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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de janeiro de 2018.

 

«Lisboa Antiga» de Júlio de Castilho é uma preciosidade da olissipografia. Aí podemos encontrar dois núcleos fundamentais – Bairro Alto (4 volumes) e Bairros Orientais (12 volumes), além do volume dedicado à Ribeira de Lisboa.


A FUNDAÇÃO DA OLISSIPOGRAFIA
Júlio de Castilho (1840-1919) era filho de António Feliciano de Castilho, sendo diplomado com o Curso Superior de Letras. Recebeu de seu pai o título de visconde de Castilho, tendo tido, ao longo da vida, uma intensa atividade de memorialista, historiador, jornalista e bibliografo. Exerceu fugazmente funções políticas como governador civil do distrito da Horta (1877-78) e foi primeiro-oficial da Biblioteca Nacional. A vasta obra sobre a história da cidade de Lisboa é, ainda hoje, de significativa valia, tendo sido reeditada e enriquecida pela intervenção de olissipógrafos do século XX, como Gustavo de Matos Sequeira, Augusto Vieira da Silva e Pastor de Macedo. Se Norberto de Araújo foi um excecional divulgador da história de Lisboa, Castilho foi indubitavelmente não só o verdadeiro fundador da olissipografia, mas também um dos seus mais fecundos estudiosos e cultores. No dizer de Fernando Castelo Branco as três obras fundamentais de Castilho sobre Lisboa constituem “livros com notáveis méritos historiográficos e também literários, e dessa feliz conjugação resultam os quadros de evocação e de recriação que Fernandes Costa assinalou como um dos atributos mais relevantes de Júlio de Castilho… (…). Mas, muito principalmente, há a considerar que tendo sido um pioneiro, J.C. traçou uma obra que continua válida na sua maior parte, dando-nos múltiplos informes sobre a história de Lisboa, os seus edifícios, gentes e instituições. Escrita há já tão dilatadas décadas, continua a ser útil ao investigador, continua a ser uma leitura não apenas agradável, mas positivamente instrutiva para os curiosos do passado”. Discípulo de Herculano, nota-se na obra a influência da nova historiografia iniciada pelo mestre, tendo Júlio de Castilho iniciado as suas investigações e estudos em 1878. E a dado passo lemos na descrição do cerco de 1147, nos Bairros Orientais: “tenho a certeza de que o grande Herculano, se pudesse ouvir-me não levaria a mal, antes aplaudiria a liberdade que tomei; sinto que é mais um preito no seu indiscutível merecimento. De mais a mais: isto não é em mim pelejar com um morto. Herculano não morreu; para a admiração está vivo em todos os cultores de letras; para a veneração está vivo em todos os portugueses”.

 

O EXEMPLO DE SANTA CATARINA
Em complemento do que na última crónica falámos sobre as igrejas das portas de Santa Catarina damos hoje algumas referências de Júlio de Castilho sobre as igrejas do Loreto e da Encarnação, o que certamente constituirá uma ilustração das qualidades e do valor da obra de Júlio de Castilho, mas também um enriquecimento sobre o conhecimento dessa Lisboa em que continuamos a peregrinar. Falando da igreja do Loreto, refira-se que a mesma foi destruída pelo grande terramoto, descrevendo-a um viajante estrangeiro deste modo: “a feitoria italiana possui em Lisboa uma formosa igreja, há pouco acabada de reconstruir; é da invocação de Nossa Senhora do Loreto. Serve de paróquia. Ali celebram-se pomposamente os ofícios divinos. Este templo é dos mais concorridos pelos elegantes e pelas elegantes da capital”. Na frontaria, os dois querubins que seguram as Armas Pontifícias eram atribuídos a Canova, segundo teria sido comunicado ao Conde Raczynski, grande estudioso da nossa história da arte. Acontece, porém, que o próprio Raczynski refere outro testemunho, transmitido a Machado de Castro, que os anjos seriam obra de Bernini. Mas, para adensar o mistério, ainda é aventada a hipótese de essas figuras serem de Borromino… Numa palavra, há informações contraditórias e não existem provas seguras da verdadeira autoria… A igreja do Loreto não foi totalmente destruída, por isso Júlio de Castilho diz que, tendo Bernini morrido em 1680, poderiam os anjos estar lá anteriormente – tendo havido importantes melhoramentos no século XVII. Aliás, as mais recentes investigações revelam a hipótese de ter havido telas de Ticiano em Lisboa, no Loreto, o que confirma a qualidade das obras de arte do templo. Quanto a Canova, mesmo muito jovem, não há provas. As estátuas de S. Pedro e S. Paulo atribui-as Cirilo Wolkmar Machado a Fancé, um escultor francês. Lembre-se que a comunidade italiana adquiriu a antiga ermida de Santo António em 1518, alterando o orago para Nossa Senhora do Loreto, invocando um milagre do século XIII, segundo o qual a casa da Virgem Maria em Nazaré teria aparecido na Dalmácia e depois em Itália (Ancona) na propriedade de uma senhora de nome Laureta, onde hoje se encontra uma imponente catedral… O autor conta a história e refere ainda a singular representação de Nossa Senhora do Loreto que se encontra no cimo da fachada – “escondendo os braços e envolta num revestimento adornado de joias, pouco artístico e sensabor”…

 

E A ENCARNAÇÃO?
Depois do Loreto, atravessemos o largo e cheguemos à Encarnação, filha da primeira, e tardiamente instalada, mas graças ao legado de D. Elvira Maria de Vilhena (1627-1718), Condessa de Pontével, dama da corte de D. Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra. A Condessa decidiu edificar uma sede condigna da paróquia da Encarnação, “em chão que aí possuía na vizinhança junto ao muro da Cidade”. E “requereu à Câmara licença para se demolir a torre e parte do muro da Cidade, em baixo, junto à ermida de Nossa Senhora do Alecrim, para alargamento do chão em que se edificava a igreja da Encarnação”. Não foi fácil a concretização. A colossal porta de Santa Catarina demorou a derrubar. Só em 1708 o novo templo foi sagrado. O terramoto não destruiria a igreja, mas o fogo causou-lhe algum estrago que foi lentamente reparado sob a coordenação do arquiteto Manuel Caetano de Sousa. Só 29 anos depois do terramoto voltou o culto na igreja. A frontaria ficou, porém, dezenas de anos por acabar. Só em 1867 viria a ser aprovado o plano de conclusão, que corresponde ao que hoje conhecemos… E Júlio de Castilho elogia especialmente, pelo seu equilíbrio e beleza, o conjunto da autoria de Machado de Castro representando no altar-mor Nossa Senhora da Encarnação. Em suma Castilho cultiva bem a memória e diz, a propósito da demolição dos casebres do Loreto, atrás do palácio Marialva: “Na ordem moral, esquecer é arrasar lanços inteiros da existência. Há entes infelizes, para quem viver é esquecer. Não os invejo, não! Recordar é reviver”… Eis o que não esquece…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

EVOCAÇÕES DO TEATRO DO PRÍNCIPE REAL – APOLO

 

Em 1866, é inaugurado no centro de Lisboa o então chamado Teatro do Príncipe Real, homenagem talvez inesperada a D. Carlos, então de facto Príncipe Real com 3 anos de idade.

 

 A mudança de designação ocorre obviamente a partir de 1910. Passou a chamar-se Teatro Apolo. Mas não durou muito: encerrou definitivamente e foi demolido em 1957.     

 

 O Teatro data pois de 1866, mas herdou uma tradição urbana de espetáculo vinda de décadas atrás – ou mais ainda, se pensarmos nos Teatros anteriores ao Teatro de D. Maria II, esse inaugurado em1846.

 

Segundo José Carlos Alvarez, o Príncipe Real - Apolo seria «o teatro mais popular e mais republicano, se é que faz algum sentido esta afirmação... nessa época. Situado entre a então novíssima Rua da Palma, a antiga carreirinha do Socorro e o Largo de Martim Moniz, bem longe do chic, moderno e elitista Chiado e dos seus teatros mais burgueses (Trindade, São Luiz) ou aristocráticos e italianos (São Carlos)»...

 

E mais acrescenta José Carlos Alvarez que foi no já então teatro Apolo que se estreou a primeira revista levada à cena depois da implantação de República, denominada “Agulha em Palheiro”, E mais refere Alvarez que, ao ser demolido, se perdeu também  grande parte do arquivo respetivo, o que evidentemente prejudica o historial dos nossos teatros na globalidade de textos, elencos e expressão cultural e sociológica dos respetivos públicos. (cfr. José Carlos Alvarez “A República foi ao Teatro”ed. Museu Nacional do Teatro – 2010, págs.11 e segs.)

 

Por seu lado, Luciano Reis refere que a tradição de espetáculo vinha de trás. Em 1885, um tal Francisco Viana Ruas, «num terreno desocupado que que havia depois da abertura da nova Rua da Palma, à esquina da Carreirinha do Socorro, edificou um salão, a que deu o nome de Vauxhall, e realizou ali bailes de máscaras que pouco resultado deram. Mudou-lhe então o nome para Salão Meyerbeer, em que realizou alguns concertos ainda com pior resultado. Inaugurou-se com as comédias imitadas por Aristides Abranches e Rangel de Lima, “Dois Pobres a Uma Porta”, em 3 atos, e “Muito Padece quem Ama, em 1 ato”». (cfr. Luciano Reis “Teatros Portugueses” ed. Sete Caminhos 2005 págs. 46 e segs.)

 

 Mas ainda recuamos nas citações e desta vez a partir do sempre referido “Diccionario do Teatro Português” (1908) de Sousa Bastos, o qual mais se adequa porque é contemporâneo do Teatro.

 

Denomina-o “Theatro do Príncipe Real (Lisboa)” e ilustra-o com uma fotografia. Atribui a iniciativa a Francisco Viana Ruas, «avô dos atuais empresários deste teatro», esclarece. Descreve o edifício, que qualifica como «uma bonita casa de espetáculos (que) tem tido épocas brilhantíssimas, principalmente a do ator Santos, a de Rossi, a de Paladini, a de Preciozi e Maria Deus e muitas outras» (ob. cit. pág. 355).  

 

Era pois, na época, um teatro internacional. 

 

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

 
De 8 a 14 de janeiro de 2018.

 

«Peregrinações em Lisboa» de Norberto de Araújo são um clássico que ainda hoje deve ser consultado, para melhor conhecermos a cidade de Lisboa e os seus extraordinários segredos históricos. Invocamo-lo a propósito do recente programa «Visita Guiada» (RTP2) de Paula Moura Pinheiro sobre as igrejas do Chiado…

 

 

PEREGRINAÇÃO INESGOTÁVEL
No caso da “Visita Guiada” há sempre um ambicioso guião e do muito que há para falar fica sempre muito por dizer. Eis por que razão, devemos agir como fizeram peregrinadores da cidade como Júlio de Castilho ou Norberto de Araújo – dando pistas para que o “dileto viajante” possa por si não só fazer a caminhada necessária, mas também descobrir o fio da meada numa extensão sempre incerta e inesperada. Quando a Paula Moura Pinheiro me desafiou a fazer o percurso das igrejas do Chiado para a RTP2, acertámos que esse seria o pretexto para podermos tentar entender o que foi acontecendo no mítico lugar das Portas de Santa Catarina, muralha fernandina abaixo (da rua da Misericórdia ao Alecrim) ao longo do tempo, e sobretudo sob o efeito do Terramoto de 1755, que arrasou o Carmo e a Trindade e tudo que os circundava. Um programa de televisão, com tempo limitado, exige um enorme esforço – que os telespectadores podem sempre achar excessivo ou minguado, mas que corresponde ao que a grelha exige. Porquê uma concentração tão grande de templos naquele local? Eis uma pergunta que apenas pode ser respondida se percebermos que estamos no que era a fronteira da cidade de Lisboa na segunda metade do século XIV. A muralha protegia e levava a uma grande concentração populacional intramuros. Só mais tarde a cidade se abriria, para além do postigo de S. Roque, para o Bairro Alto, na Vila Nova de Andrade, lembrando os ecos do grande sismo de 1531 e a antiga herança de Mestre Guedelha, proprietário da herdade de Santa Catarina… E se as recentes obras do Largo de Camões trouxeram à luz do dia as fundações e os baixos do Palácio dos Marqueses de Marialva, a verdade é que essa era já uma edificação do século XVII… A porta de Santa Catarina situava-se onde hoje é o Largo das Duas Igrejas, tendo frente-a-frente o Loreto e a Encarnação – sendo o termo da Rua Larga, que hoje toma o justo nome de Garrett, e vinha da Pedreira (hoje Armazéns do Chiado), onde Frei Bartolomeu de Quental fundaria o Convento Oratoriano do Espírito Santo. E, para abreviar razões, lembre-se que em 1384 aqui assentou arraiais D. Juan de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, ainda criança, no cerco de Lisboa, levantado quando a jovem apresentou sinais de peste… Nesse tempo, havia, fora de portas, campo de cultivo também usado pela pastorícia.

 

ENCOMENDA PRODIGIOSA
Mas voltemos um pouco atrás, ao início da “visita guiada”, a S. Roque, no “adro da peste”, onde se ergueu uma pequena ermida em 1506, por ocasião de uma epidemia, pedindo graças ao santo protetor da enfermidade. A Irmandade que persiste com a missão de realizar as obras de misericórdia materiais e espirituais reúne hoje três antigas Irmandades – a da Misericórdia (fundada por D. Leonor em 1498), a de S. Roque e a dos Carpinteiros de Machado. Aí se instalaria a casa professa da Companhia de Jesus, começando a erguer-se o templo em 1555. Em 1573, as paredes estavam de pé, mas a cobertura suscitou dificuldades, sendo a complexa solução em madeira da Prússia encontrada por Filipo Terzi, já depois de 1580. O templo é ricamente adornado com excelentes obras de arte e objeto de generosidades régias, em especial de D. João V, merecendo destaque a magnífica Capela de S. João Batista – uma autêntica preciosidade encomendada em 1742 aos artistas italianos Nicola Salvi, e Luigi Vanvitelli. Jörg Garms é claríssimo sobre a obra: “forse… la capella piú rica mais construita… Un scrigno di straordinaria eleganza e unita”. A mais rica jamais construída. É a “encomenda prodigiosa”, na riqueza, na escala, na harmonia do programa (como disse António Filipe Pimentel). E não podemos esquecer a coordenação de João Frederico Ludovice, o ourives-arquiteto alemão que marcou decisivamente a rica coerência joanina. A obra foi organizada em Roma como um autêntico puzzle, sagrada em Santo António dos Portugueses (1744) e inaugurada quando D. João V já tinha morrido (1751). Sousa Viterbo refere esta joia inesquecível como um “gozo inefável para os sentidos”. “Monumento que anuncia já o neoclassicismo” – dirá o Professor J.A. França. Foi necessário procurar em toda a Itália os minerais e o esmalte aqui presentes, os medalhões são de mármore de Carrara, as oito colunas de estilo coríntio de lápis-lazuli, e encontramos ainda alabastro, jaspe, ametistas e tudo o mais. As obras de arte fundamentais são três preciosos quadros em mosaico, com pedrinhas de mil tonalidades – Batismo de Cristo, Anunciação e Pentecostes (de Moretti sobre cartões de Massuci). Não fora a riqueza artística, quase com ironia, Norberto de Araújo falava de um autêntico museu de geologia e mineralogia...       

 

DE S. ROQUE A SANTA CATARINA
S. Roque tem quinze capelas construídas em épocas diferentes, todas a merecer visita cuidada. No altar-mor alternam sete quadros conforme as épocas litúricas e encontramos imagens de santos da Companhia: Santo Inácio, S. Francisco de Borja, S. Luís de Gonzaga. E não podemos, sem uma ponta de emoção, deixar de recordar o belo poema de Sophia de Mello Breyner, “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”: “Nunca mais amarei quem não possa viver / Sempre…”. Lembrança indelével de S. Francisco de Borja. No corredor para a sacristia está a sepultura de Simão Rodrigues de Azevedo, que introduziu a Companhia em Portugal, e na sacristia deparamo-nos com imagens da vida de S. Francisco Xavier, da autoria provável de André Reinoso. E não podemos esquecer que, entre mil relíquias, aqui se encontra sepultado Francisco Suárez (1648-1717), o pensador célebre, com influência decisiva na renovação do pensamento político, filosófico e jurídico. O terramoto de 1755 atingiu o templo de S. Roque, sobretudo a fachada, mas não comprometeu o essencial do seu recheio. Por isso podemos usufruir de todo este esplendor…

Nas portas de Santa Catarina recordámos a necessidade de abrir a cerca fernandina para permitir a passagem do sumptuoso cortejo do casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria (1708). E lembramos José-Augusto França a dizer que se a capital de Portugal é Lisboa, o Chiado é a capital de Lisboa. A crónica lisboeta não dispensava os janotas da Havanesa, do Marrare, do Grémio Literário. Luísa encontra o Conselheiro Acácio e escapa-se para a igreja dos Mártires. Garrett, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro (seu irmão) todos por aqui passam. Um dia chamaram azul a Cesário Verde, que devolveu o piropo, chamando troca-tintas ao triste jocoso. A cidade cosmopolita leva a rica comunidade italiana a adquirir o Loreto, mudando o orago de Santo António para Nossa Senhora. E a Encarnação tornou-se filha do Loreto, num longo processo que exigiu a demolição de parte da velha muralha. Mas foi o terramoto com efeito violento nesta área, que obrigou a alterações significativas. A Basílica dos Mártires, a recordar os cristãos caídos na reconquista, cujo sino é o da aldeia de Fernando Pessoa, é um esmerado resultado do projeto de Reinaldo Manuel, com a célebre invocação de D. Afonso Henriques de Pedro Alexandrino de Carvalho. E a Igreja do Santíssimo Sacramento, em terrenos dos condes de Valadares, também com traçado de Reinaldo Manuel e pinturas do mesmo Pedro Alexandrino, é uma bela surpresa, equilibrada, recolhida, rica de espiritualidade… Peregrinar pelo Chiado é, de facto, visitar a face aberta da nossa cultura!

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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EVOCAÇÃO DO TEATRO AVENIDA

 

Em 1888 abre ao público em Lisboa o teatro Avenida, situado na então ainda relativamente recente Avenida da Liberdade. Foi mandado construir por Miguel Angelo Lambertini, figura destacada nos meios culturais e empresariais. Inaugurou em 11 de fevereiro daquele ano: é de assinalar a iniciativa, num contexto urbano que, apesar do incremento decorrente da Avenida, não representava ainda o eixo cultural que viria mais tarde a alcançar.

 

Luciano Reis refere que o Teatro Avenida «registou o seu primeiro grande êxito com a opereta “O Burro do Senhor Alcaide” de D. João da Câmara, Gervásio Lobato e Ciríaco de Cardoso», autores de grande projeção na época e ainda hoje, sendo certo que a peça referida marcou uma época e confirmou a notável ainda hoje abrangência estilística e o sentido de espetáculo dos autores. (cfr. “Teatros Portugueses”, Ed. Sete Caminhos).

 

 E Glória Bastos e Ana Isabel Vasconcelos evocam o Teatro Avenida, reproduzindo a descrição feita na época por João Paulo Freire:

“Teatro acanhado, sem segurança para o público, em caso de incêndio, embora lhe tornassem obrigatória uma saída pela porta lateral. Entalado entre prédios de diminutas dimensões, o corredor que serve o bufete é de tal forma acanhado que em noites de enchente quase se não dá um passo. Exteriormente não tem recomendação possível. Internamente, à parte os defeitos já apontados, é simples mas gracioso”.

 

Acrescentam as duas autoras citadas que o Avenida foi explorado por sucessivos empresários de prestígio na época: Luis Galhardo, Luísa Satanela e Estêvão Amarante, Maria Matos e Mendonça de Carvalho e, anos depois, pela Nova Companhia do Teatro de Sempre, dirigida por Gino Saviotti, o qual marcou uma presença de grande qualidade no meio teatral português como diretor de companhia, como crítico e doutrinador e como professor no Conservatório Nacional. (cfr. “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República”, Ed. MNT 2004, pág. 50).

 

E assinala-se que a última empresa citada muito contribuiu para a atualização, digamos assim, dos repertórios tal como nesses anos 50/60 do século passado eram explorados em Portugal.

 

Mas voltando à época da fundação do Teatro Avenida, encontramos num autor francês já aqui citado, Henry Lionnet, uma descrição no mínimo desconfiada para mais não dizer, da exploração artística do Teatro Avenida.

 

Lionnet escreve em 1898. Começa por elencar os teatros - edifícios em Lisboa e no Porto e classifica-os basicamente a partir dos repertórios habituais, atribuindo ao Teatro Avenida uma como que vocação “para a opereta popular e para a revista”, o que significa de certo modo uma desqualificação relativamente a outros teatros em Lisboa e no Porto.

 

E afinal, ao longo do século passado, repita-se, o Teatro Avenida não poucas vezes marcou a cultura cénico-dramatúrgica da época!

 

Enfim: em 13 de dezembro de 1967, o Teatro Avenida, dirigido então por Amélia Rey Colaço na sequência do incêndio do Teatro Dona Maria II ocorrido em 1964, arde também!

 

Lá estive no dia seguinte. E escrevi então estes comentários que aqui reproduzo:

“O Avenida era um teatro feio, incómodo, anacrónico; muito embora - era um teatro. E hoje é um monte de ruínas que necessariamente nos fez lembrar, quando as visitamos na manhã do desastre, as ruínas do palco do Variedades, as ruínas do D. Maria II, as ruínas do Ginásio”.

É que todos estes teatros arderam!

 

DUARTE IVO CRUZ 

 

 

BREVE NOTA SOBRE O ENCERRAMENTO DO TEATRO DA CORNUCÓPIA

 

No momento em que escrevemos, é dado como certo o encerramento do Teatro da Cornucópia, pondo termo a uma atividade cénica e cultural que se prolonga em Lisboa desde pelo menos 1973. Naquele ano, Jorge Silva Melo e Luis Miguel Cintra lançam um projeto de companhia, precisamente, o chamado Teatro da Cornucópia, desde logo marcado pelo dimensionamento cultural de alternância de textos clássicos e modernos, numa perspetiva de modernidade.

 

Até 1975 o Teatro da Cornucópia foi itinerante. E entretanto, funcionava já o Centro de Amadores do Ballet no Teatro do Bairro Alto, para onde a companhia se desloca e se fixa em 1975.  De notar aliás que a designação de Teatro do Bairro Alto se justifica pela tradição e até pela proximidade urbana com o velho Teatro do Bairro Alto setecentista.

 

Importa então ter presente que o edifício do Teatro do Bairro Alto, hoje Cornucópia, foi construído por iniciativa de Tina Reis, que lá instalou o Centro de Amadores de Ballet. E de assinalar também que o palco é notavelmente dimensionado, tendo em vista a própria dimensão restrita do edifício em si.  

 

Os primeiros espetáculos do Teatro da Cornucópia consistiram adequadamente em expressões bem atuais, segundo recordamos, de grandes clássicos da dramaturgia europeia: designadamente “O Misantropo” de Molière e “A Ilha dos Escravos” e “A Herança” de Marivaux. As traduções e encenações, em ambos os espetáculos, a cargo de Luis Miguel Cintra. E desde logo, os elencos marcavam também qualidade: recordem-se nomes e carreiras como, além dos já acima citados, Glicínia Quartim, Dalila Rocha, Filipe La Féria, Orlando Costa, Luis Lima Barreto, Carlos Fernando e outros à época de grande projeção e em rigor, ainda hoje!...

 

Mas entretanto a supressão da censura trouxe à companhia a possibilidade de renovação do repertório, e desde logo com um indiscutível texto dramático de grande qualidade, o “Terror e Miséria do Terceiro Reich” de Bertold Brecht.

 

A partir de 1975 a companhia fixa-se então no Teatro do Bairro Alto que assumirá também o nome de Teatro da Cornucópia, numa linha da tradição urbana de espetáculos. E o elenco básico alarga-se. Desde logo, com a colaboração de Augusto de Figueiredo precisamente na peça de Brecht acima citada. E a companhia entra num ciclo de renovação e modernidade que durou até hoje. Levou à cena um total de aproximadamente 140 peças. Renovou os elencos.

 

E mais: em 2016, a Fundação Calouste Gulbenkian publica dois volumes de grande formato num total de cerca de 1200 páginas com a enumeração e a análise crítica destes espetáculos, abrangendo autores, elencos e demais perspetivas de uma atividade teatral constante e abrangente.

 

E que agora ao que se anuncia, chegou ao fim... o que é obviamente lamentável, dada a fragilidade do meio teatral português!

 

DUARTE IVO CRUZ

NO TEATRO SÃO LUIZ, MEMÓRIA DA COMPANHIA DE TEATRO MUNICIPAL


Em novembro de 1971 inicia-se no Teatro São Luiz a primeira temporada do que se denominou Teatro Municipal de Lisboa: companhia patrocinada pela Câmara Municipal, que adquirira e  recuperara o velho Cine Teatro. Organizou-se então no próprio São Luiz um chamado Departamento Teatral dirigido por Luiz Francisco Rebello onde tive o gosto de colaborar como adjunto do Diretor. Departamento que pouco tempo duraria...

 

Tenha-se presente que nesse período os teatros de Lisboa prosseguiam uma temporada interessante em matéria de textos e autores. Recorde-se designadamente que o Teatro Nacional levava à cena, no Trindade, o “Calígula” de Albert Camus; e as outras empresas: no Laura Alves, “Quem tem Medo de Virgínia Woolf” de Edward Albee; no Monumental, “Uma Cama para Toda a Gente” de Jean de Létraz; no Capitólio, “A Querida Mamã” de André Roussin; no Villaret “O Aniversário da Tartaruga” de Garinei e outros; e duas comédias infantis no Variedades e no Capitólio; isto, além das revistas no Maria Vitória e no ABC. 

 

Havia pois teatro em Lisboa. Mas devem desde já salientar-se alguns aspetos da iniciativa do Teatro Municipal.

 

 Antes de mais, a indiscutível qualidade e prestígio de Luiz Francisco Rebello, já então e até hoje, nome referencial do meio teatral português, com a circunstância, não despicienda, da sua independência política, no contexto da época. E foi extremamente relevante a colaboração que tive ensejo de prestar.

 

Mas mais: no São Luiz, a companhia em si mesma reunia um grupo notável de atrizes a atores. Basta evocar os principais nomes que constituíram o elenco: Eunice Muñoz, Alvaro Benamor, Hugo Casais, Vitor de Sousa, Fernanda Figueiredo, Batista Fernandes, Maria de Jesus Aranda, num total de mais de 20 artistas. E como encenador, Costa Ferreira.

 

Independentemente do que significam hoje estes nomes, decorridos quase 50 anos, realce-se a qualidade do elenco: basta consultar a imprensa da época.

 

A escolha do repertório coube a Luis Francisco Rebello. Estavam previstas então quatro peças para essa temporada de 1971/1972. E eram elas “A  Salvação do Mundo” de José Régio, “A Mãe” de Stanislas Witckiewicz, “Fígados de Tigre” de Gomes de Amorim e “Platonov” de Anton Tchekov.

 

 A peça de Régio foi então reeditada num volume que servia também de programa e apresentação da companhia. Nele, Luis Francisco Rebello explica as razões desta seleção. E fá-lo com independência e objetividade. Diz:

 

“Não foi de ânimo leve que aceitei a pesada responsabilidade de assumir a direção do setor dramático de um teatro que é (deveria ser) para toda a cidade. Como qualquer outro teatro, aliás, uma vez que as lágrimas e o riso – disse-o François Mauriac -  não são o privilégio de uma só classe social. Mas o Teatro hoje atravessa (e não só em Portugal) uma fase perturbada da sua evolução, aqui agravada por fatores particulares. Creio que uma das formas de enfrentar essa crise é caprichar na apresentação, a um público que se desejaria o mais vasto possível, de espetáculos artisticamente dignos, o que só se consegue com uma rigorosa conjugação de planos em que o fenómeno dramático se organiza. Um espetáculo esteticamente inferior é, do ponto de vista social, negativo”.

 

Ora bem: esta Companhia de Teatro Municipal de Lisboa pouco haveria de durar. Na segunda peça programada, como vimos “A Mãe” de Witckiewicz, surgiu um problema com a censura. Arrastaram-se negociações, tanto mais prementes quanto é certo que o espetáculo estava em vésperas de estreia. Mas não estreou.

 

Luiz Francisco Rebello demite-se do cargo de Diretor do Teatro Municipal de Lisboa. Eu saí também.  Artur Ramos e Jorge Listopad recusam fazer encenações. E  Natália Correia retira a tradução feita para o “Platonov”.

 

Assim acabou a Companhia de Teatro Municipal.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DO TEATRO MUNICIPAL DE SÃO LUIZ

 

Chamam-me a atenção para um livro sobre Lisboa, publicado em Paris: “Lisbonne – Histoire, Promenades, Anthologie et Dictionnaire”, dirigido por Luísa Braz de Oliveira (ed. Robert Laffont) que evoca e analisa a cidade num pluralismo de aspetos e dimensões que efetivamente dão uma visão abrangente do historial mas também da realidade contemporânea e quotidiana: e isto, num conjunto de mais de 20 autores franceses e portugueses. E nesse conjunto heterogéneo mas coerente, sobressai a tradição de salas de espetáculo, com destaque para o que é hoje o Teatro Municipal de São Luiz. O Teatro é referido por António Pinto Ribeiro num texto denominado “Lisbonne aux Allés de Jacarandas”.

 

Mas voltemos atrás, a própria denominação merece referência histórica. Na verdade o teatro é inaugurado em 22 de maio de 1894 com a ópera “A Filha do Tambor Mór” de Offenbach e à data chama-se Teatro D. Amélia, homenagem à Rainha homónima. A partir da implantação da República passa a chamar-se precisamente Teatro República. Mas a iniciativa original partira de um luso-brasileiro, o Visconde de São Luis Braga, nascido no Rio Grande do Sul de pais portugueses e que aqui retornou. 

 

É de assinalar que o projeto original ficou a dever-se ao arquiteto Ernesto Luis Raymond, com intervenções relevantes de elementos ligados à produção teatral – e desde logo os cenógrafos Luigi Manini e Carlo Rossi.

 

O edifício ardeu em 1915, mas em boa hora foi devidamente restaurado, mantendo-se o estilo original. Adotou o nome atual em 1918 e converte-se em cinema a partir de 1926. Mas, tal como já escrevi, pelo menos desde 1896 efetuaram-se projeções de “animatógrafo”: de tal forma que em 1911 o Jardim de Inverno é autonomizado como cinema com a designação insólita de “The Wonderful” nada menos… Durante décadas foi sobretudo cinema: e em certas épocas era denominado São Luis Cine.

 

É interessante aliás recordar, tal como já escrevemos, que o São Luiz sempre albergou, desde a origem, o que de melhor existiu em Portugal no que respeita a espetáculos. Desde as companhias de Rosas e Brazão à estreia de Amélia Rey Colaço, passando por artistas “históricos” como Ferreira da Silva, Adelina e Aura Abranches, Lucília e Lucinda Simões, Erico Braga, Chaby Pinheiro, até às gerações mais recentes, antes pelo menos dos anos 70 e de certo modo até hoje. E no que toca a artistas estrangeiros, a tradição vem das origens: desde Sarah Bernard, à Duse, à Novelli, Réjane, Raf Valone, Edwige Feillere, Maurice Chevalier, até aos mais recentes.

 

E no que respeita à dramaturgia portuguesa, recordo que por lá passaram em estreia peças de Marcelino Mesquita, Júlio Dantas, Lopes de Mendonça, José Régio, Bernardo Santareno, Sttau Monteiro... (cfr. “Teatros de Portugal” ed. INAPA 2005).  

 

Em qualquer caso, o São Luiz é municipalizado em 1971. Mas manteve entretanto a tradição de teatro, cinema e sala de concertos que vinha da origem. Basta ler a extraordinária coleção de placas evocativas que preenchem as paredes dos foyers da plateia e balcão.

 

José Augusto França evoca a chamada I Conferencia Futurista de Almada Negreiros no São Luiz, em 14 de abril de 1917, em que apresentou o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”.

 

“À minha entrada no palco rebentou uma espontânea e tremenda pateada, seguida de uma calorosíssima salva de palmas que eu cortei com um gesto. Reduzida a plateia à sua inexpressão natural, tive a glória de apresentar o futurista Santa-Rita-Pintor que o público recebeu com uma ovação unânime. Comecei então o meu ultimatum à juventude portuguesa do século XX e a plateia acostumada a conferências exclusivamente literárias e pedantes chocou-se nitidamente com a virilidade das minhas afirmações pelo que executava premeditadas e cobardes reprovações isoladas mas sem efeito do conjunto”...

 

E refere então José Augusto França:

“Assim descreve Almada, no Portugal Futurista de Novembro, o início da cerimónia de que foi o protagonista visível, dentro de um fato de macaco de aspeto clownesco”... (cfr. “A Arte em Portugal no Século XX”  Liv. Bertrand 1974).

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da janela do Hotel Borges, a luz Jablochkoff iluminava orgulhosa os passeantes do início da noite. Não se sabe se alguém recordou a ténue claridade do anterior gás que, aceitando o jeito ténue de abat-jour, fora espécie cúmplice aos abraços dos apaixonados e não só. De qualquer modo, diz-se, que esta luz Jablochkoff imprimiu à cidade de Lisboa o cunho de uma cidade europeia. Com esta nova luz, muitos locais tornaram-se pensadores aprazíveis do que aos destinos do mundo respeita, ou, as medalhas e as joias e as plumas e os ares de casacas, se não tivessem tornado feitos extraordinários apenas por maior visibilidade na direção dos poderes.

 

É certo que o russo que inventou esta forma de luz não terá tido em conta que a clareza do poder importuna o próprio poder ou não lhe perguntasse:

 

- Vi-o ontem com o senhor x. Tenho a certeza que era V-Exa. Não estou a supor sequer que não seria. Creio bem que a grã-cruz lhe escapou justamente por essa clara companhia.

 

Aqui chegados todos se lembravam da importância da vela de sebo, verdadeira agente da escuridão, espartana o bastante para não revelar antes de entregue, qual a propina que ao criado caberia naquele dia.

 

O ditado ainda hoje reza:

 

Contente-se, que não vai mal de abat-jour!

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

TEATRO ABC

 

O ÚLTIMO TEATRO CONSTRUÍDO NO PARQUE MAYER

 

O Teatro ABC foi a última sala de espetáculos inaugurada no Parque Mayer: e, no que se refere ao espetáculo propriamente teatral, terá sido a primeira a ser encerrada. Vocacionado para a revista, que na prática e salvo eventuais iniciativas esporádicas, foi a expressão dramática lá dominante, o ABC estreou como teatro em janeiro de 1956, e durou até 1997. Desde a origem fazia-se notar o carater algo provisório do edifício, fundado pelo empresário José Miguel e instalado em áreas antes ocupadas por outras expressões de espetáculo e/ou de serviço público: restaurantes, ringue de patinagem, cinema ao ar livre.

 

Em 1955 José Miguel era um nome determinante do espetáculo de revista. Procedeu à adaptação do espaço, privilegiado pela localização, em recinto repetimos, vocacionado para o espetáculo.

 

De acordo com o levantamento exaustivo de Jorge Trigo e Luciano Reis, o Teatro ABC alternou esporadicamente a revista com espetáculos de teatro infanto-juvenil, tal como dizemos hoje: e o carater esporádico dessas iniciativas dispersas não desmerece da qualidade de elencos e da exigência dos autores envolvidos: entre autores e atores, surgem nomes como Eduardo Damas, Rui de Carvalho, Francisco Nicholson, Canto e Castro, Luís Cerqueira, Maria Clara Machado, Curado Ribeiro e até o francês Labiche, traduzido por César de Oliveira… isto, em elencos que no total excedem  centenas de artistas, muitos deles de primeiríssimo plano artístico e profissional.

 

Porque a revista, foi sempre relevante, e o teatro infanto-juvenil,  era-o já também,  na época, e muito o foi nos anos seguintes: basta lembrar o Teatro do Gerifalto de António Manuel Couto Viana.

 

Ora, é de salientar que o Parque Mayer, independentemente da heterogeneidade de expressões cénicas e musicais que lá se produziam, e que temos aqui evocado nesta série de artigos, ainda constituía à época, e aliás não era novidade, o grande centro de produção de revista no país.

 

Só que, como temos aqui visto, os outros teatros do Parque Mayer – Capitólio, Maria Vitória, Variedades -  ao longo de dezenas de anos, iam alternando, é certo que uns mais do que outros, o género de espetáculo dominante:   nesse aspeto, aliás, o mais heterogéneo será o Capitólio, durante dezenas de anos vocacionado quase exclusivamente para o cinema: e mesmo assim, como já tenho recordado, lá se instalou por exemplo a companhia brasileira de Maria Della Costa e Sandro Polónio, que estreou Brecht, ou a Empresa Rey-Colaço – Robles Monteiro na época marcada pelos sucessivos incêndios dos Teatro D. Maria II e do Avenida…

 

Em qualquer caso, o Teatro ABC foi sobretudo um teatro de revista. Fundado e primeiramente dirigido pelo empresário José Miguel, e a partir de 1971 dirigido por Sérgio de Azevedo, produziu, escreveram Jorge Trigo e Luciano Reis, um total de 47 revistas, o que é assinalável, tendo em conta que as revistas ficavam meses em cartaz. (cfr. Jorge Trigo e Luciano Reis “Parque Mayer” vol. 2 ed. Sete Caminhos págs. 127 e segs.)

 

A primeira revista foi “Haja Saúde” da autoria de José Galhardo, Carlos Lopes e Frederico de Brito, com Curado Ribeiro no primeiro papel. Seguiram-se, como já referimos, mais 46 revistas, intercalando com os espetáculos infantis e outros espetáculos diversificados: mas efetivamente, o Teatro ABC foi predominantemente um teatro de revista.

 

Fazemos aqui uma transcrição da “História do Teatro de Revista em Portugal” de Luis Francisco Rebello que evoca valores notáveis das sucessivas temporadas da ABC (vol. 2 – Publicações D. Quixote -  1985):

 

“Num dos primeiros dias de janeiro de 1956 inaugurava-se, ao lado do Maria Vitória, o quarto teatro do Parque Mayer, o ABC – construído no mesmo local onde haviam funcionado o Alhambra e o Pavilhão Português”. Refere que “à semelhança da sala, a companhia era modesta”. Mas refere que foi sobretudo na revelação de novas personalidades que em empresário José Miguel e o seu sucessor Sérgio de Azevedo apostaram”. E cita nomes que realmente hoje fazem parte da história do espetáculo em Portugal: por exemplo Hermínia Silva, Raul Solnado, António Silva, Humberto Medeira, Manuel Santos Carvalho, Ivone Silva irene Cruz, Henriqueta Maia, José Viana, Aida Batista, Camilo de Oliveira, e tantos mais. E mais refere que “1972 foi um ano fausto para a revista portuguesa” e “foi o ABC, uma vez mais, o palco dessa aventura que se iniciou com «É o Fim da Macacada» segunda revista montada pelo novo e ativo empresário do Teatro mais recente do parque Mayer, Sérgio de Azevedo (ob. cit.págs 131 e 142).

 

Ora bem: em 1990, o Teatro ABC arde! Carlos Santos toma conta dos trabalhos de reconstrução, e o ABC reabre em 1993. Mas em 1977 fecha definitivamente.

 

E hoje, nem o edifício resta!

 

DUARTE IVO CRUZ 

PORQUÊ ALFACINHAS?

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO (I) - 1 de agosto de 2017

 

Este diário de Agosto responderá a dúvidas e fará comentários ao sabor da pena.
Para começar apresento a ilustração de Luís Diferr sobre Lisboa antes do Terramoto…
E faço eco de uma persistente pergunta – por que razão são os lisboetas designados, desde tempos imemoriais, por alfacinhas?
Almeida Garrett imortalizou o epíteto nas «Viagens na Minha Terra», mas não explicou: «Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço».
Pois bem, alfacinha vem mesmo de alface (latim, lactuca saliva, do árabe al-khass) e o diminutivo é um sinal não apenas de afeto, mas também de uma certa depreciação… É que provavelmente foram os moçárabes dos arrabaldes, a quem os lisboetas chamavam saloios (da palavra çaloio, que era o tributo pago pelos padeiros mouros de Lisboa), que devolveram o cumprimento, comparando os lisboetas a grilos pelo gosto das alfaces que cultivavam, comiam e encomendavam aos almocreves que pagavam os seus tributos nas portas de Benfica para entrarem na cidade.
Correu a ideia de que no cerco de Lisboa de 1384 (de 4 meses e 27 dias) Lisboa se teria aguentado a comer alfaces. Não é verdade. O cerco foi levantado com o alarme de peste…
Em suma, «alfacinha» é um mimo dos moçárabes saloios, talvez cansados de exigências e sobrancerias…
Lisboetas, alfacinhas para sempre…  

 

 

             
DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins