Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

BREVE NOTA SOBRE O ENCERRAMENTO DO TEATRO DA CORNUCÓPIA

 

No momento em que escrevemos, é dado como certo o encerramento do Teatro da Cornucópia, pondo termo a uma atividade cénica e cultural que se prolonga em Lisboa desde pelo menos 1973. Naquele ano, Jorge Silva Melo e Luis Miguel Cintra lançam um projeto de companhia, precisamente, o chamado Teatro da Cornucópia, desde logo marcado pelo dimensionamento cultural de alternância de textos clássicos e modernos, numa perspetiva de modernidade.

 

Até 1975 o Teatro da Cornucópia foi itinerante. E entretanto, funcionava já o Centro de Amadores do Ballet no Teatro do Bairro Alto, para onde a companhia se desloca e se fixa em 1975.  De notar aliás que a designação de Teatro do Bairro Alto se justifica pela tradição e até pela proximidade urbana com o velho Teatro do Bairro Alto setecentista.

 

Importa então ter presente que o edifício do Teatro do Bairro Alto, hoje Cornucópia, foi construído por iniciativa de Tina Reis, que lá instalou o Centro de Amadores de Ballet. E de assinalar também que o palco é notavelmente dimensionado, tendo em vista a própria dimensão restrita do edifício em si.  

 

Os primeiros espetáculos do Teatro da Cornucópia consistiram adequadamente em expressões bem atuais, segundo recordamos, de grandes clássicos da dramaturgia europeia: designadamente “O Misantropo” de Molière e “A Ilha dos Escravos” e “A Herança” de Marivaux. As traduções e encenações, em ambos os espetáculos, a cargo de Luis Miguel Cintra. E desde logo, os elencos marcavam também qualidade: recordem-se nomes e carreiras como, além dos já acima citados, Glicínia Quartim, Dalila Rocha, Filipe La Féria, Orlando Costa, Luis Lima Barreto, Carlos Fernando e outros à época de grande projeção e em rigor, ainda hoje!...

 

Mas entretanto a supressão da censura trouxe à companhia a possibilidade de renovação do repertório, e desde logo com um indiscutível texto dramático de grande qualidade, o “Terror e Miséria do Terceiro Reich” de Bertold Brecht.

 

A partir de 1975 a companhia fixa-se então no Teatro do Bairro Alto que assumirá também o nome de Teatro da Cornucópia, numa linha da tradição urbana de espetáculos. E o elenco básico alarga-se. Desde logo, com a colaboração de Augusto de Figueiredo precisamente na peça de Brecht acima citada. E a companhia entra num ciclo de renovação e modernidade que durou até hoje. Levou à cena um total de aproximadamente 140 peças. Renovou os elencos.

 

E mais: em 2016, a Fundação Calouste Gulbenkian publica dois volumes de grande formato num total de cerca de 1200 páginas com a enumeração e a análise crítica destes espetáculos, abrangendo autores, elencos e demais perspetivas de uma atividade teatral constante e abrangente.

 

E que agora ao que se anuncia, chegou ao fim... o que é obviamente lamentável, dada a fragilidade do meio teatral português!

 

DUARTE IVO CRUZ

NO TEATRO SÃO LUIZ, MEMÓRIA DA COMPANHIA DE TEATRO MUNICIPAL


Em novembro de 1971 inicia-se no Teatro São Luiz a primeira temporada do que se denominou Teatro Municipal de Lisboa: companhia patrocinada pela Câmara Municipal, que adquirira e  recuperara o velho Cine Teatro. Organizou-se então no próprio São Luiz um chamado Departamento Teatral dirigido por Luiz Francisco Rebello onde tive o gosto de colaborar como adjunto do Diretor. Departamento que pouco tempo duraria...

 

Tenha-se presente que nesse período os teatros de Lisboa prosseguiam uma temporada interessante em matéria de textos e autores. Recorde-se designadamente que o Teatro Nacional levava à cena, no Trindade, o “Calígula” de Albert Camus; e as outras empresas: no Laura Alves, “Quem tem Medo de Virgínia Woolf” de Edward Albee; no Monumental, “Uma Cama para Toda a Gente” de Jean de Létraz; no Capitólio, “A Querida Mamã” de André Roussin; no Villaret “O Aniversário da Tartaruga” de Garinei e outros; e duas comédias infantis no Variedades e no Capitólio; isto, além das revistas no Maria Vitória e no ABC. 

 

Havia pois teatro em Lisboa. Mas devem desde já salientar-se alguns aspetos da iniciativa do Teatro Municipal.

 

 Antes de mais, a indiscutível qualidade e prestígio de Luiz Francisco Rebello, já então e até hoje, nome referencial do meio teatral português, com a circunstância, não despicienda, da sua independência política, no contexto da época. E foi extremamente relevante a colaboração que tive ensejo de prestar.

 

Mas mais: no São Luiz, a companhia em si mesma reunia um grupo notável de atrizes a atores. Basta evocar os principais nomes que constituíram o elenco: Eunice Muñoz, Alvaro Benamor, Hugo Casais, Vitor de Sousa, Fernanda Figueiredo, Batista Fernandes, Maria de Jesus Aranda, num total de mais de 20 artistas. E como encenador, Costa Ferreira.

 

Independentemente do que significam hoje estes nomes, decorridos quase 50 anos, realce-se a qualidade do elenco: basta consultar a imprensa da época.

 

A escolha do repertório coube a Luis Francisco Rebello. Estavam previstas então quatro peças para essa temporada de 1971/1972. E eram elas “A  Salvação do Mundo” de José Régio, “A Mãe” de Stanislas Witckiewicz, “Fígados de Tigre” de Gomes de Amorim e “Platonov” de Anton Tchekov.

 

 A peça de Régio foi então reeditada num volume que servia também de programa e apresentação da companhia. Nele, Luis Francisco Rebello explica as razões desta seleção. E fá-lo com independência e objetividade. Diz:

 

“Não foi de ânimo leve que aceitei a pesada responsabilidade de assumir a direção do setor dramático de um teatro que é (deveria ser) para toda a cidade. Como qualquer outro teatro, aliás, uma vez que as lágrimas e o riso – disse-o François Mauriac -  não são o privilégio de uma só classe social. Mas o Teatro hoje atravessa (e não só em Portugal) uma fase perturbada da sua evolução, aqui agravada por fatores particulares. Creio que uma das formas de enfrentar essa crise é caprichar na apresentação, a um público que se desejaria o mais vasto possível, de espetáculos artisticamente dignos, o que só se consegue com uma rigorosa conjugação de planos em que o fenómeno dramático se organiza. Um espetáculo esteticamente inferior é, do ponto de vista social, negativo”.

 

Ora bem: esta Companhia de Teatro Municipal de Lisboa pouco haveria de durar. Na segunda peça programada, como vimos “A Mãe” de Witckiewicz, surgiu um problema com a censura. Arrastaram-se negociações, tanto mais prementes quanto é certo que o espetáculo estava em vésperas de estreia. Mas não estreou.

 

Luiz Francisco Rebello demite-se do cargo de Diretor do Teatro Municipal de Lisboa. Eu saí também.  Artur Ramos e Jorge Listopad recusam fazer encenações. E  Natália Correia retira a tradução feita para o “Platonov”.

 

Assim acabou a Companhia de Teatro Municipal.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DO TEATRO MUNICIPAL DE SÃO LUIZ

 

Chamam-me a atenção para um livro sobre Lisboa, publicado em Paris: “Lisbonne – Histoire, Promenades, Anthologie et Dictionnaire”, dirigido por Luísa Braz de Oliveira (ed. Robert Laffont) que evoca e analisa a cidade num pluralismo de aspetos e dimensões que efetivamente dão uma visão abrangente do historial mas também da realidade contemporânea e quotidiana: e isto, num conjunto de mais de 20 autores franceses e portugueses. E nesse conjunto heterogéneo mas coerente, sobressai a tradição de salas de espetáculo, com destaque para o que é hoje o Teatro Municipal de São Luiz. O Teatro é referido por António Pinto Ribeiro num texto denominado “Lisbonne aux Allés de Jacarandas”.

 

Mas voltemos atrás, a própria denominação merece referência histórica. Na verdade o teatro é inaugurado em 22 de maio de 1894 com a ópera “A Filha do Tambor Mór” de Offenbach e à data chama-se Teatro D. Amélia, homenagem à Rainha homónima. A partir da implantação da República passa a chamar-se precisamente Teatro República. Mas a iniciativa original partira de um luso-brasileiro, o Visconde de São Luis Braga, nascido no Rio Grande do Sul de pais portugueses e que aqui retornou. 

 

É de assinalar que o projeto original ficou a dever-se ao arquiteto Ernesto Luis Raymond, com intervenções relevantes de elementos ligados à produção teatral – e desde logo os cenógrafos Luigi Manini e Carlo Rossi.

 

O edifício ardeu em 1915, mas em boa hora foi devidamente restaurado, mantendo-se o estilo original. Adotou o nome atual em 1918 e converte-se em cinema a partir de 1926. Mas, tal como já escrevi, pelo menos desde 1896 efetuaram-se projeções de “animatógrafo”: de tal forma que em 1911 o Jardim de Inverno é autonomizado como cinema com a designação insólita de “The Wonderful” nada menos… Durante décadas foi sobretudo cinema: e em certas épocas era denominado São Luis Cine.

 

É interessante aliás recordar, tal como já escrevemos, que o São Luiz sempre albergou, desde a origem, o que de melhor existiu em Portugal no que respeita a espetáculos. Desde as companhias de Rosas e Brazão à estreia de Amélia Rey Colaço, passando por artistas “históricos” como Ferreira da Silva, Adelina e Aura Abranches, Lucília e Lucinda Simões, Erico Braga, Chaby Pinheiro, até às gerações mais recentes, antes pelo menos dos anos 70 e de certo modo até hoje. E no que toca a artistas estrangeiros, a tradição vem das origens: desde Sarah Bernard, à Duse, à Novelli, Réjane, Raf Valone, Edwige Feillere, Maurice Chevalier, até aos mais recentes.

 

E no que respeita à dramaturgia portuguesa, recordo que por lá passaram em estreia peças de Marcelino Mesquita, Júlio Dantas, Lopes de Mendonça, José Régio, Bernardo Santareno, Sttau Monteiro... (cfr. “Teatros de Portugal” ed. INAPA 2005).  

 

Em qualquer caso, o São Luiz é municipalizado em 1971. Mas manteve entretanto a tradição de teatro, cinema e sala de concertos que vinha da origem. Basta ler a extraordinária coleção de placas evocativas que preenchem as paredes dos foyers da plateia e balcão.

 

José Augusto França evoca a chamada I Conferencia Futurista de Almada Negreiros no São Luiz, em 14 de abril de 1917, em que apresentou o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”.

 

“À minha entrada no palco rebentou uma espontânea e tremenda pateada, seguida de uma calorosíssima salva de palmas que eu cortei com um gesto. Reduzida a plateia à sua inexpressão natural, tive a glória de apresentar o futurista Santa-Rita-Pintor que o público recebeu com uma ovação unânime. Comecei então o meu ultimatum à juventude portuguesa do século XX e a plateia acostumada a conferências exclusivamente literárias e pedantes chocou-se nitidamente com a virilidade das minhas afirmações pelo que executava premeditadas e cobardes reprovações isoladas mas sem efeito do conjunto”...

 

E refere então José Augusto França:

“Assim descreve Almada, no Portugal Futurista de Novembro, o início da cerimónia de que foi o protagonista visível, dentro de um fato de macaco de aspeto clownesco”... (cfr. “A Arte em Portugal no Século XX”  Liv. Bertrand 1974).

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da janela do Hotel Borges, a luz Jablochkoff iluminava orgulhosa os passeantes do início da noite. Não se sabe se alguém recordou a ténue claridade do anterior gás que, aceitando o jeito ténue de abat-jour, fora espécie cúmplice aos abraços dos apaixonados e não só. De qualquer modo, diz-se, que esta luz Jablochkoff imprimiu à cidade de Lisboa o cunho de uma cidade europeia. Com esta nova luz, muitos locais tornaram-se pensadores aprazíveis do que aos destinos do mundo respeita, ou, as medalhas e as joias e as plumas e os ares de casacas, se não tivessem tornado feitos extraordinários apenas por maior visibilidade na direção dos poderes.

 

É certo que o russo que inventou esta forma de luz não terá tido em conta que a clareza do poder importuna o próprio poder ou não lhe perguntasse:

 

- Vi-o ontem com o senhor x. Tenho a certeza que era V-Exa. Não estou a supor sequer que não seria. Creio bem que a grã-cruz lhe escapou justamente por essa clara companhia.

 

Aqui chegados todos se lembravam da importância da vela de sebo, verdadeira agente da escuridão, espartana o bastante para não revelar antes de entregue, qual a propina que ao criado caberia naquele dia.

 

O ditado ainda hoje reza:

 

Contente-se, que não vai mal de abat-jour!

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

TEATRO ABC

 

O ÚLTIMO TEATRO CONSTRUÍDO NO PARQUE MAYER

 

O Teatro ABC foi a última sala de espetáculos inaugurada no Parque Mayer: e, no que se refere ao espetáculo propriamente teatral, terá sido a primeira a ser encerrada. Vocacionado para a revista, que na prática e salvo eventuais iniciativas esporádicas, foi a expressão dramática lá dominante, o ABC estreou como teatro em janeiro de 1956, e durou até 1997. Desde a origem fazia-se notar o carater algo provisório do edifício, fundado pelo empresário José Miguel e instalado em áreas antes ocupadas por outras expressões de espetáculo e/ou de serviço público: restaurantes, ringue de patinagem, cinema ao ar livre.

 

Em 1955 José Miguel era um nome determinante do espetáculo de revista. Procedeu à adaptação do espaço, privilegiado pela localização, em recinto repetimos, vocacionado para o espetáculo.

 

De acordo com o levantamento exaustivo de Jorge Trigo e Luciano Reis, o Teatro ABC alternou esporadicamente a revista com espetáculos de teatro infanto-juvenil, tal como dizemos hoje: e o carater esporádico dessas iniciativas dispersas não desmerece da qualidade de elencos e da exigência dos autores envolvidos: entre autores e atores, surgem nomes como Eduardo Damas, Rui de Carvalho, Francisco Nicholson, Canto e Castro, Luís Cerqueira, Maria Clara Machado, Curado Ribeiro e até o francês Labiche, traduzido por César de Oliveira… isto, em elencos que no total excedem  centenas de artistas, muitos deles de primeiríssimo plano artístico e profissional.

 

Porque a revista, foi sempre relevante, e o teatro infanto-juvenil,  era-o já também,  na época, e muito o foi nos anos seguintes: basta lembrar o Teatro do Gerifalto de António Manuel Couto Viana.

 

Ora, é de salientar que o Parque Mayer, independentemente da heterogeneidade de expressões cénicas e musicais que lá se produziam, e que temos aqui evocado nesta série de artigos, ainda constituía à época, e aliás não era novidade, o grande centro de produção de revista no país.

 

Só que, como temos aqui visto, os outros teatros do Parque Mayer – Capitólio, Maria Vitória, Variedades -  ao longo de dezenas de anos, iam alternando, é certo que uns mais do que outros, o género de espetáculo dominante:   nesse aspeto, aliás, o mais heterogéneo será o Capitólio, durante dezenas de anos vocacionado quase exclusivamente para o cinema: e mesmo assim, como já tenho recordado, lá se instalou por exemplo a companhia brasileira de Maria Della Costa e Sandro Polónio, que estreou Brecht, ou a Empresa Rey-Colaço – Robles Monteiro na época marcada pelos sucessivos incêndios dos Teatro D. Maria II e do Avenida…

 

Em qualquer caso, o Teatro ABC foi sobretudo um teatro de revista. Fundado e primeiramente dirigido pelo empresário José Miguel, e a partir de 1971 dirigido por Sérgio de Azevedo, produziu, escreveram Jorge Trigo e Luciano Reis, um total de 47 revistas, o que é assinalável, tendo em conta que as revistas ficavam meses em cartaz. (cfr. Jorge Trigo e Luciano Reis “Parque Mayer” vol. 2 ed. Sete Caminhos págs. 127 e segs.)

 

A primeira revista foi “Haja Saúde” da autoria de José Galhardo, Carlos Lopes e Frederico de Brito, com Curado Ribeiro no primeiro papel. Seguiram-se, como já referimos, mais 46 revistas, intercalando com os espetáculos infantis e outros espetáculos diversificados: mas efetivamente, o Teatro ABC foi predominantemente um teatro de revista.

 

Fazemos aqui uma transcrição da “História do Teatro de Revista em Portugal” de Luis Francisco Rebello que evoca valores notáveis das sucessivas temporadas da ABC (vol. 2 – Publicações D. Quixote -  1985):

 

“Num dos primeiros dias de janeiro de 1956 inaugurava-se, ao lado do Maria Vitória, o quarto teatro do Parque Mayer, o ABC – construído no mesmo local onde haviam funcionado o Alhambra e o Pavilhão Português”. Refere que “à semelhança da sala, a companhia era modesta”. Mas refere que foi sobretudo na revelação de novas personalidades que em empresário José Miguel e o seu sucessor Sérgio de Azevedo apostaram”. E cita nomes que realmente hoje fazem parte da história do espetáculo em Portugal: por exemplo Hermínia Silva, Raul Solnado, António Silva, Humberto Medeira, Manuel Santos Carvalho, Ivone Silva irene Cruz, Henriqueta Maia, José Viana, Aida Batista, Camilo de Oliveira, e tantos mais. E mais refere que “1972 foi um ano fausto para a revista portuguesa” e “foi o ABC, uma vez mais, o palco dessa aventura que se iniciou com «É o Fim da Macacada» segunda revista montada pelo novo e ativo empresário do Teatro mais recente do parque Mayer, Sérgio de Azevedo (ob. cit.págs 131 e 142).

 

Ora bem: em 1990, o Teatro ABC arde! Carlos Santos toma conta dos trabalhos de reconstrução, e o ABC reabre em 1993. Mas em 1977 fecha definitivamente.

 

E hoje, nem o edifício resta!

 

DUARTE IVO CRUZ 

PORQUÊ ALFACINHAS?

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO (I) - 1 de agosto de 2017

 

Este diário de Agosto responderá a dúvidas e fará comentários ao sabor da pena.
Para começar apresento a ilustração de Luís Diferr sobre Lisboa antes do Terramoto…
E faço eco de uma persistente pergunta – por que razão são os lisboetas designados, desde tempos imemoriais, por alfacinhas?
Almeida Garrett imortalizou o epíteto nas «Viagens na Minha Terra», mas não explicou: «Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço».
Pois bem, alfacinha vem mesmo de alface (latim, lactuca saliva, do árabe al-khass) e o diminutivo é um sinal não apenas de afeto, mas também de uma certa depreciação… É que provavelmente foram os moçárabes dos arrabaldes, a quem os lisboetas chamavam saloios (da palavra çaloio, que era o tributo pago pelos padeiros mouros de Lisboa), que devolveram o cumprimento, comparando os lisboetas a grilos pelo gosto das alfaces que cultivavam, comiam e encomendavam aos almocreves que pagavam os seus tributos nas portas de Benfica para entrarem na cidade.
Correu a ideia de que no cerco de Lisboa de 1384 (de 4 meses e 27 dias) Lisboa se teria aguentado a comer alfaces. Não é verdade. O cerco foi levantado com o alarme de peste…
Em suma, «alfacinha» é um mimo dos moçárabes saloios, talvez cansados de exigências e sobrancerias…
Lisboetas, alfacinhas para sempre…  

 

 

             
DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

               

O TEATRO LUÍS DE CAMÕES, PRECURSOR DOS TEATROS DE BOLSO

 

O pequeno Teatro Luís de Camões, na Calçada da Ajuda em Lisboa, datado de finais do século XIX e em fase de recuperação, constitui exemplo de certo modo percursor dos chamados Teatros de Bolso que hoje marcam numerosas cidades e vilas por esse país: e é interessante desde já referir o caráter, insista-se, percursor desta iniciativa, que, curiosamente, se ficou a dever a um comerciante local, João Açucar de nome.

 

A inauguração oficial do Teatro Luís de Camões ocorre em 10 de junho de 1880, no quadro das comemorações do tricentenário da morte do poeta. A peça foi “Camões e o Jau” de Casimiro de Abreu. Em qualquer caso, insistimos, surge percursor, dos pequenos teatros (e hoje até cineteatros) que existem um pouco por todo o país. Só que este, particularmente pela reduzida dimensão e lotação, é percursor de o que chamamos hoje, bem ou mal, Teatros de Bolso, não obstante constituir um edifício autónomo.

 

José Augusto França, ao historiar a construção do palácio da Ajuda, esclarece que “nenhuma igreja (só uma capela), nenhum grande teatro estava previsto no plano: o complexo arquitetónico tradicional cedia lugar a uma definição mais civil ou mais cívica, e portanto mais moderna, de residência régia” (cfr. “Arte em Portugal no Século XIX, vol. I Bertrand ed. pág.95 e segs.) 

    

E no entanto, o Teatro Luís de Camões da Ajuda marcou, ao longo destes 137 anos, com os altos e baixos inerentes, uma certa “política” cultural na época fortemente descentralizada, até no ponto de vista administrativo. Belém era na época concelho. E não obstante a relevância óbvia que decorria inclusive da proximidade do Palácio, a construção e exploração de um pequeno Teatro aberto ao público assumiu um significado específico, sendo certo entretanto que o Teatro do Palácio da Ajuda ou Casa da Ópera de Belém foi inaugurado em 4 de novembro de 1737 segundo projeto de Bibiena, que seria autor também do Teatro da Ópera do Tejo, este destruído pelo terramoto de 1755.

 

Muito diferente é desde a origem o Teatro Luís de Camões. A sala reproduzia, na sua dimensão de pequeno teatro, sobretudo pequeno para a época, a estrutura sócio-económica de exploração de espetáculo da época de fundação: plateia, frisas, camarotes, tribuna, num dimensionamento adequado à dimensão percursora, insista-se, de um teatro de bolso, nesse aspeto também percursor.

 

 Em 1899, o Teatro Luís de Camões passa a servir de sede ao Belém Clube. E entretanto, ao longo destes mais de 100 anos, o historial do Teatro assinala uma tradição de iniciativas culturais e de intervenções artísticas dignas de registo histórico.

 

Lá se estreou e lá se despediu do público Adelina Abranches. Lá atuaram nomes históricos do teatro luso/brasileiro, como Rafael Alves, João Villaret. Auzenda de Oliveira, Sales Ribeiro, Mirita Casimiro, Procópio Ferreira, Bibi Ferreira…

 

E lá se estreou o grande cantor e encenador de ópera Tomás Alcaide, evocado, entre outros numa placa inaugurada em 1953.

 

DUARTE IVO CRUZ 

MEMÓRIA DO TEATRO DO SALITRE

 

O programa de visitas organizado pelo Centro Nacional de Cultura no eixo da Avenida da Liberdade justifica esta evocação do setecentista Teatro do Salitre, a certa altura (1858) também chamado Teatro das Variedades, o que desde logo define o seu âmbito de programação, mas também documenta a antecipação urbana e cultural que a sua construção e atividade representa relativamente ao eixo central urbano da Avenida da Liberdade e ao próprio Parque Mayer.

 

É interessante e oportuno por isso referir que o Teatro do Salitre, inaugurado em 27 de novembro de 1782 e demolido em 1879, logo no início das obras de implantação da Avenida, representou durante um século como que a antevisão do que viria a ser, ali mesmo, o Parque Mayer: curiosa antevisão,  insista-se,  de funções urbanas e culturais desta zona da cidade!

 

O Teatro do Salitre foi edificado por iniciativa de um negociante, de nome João Gomes Varela, que encomenda o projeto ao arquiteto Simão Caetano Nunes. Varela terá sido pois o primeiro empresário, diríamos hoje, do Parque Mayer. E para o espetáculo de estreia, é também contratado um equilibrista na altura muito prestigiado, Tersi de seu nome.

 

Mas quem mais marcou o Teatro do Salitre como cena referencial foi o ator António José de Paula que a partir de 1794 explorou o Teatro com um repertório notável para a época: inclusive, estreou em Portugal duas peças adaptadas de textos de Voltaire. E anos mais tarde, lá se instalaria uma companhia dirigida por Emile Doux, nome referencial no seu tempo e de certo modo ainda hoje.

 

Mas em 1840 o Teatro do Salitre estava em fase de decadência. Teófilo Braga, no seu estudo intitulado “Garrett e os Drama Românticos” (1905) transcreve um artigo onde se traça uma visão muito negativa do Teatro nessa época:

 

“O Teatro do Salitre era o único regular de Lisboa, e este mesmo, que mais se assemelhava a uma baiuca do que a um lugar de recreio público, só era frequentado pela classe ínfima da sociedade: ali, as graças mais obscenas eram unicamente aplaudidas, os ditos mais desonestos eram os que melhor soavam aquela plateia”…!

 

E mais adiante, na mesma obra, mas reportado a 1806: “o Teatro da Salitre tornou-se um asilo para os literatos pobres, assalariados para trucidarem a arte e a língua com traduções de dramas franceses”… (pág. 135).

 

A crise vinha pois de trás. E nesse sentido, Ana Isabel de Vasconcelos assinala agora   que “o Teatro do Salitre tem desde sempre sido referido como um parente pobre da arte dramática. (…) Já no fim do século XVIII, quando não havia atores em número suficiente, este teatro é preterido relativamente ao Condes, que se apropria da designação de teatro nacional”.  Mais refere ainda que “o Salitre tinha uma boa lotação – 900 espetadores em plateia, frisas e camarotes” (in “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT  2003 págs 30-31).

 

E é interessante recordar que quando Garrett, em 1836, elabora a sua reforma estrutural do teatro português, as duas salas dominantes de Lisboa – e do país inteiro,  em rigor -  eram precisamente o Teatro do Salitre e o Teatro da Rua dos Condes, sem referir, claro, o Real Teatro de São Carlos, esse inaugurado em 30 de junho de 1793 e vocacionado, como bem sabemos, para a música, para a ópera.

 

O teatro de D. Maria II seria inaugurado em 13 de abril de 1846. Pode referir-se também o pequeno Teatro das Laranjeiras, do Conde de Farrobo, inaugurado em 1825 e restaurado em 1842. O Teatro do Gymnasio data do mesmo ano de 1846. O Teatro da Trindade é de 1867, o Teatro Gil Vicente de Cascais de 1869, o Teatro Taborda de 1870... 

 

Mas recorde-se então que o Teatro São João do Porto é inaugurado em 13 de maio de 1798, e antes dele existiram Teatros em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país: de muitos deles temos falado aqui, e  desses e de outros voltaremos aqui a falar.

 

DUARTE IVO CRUZ 

O QUE RESTA DO EDEN?

 

A pergunta é pertinente, e mais se justifica no quadro das visitas que o Centro Nacional de Cultura está a efetuar no eixo urbano central de Lisboa, e designadamente na Avenida da Liberdade.

 

O que resta então do Eden? Sem dúvida apenas a fachada, tal como “sobreviveu” às sucessivas alterações/demolições deste notável Cine-Teatro que vinha do início do século passado, e que, durante décadas, manteve, em sucessivas adaptações e alterações, uma estrutura interna de espetáculo e de cultura, entretanto desaparecida: ao menos a fachada subsiste.

 

Evidentemente, há, neste processo, componentes e variantes que transcendem em si mesmas os critérios de conservação arquitetónica: mas no caso do Eden-Teatro e Cinema, amplamente se justificava essa conservação, desde logo pela qualidade arquitetónica, insista-se nela, mas também pela expressão urbana, social e cultural decorrente da tradição e da própria localização.

 

E não se diga que o eixo Rossio-Restauradores-Avenida de Liberdade merece hoje menos atenção e menos consideração. Os programas em curso do CNC são nesse aspeto extremamente relevantes.

 

O Eden, ou a área urbana que ocupa, começou por albergar uma sucessão de espaços de vocação de espetáculo, designadamente, de teatros mas também de cinemas, em edifícios provisórios desde o início do século passado. José Manuel Fernandes refere «uma sala de cinema “fim de século” (em 1918)» (in “Cinemas de Portugal” ed. INAPA 1995); Margarida Acciaiuoli por seu lado refere que «em 1928, uma vistoria da Inspeção Geral dos Teatros, empenhada na sua ação fiscalizadora, deteta anomalias no Eden-Teatro, um recinto  inaugurado em 25 de setembro de 1914, na Praça dos Restauradores, depois de três pareceres negativos que  consideravam a sala de teatro- cinema como “uma obra desastrada e perigosa”» (in “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano de Século XX” Bizâncio ed. 2012)”.

 

A primeira peça em 1914 foi “O Burro do Senhor Alcaide” de Gervásio Lobato. E refira-se que em 1911 tinha sido inaugurado no local, um pequeno cinema denominado Chantecler, integrado no antigo Eden e mais tarde “autonomizado” com a denominação de Cinema Restauradores. Como tal funcionou de 1935 a 1968.

 

O certo é que existiu no local uma tradição de recintos mais ou menos improvisados para espetáculos de teatro e/ou de cinema. E essa tradição ganha um registo consolidado em finais da década de 20 quando Cassiano Branco projeta e inicia as obras de construção deste ambicioso cine-teatro na Praça dos Restauradores.

 

Só que o projeto de Cassiano acaba por ser alterado logo na fase inicial dos trabalhos de construção. E de tal forma que, em 1931, o arquiteto desliga-se da empreitada, entretanto já em fase de iniciação no terreno. E as obras prosseguem sob a orientação e de acordo com projetos revistos pelo arquiteto Carlos Florêncio Dias, o qual, note-se bem, não renega mas adapta a traça original, com alterações tanto internas como na fachada mas sobretudo viabilizando a construção e assim salvando o investimento respetivo, que já era significativo…

 

Independentemente do contributo arquitetónico de cada um dos arquitetos, o que se deve enfatizar é a grandiosidade e a qualidade exterior do edifício, e a capacidade de adaptação do interior, face à necessidade de ajustar a estrutura da sala de espetáculos aos compromissos anteriores no que respeita à estrutura comercial pré-existente.

 

Ou por outras palavras: havia de conciliar um grande Cine-Teatro com os estabelecimentos comerciais já existentes na zona térrea do edifício, que deveria corresponder ao foyer de entrada e de acesso, isto, na fase de início da construção. E essa circunstância determinou uma estruturação interna do Cine-Teatro, designadamente na “deslocação” da plateia para uma área ao nível de um  primeiro balcão: e as frizas ao nível de camarotes. E a arquitetura interior de grandes salas de espetáculo da época mantinha a estrutura tradicional de frisas, camarotes, plateia e um ou dois balcões: assim foi pois com o Eden, mas à custa de uma estrutura complexa de acesso através de escadarias e elevadores.

 

Entretanto, a fachada valorizou sobremaneira a zona urbana, e conciliou-se totalmente com o estilo arquitetónico diferente do vizinho Palácio Foz. O friso de dez baixos relevos de Leopoldo de Almeida valorizou a fachada do Eden: mas a própria estrutura arquitetónica, com a sucessão de janelões, singularizou o projeto e valorizou também a Praça dos Restauradores.

 

E não obstante o Eden ter sido, ao longo de décadas, sobretudo cinema, não obsta a que lá se tenha produzido teatro de qualidade. E aí, evoco designadamente, a partir de um texto que na época publiquei, a realização de temporadas de teatro infantil e juvenil, que se conciliavam com a exploração cinematográfica dominante. Recordo a propósito a critica que escrevi em 1968, sobre uma peça infanto-juvenil de Norberto Ávila, “A Ilha do Rei Sono” encenada por Couto Viana, interpretada por Maria Albergaria, Maria Emilia Batista, Luis Cerqueira, Eduardo Silveira e outros, com cenários de Juan Sotulho: isto no Eden, aí realmente o Cine-Teatro que a designação da fachada ainda hoje mantém.

 

Mas desde 1993 que não é nem cinema nem teatro!

 

O que resta então do Eden?

 

DUARTE IVO CRUZ

A TRADIÇÃO SETECENTISTA DO TEATRO VARIEDADES

 

É interessante constatar que, no ponto de vista histórico, o Teatro Variedades, edificado em 1923 no Parque Mayer e hoje praticamente abandonado na imponência do edifício original, não obstante a data de origem e as alterações nestes quase 100 anos decorridos, guarda uma tradição que remonta ao século XVII, mais ou menos no mesmo local, mas muito antes da abertura da Avenida da Liberdade e obviamente, muitíssimo antes portanto da implantação do próprio Parque Mayer.

 

É que, na potencialidade da zona urbana, à época obviamente muito diferenciada, ergueu-se, a partir de 1782, um Teatro, denominado Teatro do Salitre, na área que viria a ser urbanisticamente absorvida pela Avenida, mas que, repita-se, já definindo uma zona central do desenvolvimento. Aliás, sabemos bem que a Rua do Salitre começa junto ao Parque Mayer. Daí também que se remonte a tradição ao então chamado Teatro do Salitre.

 

Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos historia essa tradição hoje com quase dois séculos: «Edificado em 1782 pelo arquiteto Simão Caetano Nunes, possuía “lotação para 900 espectadores, distribuídos por 21 frisas, 27 camarotes de 1ª ordem, 22 de 2ª, 207 lugares de plateia, 147 de superior 120 de geral e 60 nas varandas”.» E acrescenta: «Já no fim do século XVIII quando não havia atores em número suficiente para aguentar duas companhias, este teatro é preterido relativamente ao Condes que se apropria da designação de “teatro nacional”.»… (cfr. Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT 2003 pág.25 e nots. cits.).

 

Sousa Bastos, escrevendo na transição dos séculos XIX/XX descreve os dois teatros. No que respeita ao Teatro do Salitre, dá-o como inaugurado em 27 de novembro de 1752, “tomando parte no espetáculo o célebre equilibrista Tessi, mandado vir expressamente do estrangeiro como grande novidade da época” (in “Dicionário do Theatro Português” 1908, pág. 362).

 

E remete para 1858 a inauguração do chamado então Theatro das Variedades e referindo que naquele ano «formou-se uma associação para com este título explorar o antigo Theatro do Salitre»: e acrescenta, noutra obra. que «a peça de abertura, que teve extraordinário agrado e alcançou grandes receitas, foi a mágica em 3 atos e 19 quadros arranjada por Francisco Palha e Joaquim Augusto de Oliveira, a “Lotearia do Diabo”. No papel de Abdalah obteve enorme sucesso o ator Izidoro»… (cfr. Sousa Bastos “Carteira do Artista” ed. 1898 pág 55/56).

 

E ainda, José Augusto França refere um Novo Teatro das Variedades, inaugurado no Rato em 1880 (cfr. José Augusto França “Lisboa História Física e Moral” ed. Livros Horizonte 2008 pag.613).

 

Mas voltemos à inauguração do atual edifício novamente chamado Teatro Variedades.

 

Num estudo intitulado precisamente “O Parque Mayer – Cinquenta Anos de Vida”, Albano Zink Negrão historia a inauguração desse Teatro. E logo se define uma “vocação revisteira”, chamemos-lhe assim, desse novo Variedades. O estudo referido sublinha então, e de certo modo sublima essa constante de espetáculo que, ao longo de dezenas de anos, sempre dominou o próprio Parque e os seus Teatros – e isto, não obstante a tradição cinematográfica do Capitólio e as temporadas de teatro declamado que lá tiveram lugar e que aqui já temos evocado, desde Maria Della Costa/ Sandro Polónio a Amélia Rey Colaço. Ou a menor atividade do então chamado (e hoje desaparecido) Teatro ABC ou a atividade do Teatro Maria Matos.

 

O Teatro Variedades foi, salvo raras exceções de espetáculos alternativos, um teatro de revista. Vejamos o que diz Zink Negrão:

 

«Em 8 de Julho de 1926, com a revista “Pó-de-Arroz”, abria as suas portas o “Variedades”, construído no local onde tinha existido um dos dois lagos dos Jardins Mayer. Sob o pseudónimo de “Troianos” se ocultaram os nomes dos autores da revista “Pó-de Arroz”, espetáculo em dois atos e dez quadros, com musica de Tomás del Negro e Raul Portela».

 

Cita um notável elenco, a começar pelo “grande Vasco Santana” assim mesmo referido. E acrescenta que neste espetáculo de estreia do Teatro, «o Compère não podia ter sido melhor: nem mais nem menos do que Augusto Costa, o popularíssimo “Costinha” que, na revista, dava pelo nome insólito de “Zé Pom-Pom”.» Estava-se em 1926! (ob. cit. pag.17).

 

E Marina Tavares Dias recorda outros espetáculos: «No futuro pertenceriam ao Variedades alguns dos maiores sucessos do Parque Mayer: “Arre Burro”, com Beatriz Costa, “Olaré quem Brinca?” com Mirita Casimiro, “Alto lá com o Charuto”, com Vasco Santana, etc., etc., etc.» (cfr. Marina Tavares Dias “Lisboa Desaparecida” vol. 9 Ed. Quimera 2007 pág. 74).

 

Ora bem: não se põe em dúvida a qualidade do elenco da revista de estreia do Teatro Variedades. Mas certamente se porá em dúvida a qualidade da revista em si. Luis Francisco Rebello cita a crítica de Avelino de Almeida publicada na época em “O Século”: «pela ausência de graça, pela pobreza de fantasia, pela falta de originalidade, pela monotonia que a caracteriza, uma das mais lastimosas coisas que no género ultimamente vira»!... (in ”História do Teatro de Revista em Portugal” vol. 2 – “Da República até Hoje”, Publicações D.. Quixote 1984 pág.84).

 

Na mesma obra, Rebello procede ao levantamento de muitas dezenas de revistas levadas à cena no Variedades, com sucesso e com qualidade, e de muitas centenas de autores, atores, encenadores, músicos, que as criaram e/ou nelas atuaram, e que ainda pude diretamente testemunhar e aplaudir.

 

Hoje, o Teatro Variedades continua encerrado, mas cercado por tapumes – o que mais justifica a pergunta que aqui se formula: o que se vai passar com o Teatro Variedades?

 

DUARTE IVO CRUZ