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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A TRADIÇÃO SETECENTISTA DO TEATRO VARIEDADES

 

É interessante constatar que, no ponto de vista histórico, o Teatro Variedades, edificado em 1923 no Parque Mayer e hoje praticamente abandonado na imponência do edifício original, não obstante a data de origem e as alterações nestes quase 100 anos decorridos, guarda uma tradição que remonta ao século XVII, mais ou menos no mesmo local, mas muito antes da abertura da Avenida da Liberdade e obviamente, muitíssimo antes portanto da implantação do próprio Parque Mayer.

 

É que, na potencialidade da zona urbana, à época obviamente muito diferenciada, ergueu-se, a partir de 1782, um Teatro, denominado Teatro do Salitre, na área que viria a ser urbanisticamente absorvida pela Avenida, mas que, repita-se, já definindo uma zona central do desenvolvimento. Aliás, sabemos bem que a Rua do Salitre começa junto ao Parque Mayer. Daí também que se remonte a tradição ao então chamado Teatro do Salitre.

 

Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos historia essa tradição hoje com quase dois séculos: «Edificado em 1782 pelo arquiteto Simão Caetano Nunes, possuía “lotação para 900 espectadores, distribuídos por 21 frisas, 27 camarotes de 1ª ordem, 22 de 2ª, 207 lugares de plateia, 147 de superior 120 de geral e 60 nas varandas”.» E acrescenta: «Já no fim do século XVIII quando não havia atores em número suficiente para aguentar duas companhias, este teatro é preterido relativamente ao Condes que se apropria da designação de “teatro nacional”.»… (cfr. Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT 2003 pág.25 e nots. cits.).

 

Sousa Bastos, escrevendo na transição dos séculos XIX/XX descreve os dois teatros. No que respeita ao Teatro do Salitre, dá-o como inaugurado em 27 de novembro de 1752, “tomando parte no espetáculo o célebre equilibrista Tessi, mandado vir expressamente do estrangeiro como grande novidade da época” (in “Dicionário do Theatro Português” 1908, pág. 362).

 

E remete para 1858 a inauguração do chamado então Theatro das Variedades e referindo que naquele ano «formou-se uma associação para com este título explorar o antigo Theatro do Salitre»: e acrescenta, noutra obra. que «a peça de abertura, que teve extraordinário agrado e alcançou grandes receitas, foi a mágica em 3 atos e 19 quadros arranjada por Francisco Palha e Joaquim Augusto de Oliveira, a “Lotearia do Diabo”. No papel de Abdalah obteve enorme sucesso o ator Izidoro»… (cfr. Sousa Bastos “Carteira do Artista” ed. 1898 pág 55/56).

 

E ainda, José Augusto França refere um Novo Teatro das Variedades, inaugurado no Rato em 1880 (cfr. José Augusto França “Lisboa História Física e Moral” ed. Livros Horizonte 2008 pag.613).

 

Mas voltemos à inauguração do atual edifício novamente chamado Teatro Variedades.

 

Num estudo intitulado precisamente “O Parque Mayer – Cinquenta Anos de Vida”, Albano Zink Negrão historia a inauguração desse Teatro. E logo se define uma “vocação revisteira”, chamemos-lhe assim, desse novo Variedades. O estudo referido sublinha então, e de certo modo sublima essa constante de espetáculo que, ao longo de dezenas de anos, sempre dominou o próprio Parque e os seus Teatros – e isto, não obstante a tradição cinematográfica do Capitólio e as temporadas de teatro declamado que lá tiveram lugar e que aqui já temos evocado, desde Maria Della Costa/ Sandro Polónio a Amélia Rey Colaço. Ou a menor atividade do então chamado (e hoje desaparecido) Teatro ABC ou a atividade do Teatro Maria Matos.

 

O Teatro Variedades foi, salvo raras exceções de espetáculos alternativos, um teatro de revista. Vejamos o que diz Zink Negrão:

 

«Em 8 de Julho de 1926, com a revista “Pó-de-Arroz”, abria as suas portas o “Variedades”, construído no local onde tinha existido um dos dois lagos dos Jardins Mayer. Sob o pseudónimo de “Troianos” se ocultaram os nomes dos autores da revista “Pó-de Arroz”, espetáculo em dois atos e dez quadros, com musica de Tomás del Negro e Raul Portela».

 

Cita um notável elenco, a começar pelo “grande Vasco Santana” assim mesmo referido. E acrescenta que neste espetáculo de estreia do Teatro, «o Compère não podia ter sido melhor: nem mais nem menos do que Augusto Costa, o popularíssimo “Costinha” que, na revista, dava pelo nome insólito de “Zé Pom-Pom”.» Estava-se em 1926! (ob. cit. pag.17).

 

E Marina Tavares Dias recorda outros espetáculos: «No futuro pertenceriam ao Variedades alguns dos maiores sucessos do Parque Mayer: “Arre Burro”, com Beatriz Costa, “Olaré quem Brinca?” com Mirita Casimiro, “Alto lá com o Charuto”, com Vasco Santana, etc., etc., etc.» (cfr. Marina Tavares Dias “Lisboa Desaparecida” vol. 9 Ed. Quimera 2007 pág. 74).

 

Ora bem: não se põe em dúvida a qualidade do elenco da revista de estreia do Teatro Variedades. Mas certamente se porá em dúvida a qualidade da revista em si. Luis Francisco Rebello cita a crítica de Avelino de Almeida publicada na época em “O Século”: «pela ausência de graça, pela pobreza de fantasia, pela falta de originalidade, pela monotonia que a caracteriza, uma das mais lastimosas coisas que no género ultimamente vira»!... (in ”História do Teatro de Revista em Portugal” vol. 2 – “Da República até Hoje”, Publicações D.. Quixote 1984 pág.84).

 

Na mesma obra, Rebello procede ao levantamento de muitas dezenas de revistas levadas à cena no Variedades, com sucesso e com qualidade, e de muitas centenas de autores, atores, encenadores, músicos, que as criaram e/ou nelas atuaram, e que ainda pude diretamente testemunhar e aplaudir.

 

Hoje, o Teatro Variedades continua encerrado, mas cercado por tapumes – o que mais justifica a pergunta que aqui se formula: o que se vai passar com o Teatro Variedades?

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATRO MARIA MATOS

 

EVOCAÇÃO DA ATRIZ MARIA MATOS NA CARREIRA, NO ENSINO, NA CULTURA TEATRAL

 

O Teatro Maria Matos, inaugurado em Lisboa no final de 1969 e municipalizado em 1982, integra-se na linha de construção/renovação dos edifícios nas zonas mais recentes da cidade, que adotaram a funcionalidade do espetáculo a nível dos rés-do-chão de edifícios de vocação comercial e /ou habitacional: teatros “de bolso” como então se dizia, pela integração em prédios comerciais e de arrendamento, por vezes ocupando e transformando o espaço originalmente reservado a garagens. Já vimos aqui, aliás, o Teatro Villaret, percursor do movimento de construção e rentabilização teatral decorrente.

 

Trata-se de uma inovação epocal, mas sobretudo, de uma rentabilização de investimento, muito positiva em si mesma: são muito numerosos os teatros, construídos no século XIX ou mesmo os cineteatros, estes a partir dos anos 20 do século passado, que pela sua implantação em zonas centrais de vilas e cidades, foram progressivamente demolidos para dar lugar a construções mais rentáveis no ponto de vista de investimento, e quantas vezes menos adequadas à implantação em centros históricos e à arquitetura correspondente. De alguns, temos aqui dado noticia, aliás sem pôr em causa a qualidade arquitetónica de muitos deles.

 

E quando estes teatros “de bolso” independentemente da respetiva estrutura interna e lotação, se implantam em zonas modernas das cidades, então só há que elogiar a iniciativa e procurar garantir a viabilidade económica e a qualidade artística… o que nem sempre é possível, como bem sabemos.

 

Tudo isto vem a propósito do Teatro Maria Matos: e desde já insista-se na referida adequação até da designação da sala, inaugurada como vimos em 1969, num projeto complexo urbano integrando, alem do mais, um cinema e um hotel. Mas tenha-se presente que o Teatro tinha no início do século uma lotação de mais de 550 lugares em plateia e balcão, e uma sala de ensaios. E desde logo se notabilizou pela qualidade da sala e também pelas máscaras de Martins Correia e pelo painel de Maria Helena Madureira.

 

Maria Matos (1890-1952) foi na sua época e ainda é hoje um grande nome de qualidade e prestígio no meio teatral português. Era professora de Arte de Representar e Encenação no Conservatório Nacional, onde por razões familiares ainda a conheci.

 

Mas a carreira de Maria Matos vinha de 1907, ano em que se estreou no TNDMII e onde se manteve até meados da década seguinte. Em 1913 funda com o ator Francisco Mendonça de Carvalho, seu marido, uma empresa de teatro declamado. A tradição prolongou-se na carreira da filha, Maria Helena Matos e do genro, Henrique Santana, este como sabemos “herdeiro” também da obra e vocação do pai, Vasco Santana: e tantas e tantas vezes os vimos atuar com enorme talento, qualidade e sucesso.

 

E Maria Matos participou ainda em filmes de Artur Duarte, com destaque para os que foram extraídos de textos de comédias de João Bastos: “O Costa do Castelo” e “A Menina da Radio”, realizados em 1943 e 1944 respetivamente. Mas teve outras intervenções episódicas em filmes diversos. Escreveu poemas e algumas comédias (“Direitos do Coração”, “A Tia Engrácia” e “Escola de Mulheres”. E em 1955 foi publicado um livro de Memórias.

 

É pois meritória e adequada a designação do Teatro Maria Matos, o qual foi inicialmente concebido pelo arquiteto Fernando Ramalho. O projeto sofreu alterações já em fase de construção e o edifício, tal com foi inaugurado, deve-se aos arquitetos Aníbal Barros de Fonseca e Adriano Simões Tiago. O Teatro era dirigido por Igrejas Caeiro, a quem cabe esse mérito indiscutível da iniciativa. E estreou com um texto de Aquilino Ribeiro, a partir de “O Tombo no Inferno”.

 

Na época escrevi que se compreendia mal a seleção da peça, independentemente da qualidade da escrita em si mesma e do justificadíssimo prestígio, que dura até hoje, de Aquilino. Mas já na altura, o texto estava teatralmente ultrapassado: e a qualidade da interpretação, com Mário Pereira, Rui Furtado, Hermínia Tojal, Lurdes Norberto, Costa Ferreira, Elvira Velez, grandes nomes da cena da época, numa encenação de Artur Ramos, não conseguiu ultrapassar as limitações cénicas do texto, independentemente, repita-se, da qualidade geral da obra romanesca do autor.

 

O Teatro Maria Matos funcionou durante anos como desdobramento de companhias ligadas à RTP, sob a direção de Artur Ramos. Estreou numerosos textos portugueses importantes, alguns proibidos antes de 1974. Num texto que publiquei em 2005, citei em particular, (antes proibidos ou não) por exemplo “Legenda do Cidadão Miguel Lino” de Miguel Franco ou “O Encoberto” de Natália Correia, alem de peças de Bernardo Santareno e adaptações de Eça e da “Seara do Vento” de Manuel da Fonseca, entre muitos outros. (in “Teatros de Portugal” ed. INAPA- pág. 83).

 

A Câmara Municipal de Lisboa publicou em 2002 um estudo abrangente e da grande qualidade e documentação, da autoria de Maria do Céu Ricardo, precisamente denominado “32-Teatro Maria Matos (1969-2001) – Um Teatro com História”, que assinala e documenta, e passo a transcrever, “os trinta anos desde que o Teatro Municipal Maria Matos abriu, pela primeira vez, as suas portas à população da cidade de Lisboa”. Trata-se de um levantamento de repertórios e elencos, estes na ordem das centenas de nomes de artistas que preencheram a atividade do Teatro Maria Matos.

 

Entretanto já decorreram mais 16 anos: e só se deseja que essa vastíssima atividade prossiga com qualidade e repercussão cultural.

 

  

DUARTE IVO CRUZ

TEATRO VILLARET DE LISBOA

 

O Primeiro Teatro de Bolso em Portugal

 

Deve-se a Raul Solnado a construção e direção artística do primeiro chamado teatro de bolso do país, Teatro Villaret de seu nome, homenagem ao grande ator João Villaret (1913-1961) que ao longo de dezenas de anos desenvolveu uma longa e prestigiosa carreira de ator e encenador.

 

Mas, mais do que a homenagem em si, importa enfatizar a iniciativa: nos anos 60, investir num teatro que não fosse (ao menos!) cineteatro, constituía um atrevimento no ponto de vista socio-económico e até, de certo modo, no ponto de vista artístico e da própria exploração teatral, ainda extremamente condicionada na época. Não se põe em dúvida, note-se bem, o prestígio e a recetividade de Solnado.

 

Mas o teatro e os Teatros, na época, ainda envolviam um certo distanciamento junto do grande público, para quem a “ida ao teatro” representava não só uma abordagem do espetáculo em si, como uma expressão social. E sendo assim, a constituição, em 1963, de uma sociedade precisamente e rigorosamente denominada TEBO – Teatros de Bolso, e a sua concretização num espaço construído e vocacionado para garagem na cave de um prédio no centro de Lisboa, representa na época um ato de lúcida coragem artística e económica, digamos assim e dizemos bem…

 

A verdade é que, a partir dessa iniciativa, construíram-se ou adaptaram-se espaços para cinemas e teatros, incrustados nas caves de numerosos edifícios um pouco por todo o país.

 

O Teatro Villaret constitui assim um percursor/renovador da atividade de espetáculos em Portugal. O teatro e mesmo o cinema, na época exigiam uma tradição de larga escala, de forma a permitir, inclusive, uma exploração diferenciada no ponto de vista socio-económico. Basta lembrar a estrutura dos edifícios, inclusive os que não vinham da transição do século -  mesmo os construídos já para o cinema: integrados no centro das cidades, estruturados com áreas bem distintas de acesso interno e espetáculo: plateia, 1º balcão, 2º balcão – e isto, insiste-se, mesmo nos que foram já projetados e construídos como cinema. Porque, se formos veros edifícios mais antigos - e citamos entre numerosos exemplos, o São Luis, o Politeama, o Eden, o Odeon – ainda encontrávamos estruturas das salas respetivas com camarotes e mesmo frisas. E sendo assim – e assim era ainda nos anos 50/60! – a adaptação de um espaço “de garagem” a teatro, constituiu, insista-se, um percurso de relevante inovação arquitetónica e cultural.

 

Recorde-se que o Cinema São Jorge, inaugurado em 1950 mas projetado pelo menos desde 1946,/1947 segundo projeto de Fernando Silva e inaugurado em 1950, tinha quatro zonas de publico e de acesso – plateia, balcão de luxo, balcão central e balcão superior -  devidamente estruturadas e exploradas, mesmo que  ligadas entre si. E Não obstante, tal como refere Margarida Acciaiuoli, “com o cinema São Jorge a natureza das funções do recinto especifica-se e a sua estrutura é moldada pelas exigências do espetáculo e pela notoriedade da artéria onde se erigia.” (cfr. Margarida Acciuoli “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano do Século XX” Bizâncio ed. 2002 pag.182). E havemos de ver que também se fez teatro no Cinema Império, este inaugurado em 1952.  

 

Em qualquer caso, até pela sua implementação nas caves de um prédio, o Teatro Villaret foi um percursor de novas formas de espetáculo/publico, pela estrutura da sala, que aqui nos ocupa, mas também pela qualidade e inovação do programa desenvolvido por Raul Solnado, em peças que alternavam a comédia com expressões dramáticas muito diversas.  O projeto arquitetónico é de Trindade Chagas, a decoração de Daciano Costa, e refere-se também um estudo económico de Carlos Faustino.

 

Estreou com “O Impostor Geral”, grande espetáculo musicado por Jorge Costa Pinto a partir do “Impostor Geral”, clássico do Nicolau Gogol. Para alem da inovação estrutural – teatro “concentrado” numa plateia, no rés do chão de um edifício - o Villaret marcou desde início pela  pela qualidade dos espetáculos e pela modernidade dos repertórios.

 

Leonor Xavier recorda essa programação original: “Além das comédias e dos musicais a apresentar nas duas sessões da noite pela companhia titular dirigida por Raul Solnado, terá peças de teatro declamado feitas por outra companhia dirigida por Jacinto Ramos, às seis e meia da tarde nos dias de semana. Esta companhia de Teatro do Nosso Tempo, a estrear também em janeiro,  criou expectativa designadamente pelo regresso da atriz Maria Barroso, depois de dezasseis anos de ausência do palco”. (cfr. Leonor Xavier - “Raul Solnado – A Vida não se Perdeu” ed. Difusão Cultural,1991 pag.116).

 

Foi realmente um “regresso” inesperado e muito justamente aplaudido: e na mesma temporada, seria a notável estreia, em Portugal, da “Antígona” de Jean Anouilh.

 

E em boa hora, o Teatro Villaret continua em plena atividade!

 

DUARTE IVO CRUZ

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

A cidade como expressão do controlo hegemónico do Estado – o Plano de Étienne de Gröer.

 

 “... a tudo o que o Homem realiza para organizar o seu espaço, resultam dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar a importância de que as formas se revestem na vida dos homens e em segundo lugar, e como consequência, a responsabilidade que assume cada homem ao organizar o espaço que o cerca. E tal responsabilidade surge exactamente pelo facto de o homem saber que a organização do espaço, tendo de satisfazer e atender à circunstância, não é por esta ‘fatalmente determinada’...”
Fernando Távora, 1962

 

Para compreensão total do actual panorama da cidade de Lisboa, constitui-se importante a política de obras públicas implementada durante o Estado Novo. Esta abordagem refere-se, com entusiasmo, à satisfação de uma vontade em assumir a cidade como entidade representante de um regime promotor da iniciativa pública – a forma urbana sobrepôs-se à sua circunstância e à sua condição. Determinante era referir a cidade como forma de poder e de propaganda. Pretende-se, deste modo ‘...urbanizar o território através de um método apriorístico e uniformizador, onde as cidades fossem a expressão da acção e do controlo hegemónico do Estado sobre o espaço social.’ (Nuno Grande, 2002)

 

O Programa das Obras Públicas foi um instrumento de política activa de despesas públicas tendentes à criação de empregos, materializando o combate às carências habitacionais, com estabelecimento de um parque habitacional para arrendamento a preços módicos. Convém referir que o Estado Novo conseguia garantir construção de obras públicas através do mecanismo de expropriação.

 

De 1934 a 1944, Duarte Pacheco desencadeia o processo de elaboração de planos de ordenamento territorial, procurando criar os mecanismos e condições favoráveis ao seu desenvolvimento. Se o Plano Geral de Urbanização e de Expansão de Lisboa foi lançado no final de 1938, o certo é que a sua concretização fez-se ao longo dos anos quarenta, mas sobretudo depois de 1945 e nos anos cinquenta. Lisboa exigia uma maior atenção. Havia que lhe impor uma ordem urbanística. Já em 1926, a Câmara Municipal tinha nomeado uma Comissão para estudar um Plano de Conjunto, mas só a partir de 1938, surge o conceito de Plano Director, que se concluirá em 1948. Trata-se de uma mudança radical. O propósito do duplo centenário despoletou a execução de obras urgentes na capital. Foi a partir deste ano que a urbanização e a expansão da cidade passam a ser da exclusiva competência da Câmara Municipal. Esta elabora estudos e projectos e executa, cabendo-lhe excepcionalmente as aquisições e expropriações de terrenos - até 1951 deram ao município a posse de 35% da superfície total e a possibilidade de comercializar 135ha para os bairros programados, numa operação rentável. Diga-se que isto só foi possível graças ao peso político de Duarte Pacheco junto de Oliveira Salazar e ao facto de se viver sob um regime autoritário. A Câmara tem forte intervenção e os particulares vêm-se na qualidade de colaboradores da Administração, construindo em lotes dispostos pelo Município.

 

Lisboa constituiu o centro das atenções, a partir de 38, pois foi aqui que se realizou a Exposição do Mundo Português.

 

O Plano de 1938 foi definido pelo urbanista de origem russa Étienne de Gröer, como projecto ordenador, que seria corrigido e melhorado durante os anos quarenta. As linhas de força do chamado Plano de Gröer são:

 

  • Organização das densidades populacionais (decrescendo do centro para a periferia);

 

  • Criação de grandes vias circulares – pela introdução de uma série de radiais entroncadas nos grandes arruamentos citadinos; traça-se a Auto-estrada a caminho do Estoril, efectivamente até ao Estádio Nacional; pela beira-rio partem vias por Xabregas até aos Olivais; por Belém até Algés; nasce a Estrada Marginal Lisboa-Estoril; e dá-se o prolongamento da via radiocêntrica constituída a partir do eixo da Avenida António Augusto Aguiar, até à estrada Lisboa-Porto. Estas circulações são determinantes no desenvolvimento de novos bairros e arruamentos.

 

  • Planeamento do Parque Florestal em Monsanto (com cerca de 900ha) e de uma cintura verde em torno da cidade (Monsanto – Várzea de Loures – Tejo);

 

  • Construção de um Aeroporto na zona norte da cidade;

 

  • Traçado de uma ponte sobre o Tejo, ligando Poço do Bispo ao Montijo;

 

  • Introdução de uma zona industrial associada ao porto, na zona oriental;

 

  • Desenvolvimento de bairros residenciais nas periferias como Encarnação e  Alvalade (ver). Desta época são também os bairros do Alvito, Alto da Ajuda, Caselas, Belém e Madredeus- todos visavam a ruralização da população, implantavam-se em zonas isoladas (havia estímulo ao apego à casa, à família, ao Estado, à Igreja), copiando o modelo da aldeia portuguesa;

 

  • Concepção de uma Cidade Universitária.

 


Através deste plano, entende-se a vontade de Duarte Pacheco em dar expressão à urbe – ao valorizar o desenho do espaço colectivo, no controlo selectivo dos seus traçados estruturantes, dos efeitos visuais e dos focos monumentais.

 

Ana Ruepp   

 

 

A cidade é processo de transformação contínuo

A FORÇA DO ATO CRIADOR
por Ana Ruepp

 

 

"A cidade é uma espécie de movimento perpétuo e de infinitas corporizações, impossíveis de determinar, e que é um tocar, um cruzar, um sobrepor, um deslocar, um recusar de uma espécie de exercício permanente desses olhares."
Pedro Cabrita Reis, 2001

 

A existência de um lugar não depende somente das suas condições reais, mas acima de tudo varia de acordo com a atribuição humana de significados e interpretações. O homem cria o lugar, ocupa-o. Esta criação não é linear no tempo, pode sobrepor-se, substituir-se conjugar, fragmentar – movimento perpétuo. Os objetos atuais do lugar, constituem-no, são a sua realidade. A pureza do lugar ocupado pelo passado é inatingível, mas reconhecível pela simbólica atribuída, pela ausência demarcada.

 

‘Esta cidade era tão famosa nos últimos tempos, que da sua fama se criou um provérbio: Qui no ha visto Lisbona no ha visto cosaboa.’

 

No tempo, a cidade é processo de transformação contínuo. Ilustração real deste aspeto é a existência de Lisboa, diversa dos nossos dias, anterior ao Terramoto de 1755.

 

Desde quinhentos, D. Manuel II marcou estrategicamente uma ação sobre a cidade, através da marcação territorial de centros estruturantes - praças além-mar. Esses centros constituem-se Rossios albergantes de equipamentos essenciais e importantes para a vivência de uma cidade. Do Rossio partiam eixos de intensa atividade comercial.

 

Em Lisboa, o período manuelino permitiu reestruturação urbana. A reestruturação constitui-se na divisão territorial entre alta e baixa urbana. A alta ligava-se ao poder militar ou eclesiástico. A baixa, por sua vez, estabelecia-se sob domínio do poder régio e municipal - esta parte do território em Lisboa assiste a transformações significativas. Essas transformações dizem respeito à implantação da plataforma do Terreiro do Paço Real, ao longo do Tejo e à introdução do Rossio, associado a equipamento central urbano (Hospital de Todos-os-Santos). Esta reestruturação da cidade de Lisboa contribuiu, em grande medida, para a consolidação do seu centro, como espaço modelador e controlador da atividade mais determinante - o comércio.

 

Em meados do séc. XVIII, antes de 1755 Lisboa afirmava-se nesta centralidade. A descrição de Lisboa setecentista, que se segue, elabora-se segundo vários autores germânicos:

 

  • Situação: a cidade surge, num sítio privilegiado, debruçada a montante do rio Tejo, erguida sobre sucessivas colinas. Cinco dessas colinas estão cercadas por uma muralha de 39 portas (Santo Antão, São Vicente, Santa Catarina, etc.). Dessas cinco colinas, uma contem o Castelo de São Jorge - lugar gerador da cidade. Nos vales situados entre as colinas localizam-se as principais artérias da cidade;

 

  • Arruamentos e Praças: Os arruamentos de Lisboa, de então, são bastantes estreitos, porém a localização do seu traçado permite vistas sobre o rio e o descampado da outra margem. As praças são de grande amplitude. Entre o Paço da Ribeira e a Alfândega situa-se a maior praça da cidade. Importante, como já foi referido, é, igualmente, o Rossio rodeado por colinas, local de realização de mercado. O Terreiro do Paço é 'a mais bela de todas as praças';

 

  • Edificado: considera-se Lisboa, uma cidade muito dilatada e populosa e as suas edificações são magnificentes e esplendorosas. Destacam-se o Paço Real, como sendo um edifício quadrado, de quatro pisos, quatro pavilhões, dois torreões, cobertura abobadada; a Capela Real, contígua a um dos lados do Palácio Real; o Palácio do Corpo Santo, com quatro alas distintas, ornadas de torres, com galeria para passeio; o Novo Teatro ou Casa da Ópera, de Guarini Guarino; o grande mercado; as casas da Alfândega as igrejas (Dominicanos, Santo António, congregação dos Frades Descalços, Jesuítas, Madredeus, Nossa Senhora de Gratia, etc.); os conventos (S. Bento); a Confraria da Misericórdia; o Hospital de Todos os Santos; a Sé, ao erguer-se na vertente de uma colina.

 

A cidade, desde então, coordena diferentes ocupações e organizações territoriais (espontâneas e planeadas - Bairro Alto). O cataclismo natural de 1755 trouxe uma oportunidade planeada, aglutinadora e globalizante para o território real. Com ele iniciou-se a cidade do traçado não só físico mas também social. Testemunha da Lisboa, do passado, são as simbologias atribuídas aos lugares - a toponímia que fica e aquela que permanece.

 

Ana Ruepp