Aquilo a que chamamos cultura é inviável positivá-lo, em termos deterministas, atenta a sua elasticidade e plasticidade. Se inexequível a obtenção categórica de uma noção de cultura, isso não invalida que, por razões funcionais de natureza pragmática, se proceda a uma tentativa de delimitação do seu conteúdo.

Carateriza-se por tudo o que é humano e pode ser transmitido, por tudo aquilo que o ser humano faz, por tudo o que está relacionado com a criação humana, como um sinal de criatividade e humanismo, integrando todas as coisas ou operações que a natureza não produz e que lhe são adicionadas pelo espírito.

Em sentido restrito, numa definição mínima, traduz a herança canonizada e solenizada pelas instâncias clássicas de legitimação, o património artístico, erudito e intelectual de feição humanista, legado pelas artes, saberes e certas tradições, condicente com o universo das belas artes e das belas letras, uma cultura de eleição, superior, mais abonada de assunto e de forma, cujas manifestações, quanto mais criativas e vanguardistas à época, mais se aproximam do mundo ideal e se afastam do que é tido como regra da ordem real.

Numa interpretação intermédia, além de conter a criação e a fruição mais culta, convive com a ciência, a tecnologia, o ensino, a formação, a religião, onde a esfera estadual e do pensamento convivem de modo especial.  

Numa aceção mais ampla, engloba uma realidade complexa, agregando elementos de natureza antropológica, filosófica, histórica, sociológica, incluindo raízes, memória, herança e história, com a aceitação de uma noção aberta e policêntrica, atuando na vida corrente a vários níveis, desde a cultura erudita à popular, aglutinando criatividade, inovação, tradição, pluralismo. Esta culturalização global e indiferenciada coloca no mesmo regime a arte, a ciência, a religião, a tecnologia, o desporto, o luxo, a literatura, a poesia, a gastronomia, os monumentos, o património natural. Não surpreende que a região vinhateira do Alto Douro, a paisagem da vinha da Ilha do Pico, a floresta laurissilva da Madeira e a dieta mediterrânica integrem a lista do património mundial da Unesco, ao lado do centro histórico de Guimarães, de Évora, do Porto, de Angra do Heroísmo, do Convento de Cristo em Tomar, do Mosteiro da Batalha, de Alcobaça, dos Jerónimos e da Torre de Belém. Nem que a lista do património cultural e imaterial da humanidade integre o fado e o cante alentejano, a que acresce, desde dezembro de 2016, a arte da falcoaria em Portugal. Ou que em termos de património cultural e imaterial da humanidade se apele para a necessidade de salvaguarda urgente da manufatura de chocalhos em Portugal ou da olaria preta de Bisalhães. Sem esquecer o património cultural subaquático, entre outros.

2. Recriando-se continuamente, é incerto prever em concreto o futuro da cultura, levando a que se defenda uma mudança de paradigma: 

“A nova imagem da cultura não é apenas a cultura erudita de recorte humanista (as artes e as letras), nem a cultura de tipo antropológico (tudo o que não é natureza é cultura), nem a cultura de massas no sentido tradicional do termo. É algo que a atravessa, acolhe, mas designa já outra coisa. A cultura é hoje uma dimensão dominante em que está em jogo o que o sujeito faz de si mesmo, sem que se definam intermediários conscientes e explícitos que tutelem o sujeito”. (Eduardo Prado Coelho, “O Futuro da Cultura (1)”, “O Fio do Horizonte”, “Público”, 14.09.05).

A par de uma subjetivização da cultura, com tendência para a sua privatização, em que as novas tecnologias nos permitem ver e ouvir em casa cinema, música, ópera, há o seu reverso, em que o indivíduo mergulha numa realidade envolvente, criando-se um sentimento eufórico do grupo, de que a música entre os jovens e o desporto entre adultos são seu exemplo. A que acresce a globalização da cultura, com uma estetização do quotidiano, desde motivos no calçado, vestuário, latas de conserva, invólucros de sabonetes, revestimentos de prendas, design e capas de livros, música fracionada e de ambiente que se ouve enquanto se corre, espera, estuda ou opera. Onde também emerge o culto e a materialidade do corpo, tomando-o como objeto de arte (esculturas humanas  firmes, pintadas de dourado, prateado, num cromatismo chamativo), ou no suporte de várias tendências da arte contemporânea (moda, piercings, tatuagens).

“Verificamos (…) uma alteração das experiências do tempo e do espaço: existe uma compressão do tempo (Giddens) e uma diversificação dos espaços (…). Derivado do espaço temos o culto da velocidade ou os chamados “efeitos especiais”.

(…) implica uma redistribuição das instâncias culturais: de um lado, a cultura erudita, cada vez mais impregnada da cultura de massas; do outro, a cultura de massas, cada vez mais em ser reconhecida pela cultura erudita. Certas práticas artísticas marginais ganham particular relevo: a fotografia, a arquitetura, o vídeo, a banda desenhada, os jogos no computador, etc. No fundo (…) temos a consciência ecológica e a relação cada vez mais intensa entre cultura literária e cultura científica.

É neste contexto que a cultura terá de desenhar o seu futuro”
(Ibidem, “O Futuro da Cultura (2)”, “Público”, 15.09.05). 

Também a cultura humanista, que coloca o ser humano no centro de tudo, está em transformação, para alguns em decadência, dada a emergência de um novo agente transformador: a máquina, com consequências no ver, falar, ouvir, ler e escrever.  

 

Nesta sequência, a cultura é um universo permanentemente questionado, o mesmo sucedendo com o seu refazer permanente.

 

03.01.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


XXII - DIVERSIDADE E DIVERSIDADE LINGUÍSTICA

 

Por princípio, a diversidade linguística não coincide com as necessidades de unicidade e  homogeneização do mercado global, dado que a existência de várias zonas linguísticas fomenta mercados parciais e em concorrência, enquanto a globalização tende a impor a unicidade a todos os níveis, desde o económico, científico, linguístico, político, entre outros. Se, nesta perspetiva, a diversidade linguística e cultural é um perigo, outros opinam ser saudável mantê-la, pois cada língua tem um tipo de relação especial com a realidade, sendo uma janela especial do pensamento humano aberta sobre o mundo, um valor não quantificável que pertence à esfera do conhecimento.

Segundo a linha oficial da Unesco, na sua qualidade de organização plurinacional com maior responsabilidade quanto ao estatuto e futuro das línguas, é um pressuposto culturalmente correto, que todas as línguas, sejam nacionais, regionais ou minoritárias, têm o mesmo valor, a mesma dignidade ou merecimento, não havendo as “boas” ou “más”. A conservação e difusão da diversidade linguística, da diversidade cultural em geral, é condição prévia para uma sadia e pacífica convivência internacional.

Assim como a biodiversidade nos ensina que a observação e compreensão, sob várias perspetivas, aumenta as probabilidades de adequação da resposta, o mesmo sucede com a diversidade e a democracia. A diversidade linguística e cultural, ou qualquer outra, é uma ferramenta para pesquisar a realidade. Quando usamos várias ferramentas de pesquisa, tipo Google, Yahoo, aumentam as probabilidades de encontrar mais e melhor informação. A diversidade configura um enriquecimento numa sociedade que se quer pluricultural e plurilingue, por maioria de razão em países que se têm como democráticos e reclamam os benefícios dos direitos e deveres inerentes a um Estado Democrático de Direito.

Para os defensores de uma planificação linguística democrática, esta tem de contemplar a vigência de uma língua num espaço ou mercado interior e a sua flexibilidade de ser convertível num espaço ou mercado exterior. Além de língua biológica, herdada, materna, nativa, patriota (transmitida de pais para filhos e entre nações), tem de ser uma língua útil, aprendida e de exportação (quanto mais útil, mais aprendida e maior a sua necessidade e procura).

 A diversidade não exclui, por natureza, o desaparecimento de uma ou várias línguas, por baixa consideração social pelos próprios falantes, por que pouco unificadas internamente, sem correspondência com o poder económico, político, educacional ou social, ou por um número insuficiente de falantes.

O que também não exclui a necessidade de um debate sério sobre a questão da diversidade linguística, mesmo em países democráticos e pluriculturais, defensores das mais amplas liberdades e diversidades, nem sempre alheios a assimetrias de relações de poder em termos linguísticos, de etnicidade ou de raça, tentando explicar o crescimento e importância de certas línguas, com o argumento da superioridade de um povo, de uma raça ou religião.   

 

27.12.2016

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXI - A TORRE DE BABEL LINGUÍSTICA EUROPEIA E O BILINGUISMO 

 

A União Europeia tem vinte e quatro línguas oficiais: o português, espanhol, francês, italiano, romeno (línguas românicas), o inglês, alemão, neerlandês, dinamarquês, sueco (línguas germânicas), o polaco, checo, búlgaro, eslovaco, esloveno, lituano, letão, croata (línguas eslavas), o finlandês, húngaro e estoniano (línguas úgricas), o grego (língua helénica), o gaélico irlandês (língua celta) e o maltês. Em que cinco línguas se repetem: o alemão (Alemanha, Áustria), o francês (França, Luxemburgo, Valónia Belga), o inglês (Reino Unido e Irlanda), o neerlandês (Holanda e Flandres belga) e o grego (Grécia e Chipre). A que acresce, em toda a Europa, o russo, bielorusso, ucraniano, sérvio, bósnio, macedónio, montenegrino (eslavas), o islandês, norueguês, albanês e o turco, num total de trinta e cinco idiomas oficiais. Em que o alemão, francês e italiano se voltam a repetir (Suíça). Sem esquecer a língua russa (Rússia e Bielorússia), romena (Roménia e Moldávia), turca (Turquia europeia e Chipre), sérvio (Sérvia e Bósnia- Herzegovina) e croata (Croácia e Bósnia-Herzegovina). Na zona euro, temos o alemão, esloveno, eslovaco, espanhol, estoniano, finlandês, francês, grego, italiano, letão, lituano, maltês, neerlandês e português.  Em termos populacionais, o idioma mais falado da UE é o alemão, seguido do francês e italiano. A nível europeu, o russo ocupa o primeiro lugar, o alemão o segundo, seguindo-se o francês. Na zona euro, o pódio vai para o alemão, francês e italiano.

 

É um pressuposto culturalmente aceite que todas as línguas têm, no essencial, a mesma dignidade, merecimento e valor quanto à sua proteção legal, desde logo segundo o pensamento oficial da Unesco. A pluralidade e diversidade linguística da Europa e da UE são uma riqueza, apesar da língua franca e global por excelência (o inglês), ser um meio preferencial e universal de comunicação.

 

Entre a unicidade sem unidade, a diversidade sem unidade e a unidade com diversidade, importa privilegiar esta terceira via, entre os dois extremos, uma solução de síntese.

 

Há ainda uma tendência crescente, cada vez mais generalizada e presente, para a afirmação do bilinguismo, através do idioma materno e de uma segunda língua. A coexistência ou uso concomitante de duas línguas por um falante, grupo ou comunidade, segundo exigências do meio em que vivem, ou de situações específicas, conduz ao ensino, oficial ou não, de uma língua estrangeira, além da língua materna. Como segundo idioma, o inglês tomou, nos nossos dias, definitivamente a dianteira, uma língua coloquial e franca. Apesar de ultrapassada, em falantes nativos, pelo russo, alemão, francês e italiano na Europa, pelo alemão, francês e italiano na UE, pelo alemão, francês, italiano, espanhol, neerlandês, grego e português na zona euro. Tendo o Reino Unido optado pela separação da UE (“Brexit”), poder-se-á pensar que o inglês passará a ser uma língua quase exterior, dada a minoria de irlandeses que a têm como oficial. O que não é verdade, dado que em termos globais, nos planos económico, demográfico, científico e político, o que conta é o mundo e não a UE ou a Europa, onde os nativos anglófonos contam com as vantagens e vanguardismo dos Estados Unidos da América.

 

Afinal, a existência da diversidade, da unidade na diversidade, incluindo o bilinguismo, afastam o regresso à língua única, ao seu mundo monopolizador e redutor, afirmando-se e ouvindo-se cada um na sua própria língua, na sua diversidade e particularidade, mas também numa outra língua, exterior à nativa e materna.

 


20.12.2016
Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XX - DA DIÁSPORA E DIMENSÃO DE MERCADO        
                                           

Pelos mais de duzentos milhões de falantes distribuídos por vários continentes, a língua portuguesa produz, necessariamente, curiosidade e conhecimento, sendo compreensível que falantes externos ao seu espaço físico e linguístico a ele queiram ter acesso, no âmbito das suas várias manifestações de produção económica, científica, tecnológica, cultural, desportiva. Disseminada por oito países em quatro continentes, é não só uma língua global e de comunicação internacional, mas igualmente transcultural e transcontinental. Como uma língua em crescimento demográfico, de populações e países maioritariamente jovens, também tem disponibilidade para crescer como língua estrangeira e de exportação, conjugando-se os fatores económicos e políticos potenciadores do desenvolvimento dos países seus falantes.

A que acresce uma diáspora portuguesa, que se converte em lusófona e contemporânea, em que para além de ser o idioma de mais de cinco milhões de emigrantes e cidadãos de ascendência portuguesa, há que contar com as deslocações de emigrantes de outros países lusófonos, em especial do Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde, com todas as consequências daí derivadas, a médio e longo prazo, para a difusão mundial do nosso idioma comum.

A que corresponde um mercado de grande dimensão num espaço geograficamente descontínuo e de perfil variado, dando-lhe maior dinamismo e podendo suscitar, no futuro, uma acumulação de oportunidades de mercados relevante. Há comunidades lusófonas e lusófilas crescentes, pela Europa, Américas, África, Ásia e resto do mundo, que fazem o culto do mercado da saudade, de laços afetivos, visitas regulares e apetência por produtos lusófonos, quer em termos alimentares, gastronómicos, culturais, turísticos ou outros.  

A língua portuguesa é ainda língua oficial, de trabalho ou de tradução obrigatória, em várias organizações internacionais, como a União Europeia, a Unesco, a União Africana, o Mercosul, a Organização dos Estados Ibero-Americanos, a Organização dos Estados Americanos, entre outras, sendo crescente a implementação para que seja idioma oficial da Organização das Nações Unidas, com a perspetiva de remodelação do seu Conselho de Segurança, em que o Brasil seja parte integrante.

Estudos tendo por fim a divulgação da cultura e da língua portuguesa no estrangeiro, concluem que representa 17 por cento do produto interno bruto nacional, havendo um aumento significativo do português como língua de trabalho, de comunicação e de viagem, com projeções de maior valor, no futuro, a que não será alheio a força crescente, na área internacional, de Angola e do Brasil, em especial deste último. Numa perceção da língua em geral no exterior e em termos literários, o inventário é liderado pelos portugueses Fernando Pessoa e José Saramago, à frente do brasileiro Paulo Coelho, um recordista de vendas. Havendo, noutras áreas, referências a Lula da Silva, bem como aos futebolistas Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo, do Brasil, e a Luís Figo e Cristiano Ronaldo, de Portugal.

Para a dimensão de mercado, é fundamental uma marca distintiva que faça sobressair o nosso idioma no espaço da produção contemporânea. Em termos artísticos, o agrupamento musical português mais internacional de sempre, os Madre Deus, sempre cantaram em português e fizeram o culto da nossa música, o que de outro modo, para eles, não faria sentido. Para Mariza o facto de cantar em português nunca a impediu de ter uma carreira internacional de sucesso. Amália internacionalizou-se cantando em português, internacionalizando o fado. Veja-se, agora, a internacionalização de Joana Vasconcelos, com esculturas chamativas e impactantes, onde a marca portuguesa está sempre presente em interação com os tempos atuais. Atente-se na música popular brasileira, nos movimentos da bossa nova e do tropicalismo, onde Vinícius de Morais, Dorival Caymmi, Tom Jobim, João Gilberto, Caetano Veloso, Chico Buarque, Toquinho, Gal Costa, Maria Bethânia, entre outros, universalizaram a língua portuguesa exportando-a e originando inúmeros lusófilos. Sem esquecer a cantora e atriz portuguesa, naturalizada brasileira, Carmen Miranda.

Não é apagando as marcas de origem que um artista singra internacionalmente. Antes sim, tendo voz própria e uma marca distintiva que o diferencie com qualidade na diversidade, diferenciando e não banalizando, nem massificando o que é genuíno e como tal deve ser trabalhado, evoluindo e enriquecendo-o, e não apenas normalizando-o, ficando tudo igual, em todo o lado. Tentando, sem mais, equiparar-nos aos outros, normalmente aos tidos como mais evoluídos, abdicando do que nos distingue, além de provinciano, revela incapacidade de nós próprios. Afinal, a capacidade em assumirmos e valorizarmos o que nos distingue é a mais universal das linguagens.

 


13.12. 2016
Joaquim Miguel De Morgado Patrício