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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

4. À ELIS REGINA DE BOA MEMÓRIA

 

Deixou-nos cedo, com apenas 36 anos, em 19.01.1982, há 36 anos.

 

Dizem que tinha uma mágoa que não foi curada, finando ao fim da tarde, numa hora tramada, por conta da cocaína e bebidas alcoólicas.

 

Tida como um animal de palco, para muitos a melhor cantora brasileira de sempre, teve inúmeros e memoráveis sucessos: Arrastão, Falso Brilhante, Águas de Março, Cartomante, Romaria.

 

Pessoalmente sempre gostei muito de Casa no Campo. E permanece. 
Tenho-a como uma canção fetiche, mágica. Uma canção refúgio, de abrigo, nostálgica. De redenção, salvação, compensação, pacificação.   

 

Com frases admiráveis, espantosas, fascinantes. Que condensam, em si mesmas, o querer de um projeto de vida exequível, fazível, realizável. Com os amigos do peito, discos e livros, um filho de cuca legal, compondo rocks rurais, numa casa do tamanho ideal onde se possa ficar no tamanho da paz, pau-a-pique e sapê, com o silêncio das línguas cansadas e a esperança de óculos, com carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim...   

 

Uma canção que idealiza como ideal a ideia de que idealmente deveríamos viver todos no campo, em liberdade, à solta, com os limites do corpo, os animais, as plantas, os nossos amigos, discos e livros e nada mais.
Uma casa no campo,  

 

Onde eu possa plantar meus amigos   
Meus discos e livros  
E nada mais.   

 

Amigos, discos e livros. Que síntese final tão feliz.   

 

Numa interação entre a natureza e o conhecimento, entre o viver no campo, o culto da amizade, a música e a literatura. Mesmo sem amigos, pode-se viver, rodeado de livros e música, vivendo-se só, mas não sozinho, com carneiros e cabras, plantando e colhendo a pimenta e o sal, embora o ideal seja com amigos e um filho de um cuca legal.

 

Mesmo quando a família, no seu esplendor, não regressa, porque os filhos voaram, fizeram-se à vida, mesmo que os netos não venham, ou mesmo vindo furtivamente, não os podemos ter perto, ou se a nossa amada (ou amado) finou, amigos, discos e livros podem ficar e superar o vazio.

 

Com a tua voz calma, serena, pacífica, que de repente se agudiza, é incisiva e cortante quanto basta e é preciso, amparada pelos compositores Rodrix e Tavito.

 

Obrigada Elis! 

 

16.01.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXIII - RENASCIMENTO - II

 

Cosmopolitismo, universalidade, globalismo, multiplicidade, uma inesgotável capacidade para todos as atividades do engenho e arte, é uma das caraterísticas de marca do homem do Renascimento. Leonardo da Vinci é tido como o seu excelso exemplo. Ao arrepio da retórica e ensino livresco tradicional, tem a observação real, o contacto direto com a natureza e a experiência, como pressuposto primordial da ciência e da formulação das leis científicas. É simultaneamente astrónomo, escultor, engenheiro, geólogo, investigador, matemático, médico, pintor, poeta. Um sábio, um génio, um polímata, de uma curiosidade implacável, de um infinito apetite de conhecimento, de uma imaginação admirável, que imaginou o avião, o carro de combate, o submarino.

 

Como cientistas do Renascimento destacam-se também o polaco Copérnico, o alemão Kepler e o italiano Galileu. Como humanista refira-se também Erasmo de Roterdão, amigo do grande representante do humanismo em Portugal Damião de Góis. 

 

As obras renascentistas são uma fusão e síntese de elementos da antiguidade clássica, medievais e modernos, dado que continuando os temas medievais, que as antecedem, se inspiram no património e saber da antiguidade greco-romana, tratando-os de modo original e atualista, reabilitando-os e fazendo-os renascer.

 

Outro génio artístico renascentista foi Miguel Ângelo. Cristão de inclinação platónica, foi arquiteto, escultor, poeta, pintor e urbanista.

 

Na escultura faz-se o culto das figuras e formas nuas, de linhas belas, esbeltas, robustas, vincadas e sinuosas do corpo humano. Com inspiração na arte clássica grega, reverenciadora da beleza, do belo, do equilíbrio, da perfeição, do absoluto, com representações anatómicas perfeitas, chamativas, sedutoras, sensuais, voluptuosas, divinas. Na fase final do helenismo, a arte grega degradou-se, entrando em declínio e desequilíbrio, vindo o equilíbrio a ser retomado no Renascimento. Onde sobressai Miguel Ângelo, com figuras atléticas, belas, tipo homem-divinizado, como no seu Cristo de Minerva e na escultura de David.

 

Na pintura procura-se e descobre-se a terceira dimensão, desconhecida da Idade Média. Para os artistas medievais, pessoas e coisas aparentam estar à mesma distância de quem as observa. Para os renascentistas, existem três dimensões, onde subjaz a ideia da profundidade (além da largura e altura), a sua maior descoberta, com cada coisa à devida distância, com determinadas coisas e pessoas que parecem estar mais próximas de nós e outras mais afastadas, tentando exprimir fielmente a realidade em toda a sua beleza, em simultâneos jogos de luz e sombras. As figuras são corpos localizados espacialmente. As cores não são uniformes. O convencionalismo e dogmatismo religioso é humanizado. Valoriza-se a natureza e o humanismo. Exemplificam-no A Virgem e o Menino com Santa Ana, A Virgem dos Rochedos e a Gioconda, de Leonardo da Vinci. Outro inimitável artista foi Rafael, de influência platónica. 

 

Em Portugal são tidos como cientistas do Renascimento Pedro Nunes, Garcia de Orta, Duarte Pacheco Pereira e D. João de Castro. Gil Vicente e Camões como expoentes da literatura renascentista. O estilo manuelino, baseado na observação da natureza,  experiência e método experimental, caraterísticas fundamentais que o Renascimento defendia, é tido como um estilo renascentista, de feição especial, ligado aos descobrimentos, em que motivos náuticos como cordas, boias, redes, conchas, corais, plantas e seres exóticos se impõem, diferenciando-o. 

 

O Classicismo continuou a herança do Renascimento, fazendo o culto da tradição greco-latina, tentando reerguer o prestígio antigo da Antiguidade Clássica tendo, como ideal clássico, regras que se deviam acatar para alcançar o Belo, com gosto pela linha pura, frase simples, palavra própria e razão humana, tendo horror ao vago e retorcido, trinfando na segunda metade do século XVII, com Luís XIV, em França.

 

Porém, já em pleno Renascimento, o exagero de formas, nomeadamente na arquitetura e escultura, patente na estátua Moisés, de Miguel Ângelo, abriu caminho para um novo estilo artístico conhecido por barroco. 

09.01.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXII - RENASCIMENTO - I

 

À volta de 1500 surge um movimento literário, artístico e científico herdeiro e continuador da Idade Média, mas que, ao mesmo tempo, a repudia, ao querer fazer renascer o mundo antigo, em especial a antiguidade clássica da Grécia e de Roma. Imita-se, em primeiro lugar, os gregos e os romanos, criando depois o homem ideal do renascimento: cosmopolita, universal, completo, perfeito, a mais bela criatura divina, obra suprema de Deus, o melhor na filosofia, nas letras, na ciência, nas artes em geral, admirado, famoso, poderoso e rico.   

 

Transita-se do teocentrismo dominante na Idade Média, em que Deus é o centro omnipresente e total, para o antropocentrismo, que atribui ao indivíduo uma posição de centralidade em relação a todo o universo.

 

O humanismo, que etimologicamente significa culto, civilizado, foi um fator decisivo e influenciador do Renascimento, prestando tributo às letras, belas artes e ciência, ao estudo dos problemas de que o ser humano é o centro, reabilitando a antiguidade grega e latina, pensadores e filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, escritores como Homero, Cícero e Virgílio, nomes como Ovídio, Suetónio e Tito Lívio, sem esquecer a época de Péricles (Grécia) e de Augusto (Roma).

 

Foi em Itália, pátria da antiga civilização romana, que surgiu o movimento humanista, florescendo em Florença, Génova, Milão, Pádua, Pisa, Roma e Veneza, tendo como precursores Dante, Petrarca e Bocácio, contagiando as elites, governantes, desde papas, príncipes, banqueiros, senhores da guerra e da paz, riqueza e poder, detentores do poder espiritual e temporal, surgindo novos mecenas, protetores das letras, artes e ciência.

 

Cria-se uma união entre o espírito religioso e a curiosidade profana, com o reabilitar, por um lado, da cultura e herança mitológica greco-latina, até então tidas como pagãs e opostas ao cristianismo, e, por outro, com o redescobrir das ciências exatas, experimentais e naturais, bem como de disciplinas esotéricas, como a alquimia e a astrologia.   

 

Homens da Igreja, como S. Bernardo e S. Tomás de Aquino, tendo estudado e lido literatos e poetas da antiguidade clássica, procuraram integrar o humanismo no cristianismo. O mesmo sucedeu com os monges, nos conventos, ao copiarem obras famosas da antiguidade, salvando-as do esquecimento. 

 

A corrente humanista dissemina-se em visões diferentes. Para os que admiram Platão, sendo o mundo terreno uma rude cópia de um outro verdadeiro e eterno, veem no seu mentor um antecessor de Cristo e no seu pensamento um meio do ser humano se elevar até Deus. O amor humano era uma faísca do divino. A inteligência humana uma fagulha da divina. Os mortais, uma imperfeição da perfeição divina. O culto do amor, da beleza, da bondade, da justiça e da razão, feito pelos autores clássicos, como Platão, aproximava o humano do sagrado e do cristianismo. Tomás Moro, na sua Utopia, inspira-se em Platão, ao imaginar uma sociedade ideal, perfeita, numa ilha longínqua que não existe em lado algum.

 

Outros depuraram e cristianizaram a doutrina de Aristóteles, transformando o ensino em habilidosos raciocínios fundados em silogismos, sem abertura para novos voos que o humanismo explorava. Outros ainda, como Maquiavel, baseado na história de Roma e na Política de Aristóteles, escreve O Príncipe, em que razões de Estado justificam os meios para atingir os fins.

 

Mas surgiriam academias e colégios subsidiados por príncipes, reis e mecenas, onde tudo era debatido, ultrapassando a tradicional escolástica universitária, em que a ciência evoluiria a par da evolução filosófica, sendo Leonardo da Vinci tido como o seu máximo representante.

 

02.01.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

Cimabue.JPG

 

      XXXI - IDADE MÉDIA

 

Platão interpretava o mundo terreno, em que vivemos, como uma cópia grosseira, imperfeita, findável, deteriorável, transitória e mortal de outro mundo eterno, de beleza e perfeição: o mundo das ideias. Este mundo ideal ajustava-se com a ideia de céu, de paraíso, com a criação divina, sendo esta entendida, de certo modo, como a concretização material das ideias de Deus.

 

A obra deste filósofo grego influenciou decisivamente a filosofia cristã de Santo Agostinho e de outros mentores da Igreja, em que os crentes aspiram a um mundo de bem, beleza, eternidade e perfeição.

 

Aristóteles, ao invés de Platão, defendia que a beleza, a perfeição e outras ideias superiores se encontram neste mundo, podendo nele ser criadas por uma observação e experiência atenta e inteligente.

 

Influenciou grandes nomes como São Tomás de Aquino e Alberto Magno, que adaptaram a sua doutrina aos ensinamentos bíblicos, passando a ser conhecido por escolástico o ensino aristotélico, oficialmente aceite pela Igreja.

 

Fosse a opção filosófica mais abstrata e adequada a desviar da terra a atenção humana (platónica) ou mais ligada ao concreto, observação e experimentação (aristotélica), a igreja era o centro nuclear da vida de relação das pessoas e o lugar onde todas as populações medievais confluíam, mesmo quando surgiram as primeiras manifestações humanistas abrindo caminho para o Renascimento.

 

A arte em geral, quer numa perspetiva platónica ou aristotélica, era uma imitação ou representação, e mesmo se tida como engano ou uma saudável mentira, tinha por base o teocentrismo, a teocracia ou governo de Deus, tendo Deus como o centro de tudo.

 

Natural e lógico que na história, literatura, teatro, arquitetura, escultura, pintura e artes tidas como menores, a religião se entrelaçasse à vida, emoções e sentimentos das pessoas, com as cruzadas, temas de inspiração religiosa (milagres, mistérios, vida de santos), catedrais românicas, góticas, escultura e pintura religiosa, cuja missão era transmitir ao público analfabeto e inculto os dogmas e verdades da fé, em que baixos-relevos, frescos e vitrais eram “A Bíblia dos que não sabem ler”

 

Há uma exaltação e glorificação do sagrado, do divino, ora convidando ao intimismo, recolhimento e à prece do românico, ou à alegria e otimismo do gótico.

 

Na pintura plana medieval, de inspiração cristã, contemplação, celebração e louvor do divino, as coisas apresentam-se à mesma distância do observador, de modo uniforme, em largura e altura, em duas dimensões, sem profundidade e sem as leis da perspetiva.

 

A Virgem com o Menino Jesus, rodeada de Anjos, de Cimabue, do século XIII, é um exemplo, em que sobressai como fundo uma superfície dourada e uniforme.

 

Também a pintura medieval das igrejas ortodoxas são exemplos representativos.

 

26.12.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXX - A ARTE COMO IMITAÇÃO EM PLATÃO E ARISTÓTELES

 

1. Para Platão a arte é uma falsidade, porque uma aparência, uma imitação da realidade, um engano, uma mentira. A imitação do real, por mais perfeita que seja, é sempre ilusória, inviabilizando a compreensão do real, o conhecimento da essência das coisas, no seu sentido objetivo, real e verdadeiro.
Se para Platão o mundo concreto e sensível em que vivemos já é uma cópia do que tem como real e verdadeiro, em que os humanos e demais seres da natureza são cópias sensíveis de modelos originais de um mundo superior e inteligível, a arte afasta-se ainda mais do real, dado que imita a cópia, uma vez que a realidade sensível já é uma imitação do inteligível.   

O pintor, por exemplo, é um fingidor, imitador, mentiroso, falsificador da realidade, como o poeta também o é, simulando ambos para se poderem exprimir esteticamente, a exemplo de Fernando Pessoa, quando escreve:

 

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente, 
que chega a fingir que é dor   
a dor que deveras sente.

 

E embora as imagens do tempo de Platão, comparativamente com as dos nossos dias, sejam uma brincadeira, por certo se “suicidava” se confrontado com a manipulação das imagens televisivas, cinematográficas, de propaganda e outras, que na sua realidade virtual nos condicionam permanentemente. 

 

2. Aristóteles, discípulo de Platão, defende que a imitação é benéfica, uma fonte de aprendizagem, de prazer, de caráter pedagógico, uma criação humana própria da nossa natureza.
Ao invés da negatividade não saudável associada à imitação platónica, a arte funciona na base de uma imitação e saudável mentira, sendo a representação artística uma representação com verosimilhança. Quando no cinema alguém dá um murro, o som respetivo não corresponde ao real, mas é verossimilhante, por isso o aceitamos, mesmo que corresponda a uma explosão de dinamite.

Sendo a arte uma produção humana, pode imitar a natureza, o material, o racional, o verosímil, o que está ao nosso alcance, mas também abordar e interpelar o espiritual, o imaterial, o infinito, o inatingível, o irracional, o inverosímil, suprindo o que está ausente no mundo natural. Que pode ter a utilidade prática de uma bênção, uma compensação, um refúgio, uma redenção, uma salvação. 
Entre a dissemelhança de Platão e a verossimilhança de Aristóteles, há o afastamento cada vez maior do real e a possibilidade permanente de a imitação criativa humana ser cada vez mais real. 
Ao mundo das ideias, que nos transcende, contrapõe-se o mundo concreto e terreno, onde vivemos, lembrando-nos uma obra prima de Rafael, “A Escola de Atenas”, de 1509, em que ao centro está Platão, de toga vermelha, e Aristóteles, de toga azul, dialogando, apontando o primeiro para cima, para o Céu, o mundo das ideias, e o segundo para baixo, para a Terra, o mundo humano e material, em que vivemos. 

19.12.2017 
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

3. UNIVERSALISMO VERSUS RELATIVISMO NOS DIREITOS HUMANOS (II)

 

3.1. Segundo uns, os direitos humanos são uma aspiração intemporal, tão antiga como a antiguidade humana. Segundo outros, um produto recente, nascido da colaboração entre várias culturas. Para outros, são direitos de génese ocidental, uma imposição de um modelo civilizacional das principais potências ocidentais.
É verdade que são um produto da Europa moderna, dado que a formulação da dignidade humana em termos de direitos subjetivos dos indivíduos pertence à modernidade europeia. O Renascimento, de génese antropocêntrica, recupera a confiança na primazia da pessoa assumidamente livre e liberta dos embaraços ditados pela tradição. A Reforma, combatendo a autoridade da igreja, defende o princípio do livre acesso à verdade religiosa, de que derivaria o direito à liberdade de consciência, tido como o primeiro entre os direitos humanos a ter consagração legal.
Laicismo, tecnicismo, humanismo e individualismo são caraterísticas dos direitos ocidentais, extensivas aos direitos humanos, tendo estes como pressuposto fundamental a Pessoa, a sua autonomia, liberdade e dignidade, assente na exigência de respeito pela dignidade da pessoa humana, ser único e irrepetível, titular de direitos inalienáveis e centro nuclear e total de todo e qualquer sistema jurídico.
Centram-se na dignidade do ser humano, antecedem-se e antepõem-se ao Estado, aos poderosos e agentes de autoridade, sendo uma limitação ao exercício do poder, limitando-o, protegendo os indivíduos e grupos, por maioria de razão os mais vulneráveis, não podendo ser suprimidos nem negados, sendo iguais e interdependentes. No confronto entre os mais fortes que têm o poder e a fragilidade do indivíduo e dos mais fracos, sobressai a dignidade da pessoa humana como um núcleo central, indivisível e inviolável.

 

3.2. Esta sua essencialidade que se pretende comum e universal a todos os humanos, pode não equivaler sempre a uma uniformidade e inflexibilidade, podendo revestir a forma de direitos universais contextualizados que assumem a sua eficácia por particularismos específicos das várias diversidades culturais.
Imprescindível é manterem a sua essencialidade, dado que a apelativa sedução do relativismo cultural levada às suas últimas consequências pressupõe que, por respeitar e tolerar sempre o diferente, aceita a intolerância, o terror e a violência, uma vez que a pura aceitação e mero reconhecimento da cultura do outro, conduz inevitavelmente a que se aceitem culturas que não reconhecem nem respeitam os outros.
Será em nome da essencialidade e universalidade humana e humanista, e não do relativismo e da racionalidade, que não teremos de excluir as pessoas incapazes da titularidade de tais direitos, atenta a sua natureza inalienável e indisponível.
Se os direitos humanos têm a sua génese na racionalidade (kantiana) do ser humano, que fazer com aqueles que nunca tiveram ou perderam as suas capacidades racionais, como os bebés, deficientes, pessoas com Parkinson, Alzheimer, ou incapacidades similares? Legitima-se a sua exclusão em nome de uma ausência de capacidade racional potenciadora, em muitas situações, de razias genéticas e abates seletivos? 
Se tudo é relativo, sendo uma falácia falar-se em essencialidade e universalidade, absolveremos e fecharemos os olhos a violações flagrantes da dignidade de toda a pessoa humana, desde os crimes contra a humanidade, como o genocídio, à proibição da liberdade de expressão, que uma menor se recuse a um casamento forçado contratado pelos pais, a sofrer uma mutilação sexual feminina?
Em qualquer situação, não devemos prescindir, aqui, agora e sempre, de referentes comuns e universais a todos os seres humanos. Mesmo que forçados a dialogar por potenciais novos acordos universais tendo por fim a resolução de problemas comuns, como a defesa do meio ambiente, proliferação nuclear e a engenharia genética.
Afinal, antes de sermos portugueses, ibéricos, europeus, cristãos, asiáticos, africanos, americanos, australianos, brancos, negros, amarelos, budistas, muçulmanos, somos todos, sem exceção, seres humanos. 

 

12.12.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

2. UNIVERSALISMO VERSUS RELATIVISMO NOS DIREITOS HUMANOS (I)

 

A 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, positivando-os em normas universais, também consagradas e especificadas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Merece também referência a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e a criação do Tribunal Penal Internacional. 
Tidos como direitos iguais e inalienáveis, o artigo 1.º da DUDH proclama: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”.
Será que os direitos humanos são mesmo universais? Poderemos continuar a defender a sua universalidade, ou seja, que são direitos comuns a todas as pessoas e a todos os lugares? Mesmo sabendo que no plano mundial a sua natureza universal é constantemente ameaçada e é dececionante o seu efetivo cumprimento? 

 

2.1. A TESE UNIVERSALISTA 

Há uma identidade humana universal, em que a unidade do género humano se sobrepõe à diversidade das culturas humanas. É por referência a essa identidade humana comum e universal, bem como à irredutível dignidade da pessoa humana, comum a todas as pessoas e sustento da profunda unidade do género humano, que se justifica a natureza universal dos direitos humanos. Titulados por todos os seres humanos em virtude dessa condição, caraterizam-se pela universalidade, sendo esta uma sua caraterística e condição indispensável. 
A universalidade dos direitos humanos não significa uniformidade, rigidez ou inflexibilidade, nem impele os seres humanos a abdicarem da sua cultura, sendo compatíveis com os particularismos nacionais, regionais ou locais determinados pelas diferenças culturais, determinando as formas concretas que assumem e a sua eficácia, dado que a diferenciação cultural é enriquecedora para a sua concetualização.
Fala-se em direitos universais contextualizados, numa noção multicultural, numa mestiçagem, em equivalentes homeomorfos e no princípio da essencialidade dos direitos humanos, de modo a poder definir-se um conjunto de valores que sejam partilhados por todas as culturas mundialmente disseminadas. Um modelo mínimo ao alcance de todas as culturas, em que o seu fundamento reside em valores próprios da vida comunitária enquanto tal, independentemente da forma adotada. Valores que sejam “cross-cultural universals”, nas palavras de Alison Dundes Renteln.

 

2.2. A TESE RELATIVISTA  

A sua origem ocidental e a formulação concreta, concetual e linguística, encontrada pelo Ocidente para prestar homenagem à dignidade da pessoa humana, são causa de fortes críticas de autores relativistas contra a sua pretensa universalidade. Não são mais que uma retórica específica do Ocidente para homenagear a dignidade humana, traduzindo-se a sua universalidade numa arrogante expressão pública de aparente superioridade, numa racionalidade neocolonialista e unilateral de imposição de uma verdade, numa postura de ausência de respeito pela dignidade de outros seres humanos.
Trata-se, para os relativistas, da imposição de um modelo civilizacional liberal e ocidental, de uma inadmissível intromissão na soberania estadual, dado que não sendo a cultura universal, de igual modo os direitos humanos o não poderão ser. 
Assim, a prioridade dada ao indivíduo sobre o grupo é um desvio da natureza humana, sendo indefensável ter a pessoa humana como anterior à comunidade, acima ou independente dos seus valores. O individualismo é tido como responsável direto pela alienação e desenraizamento das pessoas, enquanto indivíduos, o que só pode ser superado pela recuperação dos valores comunitários, subordinando os interesses individuais aos do grupo. O que é comprovado pelo confronto entre a génese antropocêntrica da cultura ocidental, centrada na primazia do indivíduo, com a cultura africana ou asiática, aderentes de ideologias comunitaristas.
Não existindo uma única forma de ser humano, nem uma só maneira de o proteger através do Direito, são inaceitáveis e ilegítimas qualificações tendo como universais os direitos humanos, tidos como um produto histórico da civilização ocidental.
Entre o universalismo e o relativismo, há formulações intermédias, mas é entre o entendimento universalista e relativista dos direitos humanos que os seus defensores e críticos se posicionam.

 

05.12.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXX - OBSERVAÇÕES E CRÍTICAS AO PESSIMISMO DE FISHER

 

1. Quanto à hipótese de desaparecimento do português, avançada por Steven Fischer, vale o que vale, como tantas outras, registando a História muitas previsões. Por exemplo, há cem anos o francês era a língua diplomática por excelência, com a correspondente projeção internacional, o que hoje não sucede, com a consagração do inglês como língua diplomática universal e global.

Em face do processo de globalização, assiste-se simultaneamente ao crescimento de expressões regionais e nacionalismos, incluindo o fomento de vários idiomas, apoiados na internet, que curiosamente muitos defendem ser o maior veículo de homogeneização cultural.  

 

2. Tendo o Brasil 40% da população latino-americana, sendo um país continental onde cabem vários dos países latino-americanos que o rodeiam, uma potência emergente, o maior poder económico latino-americano, exportando mais mercadorias culturais do que aquelas que importa, vivendo rodeado há centenas de anos de países falantes de espanhol, não faz sentido dizer que o português aí desaparecerá no futuro, sendo substituído por outro idioma, o portunhol. Se assim fosse, e as coisas fossem tão  simplistas, também o português já poderia há muito ter desaparecido de Portugal e ter sido substituído pelo espanhol, se nos lembrarmos que há centenas de anos a Espanha é o único país com quem partilhamos fronteira terrestre, de maior dimensão e mais populoso. E que entre 1580 e 1640 o nosso idioma correu o risco de se tornar uma língua ibérica menor, subjugado pelo castelhano para fins oficiais e diplomáticos, sendo hoje dos mais globais e falados mundialmente.
Também não vemos fundamento para que exista uma tendência de separação mais acentuada entre o português do Brasil e o de Portugal, e que o caso do inglês dos Estados Unidos e Reino Unido seja diferente, porque o inglês britânico e norte-americano se estão aproximando pelos programas de televisão, filmes e músicas que a América exporta aos milhares; dado que igualmente em Portugal a influência cultural e audiovisual do Brasil é cada vez maior, nomeadamente através da música, telenovelas,  outros filmes, séries televisivas e da cada vez mais numerosa colónia de emigrantes brasileiros, em que a língua é sempre fator determinante. A que acresce, com tendência crescente, a legendagem em português do Brasil, entre nós, de eventos culturais no cinema, ópera, concertos. Sem esquecer a tradução, para o nosso idioma, via Brasil, de todo o tipo de obras e literatura.
Convém referir que Steven Fischer fala do Brasil como uma espécie de monopólio da língua portuguesa, falando ao de leve de Portugal e ignorando os países africanos lusófonos omitindo, quanto a estes, as suas grandes potencialidades, demográficas e outras, em especial de Moçambique e Angola, designadamente desta, além dos milhões de lusófilos disseminados pelo mundo, razão pela qual o futuro do português não está apenas dependente da América Latina, apesar de agora aí ter o seu centro.
Tudo a demonstrar que muitos fatores terão de ser ponderados e outros surgirão nos próximos trezentos anos, pelo que a previsão do fim do português no Brasil tem tanto valor como o do fim de qualquer outro dos idiomas mais falados no mundo. 

 

3. Quanto a previsões, há que ter presente que nos EU a comunidade latina é muito representativa, nomeadamente a hispânica, pressionando para que o espanhol seja considerado o segundo idioma oficial, pelo que, mesmo aí, outros idiomas podem ultrapassar o inglês, como o espanholês, à semelhança do que Fischer diz do portunhol em relação ao Brasil.   
Que assim pode ser, refira-se a opinião do linguista inglês Nicholas Ostler, autor de “Empires of the Word” (Impérios da Palavra), segundo a qual a língua inglesa não está segura, pelo menos a longo prazo, considerando que de futuro outras línguas irão apanhar e ultrapassar o inglês, uma vez que a população que o tem como língua materna não cresce ao mesmo ritmo da de outras, como o espanhol, o árabe e o português.    Prevê, ainda, que o que deu prestígio à língua inglesa nos séculos XIX e XX, caso da ciência, entretenimento, tecnologia e grandes empresas, não vai durar para sempre, o que é agravado pelo avanço das tecnologias, prevendo-se o aparecimento dentro de uma ou duas gerações de aparelhos de interpretação e tradução automática.
Com os avanços tecnológicos é possível que no século XXI surjam máquinas de tradução e interpretação automática, tornando desnecessário, em termos de comunicação, o conhecimento mútuo de uma língua franca, estando as Nações Unidas a desenvolver o projeto “Universal Networking Language” (UNL), uma linguagem universal de tradução automática para uso na internet e em computadores, usando cada pessoa o seu idioma, o que não é tido em atenção por Fischer. 

 

28.11.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXIX - OBSERVAÇÕES E CRÍTICAS AO OTIMISMO DE MORENO


1. Embora sugestiva e sedutora, tendo por base, no essencial, uma perspetiva comercial e de mercado, o otimismo de Moreno pode ser desde já criticado pelo facto de entendermos que acredita em demasia na bondade e predisposição dos povos hispânicos, falantes de espanhol (a começar por Espanha), quererem aceitar a língua portuguesa como língua global, dada a mais valia que tem, ao ser falada, de com ela se perceber 90% do castelhano, 50% do italiano e 30% do francês. Independentemente de tal caraterística ser ou não exclusiva do nosso idioma, mesmo que o seja (o que desconhecemos), não vislumbramos que esse bloco linguístico esteja disposto a assumir o português como segunda língua visando, no futuro, a solidificação da Iberofonia ou Comunidade Iberófona, promovendo-se, assim, um “bilinguismo inteligente”, tendente ao reconhecimento da língua portuguesa como o “Ferrari” do comboio linguístico deste século.

A tradicional mentalidade imperial castelhana, o seu centripetismo e força centrípeta, a que não será alheia uma certa altivez ou orgulho ostensivo, tanto mais que atualmente são em maior número os falantes de espanhol que os de português, são sérios obstáculos a que se concretize o reconhecimento dessa mais valia tida como caraterística intrínseca do nosso idioma. 

Aliás, se fosse intenção dos falantes de espanhol, a começar pelos próprios castelhanos, de Castela, tirar proveito dessa mais valia, já há muito o teriam feito, mesmo para quem tenha como dado assente que é mais fácil quem fala português entender o espanhol do que o inverso. Ora, todos sabemos, por experiência própria, que é mais usual um lusófono tentar exprimir-se em castelhano, mesmo que não saiba, ou em portunhol, do que o inverso. 

 

2. As justificações poderão ser muitas, desde o ser mais difícil para os falantes do idioma vizinho entenderem ou falarem português, até à ausência de qualquer esforço nesse sentido, porque simplesmente presumem, por certo, que não vale a pena, não só porque português e espanhol são idiomas parecidos, porque o português uma língua menor, ou porque os falantes de português os entendem ou tentam entendê-los, mesmo quando de passagem ou de visita pela nossa própria casa, por exemplo, em Portugal.  Que assim é, os exemplos abundam, desde logo, entre nós, quando se veem falantes de espanhol de passagem, residentes ou a trabalhar no nosso país falando e escrevendo com naturalidade no seu idioma, tantas vezes sem concessão alguma ao uso de expressões em português, sendo mais fácil ver portugueses ou jornalistas portugueses a falar ou simular falar espanhol, inclusive intramuros. Já o mesmo não sucede quando lusófonos transitam, trabalham ou residem, por exemplo, em Espanha, onde na maioria dos casos, tendo como interlocutores espanhóis, se exprimem, ou tentam exprimir (mesmo não sabendo) em espanhol. 

Também é usual a maioria das nossas elites (políticas e outras) tentarem falar em espanhol ou portunhol, quando em países falantes de espanhol, fazendo-o mesmo em  Portugal; já o inverso não é verdade. 

A velocíssima rapidez com que falantes de português se adaptam ou tentam adaptar a um bom uso do idioma oficial de Espanha quando aí residem ou trabalham, é inversamente proporcional aos esforços que a maioria de falantes de espanhol fazem para se adaptar a um bom domínio do português em terras lusas. Além da ausência de reciprocidade, subalterniza-se o nosso idioma como uma espécie de dialeto do castelhano. No que respeita aos portugueses em geral, há aqui, por confronto, um complexo de inferioridade linguístico que contrasta com as manifestações desproporcionadas do nacional ufanismo. O que é extensivo a uma percentagem significativa de brasileiros.

Não faz sentido defender-se estarmos perante dois idiomas parecidos, de fácil entendimento entre ambos, quando essa realidade só funciona, normalmente, para um dos lados, nem nos parece ser essa a melhor maneira de preservar e divulgar a língua portuguesa.

Esta é uma das razões determinantes para o nosso ceticismo em relação ao otimismo de Moreno, pois se é a falar que as pessoas se entendem, não será assim que os falantes de espanhol assumirão e reconhecerão, numa primeira fase, a língua portuguesa como o idioma de futuro por excelência da globalização. 

 

3. O que não facilita nem possibilita que os falantes de inglês tomem consciência e percebam, fazendo contas, que o nosso idioma tem esse valor acrescentado, apesar de o português e o espanhol serem falados por 700 milhões de pessoas, sendo 1300 milhões se lhe juntarmos 600 milhões de monoglotas anglófonos, criando-se um mercado mais global.

Nem é de crer que a atual superpotência mundial (anglófona) promova a tal categoria o nosso idioma, pois para além de não ser a sua língua identitária, também não teria interesse que ao difundi-la o Brasil fosse o seu motor, porque um potencial concorrente. Brasil que, por sinal, alguns livros didáticos de conceituadas escolas norte-americanas, têm como um “reino da violência, tráfico, ignorância e um povo sem inteligência”. Ousando alguns editores não reconhecer a Amazónia e o Pantanal como territórios brasileiros. Defendem que desde os anos 80 a mais importante floresta mundial passou a ser da responsabilidade dos Estados Unidos e da ONU, sendo a chamada “PRINFA” (Primeira Reserva Internacional da Floresta Amazónica), fundada por a Amazónia estar localizada numa das regiões mais pobres do planeta “e cercada por países irresponsáveis, cruéis e autoritários”, com povos primitivos e sem inteligência (Jornal “Tribuna da Bahia”, Salvador, 22/12/2004).

O que releva, com inerentes adaptações, no que toca à China e à Índia, referidas por Moreno, no seu otimismo, que passariam a ser Sino-Hindi-Anglo-Iberófonos,  mantendo o seu idioma materno e reconhecendo o português como segunda língua e a única do mundo a excluir o monolinguismo. 

Parece-nos, pois, que seria necessário começar por uma real e efetiva afirmação dos países lusófonos e seu reconhecimento como tal em termos internacionais, não sendo suficientes construções teóricas que embora bem-intencionadas e positivas para o nosso ego, estão desfasadas da realidade.

Apesar de Moreno colocar o centro do “mundo que o português criou” no Brasil, descentrando-o e deslocalizando-o do continente europeu para o americano, para um gigante promissor, sem dúvida, fazendo lembrar compatriotas seus, como Gilberto Freyre, entre outros.               

 

21.11.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXVIII - UMA VISÃO PESSIMISTA

 

O americano Steven Roger Fisher, coloca a hipótese de no futuro a língua portuguesa desaparecer e ser substituída pelo portunhol. 

 

Argumenta que dentro de 300 anos o Brasil falará um idioma muito diferente do atual, em face da enorme influência da língua espanhola, tendo como provável que surja uma espécie de portunhol.

 

Além de fazer parte da própria dinâmica evolutiva das línguas, reforça a sua posição dizendo que o Brasil está rodeado de países falantes de espanhol, desde argentinos, uruguaios, chilenos, colombianos, bolivianos, paraguaios, peruanos e venezuelanos, que também irão usar expressões do português do Brasil, o que contribuirá para que haja uma fusão, com a agravante de ter os dois idiomas de origem ibérica muito parecidos.

 

Esta pressão de múltiplos países falantes de um mesmo idioma sobre um que tem um idioma diferente e parecido, aliada ao facto de existirem no mundo menos falantes de português do que espanhol, leva Fisher a ter como hipótese maioritária que o Brasil está destinado a trocar o seu idioma pelo portunhol. 

 

Não obstante, diz: “O português não será substituído pelo espanhol. O que irá acontecer é a mistura das duas línguas. Numa escala menor, é o que deve acontecer com o inglês também. Sem dúvida, o idioma que mais influencia hoje o inglês é o espanhol”.     

 

Embora considere que o português do Brasil e o de Portugal é a mesma língua, entende que há entre ambos grandes diferenças, apontando para a separação, se essa tendência se acentuar. Ao inverso do inglês, dado entender que o britânico e americano se aproximam cada vez mais, uma vez que a influência dos Estados Unidos é cada vez maior, desde o fim da segunda guerra mundial, através de filmes, músicas, programas televisivos, informática e novas tecnologias.

 

Trata.se de uma visão de raiz anglo-saxónica, que peca, desde logo, por defeito.

 

Fala tenuemente de Portugal. E do Brasil como monopolizador da língua portuguesa. Ignora os demais países lusófonos falantes de português, lusófilos e o potencial crescente do português em termos demográficos e como língua de exportação. Tem o continente americano e o seu país natal como o centro do mundo e orientador de tendências linguísticas futuras. 

 

Tomarei posição mais detalhada, em próximos textos, sobre a perspetiva otimista e pessimista da língua portuguesa, que acabo de expor.

 

14.11.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício